terça-feira, 18 de agosto de 2026

Renovação

Renovação

Eros


Imagem gerada por IA.

O homem cansado buscou a fonte generosa e refez-se com a linfa cristalina, abençoada.

Contemplando-a, tranquila, não sopitou as emoções, queixando-se:

— És ditosa! Enquanto eu padeço incompreensões e cansaço, tormentos e empeços pelo caminho, solidão e aturdimento, quase sempre andando sob chuva de maldições, tu ai estás, transparente e nobre, abençoando os que de ti se acercam, sedentos...

"Por que não sou como tu, eu que desejo serviço e paz?"

Levemente eriçada por vento brando, a linfa respondeu:

— Muitos me buscam e os atendo sem distinção.

"A todos sirvo sem cansaço, e, embora, não poucos me apedrejem, atirem-me calhaus e detritos, relegando-me ao abandono ou me exaurindo até a última gota, não me aflijo, porque Alguém, em silenciosa bondade, me renova e restaura, anônimo e perseverante.

"Não revido o mal, por ser gerada pelo bem, não havendo motivo para autoapiedar-me ou desanimar..."

O homem compreendeu e saiu a servir, confiando na renovação e na ajuda que vem de Deus.

Eros por Divaldo Franco do livro:
No Longe do Jardim

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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A campanha da paz

A campanha da paz

Irmão X.


Imagem gerada por IA.

Estabelecidos em Jerusalém, depois do Petencostes, os discípulos de Jesus, sinceramente empenhados à obra do Evangelho, iniciaram as campanhas imprescindíveis às realizações que o Mestre lhes confiara.

Primeiro, o levantamento de moradia que os albergasse.

Entremearam possibilidades, granjearam o apoio de simpatizantes da causa, sacrificaram pequenos luxos, e o teto apareceu, simples e acolhedor, onde os necessitados passaram a receber esclarecimento e consolação, em nome do Cristo.

Montada a máquina de trabalho, viram-se defrontados por novo problema. As instalações demandavam expressivos recursos. Convocações à solidariedade se fizeram ativas. Velhos cofres foram abertos, canastras rojaram-se de borco, entornando as derradeiras moedas, e o lar da fraternidade povoou-se de leitos e rouparia, candeias e vasos, tinas enormes e variados apetrechos domésticos.

Os filhos do infortúnio chegaram em bando.

Obsidiados eram trazidos de longe, velhinhos que os descendentes irresponsáveis atiravam à rua engrossavam a estatística dos hóspedes, viúvas acompanhadas por filhinhos chorosos e magricelas aumentavam na instituição, dia a dia, e enfermos sem ninguém arrastavam-se na direção da pousada de amor, quando não eram encaminhados até aí em padiolas, com as marcas da morte a lhes arroxearem o corpo enlanguescido.

Complicaram-se as exigências da manutenção e efetuaram-se coletas entre os amigos.

Corações generosos compareceram. Remédios não escassearam e as mesas foram supridas com fartura.

Obrigações dilatadas reclamaram concurso humano.

Os continuadores de Jesus apelaram das tribunas, solicitando braços compassivos que lavassem os doentes e distribuíssem os pratos. Cooperadores engajaram-se gratuitamente e formaram-se os diáconos prestimosos.

Criancinhas começaram a despontar na estância humilde e outra espécie de assistência se impôs, rápida. Era necessário amontoar o material delicado em que os recém-nascidos, à maneira de pássaros frágeis, pudessem encontrar o aconchego do ninho. Senhoras abnegadas esposaram compromissos. A legião protetora do berço alcançou prodígios de ternura.

E novas campanhas raiavam, imperiosas. Campanhas para o trato da terra, a fim de que as despesas diminuíssem. Campanhas para substituir as peças inutilizadas pelos obsessos, quando em crises de fúria. Campanhas para o auxílio imediato às famílias desprotegidas de companheiros que desencarnaram. Campanhas para mais leite em favor dos pequeninos.

Entretanto, se os apóstolos do Mestre encontravam relativa facilidade para assegurar a mantença da casa, reconheciam-se atribulados pela desunião, que os ameaçava, terrível.

