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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sobrevivência e Imortalidade

Sobrevivência e Imortalidade

J. Herculano Pires


Imagem gerada por IA.

Prega a ciência moderna, como já vimos, baseada nos seus resultados materialistas, a imortalidade do homem e de todas as coisas através da eternidade do Universo. A imagem do mar, eterno no seu conteúdo e no seu aspecto, e variável na sucessão das ondas, dá-nos maior compreensão desse quadro transcendente e supranormal que a ciência materialista nos pinta. Os homens e as coisas são como simples vagas, que aparecem e desaparecem. Não têm qualquer espécie de forma permanente. Só a água, o conteúdo universal, é que sobrevive através dos tempos, renovando as formas, sem qualquer continuidade daquelas em si mesmas.

Essa visão, que muito se assemelha à do antigo panteísmo e à de certas escolas de ocultismo, que consideram o homem como fagulha divina momentaneamente destacada de Deus, e que a Ele voltará depois da morte – excluindo-se naturalmente as que assim pensam dentro da linha reencarnacionista – já foi estudada por Kardec em O Livro dos Espíritos.
Em certo momento pergunta ali o codificador:

“Que nos importa ter uma alma, se, extinguindo-se-nos a vida, ela desaparece na imensidade, como as gotas d’água no oceano? A perda da nossa individualidade não equivale, para nós, ao nada?”
Realmente, duas concepções existem, que conduzem o homem à desesperança. A de aniquilamento total do ser por meio da morte física e a dessa imortalidade por transmissão, que nada significa. Também a ideia da imortalidade através da sobrevivência de um princípio místico e misterioso, que seria a alma destinada ao inferno ou ao céu, não satisfaz a nenhuma inteligência racionalista. Somente a concepção espírita, aliás, comprovada pela observação, que nos fala da imortalidade pessoal, oferece ao homem a visão real do seu destino, e mais do que isso, da sua responsabilidade em face da vida e do mundo.

Entre os que aceitam o Espiritismo, subsiste, entretanto, uma pequena divergência de opiniões, no tocante à interpretação do sentido imortalista da sobrevivência. Provamos, através das comunicações e dos fenômenos espíritas, a sobrevivência do homem. Provamos que a morte física não é o fim do indivíduo consciente. Provamos mesmo, que essa morte não chega a modificar o homem, pois ele continua, na vida espiritual, com todas as suas características individuais da vida material. A perda do corpo unicamente priva o indivíduo do contato visível com a matéria. Assemelha-se extraordinariamente ao abandono do escafandro pelo escafandrista, que, longe de perder em si mesmo alguma coisa com isso, readquire a sua agilidade corporal e perde apenas a capacidade de viver no fundo do mar.

Entretanto, isso não nos prova a imortalidade, que implica na eternidade do ser. Imortalidade pessoal, portanto, é um termo com o qual procura-se interpretar uma suposição, decorrente da verificação do fato real da sobrevivência. Nesse caso, dizem alguns, o que está provado é a sobrevivência, não a imortalidade.

Os espíritos que transmitiram a Kardec as linhas mestras da doutrina ensinaram que o homem é imortal. Seguiram, aliás, a linha tradicional dos ensinamentos superiores, das revelações dadas ao homem em todos os tempos, pelas forças do Alto. Todas as religiões afirmam o caráter imortalista do homem e as ordens ocultas e esotéricas do passado, algumas das quais ainda sobrevivem, também ensinaram sempre a mesma coisa. A revelação espírita não fugiu a essa norma geral e o simples fato dessa concordância nos faz pensar na possibilidade de se tratar de um fato real.

Do ponto de vista espírita, entretanto, essa questão não tem razão de ser. O Espiritismo não se perde em cogitações dessa natureza, tão semelhante às infindáveis controvérsias escolásticas da idade média. Se não temos recursos para investigar a possibilidade dessa coisa que mal podemos compreender, a imortalidade, que equivale à eternidade, como poderemos manter discussões estéreis a respeito? Basta-nos, evidentemente, saber que há a sobrevivência. E é indiscutível que a sobrevivência nos autoriza a superexistência ilimitada, pelo menos com os seus limites muito além das possibilidades de verificação.

No primeiro capítulo de O Livro dos Espíritos, questão nº 14, título Panteísmo, os espíritos que orientavam Kardec deixaram de maneira clara, bem definida, a posição do Espiritismo em face desses enigmas escolásticos.

Respondendo a uma pergunta do codificador sobre a natureza de Deus, responderam eles:
“Deus existe; disso não podeis duvidar e é o essencial. Crede-me, não avanceis além. Não vos percais num labirinto donde não lograríeis sair. Isso não vos tornaria melhores, antes um pouco mais orgulhosos, pois que acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, pois, de lado todos esses sistemas; tendes muitas coisas que vos tocam mais de perto, a começar por vós mesmos. Estudai as vossas próprias imperfeições, a fim de vos libertardes delas, o que será mais útil do que pretender penetrar no que é impenetrável.”
Afirma a ciência moderna que o homem é limitado na sua capacidade de conhecimento. O Espiritismo concorda com essa afirmação, não procurando iludir-se e iludir os demais a respeito de coisas inverificáveis. A natureza experimental da doutrina não nos permite essas fugas para o mais além. E embora os materialistas nos acusem de desertores, repetindo, como papagaios, que não sabemos enfrentar a realidade, os que se derem ao trabalho de estudar a doutrina verificarão que, pelo contrário, procuramos enfrentar a realidade num sentido muito mais amplo, racional e coerente do que o defendido pelos materialistas.

Basta-nos, pois, verificar o fato, já agora incontestável, da sobrevivência, que continuaremos a chamar de imortalidade porque ela representa, na verdade, a negação da morte.

Aos conceitos pretensamente científicos de imortalidade cósmica, num sentido geral e não individual, opomos o resultado das nossas experiências, que demonstram à saciedade a sobrevivência pessoal. Contra fatos não há argumentos, nem prevalecem os raciocínios, por mais bem tecidos que se nos apresentem.

