sábado, 2 de maio de 2026

A vida espírita ou espiritual

A vida espírita ou espiritual

Joanna de Ângelis


Vida fora da matéria

Sendo a vida na Terra, suas edificações e paisagens um símile mais condensado e algo mais grosseiro do que existe no mundo espírita ou espiritual, facilmente se compreenderá que o progresso na região das causas transcende em beleza e realizações, superando em emoções e efeitos tudo quanto a imaginação pode conceber.

Desde os sítios mais grotescos e sombrios onde se fixam os núcleos de depuração compulsória para os que dilapidam, irresponsáveis, os preciosos dons da existência até aos altos círculos de felicidade nas vibrações circunvizinhas da Terra, há uma infinita variedade de vilas e cidades, círculos espirituais e postos de socorros onde vivem os que se vinculam ao planeta generoso que nos serve de berço e escola de progresso, nos intervalos de uma para outra reencarnação. Plasmados pelas mentes que as moldam no fluido universal, são populosos centros de vida em que o amor estua, verdadeiros céus para os que atuam nos ideais de enobrecimento, pousadas dos Espíritos ditosos que promovem no Orbe, quando reencarnados, o crescimento da cultura, das artes e das ciências. Esses verdadeiros missionários da abnegação e da caridade são os artífices da beleza no mundo em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não se trata de lugares hipotéticos, ou de centros onde campeie a ociosidade em aposentadoria demorada, ou de paisagens fantasistas para o repouso da inutilidade.

Há atividades febricitantes em que o culto ao trabalho fomenta o progresso das mentes e aprimora os sentimentos do coração.

De forma alguma são mundos quiméricos, imateriais, sobrenaturais, mas searas de ação objetiva, organizações promovidas pelo espírito humano, distantes ainda dos mundos da divina bênção.

Faixas imediatas às realizações terrenas em escalas ascendentes como descendentes, onde vigem as leis da misericórdia de Nosso Pai em programação superior objetivando o crescimento do Espírito.

Em contrapartida, adensam-se as regiões purgatoriais, legítimos infernos onde pugnam incansáveis e se depuram aqueles que a morte arrebatou em situações arbitrárias e não os consumiu.

Ditas comunidades de sofredores em martírio salvador resultam da aglutinação das afinidades a que se ajustam os réprobos, nos conúbios de desespero, em 94que as pesadas cargas vibratórias que aspiram e exteriorizam geram paisagens tristes e torpes a que se imantam em decorrência das densas emanações venenosas de que se fazem responsáveis.

Há que se compreender que, sendo a vida espiritual a verdadeira, nela se elaboram os projetos da ação a executar nos empreendimentos futuros, nas reencarnações posteriores.

Se os gênios das artes retratam a beleza em imperecíveis poemas, sinfonias, composições épicas e estésicas, na pintura e na estatuária, das regiões donde vieram trazem registrados na memória os temas e as técnicas que ressurgem no campo das formas humanas, a instâncias da inspiração, da concentração profunda em que mergulham buscando encontrá-las, da oração que os alça aos centros superiores onde se demoram os originais que repetem com os recursos que se lhes tomam acessíveis.

Igualmente, os mensageiros da perturbação e do crime, os rufiões e sórdidos menestréis da vulgaridade, tanto quanto os promotores da imoralidade, da pornografia e da exacerbação da luxúria, da corrupção dos costumes, das alucinações perigosas, expressam no mundo dos contornos físicos as imagens ínsitas na memória que trazem das estações insalubres em que estagiaram quando em reparação dos ignóbeis gravames perpetrados no mundo...

Noutras vezes, de acordo com as ideias cultivadas, mantêm uma sintonia natural de gostos e aspirações com essas cidades espalhadas nas imediações do planeta, ali volvendo ou indo por vez primeira em parciais desprendimentos pelo sono, conduzidos pelos arquitetos da harmonia ou pelos sequazes da anarquia terrestre.

