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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O homem novo

O homem novo

J. Herculano Pires



Para construir um mundo novo precisamos de um homem novo. O mundo está cheio de erros e injustiças porque é a soma dos erros e injustiças dos homens. Todos sabemos que temos de morrer, mas só nos preocupamos com o viver passageiro da Terra. Por isso, a humanidade desencarnada que nos rodeia é ainda mais sofredora e miserável que a encarnada a que pertencemos. "As filas de doentes que eu atendia na vida terrena — diz a mensagem de um espírito — continuam neste lado."

Muita gente estranha que nas sessões espíritas se manifestem tantos espíritos sofredores. Seria de estranhar se apenas se manifestassem espíritos felizes. Basta olharmos ao nosso redor — e também para dentro de nós mesmos — para vermos de que barro é feita a criatura humana em nosso planeta. Fala-se muito em fraude e mistificação no Espiritismo, como se ambas não estivessem em toda parte, onde quer que exista uma criatura humana. Espíritos e médiuns que fraudam são nossos companheiros de plano evolutivo, nossos colegas de fraudes cotidianas.

O Espiritismo está na Terra, em cumprimento à promessa evangélica de Consolador, para consolar os aflitos e oferecer a verdade aos que anseiam por ela. Sua missão é transformar o homem para que o mundo se transforme. Há muita gente querendo fazer o contrário: mudar o mundo para mudar o homem. O Espiritismo ensina que a transformação é conjunta e recíproca, mas tem de começar pelo homem. Enquanto o homem não melhora, o mundo não se transforma. Inútil, pois, apelar para modificações superficiais. Temos de insistir na mudança essencial de nós mesmos.

O homem novo que nos dará um mundo novo é tão velho quanto os ensinos espirituais do mais remoto passado, renovados pelo Evangelho e revividos pelo Espiritismo. Sem amor não há justiça e sem verdade não escaparemos à fraude, à mistificação, à mentira, à traição. O trabalho espírita é a continuação natural e histórica do trabalho cristão que modificou o mundo antigo. Nossa luta é o bom combate do apóstolo Paulo: despertar as consciências e libertar o homem do egoísmo, da vaidade e da ganância.

"Os anos não nos dão experiência nem sabedoria — dizia o vagabundo de Knut Hamsun — mas nos deixam os cabelos horrorosamente grisalhos." É o que vemos no final desse poema bucólico da Noruega que é "Um Vagabundo Toca em Surdina". Knut Hamsun era um individualista e sobretudo um lírico do individualismo. Mas o homem que se abre para o altruísmo sabe que as verdades do indivíduo são geralmente moedas falsas, de circulação restrita. A verdade maior — ou verdadeira — é a que nasce do contexto social, da usina das relações, onde o indivíduo se forma pelo contato com os outros.

Os anos não trazem apenas os cabelos brancos — trazem também a experiência, mestra da vida, e com ela a sabedoria. É no dia a dia da existência que o homem vai modelando aos poucos a sua própria argila, o barro plástico de que Deus formou o seu corpo na Terra. Cada idade, afirmou Léon Denis, tem o seu próprio encanto, a sua própria beleza. É belo ser jovem e temerário, mas talvez seja mais belo ser velho e prudente, iluminado por uma visão da vida que não se fecha no círculo estreito das paixões ilusórias. O homem amadurece com o passar dos anos.

A vida tem as suas estações, já diziam os romanos. À semelhança do ano, ela se divide nas quatro estações da existência que são: a primavera da infância e da adolescência, o verão da mocidade e outono da madureza e o inverno da velhice. Mas também à semelhança dos anos, as vidas se encadeiam no processo da existência, de maneira que as estações se renovam em cada encarnação. Viver, para o individualista, é atravessar os anos de uma existência. Mas viver, para o altruísta, é atravessar as existências palingenésicas, as vidas sucessivas, em direção à sabedoria. O branquear dos cabelos não é mais do que o início das nevadas do inverno. Mas após cada inverno voltará de novo a primavera.

A importância dos anos é, portanto, a mesma das léguas numa caminhada em direção ao futuro. Cada novo ano que surge é para nós, os caminheiros da evolução, uma nova oportunidade de progresso que se abre no horizonte. Entremos no ano novo com a decisão de aproveitá-lo em todos os seus recursos. Não desprezemos a riqueza dos seus minutos, das suas horas, dos seus dias, dos seus meses. Cada um desses fragmentos do ano constitui uma parte da herança de Deus que nos caberá no futuro.

