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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O Espiritismo nas prisões

O Espiritismo nas prisões

Allan Kardec

Revista Espírita Fev. 1864


Na Revista de novembro de 1863, publicamos uma carta de um condenado detido numa penitenciária, como prova da influência moralizadora do Espiritismo. A carta abaixo transcrita, de um condenado em outra prisão, é um exemplo dessa poderosa influência. É de 27 de dezembro de 1863. Transcrevemo-la textualmente, quanto ao estilo. Corrigimos apenas os erros ortográficos.

“Senhor,

“Há poucos dias, quando me falaram pela primeira vez de Espiritismo e de revelação de além-túmulo, eu ri e disse que isto não era possível. Eu falava como um ignorante, que sou. Alguns dias depois tiveram a bondade de me confiar, em minha horrível posição em que me acho agora, vosso bom e excelente Livro dos Espíritos. A princípio li algumas páginas com incredulidade, não querendo, ou melhor, não crendo nessa ciência. Enfim, pouco a pouco e sem me aperceber, por ele tomei gosto; depois levei a coisa a sério; depois li pela segunda vez o vosso livro, mas então com um outro espírito, isto é, com calma e com toda a pouca inteligência que Deus me deu.

“Senti então despertar essa velha fé que minha mãe me tinha posto no coração e que dormitava há longo tempo. Senti o desejo de me esclarecer sobre o Espiritismo.

A partir desse momento tive um pensamento muito decidido, o de tomar conhecimento, aprender, ver e depois julgar. Pus-me à obra com toda a crença que se pode ter e que é preciso ter em Deus e em seu poder. Eu desejava ver a verdade.

Orei com fervor e comecei as experiências.

“As primeiras foram nulas, sem resultado algum, mas não me desencorajei. Perseverei em minhas experiências e, palavra, redobrei minhas preces, que talvez não fossem bastante fervorosas e mergulhei no trabalho com toda a convicção de uma alma crente e que espera.

“Ao cabo de algumas noites, pois só posso fazer as experiências à noite, senti, por cerca de dez minutos, frêmitos nas pontas dos dedos e uma leve sensação no braço, como se tivesse sentido correr um riachinho de água morna, que parava no punho. Eu estava então bem recolhido, todo atenção e cheio de fé. Meu lápis traçou algumas linhas perfeitamente legíveis, mas não bastante corretas para não crer que estivesse sob o peso de uma alucinação. Esperei então com paciência a noite seguinte para recomeçar as experiências, e dessa vez agradeci a Deus, de todo o coração, pois tinha obtido mais do que ousava esperar.

“Desde então, de duas em duas noites, entretenho-me com os Espíritos que são bastante bons para responder ao meu apelo e, em menos de dez minutos, respondem sempre com caridade. Escrevo meia página ou páginas inteiras que minha inteligência não poderia fazer sozinha, porque, às vezes, são tratados filosófico religiosos em que jamais pensei nem pus em prática; porque dizia-me, aos primeiros resultados: Não serás joguete de uma alucinação ou da tua vontade? E a reflexão e o exame me provavam que eu estava bem longe dessa inteligência que havia traçado aquelas linhas. Eu baixava a cabeça, cria e não podia ir contra a evidência, a menos que estivesse inteiramente louco.

“Remeti duas ou três dessas comunicações à pessoa que tinha feito a caridade de me confiar o vosso bom livro, para que ela sancione se estou certo. Venho pedir-vos, senhor, vós que sois a alma do Espiritismo, que tenhais a bondade de me permitir vos envie o que obtiver de sério em minhas conversas de além-túmulo, se, todavia, achardes bom. Se isto for de vosso agrado, vos enviarei as conversas mantidas com Verger, aquele que feriu o arcebispo de Paris. Para bem me assegurar de que o manifestante era ele mesmo, evoquei São Luís, que me respondeu afirmativamente, bem como outro Espírito no qual tenho muita confiança, etc...............”

As consequências morais deste fato se deduzem por si mesmas. Eis um homem que tinha abjurado toda crença e que, ferido pela lei, se acha confundido com o rebotalho da Sociedade. Esse homem, no meio do pântano moral, voltou à fé. Ele vê o abismo em que caiu; ele se arrepende; ele ora e, digamo-lo, ah! Ele ora com mais fervor que muita gente que exibe devoção. Para isto bastou a leitura de um livro onde encontrou elementos de fé que a sua razão pôde admitir, que reanimaram as suas esperanças e lhe fizeram compreender o futuro. Além disso, o que é digno de nota, é que a princípio leu com prevenção e sua incredulidade só foi vencida pelo ascendente da lógica. Se tais resultados são produzidos por uma simples leitura, feita, por assim dizer, às ocultas, o que seria se a ela se pudesse juntar a influência das exortações verbais!

É bem certo que, na disposição de espírito em que hoje se encontram, esses dois homens (ver o fato relatado no número de novembro último), não apenas não terão, durante sua detenção, qualquer conduta reprovável, mas entrarão no mundo com a resolução de aí viverem honestamente.

Considerando-se que estes dois culpados puderam ser reconduzidos ao bem pela fé que acharam no Espiritismo, é evidente que se eles tivessem tido essa fé previamente, não teriam cometido o mal. A Sociedade é, pois, interessada na propagação de uma doutrina de tão grande poder moralizador. É o que se começa a compreender.

Uma outra consequência a tirar do fato relatado é que os Espíritos não são detidos pelos ferrolhos, e que vão até o fundo das prisões levar suas consolações.

Assim, não está no poder de ninguém impedir que eles se manifestem de uma ou de outra maneira. Se não for pela escrita, será pela audição. Eles enfrentam todas as proibições, riem-se de todas as interdições, transpõem todos os cordões sanitários. Que barreira podem, então, lhes opor os inimigos do Espiritismo?

Allan Kardec
Revista Espírita Fev. 1864


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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Exemplos da ação moralizadora do Espiritismo

Exemplos da ação moralizadora do Espiritismo

Allan Kardec

Revista Espírita Nov. 1863

Para as cartas que seguem chamamos a atenção dos que pretendem que, sem o medo das penas eternas, a Humanidade não teria mais freio, e que a negação do inferno eternamente pessoal abre caminho a todas as desordens e a todas as imoralidades:

“Montreuil, 23 de agosto de 1863.

