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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A carta

A carta

Richard Simonetti

Imagem gerada por IA.

Uma carta malcriada, dessas de “acabar com o distinto”, terminando com um peremptório “esqueça que sou seu filho!”

A indignação de Lenildo era procedente, embora injustificável a malcriação sob a ótica cristã. O pai envolvera-se com outra mulher e abandonara a família, mudando-se para cidade distante.

O rapaz, com apenas 17 anos, vira-se precariamente promovido a chefe da casa, com a responsabilidade de ajudar a mãe a sustentar três irmãos menores. Esfalfava-se numa empresa de defensivos agrícolas, às voltas com reações alérgicas provocadas pelo contato com agrotóxicos, o que exacerbava a revolta contra o desertor.

A carta fora uma explosão, um transbordamento de mágoa. Raivoso, levou-a ao correio, desejando que o pai se danasse. Ao retirar-se, viu num canto do balcão folhetos para distribuição, ali deixados por algum funcionário que estimava divulgar ideias nobres. Eram mensagens espíritas. Sua atenção foi despertada por uma que falava sobre o perdão. Impressionou-o particularmente o final:

“Tua mágoa tem a extensão de tua incompreensão. Quem compreende, perdoa. Quem não perdoa é escravo da angústia. Liberta-te!”

Foi água fria na fervura! Arrependeu-se de ter remetido a carta. Talvez a situação não fosse exatamente como imaginava. Fora muito radical... Tentou recolhê-la, mas o funcionário mostrou-se irredutível, afirmando:

- Sinto muito! Correspondência postada é propriedade do destinatário!...

Lenildo perturbou-se, dominado pelo sentimento de culpa. Pensava no impacto que a carta provocaria. À noite não conseguiu dormir. Resoluto, levantou bem cedo, dirigiu-se à rodoviária e tomou o primeiro ônibus.

Após sete horas de viagem chegava ao local onde residia o genitor. Surpresa: era humilde pensão, só para homens. Informou-se do local onde o velho trabalhava. Nova surpresa: era modesto ajudante numa construção, ele que sempre fora empreiteiro.

Encontrou-o envelhecido, possivelmente enfermo, a exibir indisfarçável tristeza. Abraçaram-se emocionados. Pouco depois saíam para o almoço. Conversaram longamente. O pai desligara-se da mulher que o seduzira, mas não tinha coragem de tornar ao lar. Sentia o peso de sua deserção...

Lenildo confortou-o, sensibilizado. Regressariam juntos. Começariam vida nova. A mãe o esperava desde a separação. Orava por ele todos os dias...

Na pensão continuavam a conversação, traçando planos, quando chegou o carteiro. Lenildo adiantou-se e tomou para si a carta endereçada ao pai. Este, curioso, queria tomar conhecimento do conteúdo.

- Não há necessidade, pai. Já lhe disse pessoalmente tudo que escrevi...

Suspirando, aliviado, rasgou-a em muitos pedaços que jogou no lixo, sentindo que com ela ia a sua angústia, derrotada por um impulso feliz de aproximação.

* * *

A ira é péssima conselheira, sugerindo ações das quais fatalmente nos arrependeremos, já que nem sempre é possível anulá-las como quem rasga uma carta malcriada, impedindo que o destinatário tome conhecimento.

Imperioso, por isso, conter nossos impulsos, contando até dez, cem, milhares se necessário, até esfriar a cabeça, habilitando-nos a agir com discernimento, a cultivar o dom de compreender.

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

A vitória das sombras

A vitória das sombras

Richard Simonetti


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Altamiro, experiente obsessor, especialista em perturbar instituições espíritas, ouvia as queixas de Perciliano, velho companheiro de estrepolias entre os encarnados:

- Meu caro amigo, estamos em dificuldades. Não encontramos brechas para envolver espíritas impertinentes que invadiram nossa área de atuação. Edificaram um Centro, onde orientam muitas pessoas na reformulação de suas existências, com o que as subtraem à nossa influência.

- Tentaram desestabilizar o grupo com a discórdia?

- Sim, sem resultado. Eles estudam com muito empenho, em reuniões semanais, o detestável “Evangelho Segundo o Espiritismo”. Observam com seriedade sua lenga lenga sobre a compreensão e o perdão.

- Experimentaram conturbar o ambiente com a presença de entidades galhofeiras e desequilibradas?