Os espíritas não inventaram uma explicação para os fenômenos; foram estes mesmos que revelaram a sua natureza íntima. Os próprios espíritos desencarnados se incumbiram de dizer aos homens, por múltiplas formas e em múltiplas ocasiões, dirigindo-se a sábios, filósofos, teólogos e simples curiosos, que eram eles os agentes, conscientes e intencionais, dos fenômenos observados. Eles mesmos se incumbiram de provar que não eram entidades misteriosas, pertencentes a qualquer escala desconhecida de seres infernais ou celestiais, mas simplesmente as almas daqueles que haviam morrido.

Nossa crença na imortalidade pessoal não se baseia, pois, em suposições, mas em fatos concretos, mil vezes repetidos e comprovados, e cuja ocorrência jamais se interrompeu na face da Terra.

A essa convicção, que podemos sem a menor dúvida chamar de científica, pretendem alguns eruditos de hoje opor, em nome da própria investigação científica, o absurdo da imortalidade cósmica, através dos elementos naturais e da sua constante transformação. Não se baseiam, para isso, em nenhuma experiência demonstrativa. Partem apenas da base frágil das suposições, e mais espantoso é que, defendendo os métodos científicos, não se lembram de que toda teoria contraditada pelos fatos não pode subsistir.

Uma das teses mais recentes e perigosas é a de que a imortalidade individual contradiz o princípio da evolução geral. Afirma-se isso com foros de grande e profunda verdade, com a intenção evidente de fechar a porta, de uma vez por todas, a qualquer tentativa de esclarecimento do assunto. Mas temos o direito de perguntar ainda aqui os motivos dessa contradição, e de afirmar justamente o inverso do que pretendem dizer os defensores ilustres desse ponto de vista. Para isso, não precisamos de silogismos de espécie alguma. Basta-nos lembrar que toda a evolução das coisas, ao nosso redor e nas imensas extensões do Universo conhecido, se processa através de um único método, firmado pela natureza em toda parte, sem exceção: o da evolução individual.

Evoluem os espécimes, para que evolua a espécie. Evoluem os homens, evoluem os povos, uns se adiantando aos outros para que evolua a humanidade. Evoluem os elementos, para que evolua a Terra. Evoluem os mundos no espaço para que, certamente, evoluam os sistemas planetários e o próprio cosmos. Por que estranha razão, mais uma vez encontramos o pensamento humano deslocado da ordem geral, no momento em que tem de encarar o problema da própria evolução? Por que misterioso motivo a evolução individual, unicamente no tocante ao problema da sobrevivência, teria de contrariar o princípio da evolução geral? Mistérios, ou melhor, delícias da caturrice humana.

J. Herculano Pires do livro:
O Sentido da Vida
José Herculano Pires, “O metro que melhor mediu Kardec”, como bem definiu Emmanuel.
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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Tudo renasce (Editorial)

 Tudo renasce (Editorial)

J. Herculano Pires


Imagem gerada por IA.

A natureza oferece-nos a lição permanente da ressurreição.

A ida é uma sucessão de ciclos. Nada morre. Nada se acaba. 

Tudo volta na morte aparente e na ressurreição permanente. 

Acontece com os homens, que vão e voltam, na sucessão das gerações.

Os pregoeiros da vida única, condoídos da morte intuitiva, querem separar o homem da natureza, torná-lo criatura marginal na obra de Deus. Mas Deus nos ensina, a cada momento, que nada se acaba, que tudo se renova.

Deus planta-nos os signos das coisas, a ressurreição do dia e da noite; as estações do ano, dos séculos e dos milênios; o ritmo dos vegetais; o ciclo das águas; a rotação da Terra e dos astros.

Tudo nos lembra a renovação constante da vida que jamais perece. A relva rompe-se nas calçadas de pedra e nas lajes dos túmulos. É a vida que renasce triunfante, negando a morte.

A linguagem simbólica de Deus na natureza adverte-nos que nada se acaba, que tudo se transforma, num impulso da evolução.

Uma estrela apaga-se no céu e outra nasce. Mas a visão espiritual, no seio de todas as grandes religiões, proclama em todo o mundo a ressurreição do homem, após a morte, ressuscitando o Espírito, como ensina o apóstolo Paulo, através da reencarnação.

Há duas formas de ressurreição: morremos na Terra para ressuscitarmos na vida espiritual; morremos no mundo dos Espíritos para nascermos no mundo dos homens. Cada nascimento na Terra é uma ressurreição na carne.

“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, essa é a lei”, proclamou Kardec. Hoje o problema da reencarnação é um problema da Ciência, da investigação científica, nos maiores centros culturais do mundo. Nas universidades americanas e nas universidades russas, no ocidente e no oriente, os cientistas pesquisam a reencarnação.

Você crê na reencarnação? Não perca tempo, a reencarnação não é mais uma questão restrita. Estude o problema. Pergunte a você mesmo se é lógico, se é admissível, que tudo renasça, menos o homem. Por que motivo o homem, a mais alta conquista da evolução em nosso Planeta, seria o único ser, a única coisa destinada a perecer quando nada perece?

A cada minuto que passa, entramos no amanhã. A cada passo que damos, o passado fica para trás; estamos na grande viagem do tempo sem fim. O momento presente é o encontro entre o passado e o futuro. Quem se agarrar ao passado perderá a sua vida, a vida atual, o momento presente, carregado de oportunidades para o futuro. Não seja um retrógrado. Abandone na estrada o baú das velharias. Olhe para frente e marche para o mundo.

Mas não pense que o passado esteja perdido. Nada se perde, tudo se transforma. É do passado que nasce o presente.

É do presente que nasce o futuro. Pense bem nisso. Ontem construímos o futuro de hoje. Hoje estamos preparando o que seremos amanhã.

Não lamente o passado e não tenha medo do amanhã.

Na verdade, o amanhã está em suas mãos, você pode fazê-lo como quiser. Um amanhã carregado de folhas mortas ou de um verde florido, como a primavera; feche os olhos um pouco e se lembre de ontem. Veja bem: foi no ontem que você preparou o hoje. Tudo de bom que você fez ontem é a alegria e a bondade no hoje que você está vivendo. Tudo de mal que você fez ontem é a maldade do hoje que lhe atormenta.

Tudo o que você fez hoje vai modelar, daqui a pouco, o amanhã, o que você será amanhã, que chega a cada instante.

