sábado, 28 de fevereiro de 2026

Vinte anos depois...

Vinte anos depois...

Ignotus



O local não era dos mais apropriados. Salão de bailes acolhia habitualmente homens e mulheres sedentos de fruir sensações mais fortes. Aquela, porém, era uma noite especial. A frequência denotava outro tipo de necessidade. Era uma festa, todavia, espiritual. Ela o percebera à entrada. O movimento diversificava do habitual. Em tribuna improvisada, junto a ampla mesa, na qual se encontravam personalidades do lugar, assomou um moço, que explanou, por mais de uma hora, conceitos e lições que não estava acostumada. Sentiu-se atônita. Buscava o prazer abrasador e sentia-se atendida por aragens refazentes. Não compreendera tudo, e, todavia, percebia-se invadida por desconhecida alegria... Seguir a fila de pessoas que se congratulavam com o jovem. Entregou-se automaticamente. No curto momento, no diálogo ligeiro, desnudou-se, emocionada.

- Sou vendedora de ilusões – falou sem retoques, - Ouvindo a história da companheira de equívocos, tema central desta noite, sinto uma revelação diferente... Gostaria de conversar com o senhor, rogo-lhe ajuda, orientação...

- Conte com os nossos parcos recursos.

- Quando poderemos fazê-lo?

- Hoje... Logo mais, porquanto amanhã já não me encontrarei aqui.

- A esta hora?

- Por que não?

- Onde?

- Na residência em que me hospedo.

- Não serei recebida ali... Todos sabem quem sou...

- Se ali não houver lugar para você, positivamente, também, não haverá pra mim.

- Mas, eu sou...

- ... Uma irmã em busca da paz...

A conversa alongou-se, passando aquele momento, até a Alva, no lar fraterno que os recebeu. Concluída a entrevista, o evangelizador, orando, rogou ajuda para ela. Vinte anos depois, em outro Salão, agora, num Educandário na mesma cidade, o expositor espírita encerrava outra conferência.

- O senhor não se recordará de mim!

- Realmente.

- Eu sou a “vendedora de ilusões”, que há vinte anos atrás o escutou nesta cidade... “Encontrei Jesus naquela noite”... E após reflexionar:

- No dia imediato abandonei o local em que me hospedava e transferi residência para uma rua modesta, dando novo rumo à existência.

- Louvado seja Deus!

- Não é tudo. Antigo Companheiro informado da minha renovação buscou-me. Asseverou-se amar-me. Visitou-me com nobreza reiteradas vezes. Propôs-me matrimônio...

- Não lhe exijo amor – expôs -, rogo-lhe respeito e consideração.

Amar-me-á depois. Enxugou a face lavada pelo pranto.

- Consorciamo-nos – prosseguiu. – Face a impossibilidade de tornar-se mãe, resolvemos adotar uma criança cada dois anos, qual fosse nosso próprio filho. Já temos oito criaturas admiráveis em nosso lar... Venho agradecer-lhe a luz que acendeu no velador da minha alma.

- Agradeçamos ambos a Deus. Apresentou o esposo e os dois “filhos” mais velhos entre sorrisos e partiu. Orando em lágrimas, naquela noite o expositor, reconheceu ao Pai, o primeiro encontro há vinte anos atrás...

Ignotus por Divaldo Franco do livro:
Espelho Dalma

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Elucidando quatro questões de Direito Penal

Elucidando quatro questões
de Direito Penal

Emmanuel por Chico Xavier



QUATRO PERGUNTAS DE DIREITO PENAL

 E

QUATRO RESPOSTAS AVANÇADAS

Como a sociedade deve punir os delinquentes

PEDRO LEOPOLDO, 20/05/1935. (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – Entre as pessoas que vieram de Sete Lagoas para assistir à última sessão espírita na casa de José Cândido, estava, conforme dissemos em correspondência anterior, o senhor Geraldo Bhering, que advoga naquela cidade.

Após a reunião, cujos resultados já divulgamos, o jovem causídico, em palestra, no bar do Ponto, não escondeu sua impressão sobre a maneira pronta, precisa, mesmo feliz, como Chico Xavier respondera às nossas perguntas, no decorrer da sessão.