“Em março último eu ainda era o que se pode dizer, com toda a força do termo, incrustado de ateísmo e de materialismo. Não poupava o chefe do grupo espírita de nossa pequena cidade, meu parente, de pilhérias e sarcasmos; até lhe aconselhava o hospício! Mas ele opunha às minhas troças uma paciência estoica.

“Ao mesmo tempo, durante a quaresma, um pregador falou do púlpito contra o Espiritismo. A circunstância excitou-me a curiosidade, pois não percebia muito bem o que a igreja poderia ter que ver com o Espiritismo. Então li o livrinho O que é o Espiritismo? prometendo a mim mesmo não ceder tão facilmente quanto o haviam feito certos materialistas convertidos, e armei-me com todas as peças, persuadido de que nada poderia destruir a força de meus argumentos, não duvidando absolutamente de uma vitória completa.

“Mas, ó prodígio! Ainda não havia chegado à página cinquenta e já havia reconhecido a inanidade de minha pobre bateria argumentativa. Durante alguns minutos fiquei como que iluminado; uma súbita revolução operou-se em mim e eis o que eu escrevia a meu irmão a 18 de junho:

“Sim, como dizes, minha conversão foi providencial; é a Deus que devo este sinal de grande benevolência. Sim, creio em Deus, em minha alma, em sua imortalidade após a morte. Antes disso tinha como filosofia uma certa firmeza de espírito, pela qual me punha acima das tribulações e dos acidentes da vida, mas me dobrei ante as numerosas torturas morais que me haviam infringido os pretensos amigos. A amargura de tais lembranças me haviam envenenado o coração. Eu ruminava mil projetos de vingança, e se não tivesse temido para mim e para os meus a maldição pública, talvez tivesse dado aos meus projetos uma funesta execução. Mas Deus me salvou. O Espiritismo levou-me prontamente a crer nas verdades fundamentais da religião, das quais a Igreja me havia afastado pelo horrível quadro das chamas eternas e por me querer impor, como artigos de fé, dogmas que estão em manifesta contradição com os atributos infinitos de Deus. Lembro-me ainda do pavor experimentado em 1814, aos sete anos de idade, quando da leitura desta bela passagem dos Pensées chrétiennes: “E quando um danado tiver sofrido tantos anos quantos são os átomos no ar, as folhas das florestas e os grãos de areia às bordas do mar, tudo isto será contado como nada!!!” E foi a Igreja que ousou proferir semelhante blasfêmia! Que Deus lha perdoe!”

“Continuo minha carta, caro Eugênio, deixando à Igreja a propriedade do império infernal sobre a qual nada tenho a reivindicar.

“A ideia que tinha feito de minha alma foi substituída pela dada pelos Espíritos. A pluralidade dos mundos, como a pluralidade das existências, não mais constituindo dúvidas para mim, causam-me agora uma indefinível satisfação moral. A perspectiva de um nada frio e lúgubre outrora me gelava o sangue nas veias; hoje me vejo, por antecipação, habitando um desses mundos mais adiantados moralmente, intelectualmente e fisicamente que o nosso planeta, esperando atingir o estado de puro Espírito.

“Para gozar dos benefícios de Deus e deles tornar-me inteiramente digno, perdoei com solicitude aos meus inimigos, àqueles que me fizeram sofrer duras torturas morais, a todos, enfim, que me ofenderam, e abjurei qualquer pensamento de vingança. Todos os dias agradeço a Deus a alta benevolência que me testemunhou, fazendo-me rapidamente sair do mau caminho onde me haviam lançado o ateísmo e o materialismo, e lhe peço conceda o mesmo favor a todos os que, como eu, dele duvidaram e o negaram. Também lhe peço fazer que minha mulher, meus filhos, o próximo, os parentes, os amigos e os inimigos, possam gozar das doçuras do Espiritismo. Enfim, peço por todos, por todas as almas sofredoras, para que Deus lhes deixe entrever que a sua bondade infinita não lhes fechou a porta do arrependimento. Também peço a Deus o perdão de minhas faltas e a graça de praticar a caridade em toda a sua extensão.

“Assim, agora me encontro num estado de perfeita calma e tranquilidade quanto ao futuro. A ideia da morte não mais me apavora, porque tenho a convicção inabalável que minha alma sobreviverá ao meu corpo, e tenho inteira fé na vida futura. Contudo, um só pensamento me faz mal, o de abandonar na Terra seres que me são caros, com o receio de vê-los infelizes.

“Ah! Esse medo que comporta sua dor é muito natural, em face do egoísmo de que a maioria de nosso pobre mundo está impregnada. Mas Deus me compreende. Ele sabe que toda a minha confiança está depositada apenas nele. Já experimentei a felicidade de rever nossa cara Laura, em dezembro último, alguns dias após a sua morte. Certamente é um efeito antecipado de sua bondade para comigo”.

“Depois da data desta carta, meu caro senhor, meu bem-estar aumentou. Outrora a menor contrariedade me irritava. Hoje minha paciência é realmente notável, e sucedeu à violência e à impulsividade. A vitória que ela conquistou nestes dias, em prova bastante rude, vem em apoio à minha asserção. Certamente não teria sido assim em março último. É precisamente em tais circunstâncias que a Doutrina Espírita exerce sua suave influência. Os que a criticam dizem que ela está cheia de seduções, e eu não creio atenuar esse belo elogio achando-a cheia de volúpias.

“Minha volta à religião causou aqui uma surpresa, tanto maior porque eu era até agora ligado ao mais desenfreado materialismo. Por uma consequência muito lógica sou, por minha vez, vítima das troças e dos sarcasmos, mas fico insensível, e, como dizeis muito judiciosamente, tudo isto desliza sobre o verdadeiro Espiritismo, como a água sobre o mármore.

“Meu caro senhor, vou terminar minha carta, cuja prolixidade poderia vos fazer perder um tempo precioso. Aceitai a expressão de minha viva gratidão pela satisfação moral, pela esperança consoladora e pelo bem-estar que me proporcionastes.

“Continuai vossa santa missão, pois Deus vos abençoou, senhor!

