segunda-feira, 8 de junho de 2026

Leme ou âncora

Leme ou âncora

Richard Simonetti



Trabalhador incansável, Justino dedicava-se de corpo e alma ao Espiritismo. Inspirado em nobres ideais, fundara um Centro Espírita. A expressão não define exatamente seu empenho. Muito mais que isso, edificara a sede, organizara os serviços, dirigia as reuniões, cuidava da contabilidade, promovia campanhas, atendia famílias carentes, aplicava passes, doutrinava espíritos e ainda encontrava tempo para cuidar da construção de um abrigo onde seriam amparados cem velhinhos.

Havia poucos colaboradores e reduzida frequência ao Centro, mas isso não importava. Justino sentia-se capaz de dar conta de tudo, como um craque de futebol que, além de jogar em todas as posições, fosse dono e técnico do time.

Preocupado com tantas atividades, que lhe pareciam excessivas para um homem de 63 anos, Alberto, seu irmão mais velho, homem experiente e lúcido, ponderava:

- Justino, você ainda se mata de trabalhar! Distribua as tarefas. Há muita gente que pode e deve ajudar.

- É o que venho fazendo há anos, meu caro, mas está difícil. Raros se habilitam a servir em troca do salário espiritual...

- Talvez seja uma questão de estímulo. Convoque o pessoal. Ressalte a importância dos serviços relacionados com o ideal espírita.

- Também pouco tem adiantado. Nos estudos de “O Livro dos Espíritos”, que desenvolvo em lugar do Armando, desde que se afastou porque não concordei com algumas sugestões, venho demonstrando que o espírita que não serve enquadra-se em vadiagem espiritual. Falo alto, com a força e a veemência dos antigos profetas e sempre tenho a impressão de dirigir-me a uma assembleia de surdos. Ninguém ouve...

- Bem, talvez fosse melhor amenizar um pouco suas perorações. E se convocasse pessoalmente as pessoas? Um envolvimento amigo opera prodígios de boa vontade. Experimente distribuir simpatia antes de oferecer compromissos.

- Qual o quê! Vejo que você não está habituado a lidar com a natureza humana! Rasgar seda pouco resolve. É preciso despertar as consciências. Quando isso acontece surge o servidor.

- Aparentemente tem acontecido com raridade...

- Infelizmente. O pior é que mesmo com os “despertos” não se pode contar. São pouco produtivos e cheios de melindres. Há meses tento passar a tesouraria ao Nunes. Afinal, essa é sua função. Mas não engrena. Além do mais, não confio nele. É muito displicente. O Aurélio, responsável pelo Departamento de Doutrina, não enxerga um palmo adiante do nariz, compelindo-me a organizar e desenvolver todas as atividades. O Bertineli é limitadíssimo na Assistência Espiritual. Sem meu concurso o setor não funciona...

- E nossas irmãs? A alma feminina é muito sensível aos apelos da Caridade. Há inúmeras tarefas que podem desenvolver com proveito.

- E largar sem jeito!... Por sugestão de minha mulher instalamos uma oficina de corte e costura, com promissoras perspectivas, mas ela em breve desistiu, no que foi seguida pelas demais colaboradoras, apenas porque não quiseram se sujeitar à minha coordenação. Cheguei a tentar, eu mesmo, a confecção de roupas para os pobres. Faltou-me tempo e um pouco de experiência.

- E o abrigo, como vai?

- Devagar, mas sempre. No domingo trabalho até como pedreiro, sozinho. Os membros da comissão nomeada para a construção ainda não se decidiram a atuar, discordando de minhas opiniões.

É natural. Não estão habituados a lidar com obras assistenciais.

- Seu empenho é louvável, Justino, mas está na hora de delegar responsabilidades. Você já não tem idade para tantos compromissos.

- Não se preocupe. Vendo saúde. O serviço é meu alimento!

- Cuidado! Não vá se intoxicar...

As ponderações de Alberto eram procedentes. Passados alguns meses, Justino, não suportando a carga de preocupações e serviços, sofreu fulminante enfarte, desencarnando em poucos minutos.

O Centro, com seus serviços variados e precários, certamente soçobraria, qual nave sem rumo.

