sábado, 18 de julho de 2026

Poder e política

Poder e política

Hammed


Imagem gerada por IA

(…)Os corpos melhorados, em se procriando, reproduziram-se nas mesmas condições, como ocorre com árvores enxertadas; deram nascimento a uma nova espécie que, pouco a pouco, distanciou-se do tipo primitivo, à medida que o Espírito progrediu.(…) (A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo / Allan Kardec.)
Existem ínfimas diferenças entre o DNA humano e o dos chimpanzés e bonobos; como somos todos primatas, há muito mais semelhanças do que diferenças, diz de Waal.

Destas últimas, ele assevera, as principais são a linguagem e a família nuclear.

Aptidões linguísticas estão ausentes neles, entretanto podem aprender alguns princípios da linguagem, como, por exemplo, expressar-se por meio de símbolos, mas não conseguem nada além do que uma criança pequenina pode realizar. Outra diferença básica é que não possuem uma estrutura familiar mais ampla como na espécie humana. Os machos não estão envolvidos com os cuidados familiares, pois quem toma conta da subsistência das crias são só as fêmeas.

Os chimpanzés disputam o território e as coalizões para eles são essenciais. Descreve o primatólogo que “nenhum macho pode dominar sozinho, pelo menos não por muito tempo, pois o grupo como um todo pode derrubar qualquer um.

(…) manter-se no topo é um exercício de equilíbrio entre expressar veementemente a dominância, mantendo os aliados satisfeitos evitando uma revolta em massa”.

Alguns membros do agrupamento buscam frutas e as “doam” para outros, com o intuito de serem escolhidos futuramente como líderes ou para conseguir o comando do grupo.

Se isso nos parece familiar é porque a política humana funciona exatamente da mesma forma.

Entre eles, é comum formarem aliança de amigos que se autoprotegem por toda a vida. Os mais altruístas ajudam doentes e idosos a se alimentarem. Eles também apresentam senso de justiça; por exemplo: se um chimpanzé se recusa a dividir seu alimento, o grupo o castiga, não o deixando chegar perto da comida numa próxima caçada.

Frans de Waal nos informa a respeito do relacionamento entre dois machos que disputam o poder. (Frans de Waal, Eu, Primata - Por Que Somos Como Somos, Companhia das Letras) Notou que o poderio é a alavanca motivadora dos chimpanzés machos; para eles o poder é um refinado afrodisíaco e que, além do mais, vicia. Os machos guardam ciumentamente seu cetro de comando e não se deixam amedrontar diante de ninguém que os possa afrontar.

A violenta batalha entre dois chimpanzés, o jovem Luit e o ancião Yeroen na luta pelo domínio, enquadra-se com perfeição na teoria psicológica da decepção-agressividade, ou seja, quanto maior for a frustração, maior será o ódio. Para Yeroen, além de tudo, aquela não fora a primeira peleja perdida para Luit. A ferocidade do ataque pode ter sido consequência do fato de ser a segunda vez que o velho macho perdera a liderança.

Na primeira vez em que Luit chegou ao topo da chefia, assinalando o fim do ancien régime (sistema político, econômico e social da monarquia francesa antes da revolução de 1789) – liderado por Yeroen –, relata de Waal que ficou abismado ante a reação deste chefe destronado, costumeiramente imponente e majestoso que, depois da derrota, ficou irreconhecível. Em meio à disputa acirrada, ele assemelhava-se a um fruto podre caído de uma árvore, debatia-se com gritos de cortar o coração, como uma criança que, durante os surtos de chilique, olha de esguelha para a mãe em busca de sinais de acolhimento.

Yeroen reparava em quem se aproximava dele, esperando sempre ser reconfortado pelo resto do grupo. Se o bando à sua volta fosse grande e poderoso, em especial se incluísse uma fêmea alfa, ele ganhava valentia instantânea. Contando com os defensores ao seu redor, ele reacendia o confronto com o rival. Os faniquitos de Yeroen eram, sem dúvida, mais um exemplo de hábil manipulação. O que mais fascinou o brilhante cientista foram os paralelos que fazia com a cena de apego infantil, observados com clareza em expressões como “agarrar-se ao poder” e “ser desmamado do poder”.

