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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Atenda ao serviço

Atenda ao serviço

Marco Prisco

Imagem gerada por IA.
"578. Poderá o Espírito, por própria culpa, falir na sua missão? Sim, se não for um Espírito superior." (O Livro dos Espíritos - Allan Kardec)
Embora as dificuldades que obstaculizam a caminhada, confie e coopere com o bem.

Em toda parte você será constrangido à luta, se deseja seguir adiante.

Medite em suas dores e recolha o fruto do sacrifício, continuando o compromisso com o Senhor.

Não deixe, assim, que o desânimo caminhe com você porque o auxílio dos outros não se ofereça a ajudá-lo.
Falam dos seus atos? Renove-se e prossiga.
Duvidam da sua honra? Aprimore-se e avance.
Dilapidam o seu caráter? Trabalhe e continue.
Perturbam a sua paz? Insista no bem e ajude.
Trabalham contra as suas intenções? Silencie e ore.
Combatem os seus esforços superiores? Porfie e siga.
No solo humilde e produtivo, filetes de água, procurando vitalizar a vegetação, muitas vezes embebedam as raízes; vermes encarregados de facilitar a aeração das camadas subterrâneas devoram o sustentáculo das plantas.

Sobre a terra, insetos que conduzem o pólen fecundante, não raro estiolam a flor; a luz solar, que vivifica constantemente, também mata; e a chuva que alimenta é a mesma que aniquila...

No entanto, apesar de tudo, a plantinha débil não se atemoriza. Quanto pode, insiste no seu mister de crescer até se transformar em vigoroso arvoredo, vencedor das tempestades, a fim de oferecer amparo, flor e fruto.

Faça o mesmo, seguindo-lhe o exemplo.

A dificuldade é clima de todo lugar onde o trabalho se desenvolve.

A ignorância é adubo fecundante à espera de assistência e movimentação para o sagrado objetivo da evolução.

Não se detenha quando a maldade dos outros seguir ao seu lado.

Lembre-se do Mestre Incorruptível.

Aproveite o ensejo e deixe brilhar a luz das suas intenções em tarefas de bem servir.

O campo imenso dos corações humanos aguarda as suas mãos para a obra da felicidade geral.

Sirva, passe e, confiando, una-se à caravana dos servidores anônimos que o Céu tem na Terra e a Terra colocou no Céu; alargue os horizontes da alma e renove o mundo com a renovação da sua própria vida.

Estará, assim, atendendo ao serviço que, em última instância, é sempre do Senhor, sem falir, candidatando-se à abençoada posição de "um Espírito superior".

Marco Prisco por Divaldo Franco do livro:
Legado Kardequiano

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- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

terça-feira, 28 de julho de 2026

A única dádiva

A única dádiva

Irmão X.

Conta-se que Simão Pedro estava cansado, depois de vinte dias junto do povo.

Banhara feridentos, alimentara mulheres e crianças esquálidas, e, em vez de receber a aprovação do povo, recolhia insultos velados, aqui e ali...

Após três semanas consecutivas de luta, fatigara-se e preferira isolar-se entre alcaparreiras amigas.

Por isso mesmo, no crepúsculo anilado, estava ele só, diante das águas a refletir...

Aproxima-se alguém, contudo...

Por mais busque esconder-se, sente-se procurado.

É o próprio Cristo.

- Que fazes Pedro? – diz-lhe o Senhor.

- Penso Mestre.

E o diálogo prolongou-se.

- Estás triste?

- Muito triste.

- Por quê?

- Chamam-me ladrão.

- Mas se a consciência te não acusa, que tem isso?

- Sinto-me desditoso. Em nome do amor que me ensinas, alivio os enfermos e ajudo aos necessitados. Entretanto, injuriam-me. Dizem por aí que furto, que exploro a confiança do povo... Ainda ontem, distribuía os velhos mantos que nos foram cedidos pela casa de Carpo, entre os doentes chegados de Jope... Alegou alguém, inconsideradamente, que surrupiei a maior parte... Estou exausto Mestre. Vinte dias de multidão pesam muito mais que vinte anos de serviços na barca...

- Pedro, que deste aos necessitados nestes últimos vinte dias?

- Moedas, túnicas, mantos, ungüentos, trigo, peixe...

- De onde chegaram as moedas?

- Das mãos de Joana, a mulher de Cusa.

- As túnicas?

- Da casa de Zobalan, o curtidor.

- Os mantos?

- Da residência de Carpo, o romano que decidiu amparar-nos.

- Os unguentos?

- Do lar de Zebedeu, que os fabrica.

- O trigo?

- Da seara de Zaqueu, que se lembra de nós...

- E os peixes?

- Da nossa pesca.

- Então Pedro?

- Que devo entender Senhor?

- Que apenas entregamos aquilo que nos foi ofertado para distribuirmos em favor dos que necessitam. A Divina Bondade conjuga as circunstancias e confia-nos de um modo ou de outro os elementos que devamos movimentar nas obras do bem... Disseste servir em nome do amor...

- Sim Mestre...

- Recorda então, que o amor não relaciona calúnias, nem conta sarcasmos.

O discípulo entremostrando súbita renovação mental não respondeu.

Jesus abraçou-o e disse apenas:

- Pedro, todos os bens da vida podem ser transmitidos de sítio a sitio e de mão em mão...

