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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Os provérbios da contabilidade divina

Os provérbios da contabilidade divina

João Marcus 

(Pseudônimo de Hermínio C. Miranda)



Não sei se o leitor amigo já teve oportunidade de deter-se no exame de algumas expressões e ditos que nenhuma justiça fazem à ideia sublime de Deus.

Uma delas é aquela que diz que “pagam os justos pelos pecadores”. Jamais o justo pagará coisa alguma em lugar do pecador. Não há quem pague o que não deva. Aquela concepção inexata dos fatos somente pode decorrer do desconhecimento total da doutrina reencarnacionista. Quando assistimos na vida terrena ao sofrimento da criatura boa, caridosa e justa, estamos certos de que ela está resgatando faltas antigas, de suas existências anteriores, a não ser naqueles casos mais raros, em que o Espírito encarnado, embora altamente evolvido, escolheu livremente missão de sacrifício para ajudar irmãos e companheiros que ainda se demoram no erro.

Da mesma forma, quando o sofrimento e a angustia nos atingem, o primeiro impulso é lamentar em altos brados: “Que fiz para merecer tamanha desgraça?” Muitos irmãos menos esclarecidos duvidam da justiça divina, que, no entender deles, condena e aplica penalidades em seres aparentemente desprovidos de culpa. Mas, que sabemos nós do que fizemos de errado através da série enorme de vidas que vivemos? A dor que nos atinge é, pois, o sinal da redenção. Se pagamos é porque devemos, de vez que, na contabilização minuciosa dos nossos atos, nenhuma ação ocorre sem a correspondente reação. O sofrimento deve, assim, ser recebido com humildade, com gratidão, com firmeza, porque é a única moeda com a qual conseguimos resgatar nossos compromissos, de há muito vencidos nos refolhos da Lei. Quanto mais cedo nos quitarmos com nossos credores, mais cedo poderemos desfrutar da suprema alegria da paz espiritual.

*

Outros ditos existem, forjados talvez por alguém que não tinha ainda a visão muito clara de certas leis da vida e da vontade do Pai. De outra forma, não se diriam coisas como esta: “Deus dá nozes a quem não tem dentes”, ou esta outra: “Deus dá asas a quem não sabe voar." Além de pressuporem a existência de um Deus vingativo e maldoso que se diverte em suprir de nozes a quem não tem dentes para mastigá-las, ou asas a quem não pode utilizá-las, esses provérbios revelam absoluto desconhecimento das leis cármicas.

Se hoje temos nozes e não podemos comê-las para matar a fome que nos devora as entranhas, é porque ontem, num passado que se perde na poeira dos séculos, muita fome e muita miséria fizemos sofrer a pobres irmão nossos. É porque tínhamos demais e não soubemos dar. É porque nem mesmo a migalha das nossas mesas atirávamos aos infelizes lá fora. É porque, enceguecidos pelo egoísmo da matéria, comíamos nossas nozes regaladamente, à vista da criança faminta. Se hoje não voamos com as “asas" que temos, é porque noutras eras voamos para os abismos do crime e da miséria moral, em vez de nos alçarmos às esferas de luz e de amor. De mais a mais, a punição e o sofrimento não vêm das mãos de Deus; nós mesmos os criamos, como contrapartida irrecusável ao praticarmos nossos erros. O equilíbrio no balanço da vida só se obtém por partidas dobradas, tal qual ensinam as normas clássicas da Contabilidade. A falta que cometemos contra o irmão fica debitada à nossa conta e, simultaneamente, creditada a uma conta a resgatar, em futuro próximo ou longínquo. Da mesma forma, o gesto de caridade e amor, de perdão e ajuda, escritura-se, com larga bonificação, a crédito de nossa conta corrente, representando, do outro lado, lucro líquido e certo em favor do nosso desenvolvimento espiritual, superavit cambial divino, com o qual resgatamos dívidas morais.

Lavoisier dizia que nada se perde, tudo se transforma. O sábio, no entanto, reportava-se a leis materiais. Poderíamos estender seus conceitos às leis morais, pois que nenhum gesto de bondade e de amor se perde no vazio. A cada um deles corresponde uma compensação, muitas vezes superior ao mérito da ação que praticamos. Igualmente, nenhum gesto de crueldade se perde. Sendo, como é, uma atitude negativa, cria uma espécie de “molde” espiritual que um dia será utilizado contra nós mesmos. Assim, se nós próprios criamos nosso futuro de dores, preferindo livremente o mal, por que atribuirmos a Deus sentimentos mesquinhos de vingança e de castigo?

*

Outro provérbio invigilante é este: “Parentes são os dentes, mesmo assim mordem a gente.” Além da rima forçada, essa frase também revela desconhecimento da sábia lei da reencarnação. Os parentes que temos nesta vida são os que merecemos de acordo com o grau de evolução espiritual que atingimos. Algumas vezes, nós mesmos escolhemos a família no seio da qual desejamos renascer. De outras, os nossos compromissos com a Lei são tão sérios, que nossos mentores nos trazem caridosamente para o meio que melhor atenda ao nosso desenvolvimento. Assim, o antigo assassino recebe como filho aquele de quem noutra existência roubou a vida. Os inimigos irreconciliáveis nascem sob o mesmo teto, muitas vezes como irmãos gêmeos, para reaprenderem a lei do amor, da tolerância, da cooperação. O filho inválido, do qual somos obrigados a cuidar, foi talvez aquele que sacrificamos em passadas existências. O parente transviado, que tantas angústias e sobressaltos hoje nos causa, não seria aquele que nós mesmos ajudamos a transviar em vidas pretéritas?

Vemos, assim, que os parentes não mordem a gente, como diz o ditado, apenas se congregam em tomo de nós para que juntos aprendamos a nos amparar, sofrer e caminhar. Entendemos, com os mestres do Espiritismo, que não pode haver felicidade, nas sublimes mansões do Espaço, para aqueles que deixaram pais, irmãos, filhos, parentes, em geral, ainda presos ao cipoal do erro. Nós mesmos, embora já conscientes de algumas leis superiores da vida, quanto ainda não precisamos evoluir para alcançar aqueles que lá de cima velam por nós, esperam por nós e sofrem por nós? A família é, pois, um grupo que caminha, oferecendo mútuo amparo, revezando-se aqui na Terra e no Além, uns na carne, outros em espírito. Por que, então, o dito amargo de que “mordem a gente”?

Meu caro amigo: vamos começar a desfazer esses provérbios mal formados e mal informados?

