quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Parentes Complexos

Parentes Complexos

Meimei



Parece questão simples mas não é: os parentes complexos.

Discutimos, deblateramos no assunto.

Entretanto, exceção feita aos portadores de moléstias congênitas, somente erradicáveis nos tratamentos da reencarnação, se encontramos um parente difícil, a verdade é que também seremos para ele um parente difícil, pelo menos, durante o período de tempo, em que se nos perdure o desacordo.

Conservemos serenidade e paciência, a frente dos familiares que se nos mostrem irritadiços ou intolerantes.

Quem de nós na Terra, não terá tido determinados momentos de perplexidade ou inquietação?

O olhar amargurado de um pai ou um semblante materno toldado de tristeza, talvez nos escondam graves preocupações para que não nos faltem reconforto e alegria.

O irmão desorientado, a irmã queixosa, o esposo que se patenteie acabrunhado ou a esposa que se revele fatigada e abatida, terão motivos para isso, tanto quanto, mantínhamos as nossas razões para enfado ou aborrecimento, quando no estágio terrestre.

Saibamos respeitar sempre os entes queridos, notadamente quando atravessam tempestades na vida íntima, cujas minudências não nos será lícito investigar. Esperemos que saibam vencer por si mesmos as tribulações que os visitam, evitando os interrogatórios indesejáveis e as perguntas fora de tempo, que estimaríamos dispensar igualmente se estivéssemos no lugar deles.

Compreendamos que, no mundo físico, bastas vezes, somos impelidos a seguir adiante, através de veredas empedradas, em benefício de nossas próprias experiências. E, sobretudo, estejamos convencidos de que não teremos parentes-enigmas e nem seremos familiares-problemas para ninguém se cultivarmos a paz e se tivermos amor.

Meimei do livro Esperança e Vida
de Chico Xavier e Carlos A. Baccelli / Espíritos diversos

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terça-feira, 30 de agosto de 2022

Ajuda-te hoje

Ajuda-te hoje

André Luiz

Sim, nas leis da reencarnação, quase todos nós, os filhos da Terra, temos o passado a resgatar, o presente a viver e o futuro a construir.

Lembremo-nos, assim, de que, nas concessões da Providência Divina, o nosso mais precioso lugar de trabalho chama-se “aqui” e o nosso melhor tempo chama-se “agora”.

Detenhamo-nos, por isso, na importância das horas de hoje.

Ontem, perturbação.
Hoje, reequilíbrio.

Ontem, o poder transviado.
Hoje, a subalternidade edificante.

Ontem, a ostentação.
Hoje, o anonimato.

Ontem, a incompreensão.
Hoje, o entendimento.

Ontem, o desperdício.
Hoje, a parcimônia.

Ontem, a ociosidade.
Hoje, a diligência.

Ontem, a sombra.
Hoje, a luz.

Ontem, o arrependimento.
Hoje, a reconstrução.

Ontem, a violência.
Hoje, a harmonia.

Ontem, o ódio.
Hoje, o amor.

Diz-nos a sabedoria de todos os tempos — “Ajuda-te que o Céu te ajudará” —, afirmativa sublime que nos permitimos parafrasear, acentuando: 
“Ajuda-te hoje, que o Céu te ajudará sempre”.
André Luiz por Chico Xavier do livro: 
Coragem

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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

No problema da dor

No problema da dor

Emmanuel



Para liquidar o problema da dor, ninguém deprecie a responsabilidade que lhe compete.

O Universo é regido pela Justiça Divina e, nos tribunais do Perfeito Equilíbrio, todo sofrimento é resgate entre as criaturas, quando não seja luminosa missão de amor dos espíritos angélicos.

Para ilustrar o conceito, recordemos que as doenças no mundo requerem medidas especiais.

O embaraço gástrico pede medicação laxativa.

A apendicite reclama a intercessão operatória.

A escabiose aguarda recurso balsamizante.

O carcinoma pede extirpação e limpeza.

A loucura roga amparo e insulamento.

Para a legião das moléstias comuns, surge todo um exército de especialistas e enfermeiros, socorros e intervenções.

Assim também, na Vida Espiritual, cada consciência culpada que lhe alcança os domínios pelos braços da morte, implora a assistência na farmácia da vida.

A dor é procurada como remédio valioso e a reencarnação é o caminho em que deve ser encontrada.

Quem abusou da fortuna material, pede a cooperação da extrema pobreza.

Quem relaxou a saúde, clama pela enfermidade como medida capaz de garantir-lhe o reajuste.

