quinta-feira, 23 de julho de 2026

Vida e obra de Hermínio C. Miranda

Vida e obra de Hermínio C. Miranda

Yeda Hungria - Correio Fraterno (11/08/21).


Hermínio Correa de Miranda

Hermínio Corrêa de Miranda, um dos mais cultos e ilustres escritores espíritas do Brasil, deu ao longo dos seus 93 anos pouquíssimas entrevistas, dentre elas esta, concedida à jornalista Yeda da Hungria, que o Correio Fraterno publicou em setembro de 1995 e agora, resumidamente, trazemos para a 500ª edição do jornal.

Hermínio Miranda assim se apresenta:

Sou uma pessoa sem biografia. Nasci em 1920, em Volta Redonda, RJ, de família modesta. Não tínhamos o supérfluo, mas o essencial nunca nos faltou. Tenho pouca escolaridade formal. Fiz um curso primário muito rápido, compactado em poucos anos. Vim para Minas Gerais porque em Volta Redonda não havia escolas adequadas e muito menos ginásio. Meu padrinho patrocinou-me a instrução em Baependi e, depois, em Caxambu. Em 1933, fui para Barra Mansa, onde cursei o ginásio. Só na década de 1940 cursei contabilidade. Já era casado, com a primeira filha nascida, e trabalhando. Minha escolaridade é apenas essa. O resto é uma curiosidade insaciável de aprender línguas, de ler tudo quanto puder para ampliar conhecimentos. Tornei-me um bom profissional. Entrei para os serviços da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, em 1942, com 22 anos de idade e, de simples auxiliar de escritório cheguei a diretor, em 1967.

Como nasceu seu interesse pela doutrina espírita?

Mamãe criou os dez filhos na religião católica. Era uma pessoa de bom senso e inteligente, dotada de razoável formação cultural. Estudou em colégio de freiras. Ela nos ensinava, em casa, a ler e a escrever e, também, um pouco de aritmética. Íamos para o colégio já sabendo um pouco de cada coisa. Dizia-nos que, enquanto estivéssemos sob sua responsabilidade, seríamos católicos, depois disso, que cada um seguiria seu rumo. Comecei a ler na adolescência. Lembro-me da impressão que me causou Schopenhauer, cujas ideias me pareciam brilhantes. Passei a questionar os ensinamentos da Igreja e suas práticas. Um dia, algumas pessoas da família fizeram a clássica reunião mediúnica com o copinho, e me impressionou observar como ele se movimentava, escolhendo as letras e construindo palavras e frases. Por essa época, fui, a trabalho, para os Estados Unidos. Retornei cinco anos depois, decidido a estudar aquele fenômeno. Procurei um amigo que eu sabia espírita, o cel. Euclides Fleury, colega de trabalho na Siderúrgica, que me deu uma pequena lista de livros, a partir das cinco obras básicas da codificação. Ao ler O Livro dos Espíritos, tive a impressão de que já o conhecia. Anos depois, comentando o assunto com Divaldo Franco, ele me disse que, em encarnação anterior, eu vivera em Paris e até chegara a conhecer Kardec, com o qual estivera pessoalmente, mais de uma vez, propondo-lhe perguntas e trocando ideias com ele. Posteriormente, por certos meios, essa informação me foi confirmada e eu soube que fora um soldado inglês que vivera em Paris entre 1851 e 1866, os quinze anos finais daquela existência. Daí não me ser estranho O Livro dos Espíritos. 

O que o levou à produção de livros espíritas?

Quando comecei a ler e a estudar a doutrina, senti o impulso de partilhar com os outros as coisas que eu estava aprendendo e que me estavam sendo tão esclarecedoras. Assim, em 1956, arrisquei-me a escrever um pequeno artigo e o mandei para o Reformador. Publicaram-no. Aquele foi um momento decisivo para mim, porque se a matéria houvesse sido rejeitada, talvez eu me tivesse desencorajado de escrever. De 1958 em diante, durante 22 anos, escrevi para o Reformador. Às vezes, estampavam até três artigos meus no mesmo número. Foi, aliás, por essa época que o dr. Wantuil me sugeriu que adotasse também um pseudônimo. Escolhi o de João Marcus. Em seguida, vieram os livros, que foram tendo boa aceitação. 