“ROUSSEL (Adolphe) “Escrevente juramentado, antigo empresário de leilões.

“P. S. No interesse do Espiritismo, podeis fazer desta carta, no todo ou em parte, o uso que melhor vos aprouver”.

OBSERVAÇÃO: Já publicamos várias cartas deste teor, mas seriam necessários volumes para publicar todas as que recebemos no mesmo sentido e, o que não é menos notável, é que a maior parte delas vem de pessoas inteiramente desconhecidas, e não foram solicitadas por outra influência senão a ascendência da doutrina.

Eis, pois, um dos homens atingidos pelo anátema do Sr. Bispo de Argel, um homem que, sem a Doutrina Espírita, teria morrido no ateísmo e no materialismo; que, se se apresentasse para receber os sacramentos da Igreja, seria impiedosamente repelido. Quem o trouxe a Deus? O medo das penas eternas? Não, porque foi a teoria dessas penas que o afastou dela. Quem, pois, teve o poder de acalmar a sua impulsividade e dele fazer um homem suave e inofensivo; de fazê-lo abjurar suas ideias de vingança para perdoar os inimigos? Só o Espiritismo, porque nele auferiu uma fé inabalável no futuro.

É essa doutrina que quereis extirpar de vossa diocese, onde certamente se acham muitos indivíduos no mesmo caso e que, em vossa opinião, são vergonhosa chaga para a colônia. A quem persuadirão que para esse homem teria sido melhor ficar onde estava? Se se objetasse que é uma exceção, responderíamos com milhares de casos semelhantes, e mesmo que fosse uma exceção, responderíamos pela parábola das cem ovelhas, das quais uma se tresmalhou e à sua procura corre o pastor.

Recusando-lhe o Espiritismo, o que lhe teríeis dado em substituição, para nele operar semelhante transformação? Sempre a perspectiva da danação eterna, a única, em vossa opinião, capaz de dominar a desordem e a imoralidade. Enfim, quem o levou a estudar o Espiritismo? Uma quadrilha de espíritas? Não, porque ele fugia dos espíritas. Foi um sermão pregado contra o Espiritismo. Por que, então, foi convertido pelo Espiritismo e não pelo sermão? É que, aparentemente, os argumentos do Espiritismo eram mais convincentes que os do sermão.

Assim tem sido com todas as pregações análogas. Assim será com a ordenação episcopal de Argel, que terá, predizemos, um resultado muito diferente daquele que dela esperam.

Ao autor desta carta diremos: “Irmão, esta espécie de confissão que fazeis perante homens é um grande ato de humildade. Jamais há vergonha, mas há grandeza em reconhecer que se enganou e confessar os seus erros. Deus ama os humildes, porque é a eles que pertence o reino dos céus.”

A carta seguinte é um exemplo não menos tocante dos milagres que o Espiritismo pode operar nas consciências, e aqui o resultado é muito mais admirável, porque não se trata de um homem do mundo, vivendo num meio esclarecido, cujas más inclinações podem ser contidas, senão pelo medo da vida futura, ao menos pelo da opinião, mas de um homem ferido pela justiça, de um condenado à reclusão numa penitenciária.

“20 de setembro de 1863.

“Senhor,

“Tive a felicidade de ler, de estudar algumas de vossas excelentes obras tratando do Espiritismo, e o efeito dessa leitura foi tal sobre o meu ser, que julgo dever com isso tomar-vos a atenção, mas, para que me possais bem compreender, penso que é necessário dar-vos a conhecer as circunstâncias em que me acho colocado.

“Tenho a infelicidade de ter sido condenado a seis anos de reclusão, justa consequência de minha conduta passada, por isso, não tenho direito de me queixar. Assim, é a bem da ordem que faço o relato.

“Há apenas um mês eu me julgava perdido para sempre. Por que hoje penso o contrário e por que a esperança brilha em meu coração? Não será porque o Espiritismo, desvendando-me a sublimidade de suas máximas, fez-me compreender que os bens terrenos nada são; que a felicidade só existe realmente para os que praticam as virtudes ensinadas por Jesus Cristo, virtudes que nos aproximam de Deus, nosso pai comum? Não é também porque, embora caído num estado de abjeção, embora aviltado pela Sociedade, posso esperar renascer de alguma sorte, e assim preparar minha alma para uma vida melhor, pela prática das virtudes e meu amor a Deus e ao próximo?

“Não sei se são bem estas as verdadeiras causas da mudança que em mim se operou. O que sei é que em todo o meu ser se passa algo que não posso definir. Estou com melhores disposições diante dos infelizes que, como eu, estão colocados sob a férula da Sociedade. Tenho certa autoridade sobre uma centena deles, e estou bem decidido a só usá-la para o bem. Minha posição moral parece-me menos penosa. Considero meus sofrimentos como uma justa expiação, e esta ideia me ajuda a suportá-la. Enfim, não é mais com sentimentos de ódio que considero a Sociedade: rendo-lhe a justiça que lhe é devida.

“Eis ─ estou certo disto ─ as causas que reagiram sobre o meu espírito, e que farão de mim, no futuro, ─ tenho uma suave esperança ─ um homem que ama e que serve a Deus e ao próximo, praticando a caridade e seus deveres.

“A quem deverei render graças por esta feliz metamorfose que de um homem mau terá feito um homem amante da virtude? Inicialmente a Deus, a que devemos tudo reportar, e em seguida aos vossos excelentes escritos.

“Assim, senhor, permiti que vo-lo diga, esta carta tem por objetivo vos assinalar toda a minha gratidão.

“Mas por que é preciso que minha educação espírita fique inacabada? Sem dúvida, Deus assim o quer. Que se faça a sua vontade!

“Não vos deixarei ignorar, senhor, o nome da excelente pessoa a quem devo o que sei agora: é o Sr. Benoît, que, tendo notado em mim um desejo de refazer o meu passado, quis iniciar-me na Doutrina Espírita. Infelizmente vou perdê-lo, pois sua nova posição não mais permitirá que me venha ver. É uma grande infelicidade para mim, e não vo-la oculto, porque aos conselhos ele junta o exemplo. Ele também deve seu melhoramento à doutrina. Dizia-me ele: ‘Até ser esclarecido pelo espírito espírita, terminada a minha refeição, eu ia para o café, e lá muitas vezes me esquecia, não só dos deveres para com a minha pequena família, mas ainda para com o meu patrão. O tempo que assim passava, hoje emprego na leitura de livros espíritas, leitura que faço em voz alta, para que minha família aproveite. E crede-me, acrescentava o Sr. Benoît, isto vale mais, porque é o começo da verdadeira, da única felicidade’.