São pontes utilizadas pelo autor para caracterizar a natureza do poder. Destronado do seu pedestal, aquele macho manifestava a mesma reação de uma criança pequena, quando lhe tiramos a chupeta ou seu brinquedo favorito. Quando Yeroen percebeu finalmente que perdera a liderança, sentou-se desanimado fitando o vazio, com um olhar inexpressivo. Alheio à atividade social ao seu redor, recusou comida por semanas. De Waal chegou a pensar que o símio estivesse doente, mas o veterinário não encontrou problema algum. O antropoide era uma pálida sombra do chefão imponente que fora. Ao perder o mandato, ele perdeu a alegria de viver.

Encontramos na própria sociedade humana, em muitas ocasiões, transformações drásticas como essa acima descrita, notadas de modo claro em pessoas que perderam o status social ou o lugar de comando. Adotam uma postura completamente diferente daquela arrogância que exibiam antes. Ficam parecendo anos mais velhas, demonstram uma linguagem corporal lânguida, um estado de abatimento e uma grande fraqueza física e mental.

Em O Livro dos Espíritos, a Espiritualidade faz referência a uma primitividade que ela denomina de estado de natureza. E explica “(…) estado natural é a infância da Humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, e carregando em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não está destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem dele se liberta pelo progresso e pela civilização.” (*)

Muitos homens, porém, vivem até agora num estágio infantil trazido de sua ancestralidade, presos ainda a um “estado de natureza”, quase sem nenhum desenvolvimento intelectual e moral.

A necessidade de autoridade e de prestígio que encontramos em inúmeros homens, seja nos círculos religiosos, políticos, profissionais, seja nos esportivos, filantrópicos e outros tantos,
decorre de uma “aspiração de dominar” ou de um “sentimento alfa”, pois somos herdeiros biológicos/espirituais dos primatas das florestas de quem todos descendemos. Essa necessidade é proveniente, também, do complexo de inferioridade que desenvolveram em outras etapas existenciais. São mentalidades adquiridas em vidas pretéritas, ou mesmo na presente, na convivência com familiares egomaníacos e de baixa autoestima.

Há certas almas humanas, insaciáveis de atenção e controle, que precisam supor-se superiores para compensar a crença na sua suposta insignificância ou falta de sentido em que vivem.

Inferioridade, disputa e rivalidade formam um núcleo central em sua vida, cujo objetivo primordial é obter domínio sobre tudo e sobre todos.

Seria uma visão por inteiro equivocada e reducionista presumir que tais fenômenos humanos são apenas subprodutos de processos econômicos e sociais; muito pelo contrário, o desenvolvimento de tais complexos é ancestral e/ou primitivo e modela personalidades, tornando-as cada vez mais ávidas pelo domínio e controle sobre tudo o que existe. Alegar categoricamente que a busca do poder é sempre errada é tão incorreto quanto afirmar que está sempre certa. De modo que não há erro algum em buscar competição e disputa de poder, desde que essa busca não seja baseada em ameaça, chantagem e sedução, mas, sim, conquistada por mérito ou qualidades morais e/ou intelectuais.

Não existe problema algum em competir e concorrer, nem aspirar aos feitos das pessoas e/ou almejar por igual sucesso; a única falta ocorrerá se utilizarmos um modo destrutivo de competição e métodos de politicagem que produzam danos e efeitos negativos à sociedade.

Em muitos momentos, as criaturas tentam contrabalançar seu sentimento de inferioridade, abraçando modos de viver em que
superestimam ou exaltam a própria personalidade. Arrogância, porte megalomaníaco e ostentação desmedida fazem parte do séquito daqueles que possuem uma disputa pelo poder interiorizada de baixa autoestima.

Alma humana alguma é superior ou inferior a outra, e sim mais ou menos experiente do que outra. Se há algo que nos torna superiores é a nossa capacidade de amar e pensar, e nunca a de impor e decidir de modo arbitrário.

O apóstolo Lucas, no capítulo 22, versículo 46, de seu Evangelho, esclarece sobre as raízes das tentações: “(…) e disse-lhes: - Por que estais dormindo? Levantai, e orai, para que não entreis em tentação!”

A tentação do poder não é, de modo geral, um agente externo, praticado pelos maus espíritos, atraindo-nos para o desequilíbrio.

Nossos hábitos atávicos é que gritam no íntimo de nós mesmos, impulsionando-nos a perpetuar os costumes do poder desmedido e as viciações do comando. A tentação de subjugar sempre aparecerá enquanto estivermos no estado de sono, “dormindo”, quer dizer, invigilantes, displicentes, inconsequentes. Ninguém é tentado, se não trouxer a tentação dentro de si mesmo.

O poder seduz o ignorante, o cidadão despreparado e todos aqueles que caminham sem objetivo maior, mas querem, a qualquer preço, sentir-se importantes.

