quinta-feira, 23 de abril de 2026

Reencarnação

Reencarnação

Joanna de Ângelis


Dádiva de Deus

Punge a alma vê-los no trânsito das aflições superlativas, que carregam como cangas pesadas que os esmagam lentamente.

Dilacera os sentimentos ouvi-los na plangência das agonias, que explodem em violenta erupção de desesperos incontroláveis.

São eles, os irmãos limitados, os atormentados pelas enfermidades orgânicas e mentais que os estiolam, irreversivelmente. Padecem as injunções dos descontroles da emoção e da fragilidade orgânica, jazendo atados a paralisias e demências entre esgares de dor e rudes pavores nos quais se debatem.

Expondo à visão alheia as doenças que os maceram, estertoram e se comovem, condoendo aqueles que os socorrem e os acompanham nas santas redenções a que se atam...

Todavia, há outros que passam despercebidos, mutilados nos recessos íntimos e se rebolcam em duras refregas que os espezinham numa continuada injunção de amargura.

Poucos lhes conhecem as sombrias paisagens interiores, nas quais se movimentam carregados de frustrações e ansiedades que os comburem. Vezes outras, incapazes de sopitar o exacerbar das paixões que os fulminam, ardem em alucinações que disfarçam a esforço insuportável.

Além deles, os irmãos fundamente golpeados em si mesmos, convocam a atenção os vilipendiados pelas dificuldades financeiras e sociais em lares onde a miséria de largo porte fez morada, quando não se apresentam ferreteados pelo ódio e pela impiedade dos que os recebem nos braços da paternidade revoltada ou da maternidade ultrajada...

Inúmeros se movimentam nos jogos da animosidade recíproca ou jungidos às situações humilhantes que os ferem em profundidade, abrindo feridas largas no sentimento e nas aspirações.

Incontáveis iniciam a jornada nas amarras teratológicas, carregando as pungentes chagas congênitas, com que se despedaçam em demorado curso, sem esperança, nem conforto. Portadores de psicoses transtornantes, de alienações que os asselvajam, crivam-se de opróbrios, enquanto agridem e ferem, longe de qualquer condição de recuperarem a normalidade...

Outros, aleijados e retorcidos, experimentam crescente soma de dores que não cessam.

Um número expressivo dá acolhida aos pensamentos subalternos, vitalizando desforços injustificáveis e espalhando miasmas das mazelas que a cada um sobrecarrega de azedume e acidez...

Em contrapartida, desfilam os estetas, quais argonautas deslumbrantes, campeões da beleza e da inteligência, da saúde e da fortuna, desperdiçando forças na inutilidade ou nas batalhas da insensatez, engendrando, alguns, planos inditosos em que se comprazem, fomentando os jogos da usura e os recreios que transformam em algemas de escravidão demorada, colocadas nos próprios pulsos... Outros passam, de vitória em vitória, cavalgando o poder ou esgrimindo os instrumentos que os glorificam: soldados, artistas, literatos que se destacam e enriquecem as galerias de glórias dos povos e das nações.

Milhões que renteiam com a ignorância e que experimentam as tarefas rudes, imediatas, nos campos e cidades, em misteres fortes e exaustivos, enquanto outros tantos se exaurem na ociosidade das praias e balneários refertos, entre inúteis e lúbricos, num festival hediondo de sexo, de tóxicos, de desgastes do corpo e da alma...

Uns nascidos nas imensas megalópoles e outros em furnas primitivas de sombra e barbárie.

Para bilhões, os casebres insalubres das favelas e das palafitas, e para alguns os berços dourados e as rendas de fina tecelagem sob o amparo de criadagem especial...

Centenas de milhões que iniciam a caminhada nos báratros da ignorância e do analfabetismo e reduzido número que frui os benefícios da cultura, das ciências e das artes...

Incontáveis que anelam possuir ou lograr o mínimo do máximo que tantos outros não valorizam, amo- lentados pelos excessos que os vitimam desde as primeiras experiências na abastança...