No entanto, o inesperado aconteceu. Sem a presença do heroico comandante, Nunes assumiu a tesouraria, Aurélio organizou o Departamento de Doutrina, Bertineli dinamizou a Assistência Espiritual, Armando tornou-se notável expositor, a oficina de corte e costura voltou a funcionar com a liderança da esposa e o abrigo, com as iniciativas felizes da comissão e o apoio decidido de uma comunidade espírita florescente, em breve tornou-se feliz realidade.

Na ausência de Justino, que não obstante seus méritos, estava mais para âncora do que leme, a instituição finalmente habilitou-se a singrar os mares abençoados do serviço, com uma tripulação numerosa e operante.

* * *

O Centro Espírita é promissora célula de trabalho, embrião da sociedade futura, onde o empenho da fraternidade será a tônica das ações humanas.

Há dirigentes, entretanto, que conseguem conter a vocação do Centro Espírita com uma liderança autocrática de quem deseja fazer tudo e termina por fazer quase nada.

Richard Simonetti do livro:
Endereço Certo

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domingo, 7 de junho de 2026

Nas lides da direção

Nas lides da direção

Batuíra


“... Servindo-os, não quando vigiados para agradar a homens, mas como servos de Cristo, que põem a alma em atender à vontade de Deus.” (Efésios 6:6)
“Quem dirige nunca agrada a todos.”

Na tarefa da direção de qualquer empreendimento, seja na área filantrópica, seja na religiosa, seja na financeira, quem segue à frente quase sempre leva os louros dos elogios justificados ou as críticas maldosas e sem nenhum fundamento.

No entanto, quando temos um propósito inabalável e uma consciência tranquila, podemos nos proporcionar o direito de ignorar aplausos e acusações indébitas.

O dirigente deverá prosseguir, estabelecendo sempre o ritmo de seus empreendimentos e realizações segundo seus próprios passos; e fundir, no exercício desse mister, amor e ponderação, entendimento e determinação, para que a equipe da qual participa e orienta não hesite diante das decisões e metas assumidas em grupo.

Muitas vezes, por falta de confiança em si mesmo, o líder deixa-se envolver por opiniões alheias, perdendo assim a visualização do objetivo maior.

A obra pertence ao Cristo e não a nós. Quem comanda, porém, deve dar conta da importância do trabalho que está em suas mãos.

O condutor não poderá olvidar que não ficará melhor nem pior com as condecorações da aprovação ou com os gestos da censura e reprovação dos outros.

Continuará sendo ele mesmo, com seu modo de atuar e com suas possibilidades naturais de sustentar a obra.

Os que lideram não devem olhar para trás o tempo todo, pois fica quase impossível caminhar com segurança e trabalhar para o engrandecimento da organização com os olhos voltados para antigos desentendimentos e dissabores provocados pela opinião das pessoas.

É muito difícil ser produtivo quando estamos constantemente preocupados com o que os outros estão falando ou julgando de nossa atuação e capacidade. Grandes realizadores ficam acima das maledicências e não permitem que elas prejudiquem suas atividades cristãs.

Se o Mestre Querido não conseguiu agradar a todos, quem somos nós para querer atingir tamanho objetivo? Não será pretensão de nossa parte?

Contudo, não nos esqueçamos de que, quando operamos em equipe e obtemos sucesso, devemos considerar-nos dignos de comemorar a vitória.

Essas comemorações não devem ser suprimidas e proibidas, mesmo quando criaturas inescrupulosas as denominem de atitudes orgulhosas ou de elogios egoísticos. Expressar sentimentos de alegria e união compartilhados por toda a equipe é prática salutar que nunca deve ser abafada.

De acordo com a feliz expressão do apóstolo, “não somos convocados para agradar a homens”, mas sim para atender “à vontade de Deus”. Dessa forma, se adotarmos efetivamente o aprendizado com o Mestre Jesus, penetrando o santuário da alma dentro de nós mesmos, aí encontraremos as noções de ponderação e senso de justiça aplicáveis nas lides de direção que o Senhor nos destinou. Em razão, pois, desse trabalho de liderança, não devemos dar ouvidos às conversações descabidas, que proporcionam desentendimento e balbúrdia.

Evitemos mágoas e ressentimentos para manter o equilíbrio do grupo na força comum. Reduzindo a atmosfera de instabilidade, com nossas preces e obrigações do dia a dia, imediatamente começaremos a aliviar as tensões negativas nas áreas de ação no bem, às quais estamos vinculados no labor de
nossa redenção.