J. Herculano Pires do livro:
O Homem Novo

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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Desaparece o sectarismo a medida que se desenvolve o cristianismo

Desaparece o sectarismo a medida que se desenvolve o cristianismo

J. Herculano Pires

Dos grupos primitivos ao universalismo cristão — Porção de fermento numa medida de farinha — Construção de um mundo sem barreiras.

O sectarismo religioso, como todo sectarismo, não é mais que um resíduo das fases primitivas da evolução humana. Porque a humanidade se desenvolveu através de formas grupais, fechadas em seus sistemas próprios, egoístas e isolacionistas. Grupos humanos como a família, o clã, a tribo, e posteriormente as cidades, as nações, eram organismos que se fechavam em si mesmos, hostis aos demais, apegados a sistemas de defesa que o instinto de conservação originava e aguçava. Esse mesmo espírito egoísta, que se baseava na natureza animal e na estreiteza mental dos homens, caracterizou as religiões, as linhagens familiares, os agrupamentos políticos, e ainda em nossos dias ofereceu-nos o doloroso espetáculo do racismo nazista.

À proporção, porém, em que a humanidade evolui, o espírito humano se alarga, superando barreiras e destruindo fronteiras. O homem se universaliza. Sua mente se abre a uma compreensão mais ampla do mundo. Seu coração, como um botão de flor que desabrocha, distende as fibras no sentimento universal do amor. Para o homem tribal, somente os da sua tribo eram gente, todos os demais não passavam de "inimigos". Para o racista, só os da sua raça têm valor. Para o sectarista, só os da sua seita prestam, só eles estão certos e merecem a proteção de Deus. No Cristianismo, concepção universalista do mundo, esse resíduo de épocas primitivas ainda conseguiu medrar, provocando os terríveis morticínios religiosos que enegrecem a história humana. Porque a natureza do homem não cede com facilidade às influências renovadoras. Já no Espiritismo, porém, não é possível permitirmos a continuidade desses sentimentos negativos.

O espírito sectário é a negação dos princípios cristãos, e por conseguinte a negação dos princípios espíritas, que revivem no mundo moderno os ensinos de Jesus e da era apostólica. Fazer do Espiritismo uma seita é asfixiar os princípios doutrinários. Foi por isso, e tendo em vista o universalismo da ciência, que Kardec insistiu na natureza científica da doutrina. Apresentar o Espiritismo como uma religião equivaleria a atirá-lo imediatamente nas lutas sectárias da época. Apresentando-o como ciência, Kardec o tornava acessível a todos. Como vemos, entretanto, nos seus livros, e particularmente em "O que é o Espiritismo", "A Gênese" e "O Evangelho Segundo o Espiritismo", a concepção de Kardec era muito mais ampla, entendendo o Espiritismo como uma revelação de tríplice aspecto: científica, filosófica e religiosa.

O Cristianismo é um lento, grandioso e profundo processo de reforma do mundo. Jesus definiu a sua função ao se referir à porção de fermento que colocamos numa medida de farinha, para fazê-la levedar. Durante quase dois mil anos o fermento cristão levedou a pesada farinha do mundo, misturando-se a ela, penetrando-a, absorvendo-a. Mas chegaria o momento decisivo desse processo, em que o fermento cristão revelaria a sua verdadeira natureza. Esse momento está anunciado no Evangelho de João: é o do Consolador, do Espírito da Verdade, e chegou com o Espiritismo. A era espírita, em cujo segundo século nos encontramos agora, é a continuidade natural da era cristã. A farinha do mundo, dominada pelo fermento cristão, vai perdendo o seu antigo sabor, para adquirir outro. Uma das tonalidades desse antigo sabor, que tem de desaparecer o quanto antes, é exatamente o sectarismo, a atitude mental estreita, que escraviza o homem ao seu ponto de vista exclusivo.

O mundo que o Espiritismo está construindo na Terra, com base nos princípios fundamentais do Cristianismo, é essencialmente universalista, e portanto antissectário. O Espiritismo não se proclama o único meio de salvação humana, nem se diz o detentor exclusivo da verdade. Do ponto de vista espírita, todas as religiões são formas de interpretação da suprema verdade, e todas conduzem o homem a Deus, quando praticadas com sinceridade. O que importa, como dizia Kardec, não é a forma, mas o espírito. De uma vez por todas, os espíritas precisam libertar-se dos resíduos sectaristas, não respondendo no mesmo tom às agressões sectárias de que são vítimas a todo momento. Somente praticando a fraternidade e a tolerância poderemos ajudar a construção do mundo sem barreiras que será o Reino de Deus na Terra.