Os que podem alçar voo a sós e permanecem vinculados às Escolas de sabedoria e de estesia donde procedem, facilmente retemperam o ânimo e compreendem as tarefas e sacerdócios que devem preservar entre os homens, sustentados pela força da vitalidade que de tais urbes se exterioriza.

Em parte alguma do Universo existem o vácuo absoluto, o nada, a experiência estática. Um dinamismo progressista se impõe como consequência natural da incessante criação divina que sustenta as galáxias e comanda os sistemas planetários.

A vida é o hálito do Pai Criador em Sua soberana manifestação de amor.

Aos menos adestrados na meditação em torno da vida espiritual e aos que se anestesiam no encharcamento das sensações mais grosseiras, parecem fantasias bem urdidas as revelações sobre o mundo extrafísico, preferindo eles que tudo se consumisse no aniquilamento após a morte do corpo somático ou se assentasse nos comportamentos estanques que a necessidade de desforços e recompensas apaixonadas de alguns visionários do passado e do presente estabeleceram como pontos finais, inamovíveis...

Perfeitamente lógica a ocorrência da multiplicidade das Cidades e Colônias Espirituais no mundo das causas.

O Apóstolo Paulo, em desdobramento mediúnico expressivo, foi arrebatado “até o terceiro céu” ao paraíso e ouviu palavras indizíveis, conforme anotou expressiva cópia de ensinamentos que inseriu na sua oportuna 2.a Epístola aos Coríntios (Cap. 12, versículo 2 e seguintes) rica de advertências, espiritualidade e edificações morais.

Os grandes místicos da Humanidade, em processos luminosos de viagens astrais, foram a muitas delas, donde vieram guardando na lembrança detalhes e ocorrências que narraram aos seus contemporâneos...

Dante Alighieri no incomparável poema da Divina Comédia, tentou ser o mais fiel possível às múltiplas reminiscências dos passeios espirituais, amparado por Virgílio e por Beatriz, em que o seu estro defrontou inimigos e antipatizantes políticos, que os situou conforme a imaginação preferiu...

Teresa D’Avila, reiteradas vezes nos transes sonambúlicos e nos estados catalépticos sucessivos, viajou em corpo espiritual na direção dessas organizações, ali recolhendo e trazendo informações superiores com que sustentou suas irmãs do Carmelo e a si mesma se fortaleceu, a fim de superar as terríveis condições morais da época, estabelecendo as nobres e austeras linhas dos deveres a que se entregou em culto de elevação e glória.

Os Apóstolos e Missionários de todos os tempos conheceram de perto essas experiências superiores, de cujas viagens retornaram refeitos e ágeis para dar prosseguimento às lutas em que ascenderam às mais altas culminâncias do bem.

Não bastassem tais recordações, os Espíritos do Senhor incessantemente se referem a essas mansões de perene luz e àquelas mansardas de contínuas refregas purificadoras, emulando os homens à preferência da vitória sobre as vanglórias terrenas, em permanentes misteres de elevação.

Ao império do pensamento se constroem as algemas da escravidão e as asas da angelitude nos mais variados rincões do universo.

Metrópoles trabalhadas em substância sutil, plástica e de fácil moldagem às mentes ditosas, constituem os painéis de incomparável dita onde reinam a paz, a ventura plena e a felicidade sem jaça.

Há incontáveis instituições beneficentes e socorristas no além-túmulo que se afervoram no auxílio aos que transitam na Terra e partem do corpo após a desencarnação, demorando-se hebetados, inconscientes, mortos-vivos nas Necrópoles e nos redutos dos lares onde já não lhes é lícito permanecer.

Legiões de abnegados e caridosos mensageiros do Senhor recolhem em Institutos de recuperação e aperfeiçoamento os desencarnados em dor, fortemente imantados às sensações do corpo em decomposição, no sagrado ministério de amor e misericórdia com que lecionam fraternidade e santificação.

Educandários e hospitais de retificação, à semelhança dos que existem na Terra, melhor organizados e mais aprimorados, se abrem convidativos, como santuários de recolhimento e correção para a elevação dos caídos e recuperação dos inditosos não totalmente vitimados pelas forças soezes da natureza animal que neles mantinham predomínio...