Fugiam da verdade. Levi criticava o rigor de Tiago, filho de Alfeu. Tiago não desculpava a tolerância de Levi. Bartolomeu interpretava a benevolência de André como sendo dissipação.

André considerava Bartolomeu viciado em sovinice. Se João, muito jovem, fosse visto em prece, na companhia de irmãs caídas em desvalimento diante dos preconceitos, era indicado por instrumento de escândalo. Se Filipe dormia nos arrabaldes, velando agonizantes desfavorecidos de arrimo familiar, regressava sob a zombaria dos próprios irmãos que não lhe penetravam a essência das atitudes.

Com o tempo, grassaram conflitos, despeitos, queixumes, perturbações. Cooperadores insatisfeitos com as próprias tarefas invadiam atribuições alheias, provocando atritos de consequências amargas, junto dos quais se sobrepunham os especialistas do sarcasmo, transfigurando os querelantes em trampolins de acesso à dominação deles mesmos.

Partidos e corrilhos, aqui e ali. Cochichos e arrufos nos refeitórios, nas cozinhas enredos e bate-bocas.

Discussões azedavam o ambiente dos átrios. Fel na intimidade e desprezo por fora, no público que seguia, de perto, as altercações e as desavenças.

Esmerava-se Pedro no sustento da ordem, mas em vão. Aconselhava serenidade e prudência, sem qualquer resultado encorajador. Por fim, cansado das brigas que lhes desgastavam a obra e a alma, propôs reunirem-se em oração, a benefício da paz.

E o grupo passou a congregar-se uma vez por semana, com semelhante finalidade. Apesar disso, porém, as contendas prosseguiam, acesas. Ironias, ataques, remoques, injúrias...

Transcorridos seis meses sobre a prece em conjunto, uma noite de angústia apareceu, em que Simão implorou, mais intensamente comovido, a inspiração do Senhor. Os irmãos, sensibilizados, viram-no engasgado de pranto. O companheiro fiel, rude por vezes, mas profundamente afetuoso, mendigou o auxílio da Divina Misericórdia, reconhecia a edificação do Evangelho comprometida pelas rixas constantes, esmolava assistência, exorava proteção...

Quando o ex-pescador parou de falar, enxugando o rosto molhado de lágrimas, alguém, surgiu ali, diante deles, como se a parede, à frente, se abrisse por dispositivos ocultos, para dar passagem a um homem.

À luz mortiça que bruxuleava no velador, Jesus, como no passado, estava ali, rente a eles...

Era ele, sim, o Mestre!... Mostrando o olhar lúcido e penetrante, os cabelos desnastrados à nazarena e melancolia indefinível na face calma, ergueu as mãos num gesto de bênção!...

Pedro gemeu, indiferente aos amigos que o assombro empolgava:

- Senhor, compadece-te de nós, os aprendizes atormentados!... Que fazer, Mestre, para garantir a segurança de tua obra? Perdoa-me se tenho o coração fatigado e desditoso!...

- Simão – respondeu Jesus, sem se alterar -, não me esqueci de rogar para que nos amássemos uns aos outros...

- Senhor – tornou Cefas -, temos realizado todo o bem que nos é possível, segundo o amor que nos ensinaste. Nossas campanhas não descansam... Temos amparado, em teu nome, os aleijados e os infelizes, as viúvas e os órfãos...

- Sim, Pedro, todas essas campanhas são aquelas que não podem esmorecer, para que o bem se espalhe por fruto do Céu na Terra; no entanto, urge saibamos atender à campanha da paz em si mesma...

- Senhor, esclarece-nos por piedade!... Que campanha será essa?!...

Jesus, divinamente materializado, espraiou o olhar percuciente na diminuta assembleia e ponderou, triste:

- O equilíbrio nasce da união fraternal e a união fraternal não aparece fora do respeito que devemos uns aos outros... Ninguém colhe aquilo que não semeia... Conseguiremos a seara do serviço, conjugando os braços na ação que nos compete; conquistaremos a diligência, aplicando os olhos no dever a cumprir; obteremos a vigilância, empregando criteriosamente os ouvidos; entretanto, para que a harmonia permaneça entre nós, é forçoso pensar e falar acerca do próximo, como desejamos que o próximo pense e fale sobre nós mesmos...