J. Herculano Pires do livro:
O Homem Novo

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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Lembrava-se a menina de Delhi de ter vivido antes em Mathura

Lembrava-se a menina de Delhi de ter vivido antes em Mathura

J. Herculano Pires


Ilustração; History Channel

Reconheceu o "ex-marido" e o filho da encarnação anterior — Completo reconhecimento da casa em que morava e da cidade — Espanto de um escritor sueco que investigou o caso — Uma princesa egípcia em Londres.

O caso de Shanti Devi, que acaba de produzir nova agitação na Europa, em torno do problema da reencarnação, repercutiu no Brasil, através da transcrição do relato de Peter Forbes no jornal "People", de Londres, que não é um jornal espírita. Shanti Devi era uma menina de Delhi, na Índia, que aos quatro anos de idade começou a revelar recordações de sua vida anterior, declarando ter vivido em Mathura, a muitas léguas de distância da sua cidade natal. O curioso é que a menina dizia ter-se chamado Lugdi Devi, pertencido à casta superior dos brâmanes, a que agora já não pertencia mais, ter sido casada e ter tido um filho. Revelou pleno conhecimento dos hábitos e trajes especiais dos brâmanes, sem que, entretanto, jamais tivesse visto um brâmane.

As revelações de Shanti eram de tal maneira precisas e seguras em seus detalhes, envolvendo nomes de lugares e pessoas, que os seus pais resolveram pedir a dois amigos que fossem a Mathura, a fim de deslindar o mistério. Os amigos foram e constataram a plena veracidade das revelações. Encontraram o viúvo e o filho de Lugdi Devi, o templo a que a menina se referia, o local em que dizia ter-se banhado no rio Jumna, a venda em que fazia suas compras, e tudo o mais. Quando Shanti contava nove anos, seu "ex-marido" e seu filho da encarnação anterior foram visitá-la. Ao vê-los, a menina desmaiou. Depois, voltando a si, mostrou-se tomada da maior alegria, abraçando a ambos com efusão e identificando-se perante o marido nas conversações que mantiveram.

O caso de Shanti Devi envolve particularidades curiosas, inclusive a coincidência de sobrenomes. Os Devi de Delhi não têm parentesco com os de Mathura, pertencendo mesmo a uma casta inferior, pois os de Mathura são brâmanes. A menina foi levada a Mathura, e não só reconheceu todos os lugares em que vivera, como também as pessoas. Visitando a casa que habitara na vida anterior, indicou várias particularidades da residência e lembrou hábitos que o seu "ex-marido" confirmou, admirado, reconhecendo que "Shanti possuía a mesma alma que pertencera à sua falecida mulher", segundo as palavras de Peter Forbes.

Durante muitos anos, o caso de Shanti Devi foi comentado na Índia e no exterior, até que o escritor sueco Sture Lonnestrand resolveu deslindá-lo. Entendia que tudo não passava de uma grande fraude. Foi a Delhi e a Mathura, investigou tudo o que se referia ao caso, conversou com numerosas pessoas, examinou os locais indicados, verificou os relatórios dos investigadores anteriores, e chegou à seguinte conclusão:. "É este o único caso de reencarnação completamente explicado e provado, jamais verificado." Depois disso, Lonnestrand tornou-se um propagandista do caso, provocando intensa agitação na Europa, em torno do assunto. Como William Crookes, César Lombroso, Crawford e tantos outros, que haviam estudado os fenômenos espíritas com o fim de provar a sua falsidade, Lonnestrand submeteu-se à realidade e modificou sua atitude.

Escrevendo a respeito deste caso, na revista inglesa "Two Worlds", o prof. Frederico H. Wood assinalou o exagero de Lonnestrand, ao ter este declarado que se tratava do único caso de reencarnação completamente explicado e provado. "Como todos os recém-convertidos, — disse Wood, — Lonnestrand está excitado pela sua descoberta." E realmente assim é. Porque o caso de Shanti Devi, embora importante, e sobretudo recente, não é o único a apresentar essas características. Há numerosos casos de reencarnação completamente provados, e o leitor curioso poderá encontrar a citação de muitos deles na obra "A Reencarnação e suas provas", de Carlos Imbassahy e Mário Cavalcanti de Mello. O próprio prof. Wood teve oportunidade de investigar, em Londres, um dos mais importantes, publicando a respeito uma obra em dois volumes, intitulada "O Milagre Egípcio". Tratava-se da reencarnação de uma princesa egípcia, do tempo de Amenotep II, na Inglaterra. Caso provado em minúcias, de maneira impressionante, e principalmente através de elementos de alta cultura, como a reconstituição de danças sagradas e da língua egípcia antiga.

