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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Verdades pessoais

Verdades pessoais

Roque Jacintho



Quase todos temos verdades pessoais. Princípios há que, sedimentados em nos ao longo de inúmeras romagens reencarnatórias, formam uma segunda natureza, um padrão condicionado de pensar e de reagir.

Raros os que não julgamos saber tudo.

Mais raros, ainda, os que não possuamos uma certeza de que somos capazes de tudo solucionar, de realizar sempre com mais perfeição que os outros.

São hábitos mentais cristalizados.

Na área do Cristianismo, em todas as suas províncias de fé, essa presunção de que somos mais hábeis que os demais companheiros sempre tomou a configuração de excesso de zelo.

Ela inspira seitas, dentro dos agrupamentos.

Leva amigos a verem-se quais inimigos.

Provoca o nascimento de rivalidades injustificáveis diante da sublimidade do Evangelho. E o Evangelho, então, recebe todos os respingos da lama que trazemos dentro de nós.

À sombra desses impulsos inatos, que permitimos nos comandem, programas regeneradores já foram postergados e inúmeras almas que chegavam para o trabalho experimentaram desencanto.

Quase sempre descuramos de deveres fundamentais, protelando obrigações inadiáveis, por nos absorvermos em metrificar a conduta de outros obreiros que foram conduzidos a outros setores do Espiritismo, movidos pelo desejo de ocupar a sua posição, de dispor de seu cargo, a fim de imprimirmos nosso colorido particularíssimo às atividades que eles desempenham.

É a sementeira das tricas.

Razão teve Kardec quando, "em Evangelho Segundo o Espiritismo" consagrou para a Doutrina a máxima: "Fora da Caridade não há salvação". O Mestre lionês ponderou com ampla visão que: "Fora da Verdade não há salvação" era conceito extemporâneo, porque todos nos julgamos donos da verdade.

As verdades pessoais são joio na seara.

Diante dos quadros de conflitos surdos ou de intrigas e ciumadas, com sabor dos conventículos romanos, que sempre retardam o avanço da luz, poderemos acrescentar, para mais amplo descortino, que não é válida, de forma alguma, em termos de Espiritismo, a máxima: "Fora de minha verdade, não há Doutrina e nem movimento espírita".

Devemos fidelidade ao Cristo.

Vale, portanto, o esforço de ajustar-nos ao seu programa de redenção da Humanidade. Longe estejamos de tentar, mais uma vez, ajustar Jesus a nossos propósitos, por maior seja nossa boa vontade.

Não contender - é questão de bom senso.

Não há bom combate quando não se está voltado apenas para frenar nossos impulsos de domínio, nossos pruridos mal disfarçados de vaidade, nossa ânsia nebulosa de prestígio. Não há bom combate quando se investe contra outros seareiros, sob alegação de zelo, de eficiência pessoal, de mais larga visão da Doutrina.

Quem mais saiba, ame mais.

Só o amor, expressão imaterial da caridade, é o sinete que revela, silenciosamente, os discípulos do Mestre: "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros". (João 13:34 e 35)

Estultícia malquerer companheiros por amor à Doutrina!

Não haverá respeito à Doutrina, que é bênção de Jesus, às criaturas que lutam contra si mesmas, se não nos amarmos uns aos outros.

Se, por conseguinte, estivermos, nalguma hora, traduzindo o novo mandamento de Jesus com a forma: "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se murmurardes e atirardes pedras uns nos outros" - impõe-se uma imediata reconsideração dos conceitos de nossas verdades, a fim de que não nos sufoquemos com as manifestações do personalismo anticristão.

Roque Jacintho
Revista Reformador de Agosto 1972

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- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

Recorte da Revista Reformador Ago. 72.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Atmosfera Mental

Atmosfera Mental

Roque Jacintho



Raramente o homem pensa, junto do ato de falar.

Em geral, as respostas que fornece às mais diversas indagações de seus semelhantes ou às mais diferentes circunstâncias de sua existência, são inteiramente automáticas, já estavam armazenadas em seu mundo íntimo.

Primeiro fala, depois pensa.

Primeiro age, depois reflete.