Quem se arrojou à delinquência, na alucinação da beleza física, pede o corpo disforme que lhe assegure o retorno à tranquilidade.

Quem aviltou a inteligência, suplica as inibições mentais do cérebro curto, como serviço indispensável à própria restauração.

Quem se valeu do poder para espalhar aflições e lágrimas, requisita a desvalia social com problemas difíceis em que lágrimas e aflições lhe regenerem o campo íntimo.

Recebe, pois o tipo de experiência que escolheste na Terra, em benefício de tua própria recuperação para Deus, sem desfalecer no trabalho que a Justiça te reservou.

Acolhe a dor e a luta por sábias instrutoras da vida e não lhes menoscabes o concurso santificante.

A sombra de ontem te procura o asilo de hoje e somente ao preço de teu sacrifício na tarefa redentora, pelo próprio dever bem cumprido, é que atingirás, valoroso e feliz, a Plena Luz de Amanhã.

Emmanuel do livro Páginas de Fé
de Chico Xavier / Carlos A. Baccelli - Espíritos diversos

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domingo, 28 de agosto de 2022

Nunca reclamar

Nunca reclamar

Miramez


Pedir com exigência é agressividade que contradiz o bom comportamento e, quando a fonte doadora se agasta pelo modo com que se lhe é solicitado, quem pede passa a detratar o companheiro ofertante. Eis porque nunca devemos reclamar por não sermos atendidos no que desejamos receber. A vida sabe repartir para cada criatura o que mais ela necessita.

O clima de amor e de caridade começa a se desfazer quando há protesto. Acompanhar o Cristo é carregar um lenho pesado no calvário da vida. Isso é para o destemido que somente visualiza em seus caminhos o amor.

As consequências que surgem no empuxo evolutivo são inúmeras. Os problemas são diversos; as contrariedades são incontáveis, para testar o que deseja se iniciar nos valores do Grande Mestre.

Não deveis detrair a ninguém, pelo simples acontecimento de não ter satisfeito o vosso pedido ou a vossa vaidade. Aprendei a esperar e, principalmente, a conquistar o que possa vos garantir um futuro cheio de alegria e de paz. A bondade de Deus é tamanha, que não esquece de nenhum dos filhos ou coisa criada. Alimenta todas as leis com o vigor da Sua própria vida e facilita a sabedoria e a compreensão para todos os espíritos saídos de Suas mãos santificantes.

A existência é uma escola que coordena todos os meios de instruir as almas. E é essa instrução que buscamos para complementar o que aprendemos em todas as nossas existências, em variados lugares e diferentes planos, para que possamos chegar ao amor, dom supremo que parte de Deus, luz que alimenta toda a criação.

A verdadeira saúde do espírito se consolida no cumprimento dos deveres ante a paternidade suprema, que nunca se esquece do que precisamos nos moldes da fraternidade e ainda nos dá condições para fazermos a nossa parte, a qual representa a maior parcela no grande campo do aprendizado.

Aqui focalizamos com mais profundidade a função perigosa da exigência. Ela distorce os talentos já em crescimento na cidade do coração. Estamos ao lado dos que acham que devem reclamar os seus direitos, mas não concordamos com as vias que os homens costumam trilhar: a violência e a agressividade pioram a situação, provocando inimizade que cresce de geração para geração e nunca satisfaz nem aos reclamantes nem aos reclamados. Nesse clima de briga e de ódio, cessa a fraternidade, acirram-se os ânimos, esquece-se o perdão e passa a não existir o amor. O ambiente fica sem Deus e Cristo e todos sofrem a exaltação da ignorância.

A plataforma da corte celestial em benefício da humanidade é aquela que educa e instrui, nos moldes do Evangelho de Jesus, que também não exige que todos se transformem em anjos num estalar de dedos. Que isso ocorra gradativamente, porém, com persistência. Nesta página, falamos da supressão da exigência, visando o bem-estar das criaturas que desejam a própria paz. Reconhecemos que, quando estamos na carne, ela tolda sobremodo as nossas qualidades mais nobres, no entanto, a proteção nos é facultada com maior interesse, para que acordemos os talentos no coração e o amor, como Cristo nos ensinou. A opressão nos fluidos da carne é para mostrar ao homem os valores do espírito. Reencarnar é ingressar nas sendas do aprendizado maior. Os espíritos superiores nos assistem constantemente para que tenhamos mais aproveitamento e esse intercâmbio dos dois mundos é um fato que não depende, de certa forma, dos homens, mas da vontade de Deus.

