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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Divisionismo e Espiritismo

Divisionismo e Espiritismo

C.M. (Hermínio C. Miranda)

1ª publicação de Hermínio C. Miranda na Revista Reformador em Dez 1956.



É comum encontrarmos pessoas bem dotadas de inteligência e espírito inquisitivo que experimentam dificuldade em aceitar fatos convincentes e comprovados. Ainda há pouco estive lendo um livro escrito por um desses homens inteligentes e de grande cultura humanística. Ele procurava demonstrar, a certa altura, que não existem raças inferiores e, por conseguinte, o mito da superioridade racial é outra tolice. Sua argumentação se desenvolve por páginas e mais páginas, citando, entre outros, o caso do grande negro americano George Washington Carver, que dedicou sua vida e sua inteligência a serviço da Humanidade, descobrindo, além de outras coisas, cerca de 300 aplicações diferentes para um simples produto da terra: o amendoim. Milhares de exemplos semelhantes poderiam ser citados, pois a História está cheia deles. Em nosso próprio país encontraremos figuras como a de Machado de Assis, de origem humílima, doentio, mas iluminado pela fulguração do gênio. Encontraremos José do Patrocínio, dono daquela inteligência magnífica, que tanto fez pelos homens de sua raça. E quantos outros? Nem todos usam seus talentos na direção inequívoca do bem, mas a grande maioria realiza, de um modo ou de outro, as coisas que estavam em seu poder e em sua compreensão realizar. Muitos argumentos poderão ser alinhados contra a teoria absurda e desumana da desigualdade racial.

O argumento máximo, porém, e irrespondível, é fornecido pela Doutrina Espírita. O corpo — branco, negro ou amarelo — é mera vestimenta designada por Deus. Os Espíritos não têm cor, nem nacionalidade, nem raça, nem mesmo religião, tomada no estreito sentido com que nos acostumamos a equacionar esse problema. Sua nacionalidade é universal, sua raça emana do tronco único, da única fonte criadora que é Deus. Sua religião, antes de ser católica, protestante, judaica ou budista, é o culto supremo de Deus, a prática permanente da caridade, o exercício constante do amor ao próximo. 

*

Muitas vezes temos ouvido que todas as religiões são boas e todos os caminhos levam a Deus. Há mais verdade nisso do que se pensa. Mas há também alguma incompreensão. Todos os caminhos, de fato, levam a Deus, porque Ele está sempre no horizonte, no ponto de convergência de nossas vidas. Para Ele caminhamos todos. Só que uns levam mais tempo que outros. Uns conseguem enxergar mais claro as veredas e atravessam logo o espaço que os separa de Deus. Outros se perdem na noite do pecado e do crime e vagueiam desorientados pelos atalhos. Levam muito mais tempo, mas, afinal de contas, que é a fração de tempo de nossas existências terrenas comparada com o maravilhoso desdobramento da eternidade?

Todos esses caminhos estão abertos à nossa frente. Nenhuma religião pode arvorar-se em proprietária absoluta da verdade. O proprietário da verdade é Deus, e Ele jamais cuidou de fundar religiões. Nem mesmo Jesus Cristo, seu enviado especial à Terra, preocupou-se em fundar mais uma religião. Basta ler com atenção seus ensinamentos. Que dizia ele?

Que não vinha destruir ou reformar a lei antiga. Vinha reforçá-la, vinha abrir os olhos dos povos, vinha reavivar nos corações embotados o senso da verdadeira religiosidade.

No fundo de seu ser, o homem anseia por Deus, como a mais forte de suas necessidades espirituais. Não é o homem que bate no peito e diz "Senhor, Senhor" que irá para a glória, dizia o Cristo, mas todo aquele que ouve a palavra de Deus. Quanto aos ritos e fórmulas cabalísticas, não lhes interessavam, porque ele sabia, na luminosidade de seu espírito, que os homens estavam dando mais importância às fórmulas que ao conteúdo de sua religiosidade.

Curar no sábado? Pecado, diziam os ortodoxos. Colher trigo no sábado? Sacrilégio, resmungavam os hipócritas. Mas a palavra de Jesus foi clara e continua clara, dois mil anos depois: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.

Essa frase ainda possui o mesmo significado hoje. As fórmulas não importam, o que importa é a legitimidade do sentimento cristão. Então, deixa-se morrer a criatura humana porque é pecado curar no sábado?

Ninguém vai para o céu ou para o inferno pelo simples fato de ter praticado esta religião em lugar daquela outra. Na verdade, as grandes religiões do mundo fundamentam-se em princípios gerais, como a prática do bem, a existência de um ente supremo, o aperfeiçoamento moral e espiritual. Se despojarmos as grandes religiões de suas fórmulas e de seu processamento exterior, veremos que, fundamentalmente, elas têm surpreendentes semelhanças. Um estudo mais profundo talvez revelasse que emanam todas da mesma fonte suprema, embora sob inspiração às vezes diversa.

O certo seria — e lá chegaremos um dia — que as religiões vivessem em coexistência harmoniosa, completando-se, trabalhando pelo objetivo comum, que é o aperfeiçoamento do Espírito e sua preparação para novos e mais altos desígnios. Há uma tremenda perda de energia nessas questúnculas e polêmicas teológicas e filosóficas. 

Em vez de se combaterem inutilmente, em pura perda de energia, deveriam unir-se contra inimigos comuns a todas as religiões: o crime, o erro, a dissolução social, os transviamentos políticos, a cegueira espiritual, o ateísmo. Esse sim é o objetivo das religiões autênticas, dignas do legado espiritual que receberam.

A diferença entre elas é mais aparente que real. O que as torna antagônicas, por vezes, não é a força que as inspirou e as estabeleceu no plano da Humanidade, mas os homens que vieram depois e se confundiram em interpretações contraditórias da mesma verdade eterna. Quiseram explicar o que já estava explicado e, em explicações de explicações, nos perdemos pelos caminhos. 

A verdade absoluta está certamente mais na singeleza poética dos Evangelhos que nos rótulos eventualmente adotados pelas diversas interpretações que se chamam religiões.

Até lá, continuemos nosso trabalho silencioso, despretensioso, sem a preocupação de sermos os únicos proprietários da verdade, porque, do outro lado da vida, sabemos que vamos encontrar junto ao trono de Deus todos os bons católicos, os bons judeus, os bons maometanos, os bons protestantes. Lá estarão também os que em sua passagem pela Terra tiveram peles brancas, pretas, amarelas ou mestiças. Todos os bons Espíritos, enfim, purificados e evoluídos na prática do bem.

A casa do Senhor tem muitas mansões, dizia o Mestre. Haverá, certamente, lugar para todos os que legitimamente aspirarem à glória e trabalharem para obtê-la.