Conforme existem na Terra conglomerados e organizações humanos para albergar a imensa legião de criaturas, sucedem-se, múltiplos, acolhedores como ninhos de venturas que aguardam os seus habitantes momentaneamente excursionando em aprendizagem nas debilmente coloridas paisagens terrenas...

Ninguém se surpreenda, portanto, que a vida espiritual seja refletida nas comunidades terrenas, que são cópias imperfeitas das sociedades vigentes nos círculos superiores do Orbe e nos planetas onde a vida estua sem sombra, sem dor, sem morte, sem adeus...

O esquecimento temporal de forma alguma constitui justificativa para que se argumente contra a existência do mundo das causas. O dos efeitos é a sua resposta de afirmação.

Concessão divina o olvido, não impede, todavia, que surjam e ressurjam as lembranças em forma de insopitável melancolia que, vez por outra, visita a mente e o coração dos homens, nublando-lhes os olhos de lágrimas e doces reminiscências no ergástulo do carreiro carnal.

Elevemo-nos pela ação enobrecida e pelo exercício da meditação profunda acima das conjunturas imediatistas e conseguiremos vincular-nos a esses centros de comando e vitalização dos ideais humanos, podendo ali haurir forças para as vitórias sobre nós mesmos, ao mesmo tempo conseguindo libertar-nos das ligaduras carnais, pelo desprendimento parcial, através do sono, para fruir as benesses da excelsa misericórdia que o Senhor confere aos que O amam e buscam ser-Lhe fieis.

Diante dos painéis de sol ou de estrelas, frente aos jardins e pomares, perante as construções da arte, da beleza e da ciência, alonguemos o pensamento e procuremos registar os nobres sinais de elevada estesia dessas paragens de felicidade, antegozando o futuro e considerando que, se o homem imperfeito e endividado pode edificar e gozar desde já tanta harmonia, o que esperará àquele que após a tarefa cumprida no mundo, retornar ao país de misericórdia e amor donde veio?!

Alentados por essa expectativa, prossigamos fieis e humildes.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
No Limiar do Infinito

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Ministérios

Ministérios

Emmanuel


“Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.” (I PEDRO, 4:10)

Toda criatura recebe do Supremo Senhor o dom de servir como um ministério essencialmente divino.

Se o homem levanta tantos problemas de solução difícil, em suas lutas sociais, é que não se capacitou, ainda, de tão elevado ensinamento.

O quadro da evolução terrestre apresenta divisão entre os que denominais “magnatas” e “proletários”, porquanto, de modo geral, não se entendeu até agora no mundo a dignidade do trabalho honesto, por mais humilde que seja.

É imprescindível haja sempre profissionais de limpeza pública, desbravadores de terras insalubres, chefes de fábricas, trabalhadores de imprensa. Os homens não compreenderam, ainda, que a oportunidade de cooperar nos trabalhos da Terra transforma-os em despenseiros da graça de Deus. Chegará, contudo, a época em que todos se sentirão ricos. A noção de “capitalista” e “operário” estará renovada. Entender-se-ão ambos como eficiente servidores do Altíssimo.

O jardineiro sentirá que o seu ministério é irmão da tarefa confiada ao gerente da usina.

Cada qual ministrará os bens recebidos do Pai, na sua própria esfera de ação, sem a ideia egoística de ganhar para enriquecer na Terra, mas de servir com proveito para enriquecer em Deus.

Emmanuel por Chico Xavier do livro:
Caminho, Verdade e Vida

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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Aproveitando o tempo

Aproveitando o tempo

Jácome Góes


Imagem gerada por IA

O verdadeiro Cristão tem apenas um único direito, que é beneficiar-se com o luminoso conhecimento do Evangelho. A partir daí, começam as suas constantes obrigações representadas pela vivência de cada lição em particular, e do aprendizado em geral.