João Marcus

Hermínio C. Miranda
(Sob pseudônimo de João Marcus), do livro:
Candeias na noite escura
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Nota explicativa: - Hermínio C. Miranda também assinava seus artigos como João Marcus e H.C.M. Este expediente foi sugerido pelo editor da Revista Reformador para que pudessem ser publicados mais artigos dele em uma mesma revista. 
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quinta-feira, 27 de junho de 2024

Joana d'Arc Segundo Léon Denis

Joana d'Arc segundo Léon Denis

João Marcus 

(Pseudônimo de Hermínio C. Miranda)



“Em 1839 — escreve Régine Pernoud (“The Retrial of Joan of Arc", tradução de J. M, Cohen, edição da Harcourt, Brace e Co., New York, 1955.) , o erudito escritor Vallet de Viriville estimou em 500 as obras dedicadas a Joana d’Arc; cinquenta anos depois o número havia quintuplicado. Contudo, o interesse que ela suscitou no século XIX nada é, comparado com o que tem despertado desde então.”

É verdade isso. Poucas figuras humanas como a legendária menina de Domrémy reúnem em si mesmas tão extraordinários atributos e, por isso, continuam a surgir textos acerca da “Pucelle”, explorando, quanto possível, aspectos novos da sua trajetória, ou lançando novas teorias acerca do fenômeno Joana d’Arc, a despeito da existência de obras exaustivas, como os cinco volumes de Quicherat, os quatro de Lefèvre-Pontalis, os quatro de Dunand, e quantos mais...

Seria inexplicável tal interesse por uma adolescente executada há quase cinco séculos e meio, não fossem as circunstâncias que envolveram o lamentável e doloroso episódio. Ao comentar os depoimentos recolhidos durante o processo de reabilitação, Régine Pernoud escreve que cada um contribuiu...

... “com pequenos traços, para o desenho do mais espantoso retrato existente na história da França: o de uma jovem de 20 anos incompletos, que não sabia distinguir o A do B, mas que restaurou um reinado e escolheu o seu rei”.

Mas, não somente isso, porque ela realizou o prodígio contra as mais inconcebíveis resistências e dificuldades para depois ser abandonada, inclusive pelo homem em cuja cabeça depositou a coroa da França, restaurada na sua glória e poder. Por outro lado, foram precisamente os representantes da religião, que ela honrou com a pureza imácula das suas práticas devotadas, os que se investiram da pretensa autoridade para condená-la em nome do mesmo Cristo que diziam amar e servir da única maneira certa...

— “Que língua falou a voz?” — pergunta um dos inquisidores.

— “Melhor do que a vossa — responde Joana, que notara o forte sotaque do dialeto limosino que falava o dominicano.”

E outro:

— “Você crê em Deus?”

— “Melhor do que vós — é a resposta.”

Já no início dessa barragem de perguntas, em Poitiers, formuladas pelos mais cultos e ardilosos “doutores da lei” a época, ela fizera a sua afirmativa de que não sabia “A nem B”, mas quanto ao que vinha, isto sim:

— “Venho da parte do Rei do Céu para levantar o sítio de Orléans e para conduzir o rei a Reims, para que seja coroado e consagrado.”

Para explicar esse fenômeno que aturdia os generais e confundia os teólogos, faltava na vastíssima bibliografia histórica uma interpretação vazada em termos de Doutrina Espírita. Essa tarefa coube ao filósofo-poeta do Espiritismo: Léon Denis. E nas homenagens que tão merecidamente lhe são prestadas nesta oportunidade, convém relembrar o notável estudo de sua autoria, que explica e define a posição de Joana d’Arc como médium e evidencia a indiscutível interferência dos poderes espirituais no curso da História. (Denis, Léon. “Joana d’Arc, Médium”, edição da FEB.)

— “A vida de Joana — escreve Denis — é uma das manifestações mais brilhantes da providência na História.”

Não se trata, porém, de mais uma tese sobre a “Pucelle”: é obra de pesquisa, de carinho, de inteligência e de lucidez. Mais do que isso ainda: a própria Joana, das alturas rarefeitas da luz, acompanha o trabalho do incansável batalhador da verdade.

— “Por isso mesmo — escreve Denis — é que, votando-lhe ardente simpatia, consagrando-lhe terna veneração e vivo reconhecimento, escrevi este livro. Concebi-o em horas de recolhimento, longe das agitações do mundo. A medida que o curso de minha vida se precipita, mais triste se toma o aspecto das coisas e as sombras se condensam à volta de mim. Mas, vindo do alto, um raio de luz me ilumina todo o ser e esse raio emana do Espírito de Joana. Foi ele quem me esclareceu e guiou na minha tarefa.” (Grifo do autor.)

E, mais adiante, para concluir:

— “Estas páginas são a expressão fiel do seu pensamento, do seu modo de ver.”

O livro não é, pois, um mero levantamento histórico com base em documentos preexistentes e suposições mais ou menos engenhosas; ele contém testemunhos vivos recebidos mediunicamente da própria Joana, como este:

— “É-me doce e delicioso volver aos momentos em que pela primeira vez ouvi minhas vozes. Não posso dizer que me amedrontei. Fiquei grandemente admirada e mesmo um pouco surpreendida de me ver objeto da misericórdia divina” — diz ela em mensagem datada de 15 de julho de 1909.

*** 

Vem de remotas eras o aprendizado desse valoroso Espírito, segundo revelou em outra mensagem ditada, em Paris, em 1898. Vivera existências proveitosas na Armórica (*), entre os celtas, aprendendo com os sacerdotes druidas as verdades da sobrevivência do Espírito, da comunicabilidade e da reencarnação.

(*) Armórica é um nome romano derivado de duas palavras célticas que significam “junto ao mar“. Compreendia, aproximadamente, a região que, mais tarde, seria conhecida como Bretanha, nas antigas Galias. Ver, também, a respeito, o artigo "Rivail — o direito de ser Kardec", em ‘Reformador” de novembro de 1976, pág. 331.

É provável até que seus caminhos tenham se cruzado aí com os de Kardec. Em mensagem ditada em 1909, lembrou o Codificador: — “Fui sacerdote, diretor das sacerdotisas da ilha de Sein e vivi nas costas do mar furioso, na ponta extrema do que chamais a Bretanha.’’

Denis deixa entrever que Joana teria também experimentado “existências de patrícia” romana e de grande dama, “amante de vestes suntuosas e belas armaduras”.

Um dia, em passado distante, aquela que seria Joana adormeceu e teve a visão de combates sangrentos que, infelizmente, eram impossíveis de serem evitados,  em virtude do livre arbítrio de cada um, mas, especialmente, porque eram motivados pelo “amor ao ouro e à dominação, os dois flagelos da Humanidade”. 

A visão prosseguia, mostrando-lhe a grandeza futura da França e o papel que caberia a essa nação no processo civilizador da Terra.

— “Deliberei consagrar-me muito particularmente a essa obra. Logo me vi rodeada de uma multidão simpática que na maior parte chorava e deplorava a minha perda. Em seguida, o veneno, o cadafalso, a fogueira passam vagarosamente por diante de mim. Senti as labaredas devorando-me as carnes e desmaiei!”