Ninguém pode dar em essência esse ou aquele patrimônio do mundo senão o próprio Criador, que nos empresta os recursos por Ele gerados na Criação... E se algo, podemos dar de nós, o amor é a única dádiva que podemos fazer, sofrendo e renunciando por amor...

O apostolo compreendeu e beijou as mãos que o tocavam de leve.

Em seguida puseram-se ambos a falar alegremente sobre as tarefas esperadas para o dia seguinte.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Contos Desta e Doutra Vida

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Fragilidade humana

Fragilidade humana

Joanna de Ângelis



Interrogas, surpreso, como foi possível a Judas, que conviveu com o Mestre em doce enternecimento, participando do banquete festivo da Boa-nova, advertido e orientado, traí-lO, entregando-O aos Seus inimigos, seja qual for a justificativa que se apresente?

Certamente, Judas O amava, a seu modo, porquanto renunciara aos compromissos anteriores, a fim de segui-lO, e, apesar disso, não suportou as pressões de Entidades perversas que o assediaram, levando-o à ruína.

Ainda fustigado pela fraqueza de caráter, quando se deu conta da hediondez praticada, ao invés de enfrentar as consequências do ato ignóbil, optou pela fuga covarde do suicídio cruel.

Inquires, com desalento, como Pedro, que havia recebido a responsabilidade de apascentar as Suas ovelhas, que com Ele convivera em intimidade, acompanhando os Seus momentos de sublimação no Tabor e de abnegação em toda parte, embora avisado com clareza, pôde negá-lO três vezes consecutivas?

Nas praias e no mar da Galileia, que lhe eram o berço e a vida social, comercial, humana, participou de todas as Suas elevadas propostas sobre o Reino dos Céus, cujos alicerces estavam sendo construídos no solo dos corações, acompanhou os fenômenos incomparáveis da Sua condição de Filho de Deus, apesar disso, fez-se vítima da fraqueza moral que não pôde superar.

Deu-se conta, logo depois, todavia, que fracassara no momento mais relevante da sua existência.

Indagas, aturdido, como todos aqueles amigos que foram eleitos como membros do Seu colégio de amor e de misericórdia, que ouviram a sinfonia esplêndida das Bem-aventuranças, que foram testemunhas das curas repentinas dos portadores de diferentes enfermidades com a Sua intervenção, que O viram repreender os ventos e as ondas durante a tempestade no mar, puderam abandoná-lO a partir do momento da traição, com exceção, apenas, de João?

Haviam sido convidados com infinito amor, aceitaram o desafio, apresentaram-Lhe todas as dúvidas, solicitaram as orientações necessárias para a entrega das existências, renunciaram às comodidades e convivência no lar, na família, no grupo social, entrementes, no momento máximo, tombaram na pusilanimidade, relegando-O à própria sorte.

Todos estavam esclarecidos e conscientes de que a jornada com Ele era feita de aflições e de soledade. Em momento algum Ele os encorajou à esperança de felicidade no mundo, de glórias terrenas, de júbilos no poder. Foi-lhes sempre sincero e claro, algumas vezes mesmo se fez enérgico e vigoroso, a fim de fortalecê-los para a grande luta; confidenciou-lhes, em intimidade, esperanças e alegrias inefáveis depois da existência corporal, e, apesar de tudo, não tiveram valor moral para segui-lO.

Sucede que o mundo físico é também sinônimo de ilusão, de sonho, de incerteza.

Mesmo eles, que deveriam estar estruturados na coragem imbatível pelo de que se encontravam conhecedores, não tiveram condições de merecer a palma da vitória sobre a inferioridade moral, pelo menos, no momento do grande testemunho.

Mais tarde, sim, todos se entregaram ao amor e à glória de servi-lO, redimindo-se da fraqueza humana.

*

Convidado, como te encontras, para a restauração dos postulados sublimes de Jesus, na atualidade de valores controvertidos e insanos, não esperes entendimento nem fidelidade dos amigos que compartem os ideais que te fascinam.

Provavelmente, todos gostariam de entregar-se ao ministério de iluminação de consciências, oferecendo os seus melhores recursos e mais honesta dedicação para que se tornem realidade os objetivos anelados.

Cada pessoa, no entanto, tem o seu próprio programa de evolução, em razão das conquistas e prejuízos anteriores, que lhe assinalam a trajetória terrestre.

Alguns, embora encantados com o Evangelho desvestido de fantasias e de superstições, conforme o desvela o Espiritismo, ainda se encontram vinculados a interesses imediatistas de prazer, de fama, de poder, e não estão dispostos a renunciar a tudo quanto os fascina.

Diversos, igualmente despertos para o banquete da Era Nova, encontram-se comprometidos com deveres familiares, sem coragem para libertar-se das exigências do lar, refugiando-se nesse mecanismo desculpista para ficarem acomodados.

Muitos, herdeiros de situações lamentáveis de outras existências, sentindo-se fracassados nos setores sociais a que se entregaram, veem na programação libertadora oportunidade de manter o poder, destacar-se a qualquer preço, disputar lugares e privilégios, vencer os demais, que passam a ter em conta de adversários...

Vários, ainda vinculados às paixões dissolventes em que se comprazem, invejam os lutadores, têm mágoa dos trabalhadores dedicados, entregando-se a sistemáticas campanhas de desmoralização das suas existências, assim torpedeando as suas nobres realizações.

São as fraquezas humanas que neles predominam.