Omitir-se não é só anular-se, mas também, é assumir pesadas responsabilidades cármicas por INFRAÇÃO CONSCIENTE ÀS LEIS DA VIDA, que cobram, inexoravelmente, nossa participação efetiva no trabalho de Evangelização.

A FUGA AOS CUMPRIMENTOS DA TAREFA, COMODISMO E A AUSÊNCIA DOS TESTEMUNHOS PRODUZEM SOMBRAS EM NOSSA INDIVIDUAL ATMOSFERA QUE PODEM SER PRENÚNCIOS DE LONGAS TEMPESTADES NAS COERCITIVAS EXPERIÊNCIAS DA DOR... NOSSO TEMPO, NOSSA VEZ, NOSSA CHANÇE É AGORA, ADIARMOS O INGRESSO NO ASPOTOLADO CRISTÃO É, ALÉM DE INSENSATEZ, QUASE IRRACIONALIDADE...

SE TEMOS A BÊNÇÃO DA VOZ, usemo-la como instrumento de amor, ensinando, projetando otimismo e abençoando, porque, se optarmos reiteradamente pelo mal, os talentos naturais poderão nos ser retirados como medida extrema para conscientização imperiosa.

SE TEMOS A BÊNÇÃO DA VISÃO FÍSICA, procuremos hoje enxergar o belo, louvando a Deus, e, também, enxergar os tristes sofrimentos que atingem o ser humano, para tentarmos a solução da ajuda com amor.

Amanhã as trevas poderão descer sobre nossos olhos, desaparecendo as cores e a beleza da vida...

SE TEMOS A BÊNÇÃO DE PERNAS FORTES, que atendem às necessidades evolutivas do espírito, caminhemos, então, pelas estradas luminosas da caridade, porque amanhã poderemos estar limitados pela paralisia e impotentes para seguirmos futuros ditames do coração.

SE HOJE TEMOS A BÊNÇÃO DO SORRISO, procuremos expressar através dele, alegria na tentativa de apagar tristezas, pois amanhã os nossos lábios poderão permanecer cerrados e sem vida...

SE HOJE TEMOS PARENTES E AMIGOS, procureros amá-los, com toda força dos nossos sentimentos, para não partirmos sem levar flores e sem deixar saudades...

SE TEMOS UM AMOR ESPECIAL, valorizemos a sua bênção na multiplicação dos carinhos, para que amanhã não venhamos a dizer que alguém deixou um oceano de tristeza nas praias do nosso coração...

SE TEMOS NOSSO LAR, procuremos enriquecer sua atmosfera ambiental para que amanhã ele possa ser o oásis que nos proporciona descanso, e o porto amigo onde chegamos após as difíceis viagens pelos mares da nossa vida, nem sempre serenos...

SE TEMOS FILHOS, procuremos transmitir a herança dos exemplos de dignidade em todos os campos da atuação humana, pois somente assim, no cumprimento da nossa sublimada missão, os faremos milionários em espírito. Caso contrário, se destruirmos a formação do seu caráter com nossas influências negativas, choraremos juntos a irrealização de muitas vidas...

SE TEMOS A BÊNÇÃO DA SAÚDE, valorizemos nosso corpo não o agredindo com vícios e maus hábitos, para que amanhã não venhamos sofrer inevitáveis consequências na síndrome de muitas doenças...

SE TEMOS NOSSO EMPREGO, agradeçamos a Deus essa maravilhosa bênção, marcando no setor de trabalho a expressão das nossas atitudes de interesse e construção profissional, pois amanha poderemos estar privados do nosso mais importante meio de subsistência material...

SE TEMOS NOSSO IDEAL, procuremos eliminar dificuldades e construir pontes com a expressão da nossa fé e otimismo, para que nossa vida tenha um significado real e uma estória a ser contada, como exemplo.

SE SOMOS SERES EM PROCESSO CONTINUO DE EVOLU-ÇAO, matemos a própria morte, que jamais nos alcançará, pois como espírito somos eternos e fomos criados para a glória de viver. Aqui e lá, é sempre vida, abundantemente vida...