Qual o livro que lhe exigiu maior trabalho de pesquisa?

Cada livro é uma criança, um filho. Primeiro, a gestação, as dores, o trabalho, as angústias e as alegrias, naturalmente. Um livro que me exigiu muito foi Eu sou Camille Desmoulins, pois decidi confirmar as revelações de Luciano dos Anjos. Eram minúcias, detalhes, problemas miúdos da Revolução Francesa. Foram anos de pesquisas, refletidas na quantidade de notas complementares acrescentadas ao texto básico. Cada livro tem sua pesquisa específica. O que estou escrevendo, por exemplo, exigirá bastante trabalho. Farei um levantamento detalhado da obra de Fénelon, além de buscar mais amplas informações biográficas a respeito dele, o que não tem sido fácil. O evangelho gnóstico de Tomé foi também obra que consumiu longas horas de estudo e pesquisa. Em Alquimia da mente, foram muitos os apoios de que necessitei para as teorias que nele desenvolvo. Já os livros mais simples, como Nossos filhos são espíritos, dispensam pesquisas de maior vulto, pois tratam de depoimentos mais do que de citações eruditas. 

Em uma de suas obras são mencionados os manuscritos do Mar Morto, documentos com ensinos dos essênios e que teriam influenciado o pensamento cristão. Em outras, são citados os achados de Nag Hammadi, no Alto Egito, cópias de textos cristãos primitivos. Qual a relação entre esses documentos? 

Os manuscritos de Nag Hammadi originam-se de uma comunidade reconhecidamente gnóstica. O gnosticismo foi um movimento paralelo ao cristianismo primitivo, ocorrido entre os anos 120 e 240, século 2 e 3, portanto; os do Mar Morto, descobertos em 1947, referem-se a uma seita judaica e seus rituais e procedimentos e, segundo os historiadores, anterior ao cristianismo. Ainda hoje se discute se seus membros eram ou não essênios. Há muito livro bom a respeito disso, como os dos eruditos franceses Charles Guignebert e Maurice Goguel, além de autores mais recentes. Tenho a impressão de haver vivido lá, naquela época; daí porque vagas e imprecisas lembranças me agitam durante a leitura desse material e mexem com minhas emoções. É um tema que me atrai e, como disponho de textos importantes sobre a época, pretendo ainda trabalhá-lo. Não sei, porém, se terei tempo suficiente para escrever um livro a respeito. Anos atrás, eu participava de um grupo mediúnico familiar, no Rio de Janeiro. Numa sessão de regressão de memória, um amigo e eu discutimos a possibilidade de mergulhar nas lembranças ocultas de cada um de nós, a fim de pesquisar a história do cristianismo primitivo. Esse companheiro me dissera, numa das regressões, que, no primeiro século, eu havia sido judeu e ele, romano. Programamos reunir nossas reminiscências pessoais. Um dos aspectos que eu pretendia estudar era justamente a história dos essênios — quem eram, o que faziam, como pensavam e o que pretendiam. Infelizmente o projeto não foi adiante. A tese, contudo, é válida e espero demonstrá-la um dia, senão desta vez, em alguma existência futura, se isso for permitido. Não creio que o Cristo haja sido um essênio, como especula, entre outros, Édouard Schuré. João Batista, sim, parece tê-lo sido. 

Os evangelhos canônicos citam superficialmente Tiago e Judas Tadeu como irmãos de Jesus. Determinadas correntes religiosas os consideram primos. O que revelam suas conclusões?