E não tardou que o Sr. Bhering demonstrasse o desejo de fazer também uma consulta ao “médium”, sobre questões enquadradas na esfera do Direito.

Formulam-se e discutem-se, então, várias perguntas que poderiam ser feitas, todas apanhadas do conjunto de problemas, leis e regras relativas às relações sociais.


A escolha

Afinal, a escolha recai sobre esta série de perguntas, grafadas ali mesmo pelo advogado:

– A sociedade tem o direito de punir aqueles que delinquem?

– A sociedade tem o direito de punir ou apenas o de se defender?

– A sociedade deve castigar o delinquente?

– O homem que delinque age livremente ou é determinado?


Como de costume

Cuida-se, então, de procurar o médium, embora já sejam cerca de 23 horas.

Chico Xavier é pouco depois encontrado, quando regressava da casa de José Cândido.

Como de hábito, acolhe, sem uma restrição, a consulta do advogado.

E, ainda como de hábito, promete encaminhá-la ao Além, num dos seus transes solitários, provavelmente naquela mesma noite, visto como, sessão, só a teríamos na próxima quarta-feira.

Um detalhe interessante: quando solicitado por um consulente, Chico Xavier não procura saber do gênero e número das perguntas. Acolhe-a todas, com a mesma singeleza e solicitude, e sem jamais manifestar qualquer interesse pecuniário.

Pelo contrário, através de declarações suas colhidas em ocasiões versas, compreende-se que ele consideraria ofensiva qualquer oferta daquele gênero, apesar de sua pobreza.


A sociedade nunca deve punir com a morte

Conforme a sua promessa fizera esperar, Chico Xavier psicografou, na mesma noite, as respostas à consulta do advogado. Deu-as o próprio “guia” Emmanuel, conforme passamos a expor.

– A sociedade tem o direito de punir aqueles que delinquem? – era a primeira pergunta.

Eis a resposta de Emmanuel:

– “Na primeira proposição, a sociedade é representada pelo Estado ou pelo conjunto das leis jurídicas personalizado na sua autoridade e, assim como o Estado prove a necessidade de quantos requerem a sua assistência prestada sem exigências de remuneração, tem o direito de punir o delinquente que lesou, com o seu crime, a segurança social, importando a pena no valor do prejuízo causado. Nunca deve punir com a morte, mas examinando atenciosamente as condições fisiológicas e psicológicas do criminoso, e considerando, ao exarar a sua sentença condenatória, que as aplicações do castigo constituem o problema relevante, por excelência, da criminologia.”


Castigar regenerando

A segunda e a terceira pergunta foram respondidas em conjunto.

– A sociedade tem o direito de punir ou apenas o de se defender?

– A sociedade deve castigar o delinquente?

“Considerando o direito dentro de todas as suas características e premido conciliá-lo com o Evangelho, somos de opinião que o Estado ou a sociedade deve defender-se mais e punir menos. A educação deve ser difundida em todas as suas modalidades, e as prisões, as penitenciárias, devem representar escolas, hospitais e oficinas, onde o delinquente, apesar de se conhecer coagido em sua liberdade, reconheça o seu direito de cidadão, digno da educação que ainda não tem e do trabalho, segundo as suas possibilidades individuais. A escola, a instrução e a assistência significam um fator preponderante na intangibilidade do Estado.

A sociedade pode, pois, castigar o delinquente, regenerando-o, beneficiando-o, buscando reintegrá-lo no respeito e na consideração de si mesmo.”


“Não aceitamos a existência do criminoso nato”

– O homem que delinque age livremente ou é determinado?

A essa última pergunta, o “guia” Emmanuel assim responde:

“A última proposição é de todas a mais transcendente e encerra um problema que tem ensandecido muitos cérebros. É que ela se enquadra na questão das provas e das expiações de cada indivíduo, a qual, por enquanto, é desconhecida pelas ciências jurídicas e está afeta ao plano espiritual.