Como compreender tão extravagantes quadros que ferem a alma com invisíveis punhais ou que erguem o ser em júbilos nas asas das emoções complexas?

Por que o excesso num grupo de homens e a absoluta falta noutro clã?

Estes possuem haveres e não dispõem de paz, enquanto aqueles gozam de saúde e lhes faltam os bens materiais?

Será crível compreender-se que o Supremo Pai nos haja a todos criado no momento da elaboração do corpo para uma única vida humana, sendo tão variadas as circunstâncias e as contingências?

Criação em grupos separados? Alguns para as expressivas venturas na Terra e as excelsas glórias nos Céus, em detrimento de outros que suportam superlativas misérias que os desconsertam no corpo e na mente, projetando-os para as regiões de supremas desditas espirituais depois?

Homens que se exercitam nas primeiras experiências da razão, em regiões inóspitas, transitando da selvageria para a civilização e cidadãos que desfrutam do conúbio da beleza, da inteligência e do saber, criados no mesmo instante? Que se pode esperar dos primeiros, faltos de tudo, desarmados para as conquistas do espírito?

Constituem uns raças e povos privilegiados desde o começo em detrimento de outros que, milenarmente, são porta de acesso aos primeiros lampejos da cultura da mente e dos sentimentos?

Por que tão aquinhoada uma parte da Humanidade, em esquecimento de relevante número de criaturas primitivas?

Predestinação para a felicidade como para a desgraça?

Não, de forma nenhuma.

A vida do homem não é uma estreita e breve experiência entre o berço e o túmulo. Antes, as duas demarcações, entrada e saída do corpo, representam pórticos de trânsito pela infinita estrada da perfeição que a todos aguarda.

A vida é única no seu caráter de que, criado uma vez, o ser espiritual jamais perece.

Os corpos de que se utiliza são indumentárias que lhe facultam a aquisição de labores evolutivos, nos quais adiciona conquistas, retifica erros, sobrepõe-se aos limites das paixões, destrói impedimentos, anula dívidas.

Toda expressão que se reveste de alegria ou de pena se fixa nas raízes que precedem à organização somática.

Toda concessão de felicidade ou desdita se vincula à anterioridade do corpo, facultando ao espírito crescimento e madurez.

Autor do destino, o ser espiritual insculpe, mediante os pensamentos, as palavras e os atos, o que lhe apraz para as conjunturas futuras. Sua meta, através do determinismo das divinas leis, é a perfeição. A dor e a desventura são-lhe o resultado das opções feitas, conseguidas a penates da própria vontade.

A ideia da vida única, de uma existência, apenas, ultraja a suprema magnanimidade do Pai Criador.

Enquanto que a reencarnação desvela Seu amor, Sua justiça, Sua misericórdia de acréscimo...

Fadado à imarcescível luz, sai o espírito das sombras de si mesmo, de reencarnação em reencarnação, para as sublimes claridades.

“Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá”, afirmou, impertérrito, Jesus.

Pastor abnegado, Ele prossegue chamando e amparando quantos lhe buscam o redil.

Nenhuma preferência por este ou aquele, exceção alguma por quem quer que seja.

Amor até a autodoação por todos.

A sua vida imolada no madeiro da humilhação, que Ele exaltou por todas as vidas, é dádiva para todos aqueles que lhe queiram receber o ensino sublime.

A reencarnação é, pois, necessária para o crescimento do espírito, “criado simples e ignorante”, conforme ensinaram os nobres Instrutores da Humanidade a Allan Kardec, neles refletindo-se o amor de Deus em regime de igualdade para com todos os filhos, na irretorquível demonstração de que somos todos irmãos em diferentes estágios de evolução, avançando no grande rumo...