Aprimoremos essa realidade, para sentirmos a vida na sua extensão divina e, neste transe, encontraremos doações de todos os tipos, sem que reclamemos a presença da bondade e do amor dos que nos cercam vindos de esferas elevadas. Jamais devemos reclamar de grande parte do que pretendemos, por não haver chegado a hora, ainda, de as recebermos. A vida nunca negou nem negará a quem merece, na urgência das suas necessidades.

Conscientizemo-nos, pois, de que Deus é Pai de justiça e esplendente de amor a todos os Seus filhos.

Miramez por João Nunes Maia do livro:
Saúde

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sábado, 27 de agosto de 2022

Tempos da Ignorância

Tempos da Ignorância

Hammed


“... Muito se pedirá àquele a quem se tiver muito dado, e se fará prestar maiores contas àqueles a quem se tiver confiado mais coisas.

“... Somos nós, pois, também cegos? Jesus lhes respondeu: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas agora dizeis que vedes e é por isso que vosso pecado permanece em vós.”

(O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 18, itens 10 e 11.)

Lucas relata em Atos dos Apóstolos a seguinte orientação de Paulo de Tarso: “Deus não leva em conta os tempos da ignorância”. (Atos 17:30) Em outras oportunidades, confirmou também que “muito se pedirá àquele que muito recebeu”. (Lucas 12:48) quer dizer, o agravamento das faltas é proporcional ao conhecimento que se possui.

Compreendemos, dessa forma, que somos todos nós protegidos pela nossa “ignorância”, pois somente seremos avaliados pela Divina Providência, de conformidade com as possibilidades do “saber” e “sentir”, isto é, segundo a nossa maneira de ver a nós próprios e o mundo que nos rodeia.

As leis espirituais que dirigem a vida são sábias e justas e adaptam-se particularmente a cada criatura, levando em conta suas individualidades.

O eminente psicólogo e pedagogo suíço Jean Piaget, responsável pela teoria de que o desenvolvimento das crianças propicia seu aprendizado, dizia que elas são diferentes entre si, que cada uma tem seu jeito de crescer e de se realizar como indivíduo, e que todos poderíamos ajudá-las nesse crescimento, porém nunca impondo formas generalizadas e semelhantes.

Piaget ensinava que cada criança pensa e interpreta o mundo com seu peculiar pensamento e com suas possibilidades orgânicas e mentais, quase sempre heterogêneas.

Encontramos no mundo atual modernos métodos pedagógicos que seguem esse raciocínio, levando em conta que cada indivíduo, para assimilar sua realidade de vida, é portador de um processo psicológico de aprendizagem próprio. Cada um percebe de forma dissemelhante os estímulos da Vida, decodifica-os e em seguida os reelabora, formando assim sua própria individualidade.

Por outro lado, encontramos também na reencarnação a guarida desses métodos de ensino, pois ela se baseia na multiplicidade de experiências ocorridas nos diversos avatares por onde a alma percorre seus caminhos vivenciais, como um ser individual. As diversidades do nosso tempo de criação, nossas heranças reencarnatórias, experiências emocionais e mentais, ambientes sociais onde ocorrem essas mesmas experiências, estruturas sexuais, masculinas ou femininas, e motivações várias desenvolvidas na atualidade particularizam os seres humanos com vocações, tendências, interesses, grau de raciocínio e discernimento “sui generis”.

Relativos e não generalizados devem ser os modos de ver as coisas e as pessoas. O próprio direito penal classifica e pune os crimes dentro dos padrões do “intencional” ou “doloso”, “passional” ou “ocasional”. Por que o Poder Inteligente que nos rege iria julgar-nos sem levar em conta nosso “tempo da ignorância” e nossa relatividade?

Como educar ou avaliar genericamente, usando o mesmo critério, crianças que receberam uma educação cheia de energia e vida, ensinadas a questionar e criar; a ter curiosidade e admiração pela natureza; e outras que só vivenciaram discussões, agressões e comportamentos medíocres por entre odores de bebidas alcoólicas e nicotina, sem uma visão saudável de Deus; ao contrário, temerosa, distorcida, adquirida através da crença de um ser ameaçador e temperamental?

O Amor de Deus programou-nos simples inicialmente para permitir que nos desenvolvêssemos, de forma gradativa, até atingir maiores plenitudes e totalidades.