Admitindo algo da nova escola penal inaugurada por Lombroso, não aceitamos a existência do criminoso nato. Atendendo-se a circunstâncias oriundas da educação e do meio ambiente, o criminoso age com pleno uso do seu livre-arbítrio. Sobre todos os atos da sua vida deve o homem observar o império da sua vontade e é pela educação desta que chegamos ao equilíbrio das coletividades. Indubitavelmente, devemos considerar as exceções nos casos de loucura “sine materia”, ou obsessões, segundo a verdade espírita, acima de qualquer juízo da justiça humana; mas as exceções não inutilizam as regras e insistimos na educação da vontade de cada um e na responsabilidade dela decorrente, única maneira de se conceber a Justiça Suma, que é a Justiça de Deus.”

Emmanuel por Chico Xavier do livro:
Notáveis Reportagens com Chico Xavier

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A Verdade e o dogma

A Verdade e o dogma

Vinícius (Pedro de Camargo)



O dogma da redenção humana mediante a efusão do sangue do Cristo, consistindo a sua morte no madeiro o epílogo da missão que lhe fora confiada, carece, como em geral sucede a todos os dogmas, de fundamento.

Para demonstrar a assertiva, é bastante compará-lo com a realidade, isto é, com o fato de Jesus nos haver dado a sua vida no sentido de consagrá-la à nossa emancipação espiritual, como fazem as mães com relação à criação e educação dos seus filhos.

O dogma em apreço prende-se a um sucedimento que se deu há perto de vinte séculos, do qual temos conhecimento através da tradição e dos relatos evangélicos. É um caso pretérito, longínquo, cujo eco histórico logrou chegar até nós.

O que se passa, porém, com a realidade da obra messiânica é um feito palpitante e de atualidade em todas as épocas da Humanidade, de vez que podemos senti-lo em nós, percebendo a sua influência em tudo que respeita à nossa evolução espiritual. Não o conhecemos por tradição, literatura escriturística ou testemunho das gerações passadas; sabemo-lo real e positivo em virtude do poder de transformação que a vida do Cristo está exercendo em nós. Não precisamos violentar a razão para que aceite o que não compreende e creia no que não sente. Não precisamos passar de alto e pela rama (1) por um problema de tanta relevância, podemos enfrentá-lo com desassombro, sujeitando-o ao cadinho do raciocínio e ao calor da meditação. Quanto mais o fizermos, tanto mais e melhor nos identificaremos com a sua realidade, firmando nossas convicções. Nenhuma dúvida haverá mais em nosso espírito criando incompatibilidades entre a razão e a fé, a inteligência e o sentimento. Nossa fé e nosso amor serão luminosos, dardejando rajadas de luz sobre o carreiro do destino que palmilhamos. Não creremos pelo testemunho de terceiros, mas pela nossa experiência pessoal. Abriremos mão das exterioridades, dos ritualismos e das querelas sectaristas que dividem e separam os homens, alimentando zelos e fomentando vaidades. Concentraremos nossa atenção sobre o que se passa, não fora, mas dentro de nós mesmos, no dealbar duma aurora que surge dos arcanos recônditos da nossa alma como energia propulsora do aperfeiçoamento intelectual e moral que em nós se vai processando. Cuidaremos então da nossa autoeducação, exemplificando, demonstrando em nós próprios, ao vivo, a obra de redenção que pode ser operada em cada indivíduo pelo Cordeiro de Deus, que, dessa maneira, realmente tira o pecado do mundo.

É assim que a Verdade, emancipando-nos do dogma, prossegue concedendo-nos, paulatina, mas progressivamente, a liberdade a que aspiramos desde todos os tempos sem jamais havê-la encontrado noutra fonte e por qualquer meio ou processo até então empregados.
(1) Pela rama: Superficialmente, sem se aprofundar. Ex: Só estudou o assunto pela rama, vai ter de estudar mais. - Dicionário Caldas Aulete.
Vinícius (Pedro de Camargo) do livro:
Na Seara do Mestre