“Peço-vos perdoeis a minha temeridade e, sobretudo, a extensão desta carta, e crede-me, etc.

“D...” Esse Sr. Benoît é um simples operário. Ele tinha sido instruído no Espiritismo por uma senhora da cidade, da qual havia falado ao prisioneiro. Este último, antes da partida de seu instrutor, a ela mandou a seguinte carta:

“Senhora,

“Certamente sou muito temerário ousando vos dirigir estas palavras, mas espero que vossa bondade me perdoe, sobretudo em razão das causas que me levam a agir. Para começar, agradeço-vos, senhora, mas agradeço do mais profundo do coração, de toda a minha alma, pelo bem que me fizestes, permitindo que o Sr. Benoît me instruísse no Espiritismo, esta sublime doutrina chamada a regenerar o mundo, e que sabe tão bem demonstrar ao homem o que deve a Deus, à sua família, à Sociedade e a si mesmo; que, provando-lhe que nem tudo acaba nesta vida, o estimula e lhe dá os meios de se preparar para uma outra vida. Creio ter aproveitado os úteis ensinamentos que recebi, porque experimento um sentimento que me deixa mais bem disposto em relação aos meus semelhantes, e me faz ter sempre o pensamento voltado para o Céu. É um começo de fé? Eu o espero. Infelizmente, o Sr. Benoît vai partir, e com ele a esperança de me instruir.

“Sei que sois boa, e que tendes pensado em continuar a dar-me os meios de me esclarecer. Eu vos rogo de joelhos que continueis a obra tão bem começada. Ela vos será contada por Deus, pois tendes a esperança de fazer de um infeliz perdido nos vícios do mundo um homem virtuoso, um homem digno desse nome, de sua família e da Sociedade.

“Esperando o dia em que, livre, poderei dar minhas provas, eu vos bendirei como meu Espírito nesta Terra; eu vos associarei às minhas preces, e dia virá em que também poderei ensinar à minha família a vos bendizer, a vos venerar, pois lhe tereis devolvido um filho, um irmão honesto. É impossível ser diferente, quando se serve a Deus sinceramente.

“Assim, concluo, senhora, pedindo sejais na Terra meu bom Espírito, e que me dirijais no bom caminho. O que fizerdes será contado como uma boa obra. Quanto a mim, prometo-vos ser dócil aos vossos ensinamentos.

“Termino, etc.”

OBSERVAÇÃO: Assim, esse Sr. Benoît, simples operário, era um exemplo recente do efeito moralizador do Espiritismo e, por sua vez, já traz ao bom caminho uma alma desviada; devolve à família e à Sociedade um homem honesto em vez de um criminoso, boa obra para a qual concorreu uma senhora caridosa, estranha a ambos, mas animada do único desejo de fazer o bem. E tudo isto é feito na sombra, sem fausto, sem ostentação, e com o testemunho apenas da consciência.

Espíritas, eis desses milagres de que vos deveis orgulhar, que todos podeis operar, e para os quais não necessitais de nenhuma faculdade excepcional, porque basta o desejo de fazer o bem.

Se o Espiritismo tem tal poder sobre as almas manchadas, o que não se deve esperar para a regeneração da Humanidade, quando ele se tiver convertido em crença comum, e cada um empregá-lo na sua esfera de ação!

Vós todos que atirais pedras contra o Espiritismo e dizeis que ele enche as casas de alienados, dai, pois, em seu lugar, algo que produza mais do que ele produz. Pelo fruto se reconhece a qualidade da árvore. Julgai, pois, o Espiritismo, por seus frutos, e tratai de produzir frutos melhores. Então sereis seguidos.

Ainda alguns anos e vereis muitos outros prodígios, não sinais no Céu, para ferir os olhos, como pediam os fariseus, mas prodígios no coração dos homens, dos quais o maior será o de fechar a boca dos detratores e de abrir os olhos dos cegos, pois é preciso que se realizem as predições do Cristo, e elas todas realizar-se-ão.

Allan Kardec
Revista Espírita Nov. 1863

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quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Espírita sem o saber

Espírita sem o saber

Santo Atanásio

Revista Espírita Jan.1864


Atanásio de Alexandria (Viveu entre 296 e 373 d.C.)

A passagem seguinte, tirada de Santo Atanásio, patriarca de Alexandria, um dos pais da Igreja Grega, parece ter sido escrita sob a inspiração das ideias espíritas de hoje.

“A alma não morre, mas o corpo morre quando ela dele se afasta. A alma é para si mesma seu próprio motor; o movimento da alma é a vida. Mesmo quando prisioneira do corpo e como que a ele ligada, ela não se limita às suas estreitas proporções e aí não se encerra, mas, muitas vezes, quando o corpo jaz imóvel e como que inanimado, ela fica desperta por sua própria virtude; e, saindo da matéria, posto que a ela ainda ligada, ela concebe e contempla existências além do globo terrestre; ela vê os santos desprendidos do envoltório dos corpos; ela vê os anjos e a eles sobe, na liberdade de sua pura inocência.

“Inteiramente separada do corpo, e quando a Deus aprouver tirar-lhe a cadeia que ele lhe impõe, não terá ela, eu vos pergunto, uma visão muito mais clara de sua natureza imortal? Se hoje mesmo, e nos entraves da carne, ela já vive uma vida completamente exterior, viverá muito mais após a morte do corpo, graças a Deus que, por seu Verbo, a fez assim. Ela compreende, ela abarca em si as ideias de eternidade, as ideias de infinito, porque ela é imortal. Da mesma forma que o corpo, que é mortal, só percebe o material e perecível, a alma, que vê e medita sobre as coisas imortais, é necessariamente imortal e viverá sempre, porque os pensamentos e as imagens de imortalidade jamais a deixam e nela são como um foco vivo, que assegura e alimenta a sua imortalidade.”