Nada se perde. Tudo se transforma, em nossas mãos. Não tenha medo de você. Pense no Mestre e Senhor. Porque Ele disse: “Quem se apega à sua vida, perdê-la-á. E quem a perder por amor de mim, encontrá-la-á.”

Guarde no caminho o baú das velharias. O caminho de hoje está cheio de esperanças. Colha no hoje as flores do amanhã. Não alimente as nuvens de desgraça e da maldade, porque elas se acumularão no seu horizonte, ameaçando temporais. Pense no céu azul que lhe espera, além da linha do horizonte. E marche confiante para o amanhã.

J. Herculano Pires do livro:
No Limiar do Amanhã (Editorial)

Trecho da contracapa do livro - No limiar do Amanhã: 
José Herculano Pires, “o metro que melhor mediu Kardec”, como bem definiu Emmanuel, apresentou na Rádio Mulher de São Paulo o programa: No Limiar do Amanhã, constituído por aulas de Doutrina Espírita. 
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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Necessidade do estudo de Kardec para discernimento doutrinário

Necessidade do estudo de Kardec para discernimento doutrinário

J. Herculano Pires



Confusões intencionais e não intencionais, lançadas nos meios espíritas – O problema umbandista – Mensagens de Ramatís.
Há muitas confusões, feitas intencionalmente ou não, entre o Espiritismo e numerosas formas de crendice popular, inclusive as formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, hoje largamente difundidas. Adversários da doutrina espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões, com o fim de afastar do Espiritismo as pessoas cultas. Por outro lado, alguns espíritas mal orientados, que não conhecem a própria doutrina, colaboram nesse trabalho de confusão, admitindo como doutrinárias as mais estranhas manifestações mediúnicas e as mais evidentes mistificações.

Alguns leitores se mostram justamente alarmados com a larga aceitação que vêm tendo, em certos meios doutrinários, práticas de Umbanda e comunicações de Ramatís. E nos escrevem a respeito, pedindo uma palavra nossa sobre esses assuntos. Na verdade, já escrevemos numerosas crônicas tratando da necessidade de vigilância nos meios espíritas, de maior e mais seguro conhecimento dos nossos princípios, e apontando os perigos decorrentes do entusiasmo fácil, da aceitação apressada de certas inovações.

Mas, para atender às solicitações, voltaremos hoje ao assunto.

Kardec dizia, como muita razão, que os adeptos demasiado entusiastas são mais perigosos para a doutrina do que os próprios adversários. Porque estes, combatendo o que não conhecem, evidenciam a própria fraqueza e contribuem para o esclarecimento do povo, enquanto os adeptos de entusiasmo fácil comprometem a causa. O que estamos vendo hoje, no meio espírita brasileiro, não é mais do que a confirmação dessa assertiva do codificador. Espíritas demasiado entusiastas estão sempre prontos a receber qualquer “nova revelação” que lhes seja oferecida e a divulgá-la sofregamente, como verdades incontestáveis. Que diferença entre o equilíbrio e a ponderação de Kardec e essa afoiteza inútil e prejudicial!

No tocante à Umbanda, já dissemos aqui, numerosas vezes, que se trata de uma forma de sincretismo religioso, ou seja, de mistura de religiões e cultos, com a qual o Espiritismo nada tem a ver. As formas de sincretismo religioso são, praticamente, as nebulosas sociais de que nascem as novas religiões. A Umbanda já superou a fase inicial de nebulosa, estando agora em plena fase de condensação. É por isso que ela de difunde com mais intensidade.

Já se pode dizer que é uma nova religião, formada com elementos das crenças africanas e indígenas, misturados a crenças e formas de culto do catolicismo e do islamismo em franco desenvolvimento entre nós. O Espiritismo não participou da sua formação, embora os nossos sociólogos, em geral, exatamente por desconhecerem o Espiritismo, digam o contrário, pois confundem o mediunismo primitivo, de origem africana e indígena, com os princípios de uma doutrina moderna. Nós, espíritas, devemos respeitar na Umbanda uma religião nascente, mas não podemos admitir confusões entre as suas práticas sincréticas e as práticas espíritas.

Quanto às mensagens de Ramatís, também já tivemos ocasião de declarar que se trata de mensagens mediúnicas a serem examinadas. De nossa parte, consideramo-las como mensagens confusas, dogmáticas, vazadas na linguagem típica dos espíritos pseudossábios, a que Kardec se refere na escala espírita de O Livro dos Espíritos. Cheias de afirmações absurdas e até mesmo contraditórias, essas mensagens revelam uma fonte que devia ser encarada com menos entusiasmo e com mais cautela pelos espíritas.

Em geral, nossos confrades se entusiasmam com “as novas revelações” aparentemente contidas nas mesmas, esquecendo-se de passá-las, como aconselhava Kardec, pelo crivo da razão.

O que temos de aconselhar a todos, pelo menos a todos os que nos consultam a respeito, é mais leitura e mais estudo de Kardec, e menos atenção a espíritos que tudo sabem e a tudo respondem com tanta facilidade, usando sempre uma linguagem envolvente, em que nem todos sabem dividir a verdade do erro.

“O Espiritismo”, dizia Cairbar Schutel, “é uma questão de bom senso”.

Procuremos andar de maneira sensata, na aceitação de mensagens mediúnicas.

J. Herculano Pires do livro:
O Mistério do Bem e do Mal

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Desfiguração do Cristo

A Desfiguração do Cristo

J. Herculano Pires


A Transfiguração no Tabor, a Ressurreição, o momento que acompanhou os discípulos no caminho do Emaús e a sua ascensão em Betânia, são episódios que causaram entusiasmo entre os mitólogos, naturalmente interessados em provar que Jesus de Nazaré era simplesmente um mito. A sensação de realidade que possuímos da nossa própria integridade física, o hábito de nos apoiarmos na realidade perceptível como garantia da veracidade da nossa própria existência e a ilusão da constância de nossa forma física, levam-nos a considerar o que se apresenta como instável e mutante na condição de simples ilusão. A fantasia, o sonho, o mito, nada mais são do que elementos imaginários que se inserem fugazmente no duro mundo concreto da existência. Não obstante, sabemos que a existência, segundo a definição das Filosofias Existenciais da atualidade, é puramente subjetiva. Nós mesmos, nesse caso, somos irrealidades ideais que nos inserimos furtivamente na realidade objetiva. As metamorfoses de Jesus não diferem daquelas porque passamos em nossa própria vida.