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Nota: Pedro de Camargo, mais conhecido por Vinícius (pseudônimo que adotou e usou por mais de 50 anos), nasceu em Piracicaba (SP) em 7 de maio de 1878. Desde muito jovem abraçou com entusiasmo o Espiritismo, tendo fundado e dirigido em sua terra natal a instituição espírita “Fora da caridade não há salvação”. Por muitos anos presidiu também a “Sociedade de Cultura Artística”, na mesma cidade. Em 1938, mudou-se para a cidade de São Paulo, onde permaneceu até a sua desencarnação em 11 de outubro de 1966. A partir de 1949, desenvolveu, através do rádio, um programa evangélico de grande proveito para os espíritas. Teve participação destacada nos esforços em prol da unificação do Movimento Espírita Brasileiro que culminaria com a criação do Conselho Federativo Nacional (CFN). Colaborou por dezenas de anos com artigos que primavam pela essência altamente doutrinária e evangélica publicados em Reformador. (Trecho extraído do site da FEB)
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O Pensamento

 O Pensamento

Léon Denis



O pensamento é criador. Assim como o pensamento eterno projeta, ininterruptamente, no Espaço, os germens dos seres e dos mundos, também o do escritor, do orador, do poeta, do artista, faz brotar um incessante florescer de ideias, de obras, de concepções, que vão influenciar, impressionar, para o bem ou para o mal, segundo sua natureza, a imensa multidão humana.

É por isso que a missão dos operários do pensamento é, ao mesmo tempo, grande, perigosa e sagrada.

Grande e sagrada, pois o pensamento dissipa as sombras do caminho, resolve os enigmas da vida e traça a rota da Humanidade; é sua chama que aquece as almas e embeleza os desertos da existência. É, também, perigosa, porque seus efeitos são tão poderosos para a descida quanto para a ascensão.

Cedo ou tarde, todo produto do espírito retorna a seu autor com suas consequências, acarretando para este, segundo o caso, o sofrimento, um apequenar-se, uma privação de liberdade, ou, então, satisfações íntimas, uma dilatação, uma elevação de seu ser.

A vida presente é, como se sabe, um simples episódio de nossa longa história, um fragmento da longa cadeia que se desenrola, para todos, através da imensidão. E, constantemente, recaem sobre nós, em brumas ou em claridades, os resultados de nossas obras. A alma humana percorre seu caminho, envolta numa atmosfera radiosa ou sombria, povoada pelas criações de seu pensamento. E ali está, na vida do Espaço, sua glória ou sua vergonha.

*

Para dar ao pensamento toda sua força e sua amplitude, nada é mais eficaz que a pesquisa dos grandes problemas. Para bem exprimir, é preciso sentir intensamente; para apreciar as sensações elevadas e profundas, é necessário remontar à fonte de onde se originam toda vida, toda harmonia, toda beleza.

O que há de nobre e de elevado, no domínio da inteligência, emana de uma causa eterna, viva e pensante. Quanto maior é a impulsão do pensamento em direção a esta causa, mais alto ele paira, mais radiosas são, também, as claridades entrevistas, mais inebriantes as alegrias sentidas, mais poderosas as forças adquiridas, mais geniais as inspirações! Depois de cada voo, o pensamento retorna, vivificado, esclarecido, ao campo terrestre, para retomar a tarefa, através da qual continuará crescendo, pois é o trabalho que faz a inteligência, como é a inteligência que faz a beleza, o esplendor da obra concluída.

Ergue teu olhar, ó pensador, ó poeta! Lança teu grito de apelo, de aspiração, de prece! Diante do mar de múltiplos reflexos, à vista de brancos picos longínquos ou do infinito estrelado, nunca experimentaste estas horas de êxtase e de enlevo, em que a alma se sente mergulhada em um sonho divino, em que chega a inspiração, poderosa, como um relâmpago, rápido mensageiro do Céu à Terra?

Aguça teus ouvidos! Nunca ouviste, no fundo de teu ser, vibrarem estas vagas harmonias, estes rumores do mundo invisível, vozes da sombra que embalam teu pensamento e o preparam para as intuições supremas?

Em todo poeta, artista, escritor, há germens de mediunidade, inconscientes, insuspeitos, e que só querem eclodir; por eles, o operário do pensamento entra em relação com a fonte inesgotável e recebe sua parcela de revelação. Esta revelação de estética apropriada à sua natureza, a seu gênero de talento, ele tem por missão exprimi-la em obras que farão penetrar, na alma das multidões, uma vibração das forças divinas, uma radiação das verdades eternas.