Enfim, sejamos ativos agora, enquanto pudermos, para que amanhã não venhamos a entoar com lágrimas, o triste hino do remorso... UM DIA QUE NÃO SABEMOS QUANDO, MAS QUE PODERÁ ESTAR BEM PRÓXIMO, VIVEREMOS O GRANDE MOMENTO DA DESPEDIDA, E AI FICAREMOS A SÓS COM A NOSSA PROPRIA CONSCIÊNCIA... NOSSO TEMPO É AGORA E JÁ. DIGNIFIQUEMOS A VIDA NAS PROJEÇÕES DOS NOSSOS ATOS DE JUSTIÇA E AMOR. 

Jácome Góes do livro:
Caminho da Redenção
Nota: Os destaques no texto são do próprio autor, preservamos o formato da publicação impressa. - RDB


Jácome Góes
Sergipano, ex-morador de São Paulo, morou em Aracajú - SE.
Foi advogado aposentado do Ministério do Trabalho.
Orador e escritor espírita, teve colunas em jornais e programas de rádio.

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Rui Barbosa e o Espiritismo

Rui Barbosa e o Espiritismo

Jorge Rizzini


Imagem criada por IA
Quantas outras, não somos nós os que vamos chamar esses leais companheiros de além-túmulo, e com eles renovar a prática interrompida...  Rui Barbosa

RUI BARBOSA, DOTADO DE ALTA espiritualidade de que a maioria de suas obras dá testemunho, não se deixou prender no emaranhado das religiões. Acreditava numa força divina que governava o universo, e isso lhe bastava. Quase ao término de sua existência, porém, converteu-se ao espiritismo, graças ao estudo contínuo de obras científicas assinadas pelos sábios de sua época; sábios que trataram de toda a fenomenologia espírita, exaustivamente, através de experiências realizadas nos países mais cultos.

Realmente, em sua vastíssima biblioteca, no Rio de Janeiro, exposta à visitação pública, podemos constatar a existência dessas obras, na língua original. Estão grifadas com a tinta vermelha de Rui Barbosa com anotações às margens. Delas daremos os títulos e os respectivos sinais que constam no fichário e que facilitam a consulta do leitor curioso.

Ei-las:

Nouvelles expériences sur la force psychique.

Dessa obra básica do espiritismo experimental, de autoria do cientista inglês William Crookes (o descobridor da matéria radiante), possuía Rui Barbosa duas edições, hoje raras; uma sem data e a outra de 1897. Informações do fichário: G, 10-1, 28 nº 1 e B-10, 3, 29.

Do físico Oliver Lodge, leu Rui Barbosa nada menos do que quatro obras que relatam experiências espíritas. São elas: Raymond or life and death (B-2,5,17); Survival of man (B.2, 4, 23); The proofs of life after death (L-8, 4, 27); La vie et la matière, traduzido por J. Maxwell (L-5, 2, 6).

Do sábio russo Aksakoff: Animisme et spiritisme, em tradução de Berthould Sandow (B-2, 3, 21).

De Ernesto Bozzano, catedrático italiano: Les phénomènes de hantise, em tradução de C. Vesme (E-10, h, 42).

De Myers: Les hallucinations telépathiques (B-2, 3, 20).

De Conan Doyle, o precursor da polícia científica: The new revelation (L-9, 3, 31).

De Léon Denis: Les problèmes de l’être et de la destinée (B-7, 2, 7).

De Alfred Russel Wallace, o rival de Darwin: La place de l’homme dans l’univers (L-8, 5, 22).

De Flammarion, diretor do observatório astronômico de Paris, Rui Barbosa leu seis volumosas obras que tratam de assuntos variados referentes ao espiritismo: Dieu dans la nature, L’homme et les problèmes psychiques, La mort et son mistère, Recits de l’infini, Uranie, Autour de la mort.

