domingo, 23 de agosto de 2026

Desapego

Desapego

Hammed


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A mente apegada a fatos, acontecimentos e pessoas é incapaz de perceber a sua essência. Aquele que está agarrado ao "ego" está vazio do "sagrado"; aquele que se liberta do "ego" descobre que sempre esteve repleto do "sagrado".

"Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?" (Mateus 16:24 a 26)
Quando alguém passa silenciosamente por um desfiladeiro, percebe o sussurrar de sons distintos que repercutem através dos ventos nas pedras e árvores — são manifestações dos "ecos da Natureza" daquele lugar. A criatura que interioriza e aquieta a mente, silenciando sua intimidade, faz com que seu reino interior assemelhe-se a um "sereno desfiladeiro", de onde surgem as mensagens inarticuladas da alma — são manifestações dos "ecos transcendentais" do Universo.
Nesse "estado interior", onde impera a quietude e a tranquilidade, o indivíduo tem um encontro consigo mesmo, com sua mais pura essência — o Espírito. Na presença da inquietação e dos inúmeros anseios, a mente apegada bloqueia a fonte sapiencial e polui a via de acesso pela qual se ausculta a Fonte da Excelsa Sabedoria. As pessoas do mundo estão distraídas entre os eventos do passado e os do presente, plenas de desejos pessoais que turvam e contagiam sua visão cósmica; isso as impede de expandir e expressar, de forma espontânea e natural, sua religiosidade nata. Uma vez "perdido" o Espírito, as pessoas, embora vivas, estão como mortas.
"De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?"
"Pois aquele que quiser salvar a sua vida (apegar-se ao ego), vai perdê-la (perder de vista o Si-mesmo), mas o que perder a sua vida (desapegar-se do ego) por causa de mim, vai encontrá-la (integrar-se ao Si-mesmo)".
Devemos quebrar todos os grilhões e expulsar as mil vozes que enxameiam nossa casa mental. Assim, ficaremos limpos e desnudos, livres e despojados, libertos de tudo. Então, haverá naturalmente, nesse "desfiladeiro interno", o reverberar de algo essencial, antes oculto mas agora presente, em que se percebem com clara nitidez seus recursos infinitos e sua capacidade de despertar potenciais inatos.
Recolhemos da antiga sabedoria oriental este trecho que bem ilustra a nossa ideia sobre desapego e serenidade interior:
"Quando o vento chega e oscila o bambu, o bambu não guarda o som depois que o vento passou. Quando os gansos atravessam o lago, o lago não conserva seus reflexos depois que eles se foram. Da mesma maneira, a mente das pessoas iluminadas está presente quando ocorrem os acontecimentos e se esvazia quando os acontecimentos terminam".
"(...) a doutrina da reencarnação (...) aumenta os deveres da fraternidade, visto que, entre os vizinhos ou entre os servidores, pode se encontrar um Espírito que esteve ligado a vós pelos laços consanguíneos." (*).
Quando temos algo querido ou pensamos ter a posse de alguém que muito amamos, sofremos ao nos separarmos dele. O ciúme é o resultado do apego (medo de perder). É preciso perceber a diferença entre o "amor real" e a "relação simbiótica", ou mesmo o "apego familiar". A realização espiritual não está em nos apegarmos egoisticamente aos entes queridos, e sim nos interagirmos fraternalmente uns com os outros.
"Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me."
"Negar-se a si mesmo" é ultrapassar a transitoriedade do mundo visível e penetrar na essência oculta das criações e criaturas. É desapegar-se verdadeiramente e viver na integridade da vida; não querer perpetuar o "ego".
"Tomar a sua cruz" é reconhecer que este momento vai se desvanecer e não se perpetuará. É perceber os difíceis dilemas mentais pelos quais passamos, o que nos permitirá transitar íntegos na via de mão dupla por onde se move, de um lado, a busca imediatista do "ego" e, do outro, a inspiração da infinita Sabedoria Divina.
O desapego nos leva a desenvolver um amplo senso de liberdade e de confiança em nós mesmos. Nosso calabouço reside em nossos mais íntimos atos e atitudes. Prendemo-nos nos grilhões de nossa própria criação mental, e fazemos o mesmo com aqueles que amamos.
A mente apegada a fatos, acontecimentos e pessoas é incapaz de perceber a sua essência. Aquele que está agarrado ao "ego" está vazio do "sagrado"; aquele que se liberta do "ego" descobre que sempre esteve repleto do "sagrado".
A mente serena, tranquila e desapegada é a "porta estreita". O indivíduo desapegado participa com a família e com toda a comunidade de um relacionamento saudável e espontâneo. Não vive atado aos vínculos doentios da "ansiedade de separação", pois crê plenamente que a lei das vidas sucessivas não destrói os laços da afetividade, antes os estende a um número cada vez maior de pessoas e também por toda a humanidade.
Hammed por Francisco do Espírito Santo Neto do livro:
Os prazeres da alma
(*) Questão 205 (O Livro dos Espíritos) — Na opinião de certas pessoas, a doutrina da reencarnação parece destruir os laços de família fazendo-os remontar às existências anteriores. "Ela os estende, mas não os destrói. A parentela, estando baseada sobre as afeições anteriores, os laços que unem os membros de uma família são menos precários. Ela aumenta os deveres da fraternidade, visto que, entre os vizinhos ou entre os servidores, pode se encontrar um Espírito que esteve ligado a vós pelos laços consanguíneos."