Batuíra 
por Francisco do Espírito Santo Neto do livro:
Conviver e melhorar

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sábado, 6 de junho de 2026

A ciência da oração

A ciência da oração

Miramez



A prece é uma ciência divina, que todos podemos compreender. Ela vem de eras remotas, vencendo o tempo e escalando espaços.

Muitas coisas são esquecidas pelos homens, entretanto, a oração permanece. Ela nos ajuda, nas horas difíceis, a suportarmos e superarmos as dificuldades. Ela assiste a nossa chegada à Terra e, também, a nossa partida. Tanto os desencarnados como os que vivem no mundo das formas a usam como súplica ou agradecimento, pois ela atende aos dois planos de vida.

Jesus usou largamente a oração e ensinou aos seus discípulos a orar, dando-lhes um molde que ficou na história de todos os povos cristãos da Terra e que é exercida com todo o respeito nos planos que habitamos. A prece é uma força espiritual que nos capacita para todos os trabalhos e nos ajuda em todas as atividades que nos compete realizar.

Orar é uma ciência sobremaneira divina. Quando aprendermos seus reais valores, estaremos de posse da verdadeira senda da iniciação, como o caminho para os mundos superiores. Alcançamos com a prece a dimensão maior, onde poderemos sorver o elixir da longa vida e a substância que garante a nossa paz.

Quem aprendeu a orar tem sempre em seus lábios o sorriso de contentamento, não reclama dos acontecimentos, aceita o que vier a surgir em seu caminho, lutando para melhorar sem a extravagância da violência. Quem se afeiçoou à oração não fere a ninguém, nem ofende com as injúrias, porque o coração vive em paz, paz esta haurida na prece sob o comando do amor. Quem confia na súplica jamais se esquece do seu dever para com Deus e o próximo, e alimenta todo ânimo que incentiva à fraternidade.

Este livro só poderia terminar suas singelas páginas com algo sobre a oração, pelo respeito que temos a essa virtude, a esse gesto de luz, em cuja difusão todos os grandes espíritos se empenham.

Somos muitos os espíritos que trabalhamos no sentido de anunciar o valor da oração, bem como e, certamente, a sua grande ciência. A prece não é como muitos pensam ser: palavras que saem dos lábios, simples sons articulados. Ela é o veículo por onde chega até nós o energismo divino, desde quando os sentimentos estejam em plena concordância com o amor.

Deveis, no momento de orar, entregar-vos à Divindade e sentir como se estivésseis diante de Jesus, ouvindo e vivendo com Ele os Seus mais altos conceitos de caridade, de perdão e de fraternidade universal. Não existe cura verdadeira sem oração. Eis porque, em todos os métodos de cura, nós a usamos para alcançar o beijo da luz de Deus, que se transforma em nosso peito em magnetismo animal, para curar os nossos semelhantes. Essa composição sobremodo superior é feita pela força do amor. O trabalho também é uma prece, mas não podemos esquecer a prece da gratidão, que sobe em busca do Criador em forma de reconhecimento.

Se todas as ciências do mundo procurassem estudar e compreender a ciência da oração, os caminhos da vida ficariam mais fáceis de serem trilhados e os ajustes científicos mais seguros nas suas diretrizes. Ela pode entrar em tudo no mundo, desde o alvorecer do dia no acervo de lutas do camponês até os altos gabinetes dos dirigentes das nações. A prece sempre nos ajuda a fazermos o melhor; ela é uma lei espiritual e deveria estar presente em todos os labores da vida
física.

Quem ora nos moldes do Evangelho é cheio de esperança e acredita nos altos conceitos do amor, passando a compartilhar a paz com a fraternidade universal. Quem ora acende uma luz e quem conhece a ciência da oração descobre um sol, que é Deus em Jesus e Jesus em nós.

Miramez por João Nunes Maia do livro:
Saúde

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Perdão

Perdão

Hammed


O julgamento precipitado pode vir a ser o "fracasso da compreensão", porque perdoar é, acima de tudo, a habilidade de compreender dificuldades.

O autoperdão consiste em fazer o nosso melhor hoje, abandonar as mágoas do passado e curar as dores do presente e, ao mesmo tempo, legitimar nossos projetos de vida para o futuro.

