Religião e Saúde
Joanna de Ângelis
Freud informava que a Religião é, por si mesma, uma neurose compulsiva. Certamente a tese não pode ser generalizada, pois Jung, por sua vez, reconheceu a sua necessidade para um bom e saudável equilíbrio psicológico, antineurotizante, desde que constitua estímulo para o prosseguimento das lutas e para o trabalho de renovação interior do indivíduo.
O mesmo ocorre com a Ciência, que algumas personalidades podem utilizar-se de forma dogmática, facultando-se intolerância e fuga compulsiva em torno das incertezas que a existência proporciona.
Há uma necessidade de o indivíduo segurar-se em algo que o poupe da ansiedade, do medo, e a fé na Ciência, em face do seu conteúdo racional, pode tornar-se neurótica e compulsiva. Nem todos, porém, assim procedem, havendo a diferença entre os comportamentos saudáveis e os neuróticos.
É necessário examinar se a Religião mantém o indivíduo infantilizado, dependente dos seus postulados e receoso das lutas que deve travar, a fim de adquirir a sua maturidade psicológica, ou se tem um caráter libertador. Na segunda hipótese, os seus paradigmas e teses devem contribuir para a sua autoaceitação, para o reconhecimento dos próprios limites, contribuindo para que possa desenvolver todos os valores que lhe dormem latentes, especialmente ampliando-lhe a capacidade de amar ao seu próximo, a Natureza, a vida e a si mesmo...
A Religião não pode servir de fuga psicológica para o indivíduo poupar-se ao enfrentamento dos seus conflitos, dos processos de libertação do sofrimento, que pode ser modificado mediante a coragem de defrontá-los e trabalhá-los corajosamente com os instrumentos da realidade.
O amor a Deus deverá ser uma manifestação natural que emerge do Self e vitaliza o ser total, sem a preocupação de ser amado por Deus, o que pareceria um paradoxo, caso não o fosse amado, quer nele se acredite ou não.
Nessa constatação, nesse emergir do inconsciente profundo pessoal, a imagem de Deus todo Amor, porque saudável, elimina a necessidade masoquista do martírio, do sacrifício, do sofrimento, como, às vezes, demonstra-se para os outros, que somente se justificam quando as situações impõem o testemunho de fé, isto é, a perfeita coerência entre aquilo em que crê e expressa, e as defecções que lhe são impostas, tornando-se alguém decidido e sem medo ante essas conjunturas, sendo fiel ao comportamento íntimo e externo que adota.
Quando a Religião liberta do medo e da ansiedade, quando proporciona a coragem natural para o autoenfrentamento, torna-se terapêutica e geradora de saúde.
O homem livre busca Deus exatamente porque se encontra em liberdade, e deve avaliar se pode ser conceituado como um Espírito, Energia Suprema ou como um Fenômeno da Natureza, que se lhe torna uma necessidade compulsiva como ocorre com a dependência do álcool ou de outras substâncias químicas...
- Feita essa avaliação, e constatando-se que não se trata de um epifenômeno de procedência neurótica, mas de uma realidade na qual se acredita sem qualquer conflito, estabelece-se um vínculo emocional, religando-o a Deus e passando a amá-lo com espontaneidade.
A Religião, pelo seu sentido de condução ao infinito das origens, no passado, e pela proposta de incomensurável, em relação ao futuro, proporciona experiências de autoidentificação, que se pode considerar como uma verdadeira graça dessa Divindade.
Obviamente, a vinculação do ser a uma doutrina religiosa não o deve conduzir a qualquer manifestação de fanatismo, que representa o seu conflito projetado para o exterior, em face da insegurança e do medo do enfrentamento do Si-mesmo.
Através da Religião, o homem aprofunda reflexões e mergulha no seu inconsciente, fazendo que ressumem angústias e incertezas, animosidades e tormentos que podem ser enfrentados à luz da proposta da fé, e que são lentamente diluídos, portanto, eliminados, a serviço do bem-estar pessoal, que se instala lentamente, tornando-o cada vez mais livre e, portanto, mais feliz.
A instalação da fé dogmática - seus fundamentos essenciais -, mas racional, porque enfrenta os desafios com tranquilidade, abre espaço ao livre-arbítrio que, do ponto de vista psicológico, nem sempre é realmente livre, em face dos fatores emocionais e orgânicos que influenciam as decisões e as escolhas, os comportamentos e as observações de que se é objeto, variando, portanto, de acordo com as circunstâncias e os níveis de consciência nos quais cada um estagia.
Graças à opção religiosa, sem o abandono dos admiráveis suportes psicológicos e psicoterapêuticos, o binômio saúde-doença modifica-se para uma estrutura unitária, que é a saúde, na qual ocorrências transitórias de mal-estar, de enfermidade de qualquer natureza, não afetam o estado normal de equilíbrio e de harmonia psicológica.
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.
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