Seria dispendioso, senão quase impossível, se a todos os acontecimentos tivesse a criatura de organizar uma sequência de pensamentos, raciocinando mais ou menos demoradamente para, após, externar um ponto de vista ou uma opinião. A própria Natureza, por um mecanismo psíquico todo especial e reconhecido parcialmente pela Ciência, dota a criatura da capacidade de armazenar reações e respostas que, quando requisitadas, são fornecidas por reflexos automáticos.

O tipo de reações desse arquivo milenar, contudo, é constantemente alterado, reformado, melhorado ou, algumas vezes, degenerado, atendendo sempre às preferências de cada um. Há, pois, uma progressão infinita  de nossos comportamentos à medida que evoluímos, correspondendo a uma troca de matrizes internas para o fornecimento de outros tipos de respostas a cada estímulo externo.

Exemplifiquemos.

Uma criança educada erroneamente no sistema de supremacia da força física, recebe a seguinte recomendação de seus pais ou tutores:

— Não traga desaforo para casa!

É levada, portanto, a reagir agressivamente a cada ofensa que receba ou toda vez que se julgar ferida em sua sensibilidade ou em seus valores morais, partindo imediatamente à desforra, a fim de não levar ofensas dentro de si.

Essa matriz permanece-lhe no íntimo.

Uma palavra áspera, um mal-entendido funciona sobre o seu mecanismo qual se lhe pressionassem um botão e a raiva se articula dentro de si e se externa com sua característica de violência.

Contudo, à medida que a criança se torna jovem, e de jovem se faz adulto e de adulto marcha para a senilidade, encontra-se com uma série de circunstâncias frente às quais, embora queira, não pode ou não lhe convém reagir agressivamente. É o patrão que lhe garante o pão de cada dia. O amigo a quem ele respeita. Os parentes a quem ele acata... E sua primitiva filosofia de força cede lugar à tolerância.

O clichê infantil, aí, já sofreu modificações.

E pode mudar-se ainda mais.

Se no curso de sua existência essa criatura admitir em si mesma os princípios renovadores do Evangelho e incorporá-los parcial ou integralmente, ao revés de simples mudanças no clichê mental que lhe ditava o comportamento brutal esse será substituído por completo.

Reconhecerá no ofensor um enfermo da alma, necessitado  de amparo e de assistência, e lhe responderá, ante os gestos de loucura súbita, com um envolvente carinho, uma enorme piedade, uma elevada consideração.

Cada comportamento aprendido corresponde a uma sequência de princípios aceitos, permanecendo irradiante à nossa volta, compondo-nos a atmosfera mental, o hálito espiritual que dimanamos, dinamizando a nossa simpatia ou antipatia que nos faz reconhecidos entre encarnados e nos identifica entre os desencarnados.

Esse clima mental nos individualiza.

E reflete as nossas companhias espirituais.

Para que nos alteemos psiquicamente cumpre-nos a renovação integral de nosso mundo íntimo, substituindo o que não convém e corrigindo o que esteja levemente distorcido. Mas, a reforma é lenta e, embora lenta, realizável, desde que utilizemos a nossa vontade para criar outros tipos de reações e comportamentos ajustados às normas do Espiritismo-Cristão e que assegurarão, por sua vez, companhias espirituais sadias e nobres.

Roque Jacintho do livro:
Desenvolvimento mediúnico

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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Passe e Estudo

Passe e Estudo

Roque Jacintho



O passista deve ser amigo do estudo nobre.

Assenhoreando-se paulatinamente do patrimônio superior da Doutrina Espírita, não apenas alcança maior domínio da técnica e do mecanismo dos passes, mas ainda descortina meandros da natureza humana, habilitando-se a orientar os enfermos, tornando mais fecunda a terapêutica fluídica.

Outro detalhe do estudo.

A leitura e a permuta de noções de temas da Espiritualidade Superior sustentam, por si sós, a mente em planos altos, forrando o passista de uniões obsessivas, por mantê-lo unido às ondas mentais mais vibráteis e puras do Universo.

Além dessa simbiose com Espíritos iluminados, em decorrência de suas preferências novas, deve-se ter em consideração que a renovação de interesse produz um esquecimento lento e gradativo dos hábitos anteriores, trazendo-lhe a reforma de seu mundo moral e permite-lhe envergar as roupas do "homem novo" do Evangelho do Senhor.

Cabe um lembrete, porém.