O passado passou e o único momento que temos é o agora.

Basta utilizarmos o perdão e, imediatamente, começaremos a sentir conforto e alívio, pois descarregamos os pesados fardos de culpa, vergonha e perfeccionismo.

Quando erramos, é necessário primeiramente admitir as nossas fraquezas e, em seguida, pedir aos outros que relevem nossas falhas. Somente a partir desse ponto, é que começamos a desfazer as técnicas defensivas e a facilitar a boa comunicação, evitando, assim, a morte do diálogo reconciliador.

O autoperdão é um estado da alma que emerge de nossa intimidade, fazendo-nos aceitar tudo que somos sem nenhum prejulgamento. É quando passamos a entender que nossos aparentes defeitos são, só e exclusivamente, potenciais a ser desenvolvidos. Por sinal, o julgamento precipitado pode vir a ser o "fracasso da compreensão", porque perdoar é, acima de tudo, a habilidade de compreender dificuldades.

À medida que perdoamos nossos desacertos, começamos também a perdoar as faltas dos outros. Quanto mais compreendermos o outro, avaliando e validando o que ele pensava e como se sentia na hora da indelicadeza, mais facilmente aprenderemos a nos perdoar. O ato do não perdão a nós mesmos nos acarreta a permanência nas sensações desagradáveis e nas energias negativas - resquícios dos dissabores e desencontros da vida.

Perdoar-nos leva ao cultivo do amor a nós mesmos e, por consequência, aos outros; enfim, é a base que mantém a humanidade íntegra e solidária. O autoperdão nos conduz à aceitação plena de nossas potencialidades ainda não desenvolvidas - seja de natureza intelectual, seja de natureza psíquica e emocional - e a uma compreensão maior de que as experiências evolutivas nada mais são que a soma de acertos e erros do passado e do presente.

Os erros acabam-se transformando em lições preciosas e deles podemos retirar as bases seguras para o êxito no futuro.

"Deus não age jamais por capricho e tudo, no Universo, está regido por leis em que se revelam a sua sabedoria e a sua bondade."  (1)

"A sabedoria e a bondade de Deus" se refletem constantemente nos atos e atitudes de Jesus de Nazaré. No episódio ocorrido na casa do fariseu Simão, uma prostituta atira-se aos pés do Mestre, cobrindo-os de beijos, lavando-os com suas lágrimas, enxugando-os com seus cabelos e untando-os com um óleo perfumado. Ela é perdoada incondicionalmente: "(...) seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor. Mas aquele a quem pouco foi perdoado mostra pouco amor". (Lucas, 7:36-50)

Deus estava com Jesus e Ele com o Pai; por isso amava, perdoava, estimulava e incentivava a todos sem qualquer distinção.

A Bondade e a Sabedoria Providencial está e sempre esteve nos amando e perdoando, não importa o grau da escala evolutiva em que estamos situados ou o que estejamos fazendo. O amor o da Misericórdia Divina é incondicional - não depende de nenhum tipo de restrição ou limitação. Ama, simplesmente por amar.

Uma introspecção a respeito desse amor incondicional que a Divindade tem para conosco é extremamente importante para o autoperdão. Se Deus nos ama e nos aceita como somos hoje, por que haveríamos de tomar uma atitude contrária à postura divina? Entretanto, o autoperdão não significa paralisarmos nossas atividades evolutivas, acomodando-nos em nossas deficiências, fragilidades ou incapacidades, mas, sim, libertar-nos dos fardos pesados da autopunição que carregamos desnecessariamente.

O autoperdão nos traz paz de espírito, habilidade para amar e ser amados e possibilidades para dar e receber serenidade. Ele nos livra do cultivo de uma fixação neurótica em fatos do passado, o qual nos impede o crescimento no presente.

Perdoar-nos elimina a ideia fixa no remorso por algo que aconteceu ontem e a ansiedade do que poderá ser revelado ou vir a acontecer amanhã.

Hammed por Francisco do Espírito Santo Neto do livro:
Os prazeres da alma

(1) Questão 1003 - O Livro dos Espíritos - Kardec, Allan

A duração dos sofrimentos do culpado, na vida futura, é arbitrada ou subordinada a alguma lei?

"Deus não age jamais por capricho e tudo, no Universo, está regido por leis em que se revelam a sua sabedoria e a sua bondade."

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