Na Ressurreição, Madalena não reconhece de imediato a presença de Jesus e o confunde com o jardineiro. Tomé recusa-se a aceitar a veracidade das manifestações do Senhor no Cenáculo das reuniões apostólicas e só se convence ao tocar as chagas da crucificação. Os discípulos de Emaús só reconhecem o Mestre, que para eles estava morto, no ato de partir o pão, quando ele se identifica pelos gestos e a atitude. O mesmo acontecerá com os discípulos a caminho da Galileia. Mas a ascensão em Betânia mostra-se tão carregada de elementos míticos, que só hoje pode ser encarada como parcialmente verídica, graças ao conceito de paranormalidade e às novas leis descobertas no campo da fenomenologia de ordem física. Sem o conceito atual do corpo-bioplásmico, que confirma a tese cristã do corpo espiritual e a descoberta espírita do perispírito, no século passado, não poderíamos admitir o episódio da ascensão em termos de realidade visível. Também no episódio do Tabor, com a presença de Elias e Moisés ao lado de Jesus, tudo não passaria de uma alucinação mística de natureza estritamente simbólica. Mas as pesquisas metapsíquicas e parapsicológicas do nosso tempo revalidam a realidade do episódio, sem com isso negar a presença, no mesmo, de elementos míticos decorrentes de funções dos arquétipos do inconsciente.

Ao lado desses episódios, que têm hoje o apoio das novas descobertas científicas, aparecem outros que se caracterizam como inapelavelmente mitológicos. Guignebert, que considera o episódio da Paixão como tipicamente histórico, bem enquadrado na realidade do tempo, repele a interpretação do mesmo pelos gnósticos-docetas, no primeiro século. Segundo estes, a estranha figura de Simão Cireneu, que chega do campo e ajuda Jesus a carregar a cruz até o Calvário toma as feições e o aspecto geral de Jesus, enquanto este se revestia de todo o aspecto do camponês piedoso. Dessa maneira, chegando ao Monte das Oliveiras, os soldados incumbidos da execução crucificaram o Cireneu em lugar de Jesus, que tranquilamente deixou a sua imagem na cruz e se retirou para surpreender os seus apóstolos e discípulos com a sua pretensa ressurreição. Os docetas sustentavam que Jesus não tinha realidade física, que o seu corpo era apenas aparente. Sua posição contrariava as teses da encarnação do Cristo, apresentando-o como uma espécie de deus mitológico, sob a influência das ideias helenísticas. O Docetismo exerceu grande influência em Alexandria, propagando-se a Éfeso, onde o Apóstolo João instalara a sua Escola Cristã. João refutou a tese doceta como herética, pois além de não corresponder à realidade histórica, transformava o Cristo num falsário. Renan conta um curioso episódio em que João se dirige com seus discípulos ao balneário público de Éfeso, e ali chegando volta com os discípulos, dizendo-lhes: “O balneário vai cair, pois lá se encontra Cerinto, o maior dos mentirosos”. Cerinto era um dos introdutores do Docetismo em Éfeso.

Essa teoria absurda reapareceu na França, através de uma obra confusa e carregada de pesado misticismo ridicularizante. Um advogado de Bordeaux, Jean Baptiste Roustaing, elaborou essa obra através de comunicações mediúnicas atribuídas a Moisés, João Batista, os Apóstolos e os Evangelistas. Um grupo místico do Rio de Janeiro adotou com entusiasmo essa obra, conseguindo apossar-se da Federação Espírita Brasileira, e até hoje a propaga e sustenta, contra a maioria das instituições espíritas do Brasil e do mundo. É inacreditável o fanatismo dos roustainguistas, o que se justifica pela sua mentalidade antirracional, apegada aos resíduos do passado mágico e mitológico, portanto contrária à posição racional do Cristianismo e do Espiritismo. Esses defensores do absurdo chegam ao cúmulo de citar a obra mistificadora, Os Quatro Evangelhos, como uma das dez obras mais importantes da literatura mundial, e Roustaing, como uma das dez maiores figuras da Humanidade. Kardec condenou essa obra, o que provocou um revide de Roustaing.

Ao episódio do Tabor, cujo relato evangélico apresenta todas as condições de um fenômeno paranormal, inclusive com atitude dos apóstolos, que sugere a doação de energias ectoplásmicas para a aparição de Elias e Moisés, a fábula dos docetas (como o Apóstolo Paulo a classificou) apresenta-se como uma das mais estranhas desfigurações do Cristo. Essas desfigurações forneceram elementos ricos e valiosos aos mitólogos para negarem a existência real e histórica de Jesus de Nazaré, como o fizeram Artur Drews e Georges  Brandis, entre outros. Nas reuniões dos cristãos primitivos, logo após a morte de Jesus, o chamado culto pneumático era constantemente tumultuado pelas manifestações de espíritos turbulentos e grosseiros, que diziam pesados palavrões contra o Messias. O Apóstolo Paulo nos oferece o modelo de um culto pneumático no capítulo intitulado Sobre os Dons Espirituais, em sua I Epístola aos Coríntios. O nome do culto era derivado da palavra grega pneuma, que significa espírito e sopro. Paulo aconselha ordem rigorosa no culto, falando cada profeta por sua vez e permanecendo os outros em oração, precisamente para evitar a interferência de manifestações agressivas. O profeta era o que hoje chamamos médiuns, os intermediários entre os espíritos e os homens. Como haviam muitas comunicações em línguas estranhas, como as ocorridas no Pentecoste, Paulo recomenda que ninguém aceitasse comunicações em língua que ninguém da mesa conhecesse, pois, sem poder traduzi-las, a manifestação não serviria para ninguém. Esses cuidados permanecem no Espiritismo, e muitas sessões mediúnicas seguem a orientação paulina. Não obstante, a situação hoje é diferente, pois a mediunidade, profundamente estudada e pesquisada, em todo o mundo, pode agora ser mais bem controlada. As sessões mais proveitosas e produtivas são aquelas em que há maior liberdade, proporcionando o diálogo entre espíritos comunicantes, para maior elucidação dos problemas em causa. Vários doutrinadores entram em ação, de maneira que os médiuns presentes são mais bem aproveitados. Ainda hoje aparecem, em menor número e com menos violência, espíritos agressivos que repelem o Cristo. Esse fato é importante porque mostra a continuidade do culto pneumático e a insistência dos espíritos inferiores na desfiguração do Cristo, que chegam a chamar ainda de embusteiro. São esses os espíritos da mentira, em oposição aos espíritos da Verdade, que procuram esclarecer e orientar as entidades malfeitoras.