Charles Richet (Prêmio Nobel de Medicina) também figura entre os cientistas que estudaram os fenômenos espíritas e que chamaram a atenção de Rui Barbosa. O seu Traité de métapsychique (G-l, f, 16) foi compulsado por Rui até a página 401. As conclusões da gigantesca obra também foram meditadas até a página 793. Acha o escritor Sérgio Valle que o Tratado de metapsíquica, de Richet, foi a última obra lida por Rui Barbosa. Parece-nos que razão assiste ao autor de Silva Mello e os seus mistérios porque, como nos explica, a edição do Tratado é de 1922, e Rui Barbosa veio a falecer a 1 de março de 1923: um ano e pouco após haver adquirido o volume de Richet.

Observa-se, através destas citações, que o gigante Rui ao iniciar-se no espiritismo começou pelos mestres no assunto: adquiriu somente obras de cientistas. Leu-as, grifou-as em vermelho, fez anotações nas margens.

Após essas leituras meditadas ficaria convencido da realidade do espiritismo? Já foi dito que sim. Mais adiante daremos provas concludentes. Foi, talvez, devido a essas obras fundamentais que Rui Barbosa, sendo apóstolo da verdade, tomou da pena e resolveu dar um violento golpe no catolicismo: ele não só traduziu, com grande carinho, O papa e o concílio, como veio a escrever um prefácio, cuja extensão supera a própria obra! Prefácio com cerca de trezentas páginas! Rui Barbosa nos mostra os grandes crimes cometidos pelos papas, as falcatruas encobertas por um falso véu místico e examina algumas das resoluções tomadas em concílios vários que visavam, não o benefício do catolicismo no sentido espiritual, mas os cofres do Vaticano e o poder cada vez mais crescente de seus dirigentes. Tudo isso montado em documentos examinados à luz de sua poderosa inteligência. O papa e o concíliocom o prefácio de Rui Barbosa, foi um dos maiores golpes sofridos pela Igreja de Roma. Obra, como essa, com tal poder combativo, só conhecemos a História dos papas, do dicionarista Maurice LachâtreInútil dizer que, tanto uma como a outra, viram suas edições perseguidas pelo Vaticano. Os exemplares encontrados eram queimados como nos velhos tempos da Inquisição.

* * *

A última obra escrita por Rui Barbosa foi a célebre Oração aos moços; escreveu-a no fim da vida. Encontrava-se tão enfermo, que lhe foi impossível lê-la perante os bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo. Leu-a, pois, um seu representante. Último discurso, é nele que o gigante de Haia deixou a seguinte página inspirada pela doutrina dos espíritos; página que bem demonstra sua convicção na impotência da morte.

Ensina Rui Barbosa:

A maior de quantas distâncias logre a imaginação conceber, é a morte; e nem esta separa entre si os que a terrível afastadora de homens arrebatou aos braços uns dos outros. Quantas vezes não entrevemos, nesse fundo obscuro e remotíssimo, uma imagem cara? Quantas vezes não a vemos assomar nos longes da saudade, sorridente ou melancólica, alvoroçada ou inquieta, severa ou carinhosa, trazendo-nos o bálsamo ou o conselho, a promessa ou o desengano, a recompensa ou o castigo, o aviso da fatalidade, ou os presságios do bom agoiro? Quantas nos vem conversar afável e tranquila, ou pressurosa e sobressaltada, com o afago nas mãos, a doçura na boca, a meiguice no semblante, o pensamento na fronte, límpida ou carregada, e lhe saímos do contato, ora seguros e robustecidos, ora transidos de cuidado e pesadume, ora cheios de novas inspirações, e cismando, para a vida, novos rumos? Quantas outras, não somos os que vamos chamar esses leais companheiros de além-túmulo, e com eles renovar a prática interrompida, ou instar com eles por alvitre, em vão buscado, uma palavra, um movimento do rosto, um gesto, uma réstia de luz, um traço do que lá se sabe, e aqui se ignora?

Melhores palavras não poderia Rui Barbosa oferecer aos jovens doutorandos da Faculdade de Direito. Morreu o gigante, pois, plenamente convencido da realidade espiritual apregoada pelos cientistas, cujas obras o Conselheiro lera com vivo interesse.