C.M. (Hermínio C. Miranda)
Revista Reformador Dez. 1956
1ª publicação de Hermínio C. Miranda

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Revista Reformador Dez. 1956

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Judas Redimido

Judas Redimido

Hermínio C. Miranda


A figura histórica e humana de Judas Iscariotes sempre exerceu grande fascinação sobre meu espírito. Se bem que, aqui e acolá, se encontre na literatura espírita referências ao infeliz Apóstolo, muito pouco se conhece de seu posterior desenvolvimento espiritual.

Sabemos, certamente, por meio de revelações esparsas, que Judas, condicionado como qualquer um de nós à sábia e inflexível lei cármica, aqui voltou muitas vezes para purgar suas falhas no sofrimento redentor. Estamos certos, também, de que o Cristo não o abandonou à sua própria sorte, nem pretendeu deixar que a pobre criatura, vítima de sua fraqueza, ficasse mergulhada na amargura sem remissão do sofrimento eterno.

Neste, como em tantos outros pontos, a Doutrina que os Espíritos nos ensinaram é muito mais humana e racional que as que aí estão, miudamente trabalhadas pelos encarnados. É muito mais reconfortante, e infinitamente mais de acordo com a moral cristã, sabermos que o Espírito do Iscariotes, depurado de suas imperfeições, evoluído moral e espiritualmente, está hoje entre os mais chegados colaboradores do Senhor, do que imaginá-lo como trágica ruína humana, batida pela miséria eterna.

Não seria Jesus, o gênio supremo da bondade e do amor, que deixaria seu antigo discípulo perder-se nas estradas agrestes da eterna agonia. Se nenhuma das ovelhas que o Pai lhe confiou se perderá, como poderia perder-se justamente uma daqueles que o acompanhou pelas rotas poeirentas da Terra Santa, que o ajudou, por algum tempo, a espalhar aos quatro ventos sua mensagem de amor e humildade, que, bem ou mal, sonhou com o Mestre os mesmos sonhos de universal fraternidade? Como poderia Jesus condenar o antigo companheiro que, num momento de fraqueza e invigilância, se deixou levar por enganadoras ilusões?

E, afinal de contas, se Jesus lhe perdoou e o ajudou a recuperar-se para a glória espiritual, quem somos nós, imperfeitíssimas criaturas, para arrastar na lama a figura do pobre irmão que fraquejou? Tal como diria o Mestre: aquele que não tiver culpa atire a primeira pedra.

Por outro lado, é preciso atentar nas circunstâncias daquele impensado gesto. Judas não foi o único, nem mesmo o maior responsável pela dolorosa tragédia da cruz. Foi mero instrumento de forças enceguecidas pelo ódio irracional. Vencido pela miragem do poder, com que lhe acenaram os inimigos do Cristo, ele se prestou ao lamentável e infeliz papel de indicar, à sanha destruidora dos algozes, aquele que o havia acolhido no círculo mais íntimo de seus seguidores.

Seu espírito era fraco e imaturo. Sonhava com uma fatia de poder, e se deixou fascinar. Era tão fraco que, consumado o gesto supremo da traição, não encontrou em si mesmo forças morais para enfrentar as consequências dramáticas do arrependimento. O tremendo remorso que experimentou foi grande demais para as forças do seu espírito, e, ainda uma vez, sucumbiu, escapando pela porta falsa do suicídio, numa tentativa última de fugir de si mesmo.

Mais uma vez se enganou o pobre e desorientado irmão. Libertara-se do envoltório físico, mas não se libertara de suas angústias. Muito pelo contrário: era justamente agora, com a percepção mais aguçada, que de fato sofria as insuportáveis aflições do remorso. E isso era o princípio da redenção. Milhares, milhões de vezes, teria que reviver a cena amarga do beijo portador da morte. Jamais haveria de esquecer o doce olhar do Profeta divino, ao recebê-lo como discípulo amigo e não como mensageiro da dor. Como tudo aquilo continuava vivo nos seus olhos! Sim, porque ainda via, sentia dores e sufocava e gemia e gritava desesperado. Estranho! Então não morrera? Como é que a corda ainda lhe apertava a garganta ressequida e os trinta dinheiros ainda lhe pesavam sobre o coração? Sentia-se oprimido, miserável, perdido, sozinho, num mundo escuro, desconhecido e sem limites. Acima daquela solidão opressiva, pairavam os olhos meigos, puros, sublimes, de Jesus. Só então pudera compreender toda a extensão insondável da sua falta.

Porque tocara a ele o infame papel de entregar o Mestre às mãos dos carrascos? Se Jesus tinha mesmo de ser destruído, como diziam as profecias, que fosse outro o delator, não ele, Judas... Mas, desgraçadamente, estava tudo feito e nem uma vírgula se alteraria.

*

Não nos foi dado ainda acompanhar, nos séculos que se seguiram, a trajetória espiritual do pobre irmão Judas Iscariotes. Não obstante, imaginamos quanto sofreu e lutou para novamente poder fitar, com tranquila humildade e reconhecimento, os olhos daquele que, certa vez, ajudara a crucificar.

Hoje, o antigo Apóstolo retomou seu lugar entre os seguidores mais próximos do Cristo. Nas profundezas de seu coração deve sentir-se amplamente recompensado de todas as dores que sofreu.

Algum dia, talvez permitam as entidades superiores que se revele ao mundo essa história magnífica, para que, por meio de todo o seu poder de sugestão, saibam as criaturas que mesmo a falta mais negra não precipita o Espírito na desgraça eterna, mas apenas retarda sua evolução para a Pátria da Luz. Deus não seria Deus se, pela falta cometida neste átimo a que chamamos vida, fosse preciso viver uma eternidade de angústias e sofrimentos. Já pensou o leitor no que pode ser a eternidade? O escritor Hendrik Van Loon, para dar a ideia das idades que se contam pelos milhões de anos, imaginou uma grande, imensa rocha plantada no mundo. Cada dez mil anos, um pássaro vem e roça o bico contra a rocha. Quando o bico do pássaro tiver consumido a pedra, ter-se-á passado um instante da eternidade. Comparado com isso, que é a vida humana? Ainda ontem éramos crianças; nossos pais eram jovens. Hoje temos filhos, amanhã teremos netos. Como foi mesmo que passou o tempo? Assim, Deus não criaria almas, frágeis na sua ignorância, para depois esmagá-las impiedosamente, com o castigo eterno, pela falta ocasional. Se nos deu o livre-arbítrio, acrescentou também a possibilidade de reparação, sem o que não poderíamos jamais alcançar a glória de poder colaborar em sua obra portentosa.

Já é tempo de trabalhar pela reabilitação da figura do antigo Iscariotes. É necessário remover de sua imagem histórica a superada mancha da traição que pesa sobre sua memória. Ele não foi o primeiro ser humano a errar nem será o último. Também não foi o primeiro a resgatar seu erro, pagando até o último ceitil, como diz a Lei, para retomar a caminhada para o Alto.