Hammed por Francisco do Espírito Santo Neto do livro:
Estamos Prontos
(*) Questão 776 (O Livro dos Espíritos - Allan Kardec) – O estado natural e a lei natural são a mesma coisa?
– Não, o estado natural é o estado primitivo. A civilização é incompatível com o estado natural, ao passo que a lei natural contribui para o progresso da Humanidade. O estado natural é a infância da Humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, e carregando em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não está destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem dele se liberta pelo progresso e pela civilização. A lei natural, ao contrário, rege a Humanidade inteira, e o homem se aperfeiçoa à medida que compreende melhor e pratica melhor essa lei.
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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Com você mesmo

Com você mesmo

André Luiz


Imagem gerada por IA

Meu amigo, você clama contra as dificuldades do mundo, mas será que você já pensou nas facilidades em suas mãos?

Observemos:

Você concorre, em tempo determinado, para exonerar-se da multa legal, com expressiva taxa de consumo de luz e força elétricas; todavia, a usina solar que lhe fornece claridade, calor e vida, nem é assinalada comumente pela sua memória...

Você salda, periodicamente, largas contas relativas ao gasto de água encanada; no entanto, nem se lembra da gratuidade da água das chuvas e das fontes a enriquecer-lhe os dias...

Você estipendia na feira, com apreciáveis somas, todo gênero alimentício que lhe atenda ao paladar; contudo, o oxigênio – elemento mais importante a sustentar-lhe o organismo – é utilizado em seu sangue sem pesar-lhe no orçamento com qualquer preocupação...

Você resgata com a loja novos débitos, cada vez que renova o guarda-roupa, e, apesar disso, nunca inventariou os bens que deve ao corpo de carne a resguardar-lhe o Espírito...

Você remunera o profissional especializado pela adaptação de um só dente artificial: entretanto, nada despendeu para obter a dentadura natural completa...

Você compra a drágea medicamentosa para leve dor de cabeça; todavia, recebe de graça a faculdade de articular, instante a instante, os mais complicados pensamentos...

Você gasta quantias inestimáveis para assistir a esse ou aquele espetáculo esportivo ou à exibição de um filme; contudo, guarda sem sacrifício algum a possibilidade de contemplar o solo cheio de flores e o Céu faiscante de estrelas...

Você paga para ouvir simples melodia de um conjunto orquestral; no entanto, ouve diariamente a divina musica da natureza, sem consumir vintém...

Você desembolsa importâncias enormes para adquirir passagens e indenizar hospedarias, sempre que se desloca de casa; não obstante, passa-lhe despercebido o prêmio vultoso que recebeu com o próprio ingresso na romagem terrestre...

Não desespere e nem se lastime...

Atendamos à realidade, compreendendo que a alegria e a esperança, expressando créditos infinitos de Deus, são os motivos básicos da vida a erguer-se, a cada momento, por sinfonia maravilhosa.

(Em referência a O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. V / Item 13.)

André Luiz do livro: O Espírito da Verdade 
de Chico Xavier e Waldo Vieira (Espíritos Diversos)

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Declaração de Origem

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Divisionismo e Espiritismo

Divisionismo e Espiritismo

C.M. (Hermínio C. Miranda)

1ª publicação de Hermínio C. Miranda na Revista Reformador em Dez 1956.



É comum encontrarmos pessoas bem dotadas de inteligência e espírito inquisitivo que experimentam dificuldade em aceitar fatos convincentes e comprovados. Ainda há pouco estive lendo um livro escrito por um desses homens inteligentes e de grande cultura humanística. Ele procurava demonstrar, a certa altura, que não existem raças inferiores e, por conseguinte, o mito da superioridade racial é outra tolice. Sua argumentação se desenvolve por páginas e mais páginas, citando, entre outros, o caso do grande negro americano George Washington Carver, que dedicou sua vida e sua inteligência a serviço da Humanidade, descobrindo, além de outras coisas, cerca de 300 aplicações diferentes para um simples produto da terra: o amendoim. Milhares de exemplos semelhantes poderiam ser citados, pois a História está cheia deles. Em nosso próprio país encontraremos figuras como a de Machado de Assis, de origem humílima, doentio, mas iluminado pela fulguração do gênio. Encontraremos José do Patrocínio, dono daquela inteligência magnífica, que tanto fez pelos homens de sua raça. E quantos outros? Nem todos usam seus talentos na direção inequívoca do bem, mas a grande maioria realiza, de um modo ou de outro, as coisas que estavam em seu poder e em sua compreensão realizar. Muitos argumentos poderão ser alinhados contra a teoria absurda e desumana da desigualdade racial.