Infelizmente, ao tempo de Rui Barbosa ainda não haviam aparecido as obras mediúnicas de Francisco Cândido Xavier, caso contrário teria ele dado um parecer. Mas anos depois de seu desencarne, ele próprio veio reafirmar o que dissera na Oração aos moços, fazendo-se porta-voz do Além através da mediunidade de Chico Xavier! A esse respeito, leia-se a obra mediúnica Falando à Terra.

* * *

Como os biógrafos de Rui omitem esse aspecto de sua vida, daremos mais uma prova concludente de sua adesão ao espiritismo.

Quem a fornece, porém, não sou eu; é um católico praticante, o que lhe dá, talvez, maior validade. Trata-se de um depoimento do professor Ataliba Nogueira, secretário da Educação em São Paulo, político renomado e ex-amigo de Rui Barbosa.

Em 1949 pronunciou o professor Ataliba Nogueira uma conferência sobre o Conselheiro, na cidade de Campinas. Pela sua importância foi reproduzida pelo Diário do Povo de Campinas em 6 de novembro de 1949 e pelo Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, em 8 de novembro de 1952.

Ora, estavam numa estação de águas Rui Barbosa, Ataliba Nogueira e inúmeras senhoras e moças. Corria o mês de abril de 1912. A conversa, alegre, de súbito versou sobre a possibilidade dos fatos espirituais. Rui Barbosa já se encontrava em seus aposentos, recolhido. Alguém, então, lembrou-se das experiências com o “copinho”. Todos aprovaram a tentativa de comunicação com o Alto. Aproximaram-se de uma mesa, sobre ela distribuíram em forma circular pedaços de papel, cada qual representando uma letra do alfabeto. No centro, colocaram um copo. O genro de Rui Barbosa, o historiador Antônio Batista Pereira, a um lado, sorria para o grupo. O professor Ataliba Nogueira, porém, católico praticante, reprovava a experiência. Diz ele que o grupo, entre alegria e um pouco de receio, dedicava-se “a uma espécie de distração, de modo algum consoante com as leis religiosas, porém, que as senhoras praticavam como se fosse inocente jogo de damas”. “Inocente jogo de damas”, diz Ataliba Nogueira. Veremos, porém, a que resultados chegaram essas pessoas com o inocente “jogo”.

Mas, deixemos que o próprio Ataliba nos conte:

Certa noite, porém, Antônio Batista Pereira, que assistia à sessão, de pé, disse que o cálice estava denotando alguma inquietação, manifestando, com isso, ter que revelar algum segredo.

Batista Pereira, então, sentou-se à mesa e, com as moças e senhoras, “colocou a ponta do dedo sobre o cálice”, o qual continuava a percorrer as letras, formando sentenças, cujo significado não dizia respeito a nenhum dos presentes.

Terminado o escrito – prossegue Ataliba Nogueira –, verificou-se que era uma mensagem em inglês, dirigida por algum “espírito” ao ilustre hóspede. Ficaram todos estarrecidos, e diante da indecisão geral, Batista Pereira opinou que deviam levá-la imediatamente a Rui. Batem à porta, o Conselheiro, de pijama, recebe o papel e fica emocionado: “É o estilo dele, o estilo perfeito! E o assunto! O mesmo que conversamos em nossa despedida em Haia”. Mas, é possível... Trata-se de William Stead – explica Rui –, o meu amigo e grande jornalista inglês, cuja morte os periódicos noticiam hoje, no afundamento do navio Titanic.

E o professor Ataliba Nogueira, sem meditar na tremenda verdade que o “inocente jogo de damas” revelava (a prova de que continuamos vivos após a morte, e que podemos, como espíritos, falar aos vivos), profundamente tristonho por ver que Rui Barbosa dera autenticidade à mensagem, exclama, talvez com os braços abertos para o público que o ouvia em Campinas:

“E ele (Rui Barbosa) acreditava nestas histórias de espiritismo!”