A reencarnação é, portanto, dádiva do amor divino para a felicidade de todos os Espíritos na fatalidade de atingir a glória estelar que nos aguarda.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
No Limiar do Infinito

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Necessidade do estudo de Kardec para discernimento doutrinário

Necessidade do estudo de Kardec para discernimento doutrinário

J. Herculano Pires



Confusões intencionais e não intencionais, lançadas nos meios espíritas – O problema umbandista – Mensagens de Ramatís.
Há muitas confusões, feitas intencionalmente ou não, entre o Espiritismo e numerosas formas de crendice popular, inclusive as formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, hoje largamente difundidas. Adversários da doutrina espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões, com o fim de afastar do Espiritismo as pessoas cultas. Por outro lado, alguns espíritas mal orientados, que não conhecem a própria doutrina, colaboram nesse trabalho de confusão, admitindo como doutrinárias as mais estranhas manifestações mediúnicas e as mais evidentes mistificações.

Alguns leitores se mostram justamente alarmados com a larga aceitação que vêm tendo, em certos meios doutrinários, práticas de Umbanda e comunicações de Ramatís. E nos escrevem a respeito, pedindo uma palavra nossa sobre esses assuntos. Na verdade, já escrevemos numerosas crônicas tratando da necessidade de vigilância nos meios espíritas, de maior e mais seguro conhecimento dos nossos princípios, e apontando os perigos decorrentes do entusiasmo fácil, da aceitação apressada de certas inovações.

Mas, para atender às solicitações, voltaremos hoje ao assunto.

Kardec dizia, como muita razão, que os adeptos demasiado entusiastas são mais perigosos para a doutrina do que os próprios adversários. Porque estes, combatendo o que não conhecem, evidenciam a própria fraqueza e contribuem para o esclarecimento do povo, enquanto os adeptos de entusiasmo fácil comprometem a causa. O que estamos vendo hoje, no meio espírita brasileiro, não é mais do que a confirmação dessa assertiva do codificador. Espíritas demasiado entusiastas estão sempre prontos a receber qualquer “nova revelação” que lhes seja oferecida e a divulgá-la sofregamente, como verdades incontestáveis. Que diferença entre o equilíbrio e a ponderação de Kardec e essa afoiteza inútil e prejudicial!

No tocante à Umbanda, já dissemos aqui, numerosas vezes, que se trata de uma forma de sincretismo religioso, ou seja, de mistura de religiões e cultos, com a qual o Espiritismo nada tem a ver. As formas de sincretismo religioso são, praticamente, as nebulosas sociais de que nascem as novas religiões. A Umbanda já superou a fase inicial de nebulosa, estando agora em plena fase de condensação. É por isso que ela de difunde com mais intensidade.

Já se pode dizer que é uma nova religião, formada com elementos das crenças africanas e indígenas, misturados a crenças e formas de culto do catolicismo e do islamismo em franco desenvolvimento entre nós. O Espiritismo não participou da sua formação, embora os nossos sociólogos, em geral, exatamente por desconhecerem o Espiritismo, digam o contrário, pois confundem o mediunismo primitivo, de origem africana e indígena, com os princípios de uma doutrina moderna. Nós, espíritas, devemos respeitar na Umbanda uma religião nascente, mas não podemos admitir confusões entre as suas práticas sincréticas e as práticas espíritas.

Quanto às mensagens de Ramatís, também já tivemos ocasião de declarar que se trata de mensagens mediúnicas a serem examinadas. De nossa parte, consideramo-las como mensagens confusas, dogmáticas, vazadas na linguagem típica dos espíritos pseudossábios, a que Kardec se refere na escala espírita de O Livro dos Espíritos. Cheias de afirmações absurdas e até mesmo contraditórias, essas mensagens revelam uma fonte que devia ser encarada com menos entusiasmo e com mais cautela pelos espíritas.

Em geral, nossos confrades se entusiasmam com “as novas revelações” aparentemente contidas nas mesmas, esquecendo-se de passá-las, como aconselhava Kardec, pelo crivo da razão.

O que temos de aconselhar a todos, pelo menos a todos os que nos consultam a respeito, é mais leitura e mais estudo de Kardec, e menos atenção a espíritos que tudo sabem e a tudo respondem com tanta facilidade, usando sempre uma linguagem envolvente, em que nem todos sabem dividir a verdade do erro.