Não conseguem superar as tendências inferiores que os mantêm em situação deplorável.

Talvez gostassem de estar ao teu lado, de ser como tu, de lutar com a tua coragem, entretanto, não se esforçam por consegui-lo, optando pela permanência no estágio que os amesquinha.

Se lhes sofres o abandono, o combate sistemático, a perseguição insana, a antipatia gratuita, o ódio devorador, não te perturbes, sintonizando na faixa da sua pusilanimidade.

Mantém-te coerente com a tua crença e fiel ao teu ideal.

Já que eles desejam ficar onde se encontram, não insistas, não os lamentes, não te detenhas.

Segue adiante!

Deves realizar a tarefa que aceitaste do Mestre, sem discussão, e que tem sido fator de alegria na tua atual existência, não constrangendo ninguém a seguir contigo, nem a te auxiliar no desiderato.

*

Se, em algum momento, estiveres para desfalecer ante as difíceis conjunturas, as perseguições e a solidão, envolve-te nas dúlcidas vibrações da prece, recuperando as energias e o desejo de avançar sem detença.

Recorda-te, de imediato, de Jesus com o madeiro sobre o ombro dilacerado, caindo várias vezes e levantando-se, sem os censurar, sem os procurar no meio da multidão que uma semana antes O aplaudiu, quando da entrada em Jerusalém, e agora O malsinava.

Constituído do mesmo material humano das demais pessoas, transforma tuas fraquezas em valor moral e sê fiel Aquele que te ama desde o início dos tempos e prossegue contigo, esperando a tua decisão de entrega total a Ele.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Libertação pelo Amor

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domingo, 26 de julho de 2026

Reformas sociais

Reformas sociais

Richard Simonetti


O assunto surgiu na reunião de estudos. Para a edificação de uma sociedade justa não seria razoável a participação em movimentos que defendem uma mudança nas estruturas sociais?

Várias opiniões foram apresentadas. Houve quem preconizasse um engajamento do Centro, contribuindo até mesmo para a constituição de partido político capaz de pugnar pelos ideais espíritas. Outros defendiam uma mobilização popular, se necessário, pressionando os governantes, a fim de que as legítimas aspirações do povo fossem atendidas.

Terminada a discussão, ofereceu-se a palavra a Josefo, dedicado mentor espiritual que, após saudar os presentes pela psicofonia mediúnica, falou:

- O assunto hoje foi empolgante. É louvável o interesse que demonstraram na procura de soluções para os grandes problemas sociais. Considerem, entretanto, que todas as mudanças envolvendo a sociedade, para serem legítimas e proveitosas, pedem antes a renovação do Homem, o que não pode ser feito à custa de meras reivindicações, de verbalismo ou do exercício da força, porquanto, para tanto, é preciso entrar em seu coração e não há outro caminho senão o Amor. Pode parecer piegas aos doutos, mas é a pura expressão da realidade. Jesus o demonstrou incansavelmente em seu apostolado. O Espiritismo faz a mesma proposta, apresentando a caridade como a base da salvação humana. Com a caridade desenvolveremos a vocação de servir, que é o Amor em ação, atuante, empreendedor, irresistível no apelo à renovação.

- No entanto - retruca Luiz, um dos defensores do engajamento político - o amigo não nega que uma mobilização dos espíritas poderia favorecer as mudanças pretendidas.

- Sim, todos podem participar de tais iniciativas, desde que observem a ordem e a disciplina, com respeito aos poderes constituídos, mas, sem envolver a Doutrina Espírita como movimento, a fim de que não tenhamos a reedição dos perigosos enganos cometidos pelos líderes religiosos no passado, que terminaram por atrelar a religião ao poder, assimilando os males que pretendiam combater.

- Mas o irmão não admite que uma mobilização popular, até com eventual exercício de força, apressaria as mudanças pretendidas? - indaga Gabriel, um dos defensores das medidas revolucionárias.

- Semelhantes iniciativas realmente promovem modificações nas estruturas sociais, mas em nada contribuem para a edificação de um Mundo melhor. Muitos movimentos de força têm sido disparados. Sistemas se sucedem, mas perpetuam-se os males humanos... Países desenvolvidos resolvem transitoriamente os problemas da miséria material, mas caem na miséria moral, que é muito pior, a primeira é provação para coletividades imensas, funciona como cadinho purificador, a segunda é semeadura de dores... Ocioso pretender-se a reforma da sociedade sem a renovação do cidadão. Impossível construir uma casa sólida com tijolos crus.

Josefo fez pequena pausa, como a esperar que seus conceitos fossem assimilados, concluindo, incisivamente:

- Quando Jesus proclamou que o Reino de Deus está dentro de nós, deixou bem claro que ele não se estenderá sobre o planeta antes dessa gloriosa conquista. Por isso, meus amigos, o nosso trabalho é junto ao coração humano, sem pressões e sem pressa, com o exemplo de nosso próprio empenho no Bem, a fim de que o Reino Divino se estenda ao nosso redor.

Qualquer sistema de governo funcionará satisfatoriamente se governados e governantes se ajustarem aos princípios da Justiça e da Verdade, da Fraternidade e da Solidariedade, do Trabalho e da Disciplina, do Respeito e da Compreensão.

Semelhantes realizações, que jamais poderão ser impostas, se concretizarão na medida em que os homens se dispuserem a seguir o Cristo pelos caminhos do Amor.

