Regressão de memória
Joanna de Ângelis
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.

"- Fora da caridade não há salvação." Allan Kardec

A noite de 7 de abril de 1955 integrou a semana com que a Cristandade rememorou a flagelação de Jesus. Em nosso Grupo foi mais Intensa a movimentação socorrista em favor dos sofredores desencarnados, dentre Os quais sobressaíram diversos irmãos hansenianos que, mesmo além da morte, revelavam dolorosas fixações mentais de revolta e amargura. Vários dos médiuns presentes foram veículos deles, convocando-nos ao argumento evangélico e à oração para o alívio que reclamavam.
Concluindo as nossas tarefas, no horário dedicado aos Instrutores Espirituais, os recursos psicofônicos do médium Xavier foram ocupados pelo poeta Jésus Gonçalves, desencarnado em Pirapitinguí, que também passou pela provação da lepra, cuja palavra nos trouxe amoroso esclarecimento.
Amigos.
Sou o vosso irmão Jésus Gonçalves, o leproso de Pirapitinguí, a quem o Espiritismo ofereceu nova visão da vida.
Agradeço-vos o concurso fraterno, em socorro dos irmãos hansenianos desencarnados.
Vieram conosco, entre a lamentação e a revolta, perturbados e oprimidos...
No mundo, receberam a chaga física por maldição, quando poderiam utilizá-la como porta salvadora, e, no mundo espiritual, experimentam os efeitos da rebeldia.
Trazem, ainda, na organização perispirítica, os remanescentes da enfermidade que os acabrunhava e, no íntimo, sofrem a indisciplina e a inconformação.
Graças a Jesus, porém, recolheram o benefício da calma, pelas sementes de renovação evangélica espalhadas em vossos estudos de hoje e esperamos possam imprimir, desde agora, novos rumos à própria transformação.
E, agora, peço permissão para orar convosco.
Nesta noite, em que toda a Cristandade se volta, reconhecida, para a memória do Mestre, sentimo-lo igualmente em seu derradeiro sacrifício e, mentalizando-O no madeiro, de alma genuflexa, trazemos a Ele, nosso Eterno Amigo e Divino Benfeitor, a nossa prece de leproso diante da cruz.
Em seguida a leve pausa, o Espírito Jésus Gonçalves modificou a inflexão de voz e, erguendo-se para o Alto, orou, em lágrimas, comovedoramente:
Joaquim estava em visita a familiares que residiam em cidade do interior fluminense. Espírita estudioso e idealista, apreciava travar contato com os confrades. Assim, tendo uma sobrinha por cicerone, foi visitar um centro localizado em bairro distante.
Saíram por volta das dezenove horas. Caminhada longa. Sessenta minutos. Quando chegaram a reunião estava no início. Aproximadamente quarenta pessoas num salão de regulares proporções. O dirigente limitou-se a lacônica oração. Em seguida convidou:
- Vamos passar à parte espiritual de nossos trabalhos. Os irmãos que desejarem exercitar a mediunidade queiram, por favor, aproximar-se.
Joaquim estranhou a ausência de estudo antes do intercâmbio com o Além, bem como a oferta indiscriminada. E se todos se julgassem aptos a participar?
Faltou pouco para isso. Pelo menos dois terços dos presentes tomaram assento junto à mesa enorme que dominava o ambiente.
- Meu Deus! - monologou o visitante por dentro. - Nem Kardec reuniu tantos médiuns num grupo tão pequeno! Se todos “funcionarem” a noite será curta!
Não deu outra. Tão desejosos de falar quanto os médiuns em transmitir, os Espíritos não permitiam trégua. Certamente constituíam multidão, a atropelar a disciplina, promovendo manifestações simultâneas sem nenhuma originalidade. Gemiam, choravam, confessavam, tanto quanto orientavam e aconselhavam, numa algaravia, uma confusão de vozes que pouco proveito oferecia.