Com referência ao estudo é sempre oportuno que se memorize a importância de selecionar as obras a serem estudadas ou simplesmente lidas. Nem tudo o que se publica é realmente digno de atenção ou de carinho, mesmo quando traga a informação de que são espíritas ou espiritualistas. Muitas delas são fontes de tóxicos mentais, ardilosas e improdutivas, retratando a clara advertência de Jesus de que entre o trigo nasceria o joio.

Vale, pois, reviver a advertência do Apóstolo da Gentilidade, que pondera: "Não ensinem outra doutrina, nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé". (1 Timóteo, 1:3 e 4) Um cuidado derradeiro.

A leitura selecionada nunca deve estar acima de nossa compreensão normal, a fim de que não nos demoremos improdutivamente em livros que, dignos e respeitáveis, nem sempre nos são inteligíveis, e que, estando além de nosso discernimento podem deslumbrar-nos pela sua complexidade, sem que nos iluminem interiormente. Não se condena e nem se proscreve sua leitura. Apenas deveremos fazê-la em menor intensidade, e em círculos coletivos de estudos, para aproveitarmos seus conceitos, devidamente aditados e explicados por companheiros de ideal que possuam mais experiência do que a nossa no campo que tais obras abordem.

Roque Jacintho do livro:
Passe e Passista

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sábado, 7 de outubro de 2023

Vigilância dos pensamentos

Vigilância dos pensamentos

Roque Jacintho




 O homem, exteriormente, se faz conhecido:
• pela roupa que traja,
• pelos gestos com que se externa,
• pelos comportamentos que lhe sejam habituais,
• pelas palavras proferidas e ajustadas à sua cultura intelectual e ao seu padrão moral,
• pelas aspirações que afirma acalentar...
No entanto, somos realmente o que pensamos.

Somente o próprio homem, e os espíritos que o acolitam no seu trânsito terreno, pode conhecer-se efetivamente, pelos objetivos que mentaliza e que nem sempre revela; pelos anseios que nutre e que nem sempre consegue realizar; pelas paixões que sustenta e que nem sempre as circunstâncias favorecem a sua exteriorização; pelas intenções por vezes não reveladas em seus gestos.

No atual estágio evolutivo da nossa Humanidade, há sempre um dualismo em cada personalidade: o homem externo, que todos conhecem, e o homem em si mesmo, em seu mundo íntimo, que só raramente se revela.

Raramente ele é integrado.

Amiúde apenas uma parcela íntima da criatura chega ao exterior, comunicando-se com seus companheiros e familiares.

A parte maior, e mais importante, fica retida no seu mundo íntimo, só tomando contato com o mundo externo quando a criatura é compelida a dar alguma coisa de si mesma.

E esse mundo interno é que cria as ações reais.

O Espiritismo cristão, reconhecendo a importância do mundo interior, que gera as atitudes externas, não se restringe a pregar nenhuma reforma superficial. Não convida ninguém a envernizar-se com um falso colorido que não se ajusta às suas emanações mentais. O homem, diz a Doutrina Espírita, é o que pensa e não o que diz. E sob tal verdade eterna deve empenhar-se na reforma íntima:
• reforma de atitudes,
• reforma de preferências,
• reforma de aspirações,
• reforma de tendências,
• reforma de pensamentos.
Sem essas mudanças interiores, tudo é ilusório.

Nada tem valor se não corresponder a um anseio íntimo:
• nem o comportamento físico,
• nem o sorriso nos lábios,
• nem os gestos aparentemente carinhosos,
• nem a caridade de fantasia,
• nem a fraternidade de superfície,
• nem o amor falso...
O pensamento é a nossa vida, a nossa personalidade permanente e, consequentemente, ele é que determina as nossas companhias espirituais. Se, consequentemente, não nos policiarmos interiormente, não nos modificarmos internamente para melhor, não sustentarmos um clima cristão — nenhuma técnica de intercâmbio virá produzir alterações na categoria de Espíritos que influenciarão os médiuns, buscando exteriorizar-se.

Desenvolver mediunidade é trocar de plano mental.

É sair do terra a terra do cotidiano e do nosso habitual, procurando a Espiritualidade Superior para, sob a sua bênção, categorizar-nos a servidores daqueles que sofrem.

É natural, porém, que o orientador encarnado das reuniões de desenvolvimento mediúnico não poderá medir o comportamento interior de cada novo médium.