A missão era, pois, importante, mas extremamente penosa. Havia, porém, um trabalho a realizar, e a tarefa, ao mesmo tempo em que objetivava introduzir uma correção deliberada no curso da História, representava para Joana uma oportunidade redentora que ela não deveria recusar, embora pudesse fazê-lo.

Havia, ademais, valioso prêmio, se a empreitada fosse bem realizada, pois os amigos espirituais procuraram imediatamente neutralizar o seu susto:

— “Espera! A falange celeste que tem por missão velar sobre esse globo te escolheu para secundá-la em seus trabalhos e assim acelerar o teu progresso espiritual. Mortifica tua carne — ensinavam eles —, a fim de que suas leis não possam ser obstáculo a teu Espírito. A provação será curta, porém, rude.’’

Nesse encontro lhe foi, dessa forma, assegurado todo o apoio de que precisasse, e anunciado até o processo de que se utilizariam, ou seja, a instrumentação da mediunidade, como elo de ligação com os componentes da equipe celestial. Ela devia estar preparada para “resistir aos homens e obedecer a Deus”.

— “Seguindo estes conselhos, os mensageiros do céu virão a ti, ouvirás suas vozes e te aconselharão; podes ficar tranquila, não te hão de abandonar!”

Assim foi, muito embora, para Joana encarnada, esse abandono parecesse, às vezes, caracterizado em situações extremanente críticas, a partir da sua prisão e entrega aos ingleses. As vozes calaram-se por algum tempo e quando lhe falavam era para dizer que não se afligisse tanto, pois que a libertação vinha próxima. Interpretando a seu modo a promessa, Joana pensava que seria posta em liberdade ainda na carne. Tratava-se, porém, da libertação da carne e não na carne.

Nem aí, porém, seus amigos a abandonaram.

— “Terá Joana sofrido muito?” — pergunta Léon Denis. Ela própria nos assegura que não. “Poderosos fluidos, diz-nos, choviam sobre mim. Por outro lado, minha vontade era tão forte que dominava a dor.”

Cumprira fielmente a sua tarefa gigantesca, a qual, segundo Denis, se desdobrara em dois aspectos distintos: o renascimento político da França, é certo, mas também “a revelação do mundo invisível e das forças que ele encerra”. Pela primeira vez, documentava-se na História, sem contestação possível, que essas forças podem interferir e o fazem quando necessário.

— “Quando o Céu intervém — escreve Denis —, quando Deus manda seus mensageiros à Terra, podem opor-se-lhe à ação resistências e obstáculos?”

Sobre este delicado aspecto, o eminente pensador espírita expende comentários de grande oportunidade e profundeza, pois tanto o homem, individualmente, é livre, quanto a Humanidade, como um todo, o é. Livres, mas responsáveis. O exercício do arbítrio, num como noutra, acarreta inelutáveis consequências ao longo do tempo.

— “Também o cego é livre — diz Denis — e, contudo, sem guia, de que lhe serve a liberdade?

— “Quando o cego marcha para o abismo, é preciso que o guia interfira com o cuidado possível, mas, também, com a energia necessária.

— “A missão de Joana é dificílima. Nenhum ser, por mais elevado que seja seu gabarito evolutivo, seria capaz de realizar aquela tarefa gigantesca sem estar solidamente articulada com as equipes espirituais que o sustentam.

— “A situação da França é desesperadora. A luta com a Inglaterra arrasta-se há quase cem anos. Sucessivas derrotas esmagaram a nobreza e destroçaram o moral das tropas. A economia desorganizou-se; há destruição por toda parte, fome, peste, ausência de autoridade e de liderança, traições, acomodações e desespero. De vitória em vitória, o inimigo aproxima-se do coração da França. Paris já se encontra em poder dos ingleses. Falta Orléans, que, não obstante, está sob penoso sítio, quase nos limites da resistência. O mato cresce nos campos de cultivo, as aldeias foram abandonadas, imperam por toda parte a desolação, o banditismo, a morte.

— “Nesse angustioso cenário, uma nação, outrora valente e gloriosa, aguarda o último ato de sua soberania. A um canto, encurralado em Chinon, o delfim [Carlos VII] assiste, impotente e apático, à agonia de sua pátria.”

Aliás, em todo esse episódio doloroso, a figura mais trágica é a desse príncipe aturdido. O julgamento da História não lhe é absolutamente pacífico. Muitos são os que o tratam com impiedosa dureza, especialmente porque foi dos primeiros a abandonar a jovem guerreira à sua própria sorte. Marcel Grosdidier de Matons ("Le Mystère de Jeanne d’Arc”, edição Félix Alcan, Paris, 1935.) tenta oferecer-nos uma visão mais simpática do pobre delfim, cuja posição, na verdade, não era das mais fáceis. De fato, o tratado de Troyes, nascido das maquinações de sua própria mãe, Isabeau, e do Duque de Bourgogne, declarava-o sumariamente bastardo. Num regime de sucessão por direito divino, como o da França, como poderia uma criatura nessas condições aspirar ao trono?

— “Vive ele em Chinon, despreocupado de seu infortúnio — diz Denis —, absorvido pelos prazeres, cercado de cortesãos, que o traem e secretamente pactuam com o inimigo.”

A esse homem, que nem em si mesmo acredita, é que compete a Joana colocar sobre um trono, que lhe cabe reerguer dos escombros de uma nação aviltada por derrotas e traições, e que se prepara para aceitar o inevitável. Já a essa altura, Henrique VI, da Inglaterra, se proclamara rei também da França.

Por isso, observa Léon Denis:

— “E vede que mistério admirável! Uma criança é quem vem tirar a Franca do abismo. Que traz consigo? Algum socorro militar? Algum exército? Não, nada disso. Traz apenas a fé em si mesma, a fé no futuro da França, a fé que exalta os corações e desloca as montanhas. Que diz a quantos se apinham para vê-la passar? “Venho da parte do rei do céu e vos trago o socorro do céu!”

— “Nenhum poder da Terra é capaz de realizar este prodígio: a ressurreição de um povo que se abandona. Há, porém, outro poder, invisível, que vela pelo destino das nações.”