O argumento máximo, porém, e irrespondível, é fornecido pela Doutrina Espírita. O corpo — branco, negro ou amarelo — é mera vestimenta designada por Deus. Os Espíritos não têm cor, nem nacionalidade, nem raça, nem mesmo religião, tomada no estreito sentido com que nos acostumamos a equacionar esse problema. Sua nacionalidade é universal, sua raça emana do tronco único, da única fonte criadora que é Deus. Sua religião, antes de ser católica, protestante, judaica ou budista, é o culto supremo de Deus, a prática permanente da caridade, o exercício constante do amor ao próximo. 

*

Muitas vezes temos ouvido que todas as religiões são boas e todos os caminhos levam a Deus. Há mais verdade nisso do que se pensa. Mas há também alguma incompreensão. Todos os caminhos, de fato, levam a Deus, porque Ele está sempre no horizonte, no ponto de convergência de nossas vidas. Para Ele caminhamos todos. Só que uns levam mais tempo que outros. Uns conseguem enxergar mais claro as veredas e atravessam logo o espaço que os separa de Deus. Outros se perdem na noite do pecado e do crime e vagueiam desorientados pelos atalhos. Levam muito mais tempo, mas, afinal de contas, que é a fração de tempo de nossas existências terrenas comparada com o maravilhoso desdobramento da eternidade?

Todos esses caminhos estão abertos à nossa frente. Nenhuma religião pode arvorar-se em proprietária absoluta da verdade. O proprietário da verdade é Deus, e Ele jamais cuidou de fundar religiões. Nem mesmo Jesus Cristo, seu enviado especial à Terra, preocupou-se em fundar mais uma religião. Basta ler com atenção seus ensinamentos. Que dizia ele?

Que não vinha destruir ou reformar a lei antiga. Vinha reforçá-la, vinha abrir os olhos dos povos, vinha reavivar nos corações embotados o senso da verdadeira religiosidade.

No fundo de seu ser, o homem anseia por Deus, como a mais forte de suas necessidades espirituais. Não é o homem que bate no peito e diz "Senhor, Senhor" que irá para a glória, dizia o Cristo, mas todo aquele que ouve a palavra de Deus. Quanto aos ritos e fórmulas cabalísticas, não lhes interessavam, porque ele sabia, na luminosidade de seu espírito, que os homens estavam dando mais importância às fórmulas que ao conteúdo de sua religiosidade.

Curar no sábado? Pecado, diziam os ortodoxos. Colher trigo no sábado? Sacrilégio, resmungavam os hipócritas. Mas a palavra de Jesus foi clara e continua clara, dois mil anos depois: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.

Essa frase ainda possui o mesmo significado hoje. As fórmulas não importam, o que importa é a legitimidade do sentimento cristão. Então, deixa-se morrer a criatura humana porque é pecado curar no sábado?

Ninguém vai para o céu ou para o inferno pelo simples fato de ter praticado esta religião em lugar daquela outra. Na verdade, as grandes religiões do mundo fundamentam-se em princípios gerais, como a prática do bem, a existência de um ente supremo, o aperfeiçoamento moral e espiritual. Se despojarmos as grandes religiões de suas fórmulas e de seu processamento exterior, veremos que, fundamentalmente, elas têm surpreendentes semelhanças. Um estudo mais profundo talvez revelasse que emanam todas da mesma fonte suprema, embora sob inspiração às vezes diversa.

O certo seria — e lá chegaremos um dia — que as religiões vivessem em coexistência harmoniosa, completando-se, trabalhando pelo objetivo comum, que é o aperfeiçoamento do Espírito e sua preparação para novos e mais altos desígnios. Há uma tremenda perda de energia nessas questúnculas e polêmicas teológicas e filosóficas. 

Em vez de se combaterem inutilmente, em pura perda de energia, deveriam unir-se contra inimigos comuns a todas as religiões: o crime, o erro, a dissolução social, os transviamentos políticos, a cegueira espiritual, o ateísmo. Esse sim é o objetivo das religiões autênticas, dignas do legado espiritual que receberam.

A diferença entre elas é mais aparente que real. O que as torna antagônicas, por vezes, não é a força que as inspirou e as estabeleceu no plano da Humanidade, mas os homens que vieram depois e se confundiram em interpretações contraditórias da mesma verdade eterna. Quiseram explicar o que já estava explicado e, em explicações de explicações, nos perdemos pelos caminhos. 