Em teu próximo instante de tranquilidade espiritual, leitor amigo, levanta teu coração e oferece a Jesus as vibrações de tua alegria por ter estendido Suas mãos generosas ao antigo apóstolo transviado. E pede ao irmão mais velho, Judas Iscariotes, que nos ajude, por seu turno, a encontrar o caminho da redenção espiritual, que nos libertará da servidão ao errо. Ele muito sofreu para conquistar a sua paz e certamente saberá como ajudar-nos a encontrar a nossa. Também temos pesados débitos a resgatar. Não entregamos Jesus aos seus algozes; vezes sem conta, porém, temos crucificado sua memória, vendido seus princípios, falhado no cumprimento da moral que Ele pregou. Não estamos, pois, em condições de atirar coisa alguma à nobre face de Judas, o redimido.

Hermínio C. Miranda
Rev. Reformador Mar. 1959

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Artigo original na Revista Reformador Mar. 1959.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Processo Reencarnatório

Processo Reencarnatório

Hermínio C. Miranda


001 - Na sua opinião, considerando os livros básicos e a literatura auxiliar, a Doutrina Espírita tem esgotado as informações sobre o processo reencarnatório ou, na medida em que o homem se espiritualize, informações adicionais serão concedidas?
Como sistema orgânico de conhecimento, o Espiritismo é uma doutrina evolutiva, atenta à dinâmica da expansão cultural da humanidade. Vamos reler um parágrafo da Introdução que Kardec escreveu para O Evangelho Segundo o Espiritismo (Autoridade da Doutrina Espírita, pg. 31, 57a. edição FEB): " Com extrema sabedoria procedem os Espíritos superiores em suas revelações. Não atacam as grandes questões da Doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência se mostra apta a compreender a verdade de ordem mais elevada e quanto as circunstâncias se revelam propícias à emissão de uma ideia nova. Por isso é que logo de princípio não disseram tudo e tudo ainda hoje não disseram, jamais cedendo à impaciência dos muito afoitos, que querem os frutos antes de estarem maduros." O Livro dos Espíritos constitui exemplo disso no sentido de que notamos na sua elaboração o cuidado de não dizer mais do que o necessário e conveniente para a época e de compactar informações e ensinamentos num mínimo possível de texto. Em algumas respostas, a linguagem é quase telegráfica, sem detalhamentos, considerados, talvez, prematuros ou inoportunos. O que, de certa forma, parece indicar reserva de espaço para futuras ampliações, à medida que o conhecimento fosse progredindo. Não creio, por isso, que a temática do processo reencarnatório tenha sido esgotada no contexto das obras básicas e nem mesmo nas subsequentes. André Luiz, por exemplo, ampliou consideravelmente tais informações. Penso que ainda temos muito que aprender com os instrutores espirituais sobre esse e tantos outros assuntos.
002 - Fiz um aborto aos 21 anos e depois tive um filho aos 27. Existe possibilidade deste espírito ser o mesmo que foi abortado anteriormente?
Entendo perfeitamente possível que a criança que você teve aos 27 anos seja a mesma entidade espiritual, cujo corpo fora abortado cerca de seis anos antes.
003 - Na reencarnação sob processo expiatório, ocorre às vezes uma vultosa anomalia cerebral. De que forma há para esse Espírito aproveitamento da reencarnação? Há algum tipo de percepção?
A reencarnação constitui sempre valiosa oportunidade de progresso espiritual. O corpo físico pode apresentar-se severamente afetado por anomalias inibidoras, mas a entidade espiritual está presente e atenta ao que se passa. Em nosso trabalho mediúnico, testemunhamos um caso desses. Sugiro que você leia o capítulo 19 - Filhos deficientes, de meu livro "Nossos Filhos são Espíritos", que parece responder à sua pergunta. Leia, também, "Autismo - uma leitura espiritual", ainda que este não seja o caso específico que você tem em mente.
004 - O Sr. poderia comentar as relações entre a descoberta do código genético humano e o processo reencarnatório?
Por exemplo, se muitas doenças físicas poderão ser evitadas, como ficam as reencarnações de Espíritos que têm como sua fase evolutiva o ultrapassar justamente doenças físicas? Penso que é cedo para se falar em interferências no código genético que resultem no cancelamento puro e simples de deficiências físicas ou mentais, que, como sabemos, tem sérias implicações cármicas. O projeto genoma, recentemente divulgado com enorme espalhafato publicitário, embora represente um gigantesco passo à frente no entendimento da biologia humana, ainda tem muito trabalho pela frente, como reconhecem os próprios cientistas. São mais de 3 bilhões as combinações possíveis no ser humano. Por outro lado, as leis divinas não se sujeitam a manipulações daqueles que se propõem a "brincar de Deus". Sugiro que você leia, se conseguir localizar, um pequeno artigo meu intitulado "Uma ética para a genética", publicado em Reformador em junho de 1971, há quase trinta anos, portanto. Será útil também, se ainda não o fez, a leitura do Time, de 3 de julho de 2000. Diz-se ali, entre outras coisas, que dois grupos empenharam-se em decifrar as "letras bioquímicas" do DNA humano e as instruções codificadas para construir e operar um ser humano totalmente funcional. Em outras palavras, ninguém, nesse projeto gigantesco, está pensando no espírito e nem nas leis cármicas. E muito menos, em Deus. Quanto a mim, fico com Deus e não tenho a pretensão de brincar com ele. Não sou, contudo, um especialista no assunto. Sugiro que você leia "O projeto genoma", de autoria da Dra. Marlene Nobre, no recente Boletim SEI, da Capemi, de 29-07-2000. Poderá, para isso, acessar a Home page: http://www.lfc.org.br
005 - Na sua opinião, como se dá o processo de ligação do fluido vital ente o perispírito e o corpo durante o processo reencarnatório?
Não me sinto preparado para responder à sua pergunta. Em outras palavras: Não sei. Acho, até, que é muito bom a gente ter tantas ignorâncias para transformar um dia em conhecimento. Isso indica que a vida será sempre um desafio e
nunca uma chatice.
006 - Quanto tempo, em média, o espírito permanece na pátria espiritual, antes de reencarnar? Meu pai faleceu há 5 anos; quando eu desencarnar me encontrarei com ele?
Cada caso é um caso. Não há uma periodicidade rígida de tantos em tantos anos, entre uma encarnação e outra. O Prontuário da Obra de Allan Kardec, do erudito confrade e pesquisador Deoclécio de Demócrito, indica as seguintes referências sobre o assunto: O Evangelho Segundo o Espiritismo n. 16, p. 31; Céu e Inferno, 2a. parte, cap. 4, p.275 e cap. 5, n. 39, p. 309; Obras Póstumas, Parágrafo. 3, n. 28, p. 39. Há, também, uma pesquisa do amigo dr. Hernani Guimarães Andrade, em artigo que não tenho como localizar. Hernani chega à conclusão de que, em vista do número muito maior de habitantes da Terra, o intervalo entre uma encarnação e outra diminuiu nos últimos tempos. Ou seja, a "fila" era muito maior quando havia pouca gente encarnada por aqui... Certamente você se encontrará com a entidade que foi seu pai, bem como com outros seres que se acham ligados a você, nesta ou em existências passadas. É o que costuma acontecer. Leia, a respeito, a Questão 160, de O Livro dos Espíritos.