Joana é a representante viva desse poder, e o instrumento que torna possível o prodígio, a que alude Denis, é precisamente a mediunidade que, segundo o escritor espírita, raras vezes tem ocorrido assim tão variada, completa e cristalina. Ela vê e ouve seus companheiros espirituais. Fala com eles, recebe instruções, avisos, estímulos e conselhos. Transmitem-lhe intuições exatas no momento preciso. Levantam para ela, aqui e ali, o véu que ainda encobre o futuro. Seguem-lhe os passos por toda parte, desde Domrémy, quando abandona a casa paterna, no silêncio da noite, até Rouen, onde seu corpo se consome em chamas. Não chegou a durar dois anos a epopéia da menina admirável, que se deixa guiar, com bravura, pelos seus amigos de cima e enfrenta, destemidamente, todos os ardilosos comparsas das sombras que se atravessam no seu caminho. Quase todos vêm vestidos de mansos cordeiros ou trazem as insígnias coloridas do poder temporal, principalmente religioso, para oprimirem exatamente a ela, que fala em nome dos amigos de Jesus!

Vencendo dificuldades sobre-humanas, chega, afinal, a Chinon porque as vozes insistem em que ela fale com o delfim. Dois dias se arrastaram antes que fosse concedida a almejada entrevista. Nada intimida aquela jovem e iletrada camponesa. Parece habituada a mover-se nas cortes dos reis, pois, como escreve Denis, “em épocas que lhe precederam ao nascimento, frequentou moradas mais gloriosas, do que a corte de França e disso guardou a intuição”.

É chegado o grande momento. Entra no salão imenso, onde se reúnem 300 pessoas da mais alta nobreza, ricamente trajadas. Ainda desconfiado e hesitante, o delfim misturou-se à multidão, colocando outra pessoa no trono. Joana não se deixa enganar: dirige-se a ele, com firmeza e deliberação, ajoelha-se aos seus pés e depois lhe fala longamente, em voz baixa, ante a estupefação geral e não poucos sorrisos de mofa e incredulidade. Traz-lhe o recado de mais alto, que a História não documentou. Sabe-se, porém, que confirmou, da parte dos poderes que a enviavam, que ele era filho do rei e herdeiro legitimo da coroa, restituindo-lhe a confiança em si mesmo.

Continuaria, pela sua curta e momentosa existência, a dar testemunho dos seus dons e das suas indiscutíveis credenciais. Inúmeras vezes enfrentaria o poder transitório da Terra, sob as mais adversas condições, com a segurança que lhe emprestavam seus amigos invisíveis.

— “Quando, porém, vos levarem às sinagogas — ensinara Jesus (Lucas, 12:11 e 12) —, perante os magistrados e as autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de responder para a vossa defesa, porque o Espírito Santo vos inspirará naquela hora o que deveis dizer.”

Assim foi. Ante a saraivada de questões, das mais capciosas, ela se manteve firme, confundindo a todos com as suas respostas corajosas.

Um exemplo: quanto ao Espírito que se identifica aos seus olhos como São Miguel, o pobre Cauchon lhe pergunta:

— “Ele estava despido?”

— “O Senhor pensa que Deus não tem com que vesti-lo?”

— “Tinha cabelos?”

— “Por que lhe seriam cortados os cabelos?”

Apresentavam-se, pois, seus amigos, completamente apreensíveis à sua visão espiritual.

***

Por fim, a penosa paixão que se arrastaria por seis meses. A Léon Denis revelou pormenores dolorosos:

— “Mandaram forjar para mim — diz ela — uma espécie de gaiola em que me meteram e na qual fiquei extremamente comprimida; puseram-me ao pescoço uma grossa corrente, uma na cintura e outras nos pés e nas mãos. Teria sucumbido a tão terrível aflição, se Deus e meus Espíritos não me houvessem prodigalizado consolações. Nada é capaz de pintar a tocante solicitude deles para comigo e os inefáveis confortos que me deram. Morrendo de fome, seminua, cercada de imundícies, machucada pelos ferros, tirei de minha fé a coragem para perdoar os meus algozes.”

Quanto à sua desesperada obstinação em usar roupas masculinas, esclarece Denis que foi para se defender melhor dos incessantes atentados ao seu pudor, não apenas da parte dos soldados que a vigiavam noite e dia, mas até mesmo do lamentável Conde de Stafford, que, “levado tanto pela superstição quanto por uma paixão hedionda — escreve Denis —, entrou no cárcere de Joana e tentou violentá-la”.

Acreditavam aqueles pobres Espíritos atormentados que, com isso, quebrariam o encantamento que sustentava aquela vontade férrea e a desligariam dos poderes em que se apoiava.

Enfrentava, na época, cerca de 70 juízes temíveis, sob o comando de Pierre Cauchon, que recebeu, como recompensa, o bispado de Lisieux. Mais tarde, segundo lembra Denis, seria excomungado, não pela atuação no processo de Joana, mas “simplesmente porque recusou satisfazer a um pagamento que o Vaticano exigia”.

Esses foram os homens que julgaram a menina de Domrémy, esses eram os métodos de que se serviam para alcançar seus fins.

Por isso, a tarefa de Joana prossegue ainda hoje. Léon Denis informa que, ao escrever seu livro, muitos dos atores daquele drama tenebroso estavam reencarnados na Terra sob a proteção de Joana.

— Carlos VII — escreve Denis — reencarnado num desconhecido burguês, acabrunhado de enfermidades, foi muitas vezes distinguido com a visita da “filha de Deus”. Iniciado nas doutrinas espiritualistas, pôde comunicar com ela, receber seus conselhos, seus incitamentos. Uma única palavra de censura lhe ouviu: “A nenhum, disse-lhe um dia Joana, me custou tanto perdoar como a ti.”

A antiga “Pucelle” conseguira reunir em só ponto da Terra seus inimigos de outrora, inclusive seus algozes. Procurou guiá-los em direção à luz, tentando fazê-los “defensores e propagandistas da nova fé”. Era de ver-se o devotamento da antiga vítima pelos seus torturadores, mas Denis se vê na contingência de confessar, em nome da verdade, que os resultados foram medíocres. Assim que se dissipavam, no envolvimento do mundo, as emoções daqueles contatos sublimes, eles se deixavam levar pelas suas paixões ainda ativas. Em breve, cessaram as manifestações.

— “Joana jamais se revelou senão a poucos”, prossegue Denis. “Os outros não souberam adivinhá-la. Raros puderam compreendê-la. Sua linguagem era muito perfeita; vertiginosas as alturas a que tentava atraí-los. Esses estigmatizadores da História, que se ignoram a si mesmos, ainda não estavam amadurecidos para semelhante papel.”

A supliciada de Rouen, porém, não abandonou os seus tutelados. Ainda hoje, e por muito tempo ainda, há de seguir amorosamente os seus passos, na esperança sempre renovada de conduzi-los ao coração do Mestre. Quando, onde e como despertarão, esses Espíritos atormentados, para as belezas do amor?