Essa dificuldade não o forrará da obrigação de encarecer continuamente a importância que tem o pensamento comum, o pensamento de toda hora, na definição das companhias espirituais que elegemos para nós mesmos.

As ondas mentais que formam o clima espiritual da Terra e o clima individual de cada um de nós devem ser profundamente estudadas, a fim de que ninguém venha iludir-se com referência à sua posição nos quadros de aprendizagem de nossa Humanidade e para que nos compenetremos da urgência de nossa reforma íntima.

Roque Jacintho do livro:
Desenvolvimento mediúnico

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sábado, 17 de junho de 2023

Passe e passista

Passe e passista

Roque Jacintho



Aceitamos sem rubores que estamos, todos, sujeitos a desequilíbrios momentâneos. Reconhecendo-nos o caminho do aperfeiçoamento, não queiramos revestir-nos com asas artificiais, que se derretem sob o calor das nossas paixões humanas.

Não é preciso muito para quedas.

Basta um segundo de revolta, um instante de rancor, uma ponta de inveja, laivos de ciúmes, milésimos de impiedade, julgamentos apressados ou levianos, um demorar da língua na calúnia, ou ensopá-la no caldo quente da maledicência - e eis-nos a braços com desajustes psíquicos e espirituais.

A ligação com a espiritualidade inferior, em alguns de nossos momentos, é tão intensa que se faz necessário que, embora passistas que somos, nos confiemos à fluidoterapia que nos chega por outros companheiros de ideal.

Recorrendo a companheiros dedicados ao mesmo setor assistencial, apenas faremos por realçar nossa confiança nessa medicação celeste.

Seria leviano, ou desconhecimento das Leis Espirituais, se nos julgássemos forrados de quaisquer influenciações, breves ou alongadas, à vista de nossa posição de passistas.

E haverá presunção, inimiga da humildade que deve caracterizar o passista, se este considerar que os seus orientadores Espirituais o conservarão afastado de desequilíbrios ou de circunstâncias que o convidem à queda moral e espiritual. Jamais deveremos olvidar que as tentações e as mistificações fazem parte do nosso quadro de aprendizado, testando-nos nas aquisições que estamos em vias de incorporar em nossa bagagem interior.

Estejamos longe, pois, de sentirmo-nos diminuídos ou indignos da tarefa que abraçamos nesse setor de trabalhos que o Cristianismo-Redivivo nos abre à frente, apenas porque titubeamos. É justo que nos amparemos mutuamente, no curso de nossas lições, a fim de recompor-nos por amor ao serviço, sempre que necessário.

Roque Jacintho do livro:
Passe e Passista

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quinta-feira, 6 de abril de 2023

Panorama no Além

Panorama no Além

Roque Jacintho

No Além-túmulo o Espírito descobre-se dotado de um corpo idêntico ao que carregou em sua última experiência terrena.

Palpita-lhe o coração; arfam-lhe os pulmões; movem-se as pernas; os olhos recolhem as imagens, no processo de raios luminosos; seu tato está inteiramente vivo; sua audição é a que sustentava na Terra; o chão é sólido e palpável; portas e paredes oferecem-lhe resistências. Os seus problemas psíquicos continuam profundamente reais... Tem rasgos de piedade e momentos de cólera. Sente ciúmes e impulsos do sexo.

Descobre povoações e cidades, com hospitais e escolas, com grupos de socorro e hordas de malfeitores, com lares organizados e famílias constituídas.

Apenas o que entre os homens era força de expressão, lá corresponde a uma realidade inarredável e amargosa, ou deliciosa e sublime.

— Ele se afundou na lama dos vícios!

O viciado efetivamente encontra-se mergulhado numa lama proveniente de suas emanações mentais desequilibradas.

— É um monstro de maldade!

A transfiguração perispiritual das almas compromissadas em crimes conhecidos ou crimes ignorados da justiça comum imprime no criminoso o entalhe grotesco da animalidade inferior a que se une.

— É bonita por fora, mas por dentro...

Criaturas tais, modelos de beleza física e desequilibradas morais, despejadas do casulo da carne surgem como bruxas fantasmagóricas, enlouquecidas pelos desejos insanos e pela deformação de caráter.

— Um anjo de bondade!