- Não há a mínima condição! Não temos acesso!... Os trabalhos são regidos pela oração e por vibrações em favor da concórdia e da paz.

- Semearam o tédio?

- Inutilmente! É impossível desmotivar pessoas que se imbuíram da convicção de que estão revivendo o Cristianismo primitivo com infindáveis iniciativas em favor do semelhante.

- E o formalismo religioso? Alimentem neles a velha tendência humana para as exterioridades. Inspirem rituais e rezas que induzam ao acomodamento, distraindo-os da própria renovação. Foi assim que nossos maiores conseguiram desvitalizar o movimento cristão no passado.

- Fizemos isso, também. Alguns servidores mostraram-se receptivos, mas sem grandes resultados. Ocorre que lutamos contra um vigoroso movimento de abomináveis ideias nobres, imune a influências negativas, onde elas são diligentemente apreciadas e observadas.

- Se é assim - comenta Altamiro, sorrindo sinistramente - então ataquem o grupo onde ele parece mais forte: nas suas convicções! Sugiram que o Espiritismo não é religião! Que devem preservar o Centro contra o igrejismo! Nada de Cristianismo redivivo! Que oração pública é herança ritualística de outras crenças! Que passe magnético e água fluidificada revivem práticas de comunhão formal! Que “O Evangelho Segundo o Espiritismo” deve ser substituído, nas reuniões de estudos, por livros mais substanciosos, de cunho científico e filosófico! Faça-os sentir a necessidade de preservar a pureza doutrinária, expurgando a Doutrina de tudo o que rescende a ranço de religiosismo!...

O interlocutor exultou. Não havia pensado nisso! Entusiasmado, providenciou para que a orientação fosse imediatamente implementada.

Em breve o promissor núcleo espírita, que congregava dezenas de colaboradores e oferecia a milhares de pessoas os fundamentos de uma prática religiosa alicerçada no esforço do Bem, portal sublime de comunhão com a Espiritualidade Maior, estava reduzido a pequeno grupo de estudiosos empenhados em negar o caráter religioso do Espiritismo.

Perciliano conseguira, finalmente, o seu intento.

Os gênios das sombras não desprezam nenhuma possibilidade no propósito de conturbar o movimento espírita, a mais séria ameaça ao seu domínio milenar.

Atuando inteligentemente, imiscuem-se atualmente entre os espíritas, veiculando surpreendente “revelação”: O Espiritismo não é religião! E sempre encontram companheiros invigilantes, dispostos a defender acirradamente essa esdrúxula ideia, apoiando-se em extravagante exegese dos textos da Codificação.

Todavia, nenhum sofisma poderá sobrepor-se ao fato irrecusável de que Allan Kardec escreveu “O Evangelho Segundo o Espiritismo” para destacar o aspecto religioso do Espiritismo, tanto quanto em “O Livro dos Médiuns” fala do aspecto científico e em “O Livro dos Espíritos” desenvolve o aspecto filosófico, compondo a tríade redentora: Filosofia, Ciência e Religião!

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A maratona mediúnica

A maratona mediúnica

Richard Simonetti


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Joaquim estava em visita a familiares que residiam em cidade do interior fluminense. Espírita estudioso e idealista, apreciava travar contato com os confrades. Assim, tendo uma sobrinha por cicerone, foi visitar um centro localizado em bairro distante.

Saíram por volta das dezenove horas. Caminhada longa. Sessenta minutos. Quando chegaram a reunião estava no início. Aproximadamente quarenta pessoas num salão de regulares proporções. O dirigente limitou-se a lacônica oração. Em seguida convidou:

- Vamos passar à parte espiritual de nossos trabalhos. Os irmãos que desejarem exercitar a mediunidade queiram, por favor, aproximar-se.

Joaquim estranhou a ausência de estudo antes do intercâmbio com o Além, bem como a oferta indiscriminada. E se todos se julgassem aptos a participar?

Faltou pouco para isso. Pelo menos dois terços dos presentes tomaram assento junto à mesa enorme que dominava o ambiente.

- Meu Deus! - monologou o visitante por dentro. - Nem Kardec reuniu tantos médiuns num grupo tão pequeno! Se todos “funcionarem” a noite será curta!