“O Espiritismo”, dizia Cairbar Schutel, “é uma questão de bom senso”.

Procuremos andar de maneira sensata, na aceitação de mensagens mediúnicas.

J. Herculano Pires do livro:
O Mistério do Bem e do Mal

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Ato de gratidão

 Ato de gratidão

Maria Dolores




A minha gratidão franca e profunda
É tudo o que te oferto, alma querida,
No doce regozijo que me inunda,
Por todo o amparo que me deste à vida.

Notaste a provação em meus caminhos
E estendeste-me as mãos ternas e generosas,
Como quem faz do chavascal de espinhos
Um tapete de rosas.

Nada olvidaste para o meu alento...
Seguindo a minha dor de cada dia,
Trouxeste, com grandeza, à penúria que enfrento,
Proteção e agasalho, assistência e alegria.

Enxugaste-me o pranto da tristeza,
Em tua própria fé que me avigora,
Recordando em minh’alma a luz acesa,
Quando a sombra se esvai ao contato da aurora.

Fizeste mais... Quiseste, junto a mim,
O júbilo constante em presença dourada,
Com carícias de fonte e encantos de jardim
Para quem me partilhe as fadigas da estrada.

A fim de renovar-me o pensamento imerso
No turbilhão de fel que tanta vez me alcança,
Falaste-me de amor, ante as Leis do Universo,
Elevando-me o ser às bênçãos da esperança.

Por tudo te agradeço, alma formosa e amiga,
Nos empeços e pedras que transponho,
Encontro em ti o apoio que me abriga,
A bondade em resposta às ânsias de meu sonho...

Mas acima de tudo, a ti me entrego,
Na extrema gratidão, por onde vou,
Porque entendes as lutas que carrego
E aceitaste-me a vida como eu sou.

Maria Dolores por Chico Xavier do livro:
Caminhos do Amor

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terça-feira, 21 de abril de 2026

Livre-arbítrio e caridade

Livre-arbítrio e caridade

Joanna de Ângelis



Nunca será demasiado entretecer-se considerações sobre a caridade.

A caridade é sempre luz que abençoa aqueles que jornadeiam na aflição. Mesmo quando não é vista, à semelhança dos raios solares, quando o Astro Rei está ausente, beneficia, penetrando as vidas e renovando-as.

Assim, a caridade, seja no seu aspecto material ou moral, reflete o amor de Deus que alcança as almas, socorrendo-as.

Quando a caridade material não se faz necessária, jamais será  secundária aquela de natureza moral, porquanto, vital como o ar, penetra e sustenta a vida.

São caridades morais: o sorriso de afabilidade ao atormentado que perdeu a esperança; a palavra de estímulo quando todos os outros recursos ficaram baldos de resultados; o gesto de simpatia ante a circunstância aziaga e infeliz; a compreensão fraterna, face à ofensa e à maldade; a oração intercessória, em favor do adversário em sofrimento; o apoio emocional no momento áspero da desgrava; o perdão da ofensa e a dedicação ao tombado; a gentileza de um socorro espiritual...

Quem pode, por acaso, no transe da dor, dispensar qualquer uma destas concessões? Qual a pessoa que se sinta tão completa que dispense um amigo ou uma palavra de reconforto?

A caridade é luz que deve ser considerada como bênção de Deus nas estradas do mundo.

Praticá-la ou não é opção de cada indivíduo. Aquele que a utiliza, favorece o crescimento da luz que se esparze; quem se nega a realizá-la, faculta a ampliação da sombra que predomina.

O livre-arbítrio e a caridade constituem alavancas para o progresso do homem na direção da sua meta final, que é a felicidade.

Jesus, todo amor por excelência, em instante algum deixou de esparzi-la, iluminando as vidas que, desde então, jamais perderam a diretriz.

Caridade, portanto, hoje e sempre.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
No rumo da felicidade

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