***

Resta uma palavra final. Não escaparia a Denis, certamente, o paralelo entre os sofrimentos de Jesus e as agonias de Joana. Tal como ele, ela foi traída, vendida, abandonada e sacrificada ao ódio desvairado dos donos do poder temporal. Tal como ele, sofreu heroicamente o suplício, perdoou a todos e seguiu amando. Tal como ele, inúmeras vezes tem voltado sobre seus passos para tentar o resgate daquelas almas tão fundamente marcadas pela aflição e que se prestaram ao papel doloroso de instrumentos da sua agoniada paixão.

Consta que Joana teria vivido ao lado de Jesus a personalidade controvertida e dramática de Judas. Em “Crônicas de Além-Túmulo” (cap. 5), obra escrita pelas mãos abençoadas de Chico Xavier, Humberto de Campos, Espírito, deixa entrever essa hipótese, ao reproduzir, em sua entrevista, a informação de Judas:

— “Depois da minha morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição, deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV.” (Acesse aqui o texto citado : Crônicas de Além-Túmulo - Cap. 5.

Não importa, porém, que Joana tenha ou não vivido como Judas; o que importa, hoje, é o seu exemplo de bravura, de absoluta confiança nos poderes que nos guiam os passos vacilantes pelos caminhos da vida. Foi uma pioneira da mediunidade a serviço total da Humanidade. Por intermédio dela, uma criança analfabeta, os Espíritos do Senhor provaram que podem mudar o rumo da História e que os homens não estarão para sempre entregues aos seus desatinos.

É bom relembrar isso, hoje, quando muitos acham que toda a civilização moderna disparou desabaladamente num processo de autodestruição. Não é isso o que informam as profecias. Não é isso o que dizem os mensageiros do Senhor. Ao contrário, asseguram eles uma era de paz e de reconstrução, que se iniciará precisamente a partir do momento em que tudo parece mergulhar no caos. E como não será preciso demonstrar novamente que isso é possível, é absolutamente necessário que não nos coloquemos ao lado daqueles que, num supremo esforço do desespero, estão desafiando uma vez mais as forças irresistíveis da luz. A hora final da treva está chegando. Qual será a nossa opção?

Nesse dramático contexto, em que forças antagônicas se defrontam, a advertência de Léon Denis deve ser reexaminada em toda a sua tremenda significação, ou seja, a de que a trajetória evolutiva da Humanidade não se desenvolve ao longo do tortuoso traçado dos nossos caprichos. Acima de nós, e por nós, velam prepostos de Deus e do Cristo, iluminados pela visão majestosa dos planos divinos. No momento certo, esses poderes entrarão em ação. E tormentosos séculos aguardarão os que insistirem em se opor à marcha irresistível do bem coletivo.

João Marcus
Pseudônimo de Hermínio C. Miranda

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sábado, 11 de maio de 2024

Gaveta de papéis

Gaveta de papéis

João Marcus 

(Pseudônimo de Hermínio C. Miranda)



Acho que as ideias, como os seres, os bichos e as plantas, também envelhecem e também morrem quando se aferram à sua condição transitória, esquecidas do apoio eterno da verdade. Isso é natural e explicável, pois que, se assim não fosse, a lei evolutiva, que evidentemente governa o Universo inteiro, seria impossível. De vez em quando temos de fazer uma revisão em nossas ideias, a fim de abandonar as que não servem mais e examinar com cuidado as que se incorporaram aos nossos arquivos psíquicos. É assim que evoluímos espiritualmente, pois, afinal de contas, o Espírito tem uma vocação irresistível para o aperfeiçoamento moral e o esclarecimento intelectual.

Mais ainda: é preciso desenvolver harmoniosamente os dois termos da equação humana: moral e intelecto. Nem tudo pode fazer uma criatura moralizada, quando reduzidos lhe são os recursos intelectuais, não lhe permitindo uma atividade esclarecedora em benefício próprio e alheio. Em todo o caso, é infinitamente melhor sermos bem evoluídos moralmente e acanhados do ponto de vista intelectual, do que sermos grandes sábios, pejados de conhecimentos, sem uma estrutura moral suficientemente desenvolvida. Deficiências morais e intelectuais são transitórias; essas faculdades tendem a se ajustarem, de vez que o Espírito às vezes se detém na sua caminhada, mas nunca recua, como ensina Allan Kardec. Acabará o Espírito por encontrar em si mesmo o justo equilíbrio, tornando-se moral e intelectualmente evoluído, o que, de resto, constitui seu objetivo e seu passaporte para o mundo maior. Em suma: é muito melhor ser bom e inculto do que sábio e imoral, mas o ideal só começamos a alcançar quando nos tornamos bons e sábios.

Enquanto não nos bafejamos com a brisa da bondade e da sabedoria, em doses equilibradas e justas, precisamos, não obstante, viver, aqui e no mundo espiritual, à medida que vamos e voltamos, em sucessivas encarnações. Ora, viver é escolher. A vida é uma série infinita de escolhas, de decisões e resoluções. Temos de as tomar, no livre exercício do nosso arbítrio. Ninguém pode, em sã consciência, pegar-nos pela mão e nos conduzir ao nosso destino; temos de ir com as nossas próprias forças e recursos. Quanto mais alta a hierarquia espiritual daqueles que se incumbem da espinhosa missão de nos guiar, mais cuidadosos se mostram em não tomar por nós decisão que nos compete. O que fazem esses orientadores é nos mostrar as alternativas. Se resolvermos pelo caminho do bem, dizem-nos, teremos o mérito das nossas vitórias; se nos decidirmos pelo mal, ficaremos com a responsabilidade e os ônus dos nosso erros. O Espírito, portanto, é deixado livre na sua escolha e iniciativa. Nessas contínuas e repetidas decisões é que vamos renovando nossas idéias e treinando a nossa vontade. O que ontem nos parecia certo, hoje pode parecer duvidoso e amanhã inteiramente inaceitável. De outro lado, muito do que considerávamos há pouco completamente errôneo, pode, de repente, assumir aspectos menos hostis, até que acabamos por incorporar as novas idéias à nossa bagagem intelectual.

Há, porém, a considerar, aqui, um ponto da mais alta importância: é que tanto podemos caminhar na direção da luz como permanecer nas trevas, tateando, ou nelas afundando cada vez mais, conforme esteja ou não alertada aquela condição básica a que o Mestre chamou vigilância. Se nos faltar esta que, ainda segundo o Cristo, se fortalece com a oração (Orai e Vigiai), vamos aceitando ideias indignas e dissolventes que antes nos repugnavam, mas que passamos a achar muito naturais. Se estamos atentos, se guardamos em nós a singeleza de coração que nos leva a receber, com humildade, não apenas as alegrias, mas principalmente as tristezas, então as ideias que começamos a considerar são as que constroem e educam, que aperfeiçoam e moralizam cada vez mais. É aí, pois, que entra em ação a nossa capacidade de escolha e decisão. E surge a pergunta: a ideia que se nos oferece é digna de ser incorporada à estrutura do nosso espírito ou é uma dessas que só vão contribuir para nos dificultar a marcha? Será que não estaremos trocando uma ideia nova, que à primeira vista nos seduz a imaginação, por uma outra que, embora velha, está escorada na Verdade? Ou, examinando a medalha do outro lado: será que não estamos desprezando uma ideia magnífica, apenas porque não desejamos, por comodismo ou temor, abandonar a ilusória segurança das nossas velhas e desgastadas noções?