Não deu outra. Tão desejosos de falar quanto os médiuns em transmitir, os Espíritos não permitiam trégua. Certamente constituíam multidão, a atropelar a disciplina, promovendo manifestações simultâneas sem nenhuma originalidade. Gemiam, choravam, confessavam, tanto quanto orientavam e aconselhavam, numa algaravia, uma confusão de vozes que pouco proveito oferecia.

Contavam com a omissão do dirigente, que raramente intervinha, e a passividade da assistência que parecia ver naquela miscelânea a exorcização de seus males. Somente assim se justificaria que permanecesse horas a fio acompanhando a rotina enfadonha de entidades que repetiam as mesmas banalidades e choravam as mesmas angústias.

Joaquim estava decepcionado. Aquelas manifestações eram numerosas demais, vazias demais, semelhantes demais, repetitivas demais, ressumbrando, vicioso animismo. Sua presença ali pareceu-lhe pura perda de tempo. Aliás, tempo também demais. Já passava das vinte e três horas. Sua sobrinha dormia recostada em seu ombro. Havia a longa caminhada de volta. Sair antes do encerramento pareceu-lhe indelicado. Então, resoluto, começou a orar mentalmente, pedindo o encerramento da reunião.

Aliviado, observou que em breves momentos cessaram as manifestações.

O dirigente ainda esperou alguns minutos. Vendo que nada mais acontecia, pronunciou a prece de agradecimento, dando por encerrados os trabalhos da noite. Em seguida, aproximou-se de Joaquim e lhe perguntou, incisivo, sem preâmbulos:

- O que fez?

-Eu?

- Só pode ter sido o senhor! É o único estranho!...

- Não estou compreendendo...

- A reunião! Terminou muito cedo!

- No meu entendimento prolongou-se bastante.

- Como conseguiu?

- Bem, não sei se tenho a ver com isso. Apenas solicitei providências aos amigos espirituais. É tarde e tenho uma longa caminhada pela frente.

- Mora aqui?

- Fique tranquilo. Sou do Rio. Regressarei amanhã.

- Não estou preocupado nem aborrecido. Ao contrário, gostei de sua atuação. Se morasse em nossa cidade poderia dirigir esta reunião. Certamente conseguiria abreviar nossa maratona.

- Maratona?

- ... Mediúnica. É o grande problema que enfrentamos. Não conseguimos entrar em acordo com os Espíritos. Nossos trabalhos estendem-se madrugada adentro. Não raro passamos a noite aqui. Iniciamos às vinte horas, mas só Deus sabe quando terminamos!

Em qualquer atividade, se pretendemos ser eficientes e produtivos, não podemos olvidar a disciplina, o estudo e o discernimento.

O exercício mediúnico parece situar-se como exceção para desavisados companheiros que desenvolvem o intercâmbio com o Além sem nenhuma noção a respeito do assunto.

Daí existirem agrupamentos mediúnicos onde os mentores espirituais não encontram acesso para um trabalho produtivo e edificante, com manifestações que se multiplicam muito além do razoável e aproveitamento muito aquém do desejável.

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sábado, 8 de agosto de 2026

Cirurgia espiritual

Cirurgia espiritual

Richard Simonetti


Imagem gerada por IA.

Gedeão, dedicado médico desencarnado, prometera a Cândida que seu problema seria resolvido mediante uma cirurgia espiritual. Ela fazia por merecê-lo. Médium vidente, doava-se inteiramente aos serviços assistenciais e mediúnicos num centro espírita.

Tratava-se de uma ruptura de ligamentos numa das pernas, que lhe impunha intermináveis dores, além de dificultar-lhe a movimentação.

Temia submeter-se aos médicos da Terra, porquanto fora alertada de que se tratava de intervenção delicada que, se mal sucedida, poderia prendê-la irremediavelmente ao leito. Preferia o concurso dos Espíritos. Neles confiava plenamente.

Atendendo recomendações do orientador espiritual, eram realizadas reuniões semanais em sua modesta residência, onde vivia só, viúva humilde, amparada por filha casada que residia ao lado.

Grupo reduzido, apenas cinco confrades habituados a esse tipo de serviço. Cândida observava, pela vidência mediúnica, a mobilização de recursos da Espiritualidade: aplicação de magnetismo, exames e testes, utilização de estranhos aparelhos.

Após três meses de preparativos o mentor marcou a data. Recomendou que, no horário habitual, após a prece fosse procedida a leitura de pequeno trecho de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Permaneceriam depois vibrando em benefício da paciente, enquanto a equipe espiritual estivesse operando.