007 - Gostaria de saber um pouco mais sobre os departamentos de reencarnação do plano espiritual, como funcionam e quais os seus objetivos.
Esta é outra pergunta que não sei responder. Você encontrará as informações que deseja na obra de André Luiz. Esse autor espiritual estudou a questão com entidades de grande experiência e conhecimento.
008 - Durante o período da gestação, é possível que a mulher seja obsidiada? Se o processo obsessivo já existir, o obsessor é afastado?
Sim, a mulher pode ser obsidiada antes, durante e depois da gestação. A gravidez, por si mesma, não a livra do processo obsessivo, nem leva a entidade perseguidora a afastar-se automaticamente. Em muitos casos a gravidez pode até suscitar ou agravar obsessões, quando entidades desorientadas e vingativas procuram interromper ou perturbar o processo reencarnatório, por ter problemas com a mãe, com a criança ou com ambos. A questão é complexa e os casos devem ser tratados com serenidade, compreensão, amor fraterno e prece, em grupos confiáveis que se dediquem à tarefa dita de desobsessão. Não com o objetivo de nos livrarmos da entidade perturbadora, mas para que nos pacifiquemos todos, a fim de seguirmos todos juntos e em paz os caminhos evolutivos. "Reconcilia-te com teu adversário", ensinou o Cristo, "enquanto estás a caminho com ele."
009 - Gostei imensamente do seu livro "Nossos filhos são Espíritos"; gostaria de sua análise sobre nossa responsabilidade no processo de resgate com relação à vida conjugal, e como isto influencia a reencarnação daqueles que devem vir como filhos.
O lar é o nosso laboratório de trabalho, pesquisa, estudo e aprendizado, bem como um ponto de reencontro. A família representa, usualmente, a melhor combinação possível de situações que levem os seres que a compõem à solução dos problemas que os afligem. É uma preciosa oportunidade que não deve ser desperdiçada, dado que a felicidade e a paz futuras dependem do que estamos fazendo hoje. As entidades que se reencarnam como nossos filhos e filhas constituem parte integrante do projeto elaborado para a vida terrena e precisam contar conosco para as tarefas que se programaram para realizar junto de nós. Releia o capítulo 21 - "A menina que chorava na calçada", no livro "Nossos Filhos são Espíritos". Leia, ainda, o capítulo que escrevi para o livro "O Espiritismo e os Problemas Humanos", do querido amigo e confrade Deolindo Amorim. É uma edição da USE, São Paulo.
010 - É possível um espírito reencarnar em pouco tempo e dentro da mesma família onde viveu a última encarnação?
É possível, sim, a uma entidade reencarnar-se na mesma família após alguma permanência na dimensão póstuma. A literatura espírita tem documentado numerosos e convincentes casos dessa natureza. Em "Twenty Cases Suggestive of Reincarnation", o professor Ian Stevenson apresenta (que me lembre) pelo menos dois. Um deles passou-se na geladas regiões da América do Norte, onde uma entidade reencarnou-se como filho de seu próprio filho. Ou seja, ele nasceu como neto (ou avô) de si mesmo e seus antigos filhos e filhas passaram a ser tios e tias na nova existência. Ele os reconheceu como reconheceu também seu antigo relógio de bolso que a família conservara. O outro caso narrado pelo dr. Stevenson nesse livro passou-se no Brasil, na família do professor Francisco Waldomiro Lorenz, no Rio Grande do Sul. Há uma tradução desse livro em português, mas não tenho comigo os dados. Se bem me lembro, chama-se Vinte Casos Que Sugerem a Reencarnação (Ou Sugestivos de Reencarnação).
011 - Quando um espírito está se preparando para reencarnar, ele pode se comunicar numa reunião mediúnica? Em caso afirmativo, como se dá esse processo?
A entidade que se prepara para reencarnar-se pode, sim, manifestar-se mediunicamente. Tivemos um caso desses, que ficou narrado em meu livro Diálogo com as Sombras (Edição FEB). Mesmo depois de iniciado o processo reencarnatório, a entidade goza de relativa liberdade. Como, aliás, acontece também com os encarnados, que se manifestam, segundo a Codificação, como espíritos, em estado de desdobramento. Veja, nesta mesma entrevista, os comentários acerca da Pergunta número 19.
012 - Caro Hermínio, temos uma dúvida que até a presente data não conseguimos elucidação. No livro Evolução em Dois Mundos (André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira), no capítulo sobre Simbiose Espiritual, encontramos: "Ninguém necessita, portanto, aguardar reencarnações futuras, entretecidas de dor e lágrimas, em ligações expiatórias, para diligenciar a paz com os inimigos trazidos do pretérito, porque, pelo devotamento ao próximo e pela humildade realmente praticada e sentida, é possível valorizar nossa prece, atraindo simpatias valiosas, com intervenções providenciais, em nosso favor." Nossa questão: Pode um Espírito em uma única reencarnação resgatar todos os seus débitos do passado e anular a vingança de seus inimigos espirituais, através do exemplo do amor puro aos semelhantes ?
Parece-me que a pergunta deve ser reformulada. André Luiz está dizendo que não é necessário esperar por reencarnações futuras para nos reconciliarmos com nossos adversários ou com aqueles a quem prejudicamos; podemos começar desde já a tarefa, com a nossa própria reeducação, o hábito da prece, a prática do amor ao próximo, o reaprendizado da vida, enfim. Ele não diz que estaremos, dessa maneira, resgatando numa só existência, todos os erros cometidos. Temos testemunhado exemplos vivos disso, em nossos trabalhos mediúnicos, no decorrer de quase 40 anos. Entidades indignadas que conseguimos resgatar com paciente argumentação, compreensão e amor, tinham ligações conflituosas com membros do nosso próprio grupo. Não foi preciso, nesses casos, esperar futuras existências de atrito e sofrimento, para trabalhar nossas divergências. Em outras palavras: "adiantamos o serviço" da reconciliação, que teria de ser feito mais tarde, em futuras reencarnações.
013 - Como se dão as reencarnações regidas pelo automatismo? Esta situação abrange os casos de reencarnação forçada que os espíritos de pouca luz unidos em falanges impõem a seus subjugados?
Há reencarnações com um componente de compulsoriedade, obviamente em benefício da entidade reencarnante. O livro Prontuário da Obra de Allan Kardec, de Deoclécio de Demócrito, recomenda ler, sobre este aspecto, a Questão 262, em O Livro dos Espíritos. Recorro, ainda, ao Indicador Espírita, compilado por outro meticuloso e competente confrade, João Gonçalves. Veja o que contém o verbete número 2155: "Reencarnações se processam muita vez sem qualquer consulta aos que necessitam segregação em certas lutas no plano físico, qual enfermos e criminosos que, pela própria condição ou conduta, perderam temporariamente a faculdade de resolver quanto à sorte que lhes convém. Incapazes de eleger o caminho de reajuste, são decididamente internados na cela física como doentes isolados sob assistência precisa. Vemo-los, assim, repontando de lares faustosos ou paupérrimos, ao lado daqueles que lhe devem abnegação e carinho, contrariando por vezes até certo a hereditariedade, por representarem dolorosas exceções no caminho normal." São indicados, nesse verbete, as seguintes fontes de consulta: Evolução em Dois Mundos, Entre a Terra e o Céu, Missionários da Luz, Nosso Lar, No Mundo Maior, Obreiros da Vida Eterna, todos de André Luiz e mais: Autodescobrimento - uma busca interior, de Joanna de Ângelis e ainda, As Mil Faces da Realidade Espiritual, de Hermínio C. Miranda, bem como Nascer e Renascer (Emmanuel) e, finalmente, O Problema do Ser, de Léon Denis. Sobre a segunda parte de sua pergunta, lembro meu artigo "O médium do Anticristo" (Reformador, março e abril de 1976), no qual é examinada a hipótese de reencarnações de um mesmo grupo de entidades em torno de Adolf Hitler.
