Inconcebível preconceito
Richard Simonetti
No plantão para encaminhamento aos recursos da organização socorrista espírita, Roberto fitava, compadecido, a jovem que lhe falava. O ventre volumoso era promessa de vida em gestação, mas o rosto atormentado proclamava a morte da esperança.
- Enamorei-me de um homem insinuante, que me seduziu. Quando fiquei grávida, abandonou-me, incontinenti, confessando-se casado, preso a insuperáveis compromissos conjugais. Envergonhada, durante meses evitei comentar o problema com meus pais... Eles são rigorosos em questões morais. Quando se tomou impossível esconder meu estado, chocaram-se muito, despejando sobre mim acusações e ameaças. Sugeriram o aborto. Ante minha recusa, impuseram que saísse da cidade por alguns meses. Após o nascimento do filho deverei deixá-lo no hospital para adoção. Então poderei voltar. Exigem sigilo absoluto. Nossa família é muito conhecida. Aos amigos informam que viajei para o exterior.
Emocionada, a jovem estabelece pausa regada de lágrimas. Perplexo, Roberto comenta:
- Incrível! Um comportamento preconceituoso e retrógrado em pleno século XX! Seus pais não consideram que a criança que está por vir é neto deles?
- Não admitem nem falar a respeito! Esse assunto é tabu entre nós. Preferem ignorá-lo. Para eles uma mãe solteira em casa configura escândalo impensável.
- Não posso aplaudir o que fez, minha filha, mas, certamente, a atitude de seus pais é muito pior. A situação, agora, transcende as convenções humanas. Há uma criança que precisa de amparo, de uma família...
- O senhor compreenderia melhor se os conhecesse. São extremamente rígidos.
- Eles têm religião?
- Sim, são espíritas.
- Espíritas?!...
- E dizem que justamente por levar o Espiritismo a sério não podem apoiar-me. Devo responder pelo que fiz, assumindo minha responsabilidade.
- Pretendem que cuide do assunto sozinha, livrando-se do filho? Creio que ainda não aprenderam as lições mais elementares da Doutrina, relacionadas com o exercício da caridade...
Buscando conter a indignação que o tomara, Roberto muda o rumo da conversação:
- Você está bem financeiramente? Tem onde ficar?
- Justamente por isso vim falar-lhe. Não pretendo dar meu filho. Assim, não contarei com a ajuda de meus pais. Peço-lhe, por misericórdia, um cantinho. Trabalharei como doméstica, se preciso, aqui ou num lar que se disponha a me acolher.
- Certamente conseguiremos algo em seu favor. É preciso, porém, procurar seus pais. Devem saber onde você está. Se possível, alguém os alertará, conscientizando-os de que lhe devem amparo. De onde vem, minha filha?
- Porto Alegre.
- Ótimo. Tenho um contato lá. Um colega de profissão que conheci num simpósio. É espírita, bem sintonizado com os ideais doutrinários. Inteligente e culto, tenho certeza de que conseguirá sensibilizar seus pais. Seu nome é Túlio Firmino.
Vendo que a jovem chorava novamente, extravasando imensa angústia, Roberto tenta consolá-la:
- Calma, menina. Fique tranquila. Tudo dará certo.
- Não vai adiantar, “seo” Roberto! Não vai adiantar!...
- Vai sim. Confie. Túlio Firmino é muito persuasivo.
- Não, “seo” Roberto, não vai acontecer nada disso porque Túlio Firmino... é meu pai!
* * *
A Doutrina Espírita é bastante clara ao nos alertar quanto aos nossos compromissos diante do próximo, particularmente no que diz respeito ao exercício da caridade.
A grande dificuldade está naquele “próximo mais próximo”, sob o mesmo teto, que atende pelo nome de irmão, filho, cônjuge, pai, mãe, avô, neto...
Diante deles, por um atavismo psicológico calcado no cultivo milenar do egoísmo, insistimos em impor nossos padrões de comportamento. Se contrariados, brandimos atitudes preconceituosas e duvidoso moralismo, furtando-nos, assim, ao compromisso de compreender e ajudar.
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.