Tenho encontrado evidências convincentes de que Jesus teve vários irmãos e irmãs. O assunto é tratado com maior amplitude em meu livro Cristianismo, a mensagem esquecida. Quanto a Judas Tadeu, o problema é complexo, porque os textos gnósticos, escritos em copta [egípcio antigo] colocam Tadeu como irmão gêmeo de Jesus, pois o nome Tomé quer dizer gêmeo, tanto quanto Dídimo (em grego). Em suma, Tadeu, Dídimo, Tomé são nomes aparentemente atribuídos à mesma pessoa. É difícil aceitar, contudo, que Jesus haja tido um irmão gêmeo, a não ser em sentido figurado, como alguém muito ligado a ele, uma espécie de alter-ego. Esse aspecto foi abordado por mim em O evangelho gnóstico de Tomé. Quanto a Tiago Maior, contudo, os textos das Epístolas de Paulo e de Atos dos Apóstolos são claros em colocá-lo como um dos irmãos de Jesus. Quando Paulo e Barnabé foram a Jerusalém, no ano 49, a fim de obter a chamada Carta Apostólica, isto é, a permissão para pregar o cristianismo aos gentios, dispensadas, porém, certas práticas formalistas do judaísmo, a decisão final foi de Tiago, irmão de Jesus, como afirma Paulo, sem rodeios. Ao que tudo indica, trata-se, inquestionavelmente, de irmãos de sangue. 

As pesquisas nos textos gnósticos originaram o livro O evangelho de Tomé — título mudado para O evangelho gnóstico de Tomé, na segunda edição. Pretende você escrever sobre os demais textos gnósticos?

Sim, existe ainda muito material no volume The Nag Hammadi Library — a tradução em língua inglesa dos textos coptas — que não foi aproveitada em O Evangelho gnóstico de Tomé, mas tenho de estabelecer prioridades na ordem dos escritos. Projetos, tenho vários. Gostaria, se possível, de escrever três ou quatro livros simultaneamente, porque são muitos os temas que me atraem, mas há limitações incontornáveis a respeitar. A tradução inglesa oferece material riquíssimo, como os escritos atribuídos a Pedro e a Felipe e a outros trabalhadores da primeira hora. Alguns aspectos podem até ser algo fantasistas, mas precisam ser estudados com vagar, mesmo porque, em muitos pontos relevantes, confirmam passagens evangélicas consagradas nos textos vigentes ou as modificam significativamente. Maria de Magdala, por exemplo, apresenta-se nesses documentos como uma presença muito mais marcante do que a gente poderia supor à vista da relativa descrição dos textos digamos ‘oficiais’ que nos chegaram. Ela era dotada de poderosa mediunidade e exerceu papel preponderante no grupo de pessoas mais chegadas a Jesus. Deveria ser considerada, com todo direito, legítimo apóstolo. É uma figura pela qual tenho uma grande admiração. Em Cristianismo, a mensagem esquecida escrevi uma página arrancada do fundo do coração, sobre ela.

Na sua obra Eu sou Camille Desmoulins, é narrada a regressão de memória com Luciano dos Anjos. Numa das passagens, vamos encontrá-lo em Paris, durante o período da Revolução Francesa. Você lhe solicita uma informação da época e ele, desconhecendo-a, vai a algum lugar buscá-la. Como se explica isso?

Recebi, em envelope fechado, uma pergunta, cujo teor Luciano ignorava e que lhe deveria ser feita depois que ele já estivesse em transe. Somente depois de ter ele alcançado esse estado, portanto, abri o envelope e tomei conhecimento do seu conteúdo. Tratava-se de perguntar a Luciano, já regredido à condição de Desmoulins, qual a frase que dissera durante um jantar, com amigos. Ele observou que não se lembrava, pois dissera e escrevera muitas frases de efeito e não sabia a qual delas se referia a pergunta formulada, aliás, por Murillo Alvim, seu amigo pessoal e professor de desenho anatômico. Quis saber, a seguir, se eu julgava importante o atendimento à pergunta. Afirmei-lhe que sim, porque seria um elemento a mais para conferirmos os dados que ele vinha revelando. Disse-me então: "Espera, que eu vou lá." Apliquei-lhe mais passes e ele aquietou-se e permaneceu em silêncio por alguns momentos. Em seguida, me disse: "Já estou aqui. O que é mesmo que você quer saber?”. A partir daquele momento, ele não estava mais se lembrando do ocorrido; ele se encontrava em algum lugar na interseção tempo/espaço, no qual era capaz de resgatar os eventos como se estivessem documentados. Relatou, então, o clima de tensão vivido naquela fase da Revolução, que começava a devorar-se a si mesma, destruindo seus próprios líderes. Encontravam-se reunidos num jantar ele, Danton, as respectivas esposas e amigos, todos muito tensos. Dirigindo-se a Danton, lembrou-lhe num versículo da epístola de Paulo: "...comamos e bebamos, que amanhã estaremos todos mortos”. Falou em latim, para que as demais pessoas não percebessem o estado emocional em que se encontravam. Esse é o episódio. Não sei como explicá-lo. Em A memória e o tempo digo que o tempo é também um local. Ambos, tempo e espaço, para mim, têm algo em comum. 