E agora mesmo aí está, nas livrarias, a tradução desse curioso livro de Morey Bernstein, "O Caso de Bridey Murphy", que revive as famosas experiências do cel. Albert De Rochas, diretor do Instituto Politécnico de Paris, sobre a regressão hipnótica da memória. Morey Bernstein conseguiu descobrir, na consciência profunda de uma senhora do Colorado, Estados Unidos, a personalidade de uma mulher que vivera na Irlanda, há mais de um século. E as pesquisas a respeito comprovaram grande parte das revelações feitas pela paciente, o que provocou grande agitação em torno do caso. Bernstein conclui o seu livro, muito ponderadamente, reclamando atenção dos estudiosos e dos cientistas para esse problema. Assinalou o caráter pessoal da sua experiência, mas lembrou as anteriores e encareceu a necessidade de trabalhos mais amplos a respeito. O problema da reencarnação, como se vê, não é tão simples como o pretendem os antagonistas do Espiritismo. Tanto através de casos espontâneos, quanto de pesquisas hipnóticas ou de experiências parapsicológicas, a reencarnação vem se afirmando, através dos anos, como uma lei natural. Já não bastam argumentos, contra esse princípio. É preciso um pouco mais, quando alguém quiser combatê-lo.

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sábado, 19 de agosto de 2023

Preconceito contra o Espiritismo

Preconceito contra o Espiritismo

J. Herculano Pires

Ainda existe, em maior escala do que se pensa, o medo do Espiritismo. Há pouco, fomos procurados por uma pessoa que, sentindo evidentes perturbações de origem mediúnica, e tendo percorrido os consultórios de psiquiatria, vira-se obrigada a recorrer aos "recursos espirituais", segundo dizia. Quando soube que não estava tratando com um "espiritualista", mas com um espírita, assustou-se de tal maneira, que viu-se forçada a confessar o seu medo. "Se eu soubesse que o senhor era espírita — declarou — não o teria procurado."

A verdade é que, apesar disso, acabou se convencendo de que o Espiritismo poderia ajudá-la, e mais tarde tornou-se espírita. Mas não foi muito fácil arrancar-lhe da mente o pavor doentio que lhe haviam infundido. Sacerdotes, pessoas da família, amigos e médicos, todos haviam contribuído para que o medo se enraizasse em sua alma. Terrível medo, que a desviava da única solução possível para o seu problema. E o que é mais curioso, a maior contribuição para esse estado de temor foi dado por certas publicações espiritualistas, que apesar de admitirem a reencarnação e a lei de causa-e-efeito, condenam a mediunidade, pintando-a com as mais negras pinceladas.

O preconceito antiespírita assemelha-se muito à prevenção contra o Cristianismo, no mundo antigo. As pessoas que temem o Espiritismo não conhecem a doutrina, dão ao termo aplicações indevidas, perdem-se num cipoal de lendas e suposições a respeito das sessões espíritas. Em geral nos acusam de endemoniados, necromantes, feiticeiros e coisas do mesmo teor, como faziam gregos e romanos com os cristãos primitivos. E essas deturpações do Espiritismo não são apenas orais, correndo entre pessoas simples. Figuram também em publicações eruditas, revistas, jornais, livros de ensaios e estudos, com signatários cultos.

Pitágoras já dizia que a Terra é a morada da opinião. E como a opinião é a coisa mais frívola que existe, a mais incerta e a mais irresponsável, não é de admirar que tanta gente opine sobre o que não conhece. Mesmo entre os letrados, a opinião é um hábito enraizado. Mas é evidente que, quando se trata de uma doutrina espiritual, esposada por tantos homens de projeção no mundo das ciências e do pensamento, em todo o mundo, as pessoas de cultura, ou mesmo de mediana cultura, deviam ter mais cautela ao se manifestarem a respeito. Porque se é livre o direito de opinar, não é menos livre o direito de se julgar o senso de responsabilidade de quem opina.

O maior motivo de temer do Espiritismo é o próprio temor. Ou seja: é a covardia humana, essa terrível covardia que faz os homens estremecerem de horror diante do perigo de mudarem de posição diante da vida e do mundo. O Espiritismo, entretanto, não exige outra mudança, senão a da concepção estreita de uma vida utilitarista e falsa, para a ampla concepção de uma vida espiritual, profunda e verdadeira. Quanto ao problema das relações com o mundo invisível, o Espiritismo não estabelece essas ligações, que existem na vida de todas as criaturas, mas apenas as explica e orienta, dando-lhes o verdadeiro sentido no processo da existência: Temer o Espiritismo é temer a verdade, que os seus princípios nos revelam, apesar de todos os que lutam para deturpá-los.

J. Herculano Pires do livro:
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