Define bem, essa afirmação, a situação na Espiritualidade de almas plenas de ternura, em que o amor promana de si espontaneamente, embora sua posição social, seus recursos financeiros, sua cultura acadêmica nem sempre tenham sido os mais avantajados.

O panorama visto no Além é o mesmo da sociedade humana atual, com seus problemas e suas soluções, apenas sem a máscara de carne que nos abençoa em nossas explosões de cólera ou em nossos ensaios de humildade, em nosso egoísmo doloroso ou nas demonstrações de nosso amor.

As escolas de aprendizagem e os grupos de trabalhos no Além, não chegam a atrair compulsoriamente os Espíritos, já que se lhes respeita o livre-arbítrio e já que toda elevação depende do anseio que o próprio homem permite germinar em seu coração. Assim como entre nós muitos se entregam às práticas violentas, às cenas de sangue para o exercício de suas emoções indisciplinadas, também no Além se repete a sustentação de seus pendores e de suas tendências normais.

A Espiritualidade não é uma região circunscrita e determinada no espaço.

Significa apenas: além-carne, além-corpo e geograficamente começa dentro de nosso próprio lar, nas oficinas de trabalho, nos salões das sociedades, nas classes escolares, nos antros de vícios, localizando-se os Espíritos nos recintos que edificamos para nossas atividades cotidianas.

O conhecimento desse panorama é importante.

Possuídos de tais noções compreenderemos que o nosso atendimento aos necessitados de socorro e que nos procuram pelas vias mediúnicas deve ser objetivo e claro, com informações precisas a corretas, longe de orientações como:

— Você está doente. Procure um hospital.

— Ingresse nas escolas daí para aprender.

— Você já morreu e não pode sentir dores.

Roque Jacintho do livro:
Doutrinação

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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

O segredo das curas

O segredo das curas

Roque Jacintho



O doutor Fortes era médico generoso.

Interessava-se pelos doentes, fosse qual fosse a sua condição social.

Amparava do senhor ao último dos escravos, sem nenhuma distinção.

A técnica precária da medicina, na época, porém, quase sempre o colocava em desvantagem diante das enfermidades rebeldes.

Clinicando, também, na enfermaria do Convento de Santo Antônio, desde há muito passara a observar aquele enfermeiro Fabiano de Cristo, que vencia onde ele se sentia derrotado.

Daquelas mão dedicadas, vira doentes sem esperança saírem recuperados e retornarem à vida comum, sem sinais das doenças que deveriam tê-los vitimado.

Deveria haver, ali, algum segredo - conjecturava muitas vezes. E certo de que esse segredo existia, disfarçadamente inspecionava a cada um dos atos de Fabiano.

Talvez tudo estivesse na água!

Sim! É que a cada doente em estado grave, Fabiano ministrava uma porção de água. E até para aqueles portadores de feridas graves, ele aplicava gotas d'água na região enferma, provocando miraculosamente a reversão do quadro e obtendo cicatrizações espantosas.

Fortes queria dominar aquele conhecimento.

- Há dias te observo trabalhando na enfermaria, irmão Fabiano! - irrompe o médico, após Fabiano de Cristo haver distribuído porções d'água a diversos internados. 

- Por mais que queiras negar, colocas nessa água algum recurso medicamentoso que desconheço.

O interpelado sorriu candidamente.

- Nada faço, que qualquer um outro não possa fazer, doutor!

- Desculpe-me, porém não creio! Afinal, eu te trouxe dois doentes irrecuperáveis, segundo os meus recursos médicos e, três dias após, ei-los refeitos e a te ajudar! E vi que nada lhes deste além de água.

O médico insistia:

- Se guardas avaramente teu segredo, lembra-te de teu dever de humanidade! Muitas outras pessoas poderiam retomar à normalidade da saúde, se me revelasses o teu conhecimento misterioso.

Fabiano, visivelmente constrangido diante do doutor Fortes, foi direto e incisivo:

- Doutor, apiedo-me e muito diante de cada um que sofre. Eles chegam aqui e nada sei de enfermagem!

Como socorrê-los? E, querendo minorar as suas dores, apanho as canecas com água e faço as minhas orações, para cada doente em particular.

E, diante do médico admirado, complementou:

- Sabendo que a vida vem de Deus, rogo ao Pai de misericórdia que abençoe a água que Ele próprio criou e que nela dê o seu sopro de vida, como dá à vida inicial ao homem.