014 - Gostaria que o Sr. analisasse de forma sintética a presença da fatalidade, do destino e da lei de causa e efeito no processo reencarnatório. Afinal, nem todos os que reencarnam vêm com uma programação reencarnatória? Quando esta programação existe, pode ser encarada como determinismo? Ou alguns aspectos podem ser modificados?
A questão é ampla demais para uma resposta compacta e nem me considero suficientemente preparado para fazê-lo. Não atribuo, contudo, grande importância e conteúdo a palavras como fatalidade, destino, acaso. O conceito dominante aqui é o da lei de causa e efeito ou carma. É evidente que todos nós trazemos para a vida na carne uma programação de trabalho, mas tal programa não é determinista, porque a lei sempre leva em conta o exercício do livre arbítrio e a consequente responsabilidade por tudo quanto fazemos ou deixamos de fazer. Podemos ou não cumprir as tarefas programadas na espiritualidade antes da reencarnação. Daí, tantos desvios e fracassos, que muito teremos a lamentar ao regressar à dimensão espiritual e verificar que pouco ou nada realizamos do que estava planejado. Pior ainda: muitas vezes, fizemos justamente aquilo que não era para fazer. Costumo dizer que o único determinismo a que estamos irrevogavelmente sujeitos é o de chegar aos mais elevados patamares da perfeição espiritual. Não fomos criados para o fracasso, o sofrimento eterno, a prática permanente do erro. Trazemos um plano geral, não um rígido conjunto de ordens que desçam aos detalhes dos detalhes. É como se tivéssemos que ir de determinado lugar a outro, não importando muito que caminhos vamos percorrer, nem que tipo de condução iremos usar. Se preferimos fazer uma viagem mais longa, mais difícil, mais demorada e sofrida, passando por precipícios, desertos e espinheiros, o problema é nosso. Ninguém nos obrigará necessariamente a fazer as coisas desta ou daquela maneira. A respeito do descumprimento da programação reencarnatória, sugiro que você leia "As Sete Vidas de Fénelon" (Publicações Lachâtre).
015 - Qual sua opinião sobre o processo reencarnatório entre os animais? Na passagem do animal para o humano como surge a reencarnação inicialmente? Há algum processo de aprimoramento do princípio espiritual para reencarnar como espírito?
Não conheço suficientemente o assunto. Sugiro que você leia o livro da dra. Irvênia Prada, competente veterinária, com excelente formação doutrinária espírita. O livro intitula-se A Questão Espiritual dos Animais e é uma edição da Folha Espírita, São Paulo.
016 - O Sr. poderia comentar sobre a situação do perispírito durante o processo reencarnatório? Há perda do perispírito no processo reencarnatório? Como podemos compreender o fenômeno da "redução perispiritual", da qual nos fala o espírito André Luiz?
O perispírito é um "modelo organizador biológico" e traz consigo a programação daquilo que deve ser projetado no corpo físico. Não encontro referências à "perda de perispírito" no texto, citado (Entre a Terra e o Céu, p. 179). O que está ali escrito é que há "redução volumétrica do veículo sutil pela diminuição dos espaços intermoleculares." Ou seja, o perispírito compactou-se, mantendo-se, porém, integral, sem nenhuma perda de função.
017 - Qual a participação da espiritualidade e do mentor do reencarnante, no retorno do espírito à carne?
Pelo que sabemos, mentores e amigos espirituais participam da elaboração de nossos planos reencarnatórios, ajudando-nos na escolha das prioridades que nos convêm programar segundo nossas possibilidades e limitações. Mais uma vez, recomendo a leitura de André Luiz para melhor entendimento de tais aspectos.
018 - Na sua opinião, quais benefícios reais o espírito obtém com a reencarnação? Ele não poderia evoluir apenas na erraticidade?
Sobre o objetivo da encarnação, leia a Questão 132, de O Livro dos Espíritos. Quanto ao progresso na erraticidade, diz a Questão 230: "(O Espírito) pode melhorar-se muito (na erraticidade) tais sejam o desejo que tenha de consegui-lo. Todavia, na existência corporal é que põe em prática as ideia que adquiriu." Veja, ainda, a Questão 330 a).: "Pergunta: Então, a reencarnação é uma necessidade da vida espírita, como a morte o é da vida espiritual? Reposta: Certamente; assim é."
019 - Allan Kardec, em A Gênese, postula que a consciência espiritual vai diminuindo com a proximidade do parto, sendo que no nascimento o espírito estaria completamente inconsciente. No seu livro "Nossos filhos são Espíritos", o Sr. transcreve narrativas, obtidas através de regressão, que algumas pessoas fazem sobre a situação na hora do nascimento. Como conciliar estas duas informações?
É pertinente a observação da leitora (ou leitor). No texto que escreveu para A Gênese, Kardec refere-se ao estado de perturbação do espírito a partir do momento em que é "apanhado pelo laço fluídico" que o prende ao corpo físico em início de formação. Prossegue o Codificador, declarando que esse estado de perturbação intensifica-se durante a gestação, "perdendo o Espírito, nos últimos momentos (quando começam os trabalhos de parto) toda a consciência de si próprio, de sorte que jamais presencia o seu nascimento. Quando a criança respira, começa o Espírito a recobrar as faculdades, que se desenvolvem à proporção que se formam e consolidam os órgãos que lhe hão de servir às manifestações." Na Questão 380, os Espíritos se haviam manifestado de modo semelhante, ao dizerem que "A perturbação que o ato da encarnação produz no Espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento. Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos." De qualquer modo, as técnicas regressivas e as regressões espontâneas da memória não confirmam generalizado estado de perturbação na entidade reencarnante, ao mesmo tempo em que demonstram nela perfeita consciência de si mesma durante a gravidez e no momento do parto. Alguma modalidade de consciência, portanto, está funcionando nessas fases. No capítulo 48 de "Nosso Lar", uma entidade reencarnada ainda na fase infantil, no berço, manifesta-se com sua personalidade (reencarnação) anterior, aos familiares que deixara ao morrer como Ricardo. Em tarefas de nosso grupo mediúnico, conhecemos uma entidade recém-encarnada era ainda um bebê, que não tinha controle sobre o corpo físico e, por conseguinte, nenhuma condição de se comunicar com a família. No entanto, revelou-se lúcido e consciente de sua situação no encontro mantido, em
desdobramento, com nossos amigos espirituais. O caso está relatado no capítulo 19 - Filhos deficientes, de "Nossos Filhos são Espíritos". Ignoro, pois, em que condições ocorre o estado de perturbação a que se referem os Espíritos.