Para encerrar, gostaria que esclarecesse o conceito de tempo apresentado em seu livro A memória e o tempo.

Gostaria muito de poder fazê-lo, mas não me sinto suficiente para isso. Acho que teríamos de sair do contexto de espíritos encarnados em que nos encontramos. Parecem-me conceitos que somente podem ser apreendidos pela intuição; impossível fazê-lo pelo raciocínio lógico, limitador por natureza. Vivemos numa dimensão na qual as coisas são lineares e sequenciais e, pelo que se sabe, no mundo espiritual a visão é substancialmente diversa, como se isso que separamos em momentos — presente, passado e futuro — fossem meros aspectos de uma só realidade atemporal. Reconheço ser muito difícil, para nós, prisioneiros da matéria, entender que não existe passado ou futuro, que tudo isso é uma realidade única, uma espécie de eterno presente de que falam alguns. Seja como for, concordemos ou não, compreendamos ou não, essa é a difícil, mas irrecusável mensagem da profecia, uma sólida realidade que a parapsicologia procurou colocar no nicho classificatório da precognição. 

Pela Correio Fraterno, Hermínio C. Miranda publicou:  A irmã do vizir, O exilado, A dama da noite, As mãos de minha irmã, O que é fenômeno mediúnico?, O que é fenômeno anímico? e Os procuradores de Deus.

Vida e obra de Hermínio C. Miranda por Yeda Hungria
 Correio Fraterno (11/08/21).

Fonte: https://correio.news/entrevista/vida-e-obra-de-herminio-miranda

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

Correio News - Ago. 21.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O médico e o fiscal

O médico e o fiscal

Hilário Silva


Imagem gerada por IA

— Se possível, acelere um pouco a marcha.

Era o abnegado médico espírita, Dr. Militão Pacheco, que rogava ao amigo que o conduzia por gentileza.

E acrescentava:

— O caso é crupe.

O companheiro ao volante aumentou a velocidade, mas, daí a momentos, um fiscal apitou.

O carro atendeu com dificuldade e, talvez por isso, a motocicleta do guarda sofreu pequeno choque sem consequências.

O policial, porém, não estava num dia feliz e o Dr. Pacheco com o amigo receberão uma saraivada de palavrões.

Notando que não reagiam, o funcionário fez-se mais duro e declarou que não se conformava apenas com a multa.

Os infratores estavam detidos.

O Dr. Pacheco deu-lhe razão e informou que realmente seguiam com pressa para socorrer um menino sem recursos, rogando, humilde, para que a entrevista com a autoridade superior fosse adiada.

— Se o senhor é médico — disse o interlocutor, com ironia —, deve proceder disciplinadamente, sem sair do regulamento. Para ser franco, se eu pudesse, meteria os dois, agora, no xadrez.

Embora o amigo estivesse rubro de indignação, o Dr. Pacheco, benevolente, fez uma proposta.

O guarda deixaria, por alguns instantes, o veículo, e seguiria com eles no carro, mantendo vigilância.

Depois do socorro ao doentinho, segui-lo-iam para onde quisesse.

Havia tanta humildade na súplica, que o fiscal concordou, conquanto repetisse asperamente os insultos.

— Aceito — exclamou —, e verificarei por mim mesmo. Ando saturado de vigaristas. E creio que, se estão agindo com mentira, hoje dormirão no Distrito.

A motocicleta foi confiada a um colega de serviço e o homem entrou, seguindo em silêncio.

Rua aqui, esquina acolá, dentro em pouco o carro atingiu modesta residência na Lapa, em S. Paulo.