E, ante o silêncio que pesava, profundo, o Mestre rematou:

- Irmãos, por amor aos fracos e aos aflitos, aos deserdados e aos tristes da Terra, que esperam por nós na luz do Reino de Deus, façamos a campanha da paz, começando pela caridade da língua.


Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Contos Desta e Doutra Vida

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domingo, 16 de agosto de 2026

Regressão de memória

Regressão de memória

Joanna de Ângelis


Imagem gerada por IA.

O esquecimento do passado constitui verdadeira misericórdia de Deus para com as Suas criaturas, porquanto faculta o recomeço em novo corpo sem a carga das lembranças tormentosas resultantes dos feitos negativos perpetrados em existências passadas. Outrossim, favorece com o olvido das atividades nobilitantes e dos afetos especiais que hão constituído emulação para o próprio progresso. 

A recordação das ocorrências danosas acarretaria, sem dúvida, uma alta carga de sofrimento derivado do remorso, que dificultaria o prosseguimento dos compromissos elevados. Em consequência, poderia tornar-se um motivo de desânimo gerador de estímulos prejudiciais para o abandono dos deveres ou o medo de enfrentamento dos novos desafios. Ademais, a lembrança detalhada de determinados fatos traria à memória a presença de compares igualmente comprometidos, ou pessoas outras vitimadas, ou ainda responsáveis pelo desar, assim aumentando a animosidade em relação a esses últimos.

Por outro lado, a revivescência dos momentos gloriosos, das afeições especiais se, de uma forma, pudesse transformar-se em emulação para a continuidade do esforço, faria correr o risco, de eleições especiais em detrimento de novas vinculações afetuosas, o que diminuiria o círculo de crescimento fraternal na busca da imensa família universal.

Merece ainda considerar-se que a carga das lembranças da existência atual constitui já um grave comprometimento. Caso se adicionassem aquelas que provêm de experiências transatas, por certo perturbariam o mecanismo homeostático ou de equilíbrio do indivíduo, em razão de não ser possível
suportar-se a soma de emoções que ultrapassam a capacidade de resistência fisiopsíquica.

O organismo humano é portador de um limite de energia própria para suportar emoções e sensações até certo ponto que, superado, se transforma em desajuste dos seus sutis equipamentos psíquicos, produzindo lesões irreversíveis. Por essa razão, muitos seres interexistentes, que convivem simultaneamente nas duas esferas da vida - a material e a espiritual - quando não são moralizados ou não conseguem harmonizar o comportamento com a estrutura psíquica, derrapam em alucinações, em distonias nervosas e mentais de difícil recuperação durante a existência.

O ser humano, apesar de ainda deter-se em faixa mais fisiológica do que psicológica, mais na sensação do que na emoção, já vem granjeando valores que lhe facultam liberar-se de algumas das constrições impostas pelos atos infelizes das reencarnações anteriores, que lhe pesam na economia íntima, gerando sofrimentos rudes, distonias afligentes e problemas outros na área dos relacionamentos interpessoais, dos conflitos sexuais, dos desafios econômicos e financeiros, levando-o a maiores descalabros quando não a fracassos muito perturbadores.

Tendo-se em vista que as Divinas Leis são de justiça, mas também de amor, cumpre que sejam restabelecidos os códigos de honra que foram desrespeitados e sejam recuperados os níveis de harmonia que os atos inditosos produziram.

A reparação dos erros é, por isso mesmo, inevitável, não sendo necessário de forma inexorável que essa recuperação se dê exclusivamente através do sofrimento.

Jesus lecionou que o amor cobre a multidão dos pecados, e, diante da mulher equivocada que lhe lavou os pés na casa de Simão, dominada pela ternura e pelo arrependimento da
existência insensata que se permitia, liberou-a de maiores sofrimentos, confortando-a com a sugestão dignificadora: - Por muito amares, teus pecados são-te perdoados!