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sábado, 22 de agosto de 2026

O valor da oração

O valor da oração

Miramez


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“Portanto, vós orareis assim: — Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome” (Mateus 6:9). 
Pelo que disse Jesus, a oração não pode ser motivada pela vaidade. Representando uma linguagem do homem ao Criador, a oração deve ser revestida de toda humildade e boa vontade, visando aprender para servir.
No ato de orar, um dos mais sagrados da vida, o Pai espera dos filhos os cuidados correspondentes aos seus valores. “Entra para o teu aposento, fecha a porta e ora a teu Pai, que vê em segredo”. Não em longas e barulhentas orações em praças públicas, para chamar a atenção dos que passam por vaidade. Essa prece não passa dos lábios e, no fundo, trata-se de simples pedidos interesseiros, a exemplo das dádivas estridentes colocadas no gazofilácio, sem nenhuma participação do sentimento. Assim ocorre com as orações por vaidade.
O ato de orar constitui uma permuta de valores, da vida com vidas, de irmão com irmãos, do filho com Deus; mas eis que isso se processa por conta da lei, da justiça e da misericórdia. Todavia, o homem é mais ou menos consciente da bondade do Criador, mormente quando se encontra em estado de graça, em pleno fervor da oração.
Ao nos sentarmos em torno de uma mesa na hora do repasto, alimentamos o corpo; ao entrarmos em nosso aposento, fechando a porta e orando ao Pai em segredo, estamos alimentando a alma. Nem corpo nem alma alcançam a felicidade sem esses indispensáveis atos de alegria e humildade, de reconhecimento a Deus. A oração tem longa e porfiada viagem, começando no trabalho rude de cada dia e terminando no êxtase de fusão da alma com o Senhor.
Alguns dirão que Deus é Pai e onisciente, conhece todas as nossas necessidades e, por isso, nada precisamos pedir-lhe. Estão, em parte, certos, mas a vontade Divina espera, por lei, o espaço de cada um no sentido de suprir suas necessidades. Coloca a água nas fontes, mas os homens, para saciar a sede, terão que buscá-la. Espraia os raios solares com uma temperatura que um ser encarnado não suportaria parado o dia todo em um só lugar; mas este, movendo-se, suporta e se beneficia.
Guardou Deus, no seio da terra, todos os elementos indispensáveis ao bem-estar da humanidade, esperando que esta se movimente e descubra condições para o conforto próprio, obedecendo à lei de esforçar-se para viver melhor. São os rudimentos da verdadeira prece; é o “batei, e abrir-se-vos-á”; é o “pedi, e dar-se-vos-á”; é o “buscai, e achareis”. A lei soberana de Deus rege todos os quadrantes da vida, dando a cada um segundo o seu merecimento. Não há perda das aquisições nem desvios da justiça. As leis nunca foram burladas, mas sim dirigidas por um amor que jamais foi insensível aos corações que sofrem.
A sinfonia da vida universal é uma eterna oração: A vida se esvai sem ter condições de exigir algo em troca do seu sacrifício. Mas a lei não a abandona e lhe dará, no futuro, uma evolução superior. A árvore se desfaz até o pó; o animal é arrastado ao sacrifício pelo sustento dos homens. Mas o amanhã lhe reserva o amparo da justiça.
E o homem, que tem superioridade sobre todas as coisas do mundo, não deve buscar a humildade, a resignação e a esperança? Deve, sim. E, avantajando-se aos outros reinos, passo a passo, há de chegar à plenitude da caridade, que sempre se confunde com a ciência da oração. Portanto vós orareis assim:
— Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome.
Miramez por João Nunes Maia do livro:
Alguns Ângulos dos Ensinamentos do Mestre

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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O mancebo rico

O mancebo rico

Irmão X.