Richard Simonetti do livro:
Endereço Certo

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sábado, 25 de julho de 2026

Pensamento

Pensamento

Lourenço Prado


Imagem gerada por IA.
Em nossa reunião de 25 de novembro de 1954, felicitou-se nosso Grupo com a presença do Espírito Lourenço Prado que, pelos canais psicofônicos, nos ofertou expressiva palestra, acerca do pensamento. Escritor largamente conhecido nos arraiais do Espiritualismo em nosso País e autor de vários livros de grande mérito, sua palavra, na alocução que transcrevemos, versa sobre sintonia, equilíbrio e colaboração em nossa vida mental.
Depois da morte física, empolgante é o quadro de surpresas que se nos descortina à visão, contudo, para nós, cultores do Espiritualismo, uma das maiores dentre todas é a confirmação do poder mental como força criadora e renovadora, em todas as linhas do Universo.

O Céu, como domicilio espacial da beleza, existe realmente, porque não podemos imaginar o Paraíso erguido sobre um pântano, todavia, acima de tudo, o Céu é a faixa de pensamentos glorificados a que nos ajustamos, com todas as criaturas de nosso degrau evolutivo.

O Inferno, como sítio de sofrimento expiatório, igualmente não pode ser contestado, porque não será justo idear a existência do charco num templo vivo, mas, acima de qualquer noção de lugar, o Inferno é a rede de pensamentos torturados, em que nos deixamos prender, com todos aqueles que nos comungam os problemas ou as aflições de baixo nível.

É preciso acordar para as realidades do mentalismo, a fim de nos desembaraçarmos dos grilhões do pretérito, criando um amanhã que não seja reflexo condicionado de ontem.

A Lei concede-nos, em nome de Deus, na atualidade, o patrimônio de revelações do moderno Espiritualismo para aprendermos a pensar, ajudando a mente do mundo nesse mesmo sentido.

O pensamento reside na base de todas as nossas manifestações.

Evoluímos no curso das correntes mentais, assim como os peixes se desenvolvem nas correntes marinhas.

Refletimos, por isso, todas as inteligências que se afinam conosco no mesmo tom.

Na alegria ou na dor, no equilíbrio ou no desequilíbrio, agimos com todos os espíritos, encarnados ou desencarnados, que, em nossa vizinhança, se nos agregam ao modo de sentir e de ser.

Saúde é o pensamento em harmonia com a lei de Deus. Doença é o processo de retificá-lo, corrigindo erros e abusos perpetrados por nós mesmos, ontem ou hoje, diante dela.

Obsessão é a ideia fixa em situações deprimentes, provocando, em nosso desfavor, os eflúvios enfermiços das almas que se fixaram nas mesmas situações.

Tentação é a força viciada que exteriorizamos, atraindo a escura influência que nos inclina aos desfiladeiros do mal, porque toda sintonia com a ignorância, ou com a perversidade, começa invariavelmente da perversidade ou da ignorância que acalentamos conosco.

Um prato de brilhantes não estimulará a fome natural de um cavalo, mas excitará a cobiça do homem, cujos pensamentos estejam desvairados até o crime.

Lembremo-nos, assim, da necessidade de pensar irrepreensivelmente, educando-nos, de maneira a avançarmos para diante, errando menos.

A matéria, que nos obedece ao impulso mental, éo conjunto das vidas inferiores que vibram e sentem, a serviço das vidas superiores que vibram, sentem e pensam.

O pensamento raciocinado é a maior conquista que já alcançamos na Terra.

Procuremos, desse modo, aperfeiçoar nossa mente e sublimá-la, através do estudo e do trabalho que nos enobreçam a vida.

Felicidade, pois, é o pensamento correto.

Infortúnio é o pensamento deformado.

Um santuário terrestre é o fruto mental do arquiteto que o idealizou, com a cooperação dos servidores que lhe assimilaram as ideias.

O mundo novo que estamos aguardando é construção divina, mentalizada por Cristo, na exaltação da Humanidade.

Trabalhadores que somos, contratados por nosso Divino Mestre, saibamos pensar com ele para com ele vencermos.

Lourenço Prado por Chico Xavier do livro:
Instruções Psicofônicas

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Ascensão e queda

Ascensão e queda

Joanna de Ângelis


Imagem gerada por IA.

A HISTORIA É, SEM DUVIDA, UM REPOSITÓRIO complexo e rico dos acontecimentos que dizem respeito à humanidade.

As suas narrações luminosas e trágicas dão-nos notícias da transitoriedade do fasto e da desgraça, sucedendo-se, quase sempre, um ao outro, nem sempre nessa mesma ordem, demonstrando que a árvore que o Pai não plantou é sempre arrancada.

Pela memória guardada em seus registros, acompanhamos a ascensão de impérios grandiosos, quase indestrutíveis, que o tempo derruiu e as guerras de extermínio aniquilaram, de nações que surgiram do pó dos desertos ou da lama dos pântanos e submeteram outras ao seu talante belicoso, que brilharam por um tempo e foram devastadas logo depois, ficando somente pedras calcinadas e muralhas gastas, ou das páginas eloquentes dos seus pensadores, assim como das calamidades execrandas praticadas pelos seus governantes insensíveis...