Certamente não a liberou das consequências dos atos insanos, porque essas viriam naturalmente como resultado do mau uso do livre-arbítrio. Demonstrou-lhe que através do amor pode a criatura reabilitar-se de quaisquer ações nefandas que se haja facultado, desde que se empenhe na reabilitação, que é a grande meta de todo aquele que busca crescer e ser feliz.

Assim, desde os primórdios da fenomenologia mediúnica e parapsicológica os investigadores da psique humana detectaram que nos seus arquivos atuais se encontram os registros dos comportamentos passados que, de certo modo, estão a ditar-lhes novos procedimentos ou repetições de gravames que se insculpiram como agentes de perturbação.

Nos processos de ecmésia ou recordações espontâneas de vidas passadas, ou mesmo pelo concurso da hipnose, é possível reviver-se experiências esquecidas, por cuja contribuição se pode explicar um sem-número de ocorrências atuais.

Por outro lado, firmados nas infinitas possibilidades dos arquivos do inconsciente atual como do profundo, nobres psicanalistas encontraram nas ocorrências da vida perinatal a causalidade de muitos traumas, fobias, complexos de inferioridade e superioridade, narcisismo, perturbando a conduta dos seus pacientes. Através dos recursos hábeis para esse fim, vêm realizando incursões exitosas, graças às quais liberam muitos sofredores dos seus tormentosos estados d'alma, limpando-os das marcas neles gravadas.

Quando não encontrando essas causas de desajustes na fase atual nem na infância dos enfermos, foram estimulados a recuar a sonda da investigação e chegaram aos processos mais profundos dos registros, aos arquétipos coletivos, que nada mais são do que reminiscências de outras reencarnações, encontrando ali os fatores responsáveis pelos distúrbios que ora os inquietam.

Identificando as causas, trabalharam terapeuticamente nos seus efeitos e contribuíram para que muitos outros sofrimentos enigmáticos cedessem lugar à conscientização das mesmas, superando-as, através do repetir dos fatos, sob auxílio e orientação que demonstram já terem tido lugar e não mais deverem prosseguir emitindo ondas devastadoras sobre o psiquismo atual.

É claro que, em tais evocações sob hipnose ou indução mais suave, o paciente não recorda plenamente a reencarnação anterior, senão é orientado a encontrar o fator que detona o
problema e que nele mesmo se encontra ínsito.

A proposta desafiadora o inconsciente responde com as matrizes danosas, facultando a revivescência do mesmo e a
consequente liberação das suas cargas malévolas.

É claro que o assunto apenas está começando nessa área e muito se há de estudá-lo, a fim de bem penetrá-lo, evitando-se que novas recordações aumentem o somatório do que já existe no consciente, correndo-se o risco de produzir-se inarmonia homeostática.

Ademais, nem todos os pacientes que forem objeto de recordações por tal processo se liberarão dos efeitos danosos dos atos infelizes, isto porque se fazem necessárias a mudança de comportamento para melhor, a alteração dos planos mentais identificando deveres esquecidos ou novamente desrespeitados, que constituirão recurso reparador, libertação dos resultantes cármicos.

A conscientização da responsabilidade do ser humano perante a vida é-lhe a valiosíssima terapia para a conquista da saúde física e mental, sobretudo para a realização moral, cujos pródromos de atividade nem sempre feliz se encontram nos painéis da mente profunda, nos alicerces do inconsciente espiritual.

Qualquer incursão, no entanto, nesses domínios, sem orientação competente e especializada, destituída de objetivos nobres, animada por curiosidade ou frivolidade descabida, sempre resulta em desastre, isto é, em imprevisível sucesso muitas vezes de sabor amargo.

O ser humano é a medida de si mesmo. Autoconhecer-se, penetrando-se cada dia com o esforço para a identificação da sua realidade atual como passada, constitui o grande desafio que está aguardando resolução firme e dedicação contínua de cada qual.