O interesse em desfigurar o Cristo vem dos planos inferiores do mundo espiritual e se manifestam de várias formas: pelas comunicações mediúnicas inferiores, pelas intuições dadas a adeptos do Cristianismo e do Espiritismo para introduzirem teorias e práticas ridicularizantes no meio doutrinário, sempre atribuindo a Jesus posições, palavras e atitudes que o coloquem em situação crítica pelas pessoas de bom senso. Para isso, as entidades mistificadoras se aproveitam da ignorância e da vaidade de criaturas desprevenidas, da autossuficiência de criaturas autoritárias e arrogantes, que facilmente se deixam levar por elogios e posições lisonjeiras que podem exaltá-las na instituição a que pertencem.

A gigantesca luta empreendida pelo Apóstolo Paulo, após a sua conversão, para preservar a pureza dos ensinos de Jesus e da sua excelsa figura, em meio aos próprios apóstolos do Mestre, revela de maneira eloquente, a dificuldade dos homens para compreenderem a Verdade Cristã. Os apóstolos judaizantes, como ele os chamou, e entre os quais se encontrava o próprio Simão Pedro, pode nos dar a ideia do que realmente se passa nesse caso, para não cairmos também em interpretações místicas de uma situação natural, proveniente da falibilidade humana. Não se trata de nenhum mistério, de uma potência satânica a espreitar-nos nas trevas, de um Reino do Diabo a combater o Reino de Deus, de uma figura assustadora do Anticristo a lutar contra o Cristo. O próprio episódio evangélico da tentação de Jesus no deserto, pelo Diabo em pessoa, revela-nos o seu sentido alegórico no fato incontestável de que a tentação era provocada em Jesus por insinuações lisonjeiras. A condição humana de que ele se investira, para viver entre os homens e falar-lhes como homem, o sujeitava naturalmente à fascinação das ilusões terrenas. Jesus meditava sobre a missão difícil que ia realizar, cheia de perigos evidentes, e na meditação se infiltravam naturalmente as opções da fuga. Em todas as grandes religiões encontramos figuras diversas dessa luta, em que o espírito superior enfrenta as solicitações do plano inferior e precisa vencê-las para não fracassar nas batalhas que vai travar. Na História de Buda, surge a alegoria das tentações no momento em que ele se senta sob a árvore da meditação. No Islamismo temos o exemplo do que pode acontecer ao espírito que se deixa vencer. A guerra incruenta do espírito para ajudar o homem a elevar-se, transforma-se no domínio absoluto da espada e do alfange, desencadeando a terrível guerra do Islã, em que o Cristianismo, de cujas entranhas nasceu o Islamismo, se converte no inimigo a ser derrotado pela força das armas.

Cada forma de vida tem as suas leis, constitui-se de um vasto e profundo sistema de ações e reações, causas e efeitos que formam a teia de aranha em que a própria aranha se enrosca para poder viver. Essa teia pode ser definida como um campo estruturado de forças a que o espírito se imanta e ali permanece subjugado pelas forças gravitacionais do campo. A lei de inércia, que mantém a estabilidade das coisas e dos seres, no processo de conservação, tange na pedra que repousa no chão, quanto no espírito que repousa em seu próprio modo de ser. Essa lei não é má nem diabólica, é natural e faz parte do processo evolutivo. Mas a mente humana, com sua tendência antropomórfica, reveste os seus efeitos de características humanas. O mito do Diabo não é mais do que uma forma do antropomorfismo que se infiltra em todas as nossas fases de transição para planos superiores do espírito.

Por isso, Jesus preceituou: “Vigiai e orai”. A vigilância se exerce primeiro em nós mesmos, em nosso íntimo, e a seguir na relação social. Depois do episódio da estrada de Damasco, Paulo recolheu-se à meditação no deserto para reestruturar a sua situação espiritual, profundamente abalada pelo terremoto psíquico e emocional do encontro com Cristo. Só então poderia voltar à ação, às atividades do seu apostolado, que o Cristo transformara de judeu a cristão. Muitas vezes sentiria ainda os impulsos anteriores influindo na sua nova conduta. Muito teria de lutar para não cair de novo no campo estruturado e sempre ativo dos seus condicionamentos. E que enfrentou fracassos não há dúvidas, pois ele mesmo clamou: “Miserável homem sou, que não faço o bem que quero, mas o mal que não quero!” Tinha um espinho na carne, segundo declarava, e um espinho inquietante que os outros viam e comentavam. Mas a sua intenção firme de vencer, a sua convicção da realidade espiritual do Cristo e a sua vontade em permanente tensão o levariam à vitória sobre o Diabo, sobre as forças retrógradas em atividade no seu íntimo. Venceu galhardamente no tocante a si mesmo, na batalha interna. Mas no campo das atividades externas, não conseguiu livrar-se de condicionamentos judaicos enraizados, que o levaram a tomar uma posição negativa no tocante às mulheres (sempre mantidas na área da submissão escravagista) e no tocante à Doutrina cristã, que enredou na sistemática da Igreja, tendo mesmo fundado a Igreja Cristã independente em Antioquia, com sua incipiente hierarquia sacerdotal. Não conseguiu perceber o sentido profundo da renovação cristã, o significado interior da liberdade em Cristo, e nem foi ele – nem Jesus, nem Pedro – o fundador da religião que deformaria totalmente o Cristianismo do Cristo.