A Babilônia gloriosa de Nabucodonosor e os jardins suspensos que edificou em homenagem à sua mulher estão hoje reduzidos a pó, os colossos de pedra como templos monumentais e pirâmides guardadoras de segredos ainda indecifrados no Egito dos faraós apresentam-se corroídos pelos ventos e submersos em areais inclementes, a Índia dos marajás opulentos e dos párias desprezados com as cidades abandonadas por falta de água umas e outras destruídas pelas guerras contínuas entre as diferentes etnias, carregando o fardo de misérias inomináveis, o poder de Esparta desaparecido e ignorado nas ruínas calcinadas, a beleza de Atenas e sua filosofia transferidas para Roma dominadora e, mais tarde, destruída...

Nos tempos modernos, também se levantaram impérios quase invencíveis, como o otomano, o austro-húngaro, o britânico, o nazista, o soviético e outros de não menor importância, hoje apresentando-se devorados pela alucinação dos seus construtores ambiciosos, sofrendo o efeito dos crimes hediondos perpetrados contra os povos que submeteram e os mártires que assassinaram cruelmente...

Todas as glórias do poder terreno convertem-se em lembranças amargas, que deveriam ensinar às novas gerações de governantes as superiores lições de edificação do bem e da justiça, da equanimidade e da fraternidade, mediante as quais podem tornar-se inexpugnáveis, permanentemente vivos no conjunto que deve preparar o mundo melhor, mais digno de ser considerado e com mais elevados conteúdos morais e espirituais.

Mesmo o cristianismo, que transformou a humilde manjedoura em templo adornado de ouro e de púrpura, saindo da singeleza das praias gentis da Galileia e alcançando os tronos reais, segurando o cetro do poder nas mãos vigorosas da prepotência e da presunção, vem tombando no descrédito e no desrespeito dos seus príncipes e nobres representantes, por haver perdido a inspiração divina do Cristo, por ter adulterado as Suas lições, transformando-se em organização político-religiosa arbitrária e falaciosa em total declínio...

Na voragem do tempo, tudo passa, permanecendo somente as lembranças dolorosas ou sublimes daqueles que então viveram, legando as imorredouras páginas das vidas que se permitiram.

A simbólica Esfinge tudo devora, menos as construções do bem, do amor, da verdade de que se fez instrumento Jesus Cristo, cuja vida e obra inscrevem-se como os mais ditosos momentos da humanidade.

*

A sublime proposta do Mestre Galileu, exarada em ternura e em compaixão, exteriorizada com mansidão e misericórdia em nome do amor, tem atravessado os dois milênios últimos como sendo a mais bela página de vida de todas as vidas.

Trazendo ao mundo das ilusões o definitivo reino de Deus, fincou as suas bases no sentimento das pessoas, colocando a criatura humana no mais elevado nível de dignidade e beleza, enriquecendo-a de saúde e de harmonia.

Todos aqueles que são convidados a participar desse incomparável império de monumental grandeza devem despir-se das indumentárias pesadas em que se encarceram nos tecidos asfixiantes dos vícios e despautérios, compreendendo que se faz indispensável a veste nupcial para o permanente banquete da fraternidade e da compaixão em relação aos infelizes que ainda não despertaram para a cidadania espiritual.

Enquanto as nações do mundo se celebrizam pelo exterior, pela opulência e extravagância que se permitem, sugando o sangue e a vida de todos aqueles que se lhes submetem, roubando-lhes a alegria e o encantamento, o reino dos céus não vem com aparência exterior, libertando os aprisionados nos desejos servis e ajudando-os na aquisição da autoconsciência que os trabalha para a conquista da lídima harmonia.

A traição, a infâmia, a perseguição, o dolo, a subserviência, a hipocrisia, o medo e outros títeres dos sentimentos humanos são as moedas do comércio social e político dos grandes povos que se levantam no cenário internacional, combatendo a guerra e vendendo armas de alta destruição aos belicosos, pregando justiça social e progresso com o seu povo tornado cravo da sua tecnologia e indústria do terror, para alcançarem o pódio dos aplausos por pouco tempo, logo tombando vencidas pelos desastres da natureza ou das próprias desordenadas ambições.

A misericórdia, a caridade, a ternura, a compreensão e a solidariedade são os extraordinários recursos disponíveis para a instalação e a convivência em o novo reino, onde não existem separatismos nem exclusivismo de classes e de governantes, cada qual sendo responsável pelos próprios atos ante a consciência lúcida em relação ao dever e à vivência pessoal.

Desconhecendo preconceitos e exaltações egóicas, as leis que nele vigem decorrem da responsabilidade pessoal, são estabelecidas pelos soberanos códigos de equilíbrio universal, todas derivadas do amor de Deus em relação aos Seus filhos.

Das ruínas que ficaram das obras grandiosas do passado, nascidas no orgulho e na ostentação de homens e mulheres atormentados, levantam-se na atualidade novas construções de tolerância e solidariedade para albergar todos os indivíduos, sem nenhuma distinção, sob o estrelado céu da complacência do Seu Engenheiro Sideral...

Certamente, ainda transcorrerão muitos dias de lutas cruentas entre os mantenedores da opressão, que detestam a liberdade, dos caprichosos dominadores de outras vidas, que permanecerão investindo contra as novas realizações, dos atormentados morais que se comprazem na vilania e nos desvios morais, criando embaraços, assim como daqueles que se transformam em inimigos do bem acionados pelas mentes enfermas da espiritualidade inferior, afligindo os novos obreiros do Senhor, perseguindo-os com instintos destrutivos, sem se dar conta que a morte igualmente os arrebatará, conduzindo-os ao país de origem, onde se encontrarão com a consciência desestruturada...