É na comunhão frequente e consciente com o mundo dos espíritos que os gênios do futuro haurirão os elementos de suas obras. Desde já, a penetração nos segredos de sua dupla vida vem oferecer ao homem os auxílios e os esclarecimentos que as religiões decadentes não lhe poderiam proporcionar. Em todos os domínios, a ideia espírita vai fecundar o pensamento atuante.

A Ciência ficará devendo a ela uma renovação completa de suas teorias e de seus métodos. Ficar-lhe-á devendo a descoberta de forças incalculáveis e a conquista do universo oculto. Com ela, a Filosofia adquirirá um conhecimento mais extenso e mais preciso da personalidade humana. Esta, no transe e na exteriorização, é como uma cripta que se abre, repleta de coisas estranhas, e onde se esconde a chave do mistério do ser.

As religiões do futuro encontrarão, no Espiritismo, as provas da sobrevivência e as regras da vida no Além, ao mesmo tempo que o princípio de uma união estreita das duas humanidades, visível e invisível, em sua ascensão para o Pai comum. A arte, sob todas as suas formas, nele descobrirá fontes inesgotáveis de inspiração e de emoção.

O homem do povo, nas horas de cansaço, nele encontrará a coragem moral. Compreenderá que a alma pode crescer, tanto pelo labor humilde, quanto pela obra altiva, e que nenhum dever é desprezível; que a inveja é irmã do ódio e que, com frequência, somos menos felizes no luxo do que na mediocridade. Nele, o poderoso aprenderá bondade, com o sentimento desta solidariedade que nos liga a todos, através de nossas vidas, e pode constranger-nos a voltar pequenos, para adquirir as virtudes modestas.

O cético nele encontrará a fé; o desencorajado, as grandes esperanças e as resoluções enérgicas. Todos os que sofrem encontrarão a ideia profunda de que uma lei de justiça preside a todas as coisas; de que, no que quer que seja, não há efeito sem causa, parto sem dor, vitória sem combate, triunfo sem rudes esforços, mas que, acima de tudo, reina uma perfeita e majestosa sanção, e de que nenhum ser é abandonado por Deus, sendo dele uma parcela.

Assim, lentamente, operar-se-á a renovação da Humanidade, ainda tão jovem, tão desconhecedora de si mesma, mas, cujo desejo se orienta, pouco a pouco, na direção da compreensão de sua tarefa e de seu objetivo, ao mesmo tempo que se amplia seu campo de exploração e a perspectiva de um porvir infinito. E, em breve, ei-la que avança, mais consciente de si mesma e de sua força, consciente de sua magnífica destinação. A cada etapa vencida, vendo e querendo mais, sentindo brilhar e avivar-se o foco que traz em si, vê, também, recuarem as trevas, os sombrios enigmas do mundo se desmantelarem e serem resolvidos e o caminho ser iluminado por um poderoso raio de luz. Com as sombras, pouco a pouco, vão-se desfazendo os preconceitos, os temores infundados; as contradições aparentes do Universo se dissipam e, em tudo, se faz a harmonia. Então, a confiança e o entusiasmo penetram nessas almas; o homem sente que seu pensamento e seu coração se expandem. E, novamente, ele avança, na estrada dos tempos, em direção ao termo de sua obra; sua obra, porém, não tem fim. Cada vez que a Humanidade se empenha por um novo ideal, acredita ter atingido o ideal supremo, embora, na realidade, só tenha conquistado a crença ou o sistema correspondentes a seu grau de evolução. Mas, também, cada vez que, de seus avanços e de seus sucessos, decorrem-lhe prazeres e forças novas e ela encontra a recompensa de seus labores e de suas angústias no próprio trabalho, na alegria de viver e progredir, que é a lei dos seres, em uma comunhão mais íntima com o Universo, na conquista, um pouco mais completa, do Bem e do Belo.

*

Ó escritores, ó artistas, ó poetas! Vós, que sois mais numerosos a cada dia; vós, cujas produções se multiplicam e crescem, como uma onda que se eleva, produções muitas vezes belas, na forma, mas fracas, no fundo, superficiais e materiais, quanto talento não despendeis por causas medíocres! Quantos esforços desperdiçados ou postos a serviço de paixões doentias, de volúpias inferiores e interesses vis!