(Sanct. Athan. Oper., tomo I, pág. 32. ─ VILLEMAIN, Quadro da eloquência cristã no século IV).

Com efeito, não está aí um quadro exato da radiação exterior da alma durante a vida corporal, e de sua emancipação no sono, no êxtase, no sonambulismo e na catalepsia? O Espiritismo diz exatamente a mesma coisa, e o prova pela experiência. 

Com as ideias esparsas contidas na Bíblia, nos Evangelhos, nos Apóstolos e nos Pais da Igreja, sem falar dos escritores profanos, pode-se constituir toda a Doutrina Espírita moderna.

Os comentários feitos a esses escritos, geralmente o foram de um ponto de vista exclusivo e com ideias preconcebidas, e muitos neles não viram senão o que queriam ver, ou lhes faltava a chave necessária para ver outra coisa. Hoje, no entanto, o Espiritismo é a chave que dá o verdadeiro sentido das passagens mal compreendidas.

Até o presente, esses fragmentos são recolhidos parcialmente, mas dia virá em que homens de paciência e de saber, e cuja autoridade não poderá ser ignorada, farão desse estudo o objeto de um trabalho especial e completo que projetará luz sobre todas essas questões, e ante a evidência claramente demonstrada, será forçoso render-se.

Acreditamos poder dizer que esse trabalho considerável será obra de membros eminentes da Igreja, que receberão esta missão, porque compreenderão que a religião deve ser progressiva como a Humanidade, sob pena de ser superada, porque há ideias retrógradas em religião como em política. Em tal caso, não avançar é recuar.

Os incrédulos surgem precisamente porque a religião colocou-se fora do movimento científico e progressivo. Ela faz mais, porque declara que esse movimento é obra do demônio, e sempre o combateu. Disso resultou que a Ciência, repelida pela religião, por sua vez repeliu a religião. Daí resulta um antagonismo que não cessará senão quando a religião compreender que não só deve marchar com o progresso, mas ser um elemento do progresso. Todo mundo acreditará em Deus quando ela não o apresentar em contradição com as leis da Natureza, que são obra sua.

Allan Kardec
Revista Espírita Jan. 1864

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quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A lei do progresso

A lei do progresso


Espírito Protetor

Revista Espírita Jan. 1863


NOTA: Esta comunicação foi recebida na sessão geral presidida pelo Sr. Allan Kardec.
(Lyon, 17 de setembro de 1862. — Médium: Sr. Emile V...)
 
Parece, se se considera a Humanidade em seu estado primitivo e em seu estado atual, quando sua primeira aparição na Terra marcava seu ponto de partida e agora, que ela percorreu uma parte do caminho que leva à perfeição, parece, dizia eu, que todo bem, todo progresso, toda filosofia, enfim, não pode nascer senão do que lhe é contrário.

Com efeito, toda formação é o produto de uma reação, assim como todo efeito é gerado por uma causa. Todos os fenômenos morais, todas as formações inteligentes, são devidos a uma momentânea perturbação da própria inteligência. Intelectualmente, apenas dois princípios devem ser considerados: um imutável, essencialmente bom, eterno como tudo o que é infinito; o outro temporário, momentâneo, simples agente empregado para produzir a reação de onde sai, a cada vez, a progressão dos homens.

O progresso abraça o Universo durante a eternidade e jamais é tão espalhado como quando se concentra num ponto qualquer. Vós não podeis abraçar com o olhar a imensidade que vive, e que consequentemente progride. Mas, olhai em redor de vós. O que vedes?

Em certas épocas, pode-se dizer em momentos previstos, designados, surge um homem que abre um novo caminho, que escarpa os rochedos áridos de que se acha semeado o mundo conhecido da inteligência. Geralmente esse homem é o último entre os humildes, entre os pequenos; contudo, ele penetra nas altas esferas do desconhecido. Ele se arma de coragem, pois precisa dela para lutar corpo a corpo com os preconceitos, com os usos herdados. Ele precisa dela para vencer os obstáculos que a má fé semeia sob seus passos, porque enquanto restarem preconceitos a derrubar, restarão abusos e interessados nos abusos. Ele dela precisa porque deve lutar ao mesmo tempo contra as necessidades materiais de sua personalidade, e sua vitória, neste caso, é a melhor prova de sua missão e de sua predestinação.

Quando chega ao ponto em que a luz emana em profusão do círculo do qual ele é o centro, todos os olhares se voltam para ele. Então, ele assimila todo o princípio inteligente e bom e reforma e regenera o princípio contrário. A despeito dos preconceitos; a despeito da má fé; a despeito das necessidades, ele atinge o seu objetivo; ele faz a Humanidade transpor um grau; ele dá a conhecer o que não era conhecido.

Tal fato já se repetiu muitas vezes, e repetir-se-á muitas outras, antes que a Terra tenha atingido o grau de perfeição que convém à sua natureza. Mas, tantas vezes quantas forem necessárias, Deus fornecerá a semente e o trabalhador. Esse trabalhador é cada homem em particular, como cada um dos gênios que o ilustram por uma ciência frequentemente sobre-humana.

Em todos os tempos houve esses centros de luz, esses pontos de ligação, e o dever de todos é aproximar-se, ajudar e proteger os apóstolos da verdade.

É isto que o Espiritismo vem dizer ainda.

Apressai-vos, pois, vós todos, que sois irmãos pela caridade. Apressai-vos, e a felicidade prometida à perfeição vos será concedida muito mais cedo.