No dia aprazado surgiram dificuldades logo pela manhã: dois participantes comunicaram que não poderiam comparecer. Os outros simplesmente não apareceram, sem justificativa. Cândida, apreensiva, viu Gedeão junto de si.

- Minha filha, nossos irmãos encarnados são muito vulneráveis em seus propósitos de colaboração. Cedem facilmente aos contratempos. Não virá ninguém. Não obstante, a programação será cumprida. Deite-se e ore. Confiemos na Providência Divina.

A médium obedeceu. Já em seu leito, concentrada, pensamento em Jesus, viu o quarto singelo transformar-se, como num passe de mágica, em requintada sala cirúrgica, profusamente iluminada, com a presença de médicos e enfermeiros. Brando sono a envolveu.

Acordou depois de duas horas, sentindo leve dor na região abdominal. Gedeão a assistia, informando sorridente:

- Correu tudo muito bem. Faça repouso por alguns dias, evitando esforço físico. Em breve estará plenamente recuperada.

O prognóstico do mentor cumpriu-se fielmente. Em três semanas, Cândida, feliz, voltava a participar das atividades espíritas.

* * *

É importante a colaboração dos homens nos processos de ajuda espiritual.

Servidores de boa vontade oferecem preciosa sustentação fluídica...

Doadores de magnetismo promovem revigorantes reações orgânicas...

Grandes médiuns efetuam cirurgias espetaculares...

No entanto, a Espiritualidade pode mobilizar recursos inimagináveis, sem o concurso humano, sempre que necessário, desde que os beneficiários detenham o necessário merecimento.

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domingo, 26 de julho de 2026

Reformas sociais

Reformas sociais

Richard Simonetti


O assunto surgiu na reunião de estudos. Para a edificação de uma sociedade justa não seria razoável a participação em movimentos que defendem uma mudança nas estruturas sociais?

Várias opiniões foram apresentadas. Houve quem preconizasse um engajamento do Centro, contribuindo até mesmo para a constituição de partido político capaz de pugnar pelos ideais espíritas. Outros defendiam uma mobilização popular, se necessário, pressionando os governantes, a fim de que as legítimas aspirações do povo fossem atendidas.

Terminada a discussão, ofereceu-se a palavra a Josefo, dedicado mentor espiritual que, após saudar os presentes pela psicofonia mediúnica, falou:

- O assunto hoje foi empolgante. É louvável o interesse que demonstraram na procura de soluções para os grandes problemas sociais. Considerem, entretanto, que todas as mudanças envolvendo a sociedade, para serem legítimas e proveitosas, pedem antes a renovação do Homem, o que não pode ser feito à custa de meras reivindicações, de verbalismo ou do exercício da força, porquanto, para tanto, é preciso entrar em seu coração e não há outro caminho senão o Amor. Pode parecer piegas aos doutos, mas é a pura expressão da realidade. Jesus o demonstrou incansavelmente em seu apostolado. O Espiritismo faz a mesma proposta, apresentando a caridade como a base da salvação humana. Com a caridade desenvolveremos a vocação de servir, que é o Amor em ação, atuante, empreendedor, irresistível no apelo à renovação.

- No entanto - retruca Luiz, um dos defensores do engajamento político - o amigo não nega que uma mobilização dos espíritas poderia favorecer as mudanças pretendidas.

- Sim, todos podem participar de tais iniciativas, desde que observem a ordem e a disciplina, com respeito aos poderes constituídos, mas, sem envolver a Doutrina Espírita como movimento, a fim de que não tenhamos a reedição dos perigosos enganos cometidos pelos líderes religiosos no passado, que terminaram por atrelar a religião ao poder, assimilando os males que pretendiam combater.

- Mas o irmão não admite que uma mobilização popular, até com eventual exercício de força, apressaria as mudanças pretendidas? - indaga Gabriel, um dos defensores das medidas revolucionárias.

- Semelhantes iniciativas realmente promovem modificações nas estruturas sociais, mas em nada contribuem para a edificação de um Mundo melhor. Muitos movimentos de força têm sido disparados. Sistemas se sucedem, mas perpetuam-se os males humanos... Países desenvolvidos resolvem transitoriamente os problemas da miséria material, mas caem na miséria moral, que é muito pior, a primeira é provação para coletividades imensas, funciona como cadinho purificador, a segunda é semeadura de dores... Ocioso pretender-se a reforma da sociedade sem a renovação do cidadão. Impossível construir uma casa sólida com tijolos crus.