Enquanto vastos e magníficos horizontes se desdobram, enquanto o livro maravilhoso do Universo e da alma se abre, grandioso, diante de vós e enquanto o gênio do pensamento vos convida para nobres tarefas, para obras cheias de substância, fecundas para o adiantamento da Humanidade, frequentemente, vós vos comprazeis em pueris e estéreis estudos em que a consciência se debilita, a inteligência se prostra e se enlanguesce, no culto exagerado dos sentidos e dos instintos impuros.

Quem de vós vai narrar a epopeia da alma, lutando pela conquista de seus destinos, no ciclo imenso das eras e dos mundos; suas dores e suas alegrias, suas quedas e seus reerguimentos, a descida aos abismos da vida, os voos em direção à luz, os sacrifícios, os holocaustos que são um resgate, as missões redentoras, a participação crescente das concepções divinas?

Quem descreverá, ainda, as poderosas harmonias do Universo, harpa gigantesca que vibra ao pensamento de Deus; o canto dos mundos; o ritmo eterno que embala a gênese dos astros e das humanidades?

Ou, ainda, a lenta elaboração, a dolorosa gestação da consciência, através dos estágios inferiores, a construção laboriosa de uma individualidade, de um ser moral? Quem relatará a conquista da vida, sempre mais plena, mais abrangente, mais serena, mais esclarecida pelos fachos de luz do Alto, a marcha, de topo em topo, em busca da felicidade, da força e do puro amor? Quem cantará a obra do homem, lutador imortal, erguendo, através de suas dúvidas, suas dilacerações, suas angústias e suas lágrimas, o edifício harmônico e sublime de sua personalidade pensante e consciente? Sempre avante, sempre mais longe, sempre mais Alto!

Vão responder: Não sabemos! E perguntam: Quem nos ensinará tais coisas?

Quem? As vozes interiores e as vozes do Além! Aprendei a abrir, a folhear e a ler o livro oculto em vós, o livro das metamorfoses do ser. Ele vos dirá o que fostes e o que sereis. Ensinar-vos-á o maior dos mistérios, a criação do eu, pelo esforço constante, pela ação soberana que, no pensamento silencioso, faz germinar a obra e, segundo vossas aptidões, vosso tipo de talento, far-vos-á pintar as mais belas telas, esculpir as formas mais ideais, compor as sinfonias mais harmoniosas, escrever as mais belas páginas, criar os mais belos poemas.

Tudo aí está, em vós, em torno de vós! Tudo fala, tudo vibra, o visível e o invisível, tudo canta e celebra a glória de viver, o enlevo de pensar, de criar, de associar-se à obra universal. Esplendores dos mares e do céu estrelado, majestade dos cimos, perfumes das flores, eflúvios e raios, ruídos misteriosos das florestas, melodias da Terra e do Espaço, vozes do invisível que falam no silêncio da noite, voz da consciência, eco da voz divina, tudo é ensinamento e revelação para quem sabe ver, escutar, compreender, pensar, agir!

Depois, acima de tudo, a Visão suprema, a visão sem formas, o Pensamento incriado, verdade total, harmonia final das essências e das leis, que, do fundo de nosso ser até a mais longínqua estrela, reúne tudo e todos em sua unidade resplandecente.

E a corrente de vida, que se escalona e se desenrola no Infinito, graduação das potências espirituais que conduzem a Deus os apelos do homem, através da prece, e, ao homem, a resposta de Deus, através da inspiração.

E agora, uma última questão. Por que, em meio ao imenso labor e à abundante produção intelectual que caracterizam nossa época, encontram-se tão poucas obras fortes e concepções geniais? Porque deixamos de ver as coisas divinas com os olhos da alma! Porque deixamos de crer e de amar!

Remontemos, então, às fontes celestes e eternas: é o único remédio para nossa anemia moral. Voltemos nosso pensamento para as coisas solenes e profundas. Que a Ciência se esclareça e se complete com as intuições da consciência e as faculdades superiores do espírito. Para tanto, o espiritualismo moderno nos ajudará.

Léon Denis
O Problema do Ser, do  Destino e da Dor
Terceira parte - As potências da Alma - Cap. XXIII

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