Tema: Processo reencarnatório
Entrevistado: Hermínio Correa de Miranda
Período: 26 de junho a 9 de julho de 2000
CVDEE - Centro Virtual de Divulgação e Estudo do Espiritismo

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Declaração de Origem

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Esfinge, as Pirâmides e as Estrelas

A Esfinge, as Pirâmides e as Estrelas

A Mensagem de Pedra e Luz

Herminio C. Miranda


É grande o fascínio que o Antigo Egito exerce sobre a imaginação de tanta gente, a minha inclusive. Encantam-me seus mistérios, as histórias dos seus deuses e faraós, a magia do Rio Nilo, os ciclópicos monumentos, o traço leve, preciso e elegante das figuras humanas e dos hieróglifos, o papiro, os segredos da mumificação, a beleza das joias que desenharam e com as quais abarrotaram os túmulos, a profundeza do conhecimento dos grandes iniciados. Eles sabiam de coisas como astronomia, matemática e geografia e outras mais que somente agora a cultura contemporânea começa timidamente a recuperar, como sobrevivência do ser, comunicabilidade com os mortos, reencarnação, regressão de memória, terapias alternativas.

Em 1977, após quarenta anos ininterruptos de trabalho, juntei dois períodos de férias e uns tantos dólares e fomos - minha mulher e eu - perambular pelo mundo. O Egito não poderia faltar nesse roteiro. Eis por que numa ensolarada manhã acordei num hotel do Cairo, corri as cortinas do apartamento, localizado no último andar, e me coloquei à janela panorâmica para absorver o impacto da visão das pirâmides ao longe, iluminadas pelas primeiras luzes do dia. Pouco depois, desci para o encontro com o Nilo, que passava ali mesmo, ao lado do hotel. Queria vê-lo de perto. Não era fácil o acesso, por causa das construções que o margeiam, mas acabei dando com as instalações de um clube, onde me atendeu um simpático jovem, bem falante em bom inglês britânico. Expliquei-lhe meu desejo de ver o rio.

Mandou-me entrar, com um gesto generoso e disse: "It's all yours!" (E todo seu!).

Os dias ali passados foram um encantamento só. Num deles, visitamos as pirâmides e a esfinge pela manhã, almoçamos ao pé do vulto gigantesco da pirâmide maior - eu não fazia idéia (ou não me lembrava?) de como era grande! Voltamos à noite, paradoxalmente gelada do deserto, para assistir ao espetáculo "Son et lumière", ao ar livre, enrolados em cobertores, tremendo de frio (ou seria emoção? ou ambos?)

Concluíra de pouco meu livro A Memória e o Tempo, que começa com uma regressão de memória, na qual Aiksa, uma remota vestal reencarnada no Brasil, fala do processo da iniciação. Queria ver tudo. Subimos pelos estreitos corredores internos da pirâmide de Quéops, até a chamada Câmara do Rei. Lá estava o despojado "sarcófago" de granito, aberto e solitário. Dissera-nos Aiksa que ali o candidato aprovado nos testes iniciais era submetido ao sono mágico da regressão para saber "tudo que já fora"

Aquilo não era, pois, uma câmara mortuária e sim um recinto sagrado que se incorporava ao sistema de aprendizado e de reverência perante a vida. Por isso, ao entrar no longo e escuro corredor, lá em baixo, pedira licença aos "donos da casa", pois aqueles locais continuam imantados pela vibração e pela presença de entidades que velam pela mensagem dos milênios.

Aliás, essa presença pode ser assustadora ou acolhedora. Paul Brunton, escritor e místico britânico, testemunhou ambos os aspectos, quando resolveu passar uma noite lá dentro. Você pode ler sua narrativa e suas experiências no livro O Egito Secreto.

O espantoso conjunto arquitetônico constitui um documento matemático, astronômico, profético, científico e iniciático; não são meros túmulos faraônicos, como a gente leu nos livros didáticos.

Foi, pois, com mente e alma em expectativa que apanhei para ler o livro de Hancock e Bauval. Eles questionam velhos e estratificados conceitos históricos e enfrentam desafios com uma ousada releitura daqueles tempos. Sentem-se impelidos - confessadamente, às vezes, por mecanismos intuitivos - a prestar mais atenção a aspectos da civilização egípcia que ainda não foram devidamente analisados ou adequadamente interpretados. Um deles é dominante: a cultura que produziu a fantástica era dos faraós não resulta de um processo evolutivo detectável, que se tenha construído passo a passo ao longo de séculos ou milênios. Ao contrário, a civilização que criou as pirâmides e a esfinge, salta de repente, das sombras pré-históricas para uma tecnologia capaz de conceber e construir a enigmática e admirável mensagem de pedra.

Ali estão quinze milhões de toneladas em blocos de até 200 toneladas, aparelhados e colocados com precisão milimétrica no exato local projetado para cada um deles. Exemplo: a Grande Pirâmide foi situada de tal forma, que seu eixo norte-sul, equador-polo norte, tem uma variação de apenas 3/16 de um grau em relação ao Norte verdadeiro. Mais preciso - informam os autores - do que o meridiano de Greenwich, em Londres, onde o afastamento é de 9/16 de um grau!

Consultados a respeito, experimentados profissionais da construção civil, servidos pela poderosa parafernália da tecnologia moderna, não conseguem imaginar como é que os blocos de pedra foram levados às suas posições.

Há quem proponha a hipótese de que tenham sido arrastados rampa acima. Feitos os cálculos, os autores entendem ser isso impossível, dado que o número de homens necessários para arrastar pedras daquele tamanho e peso precisaria de espaços tecnicamente impraticáveis nas rampas. Discorrendo, em transe, sobre o assunto, o sensitivo americano Edgar Cayce disse que os construtores das pirâmides conheciam processos pelos quais as gigantescas pedras "flutuavam" no ar. Teriam tecnologia capaz de neutralizar, sob controle, o empuxo da gravidade?

Hancock e Bauval revelam coisas ainda mais espantosas. Trabalhando com modernos programas de computador, descobriram que o conjunto pirâmides-esfinge-constelações zodiacais é, em si mesmo, uma espécie de computador que traz nas sua "memórias" informações antes impensáveis.