Imagem gerada por IA.

Diante do assunto, que se referia ao congraçamento de grupos religiosos, o ponderoso Simão, sábio israelita desencarnado, considerou, sorridente:

- Semelhantes problemas já vicejavam em torno do próprio Cristo...

E, à vista da curiosidade geral, o ancião relatou:

- Efraim, filho de Bunan, era um chefe prestigioso dos fariseus, considerado cabeça dos hilelitas(*), que, ao tempo do Senhor, eram francamente mais liberais e mais instruídos que os partidários do Rabi Schammai, fanáticos e formalistas. Judeu profundamente culto, Efraim, aos quarenta de idade, já se fizera autoridade máxima dos herdeiros espirituais de Hilel, o admirável doutor das Sete Regras... Excessivamente rico, dispunha não somente de valiosas terras cultivadas e de formoso palácio residencial em Jericó, onde sustentava largo prestígio, mas também de casas diversas em Jerusalém, vinhedos e campos de cevada, rebanhos e negócios importantes na Síria. Entretanto, não era só isso. Era o depositário dos recursos amoedados de companheiros numerosos. Todo fariseu hilelita que se lhe vinculasse à amizade, hipotecava-lhe confiança e, com isso, os próprios bens. Transformara-se-lhe a fortuna pessoal, desse modo, em extensa formação bancária, recolhendo depósitos vultosos e pagando juros compensadores. No centro da organização, cujos interesses financeiros se expandiam, constantes, era ele, embora relativamente moço, um oráculo e um amigo...

O narrador fez longa pausa, como se nos quisesse monopolizar as atenções, e prosseguiu:

- Devotado leitor da Mischna e apaixonado pelas doutrinas do antigo orientador que tudo fizera por desentranhar o espírito da letra, na interpretação das Escrituras, Efraim ouviu, com imensa simpatia, as notícias do Reino de Deus, de que Jesus se revelava portador. Assinalando o ódio gratuito com que os fariseus rigorosos investiam contra o Mestre, mais se lhe exacerbou o desejo de um contacto direto. O Mestre nazareno falava de amor, concórdia, humildade, tolerância. Operava maravilhas. Trazia sinais do Céu, no alívio ao sofrimento humano. Não seria ele, Jesus, o mensageiro da suprema união? Desde muito jovem, sonhava Efraim com a aliança de todas as crenças do povo de Israel. Mantinha habitualmente conversações pacíficas com saduceus amigos, bem colocados no Sinédrio, buscando a suspirada conciliação, sem resultados. De entendimento seguro com os schammaitas, desistira. Fatigara-se de intrigas e sarcasmos. Diligenciara colher os pontos de vista dos nazarenos e samaritanos, conhecidos por opiniões menos estreitas, ouvira compatrícios mentalmente marcados pelas inovações de credos estrangeiros, quais os que se mostravam em ativa correspondência com a Grécia e com o Egito, mas tudo debalde... Controvérsias entrechocavam-se, quais farpas afogueadas, incentivando perseguições... Demandara retiro deleitoso de essênios, em cuja intimidade repousara, durante alguns dias, anotando, encantado, várias referências, em derredor dos ensinamentos do Cristo; no entanto, mesmo aí, no seio da coletividade consagrada à comunhão de bens, no serviço da agricultura, encontrara antagonistas intransigentes, que não vacilavam no escárnio sobre os profitentes, de outras convicções... A pouco e pouco, amadureceu o projeto de ir em pessoas ao encontro de Jesus, o fascinante condutor de multidões, a fim de expor-lhe o magnífico projeto. Reunir, enfim, os descendentes das doze tribos, eliminar para sempre as discussões e estabelecer a solidariedade real... Assim pensando, ao sabe-lo em atividade, além do Jordão, Efraim arrancou-se do lar, tentando surpreende-lo.