E não era para acreditar depois de uma prova tão notável? A exclamação de Ataliba Nogueira chega a ser engraçada.

O que o professor Ataliba Nogueira ignorava, infelizmente, é que o genial jornalista William Stead, a quem Rui Barbosa chamava de “o amigo”, fora médium, autor de livros espíritas e um dos mais valentes propagandistas do espiritismo na Europa. Rui o conheceu em Haia e, posteriormente, veio a ler obras espíritas. Não nos diz Ataliba Nogueira qual o conteúdo da mensagem vinda através do “copinho”. Faz apenas Rui Barbosa exclamar, emocionado: “É o estilo dele, o estilo perfeito! E o assunto! O mesmo que conversamos em nossa despedida em Haia”. Que assunto seria? Certamente, a comunicação mediúnica. O melhor meio para identificar-se seria, sem dúvida, voltar ao assunto espírita iniciado com Rui durante a despedida em Haia, e provar, ele próprio, a realidade do fenômeno. Notemos que após o desencarne William Stead comunicou-se (fato notável), imediatamente, com quase todos os seus amigos, inclusive os residentes nos mais longínquos países.

A “prova do copo”, porém, para Rui Barbosa não passava de mais uma diante das centenas de que ele tomara conhecimento através dos cientistas Crookes, Richet, Lombroso, Flammarion e outros.

Compreende-se agora tenha o Conselheiro ardorosamente combatido a Igreja Católica e, ao fim da vida, falando aos moços de São Paulo, apregoado a impotência da morte diante da eternidade chamada “espírito”!

Quanto a Antônio Batista Pereira, conhecido historiador e genro de Rui Barbosa, esqueceu Ataliba Nogueira de nos informar que também se tornou espírita. Mas, o genro de Rui Barbosa, como todo bom espírita, sempre se regozijou em dizê-lo, publicamente.

E agora nossas palavras finais sobre William Stead. A respeito de seu caráter, conta Rui Barbosa que ele tinha “uma independência superior a todos os interesses, uma austereza, que o levou, testamenteiro de Cecil Rhodes, opulência colossal entre os arquimilionários ingleses e americanos, a dar um pontapé nos milhões esterlinos, que o seu testamento lhe assegurava, rompendo com o potentado e o argentário, de quem era o mais prezado amigo, para denunciar os crimes da sua política africana”.

William Stead, considerado o criador da imprensa moderna (entre as suas inovações destaca-se a introdução da ilustração e da entrevista no jornalismo), morreu em 15 de abril de 1912. Seu desencarne revestiu-se de intensa beleza trágica. Tinha Stead 63 anos de idade quando o transatlântico Titanic – o maior navio do mundo, no qual viajava, bateu em um iceberg e começou a naufragar. William Stead, heroicamente, ajudou os tripulantes a salvar crianças e senhoras, enquanto os passageiros – encontravam-se a bordo 2.223 pessoas – corriam de um lado para o outro, gritavam, jogavam-se da amurada do navio ao mar. Depois, já lhe sendo impossível a salvação, Stead ajoelhou-se no convés e, para acalmar a tripulação, começou a cantar o hino religioso Nearer to thee, my God. Em seguida, sentou-se em uma cadeira, enquanto o navio afundava concentrou-se na leitura de um livro espírita – e desencarnou, dando a nós outros um inexcedível exemplo de convicção espírita.

Nota do autor: Para maiores informações sobre William Thomaz Stead, deve o leitor consultar os livros My fatherde sua filha Estelle William Stead, e Live of William Thomaz Stead, de autoria de F. Whyte, além das grandes enciclopédias internacionais, como a Britânica, Webster’s e Larousse. Será, também, de grande proveito a leitura do artigo sobre Stead de autoria de Sílvio Brito Soares, estampado na revista Reformador, edição de julho de 1962. Quanto às famosas experiências mediúnicas de Stead, consultem-se as obras de Denis e Delanne.

Jorge Rizinni do livro:
Escritores e Fantasmas

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