As pirâmides e a esfinge reproduzem no solo egípcio uma configuração cósmica que se reporta a cerca de 10.500 anos antes do Cristo, embora os autores estejam de acordo, em princípio, com que as pirâmides tenham sido de fato construídas aí por volta do ano 2.500 a.C.

Outro achado curioso: as três pirâmides maiores reproduzem a posição das estrelas que formam o cinturão da constelação do Orion. Não deve ser mera coincidência o fato de que essa constelação é a que mais se assemelha a uma figura humana, vestida com uma espécie de toga curta.

Os estranhos canais entalhados, com óbvia competência, através da massa de pedra, a partir da Câmara do Rei e da Câmara da Rainha, não seriam, no entender dos autores, aberturas destinadas à ventilação, como até agora se pensou, e sim "lunetas" telescópicas, dirigidas com impressionante precisão, a determinadas constelações em momentos cósmicos também calculados com idêntica exatidão.

O problema é que tais especulações, no mínimo instigantes, levantam mais perguntas do que respondem às que têm desafiado a argúcia dos pesquisadores há milhares de anos.

Por que se teria construído uma obra tão difícil, durável, complexa e enigmática como aquela? Por certo, não foi somente para guardar restos mortais dos faraós, suas esposas, filhos, ministros e áulicos. O conjunto arquitetônico revela sutis implicações cósmicas e contém uma dramática mensagem dirigida a um futuro que se mede em milênios. Os autores do livro não descartam a probabilidade de que o recado de pedra tenha também muito a ver com o período de transição que estamos vivendo, ao passar, no círculo zodiacal, de uma era para outra.

Quem teria planejado tudo isso? Qual o verdadeiro sentido dessa mensagem? "Será - pergunta o texto da quarta capa do livro - que a humanidade tem um encontro marcado com o destino, não no futuro, mas no passado distante, em tempo e local determinados com precisão?" Em suma, o que querem dizer as pirâmides e a esfinge de Gizé?

Ao que suspeitam os pesquisadores - que prometeram um novo livro, em prosseguimento às suas especulações - a mensagem codificada nos enigmáticos monumentos egípcios tem um inesperado conteúdo espiritual.

Teria chegado a hora de revelar os segredos que uma desconhecida civilização escreveu na pedra e nas estrelas, aparentemente, para ser decifrada somente a partir do momento em que a tecnologia do futuro distante - que ora estamos vivendo - dispusesse de computadores suficientemente preparados para "ler" a memória do imenso e sofisticado computador instalado no deserto de Gizé.

Hancock e Bauval estão convencidos de que a mensagem tem algo de dramática importância a dizer sobre "a vida eterna, envolvida em um completo sistema religioso e espiritual que os antigos egípcios herdaram de desconhecidos predecessores". (p.269) Em outras palavras, trata-se de uma mensagem sobre a imortalidade do ser, sobrevivência, reencarnação, comunicabilidade entre "vivos" e "mortos". Sobre a realidade espiritual, enfim.

Ao que tudo indica, os conhecimentos que permitiram a elaboração desse grandioso projeto podem ter sido transmitidos por uma civilização avançadíssima que antecedeu a era dos faraós ou - preferencialmente, a meu ver, diante do que os autores informam - recebidos mediunicamente, de elevados seres espirituais profundamente interessados nos destinos do nosso planeta e de seus habitantes. Isto, porque antigos textos, ora reconsultados, mencionam instruções preservadas em livros que "desceram dos céus" e referem-se a seus autores como seres iluminados, dotados de imprescrutável sabedoria. Não é à toa que Toth, lendário deus egípcio, também seja conhecido como o escriba dos deuses.

É inegável que o livro contém aspectos especulativos, como qualquer estudo que proponha ousadas hipóteses ou renovadoras teorias interpretativas, mas não se detectam nele as tonalidades do misticismo fantasista, nem do profetismo desvairado. Pelo contrário, os autores consideram com reservas certas informações colhidas nos pronunciamentos mediúnicos de Edgar Cayce, bem como a interferência das organizações Cayce, de Virginia Beach, nas investigações em torno das pirâmides e da esfinge.

Bauval é engenheiro civil, com longos anos de estudo de astronomia e dos enigmas das pirâmides. Hancock é experimentado jornalista, ex-correspondente do prestigioso The Economist, de Londres. É autor de vários livros de sucesso, como Fingerprints of the Gods, The Sign and the Seal e Lords of Poverty. Em parceria com Bauval escreveu outro livro bem recebido - The Orion Mystery. O exemplar de The Message of the Sphinx, que me serviu à elaboração deste texto, é da 5ª edição.

Portanto, se é que Hancock e Bauval estão certos, o computador cósmico constituído pelas pirâmides, a esfinge e certas constelações, está "falando" de Espiritismo. E, neste caso, estaria igualmente certa a opinião de John Anthony West, citada pelos autores (p. 211), segundo a qual, a civilização egípcia é um legado, entregue pronto e acabado e não a resultante de um processo evolutivo liderado pelos faraós. Ou seja, uma desconhecida geração de sábios ou um grupo de entidades de elevada condição evolutiva teria concebido e deixado de herança toda a sabedoria que se transcreveu nos fantásticos monumentos de pedra em Gizé.

Prometo voltar ao assunto, tão logo consiga um exemplar do livro que dará sequência ao estudo. Estou sabendo pela Internet que a obra ainda não foi publicada.

Hermínio C. Miranda do livro:
Visão Espírita para o Terceiro Milênio / Autores diversos
Bibliografia:

HANCOCK, Graham e BAUVAL, Robert: The Mensage of the Sphinx - A quest for the hidden legacy of mankind. Three Rivers Press, 1996, New York.
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Muitas vidas de Hermínio C. Miranda

Muitas vidas de Hermínio Miranda

Revista Universo Espírita


Aos olhos estreitos do mundo, a biografia de Hermínio Miranda não daria o menor trabalho. Poderia ser resumida neste parágrafo. Filho de portugueses, nasceu em 5 de janeiro de 1920, em Volta Redonda, RJ. Depois de formar-se contador, trabalhou 38 anos na Companhia Siderúrgica Nacional, CSN, até se aposentar. Escritor espírita nas horas vagas, publicou mais de 30 livros, que já passaram de um milhão de exemplares vendidos.

Todavia, para os espíritas, sua biografia não tem nada de pequena. É milenar e se estende por muitas existências. Todas as vidas de Hermínio estão sutilmente relatadas na sua obra.

Durante quatro décadas, Hermínio participou de grupos mediúnicos pequenos, mas de grande qualidade. Essa foi sua luneta, com a qual examinou, questionou e depois relatou a vida dos Espíritos; seus hábitos, caminhos de sofrimento, descobertas, arrependimentos e alegrias. Suas histórias estão contadas em Diálogo com as Sombras, a série Histórias que os Espíritos Contaram, e tantos outros. Um guia interessante, seguro e prático de suas experiências é Diversidade de Carismas. Ideal para grupos de estudos da mediunidade.