Temos, pois, que seguir essa programação da Natureza, ou seja, caminhar dentro desse projeto estabelecido pelas leis universais para atingirmos a nossa integração como seres espirituais.

Esse processo evolucional nos mostra que podemos estar um pouco atrás, ou adiante, das criaturas, embora cada uma delas tenha suas características próprias e certas de acordo com sua idade astral. Nesse decurso evolutivo, todos nós passamos por fases de egoísmo e orgulho até atingirmos mais tarde as grandes virtudes da alma. Consideremos, portanto, que não seremos censurados por estar nessas fases “primitivas”, porque o que chamamos de “defeito” ou “inferioridade” seja, talvez, a passagem por esses ciclos iniciantes onde estagiamos. Lembremos que essas “fases” ou “ciclos” não foram criados por nós, mas pelos desígnios de Deus, que regem a Natureza como um todo.

Coisas inadequadas que vemos em outras pessoas podem ser naturais nelas, ou mesmo do “tempo da sua ignorância”, e representam características próprias de sua etapa evolucional na estrada por onde todos transitamos, alguns mais avançados e outros na retaguarda.

A vida moderna nos deu raciocínio e reflexão, maturação intelectual e um desenrolar de novas descobertas, ensinando-nos formulações racionais surpreendentes para que melhor pudéssemos compreender os métodos de evolução e progresso em nós mesmos e no Universo.

Não somos responsáveis por aquilo que não sabemos, não sofreremos um castigo por atos ou atitudes que ignoramos. Talvez essas ideias de punição, alienatórias, sejam os frutos da incapacidade de nossa reflexão sobre a Bondade Divina, O que chamamos de “sofrimento” é simplesmente “resultado” de nossa falta de habilidade para desenvolver as coisas corretamente, pois na vida não existem “prêmios” nem “castigos”, somente as consequências dos nossos atos.

Vale, porém, considerar que, à medida que nossa consciência se expande e maior lucidez se faz em nossa mente, maiores serão nossos compromissos perante a existência. “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas agora dizeis que vedes e é por isso que vosso pecado permanece em vós”. (João 9:41)

Podemos pretextar ignorância, mas se tivermos consciência de nossos feitos isso sempre será levado em conta.

Avaliemos atentamente: os tesouros da alma que já integramos nos obrigarão a prestar maiores ou menores contas perante a Vida Maior.

Hammed por Francisco do Espírito Santo Neto
do livro: Renovando atitudes

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sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Perante Inimigos

Perante Inimigos

Marco Prisco


Por mais você procure entender as razões que lançaram alguém como seu inimigo, não as encontrará.

Aliás, nunca há motivos que justifiquem a inimizade.

*

O companheiro que, obstinadamente, o persegue, decerto enfermou, vitimado pela inveja, não se dando conta, apoiando-se em motivos irreais com que se justifica a sanha perturbadora.

*

Aquele que o anatematiza, quiçá esteja ralado pelo despeito, por não poder superar os esforços que você desenvolve no bem, e se arruína, emocionalmente, atirando-lhe a responsabilidade do fracasso.

*

Quem se volta contra a sua paz, é possível que desejasse ser-lhe amigo, mas não possui valor para participar das suas alegrias, preferindo a posição animosa e agressiva.

*

O amigo de ontem, que ora o acusa com acrimônia, talvez esteja sobrecarregado de aflições, não o desculpando por parecer menos atormentado do que ele.

O conhecido que se lhe opõe, sistematicamente, pode encontrar-se sob perniciosa alienação, de que não se conscientizou, ainda, caminhando para a loucura a breve prazo.

*

O inimigo, seja quem for, está doente, merecendo piedade e silêncio.

Em razão disso, tem reações imprevisíveis, não aceitando o diálogo nem se deixando esclarecer.

Para ele os motivos que alega são verdadeiros.

*

Não se desgaste, adentrando-se nas faixas em que ele estertora.

Aguarde o tempo.

*

Você ignora o tormento que estruge em quem agasalha a ira, o azedume, a inimizade.

Felizmente não é você quem se fez o adversário, razão por que não se deve preocupar.

*

Cada um caminha consigo mesmo, de cuja companhia não se pode evadir.

O seu inimigo se conhece.

Se não consegue identificar-se agora, a vida, hoje ou mais tarde, elucidá-lo-á.

*

De sua parte, não se volte contra ninguém, cultivando qualquer tipo de animosidade.

Imunize-se contra as enfermidades que têm sua gênese nas expressões do ódio e da inveja, preservando a sua paz sob as bênçãos do amor fraternal.