Josefo fez pequena pausa, como a esperar que seus conceitos fossem assimilados, concluindo, incisivamente:

- Quando Jesus proclamou que o Reino de Deus está dentro de nós, deixou bem claro que ele não se estenderá sobre o planeta antes dessa gloriosa conquista. Por isso, meus amigos, o nosso trabalho é junto ao coração humano, sem pressões e sem pressa, com o exemplo de nosso próprio empenho no Bem, a fim de que o Reino Divino se estenda ao nosso redor.

Qualquer sistema de governo funcionará satisfatoriamente se governados e governantes se ajustarem aos princípios da Justiça e da Verdade, da Fraternidade e da Solidariedade, do Trabalho e da Disciplina, do Respeito e da Compreensão.

Semelhantes realizações, que jamais poderão ser impostas, se concretizarão na medida em que os homens se dispuserem a seguir o Cristo pelos caminhos do Amor.

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

A turma do prefiro

A turma do prefiro

Richard Simonetti


Os dois irmãos habitavam bela residência herdada de seus pais. Construção antiga, mas sólida, confortável, de cômodos amplos e arejados. Ali poderiam permanecer por longos anos, sem problemas.

No entanto, por uma insignificância desentenderam-se, concluindo, após ásperas discussões, que não continuariam juntos. A solução seria vender o imóvel, ideia que nenhum deles admitia. Então resolveram dividi-lo ao meio, providenciando para que fossem erguidas paredes onde existiam portas ligando as duas metades.

Isto feito, instalaram-se, cada qual em sua nova residência, dois arremedos de casa, porquanto, sem recursos para gastos maiores, acomodaram-se ao que existia. Um ficou sem cozinha; o outro, sem banheiro. Situação incômoda, desconfortável.

Um amigo comum passou por ali e, observando a tolice cometida pelos dois irmãos, que apenas lhes complicara a vida, sugeriu:

- Por que vocês não se reconciliam, derrubam as paredes divisórias e voltam a viver confortavelmente?

- Não! - respondeu cada um por si. Prefiro viver assim!

E assim permaneceram por muitos anos, sem jamais conversarem, existência azedada pelo ressentimento, numa casa dividida pela intransigência.

Muitos vivem assim, a levantar barreiras de ressentimento, mágoa e irritação, que impedem uma convivência pacífica com o semelhante.

Quando instados a modificar suas disposições, engrossam as fileiras lamentáveis da “turma do prefiro”.

Tudo seria diferente se exercitassem um pouco de compreensão e tolerância, evitando as divisórias de intransigência que separam as pessoas, gerando desconfortáveis situações.

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sábado, 13 de junho de 2026

Operação despertamento

Operação despertamento

Richard Simonetti


Olegário, nobre mentor espiritual, desenvolvia, há muito, abençoadas tarefas em favor de seus irmãos encarnados.

Dentre eles, Flávio e Ernestina, velhos tutelados seus, que compunham um lar razoavelmente ajustado, em companhia de dois filhos adolescentes.

Preocupava-se com eles. Ambos, já perto dos quatro decênios de existência, permaneciam alheios às tarefas que lhes competiam desenvolver junto a crianças carentes, conforme compromissos assumidos no Plano Espiritual.

Religiosos de tradição, prendiam-se muito mais às fantasias da Terra, desligados das inspirações do Céu. Simplesmente flutuavam ao sabor das futilidades humanas, envolvidos com lazeres e prazeres, sem nenhum interesse em adquirir lastros de virtude e sabedoria.

Não eram inconsequentes. Cumpriam seus deveres profissionais e familiares, mas perdiam precioso tempo em relação aos objetivos de aprendizado e renovação da jornada terrestre, estagiando voluntariamente na aridez das convenções mundanas.

Fazia-se imperioso ajudá-los de forma mais efetiva. Olegário estudou demoradamente o assunto e planejou a “Operação Despertamento”, contando com a autorização e o apoio de seus superiores na organização espiritual onde servia.

Passados alguns meses, Ernestina dava à luz um filho, após inesperada gravidez que driblara os anticoncepcionais que usava com rigorosa disciplina, desde que ela e o marido decidiram evitar que mais filhos perturbassem sua festiva programação existencial.