Contavam com a omissão do dirigente, que raramente intervinha, e a passividade da assistência que parecia ver naquela miscelânea a exorcização de seus males. Somente assim se justificaria que permanecesse horas a fio acompanhando a rotina enfadonha de entidades que repetiam as mesmas banalidades e choravam as mesmas angústias.
Joaquim estava decepcionado. Aquelas manifestações eram numerosas demais, vazias demais, semelhantes demais, repetitivas demais, ressumbrando, vicioso animismo. Sua presença ali pareceu-lhe pura perda de tempo. Aliás, tempo também demais. Já passava das vinte e três horas. Sua sobrinha dormia recostada em seu ombro. Havia a longa caminhada de volta. Sair antes do encerramento pareceu-lhe indelicado. Então, resoluto, começou a orar mentalmente, pedindo o encerramento da reunião.
Aliviado, observou que em breves momentos cessaram as manifestações.
O dirigente ainda esperou alguns minutos. Vendo que nada mais acontecia, pronunciou a prece de agradecimento, dando por encerrados os trabalhos da noite. Em seguida, aproximou-se de Joaquim e lhe perguntou, incisivo, sem preâmbulos:
- O que fez?
-Eu?
- Só pode ter sido o senhor! É o único estranho!...
- Não estou compreendendo...
- A reunião! Terminou muito cedo!
- No meu entendimento prolongou-se bastante.
- Como conseguiu?
- Bem, não sei se tenho a ver com isso. Apenas solicitei providências aos amigos espirituais. É tarde e tenho uma longa caminhada pela frente.
- Mora aqui?
- Fique tranquilo. Sou do Rio. Regressarei amanhã.
- Não estou preocupado nem aborrecido. Ao contrário, gostei de sua atuação. Se morasse em nossa cidade poderia dirigir esta reunião. Certamente conseguiria abreviar nossa maratona.
- Maratona?
- ... Mediúnica. É o grande problema que enfrentamos. Não conseguimos entrar em acordo com os Espíritos. Nossos trabalhos estendem-se madrugada adentro. Não raro passamos a noite aqui. Iniciamos às vinte horas, mas só Deus sabe quando terminamos!
Em qualquer atividade, se pretendemos ser eficientes e produtivos, não podemos olvidar a disciplina, o estudo e o discernimento.
O exercício mediúnico parece situar-se como exceção para desavisados companheiros que desenvolvem o intercâmbio com o Além sem nenhuma noção a respeito do assunto.
Daí existirem agrupamentos mediúnicos onde os mentores espirituais não encontram acesso para um trabalho produtivo e edificante, com manifestações que se multiplicam muito além do razoável e aproveitamento muito aquém do desejável.
Você pede melhoras de saúde.
Antes, porém, socorra o enfermo em condições mais graves.
Você pede, em favor do seu filho.
Antes, porém, proteja a criança alheia em necessidade maior.
Você pede providência determinada.
Antes, porém, alivia a preocupação de outra pessoa, em prova mais contundente que a sua.
Você pede concurso fraterno contra a obsessão que o persegue.
Antes, porém, estenda as mãos ao obsidiado que sofre sem os recursos de que você já dispõe.
Você pede perdão pela falta cometida.
Antes, porém, desculpe incondicionalmente aqueles que lhe feriram o coração.
Você pede apoio à existência.
Antes, porem, seja consolo e refúgio para o irmão que chora em seu caminho.
Você pede felicidade.
Antes, porém, semeie nalgum gesto simples de amor a alegria do próximo.
Você pede solução a esse ou àquele problema.
Antes, porém, busque suprimir essa ou aquela pequenina dificuldade dos semelhantes.
Você pede cooperação.
Antes, porém, colabore a benefício dos que suam e gemem na retaguarda.
Você pede a assistência dos bons espíritos.
Antes, porém, seja você mesmo um espírito bom, ajudando aos outros.
Toda solicitação assemelha-se, de algum modo, à ordem de pagamento, que, para ser atendida, reclama crédito.
A casa não se equilibra sem alicerce.
Uma fonte ampara outra.
Se quisermos auxílio, aprendamos a auxiliar.