Marco Prisco por Divaldo Franco do livro:
Luz Viva

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quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Tesouros

Tesouros

Emmanuel



A única propriedade real na vida é aquela dos bens ou dos males que incorporamos à própria alma.

Dos bens que constroem o paraíso da consciência feliz e dos males que levantam o purgatório do coração que escolhe os espinheiros do remorso por recursos de pavimentação do próprio caminho.

Não te agarres, aos patrimônios terrestres de que te fazes o usufrutuário provisório, a fim de que aprendas no serviço e na caridade a buscar, em teu benefício, a riqueza incorrutível da luz.

Basta um leve olhar ao pretérito para que reconheças a insânia de quantos passaram no mundo, antes de ti, senhoreando as bênçãos do solo e devorando o suor dos semelhantes, como se o tempo e o espaço lhes pertencessem.

Os museus jazem repletos das baixelas preciosas de quantos se supuseram senhores exclusivos do pão, das armas fidalgas de quantos zombaram dos direitos do próximo e da indumentária brilhante daqueles que transformaram o domínio indébito em sua feroz paixão.

Adelos e numismatas retêm consigo os remanescentes de todos os que monopolizaram a roupa devida aos nus e as moedas surrupiadas à fome e ao remédio dos infelizes...

Coleções de cinzas douradas guardam a usura e a vaidade, a mentira da bolsa estéril e o engano cruel da posse inútil.

Aproveita, desse modo, a tua hora no corpo denso e faze circular os valores da bondade no vintém que possa nutrir a paz e o reconforto, imprescindíveis ao companheiro da retaguarda, com aflições maiores que as tuas.

Recorda que se o onzenário e o egoísta retiram o azinhavre e a solidão da sombra a que se afeiçoam, a alma fraterna e amiga extrai a esperança e a paz da claridade que veicula.

A cobiça ajunta a prata e o ouro da terra como quem amontoa pedras incendiadas sobre a própria cabeça, mas a fé que se consagra a Jesus, em se devotando à alegria e à felicidade dos outros, amealha para si mesma, hoje e sempre, os tesouros imperecíveis do Céu.

Emmanuel por Chico Xavier do livro:
Fonte de Paz

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O temor do Inferno

O temor do Inferno

Djalma Matos



A crença na existência do inferno... O temor do inferno, como mansão de penas eternas, como lugar destinado a sofrimentos horríveis, que jamais tem fim, para as desditosas almas que nele, por suprema desgraça, chegam a ingressar, - se em outras eras, de maior atraso moral e intelectual, teve sua utilidade, para refrear instintos perversos de consciências endurecidas no crime e na impiedade, já agora, na nossa época, em que predomina o livre pensamento, o livre exame e a livre manifestação da ideia, malgrado ao sangrento esforço dos fazedores de guerra, é de todo ineficaz e contraproducente.

Causa estranheza que os sacerdotes se empenhem, com tanto zelo, em propagar tal crença, como se fosse ensinamento cristão, quando, evidentemente, não há nada mais contrário ao espírito do Cristianismo, que se inspira no amor e no perdão, pregados e exemplificados pelo seu excelso fundador.

Esse dogma, incompatível com o grau de evolução mental e espiritual a que chegamos, não pode mais ser aceito sinceramente por quem tenha a faculdade de raciocinar.

Se a uma criança, que vive num meio em que ainda não penetraram os melhoramentos da civilização, alguém quiser assustar com o papão, é bem possível que consiga o seu intento. Usar, porém, do mesmo expediente com um menino ou menina, que se acostumou a andar de automóvel, a ouvir rádio, a assistir cinema e a ver aviões cruzarem os ares quase que diariamente, o efeito será negativo, porque, dispondo de elementos para raciocinar e esclarecer-se, compreenderá logo o absurdo da ameaça.

Acontece, não obstante, que muitas crianças ladinas fingem acreditar no papão, para não parecer que estão convencidas de que os maiores – quase sempre os pais – não estão falando a verdade, e se esforçam, a seu turno, por convencer aos mais pequenos da real existência do papão.

O mesmo fenômeno mental, ou psicológico, observa-se nos pregadores e fiéis das igrejas cristãs, em relação à existência do inferno, com a condenação eterna e Satanás. São, por via de regra, bastante inteligentes e sensatos para intimamente não aceitarem tais absurdos, incompatíveis com a noção que se deve ter da justiça de Deus, equânime e misericordiosa, mas, fingem acreditar – os pregadores, por amor à intangibilidade dos dogmas, que juraram defender, e os fiéis, porque se sentem no dever de proclamar como verdade indiscutível tudo que sai da boca dos sacerdotes de sua infalível religião.