Após algum tempo, achou-o entre homens cansados e tristes e, ao fita-lo, enterneceu-se-lhe o coração... Como que tocado de luz invisível, olhou para si mesmo e envergonhou-se das joias que trazia, conquanto adotasse, naquela hora, a indumentária que lhe era comumente mais simples. Tomando de funda emotividade, receava agora a almejada entrevista. Sentia-se inibido, pequeno de espírito. Sofreava, a custo, as próprias lágrimas... Sim, concluía consigo mesmo, dirigir-se-ia ao Mestre das Boas Novas, na feição de aprendiz, ocultarias a própria grandeza individual... Magnetizado, por fim, pelo sereno olhar de Jesus, dirigiu-se até ele e perguntou:

- Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Fugindo à lisonja, respondeu o Cristo:

- Porque me chamas bom? Não há bom senão um que é Deus. Mas, se queres entrar na vida eterna, guarda os mandamentos.

- Quais? – tornou Efraim, preocupado.

E Jesus enumerou alguns dos antigos preceitos de Moisés:

- Amarás a Deus sobre todas as coisas; não matarás; não cometerás adultério; não furtarás; não pronunciarás falso testemunho; honrarás teus pais; amarás o próximo como a ti mesmo...

Efraim, que não se esquecia da própria condição de príncipe da cultura e da finanças farisaicas, ajuntou, sorrindo:

- Tudo isso tenho observado desde a minha juventude.

O Mestre, no entanto, fixou nele os olhos lúcidos, como a desvendar-lhe o âmago da alma, e considerou:

- Algo te falta, ainda... Se queres aperfeiçoar-te, vai, vende tudo o que tens, tudo entregando aos pobres, e terás um tesouro nos Céus ... Feito isso, vem e segue-me.

O poderoso dirigente dos fariseus, contudo, ao ouvir essas palavras, recordou subitamente as enormes riquezas que possuía e retirou-se muito triste...

Veridiano, um amigo que nos partilhava os estudos, indagou, logo que o relator deu a narrativa por terminada:

- Não será essa a história do mancebo rico, mencionada no Evangelho?

Simão esboçou largo sorriso e informou:

- Sem mais, nem menos...

E assinalando-nos a surpresa, concluiu, sem que nos fosse possível aduzir, depois, qualquer comentário:

- A fusão dos agrupamentos religiosos no mundo é assunto muito velho. É aconselhada com ardor, aqui e ali; entretanto, quando se fala em esvaziar a bolsa, em favor dos necessitados, para que o amor puro garanta a construção do Reino de Deus, nas forças do espírito, quase todos os patronos da apregoada união se afastam muito tristes...

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Contos Desta e Doutra Vida

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(*) Hilelita: - Escola de pensamento judaico inspirada pelo sábio Hilel.

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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Democracia

Democracia

Joaquim Nabuco


Imagem gerada por IA.

No célebre tratado Politiká, Aristóteles, estudando as diferentes formas de governo nos Estados gregos, afirma que poderiam ser classificados em três distintos grupos, a saber: Monarquia, Aristocracia e Democracia, sendo que, esta última quando degenera, faculta o surgimento dos fenômenos da tirania, da oligarquia e da demagogia.

A Política, desse modo, é a ciência e a arte através das quais se governam os homens de forma legítima, regulando as relações que se estabelecem entre os mesmos.

O pensamento de Aristóteles foi o mais robusto da História, chegando à Idade Média de maneira preponderante na concepção escolástica. Logo depois, em razão do Renascimento e do surgimento dos novos Estados europeus, Maquiavel passou a exercer uma grande influência no desenvolvimento das atividades políticas.

Posteriormente, homens admiráveis como Hobbes, Espinosa e Locke ampliaram os conceitos a respeito das teorias políticas, facultando a Montesquieu estabelecer relações entre as instituições políticas e o ambiente físico. Com Rousseau e Kant surgiram os pródromos da ética política, encaminhando o pensamento para a razão. Com Hegel se iniciou a filosofia do Estado, que iria estimular Marx e Engels a formularem o conceito do materialismo histórico, que prevê o desenvolvimento da História, no qual há sempre algo que cresce trazendo no seu bojo o germe da própria morte, sendo o fenômeno econômico preponderante em toda a sua edificação. No presente, a política apresenta uma conceituação apriorística e subjetivista, um permanente vir a ser...

Essa ciência e arte, no entanto, ainda não encontrou o devido respeito por grande parte daqueles que se alimentam da sua estrutura - alguns políticos - que se embrenham pelos complexos caminhos da governança de povos e nações que estertoram sob o seu jugo inclemente.