Os três entram por grande portão e caminham até encontrar esburacado casebre nos fundos.

Mas, ao ver o menino torturado de aflição nos braços de infeliz mulher, o bravo fiscal, com grande assombro dos circunstantes, ficou pálido e com os olhos rasos de água.

O petiz agonizante e a jovem senhora sem recursos eram seu próprio filhinho e a sua própria esposa que ele havia abandonado dois anos antes...

Hilário Silva do livro:
Almas em Desfile de Chico Xavier / Waldo Vieira
Hilário Silva é o pseudônimo de um estudioso e aplicado Espírito por intermédio do Espírito André Luiz, de quem foi parceiro de trabalho e estudo para assistência aos irmãos habitantes das regiões umbralinas. Desde o início de sua participação na divulgação do ideal espírita, Hilário Silva compreendeu a necessidade de renovação que a popularização da Doutrina demanda, exige novas formas de pensamento para apresentar e ensinar os caminhos para transformação justa da vida. Autor de diversas obras ditadas a partir do mundo espiritual, como Almas em Desfile e A Vida Escreve, editadas pela FEB.
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terça-feira, 21 de julho de 2026

Tua Honestidade

Tua Honestidade

Ayrtes


Imagem gerada por IA.

Queremos conversar sobre honestidade. Como é bom nos lembrarmos da virtude que edifica, que consola e que instrui, porque favorece nosso entendimento em todas as áreas do saber! Quando é formado um lar, sempre se lembra da probidade entre as criaturas que fazem parte da casa; a família que não fala, nem alimenta a decência, perde a direção dos seus mais belos caminhos para a legítima unificação. Compreendamos, pois, a necessidade do esforço próprio na aquisição dos sentimentos de honra, sem que o exagero ultrapasse os limites da modéstia.

O teu mundo de maior valor é a tua casa íntima, que deve ser cuidada pelo Espírito que nela habita; e quem não sabe o melhor caminho a seguir? Nenhuma criatura é analfabeta no conhecimento do bem e do mal. O homem comum, quando ofendido, usa da defesa que lhe é própria: às vezes, reage com as armas da sua predileção - violência física ou palavrões; se sabe que foi ofendido, conhece o bem e o mal; quando é envolvido pelo afeto, dispensa carinhos. É dai que partimos para a educação, que nos cria um bem-estar indizível, usando o modelo do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Encontramos nele todas as modalidades que o amor nos propicia, para um bom comportamento com aqueles que nos amam e com quem nos ofende e calunia.

Sejamos honestos com nós mesmos, procurando uma postura altamente elevada em todos os meios onde estivermos, porque a dignidade não é conduta fantasma, é realidade para os que exercitam a verdadeira fraternidade. A tua casa e a tua família têm mais necessidade de honestidade, do que mesmo de vestes; de amor, do que de comida; de trabalho do que mesmo de descanso. Não deves levar pelo campo da ofensa o que ouves ou lês; quem está escrevendo é mais carente do que está dizendo e pede sempre orações dos que vivem no mundo da carne; precisamos trocar experiências em todo o aprendizado, por sermos todos filhos do mesmo Pai de Bondade e de Amor. Uma criatura honesta é admirada não somente pelos homens, mas também pelos céus.

A nossa palavra-chave desta conversa é a Fala. Falamos muito, e na tua casa sempre há gente falando; a urgência que deves ter em teu lar é o de ouvir o que se Fala, para consertar o que se diz fora do que se deve dizer. Aos pais compete essa missão: de ouvir o que falam os filhos, e, nesse exame, verificar qual o exemplo de que eles estão precisando. Proferir palavras indecorosas em um ninho familiar é favorecer a indisciplina, é tecer no ambiente invisível um magnetismo inferior capaz de irritar as criaturas que nele vivem, criando inimizades, de onde provém a separação. É muito útil que todos aprendam a usar a palavra na sua mais alta função de ajudar; o verbo educado abre caminhos para a fraternidade verdadeira.