Seja a tua ascensão moral o resultado do esforço para tornar-te cada dia melhor do que na véspera, ambicionando e lutando por aprimorar-te mais no dia seguinte, já que anelas pelo reino de Deus que te cumpre edificar dentro de ti mesmo, sem desprezo pelos impérios transitórios da Terra, nos quais exercitas a fraternidade e o bem.

Talvez não sejas galardoado pelas simpatias e enriquecimentos convencionais, convidado mesmo a testemunhos silenciosos como sói acontecer quando se está no mundo de paixões infamantes, mas mantém a tranquilidade que deve caracterizar todos quantos se vinculam ao Divino Construtor da Terra, servindo com empenho da maneira mais eficaz e duradoura possível.

Constatarás amanhã o significado da ascensão e da queda no mundo das convenções que, no entanto, é a abençoada escola de aprimoramento moral dos Espíritos no seu processo de crescimento e de autoiluminação.

***
SEJA A TUA ASCENSÃO MORAL O RESULTADO DO ESFORÇO PARA TORNAR-TE CADA DIA MELHOR DO QUE NA VÉSPERA, AMBICIONANDO E LUTANDO POR APRIMORAR-TE MAIS NO DIA SEGUINTE, JÁ QUE-ANELAS PELO REINO DE DEUS QUE TE CUMPRE EDIFICAR DENTRO DE TI MESMO, SEM DESPREZO PELOS IMPÉRIOS TRANSITÓRIOS DA TERRA, NOS QUAIS EXERCITAS A FRATERNIDADE E O BEM.
Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Ilumina-te
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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Vida e obra de Hermínio C. Miranda

Vida e obra de Hermínio C. Miranda

Yeda Hungria - Correio Fraterno (11/08/21).


Hermínio Correa de Miranda

Hermínio Corrêa de Miranda, um dos mais cultos e ilustres escritores espíritas do Brasil, deu ao longo dos seus 93 anos pouquíssimas entrevistas, dentre elas esta, concedida à jornalista Yeda da Hungria, que o Correio Fraterno publicou em setembro de 1995 e agora, resumidamente, trazemos para a 500ª edição do jornal.

Hermínio Miranda assim se apresenta:

Sou uma pessoa sem biografia. Nasci em 1920, em Volta Redonda, RJ, de família modesta. Não tínhamos o supérfluo, mas o essencial nunca nos faltou. Tenho pouca escolaridade formal. Fiz um curso primário muito rápido, compactado em poucos anos. Vim para Minas Gerais porque em Volta Redonda não havia escolas adequadas e muito menos ginásio. Meu padrinho patrocinou-me a instrução em Baependi e, depois, em Caxambu. Em 1933, fui para Barra Mansa, onde cursei o ginásio. Só na década de 1940 cursei contabilidade. Já era casado, com a primeira filha nascida, e trabalhando. Minha escolaridade é apenas essa. O resto é uma curiosidade insaciável de aprender línguas, de ler tudo quanto puder para ampliar conhecimentos. Tornei-me um bom profissional. Entrei para os serviços da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, em 1942, com 22 anos de idade e, de simples auxiliar de escritório cheguei a diretor, em 1967.

Como nasceu seu interesse pela doutrina espírita?

Mamãe criou os dez filhos na religião católica. Era uma pessoa de bom senso e inteligente, dotada de razoável formação cultural. Estudou em colégio de freiras. Ela nos ensinava, em casa, a ler e a escrever e, também, um pouco de aritmética. Íamos para o colégio já sabendo um pouco de cada coisa. Dizia-nos que, enquanto estivéssemos sob sua responsabilidade, seríamos católicos, depois disso, que cada um seguiria seu rumo. Comecei a ler na adolescência. Lembro-me da impressão que me causou Schopenhauer, cujas ideias me pareciam brilhantes. Passei a questionar os ensinamentos da Igreja e suas práticas. Um dia, algumas pessoas da família fizeram a clássica reunião mediúnica com o copinho, e me impressionou observar como ele se movimentava, escolhendo as letras e construindo palavras e frases. Por essa época, fui, a trabalho, para os Estados Unidos. Retornei cinco anos depois, decidido a estudar aquele fenômeno. Procurei um amigo que eu sabia espírita, o cel. Euclides Fleury, colega de trabalho na Siderúrgica, que me deu uma pequena lista de livros, a partir das cinco obras básicas da codificação. Ao ler O Livro dos Espíritos, tive a impressão de que já o conhecia. Anos depois, comentando o assunto com Divaldo Franco, ele me disse que, em encarnação anterior, eu vivera em Paris e até chegara a conhecer Kardec, com o qual estivera pessoalmente, mais de uma vez, propondo-lhe perguntas e trocando ideias com ele. Posteriormente, por certos meios, essa informação me foi confirmada e eu soube que fora um soldado inglês que vivera em Paris entre 1851 e 1866, os quinze anos finais daquela existência. Daí não me ser estranho O Livro dos Espíritos. 

O que o levou à produção de livros espíritas?