Claro que a instrução de Paulo não era essa. Ele sonhava com um Cristianismo puro, severo, bem estruturado, com a disciplina judaica do Templo, sustentando a Verdade cristã num mundo indisciplinado que devia organizar-se na ordem da moral cristã. Seu erro foi justamente esse. Jesus de Nazaré nunca mostrara interesse pela pompa e a disciplina fria do Templo. Como afirma Guignebert, ele não queria fundar nenhuma religião e nenhuma Igreja. Jesus falava às almas, não aos robôs das instituições sociais. Não pretendia organizar exércitos poderosos para Iavé, que já perdera os seus para o furioso Júpiter Capitolino. Não queria tropas ao seu serviço, mas rebanhos pastando nos campos ao alvorecer. Queria a terra florida com a germinação das suas palavras. O Cristianismo não surgia como religião formal, mas como a pura essência da Verdade. Um movimento de almas, não de corpos materiais animalizados e atrelados ao carro dos poderosos. Paulo, que se formara na disciplina farisaica, não podia compreender esse anarquismo do espírito, que antes lhe parecia vagabundagem, indisciplina, sonho irrealizável de um poeta inspirado nas utopias platônicas. Não lhe passaria pela mente dizer isso de Cristo. Assim, Cristo só poderia desejar a estruturação de uma Igreja forte e poderosa, insuflada pelo sopro do espírito messiânico. A fracassada tentativa dos Apóstolos, com o velho Pedro à frente, de organizar a comunidade descrita no Livro de Atos, comprovava isso de maneira absoluta. Paulo quis e fundou a Igreja em Antioquia, mas os romanos deram a cadeira que lhe pertencia ao velho Pedro.

Era muito importante, naquele tempo, falar em Cristo Crucificado, porque essa imagem chocante mostrava Jesus como vítima da maldade humana, particularmente dos poderosos da Terra. A simples menção desse nome, despertava a lembrança do conluio judeu-romano para esmagar as esperanças de Israel. Hoje essa expressão soa falsa, pois o Cristo desfigurado aparece também como Rei, como um mito grego, como uma divindade da magia primitiva, que sacerdotes paramentados podem obrigar a se transubstanciar nas espécies materiais de uma forma sacramental. Hoje, além disso, o Cristo Crucificado aparece como instrumento dócil de demagogia política, símbolo de perseguições religiosas, de fogueiras assassinas, de guerras violentas, de mentiras interesseiras pregadas ao povo através de dois milênios de incessante deformação de sua figura
humana e de sua doutrina de justiça e amor.

Hoje só existe um símbolo para o Cristo: o da Ressurreição. Provada cientificamente a existência do corpo espiritual, provada a continuidade da vida triunfante após a morte, provada a herança de Deus na imensidade do Cosmos povoado de mundos, provada a ineficácia das instituições religiosas e seus métodos para levar os homens a Deus, pois que a maioria se afastou de Deus e o considera como superstição estúpida, só a figura do Cristo Ressuscitado, triunfando sobre a veleidade dos poderes terrenos e confirmando em si mesmo a verdade dos seus ensinos, poderá libertar as consciências do apego às coisas perecíveis, dando-lhes a confiança no poder superior do espírito. Se somos espíritos e não apenas um corpo material, e se temos a certeza de que o Cristo continua vivo e a nos inspirar em nossas lutas no caminho do bem, por que cultivarmos a morte e até mesmo as imagens de um cadáver que não foi encontrado no túmulo?

A desfiguração do Cristo atingiu o máximo nessas imagens frias que dormem o ano inteiro nas criptas das Igrejas, à espera do seu enterro anual, com luto, choro e velas acesas. O sadismo humano se revela num automatismo consciencial que o perpetua nas gerações sucessivas. Chegou o momento de compreendermos que o Cristo está diante de nós, na plenitude de sua vida e seu poder, procurando despertar-nos do pesadelo da morte.

J. Herculano Pires do livro:
Revisão do Cristianismo

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Função do egoísmo no desenvolvimento humano

Função do egoísmo no desenvolvimento humano

J. Herculano Pires


Tudo tem a sua utilidade na Natureza. O Universo é teleológico, finalista, busca sempre e em tudo uma finalidade. Os filósofos antifinalistas apoiam suas teorias no erro humano, de todos os tempos, que interpreta a Natureza como criada especialmente para o homem. Esse erro surgiu nas selvas, permaneceu nas civilizações primitivas e projetou-se nas civilizações posteriores. Os próprios deuses e demônios de toda a Antiguidade foram postos ao serviço do homem, que embora os reverenciando, pretendiam utilizá-los como seus auxiliares. O Universo tem, naturalmente, uma finalidade única e superior, em que todas as finalidades se conjugam num resultado único. Mas esse resultado escapa às nossas possibilidades de pesquisa, de compreensão e mesmo de imaginação. A mais inútil das coisas e os mais prejudiciais dos seres são necessários. E ser necessário é ser indispensável, é pertencer a um elo da cadeia inimaginável que Kardec nos apresenta nesta frase tantas vezes repetida no Livro dos Espíritos: Tudo se encadeia no Universo. (Questão 540 de: O Livro dos Espíritos - RDB)

Os problemas ecológicos da atualidade, surgidos com o desenvolvimento tecnológico, deram ênfase à importância da Ecologia, ciência das relações entre sujeito e meio e mesmo entre objeto e meio. O meio físico em que vivemos, com seus elementos naturais configurando determinada situação mesológica humana, é formado por uma infinidade de substituições necessárias à vida vegetal e animal. A ignorância do homem a respeito, tentando aniquilar elementos nocivos do meio, provoca o desencadeamento de desequilíbrios perigosos e até mesmo fatais. Minerais, vegetais e animais considerados perniciosos, quando retirados do meio, revelam a sua função necessária e têm de ser repostos ou substituídos por outros que os compensem. Esse delicado equilíbrio das coisas mínimas apresenta-se também nas coisas máximas, como no jogo de forças que sustentam o equilíbrio planetário o próprio equilíbrio das galáxias no espaço sideral. O mesmo acontece na nossa estrutura corporal, com seus vários aspectos físicos, psíquicos e espirituais. Por isso o Espiritismo é contrário a todas as práticas de mortificação, extinção, asfixia ou desenvolvimento de funções, instintos, percepções e poderes inferiores ou superiores na criatura humana. Esta deve ser respeitada em sua integridade, com seus defeitos, deformações, deficiências e assim por diante, cabendo-nos apenas o direito, que é também dever, de auxiliar as criaturas no seu processo natural de aperfeiçoamento e reajustamento, nos rumos naturais da transcendência. Nem mesmo a mediunidade deve ser desenvolvida por supostas técnicas provindas de tradições místicas ou de invenção de pretensos mestres espirituais. O Espiritismo se opõe a todas essas tentativas imaginosas, que podem levar, como tem levado, muitas pessoas a desequilíbrios graves.