O aborrecimento pela frustração de seus propósitos não ultrapassou os limites da gestação, porquanto, tão logo nasceu, o menino tornou-se centro das atenções e alegrias da casa. Fazia por merecê-lo, bebê lindo, forte, calmo, sorridente - um santinho!

Nos anos que se seguiram, Lucas revelou-se um garoto especial. Difícil definir o que o distinguia mais: se a precocidade, incrivelmente ativo e inteligente, ou o carinho envolvente que dispensava aos familiares, alegre, comunicativo, humilde, obediente - um anjo do Céu a iluminar a escuridão da Terra!

Flávio e Ernestina já não se empolgavam com os programas vazios a que estavam habituados. Havia um bem mais atraente: “curtir" o filho, acompanhando seus passos seguros nos ensaios de vida. Anotavam, orgulhosos, seus progressos nas primeiras letras: contagiavam-se com sua exuberante vivacidade; edificavam-se com sua vocação para a fraternidade, sensível aos sofrimentos alheios, nunca permitindo que necessitado algum batesse à porta sem algo receber.

Foram tempos inesquecíveis, de plena ventura, até que se deu a tragédia. Lucas adoeceu subitamente, febre alta, fortes dores de cabeça, manchas escuras pelo corpo. O socorro médico foi providenciado rápido! Internação urgente, exames variados e... o diagnóstico terrível: meningite meningocócica do tipo B, a mais grave! Em poucas horas o menino faleceu!...

Angústia, perplexidade, desespero, inconformação, revolta, estabeleceram sequência naqueles corações despreparados para as grandes dores. Depois, o desencanto, a tristeza insuperável!...

Nada os animava. Flávio e Ernestina comportavam-se como sonâmbulos: falavam, alimentavam-se, trabalhavam, mas incapazes de retornar à normalidade, vinculados ao passado, como se vivessem interminável pesadelo.

Os dias seguiram seu curso. Sucederam-se os meses e o tempo repetiu o eterno milagre, recompondo neles a vontade de viver. No entanto, nunca mais seriam os mesmos. Haviam perdido as ilusões! Festas, bailes, viagens, passeios, jogos, vida social - tudo o que os motivava tanto, perdera inteiramente o sabor.

Manifestou-se neles uma insuspeitada vocação religiosa e, como ocorre com frequência em situações semelhantes, encontraram consolo na Doutrina Espírita, emocionando-se com as informações sobre a vida no Além e a perpetuidade das ligações afetivas.

Uma nova alegria felicitou aquelas almas combalidas quando começaram a participar de serviços assistenciais, devotando-se particularmente a crianças carentes. Parecia-lhes, então, que Lucas estava junto deles.

Não se equivocavam. Olegário prestava-lhes carinhosa assistência, rejubilando-se com o sucesso da “Operação Despertamento”, que o levara a breve mergulho na carne, com a missão de arrebatar seus tutelados do perigoso sorvedouro dos enganos humanos.

Aqueles que se debruçam sobre o esquife de uma criança, junto da qual sepultam suas alegrias e esperanças, precisam saber que nada acontece por acaso.

Há razões ponderáveis a determinar que Espíritos retornem à Espiritualidade mais cedo, nos verdes anos da infância, envolvendo provações e resgates.

E o fazem, também, como parte de um processo de iniciação dos pais em programas de despertamento, com vestibulares de sofrimento e saudade, como se Deus houvesse instituído a morte de crianças para ensinar os adultos a viver.

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Leme ou âncora

Leme ou âncora

Richard Simonetti



Trabalhador incansável, Justino dedicava-se de corpo e alma ao Espiritismo. Inspirado em nobres ideais, fundara um Centro Espírita. A expressão não define exatamente seu empenho. Muito mais que isso, edificara a sede, organizara os serviços, dirigia as reuniões, cuidava da contabilidade, promovia campanhas, atendia famílias carentes, aplicava passes, doutrinava espíritos e ainda encontrava tempo para cuidar da construção de um abrigo onde seriam amparados cem velhinhos.

Havia poucos colaboradores e reduzida frequência ao Centro, mas isso não importava. Justino sentia-se capaz de dar conta de tudo, como um craque de futebol que, além de jogar em todas as posições, fosse dono e técnico do time.