Essas coisas todas me ocorrem quando me lembro da dificuldade que temos para nos livrarmos de ideias que somente nos prejudicam. Algumas delas têm sido mesmo responsáveis por muitas das nossas aflições e, em acentuada proporção, pelo próprio retardamento da marcha evolutiva da Humanidade. Estão neste caso alguns dos dogmas mais caros e mais irredutíveis da teologia ortodoxa. E aqui não se distingue a teologia católica da teologia protestante. Esta última, a despeito de todo o seu ímpeto reformista, conservou certos princípios que ainda prevalecem, como a questão da salvação.

Espero que o leitor fique bem certo de que não pretendo atacar o Catolicismo nem o Protestantismo. Reencarnacionistas convictos, como somos os espíritas kardequianos, podemos estar razoavelmente certos de já havermos trilhado os caminhos da ortodoxia religiosa. E bem provável que muitos de nós tenhamos até trabalhado ativamente para propagar essas idéias dogmáticas que agora não mais podemos aceitar. No entanto, temos de pensar — sem que nisso vá nenhuma pitada de superioridade — que aqueles caminhos ainda servem a muitos e muitos irmãos nossos.

Mas, voltando ao fim da conversa, em que consiste a salvação? Salvamos a nossa alma, diz o teólogo, das penas do inferno e vamos para o Céu, se agirmos de acordo com os preceitos da lei moral e se praticarmos fielmente os sacramentos, observando os ritos, conforme a prescrição canônica. Para a teologia ortodoxa não basta que o homem seja altamente moralizado, bom e puro: é preciso também que pratique os sacramentos e se conforme com a estrita orientação espiritual da sua Igreja. O desvio, por menor que seja, é logo tido por heresia e o seu iniciador é proscrito do meio, depois de esgotados os recursos habituais de persuasão, com o objetivo de reconduzir ao seio da comunidade a ovelha desgarrada.

Convém examinar bem essa ideia da salvação, pois esta é uma das que têm trazido bastante dano à evolução do espírito humano. No fundo, é um conceito egoístico: o Espírito se salva pela fé e pelas obras, diz o católico. Não, diz o protestante, basta a fé, porque o homem é intrinsicamente pecador e sem a graça vai para o inferno irremediavelmente. E, assim, muitos se encerraram em claustros, passaram a viver isolados do mundo para que nele não contaminassem suas almas destinadas ao Senhor, logo após a libertação da morte. Outros, empenhados não apenas em salvar as suas próprias almas, como a dos outros, saíram pregando aquilo que lhes parecia ser a doutrina final, a última palavra em matéria teológica. Ainda outros, mais zelosos e exaltados, achavam que não bastava salvar suas próprias almas e convocar as de seus irmãos a fim de lhes mostrar o caminho; era necessário obrigá-los a se salvarem, porque nem todos estariam em condições de decidir acerca dessas coisas tão importantes. E, por isso, aqueles que estudavam Teologia e se diziam em íntimo contato com Deus e agiam em nome do Senhor se sentiam não apenas no dever, mas na obrigação de salvar a massa ignara que nada entendia disso. "Creia porque eu creio e eu sei mais do que você" — parecia pensarem estes mais agressivos salvadores de almas. Quando o irmão recalcitrava, era preciso corrigi-lo, aplicando penas que iam desde a advertência amiga e verdadeiramente cristã até o extremo da tortura e, finalmente, do inacreditável assassínio frio e calculado, em masmorras infectas ou nas fogueiras purificadoras. Disso não se eximiu nem mesmo o nascente Protestantismo, cuja intolerância religiosa conduziu a crimes lamentáveis. Era melhor queimar um corpo físico — pensavam todos — do que permitir que aquela alma rebelde contaminasse outros seres incautos, com as suas doutrinas, e acabasse pelos arrastar às fornalhas do inferno.

Vemos, então, que a ideia da salvação se prende solidamente a duas outras: a do céu e a do inferno. A questão é que também estas precisam de um reexame muito sério.

Aqueles de nós que têm tido oportunidade de entrar em contato com Espíritos desencarnados, ficam abismados com a quantidade imensa de pobres seres desarvorados que não conseguem entender o estado em que se encontram e a vida no Além, ficando numa confusão dolorosa por um lapso de tempo imprevisível. O Espírito que levou uma ou mais existências ouvindo a pregação dogmática, sem cuidar de examiná-la, praticando as mais nobres virtudes, frequentando religiosamente todos os sacramentos e assistindo a todas as cerimônias do ritual, sente-se, com certa razão, com direitos inalienáveis ao prêmio que lhe foi prometido, isto é, subir para Deus imediatamente após a morte do corpo físico. No entanto, não é isso que acontece. Quem somos nós, Senhor, já não digo para sermos acolhidos no seio de Deus, mas para suportar com nossos pobres olhos o brilho de um Espírito mais elevado? Que mérito temos nós, ainda tão imperfeitos, para exigir o chamado céu, após uma vida (uma só, como creem os ortodoxos) em que tanto erramos, por melhores que tenham sido nossas intenções? Como poderemos ambicionar chegar a Deus se nem ainda tivemos tolerância suficiente para admitir a coexistência de outras crenças?

Daí o desapontamento daquele que morreu em pleno seio da sua Igreja amada, protegido por todos os sacramentos, recomendado por tantas missas e serviços religiosos, mas que, a despeito de tudo isto, ainda não viu a Deus.

Conhecemos também a angústia daqueles que, conscientes dos seus erros e crimes, ou mesmo ainda indiferentes a eles, mergulham num clima de angústia que lhes parece irremediável e sem fim, tal como lhes diziam que era o inferno. Hipnotizados à ideia do sofrimento eterno, nem sequer sabem que estão “mortos” na carne nem suspeitam que podem recuperar-se pela oração e pelo arrependimento. Figuras sinistras passeiam à sua volta e deles escarnecem e os fazem sofrer. São os demônios, pensa a criatura aterrada e desalentada. No entanto, são seres como ele próprio, também desarvorados e infelizes, todos inconscientes das forças libertadoras que trazem em si próprios e que podem ser despertadas pelo poder da lágrima e da prece.