Houve uma pausa longa, quebrada pelo reticente médico:

- E ... ?!

- E sabendo que o Pai atende a todas as súplicas desinteressadas, sei que a água se transforma num santo remédio. O que Deus coloca nela, nunca perguntei! Só sei que, com muito amor e muita fé, vou ministrá-la aos doentes, em nome de Jesus Cristo!

O doutor Fortes estava sem fala!

- Se o senhor fizer isso, doutor - complementou Fabiano - Deus por certo te atenderá, pois Ele me ouve a mim, que sou ignorante e pecador, e mais te ouvirá pelas tuas virtudes.

Sabe-se que, algumas. vezes, o doutor Fortes foi visto dando pequenas porções d'água a escravos enfermos!

Roque Jacintho do livro:
Fabiano de Cristo - O Peregrino da Caridade

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terça-feira, 1 de novembro de 2022

Desmascarando Fabiano

Desmascarando Fabiano

Roque Jacintho

— Ele criou fama, mas é um tolo ingênuo ou, então, um grande enganador — sentenciou frei B..., a outro de seus irmãos.

— O mais que dizem é fantasia. Tu sabes o poder imaginoso da crendice!

O outro de algum modo concordou com o parecer sobre Fabiano de Cristo, que tanta gente simples buscava no convento.

— O povo tem fome de milagres — aditou B...

— Por certo que sim!

— E o Fabiano não faz por menos. Deixando-se envolver pela credulidade dos fanáticos, aparentemente faz tudo o que lhe for pedido.

— Talvez não seja bem assim... Pode ser mais ingenuidade do que malícia!

Pois vou mostrar-te. Pedirei a ele que atenda alguém que nem existe e verás que ele voltará com notícias de que atendeu.

E se assim falou, mais rápido o fez.

— Olha, irmão Fabiano, — dizia B.. com fingido interesse — trouxeram notícias de que ali está caída uma mulher e que deves socorrê-la, já que todos passam ao largo.

— Eu irei de imediato — assegurou Fabiano, partindo a arrastar a perna enferma pela ladeira abaixo, com muita e dolorosa dificuldade.

Os dois observavam.

— Não te disse? — falou B..., tão logo Fabiano se afastou e completou com ironia:

— Ele vai e, não demora muito, nos dará informações fantásticas, nascidas de sua imaginação fértil de um antigo homem de negócios.

Algumas horas mais tarde.

— Ei-lo de retorno! — diz B... e, dirigindo-se a Fabiano, que se locomovia com dificuldades, perguntou-lhe: — Prestaste assistência à mulher, irmão Fabiano?

— Oh! Sim! A pobrezinha estava em desespero e ferida...

B..., que forjara a farsa, olhou maliciosamente para o seu companheiro de trapaça, como quem vai desmascarar afinal um impostor.

— E ela sofria muito?

— Sofria, coitadinha, O que mais lhe doía, porém, era não ter chegado até aqui. Após prestar-lhe assistência, pedi o auxílio de algumas pessoas bondosas e a levamos para uma hospedaria.

— Não me diga! — exclamou B..., pleno de ironia. — Pena que não estivéssemos lá, para ajudar-te!

— Se estivesses lá, me pouparias de um incômodo! É que, tão logo a acomodamos na hospedaria, ela me encarregou te trazer-te uma correntinha de prata.

E, ante o espanto de B..., Fabiano lhe estende a mão:

— Ela me disse que é tua e que te ia trazê-la!

O frei B..., contempla a correntinha, pálido.

— Esta.., corrente... — balbucia.

Fabiano, sem aperceber-se do espanto de B..., completa a informação descrevendo a senhora a quem prestara socorro e repete algumas expressões de carinho que ela endereçara ao frei B...

— Ela é tua parenta? — indaga Fabiano, carinhoso.

— Essa... mulher,.. é minha mãe, Fabiano! E ela, há dois anos... é morta!

— Pois ela vive e segue a te amar! — complementou Fabiano com naturalidade, aumentando ainda mais o espanto dos dois ouvintes curiosos.

E ele voltou para a enfermaria, onde trabalhava agora.

Roque Jacintho do livro:
Fabiano de Cristo - O Peregrino da Caridade

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