Espírito Protetor

Revista Espírita Jan. 1863
Allan Kardec

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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Sede severos para convosco e indulgentes para com os outros (1º Homilia)

Sede severos para convosco e indulgentes para com os outros (1º Homilia)

François-Nicolas Madeleine


(Sociedade Espírita de Paris, 9 de janeiro de 1863 - Médium: Sr. D'Ambel)

Revista Espírita Abr. 1863

Allan Kardec

É a primeira vez que venho entreter-me convosco, meus caros filhos. Desejava escolher outro médium, mais simpático aos sentimentos que foram o móvel de toda a minha vida terrena e mais apto a me prestar um concurso religioso, mas já que há muito tempo Santo Agostinho tomou conta do médium cujas matérias cerebrais me teriam sido mais úteis, e para o qual me sentia arrastado, dirijo-me a vós por este, de quem se servia meu excelente condiscípulo Jobard, para me apresentar à vossa sociedade filosófica. Terei, pois, muita dificuldade em exprimir, hoje, o que vos quero dizer, primeiro em razão da dificuldade que experimento em manipular a matéria mediana, pois ainda não tenho o hábito desta propriedade de meu ser desencarnado, depois, porque devo fazer jorrarem minhas ideias de um cérebro que não as admite todas. Dito isto, vamos ao assunto.

Um corcunda espirituoso da antiguidade dizia que os homens de seu tempo carregavam um duplo alforje, em cuja parte traseira estavam os defeitos e imperfeições, enquanto que a dianteira recebia todos os defeitos alheios. É o que lembraria mais tarde o Evangelho, na alegoria da palha e da trave no olho. Meu Deus! meus filhos, já era tempo de que os sacos do alforje mudassem de lugar. Cabe aos espíritas sinceros operar essa modificação, levando à frente o saco que contém suas próprias imperfeições, a fim de que, tendo-as de contínuo sob os olhos, delas se corrijam, e o que contém os defeitos alheios do outro lado, a fim de não mais ligar a eles inveja e maledicência. Ah! Como será digno da doutrina que confessais, e que deve regenerar a Humanidade, ver seus adeptos sinceros e convictos agirem com essa caridade que proclamam e que lhes ordena não mais verem a palha que embaraça o olho de seu irmão, e, ao contrário, de se ocupar com ardor por desembaraçar-se da trave que os cega a eles próprios. Ah! meus caros filhos, essa trave é constituída pelo feixe de vossas tendências egoísticas, das vossas más inclinações e de vossas faltas acumuladas pelas quais tendes, até o presente, como todos os homens, professado uma tolerância paternal muito grande, ao passo que, na maior parte do tempo, só tendes intolerância e severidade para com as fraquezas do próximo. Eu queria tanto vos ver a todos libertos dessa enfermidade moral do resto dos homens, ó meus caros espíritas, que vos concito, com todas as minhas forças, a entrardes na via que vos indico. Bem sei que de vossas tendências veniais, muitas já se modificaram no sentido da verdade, mas vejo ainda tanta moleza e tanta indecisão em vós para o bem absoluto, que a distância que vos separa do rebanho dos pecadores endurecidos e dos materialistas não é tão grande que a torrente não possa vos arrastar ainda. Ah! Resta-vos uma rude etapa a percorrer para atingirdes a altura da santa e consoladora doutrina que os Espíritos meus irmãos vos revelam há vários anos.

Na vida militante da qual, graças sejam dadas ao Senhor, acabo de sair, vi tantas mentiras se afirmarem como verdades; tantos vícios se alçarem como virtudes, que me sinto feliz por haver deixado um meio onde quase sempre a hipocrisia revestia com seu manto as tristezas e as misérias morais que me rodearam. Não posso senão vos felicitar por ver que vossas fileiras não se abrem facilmente para os sectários dessa hipocrisia mentirosa.

Meus amigos, jamais vos deixeis prender pelas palavras douradas. Vede e sondai os atos antes de abrir vossas fileiras aos que solicitam essa honra, porque muitos falsos irmãos procurarão misturar-se convosco, a fim de levar a perturbação e sutilmente semear a divisão. Minha consciência ordena-me vos esclareça, e o faço com toda a sinceridade de meu coração, sem me preocupar com ninguém. Estais advertidos. Doravante, agi coerentemente.

Para terminar como comecei, peço-vos encarecidamente, meus bem-amados filhos, que vos ocupeis seriamente convosco; que expilais de vossos corações todos os germes impuros que ainda podem estar a eles vinculados; que vos reformeis pouco a pouco, mas sem interrupção, segundo a sã moral espírita; que sejais, enfim, tão severos para convosco quanto deveis ser indulgentes para com as fraquezas dos vossos irmãos.

Se esta primeira homilia deixa algo a desejar, quanto à forma, não a atribuais senão à minha inexperiência da mediunidade. Farei melhor, na primeira vez que me for permitido comunicar-me em vosso meio, onde agradeço ao meu amigo Jobard por me haver apadrinhado.

Adeus, meus filhos, eu vos abençoo.

François-Nicolas Madeleine

Revista Espírita Abr. 1863
Allan Kardec

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quinta-feira, 17 de julho de 2025

O avarento da rua do forno

O avarento da rua do forno

Allan Kardec

Revista Espírita Jan. 1869 / Variedades



O Petite Presse de 19 de novembro de 1868 transcreveu do jornal le Droit o fato seguinte:

“Numa miserável água-furtada da Rua do Four-Saint-Germain, vivia pobremente um indivíduo de certa idade, chamado P... Ele não recebia ninguém, e fazia sua própria comida, muito mais frugal que a de um anacoreta. Vestindo roupas sórdidas, ele dormia numa enxerga ainda mais sórdida. De magreza extrema, parecia ressecado pelas privações de todo gênero e era julgado em geral vítima da mais profunda pobreza.

“Entrementes, um cheiro fétido tinha começado a espalhar-se na casa. Aumentava de intensidade e acabou atingindo um pequeno restaurante do pavimento térreo, a ponto de a freguesia reclamar.

“Então procuraram diligentemente a causa do mau cheiro, e acabaram descobrindo que provinha do alojamento ocupado pelo tal P...

“Essa descoberta suscitou a lembrança de que ele há tempos não era visto e, temendo lhe houvesse acontecido uma desgraça, apressaram-se em avisar o comissário de polícia do bairro.

“Imediatamente a autoridade foi ao local e mandou um serralheiro abrir a porta. Mas assim que quiseram entrar no quarto, quase sufocaram e tiveram que afastar-se imediatamente. Só depois de ter deixado por algum tempo entrar o ar exterior é que puderam entrar e fazer constatações com as necessárias precauções.