Tanto num caso como noutro, não há como negar, estamos diante de vítimas do dogmatismo cego que proíbe o livre exame das questões. Enquanto na carne, aceitavam aquelas ideias ou seriam forçados a abandonar as igrejas a que pertenciam, se não excomungados, pelo menos proscritos do meio. E se de um lado estão os que não se dispuseram a deixar as ideias erradas por indiferença ou comodismo, de outro vemos os que não as deixaram por receio de não se salvarem, pois que uma das doutrinas prediletas das organizações dogmáticas é a de que fora delas não há salvação. Assim, vai a criatura inteiramente despreparada para enfrentar o momento supremo da sua vida terrena, isto é, aquele em que, mais uma vez, se encontra diante do trágico balanço da sua existência.

Por isso o Espiritismo mudou o conceito da salvação. Não dizemos que fora do Espiritismo não há salvação, e sim que fora da caridade não há salvação. Mas completamos esse nobre conceito explicando que céu e inferno são figuras de ficção que já perderam sua razão de ser e, ainda, que nunca essas ideias se conciliaram com a de um Deus justo e bom, puro e perfeito. Esse Deus, imenso de caridade e amor, não iria criar filhos seus para as chamas do inferno irremediável e eterno, como também não ficaria como um potentado, rodeado de multidões a Lhe cantarem loas eternas. O que Deus quer de nós é o trabalho fraterno e a conquista da nossa própria paz interior, palmo a palmo, com o nosso próprio esforço, se bem que muito ajudados pelo infinito amor que Ele derrama tão generosamente por todo esse grandioso Universo, fervilhante de vida.

Salvar-se, para o Espiritismo, não é escapar às penas de um inferno mitológico, para subir às glórias de um céu de contemplação extática. Salvamo-nos caminhando sempre para a luz divina, aos pouquinhos, vencendo nossas fraquezas, caindo aqui, levantando ali, ajudando e sendo ajudados, distribuindo as alegrias que nos sobram e recebendo um pouco da mágoa que aos outros aflige, pois que já disse alguém que a felicidade aumenta com o dar-se e o sofrimento alivia quando partilhado.

Salvar-se, para a Doutrina Espírita, não é escapar ao inferno que não existe, é aperfeiçoar-se espiritualmente, a fim de não cairmos em, estados de angústia e depressão após o transe da morte. E, em suma, libertar-se dos erros, das paixões insanas e da ignorância. Salvamo-nos do mal e nos liberamos para o bem, eis tudo.

Examine o leitor as suas ideias, como quem remexe uma gaveta de papéis. Aqui e acolá vai encontrando alguns que não servem mais e precisam ser postos fora, como também encontrará alguns conceitos novos que, sem se saber ao certo, juntaram-se à nossa bagagem. Estes também precisam de ser examinados com atenção. Talvez nos sejam úteis, mas tenha cuidado com eles. Uma ideia pode ser nova e boa e pode ser apenas nova. Pode ser velha e excelente e pode ser não mais que uma velharia que já teve seu tempo e desgastou-se. A pedra de toque de todas as ideias é a Verdade e esta somente nos ajuda a selecionar o nosso mobiliário mental e espiritual quando vamos adquirindo serenidade e humildade no aprendizado constante que é a vida, aqui e no Espaço.

João Marcus
Pseudônimo de Hermínio C. Miranda

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Nota explicativa: - Hermínio C. Miranda também assinava seus artigos como João Marcus e H.C.M. Este expediente foi sugerido pelo editor da Revista Reformador para que pudessem ser publicados mais artigos dele em uma mesma revista.

O livro: - Candeias na noite escura, é uma compilação com os melhores artigos de Hermínio na revista Reformador assinadas sob o pseudônimo de  João Marcus.
Hermínio C. Miranda

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quinta-feira, 9 de maio de 2024

Fé - A substância da esperança

Fé - A substância da esperança

João Marcus 

(Pseudônimo de Hermínio C. Miranda)


Embora com ligeiras variações, tanto Mateus como Lucas narram, em substância, a mesma história do centurião romano, um dos mais tocantes episódios dos tempos evangélicos. Ambos colocam o incidente logo após o famoso Sermão do Monte, quando Jesus entrava em Cafarnaum.

Mateus conta que o centurião foi pessoalmente ao Mestre, enquanto Lucas diz que o romano enviou-lhe uma delegação de anciãos judeus para formularem o pedido. Ambos, porém, deixam entrever que o soldado não estava preocupado com a perda do seu criado e sim realmente penalizado diante da dor que o pobre estava sofrendo com a sua paralisia. Jesus prontamente sentiu a sinceridade do homem e se propôs a curar o servo doente:

— Eu irei e o curarei  diz, segundo Mateus.

Lucas narra que ele se achava a caminho da casa do centurião quando este lhe mandou a mensagem que constitui a essência do episódio:

— Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Por isso, nem mesmo me achei digno de ir procurar-te. Dize, porém, uma só palavra e meu criado ficará bom.

Contam os evangelistas que o romano prosseguiu dizendo que, como soldado, ele tinha superiores hierárquicos a quem obedecia, tanto quanto subordinados, aos quais bastava dar uma ordem para que a cumprissem.

A leitura de Lucas nos esclarece que, embora fazendo parte do exército invasor que trazia a Palestina subjugada a César, o centurião era estimado entre os judeus — “é amigo de nossa gente e ele mesmo nos fundou uma sinagoga”, disseram os velhos. Extraordinário homem, esse bom centurião, tolerante para com os oprimidos ao ponto de granjear-lhes a simpatia e até fundar-lhes uma sinagoga.

Na sua aguda percepção, Jesus deve ter notado de imediato os méritos do homem tanto quanto a sinceridade do seu pedido em favor do criado doente. Mas, o que mais fundo tocou o coração do Mestre foi a fé que ele demonstrou no jovem profeta de Israel e no seu Deus, tão diferente dos deuses pagãos.

Vale a pena desenhar mais nitidamente o quadro para alcançarmos bem toda a grandeza do incidente.

A Palestina sempre foi uma espécie de encruzilhada do mundo. Por ali passaram com frequência os grandes conquistadores, em busca das riquezas lendárias do oriente. Por isso, Will Durant escreve que o povo judeu teve a sua história tumultuada, por tentar viver no meio de uma estrada movimentada.

Depois de Alexandre, cujo vulto já desaparecera na poeira dos séculos, vieram os romanos que, desde o ano 63 antes do Cristo, começaram a interferir nos negócios políticos dos judeus, ao tempo de Pompeu. A dominação total não tardaria, com a invasão e a ocupação e todo o seu cortejo de pressões e crueldades, que eram duros os tempos e o coração dos homens.

Emmanuel nos conta — em ‘‘Paulo e Estêvão” — as aflições que delegados romanos prepotentes impuseram à família daquele que seria o primeiro mártir do Cristianismo.