Jesus jamais se referiu a inferno como mansão circunscrita de penas eternas, e sim como planos, ou diversos estados, em que as almas pecadoras se encontrarão pelos sofrimentos e expiações: as trevas exteriores, onde haverá “choro e ranger de dentes”, para as criminosas, endurecidas, impenitentes, e o “fogo”, fogo das más paixões e dos desejos impuros, para as viciosas de toda espécie.

Amai a Deus sobre todas as coisas – Amai o próximo como a vós mesmos – Amai-vos uns aos outros – Não façais aos outros o que não quereis que vos façam – Perdoai para serdes perdoados – Perdoais não sete vezes, mas setenta vezes sete – Não julgueis para não serdes julgados... Estes ensinamentos que se confirmam e se completam uns aos outros, repetidos, quase todos, várias vezes, no Evangelho de Jesus, consubstanciam os fundamentos de sua santa e consoladora doutrina, como ninguém poderá negar.

E, assim sendo, porque querer obscurece-los, dando mais importância a frases isoladas, atribuídas ao meigo Nazareno, que falam do inferno, condenação e Satanás, e que, se realmente proferidas por Ele, se não referiam a estados transitórios das almas pecadoras, só podem ser levados à conta de força de expressão?

Como admitir que o Divino Messias fosse incoerente e contraditório, certificando da bondade e misericórdia do Pai e, ao mesmo tempo, ameaçando com a vingança extremada desse mesmo Pai, com a condenação eterna e satanás?

Oh! Cegueira dos homens! Dizem-se cristãos, mas, como não encontram em seus corações a predisposição para o amor e o perdão, que o Cristo pregou e exemplificou, querem ver, de preferência, nas suas palavras, o inferno e Satanás, à previdente sabedoria e misericórdia do Pai, que elas revelam – a condenação e a intolerância, ao “perdoai setenta vezes sete vezes” o exclusivismo da seita, ao “amai-vos uns aos outros” – a hostilidade em nome da fé, ao “não façais aos outros o que não quereis que vos façam” – o direito de julgar em nome do Cristo, à sua formal declaração de que não veio para julgar o mundo e sim para salvá-lo, e ao conselho de não julgarmos para não sermos julgados. Como não querem reformar-se, para adaptar os atos aos preceitos evangélicos, lidam por moldar o Cristianismo ao sabor de suas mentes e sentimentos.

Nós, espíritas, temos a convicção de que não existe inferno com condenação eterna, nem diabo nem Satanás, rival ao mesmo tempo que carcereiro de um Deus vingativo e cruel. Para nós, Deus é pai de amor e misericórdia, que não quer a perdição de nenhuma de suas criaturas, e nenhum poder contrasta à sua vontade onipotente e sabedoria infinita.

Sabemos que nas consequências do nosso modo de agir neste mundo – em pensamento, palavras e atos – estão a punição e a recompensa.

Os crimes que cometemos, os vícios que adquirimos, as imperfeições que conservamos, aderem à nossa personalidade e, ao desencarnarmos, levamos no perispírito – no corpo espiritual a que se referia S. Paulo – esse lastro indesejável, que mantém o nosso ser preso à pesada atmosfera da Terra, impedindo-o de elevar-se e de evoluir. É possível que, não sendo a carga muito pesada, ainda no estado de desencarnados possamos dela livrar-nos, por um vigoroso e persistente esforço da vontade. O regular, porém, - e que por via de regra acontece, é termos que reencarnar na Terra, algumas ou muitas vezes para, experimentando o mal que fizemos aos outros, padecermos, sofrendo com aquilo que antes nos deu ilícito prazer, e nos irmos corrigindo e depurando.

Neste processo de depuração, mais ou menos doloroso, mais ou menos prolongado, conforme as imperfeições a corrigir e a força de vontade empregada, consiste o inferno aceito e reconhecido pelos espíritas, o qual, por não ser eterno, mas transitório, condicionado às circunstâncias de cada caso e consentâneo com a bondade e sabedoria do Criador e com as esperanças da criatura, é tomado mais a sério, concorrendo muitíssimo mais para a regeneração da humanidade do que o temor absurdo das penas eternas.

Djalma Matos
Reformador (FEB) Janeiro 1943

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