“Um triste espetáculo se ofereceu ao comissário e ao médico que o acompanhava. Estendido sobre o leito, o corpo do tal P... encontrava-se em estado de completa putrefação. Ele estava coberto de varejeiras, e milhares de vermes roíam as carnes, que caíam aos pedaços.

“O estado de decomposição não permitiu reconhecer exatamente a causa da morte, que ocorrera há muito tempo, mas a ausência de qualquer traço de violência permitiu deduzir que fora devida a uma causa natural, como uma apoplexia ou uma congestão cerebral. Ademais, encontraram num móvel cerca de 35.000 francos, em dinheiro, ações, obrigações industriais e valores diversos.

“Depois das formalidades normais, apressaram-se em retirar os restos humanos e desinfetar o local. O dinheiro e os valores foram lacrados pela Justiça.”

Tendo sido evocado na Sociedade de Paris, esse homem deu a seguinte comunicação:

(Sociedade de Paris, 20 de novembro de 1868 – Médium: Sr. Rul) 
Perguntais por que me deixei morrer de fome, quando possuía um tesouro. 35.000 francos, com efeito, é uma fortuna! Ai de mim, senhores! Sois muito instruídos sobre o que se passa em torno de vós, para não compreenderdes que eu sofria provações, e meu fim diz claramente que fali. Com efeito, numa existência anterior eu tinha lutado com energia contra a pobreza que eu não tinha dominado senão por prodígios de atividade, de energia e de perseverança. Vinte vezes estive a ponto de me ver privado do fruto de meu trabalho. Assim, não fui terno para com os pobres que eu enxotava quando se apresentavam em minha casa. Eu reservava tudo quanto ganhava para a minha família, minha mulher e meus filhos.
Escolhi para provação, nesta nova existência, ser sóbrio, moderado nos gastos, e partilhar minha fortuna com os pobres, meus irmãos deserdados. 
Mantive a palavra? Vedes o contrário, porque fui muito sóbrio, temperante, mais que temperante, mas não fui caridoso. 
Meu fim infeliz não foi senão o começo de meus sofrimentos, mais duros, mais penosos neste momento, quando vejo com os olhos do Espírito. Assim, não teria tido a coragem de me apresentar a vós, se não me tivessem assegurado que sois bons e compassivos com a desgraça. Venho pedir que oreis por mim. Aliviai meus sofrimentos, vós que conheceis os meios de tornar o sofrimento menos pungente. Orai por vosso irmão que sofre e que deseja voltar a sofrer muito mais ainda. 
Piedade, meu Deus! Piedade para o ser fraco que faliu; e vós, senhores, compaixão por vosso irmão, que se recomenda às vossas preces.
O Avarento da Rua do Forno
Allan Kardec
Revista Espírita Jan. 1869

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quinta-feira, 22 de maio de 2025

Os milagres

Os milagres

Allan Kardec

Revista Espírita Out. 1859


Destaque de "A Gênese" de Allan Kardec, onde o tema:
Os Milagres, são explorados em maior profundidade.

Com o título de Um Milagre, o Sr. Mathieu, antigo farmacêutico do Exército, acaba de publicar uma relação de vários fatos de escrita direta, dos quais foi testemunha. Os fatos se produziram em circunstâncias mais ou menos idênticas aos que foram por nós relatados no número de agosto. Não apresentam nada de mais característico, pelo que não os relataremos. Mencionamo-los apenas para mostrar que os fenômenos espíritas não são privilégio de ninguém e aproveitamos a ocasião para felicitar o Sr. Mathieu pelo zelo com que os propaga. Várias outras pequenas brochuras e artigos do mesmo autor, publicadas em diversos jornais, são prova disto.

O Sr. Mathieu é um homem de ciência que, como tantos outros, e como nós próprio, passou pela fieira da incredulidade. Cedeu, porém, à evidência, porque diante dos fatos é necessário depor as armas. Permitimo-nos tão somente criticar o título dado à sua última publicação, não por uma questão de jogo de palavras, mas porque acreditamos que o assunto tem uma certa importância e merece um exame sério.

Em sua acepção primitiva e pela etimologia, o vocábulo milagre significa, coisa extraordinária, coisa admirável de ver. Como tantos outros, entretanto, afastou-se do sentido originário e, conforme a Academia, hoje se diz de um ato do poder divino, contrário às leis comuns da Natureza. Tal é, com efeito, sua acepção usual, e só por comparação e por metáfora é que se aplica às coisas vulgares que nos surpreendem e cuja causa é desconhecida.

O fenômeno relatado pelo Sr. Mathieu tem o caráter de um milagre, no verdadeiro sentido do vocábulo? Certamente não. O milagre, já o dissemos, é uma derrogação das leis da Natureza. Não entra absolutamente em nossa cogitação examinar se Deus julgou útil, em determinadas circunstâncias, derrogar as leis por ele próprio estabelecidas. Nosso objetivo é unicamente demonstrar que o fenômeno da escrita direta, por mais extraordinário que seja, não derrogando absolutamente essas leis, não tem nenhum caráter miraculoso. O milagre não se explica; a escrita direta, ao contrário, explica-se da maneira mais racional, como vimos no nosso artigo sobre a matéria. Não é, pois, um milagre, mas simples fenômeno que tem sua razão de ser nas leis gerais. Tem o milagre ainda outro caráter: o de ser insólito e isolado. Ora, desde que um fato se repete, por assim dizer, à vontade e por intermédio de diversas pessoas, não pode ser milagre.

A Ciência diariamente faz milagres aos olhos dos ignorantes. Eis porque outrora aqueles que tinham mais conhecimento que o vulgo passavam por feiticeiros, e como se acreditava que toda Ciência vinha do diabo, eles eram queimados. Hoje, que estamos muito mais civilizados, contentamo-nos em mandá-los para o hospício.

Depois de deixarmos que os inventores morram de fome, erigimo-lhes estátuas e os proclamamos benfeitores da Humanidade.

Deixemos, porém, essas tristes páginas da nossa História e voltemos ao assunto.