O egoísmo, a vaidade, o orgulho, a pretensão, a ambição representam elementos negativos da constituição do ser humano, que devem ser eliminados. Mas essa eliminação não se dá pelos métodos antigos das corporações religiosas, até hoje empregados, apesar dos terríveis malefícios causados. Kardec e os Espíritos Superiores, em suas comunicações, consideraram o egoísmo como verdadeira praga que impediu o desenvolvimento real do Cristianismo na Terra. Mas jamais aconselharam métodos artificiais para o combate ao egoísmo. As penitências, os cilícios, o isolamento, as autoflagelações de toda espécie tornaram mais negra a Idade Média e ainda hoje se escondem nas furnas da ignorância religiosa que só serviram para desequilibrar milhões de criaturas que constituem o triste e pesado legado da Antiguidade para nosso tempo. São Tomaz de Aquino advertiu: "Mães, vossos filhos são cavalos", e a educação das crianças transformou-se em domesticação, processo esmagador da sensibilidade infantil e das esperanças da adolescência. Gerações recalcadas saíram das estrebarias escolares em que os mestres domavam crianças e jovens a pancadas e castigos brutais, para moldá-los segundo os modelos estabelecidos à formação de multidões padronizadas. Todos nós carregamos ainda as marcas profundas e dolorosas, deformantes, do relacionamento humano na Terra. Com a caridade os homens vão aprendendo a sair do egoísmo para o altruísmo, a não pensar, apenas nos seus problemas particulares, a não dividir o seu tempo e bem-estar apenas com os familiares, mas levar um pouco de si mesmos e dos seus recursos para a família maior que sofre lá fora. É essa a finalidade do princípio cristão da caridade no Espiritismo. Por isso a caridade espírita não pode cercar-se de barreiras e dificuldades, de exigências e desconfianças. Deve ser ampla e generosa, acessível a todos, evitando constranger ou humilhar os que a recebem. O ego é como uma flor que primeiro se fecha no botão para depois desabrochar na corola e por fim doar-se nos frutos.

Tentemos visualizar o processo de formação do ego, para compreendermos a função do egoísmo. A dialética espírita nos ensina que o espírito (não individualizado, mas como o elemento espiritual catalisador, capaz de atrair e aglutinar a matéria esparsa no espaço) liga-se à matéria para lhe dar forma, estrutura. Podemos seguir esse processo no caso humano, em que o ego aparece como um pivô da personalidade em formação, desde a infância. A criança é egocêntrica, é um pivô em torno do qual giram as atenções e as afeições da família. Ela se torna, naturalmente, no centro do mundo. Porque esse é o meio de consolidação da sua individualidade. Tudo quanto ela atrai e absorve do ambiente, do exemplo familial, das relações progressivas na escola e nos brinquedos, é automaticamente centralizado no ego, que é o seu ponto interior de segurança ante a dispersividade do mundo. O botão fechado centraliza as suas energias, preparando o momento de abrir-se na corola colorida e perfumada. Essa a primeira função do ego, e essa função não é egoísta, mas centralizadora por necessidade de estruturação interna. Quando essa estruturação se define como tal, a criança se abre timidamente para oferecer ao mundo a sua contribuição inicial de beleza e ternura. É um novo ser que surge no mundo, vestido com a roupagem da inocência, como diz Kardec, e ao mesmo tempo trazendo a incógnita de um passado que se revelava pouco a pouco no esquema de um destino com ideias e hábitos negativos que nos foram impostos à força milênios de brutalidade civilizadora. Por isso o nosso tempo, em que tomamos consciência do absurdo desse massacre universal realizado em nome de Deus, mostra-se dominado por inquietações e desesperos, revolta e loucura, psicopatias e obsessões que levam a espécie humana a todos os desvarios e ao suicídio individual e coletivo. Temos de examinar essa situação à luz do Evangelho desfigurado e mal interpretado, muitas vezes contraditado frontalmente pelas teologias do absurdo. E temos de confrontar esse mundo-hospício, em que a loucura mansa dos clérigos e dos fascinados pela mentira consciente ou inconsciente é a mais perigosa de todas, gerando a hipocrisia das vozes impostadas e do comportamento social simulado. A simulação na luta pela vida, estudada por Igenieros num livro assustador, é o sintoma mais evidente das condições patológicas do homem atual, que se tornou num ego atrofiado, por isso mesmo vazio e faminto, que tudo quer exclusivamente para si mesmo. E isso a tal ponto que a palavra caridade, definida pelo Apóstolo Paulo numa síntese insuperável e adotada por Kardec como o fundamento da evolução humana, transformou-se na linguagem atual num sinônimo de hipocrisia. No próprio meio espírita encontramos os desavisados que condenam essa palavra, sem lhe aprofundarem o sentido. E há os que pretendem disciplinar a caridade, fiscalizar o seu aproveitamento pelo beneficiados e obrigá-los a determinadas exigências para socorrê-los. Há também os que alegam a inutilidade dessa forma de ajuda. Esses não pensam no bem que uma palavra amiga e confortadora, uma visita de solidariedade, um socorro de emergência a quem está desprovido de roupas para enfrentar o inverno ou de remédio para uma chaga, podem representar. A caridade espírita não é esmola, é doação de amor, solidariedade humana que vale não só pelo amparo material, mas acima de tudo pelo conforto da relação humana. Sua prática não tem por finalidade sanar os males sociais com remendos eventuais, mas mudar as formas egoístas da relação humana na Terra, ampliando-a e aprofundando-a nas dimensões superiores do altruísmo. Nesse estranho panorama de castas privilegiadas, povo necessitado e multidões miseráveis, o Espiritismo considera a mecânica da caridade como o instrumento ideal para abrir corações, despertar consciências e alentar esperanças. As ideologias políticas apresentam fórmulas de efeitos superficiais e na reforma muitas vezes penosas de estruturas, mas o Espiritismo restabelece a técnica simples do Cristo, que toca o íntimo das criaturas para atingir as causas profundas dos desajustes. Em cada reencarnação o ser repete ao mesmo tempo a filogênese material e espiritual do homem, no desenvolvimento do embrião e na abertura progressiva do egoísmo no meio social. Vejamos os vetores desse processo duplo nas linhas da transcendência:

