Operação despertamento
Richard Simonetti
Olegário, nobre mentor espiritual, desenvolvia, há muito, abençoadas tarefas em favor de seus irmãos encarnados.
Dentre eles, Flávio e Ernestina, velhos tutelados seus, que compunham um lar razoavelmente ajustado, em companhia de dois filhos adolescentes.
Preocupava-se com eles. Ambos, já perto dos quatro decênios de existência, permaneciam alheios às tarefas que lhes competiam desenvolver junto a crianças carentes, conforme compromissos assumidos no Plano Espiritual.
Religiosos de tradição, prendiam-se muito mais às fantasias da Terra, desligados das inspirações do Céu. Simplesmente flutuavam ao sabor das futilidades humanas, envolvidos com lazeres e prazeres, sem nenhum interesse em adquirir lastros de virtude e sabedoria.
Não eram inconsequentes. Cumpriam seus deveres profissionais e familiares, mas perdiam precioso tempo em relação aos objetivos de aprendizado e renovação da jornada terrestre, estagiando voluntariamente na aridez das convenções mundanas.
Fazia-se imperioso ajudá-los de forma mais efetiva. Olegário estudou demoradamente o assunto e planejou a “Operação Despertamento”, contando com a autorização e o apoio de seus superiores na organização espiritual onde servia.
Passados alguns meses, Ernestina dava à luz um filho, após inesperada gravidez que driblara os anticoncepcionais que usava com rigorosa disciplina, desde que ela e o marido decidiram evitar que mais filhos perturbassem sua festiva programação existencial.
O aborrecimento pela frustração de seus propósitos não ultrapassou os limites da gestação, porquanto, tão logo nasceu, o menino tornou-se centro das atenções e alegrias da casa. Fazia por merecê-lo, bebê lindo, forte, calmo, sorridente - um santinho!
Nos anos que se seguiram, Lucas revelou-se um garoto especial. Difícil definir o que o distinguia mais: se a precocidade, incrivelmente ativo e inteligente, ou o carinho envolvente que dispensava aos familiares, alegre, comunicativo, humilde, obediente - um anjo do Céu a iluminar a escuridão da Terra!
Flávio e Ernestina já não se empolgavam com os programas vazios a que estavam habituados. Havia um bem mais atraente: “curtir" o filho, acompanhando seus passos seguros nos ensaios de vida. Anotavam, orgulhosos, seus progressos nas primeiras letras: contagiavam-se com sua exuberante vivacidade; edificavam-se com sua vocação para a fraternidade, sensível aos sofrimentos alheios, nunca permitindo que necessitado algum batesse à porta sem algo receber.
Foram tempos inesquecíveis, de plena ventura, até que se deu a tragédia. Lucas adoeceu subitamente, febre alta, fortes dores de cabeça, manchas escuras pelo corpo. O socorro médico foi providenciado rápido! Internação urgente, exames variados e... o diagnóstico terrível: meningite meningocócica do tipo B, a mais grave! Em poucas horas o menino faleceu!...
Angústia, perplexidade, desespero, inconformação, revolta, estabeleceram sequência naqueles corações despreparados para as grandes dores. Depois, o desencanto, a tristeza insuperável!...
Nada os animava. Flávio e Ernestina comportavam-se como sonâmbulos: falavam, alimentavam-se, trabalhavam, mas incapazes de retornar à normalidade, vinculados ao passado, como se vivessem interminável pesadelo.
Os dias seguiram seu curso. Sucederam-se os meses e o tempo repetiu o eterno milagre, recompondo neles a vontade de viver. No entanto, nunca mais seriam os mesmos. Haviam perdido as ilusões! Festas, bailes, viagens, passeios, jogos, vida social - tudo o que os motivava tanto, perdera inteiramente o sabor.
Manifestou-se neles uma insuspeitada vocação religiosa e, como ocorre com frequência em situações semelhantes, encontraram consolo na Doutrina Espírita, emocionando-se com as informações sobre a vida no Além e a perpetuidade das ligações afetivas.
Uma nova alegria felicitou aquelas almas combalidas quando começaram a participar de serviços assistenciais, devotando-se particularmente a crianças carentes. Parecia-lhes, então, que Lucas estava junto deles.
Não se equivocavam. Olegário prestava-lhes carinhosa assistência, rejubilando-se com o sucesso da “Operação Despertamento”, que o levara a breve mergulho na carne, com a missão de arrebatar seus tutelados do perigoso sorvedouro dos enganos humanos.
Aqueles que se debruçam sobre o esquife de uma criança, junto da qual sepultam suas alegrias e esperanças, precisam saber que nada acontece por acaso.
Há razões ponderáveis a determinar que Espíritos retornem à Espiritualidade mais cedo, nos verdes anos da infância, envolvendo provações e resgates.
E o fazem, também, como parte de um processo de iniciação dos pais em programas de despertamento, com vestibulares de sofrimento e saudade, como se Deus houvesse instituído a morte de crianças para ensinar os adultos a viver.
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.

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