Quando comecei a ler e a estudar a doutrina, senti o impulso de partilhar com os outros as coisas que eu estava aprendendo e que me estavam sendo tão esclarecedoras. Assim, em 1956, arrisquei-me a escrever um pequeno artigo e o mandei para o Reformador. Publicaram-no. Aquele foi um momento decisivo para mim, porque se a matéria houvesse sido rejeitada, talvez eu me tivesse desencorajado de escrever. De 1958 em diante, durante 22 anos, escrevi para o Reformador. Às vezes, estampavam até três artigos meus no mesmo número. Foi, aliás, por essa época que o dr. Wantuil me sugeriu que adotasse também um pseudônimo. Escolhi o de João Marcus. Em seguida, vieram os livros, que foram tendo boa aceitação. 

Qual o livro que lhe exigiu maior trabalho de pesquisa?

Cada livro é uma criança, um filho. Primeiro, a gestação, as dores, o trabalho, as angústias e as alegrias, naturalmente. Um livro que me exigiu muito foi Eu sou Camille Desmoulins, pois decidi confirmar as revelações de Luciano dos Anjos. Eram minúcias, detalhes, problemas miúdos da Revolução Francesa. Foram anos de pesquisas, refletidas na quantidade de notas complementares acrescentadas ao texto básico. Cada livro tem sua pesquisa específica. O que estou escrevendo, por exemplo, exigirá bastante trabalho. Farei um levantamento detalhado da obra de Fénelon, além de buscar mais amplas informações biográficas a respeito dele, o que não tem sido fácil. O evangelho gnóstico de Tomé foi também obra que consumiu longas horas de estudo e pesquisa. Em Alquimia da mente, foram muitos os apoios de que necessitei para as teorias que nele desenvolvo. Já os livros mais simples, como Nossos filhos são espíritos, dispensam pesquisas de maior vulto, pois tratam de depoimentos mais do que de citações eruditas. 

Em uma de suas obras são mencionados os manuscritos do Mar Morto, documentos com ensinos dos essênios e que teriam influenciado o pensamento cristão. Em outras, são citados os achados de Nag Hammadi, no Alto Egito, cópias de textos cristãos primitivos. Qual a relação entre esses documentos? 

Os manuscritos de Nag Hammadi originam-se de uma comunidade reconhecidamente gnóstica. O gnosticismo foi um movimento paralelo ao cristianismo primitivo, ocorrido entre os anos 120 e 240, século 2 e 3, portanto; os do Mar Morto, descobertos em 1947, referem-se a uma seita judaica e seus rituais e procedimentos e, segundo os historiadores, anterior ao cristianismo. Ainda hoje se discute se seus membros eram ou não essênios. Há muito livro bom a respeito disso, como os dos eruditos franceses Charles Guignebert e Maurice Goguel, além de autores mais recentes. Tenho a impressão de haver vivido lá, naquela época; daí porque vagas e imprecisas lembranças me agitam durante a leitura desse material e mexem com minhas emoções. É um tema que me atrai e, como disponho de textos importantes sobre a época, pretendo ainda trabalhá-lo. Não sei, porém, se terei tempo suficiente para escrever um livro a respeito. Anos atrás, eu participava de um grupo mediúnico familiar, no Rio de Janeiro. Numa sessão de regressão de memória, um amigo e eu discutimos a possibilidade de mergulhar nas lembranças ocultas de cada um de nós, a fim de pesquisar a história do cristianismo primitivo. Esse companheiro me dissera, numa das regressões, que, no primeiro século, eu havia sido judeu e ele, romano. Programamos reunir nossas reminiscências pessoais. Um dos aspectos que eu pretendia estudar era justamente a história dos essênios — quem eram, o que faziam, como pensavam e o que pretendiam. Infelizmente o projeto não foi adiante. A tese, contudo, é válida e espero demonstrá-la um dia, senão desta vez, em alguma existência futura, se isso for permitido. Não creio que o Cristo haja sido um essênio, como especula, entre outros, Édouard Schuré. João Batista, sim, parece tê-lo sido. 

Os evangelhos canônicos citam superficialmente Tiago e Judas Tadeu como irmãos de Jesus. Determinadas correntes religiosas os consideram primos. O que revelam suas conclusões?

Tenho encontrado evidências convincentes de que Jesus teve vários irmãos e irmãs. O assunto é tratado com maior amplitude em meu livro Cristianismo, a mensagem esquecida. Quanto a Judas Tadeu, o problema é complexo, porque os textos gnósticos, escritos em copta [egípcio antigo] colocam Tadeu como irmão gêmeo de Jesus, pois o nome Tomé quer dizer gêmeo, tanto quanto Dídimo (em grego). Em suma, Tadeu, Dídimo, Tomé são nomes aparentemente atribuídos à mesma pessoa. É difícil aceitar, contudo, que Jesus haja tido um irmão gêmeo, a não ser em sentido figurado, como alguém muito ligado a ele, uma espécie de alter-ego. Esse aspecto foi abordado por mim em O evangelho gnóstico de Tomé. Quanto a Tiago Maior, contudo, os textos das Epístolas de Paulo e de Atos dos Apóstolos são claros em colocá-lo como um dos irmãos de Jesus. Quando Paulo e Barnabé foram a Jerusalém, no ano 49, a fim de obter a chamada Carta Apostólica, isto é, a permissão para pregar o cristianismo aos gentios, dispensadas, porém, certas práticas formalistas do judaísmo, a decisão final foi de Tiago, irmão de Jesus, como afirma Paulo, sem rodeios. Ao que tudo indica, trata-se, inquestionavelmente, de irmãos de sangue. 