a) Na magia do amor, reminiscência das atrações misteriosas na selva, o par humano se liga sob a impulsão dos instintos reprodutores e os genes se fundem no ventre materno produzindo o embrião, síntese das formas animais superadas pela espécie. A recapitulação genésica reintegra o espírito na linha filogenética e restabelece o pivô do ego em seu poder centralizador. Na gestação, o paralelismo psicofísico reordena s forças da evolução nos rumos da ascenção. A forma humana resulta das formas anteriores na sublimação do caos instintivo e sua hereditariedade psicobiológica. O espírito ligado ao caos exerce as funções discriminadoras na conformação do novo ser, disciplinando as energias conscienciais que marcam as conquistas do passado e as autopunições de erros e crimes anteriores. A Providência Divina envolve o novo ser em sua bênção com aparência da inocência, que lhe permitirá atrair a afeição dos familiares no restabelecimento de afetividades perturbadas ou aprofundamento das afeições sobreviventes. O novo cérebro está virgem como a tabula rasa dos empiristas ingleses, pronto a gravar um novo rol de lembranças na nova memória em organização. No arquivo do inconsciente (nessa consciência subliminar de Myers) as heranças válidas permanecem ocultas, mas prontas a emergir na consciência de relação pelo mecanismo das associações de ideias e sentimentos.

b) Vencida a etapa uterina e a primeira infância, o ser se mostra pronto a enfrentar as vicissitudes de uma nova existência. Recobrou sua vida terrena nas entranhas da mãe, sob as influências psicofisiológicas do organismo gerador de seu novo corpo. Revela anomalias ou perfeição física e mental, segundo o seu passado. É de novo o centro do mundo e traz em si mesmo os fatores de seu desenvolvimento e amadurecimento. No lar, esses fatores se manifestam desde logo mas vão sofrer as influências modificadoras da família e da escola, para o seu ajuste necessário às novas condições de vida. O instinto de imitação lhe favorece a adaptação ao novo mundo. O ego centralizado volta a abrir-se nessas relações primárias, através do desenvolvimento da afetividade em termos eletivos. Suas preferências são ainda impulsivas, provocadas por fatores ambientais e circunstanciais, mas pouco a pouco se define a linha preferencial da razão em desenvolvimento, revelando as afinidades ocultas. O ser toma pé na realidade e manifesta as suas tendências vocacionais. E o momento de reintegração nos esquemas frustrados do passado ou de renovação do esquema em face das novas exigências da realidade nova.

c) A crise da adolescência vai revelar em breve a posição ôntica precisa ou indecisa do novo ser, herdeiro de si mesmo e das contribuições paternas e maternas, familiais e sociais, excitadas pelo meio cultural e reorientadas pela influência espiritual das entidades espirituais que protegem e o assistem constantemente. Está completa a tarefa da ressurreição na carne. Daí por diante, o novo destino do ser na transcendência dependerá de sua própria consciência. Ele está preparado e aparelhado para enfrentar os problemas da juventude e suas graves opções, da madureza e seus desafios, da velhice e sua recapitulação de toda a odisseia existencial que deve tê-lo elevado acima do passado no processo irreversível da transcendência. O egoísmo do adulto será a marca de um distúrbio psíquico: o infantilismo. O altruísmo será o troféu conquistado da sua vitória na escalada evolutiva.

Seu regresso à vida espiritual o colocará em face de sua verdadeira situação. Será certamente um vitorioso em muitos aspectos de sua personalidade, mas o fracasso na transcendência do egoísmo lhe mostrará que todas as conquistas secundárias não podem compensá-lo. Terá de voltar à existência terrena em reencarnações de abnegação forçada, não compulsórias, mas de sua própria escolha, para conseguir a superação difícil do apego a si mesmo. Por sua própria natureza de elemento centralizador da estrutura ôntica, responsável pela sua unidade, o ego é a grande barreira contra a qual se. quebram os impulsos da transcendência. Seu solipsismo tautológico o transforma numa viragem do espírito, imantando-o a si mesmo. A parábola do moço rico, no Evangelho, dá-nos o mais claro exemplo do apego ao mundo gerado pelo egoísmo nos Espíritos que se deixam fascinar pelas ilusões materiais. O ego gera as falsas ideias de superestimação individual, de segregação do indivíduo e sua grei, considerando os demais como estranhos e impuros. Age como um centro hipnótico absorvente, impedindo o ser de abrir-se no altruísmo, fechando-lhe o entendimento para tudo o que não se refira aos seus interesses individuais. A vaidade, a arrogância, a prepotência, a insolência, a brutalidade formam no cortejo de estupidez das pessoas egoístas e dos Espíritos egoístas.

Por isso, o Espiritismo proclama a caridade como a virtude libertadora, fora da qual não há salvação para o homem do mundo. A mecânica da caridade pode ser desencadeada, no homem do mundo, por situações aflitivas; de saúde ou de problemas familiais ou financeiros, levando-o a dar, não raro por vaidade, a primeira moeda a um mendigo. Essa doação insignificante abre uma pequena brecha no egoísmo. A seguir virão outras doações mais generosas, até que a fortaleza do ego se abale e o ser orgulhoso possa perceber a sua própria imagem refletida no espelho doloroso de um rosto de pedinte esfomeado. O Espiritismo nos ensina a dar, além da moeda, o nosso amor à toda a Humanidade, sem discriminações raciais, religiosas, políticas e de espécie alguma. A estrutura social da civilização perfeita não surgirá das mãos dos opressores que tudo prometem, mas das mãos humildes da viúva que depositou a sua moeda pequenina e única no cofre em que os ricos despejaram tesouros para comprar o Céu. 

J. Herculano Pires do livro:
Curso Dinâmico de Espiritismo - O Grande Desconhecido
José Herculano Pires, “o metro que melhor mediu Kardec”, como bem definiu Emmanuel, apresentou na Rádio Mulher de São Paulo o programa: No Limiar do Amanhã, constituído por aulas de Doutrina Espírita. 
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