Não é de admirar-se, pois, que o povo de Israel suspirasse pelo Messias que, segundo a letra das profecias, viria em todo o seu poder e majestade, para expulsar os romanos e restabelecer na terra sagrada o governo livre do estado judaico.

Roma era onipresente na Palestina, na figura dos soldados quase sempre impiedosos, agentes do Cesar distante, temido e odiado. Eram eles o símbolo daquele poder esmagador que extraía impostos elevados de um povo empobrecido, sufocava em sangue e lágrimas os anseios de liberdade, confiscava bens e profanava as ruas e até os templos com imagens e figuras que os livros sagrados proibiam taxativamente.

É, pois, digno de respeito, um comandante romano que tenha conquistado as boas graças do povo esmagado. É mais notável ainda que tenha tido a corajosa humildade de solicitar a ajuda de Jesus para salvar um servo modesto, figura social que naqueles tempos ásperos se colocava pouco acima do mendigo. É surpreendente que tenha levado tão alto o seu respeito pelo jovem pregador que nem mesmo a sua casa achou-a digna de recebê-lo. Podemos presumir que sua residência fosse bem melhor que a maioria das casas ocupadas pelos próprios judeus. Os invasores sempre tomam para si o que há de melhor. Acima de tudo, porem, o que ressalta deste episódio, tão profundamente humano, é a fé que o romano demonstrou em Jesus, a ponto de não achar nem mesmo necessário que ele viesse ver o servo doente; bastaria — como bastou — o poder do pensamento e da vontade daquele doce profeta da paz.

Até mesmo Jesus se admirou daquela demonstração inesperada. Voltou-se para os que o seguiam para exaltar o gentio, pois que “nem em Israel” achara tamanha fé. Segundo Mateus, Jesus aproveitou mesmo a oportunidade para conclamar a universalidade do seu pensamento, exatamente porque se baseava em conceitos que atraíam tanta gente, mesmo fora dos círculos judaicos: 

“Digo-vos, porém, que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa com Abraão e Isaac e Jacó no reino dos céus, mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mat. 7, vv. 11 e 12).

Ao que parece, o Mestre previa, nessa passagem, que incontáveis multidões não israelitas haveriam de aderir à sua doutrina, enquanto que os judeus que não cumprissem a lei de Deus seriam precipitados nas trevas de suas próprias angústias. Sua doutrina era, assim, para todos, como muito bem o entendeu Paulo, pouco depois. Não seria mais uma seita judaica; era uma nova filosofia de vida para todos os povos da Terra. O suporte básico dessa pregação era a fé.

— Vai — disse ao centunão — e faça-se segundo tu creste.

Os séculos escorreram lentamente sobre a cena de Cafarnaum e o conceito singelo e profundo da fé passou por muitas alterações e distorções. Achava Paulo que a fé salvava o justo (Epístola aos Romanos). Entendeu Lutero, apoiado nesse mesmo pensamento pauliniano, que somente a fé era capaz de salvar, de nada adiantando as nossas intenções e as nossas obras. A fé sozinha cobriria as nossas iniquidades e imperfeições, levando-nos sãos e salvos ao reino de Deus.

Na Idade Média, trágica época de obscurantismo e intolerâncias, a fé adquirira a rigidez cadavérica dos dogmas, esquecida de suas origens e da sua finalidade. Quiseram proclamar que somente um caminho havia para Deus e quem não quisesse trilhar aquela vereda deveria morrer o quanto antes, para não contaminar o resto do rebanho.

As primeiras tentativas de racionalizar a fé, na altura do século 12, levaram Abelardo à desgraça e ao opróbrio, quando se levantou em defesa da Igreja a voz de Bernardo. A fé não era para ser discutida, nem racionalizada, nem submetida aos esquemas frios da filosofia e da lógica. Tudo a ela se subordinava, até mesmo a filosofia. Qualquer raciocínio que contrariasse uma questão de fé era imediatamente rotulado de heresia e tenazmente combatido. Os homens tinham de renunciar à tentativa de reconciliar razão e fé. Nada tinha a ver uma com a outra; eram ramos autônomos do pensamento e nos pontos em que se chocavam tinham de predominar, necessariamente, sem discussão, os postulados da fé, tal como a entendiam os teólogos. O homem tinha que crer não só quando o dogma era absurdo, mas exatamente porque era absurdo, pois a fé alcançava onde a razão se recusava a chegar.

Mas que era a fé? Paulo tentara a sua definição. Diz o grande apóstolo, no capítulo 2, versículo 1, da Epístola aos Hebreus, que a fé é a substância das coisas que se esperam e a evidência das coisas que não se veem. Muito se tem dito depois de Paulo a respeito da fé, mas acho que jamais se disse tão bem e tão belo. Substância da esperança, evidência daquilo que não podemos ver... Que melhor maneira de conceituar algo tão diáfano como a fé?

Tocaria, porém, ao Espiritismo de Kardec o coroamento da tarefa: não apenas conciliar razão e fé, mas, ainda além, declarar que a fé somente é legítima quando passar pelo teste da razão. Chegara, afinal, a era do Consolador. Viera no tempo certo, porque antes disso os homens não estavam prontos para a renovação dos conceitos esclerosados da teologia milenar. Por outro lado, a sofisticação científica e filosófica, que a civilização trouxera no seu bojo, retirava do homem a simplicidade indispensável à aceitação daquela fé tão pura e firme que Jesus identificara no centurião. Os homens haviam começado a inquirir o porquê das coisas e a buscarem os suportes da fé. Quando a fé surgia desapoiada na razão, era rejeitada e não havia mais o que colocar no lugar dela, até que explodiu, com todo o seu impacto, a Doutrina dos Espíritos.

Por tudo isso, nós, que hoje estamos nesta posição, podemos olhar com tranquilidade o nosso futuro espiritual e o futuro da Humanidade a que pertencemos. Estamos bem equipados para enfrentar a desorientação que predomina no mundo em que vivemos. A nossa fé é estruturada naquela substância da esperança de que nos falava Paulo, uma esperança que o ensino dos mentores espirituais converteu em certeza. Quanto à evidência do que não vemos, ela salta à nossa visão espiritual, no trato quase que diário com tantos irmãos espirituais invisíveis que, antes de nós, partiram para a outra margem da vida.

Se o centurião podia crer sem discutir e sem racionalizar, por que haveremos nós, espiritas, de temer pelo futuro da Humanidade se já nos foi dado crer ao mesmo tempo com a cabeça e o coração?

Deus abençoe a Kardec, instrumento bendito dessa mensagem de paz e de amor. Até que chegássemos a esse patamar do pensamento filosófico-religioso, toda uma legião de bons trabalhadores lutaram e sofreram para nos legar aquilo a que Paulo chamou substância da esperança.

João Marcus
Pseudônimo de Hermínio C. Miranda

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