As pesquisas nos textos gnósticos originaram o livro O evangelho de Tomé — título mudado para O evangelho gnóstico de Tomé, na segunda edição. Pretende você escrever sobre os demais textos gnósticos?

Sim, existe ainda muito material no volume The Nag Hammadi Library — a tradução em língua inglesa dos textos coptas — que não foi aproveitada em O Evangelho gnóstico de Tomé, mas tenho de estabelecer prioridades na ordem dos escritos. Projetos, tenho vários. Gostaria, se possível, de escrever três ou quatro livros simultaneamente, porque são muitos os temas que me atraem, mas há limitações incontornáveis a respeitar. A tradução inglesa oferece material riquíssimo, como os escritos atribuídos a Pedro e a Felipe e a outros trabalhadores da primeira hora. Alguns aspectos podem até ser algo fantasistas, mas precisam ser estudados com vagar, mesmo porque, em muitos pontos relevantes, confirmam passagens evangélicas consagradas nos textos vigentes ou as modificam significativamente. Maria de Magdala, por exemplo, apresenta-se nesses documentos como uma presença muito mais marcante do que a gente poderia supor à vista da relativa descrição dos textos digamos ‘oficiais’ que nos chegaram. Ela era dotada de poderosa mediunidade e exerceu papel preponderante no grupo de pessoas mais chegadas a Jesus. Deveria ser considerada, com todo direito, legítimo apóstolo. É uma figura pela qual tenho uma grande admiração. Em Cristianismo, a mensagem esquecida escrevi uma página arrancada do fundo do coração, sobre ela.

Na sua obra Eu sou Camille Desmoulins, é narrada a regressão de memória com Luciano dos Anjos. Numa das passagens, vamos encontrá-lo em Paris, durante o período da Revolução Francesa. Você lhe solicita uma informação da época e ele, desconhecendo-a, vai a algum lugar buscá-la. Como se explica isso?

Recebi, em envelope fechado, uma pergunta, cujo teor Luciano ignorava e que lhe deveria ser feita depois que ele já estivesse em transe. Somente depois de ter ele alcançado esse estado, portanto, abri o envelope e tomei conhecimento do seu conteúdo. Tratava-se de perguntar a Luciano, já regredido à condição de Desmoulins, qual a frase que dissera durante um jantar, com amigos. Ele observou que não se lembrava, pois dissera e escrevera muitas frases de efeito e não sabia a qual delas se referia a pergunta formulada, aliás, por Murillo Alvim, seu amigo pessoal e professor de desenho anatômico. Quis saber, a seguir, se eu julgava importante o atendimento à pergunta. Afirmei-lhe que sim, porque seria um elemento a mais para conferirmos os dados que ele vinha revelando. Disse-me então: "Espera, que eu vou lá." Apliquei-lhe mais passes e ele aquietou-se e permaneceu em silêncio por alguns momentos. Em seguida, me disse: "Já estou aqui. O que é mesmo que você quer saber?”. A partir daquele momento, ele não estava mais se lembrando do ocorrido; ele se encontrava em algum lugar na interseção tempo/espaço, no qual era capaz de resgatar os eventos como se estivessem documentados. Relatou, então, o clima de tensão vivido naquela fase da Revolução, que começava a devorar-se a si mesma, destruindo seus próprios líderes. Encontravam-se reunidos num jantar ele, Danton, as respectivas esposas e amigos, todos muito tensos. Dirigindo-se a Danton, lembrou-lhe num versículo da epístola de Paulo: "...comamos e bebamos, que amanhã estaremos todos mortos”. Falou em latim, para que as demais pessoas não percebessem o estado emocional em que se encontravam. Esse é o episódio. Não sei como explicá-lo. Em A memória e o tempo digo que o tempo é também um local. Ambos, tempo e espaço, para mim, têm algo em comum. 

Para encerrar, gostaria que esclarecesse o conceito de tempo apresentado em seu livro A memória e o tempo.

Gostaria muito de poder fazê-lo, mas não me sinto suficiente para isso. Acho que teríamos de sair do contexto de espíritos encarnados em que nos encontramos. Parecem-me conceitos que somente podem ser apreendidos pela intuição; impossível fazê-lo pelo raciocínio lógico, limitador por natureza. Vivemos numa dimensão na qual as coisas são lineares e sequenciais e, pelo que se sabe, no mundo espiritual a visão é substancialmente diversa, como se isso que separamos em momentos — presente, passado e futuro — fossem meros aspectos de uma só realidade atemporal. Reconheço ser muito difícil, para nós, prisioneiros da matéria, entender que não existe passado ou futuro, que tudo isso é uma realidade única, uma espécie de eterno presente de que falam alguns. Seja como for, concordemos ou não, compreendamos ou não, essa é a difícil, mas irrecusável mensagem da profecia, uma sólida realidade que a parapsicologia procurou colocar no nicho classificatório da precognição. 

Pela Correio Fraterno, Hermínio C. Miranda publicou:  A irmã do vizir, O exilado, A dama da noite, As mãos de minha irmã, O que é fenômeno mediúnico?, O que é fenômeno anímico? e Os procuradores de Deus.

Vida e obra de Hermínio C. Miranda por Yeda Hungria
 Correio Fraterno (11/08/21).

Fonte: https://correio.news/entrevista/vida-e-obra-de-herminio-miranda

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

Correio News - Ago. 21.