Todo o investimento de amor e de interesse pela autoiluminação deve ser aplicado em favor do processo evolutivo, de forma que não cesse o anelo pelo crescimento interior, pela ampliação dos recursos ético-morais e intelectuais, produzindo sem cessar para o bem e para a vida, na qual irrefragavelmente se encontra incurso.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Dias Gloriosos

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sábado, 15 de agosto de 2026

Um coração renovado

Um coração renovado

Jésus Gonçalves


A noite de 7 de abril de 1955 integrou a semana com que a Cristandade rememorou a flagelação de Jesus. Em nosso Grupo foi mais Intensa a movimentação socorrista em favor dos sofredores desencarnados, dentre Os quais sobressaíram diversos irmãos hansenianos que, mesmo além da morte, revelavam dolorosas fixações mentais de revolta e amargura. Vários dos médiuns presentes foram veículos deles, convocando-nos ao argumento evangélico e à oração para o alívio que reclamavam.

Concluindo as nossas tarefas, no horário dedicado aos Instrutores Espirituais, os recursos psicofônicos do médium Xavier foram ocupados pelo poeta Jésus Gonçalves, desencarnado em Pirapitinguí, que também passou pela provação da lepra, cuja palavra nos trouxe amoroso esclarecimento.

Amigos.

Sou o vosso irmão Jésus Gonçalves, o leproso de Pirapitinguí, a quem o Espiritismo ofereceu nova visão da vida.

Agradeço-vos o concurso fraterno, em socorro dos irmãos hansenianos desencarnados.

Vieram conosco, entre a lamentação e a revolta, perturbados e oprimidos...

No mundo, receberam a chaga física por maldição, quando poderiam utilizá-la como porta salvadora, e, no mundo espiritual, experimentam os efeitos da rebeldia.

Trazem, ainda, na organização perispirítica, os remanescentes da enfermidade que os acabrunhava e, no íntimo, sofrem a indisciplina e a inconformação.

Graças a Jesus, porém, recolheram o benefício da calma, pelas sementes de renovação evangélica espalhadas em vossos estudos de hoje e esperamos possam imprimir, desde agora, novos rumos à própria transformação.

E, agora, peço permissão para orar convosco.

Nesta noite, em que toda a Cristandade se volta, reconhecida, para a memória do Mestre, sentimo-lo igualmente em seu derradeiro sacrifício e, mentalizando-O no madeiro, de alma genuflexa, trazemos a Ele, nosso Eterno Amigo e Divino Benfeitor, a nossa prece de leproso diante da cruz.

Em seguida a leve pausa, o Espírito Jésus Gonçalves modificou a inflexão de voz e, erguendo-se para o Alto, orou, em lágrimas, comovedoramente:

Senhor, eu que vivia em vãos clamores,
Vinha de longe em ânsias aguerridas,
Sob a trama infernal de horrendas lidas,
Entre largos caminhos tentadores.

Tronos, glórias, tiaras, esplendores
E cidades famélicas vencidas...
Tudo isso alcancei, de mãos erguidas
Aos gênios tenebrosos e opressores.

Mas, fatigado, enfim, de ser verdugo,
Roguei, chorando, a graça de teu jugo
E enviaste-me a lepra e a solidão.

E, confinado às dores que me deste,
Abriu-se-me a visão à luz celeste,
E achei-te, excelso, no meu coração.

*

Hoje, Mestre, ante a cruz em que te apagas,
Na compaixão que ajuda e renuncia,
Não te peço o banquete da alegria,
Embora o doce olhar com que me afagas.

Venho rogar-te a túnica das chagas
Para que eu volte à estrada escura e fria,
Em que os filhos da noite e da agonia
Sofrem ulcerações, bramindo pragas...

Dá-me, de novo, a lepra que redime,
Conservando-me a fé por dom sublime,
Agora que, contente, me prosterno!...

E que eu possa exaltar, por muitas vidas,
Sobre o lenho de angústias e feridas,
O teu reino de amor divino e eterno.

Jésus Gonçalves por Chico Xavier do livro:
Instruções Psicofônicas

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