Preocupado com tantas atividades, que lhe pareciam excessivas para um homem de 63 anos, Alberto, seu irmão mais velho, homem experiente e lúcido, ponderava:

- Justino, você ainda se mata de trabalhar! Distribua as tarefas. Há muita gente que pode e deve ajudar.

- É o que venho fazendo há anos, meu caro, mas está difícil. Raros se habilitam a servir em troca do salário espiritual...

- Talvez seja uma questão de estímulo. Convoque o pessoal. Ressalte a importância dos serviços relacionados com o ideal espírita.

- Também pouco tem adiantado. Nos estudos de “O Livro dos Espíritos”, que desenvolvo em lugar do Armando, desde que se afastou porque não concordei com algumas sugestões, venho demonstrando que o espírita que não serve enquadra-se em vadiagem espiritual. Falo alto, com a força e a veemência dos antigos profetas e sempre tenho a impressão de dirigir-me a uma assembleia de surdos. Ninguém ouve...

- Bem, talvez fosse melhor amenizar um pouco suas perorações. E se convocasse pessoalmente as pessoas? Um envolvimento amigo opera prodígios de boa vontade. Experimente distribuir simpatia antes de oferecer compromissos.

- Qual o quê! Vejo que você não está habituado a lidar com a natureza humana! Rasgar seda pouco resolve. É preciso despertar as consciências. Quando isso acontece surge o servidor.

- Aparentemente tem acontecido com raridade...

- Infelizmente. O pior é que mesmo com os “despertos” não se pode contar. São pouco produtivos e cheios de melindres. Há meses tento passar a tesouraria ao Nunes. Afinal, essa é sua função. Mas não engrena. Além do mais, não confio nele. É muito displicente. O Aurélio, responsável pelo Departamento de Doutrina, não enxerga um palmo adiante do nariz, compelindo-me a organizar e desenvolver todas as atividades. O Bertineli é limitadíssimo na Assistência Espiritual. Sem meu concurso o setor não funciona...

- E nossas irmãs? A alma feminina é muito sensível aos apelos da Caridade. Há inúmeras tarefas que podem desenvolver com proveito.

- E largar sem jeito!... Por sugestão de minha mulher instalamos uma oficina de corte e costura, com promissoras perspectivas, mas ela em breve desistiu, no que foi seguida pelas demais colaboradoras, apenas porque não quiseram se sujeitar à minha coordenação. Cheguei a tentar, eu mesmo, a confecção de roupas para os pobres. Faltou-me tempo e um pouco de experiência.

- E o abrigo, como vai?

- Devagar, mas sempre. No domingo trabalho até como pedreiro, sozinho. Os membros da comissão nomeada para a construção ainda não se decidiram a atuar, discordando de minhas opiniões.

É natural. Não estão habituados a lidar com obras assistenciais.

- Seu empenho é louvável, Justino, mas está na hora de delegar responsabilidades. Você já não tem idade para tantos compromissos.

- Não se preocupe. Vendo saúde. O serviço é meu alimento!

- Cuidado! Não vá se intoxicar...

As ponderações de Alberto eram procedentes. Passados alguns meses, Justino, não suportando a carga de preocupações e serviços, sofreu fulminante enfarte, desencarnando em poucos minutos.

O Centro, com seus serviços variados e precários, certamente soçobraria, qual nave sem rumo.

No entanto, o inesperado aconteceu. Sem a presença do heroico comandante, Nunes assumiu a tesouraria, Aurélio organizou o Departamento de Doutrina, Bertineli dinamizou a Assistência Espiritual, Armando tornou-se notável expositor, a oficina de corte e costura voltou a funcionar com a liderança da esposa e o abrigo, com as iniciativas felizes da comissão e o apoio decidido de uma comunidade espírita florescente, em breve tornou-se feliz realidade.

Na ausência de Justino, que não obstante seus méritos, estava mais para âncora do que leme, a instituição finalmente habilitou-se a singrar os mares abençoados do serviço, com uma tripulação numerosa e operante.

* * *

O Centro Espírita é promissora célula de trabalho, embrião da sociedade futura, onde o empenho da fraternidade será a tônica das ações humanas.

Há dirigentes, entretanto, que conseguem conter a vocação do Centro Espírita com uma liderança autocrática de quem deseja fazer tudo e termina por fazer quase nada.

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