Não deves aludir a ninguém, principalmente em teu lar, com agressividade; procura os recursos dentro do teu coração, inspirado no Amor, que com facilidade fluirão os pensamentos de paz e entendimento, de caridade e de compreensão, para que a tua Fala seja de luz, mantendo a harmonia em tua casa e em teu íntimo. Confere tudo o que vais falar, e ao dizer as palavras, lembra-te de que, se fosse Jesus, o que Ele falaria em teu lugar. Basta isso para aprenderes a falar.

Ayrtes por João Nunes Maia do livro:
Tua casa

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segunda-feira, 20 de julho de 2026

O juiz reformado

O juiz reformado

Neio Lúcio


Imagem gerada por IA

Como houvesse o Senhor recomendado nas instruções do dia muita cautela no julgar, a conversação em casa de Pedro se desdobrava em derredor do mesmo tema.

— É difícil não criticar — comentava Mateus, com lealdade —, porque, a todo instante, o homem de mediana educação é compelido a emitir pareceres na atividade comum.

— Sim — concordava André, muito franco —, não é fácil agir com acerto, sem analisar detidamente.

Depois de vários depoimentos, em torno do direito de observar e corrigir, interferiu Jesus sem afetação:

— Inegavelmente, homem algum poderá cumprir o mandato que lhe cabe, no plano divino da vida, sem vigiar no caminho em que se movimenta, sob os princípios da retidão. Todavia, é necessário não inclinar o espírito aos desvarios do sentimento, para não sermos vitimados por nós mesmos. Seremos julgados pela medida que aplicarmos aos outros. O rigor responde ao rigor, a paciência à paciência, a bondade à bondade...

E, transcorridos alguns instantes, contou:

— Quando Israel vivia sob o governo dos grandes juízes, existiu um magistrado austero e violento, em destacada cidade do povo escolhido, que imprimiu o terror e a crueldade em todos os serventuários sob a sua orientação. Abusando dos poderes que a lei lhe conferia, criou ordenações tirânicas para a punição das mínimas faltas. Multiplicou infinitamente o número dos soldados, edificou muitos cárceres e inventou variados instrumentos de flagelação.

O povo, asfixiado por estranhas proibições, devia movimentar-se debaixo de severa fiscalização, qual se fora rebanho de bravios animais. Trabalharia, descansaria e adoraria o Senhor, em horas rigorosamente determinadas pela autoridade, sob pena de sofrer humilhantes castigos, nas prisões, com pesadas multas de toda espécie.

Se bem mandava o juiz, melhor agiam os subordinados, cheios de natural malvadez.

Assim foi que, certa feita, dirigindo-se o magistrado, alta noite, à casa de um filho enfermo, foi aprisionado, sem qualquer consideração, por um grupo de guardas bêbedos e inconscientes que o conduziram a escura enxovia que ele mesmo havia inaugurado, semanas antes. Não lhe valeram a apresentação do nome e as honrosas insígnias de que se revestia. Tomado por temível ladrão, foi manietado, despojado dos bens que trazia e espancado sem piedade, afirmando os sentinelas que assim procediam, obedecendo às instruções do grande juiz, que era ele próprio.

Somente no dia imediato foi desfeito o equívoco, quando o infeliz homem público já havia sofrido a aplicação das penas que a sua autoridade estabelecera para os outros.

O legislador atribulado reconheceu, então, que era perigoso transmitir o poder a subalternos brutalizados e ignorantes, percebendo que a justiça construtiva e santificante é aquela que retifica ajudando e educando, na preparação do Reinado do Amor entre os homens.

Desde a singular ocorrência, a cidade adquiriu outro modo de ser, porque o juiz reformado, embora prosseguisse atento às funções que lhe competiam, ergueu, sobre o tribunal, a benefício de todos, o coração de pai compreensivo e amoroso.

Lá fora, brilhavam estrelas, retratadas nas águas serenas do grande lago. Depois de longa pausa, o Mestre concluiu:

— Somente aquele que aprendeu intensamente com a vida, estudando e servindo, suando e chorando para sustentar o bem, entre os espinhos da renúncia e as flores do amor, estará
habilitado a exercer a justiça, em nome do pai.

Neio Lúcio por Chico Xavier do livro:
Jesus no Lar

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