Pode-se então considerar uma política trabalhada pelos valores éticos e culturais da criatura humana e outra que decorre da astúcia e dos interesses subalternos de alguns indivíduos inescrupulosos que a denigrem, utilizando-se de hábil maniqueísmo para defraudar os valores que dignificam a sociedade, ascendendo aos postos de destaque e de mando a que aspiram, e os alcançam pisoteando as vítimas que lhes tombam nas armadilhas bem urdidas.

Organizando partidos, alguns ignóbeis nas suas estruturas, esses indivíduos pretendem alcançar os objetivos eleitorais, quando em regime democrático, utilizando-se de quaisquer meios que lhes sejam factíveis.

Esses grupamentos são criados para defender os interesses dos seus membros em detrimento dos deveres para com os cidadãos e o país, caracterizando-se pela ausência de uma filosofia idealista superior, que se encarregaria de estabelecer direcionamentos éticos de conduta e de ação.

Nesse caso, derrapa-se na politicagem, que responde pela corrupção dos seus membros e pela infelicidade das massas, sempre enganadas e esquecidas.

Desde as cidades-estados na Grécia que os idealistas se propuseram a construir uma política saudável, tendo os seus postulados fincados nos deveres e responsabilidades dos seus membros, para que resultassem direitos equilibrados da sociedade e do cidadão.

Todavia, o absolutismo sempre sobrepairou triunfante em relação ao sentimento democrático e as arbitrariedades consumiram vidas, eliminando os conteúdos elevados da dignificação humana.

Durante estes passados seis mil e quinhentos anos aproximadamente de cultura e civilização, os governantes dos povos mais se apresentaram na condição de sicários do pensamento e das nações, ditadores e imperialistas, que implantaram regimes arbitrários e odientos, argamassados pelos cadáveres insepultos das suas vítimas - todos aqueles que aspiravam pela liberdade e pela fraternidade, sonhando com a igualdade - e que foram afogados em rios de sangue e lágrimas ou que apodreceram em calabouços infectos nos quais as suas vozes foram silenciadas... Os idealistas, por sua vez, foram em número quase insignificante.

Filósofos, poetas, estadistas, com as naturais exceções, tiveram poucas oportunidades no contubérnio da política através dos tempos, que se apoiava na intimidação, na traição, no suborno, quando não através de guerras hediondas e devoradoras que esmagavam com os seus carros de combate os mais fracos que se atreviam a levantar-se em oposição aos seus desmandos.

Apesar da larga história do absolutismo do poder, de que se vêm utilizando muitas religiões que se secularizaram, seguindo os mesmos infelizes mecanismos da politicagem mundana, a Democracia sempre tem ressumado, proclamando os direitos humanos, a liberdade de pensamento, de expressão, de atividades, contribuindo para a valorização do homem, da vida e de todos os elementos que pulsam na Terra.

Despedaçados muitas vezes esses ideais democráticos, sempre parecia que não mais volveriam, ressurgindo depois, embora mediante pálidas expressões responsáveis pelas futuras demarcações históricas que se encarregarão de preparar os porvindouros dias felizes para a Humanidade.

Isso porque, na sua marcha inexorável, a morte consome os abomináveis adversários da sociedade, que deixam rastros de horror para escarmento daqueles que virão depois.

Esse ditadores asfixiam, enquanto governam, a cultura e o progresso, e perseguem a inteligência, inimigos impiedosos dos ideais de engrandecimento moral dos homens, que encarceram e vilipendiam mediante processos inconfessáveis, nos antros morbíficos aos quais são atirados.

Aplicam essas medidas pensando evitar o despertar das consciências das massas - os antigos camponeses de todos os tempos - hoje apresentadas como os favelados, os sem teto, os sem terra, os sem alimentação, os sem educação, os sem dignidade social, os excluídos...

Sucedem-se esses desditosos governantes, hoje substituídos por hábeis portadores de ironia pelos fracos e dependentes, e a sua indiferença pelos pobres e sofredores, os politicamente sem voz, porque os seus representantes são silenciosos a peso de ouro e de projeção na maquinaria do poder, e assim estão por causa da ignorância em que se demoram, já que, incultos, não têm capacidade para discernir quais os verdadeiros cidadãos capazes de os governar, vendendo a alma por ninharias, elegendo os já poderosos que pensam apenas em si mesmos e nos interesses do seu grupo, do seu partido, das suas paixões.