A verdade absoluta está certamente mais na singeleza poética dos Evangelhos que nos rótulos eventualmente adotados pelas diversas interpretações que se chamam religiões.

Até lá, continuemos nosso trabalho silencioso, despretensioso, sem a preocupação de sermos os únicos proprietários da verdade, porque, do outro lado da vida, sabemos que vamos encontrar junto ao trono de Deus todos os bons católicos, os bons judeus, os bons maometanos, os bons protestantes. Lá estarão também os que em sua passagem pela Terra tiveram peles brancas, pretas, amarelas ou mestiças. Todos os bons Espíritos, enfim, purificados e evoluídos na prática do bem.

A casa do Senhor tem muitas mansões, dizia o Mestre. Haverá, certamente, lugar para todos os que legitimamente aspirarem à glória e trabalharem para obtê-la.

C.M. (Hermínio C. Miranda)
Revista Reformador Dez. 1956
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Revista Reformador Dez. 1956

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Mediunidade nobre

Mediunidade nobre

Ignotus

Imagem gerada por IA

Tratava-se de uma sessão de clarividência e psicometria em respeitável Sociedade Espiritualista parisiense.

Sobre a mesa, diante da médium, respeitável senhora em cujo rosto sereno havia uma moldura de nobreza moral, encontravam-se fotografias, objetos de uso pessoal e pequenas bijuterias com o fim de facultar-lhe a percepção paranormal.

Havia uma expectativa compreensível, na sala repleta, onde minutos antes, outro médium, de procedência estrangeira, proferira palpitante conferência espírita que sensibilizara o auditório, ainda comovido, que o fora ouvir.

A médium, igualmente tocada, referiu-se à favorável psicosfera que pairava no ambiente, como decorrência das imagens mentais produzidas pelo orador que, reiteradas vezes, exaltara a vida e a obra de Allan Kardec, o missionário de Jesus, encarregado de Codificar o Espiritismo, trazendo de volta o Cristianismo sem jaça, liberado dos artifícios com que a ortodoxia religiosa o obumbrara através dos séculos.

Após agradecer a contribuição espiritual e doutrinária que o orador trouxera à assistência, deu início à sua tarefa.

Visivelmente inspirada, em transe parcial, no qual transparecia a interferência dos Espíritos sérios, a intermediária identificou e transmitiu mensagens de desencarnados aos seus familiares sob emoção crescente do público.

Passando à psicometria, tomou de vários pequenos objetos, descreveu os seus possuidores, referiu-se a problemas de saúde de alguns, deu conselhos morais.

Quando tocou um chaveiro, corou, subitamente, dilataram-se-lhe as pupilas e ela, com alguma veemência, invectivou o seu dono para que não levasse adiante o plano que ora arquitetava e dera início à sua execução. Convidou-o a mudança de comportamento em relação à pessoa, sua vítima em potencial, orientou-o.

Irritado, o consulente reagiu, fazendo-se agressivo.

A dama, porém, segura do dever que lhe dizia respeito, não se desequilibrou.

Na primeira oportunidade, no entanto, esclareceu:

— Dedico-me à mediunidade há muitos anos, por amor ao meu semelhante, sem dela fazer negócio de qualquer natureza. Trabalhei, na minha profissão anterior, por árduos anos, até aposentar-me, de modo a não necessitar de vender as minhas faculdades psíquicas. Por isso, sempre adotei o sistema de dizer o que é justo e não só o que agrada. Não brinco neste ministério, que considero grave e digno, nele investindo os meus melhores recursos, minhas reservas de energia e de abnegação.

Fez uma pausa, concatenando as ideias e concluiu, igualmente inspirada:

— O orador referiu-se que Allan Kardec nos convidou à razão, ao livre exame, à procura honesta, elucidando que “seria melhor desprezar nove entre dez verdades, a aceitar uma só mentira”. Porque não cobro dinheiro, com a obrigação de elogiar os pagantes, não temo orientá-los com os recursos da verdade, que logro constatar.

O público, anuindo, aplaudiu-a, enquanto ela prosseguiu, tranquila, no seu mister até a hora do encerramento.

Em qualquer lugar a verdade tem o seu lugar.

A verdade liberta e nunca se submete.

Para ser verdadeira, a mediunidade deve ser exercida com gratuidade, coerência e dignidade, sem o que se corrompe e se envilece.

A fim de alcançar esse desiderato, o conhecimento da Doutrina Espírita se lhe faz indispensável.

Ignotus por Divaldo Franco do livro:
Seara do Bem

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