Outro instrumento de pesquisa utilizado por Hermínio é o sonambulismo provocado. Hermínio, talvez o mais importante e legítimo magnetizador de nosso tempo, aprendeu pelos livros de Albert de Rochas como, por meio de seu princípio vital, conduzir o magnetizado ao estado sonambúlico – descoberto por Mesmer no Magnetismo Animal, ciência irmã do Espiritismo. Allan Kardec conhecia esse fenômeno muito bem, pois estudou o sonambulismo por 35 anos. O livro dos Espíritos tem todo um capítulo sobre o assunto.

Hermínio percorreu os arquivos psíquicos de seus magnetizados, e depois relatou os casos e conclusões em suas obras. A mais impressionante experiência foi Eu sou Camille Desmoulins. O autor despertou a lucidez sonambúlica de Luciano dos Anjos e descobriu uma vida anterior de Luciano na França, como o mordaz e ousado jornalista Camille Desmoulins, um dos artífices da Revolução Francesa.

A habilidade de Hermínio, em libertar-se do tempo linear e percorrer os arquivos da alma, deu-lhe uma hábil intuição. Como num quebra-cabeça, ele deixou pistas registradas em seus escritos. Um leitor cuidadoso pode pinçar facilmente de seus livros o roteiro das vidas passadas. A obra de Hermínio Miranda é uma imensa autobiografia. Os fatos históricos pesquisados por ele relatam sua própria trajetória espiritual, junto ao grupo de Espíritos que lutou pela verdade e liberdade contidas nos ensinamentos do Cristo. Sua dedicação à pesquisa da reencarnação, mediunidade e aos conceitos doutrinários foi laboriosamente construída em diversas vidas.

Cristianismo a mensagem esquecida

Tudo começou centenas de anos antes de Cristo. Uma de suas sonâmbulas identificou Hermínio como sacerdote no Egito. Naquele tempo, uma posição que significa conhecer os mistérios da mediunidade, do magnetismo animal, da cura psíquica e da filosofia sagrada. Mas, seguindo as regras de seu povo, esse conhecimento era mantido apenas aos privilegiados de uma pequena casta. O povo subjugado ficava escravizado pela ignorância. Como esclareceu Emmanuel em A Caminho da Luz os sábios egípcios vieram de outros planetas. Certamente, essa não foi a primeira encarnação de Hermínio. Para ter esse conhecimento, no inicio da civilização, veio de outros orbes, com tantos outros, para auxiliar a humanidade, ainda criança.

Passaram-se alguns séculos, o antigo sacerdote despertou com o exemplo de Jesus. 

A doutrina secreta é para todos. 

Vem daí sua admiração pelo mestre. E seu caminho de libertação. Durante o período do Cristianismo Primitivo, a vida cotidiana de Hermínio já estava impregnada pelos ensinamentos de Jesus. “Tenho a impressão de haver vivido lá, naquela época”, talvez entre os gnósticos, afirmou o autor em As Duas Faces da Vida. Os primeiros escritos cristãos ficaram perdidos nos pergaminhos destruídos pelo tempo, e, por outro lado, sobreviveram na escrita indelével do registro mental daqueles que vivenciaram os acontecimentos. Essa história – que investigou por sua própria regressão – Hermínio ficou nos devendo. Ele não terminou a investigação.

Os detratores do Cristo começaram a combater e deturpar a mensagem da Boa Nova. Foi então que o antigo sacerdote egípcio uniu-se a outros trabalhadores. Pôs sua pena a serviço da resistência consciente diante da luta sangrenta contra a mensagem libertadora. Isso ocorreu na época dos Cátaros (Idade Média). “Não há dúvida de que o catarismo foi um dos mais convincentes precursores do Espiritismo. (...) Seu propósito era o de um retorno à pureza original do Cristianismo”, contou Hermínio, em As Duas Faces da Vida.

O caminho, a verdade e a vida

Tempos depois, quando a falsa interpretação tomou as rédeas da Igreja na Idade média, ressurgiu Hermínio ao lado de Lutero, na figura de Melanchton, auxiliando a corajosa Reforma Protestante. Redigiu então a confissão de Augsburgo, ponto de referência da separação entre católicos e protestantes. Ao concluir esse texto, assinado pelos príncipes germânicos, Melanchton definiu a firme resolução de restaurar a doutrina cristã: “Pedro proíbe que os bispos dominem e coajam as igrejas. Pede-se apenas o seguinte: que permitam seja o Evangelho ensinado de maneira pura. Se não fizerem isso, então vejam lá eles mesmos como responderão perante Deus pelo fato de com essas teimosias darem causa a cisma”, escreveu na Confissão.

Mas essa tarefa restauradora, anunciada por Jesus como a vinda do Consolador Prometido, cabia a Allan Kardec. Hermínio estava lá. E nesse tempo viveu um papel anônimo, como inglês, pai do poeta Robert Browning. Nessa encarnação, Hermínio passou seus últimos anos de vida em Paris e desencarnou em 1866. Dialogou com o Codificador, propôs algumas questões. Estava realizando a tarefa de compreender as explicações científicas e filosóficas esclarecedoras da Doutrina Espírita, para continuar sua missão.

Em 1920, atravessou o oceano, finalmente nasceu no Brasil, pátria atual da Doutrina Espírita – que anda esquecida na sua terra natal, França. A primeira geração de pesquisadores, Albert de Rochas, Crookes, Wallace, tiveram a preocupação de provar ao mundo a existência do espírito. Hermínio não. Toma os postulados espíritas como lei natural. O Espiritismo segue o caminho do conhecimento humano, sua doutrina se confunde com a vida, e dela brota a verdade. Eis aí ressurgida a palavra original do Cristo: caminho, verdade e vida.

Sua obra se explica pelas palavras de Platão: “Aprender é recordar”. É o que fez Hermínio nos últimos 50 anos. Lembrou os estudos, pesquisas e fatos vividos em sua história multimilenar. O antigo sacerdote do Egito rendeu-se à liberdade de consciência. De detentor do conhecimento passou a divulgar a Doutrina. Trocou o poder pela educação. Não estamos aqui idolatrando ou endeusando Hermínio. Ele não se destaca de todos nós. É apenas um escriba fiel e consciente, de ontem, hoje e amanhã.

As Duas Faces da Vida, sua mais recente produção, é um livro que reúne textos, conferências e entrevistas recolhidos nos arquivos minuciosos do autor. É uma amostra, em parte inédita, de sua trajetória literária. Aos leitores que já o conhecem, a obra acrescenta novas histórias e conceitos, em seu estilo inconfundível. Ao novo leitor, é uma apresentação atual que certamente o encaminhará para as outras obras de seu acervo.


Revista Universo Espírita
FONTE: Revista Universo Espírita nº 19,
encarte Universo Literário nº 2

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