Em todos os tempos houve manipuladores e vítimas das suas hábeis urdiduras mentais, revelando-se notáveis políticos enganadores, que não passaram despercebidos dos filósofos, sociólogos de ontem como dos estetas de hoje, que os imortalizaram, bem como as suas maquinações em obras de superior qualidade literária.

A Idade Média foi rica de famigerados governantes, que substituíram os chefes bárbaros dos períodos anteriores e que a Revolução Francesa tentou impedir que voltassem a dominar a Humanidade.

Os códigos elaborados pelos filósofos revolucionários de 1789, porém, não foram respeitados pelos aderentes apaixonados, que se responsabilizaram pelos dias de terror, que se fizeram piores do que as negligências e degradantes condutas da Casa Bourbon que fora derrubada pouco antes aos gritos harmônicos dos ideais grandiosos.

Em simulacro de democracia de emergência girondinos e jacobinos discutiam na Assembleia digladiando-se e condenando-se reciprocamente, ansiosos pelo po
der que passava de umas para outras mãos mais ambiciosas e autocratas.

O século XIX desenhou uma Era Nova para o mundo submetido ao colonialismo europeu que, desde a Constituição de Filadélfia ensejou a Tiradentes o sonho de liberdade para o Brasil, trucidado, porém, pela alucinação de D. Maria I, de Portugal.

Os ventos da liberdade são inestancáveis e prosseguiram derrubando as fortalezas do absolutismo, substituindo títeres e reizetes, potentados e militares famigerados, esquecidos dos seus valores de defensores do povo, que se perderam no pó dos museus e na memória dos perturbados, ficando os espaços por eles utilizados para outras experiências humanas...

Regimes diversos e filosofias políticas variadas apresentaram-se nas áreas social e econômica, deixando as marcas desditosas dos seus corifeus apaixonados, que assumiram o poder e esqueceram do povo, ao qual prometeram auxílio, defesa e liberdade, olvidando-o depois e sacrificando-o, inexorável, impiedosamente.

Mortos e odiados, os monumentos que ergueram à própria vaidade, e os títulos honoríficos fabulosos com as respectivas medalhas e homenagens que se atribuíram em fascinante e louco narcisismo, foram derrubados, revogados, detestados, como advertência para os futuros dominadores de um dia.

A Democracia paira soberana acima das paixões dos grupelhos e dos partidos, sendo o método de governo através do qual o povo é-lhe a alma. Um povo, porém, esclarecido, que pensa e tem dignidade para eleger, sem a hipnose da multimídia contemporânea, que o poder maneja a serviço da própria promoção e os ricos de um momento elaboram para a ampliação das fortunas que já possuem.

Passo a passo, lento, por certo, o processo de liberdade humana já se apresenta e se podem conhecer os deslizes e as torpezas antes ocultados, por serem praticados pelos poderosos e governantes truculentos, facultando se possa aspirar por momentos menos penosos e por dirigentes mais lúcidos e mais honestos.

A Democracia vencerá, porque foi vivida em toda a sua grandeza, quando Jesus, o Democrata por excelência, instalou na Terra o reino dos céus, concedendo a todos direitos e deveres igualitários.

Convivendo com o povo, que amava, não desprezou os poderosos, os pusilânimes, a todos recebendo com a mesma simpatia e misericórdia, auxiliando-os no crescimento pessoal e na solidariedade de uns para com os outros.

Aos primeiros tempos, após a Sua morte e ressurreição, os Seus seguidores instalaram nos grupos que O reverenciavam, o regime democrático ideal, através do qual todos eram iguais, diferenciando-se apenas pelas conquistas éticas e espirituais, mas sem qualquer superioridade exterior, de casta, de raça, de classe, de fortuna, de privilégio, que somente apareceram com o surgimento da decadência da fé e da arbitrariedade governamental de Constantino, por ocasião do Edito de Milão, apresentado no dia 13 de junho de 313, quando o Cristianismo começou a transformar-se em religião do Estado romano, o que aconteceu com Teodósio I, no ano de 380, por ocasião do Edito de Tessalônica.

A política democrática, que faculta dignidade humana e respeito à Vida, vencerá as barreiras deste milênio em crepúsculo, a fim de que o homem e a sociedade do futuro sejam realmente lúcidos, conscientes e responsáveis, facultando as conquistas libertadoras, nas áreas da cultura, da moral e da civilização.

Salvador, 23 de setembro de 1998. 

Joaquim Nabuco por Divaldo Franco do livro:
Luzes do Alvorecer

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