Se um homem realmente morto for chamado à vida por uma intervenção divina, haverá um verdadeiro milagre, porque isto é contrário às leis da Natureza. Mas se esse homem tiver apenas a aparência da morte; se lhe restar vitalidade latente; se a Ciência ou uma simples ação magnética conseguir reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas isto será um fenômeno natural, mas aos olhos do vulgo ignorante o fato passará por miraculoso e o autor será apedrejado ou venerado, conforme o caráter das pessoas. Se em determinados campos um físico empinar um papagaio elétrico e fizer cair um raio sobre uma árvore, esse novo Prometeu certamente será olhado como se fosse dotado de um poder diabólico; e, diga-se de passagem, Prometeu parece que se adiantou singularmente a Franklin.

A escrita direta é um dos fenômenos que demonstram da maneira mais patente a ação das inteligências ocultas. O fato de ser produzido por seres ocultos, no entanto, não significa que é mais miraculoso do que todos os outros fenômenos devidos a agentes invisíveis, pois esses seres ocultos que povoam os espaços são uma das potências da Natureza, potência cuja ação é incessante sobre o mundo material, tanto quanto sobre o mundo moral. Esclarecendo-nos acerca dessa potência, dá-nos o Espiritismo a chave de uma porção de coisas inexplicáveis por qualquer outro meio, e que, em tempos remotos, foram consideradas como prodígios. Como o magnetismo, ele revela uma lei, senão desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, conheciam-se os efeitos, porque se produziam em todos os tempos, mas não se conhecia a lei, e foi a ignorância dessa lei que engendrou a superstição. Conhecida essa lei, cessa o maravilhoso e os fenômenos entram na ordem das coisas naturais. Eis porque os espíritas não fazem milagres quando fazem girar uma mesa ou os mortos escreverem, do mesmo modo que não o faz o médico quando revive um moribundo, ou o físico quando faz cair um raio.

É por isso que repelimos com todas as nossas forças a qualificação empregada pelo Sr. Mathieu, conquanto estejamos persuadidos de que ele não quis dar ao vocábulo nenhum sentido místico, mas porque as pessoas que não descem ao fundo das coisas ─ e estas são em maior número ─ poderiam enganar-se e crer que alguns adeptos do Espiritismo a si mesmos se atribuem um poder sobrenatural. Aquele que, ajudado por essa ciência, pretendesse operar milagres, ou seria um ignorante do assunto ou um mistificador. Não se deve dar armas aos que riem de tudo, inclusive daquilo que desconhecem, pois isto seria entregar-se de boa vontade ao ridículo.

Assim como os fenômenos magnéticos, os fenômenos espíritas, antes que se lhes conhecesse a causa, puderam ser considerados como prodígios. Ora, como os céticos, os espíritos fortes, isto é, aqueles que, na sua opinião, têm o privilégio exclusivo da razão e do bom-senso, não acreditam que uma coisa seja possível pelo fato de não a compreenderem. Eis porque todos os fatos considerados prodigiosos são para eles objeto de zombaria. Como a religião contém um grande número de fatos desse gênero, não acreditam na religião. Daí à incredulidade absoluta há apenas um passo. Explicando a maioria desses fatos, o Espiritismo lhes dá uma razão de ser.

Ele vem, portanto, em auxílio à religião, demonstrando a possibilidade de certos fatos que, por não terem mais o caráter miraculoso, nem por isso são menos extraordinários. Pelo fato de não haver derrogado suas leis, Deus não é menor nem menos poderoso.

De quantas graçolas não foram objeto as levitações de São Cupertino? Ora, a suspensão etérea dos corpos sólidos é um fato demonstrado e explicado pelo Espiritismo. Nós mesmo fomos testemunha ocular e o Sr. Home, bem como outras pessoas de nossas relações, repetiram várias vezes o fenômeno produzido por São Cupertino. Esse fenômeno integra, portanto, a categoria das coisas naturais. Entre os fatos desse gênero deve colocar-se em primeira linha a aparição, por ser o mais frequente. A aparição de Salete, que divide o próprio clero, nada tem de insólito.

Certamente não podemos afirmar que o fato ocorreu, pois não temos a sua prova material, mas para nós ele é possível, desde que milhares de fatos análogos recentes são do nosso conhecimento. Cremos neles não só porque sua realidade é constatada por nós, mas sobretudo porque sabemos perfeitamente de que maneira eles se produzem. Consulte-se a teoria que demos das aparições e ver-se-á que esse fenômeno se torna tão simples e tão plausível quanto uma porção de fenômenos físicos considerados prodigiosos apenas porque nos falta a sua chave.

Quanto à pessoa que se apresentou em Salete, é outra questão. De modo algum está demonstrada sua identidade. Constatamos apenas que ocorreu uma aparição. O resto não é da nossa competência.

Nosso objetivo também não é examinar se Deus pode derrogar as suas leis fazendo milagres, no verdadeiro sentido do vocábulo. Isto é uma questão de Teologia que não entra nas nossas cogitações. Cada um, portanto, guarde as suas convicções a este respeito, pois o Espiritismo não tem que se preocupar com isto.

Dizemos apenas que os fatos produzidos pelo Espiritismo nos revelam leis novas e dão a chave de uma porção de coisas que pareciam sobrenaturais. Se alguns desses fatos que eram considerados miraculosos encontram aqui uma explicação lógica e

uma razão de ser, é mais um motivo para não nos apressarmos em negar aquilo que não compreendemos.

Certas pessoas nos criticam por expormos teorias espíritas que elas consideram prematuras. Esquecem que os fatos do Espiritismo são contestados por muitos precisamente porque lhes parecem fora da lei comum, e porque não se explicam.

Demo-lhes uma base racional e a dúvida cessará. Digamos a alguém, pura e simplesmente, que vamos mandar um telegrama de Paris à América e receber a resposta em poucos minutos, e esse alguém nos rirá na cara. Explicai o mecanismo do processo e ele acreditará, mesmo sem ver a operação.

Neste século em que não se poupam as palavras, a explicação é um poderoso motivo de convicção. Assim, vemos diariamente pessoas que não foram testemunhas de nenhum fato, que nem viram uma mesa mover-se ou um médium escrever, e que se acham tão convencidas quanto nós, unicamente porque leram e compreenderam.

Se só devêssemos acreditar naquilo que vimos com os próprios olhos, nossas convicções estariam reduzidas a muito pouca coisa.

Allan Kardec
Revista Espírita Abr. 1859

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