domingo, 30 de agosto de 2026

Uma venerável instituição

Uma venerável instituição

Humberto de Campos


Imagem gerada por IA.

02 de agosto de 1937.

Parecerá estranho que os Espíritos desencarnados volvam à Terra para visitar as instituições humanas, velando pelo mecanismo dos seus trabalhos e agindo, indiretamente, nas suas deliberações.

A verdade, porém, é que isso constitui um acontecimento natural. Se os vivos continuam os trabalhos daqueles que os antecederam na jornada da morte, as almas do mundo invisível, nos planos em que me encontro, têm de voltar, em sua maioria, às lutas terrestres. Todas as edificações de uma época têm as suas bases profundas nas épocas que a precederam.

Nenhum homem pode criar, por si só, alguma coisa e sim desenvolver os princípios encontrados, aproveitando o material disperso para continuar a obra evolutiva, imprimindo-lhe a expressão do seu pensamento pessoal. 

Mesmo o inventor e o artista, com as largas reservas de possibilidade e paciência que os séculos de experiências acumularam nos escaninhos de suas personalidades, estão englobados nessa classificação. É que o progresso é uma obra coletiva. Cada criatura deixa uma nota na sua admirável sinfonia. As eras se interpenetram umas às outras, tal como se confundem, no oceano largo do tempo, os vivos e os mortos. A vida é o resultado das trocas incessantes e o insulamento é a única morte no concerto universal.

É considerando essas verdades que me tenho dedicado a conhecer, dentro das minhas possibilidades, as instituições dos homens, voltando para falar delas com a minha linguagem característica, evitando o terreno do transcendentalismo, para fornecer, espontaneamente, a minha carteira de identificação.

*

Nas proximidades do edifício do Tesouro Nacional, na Avenida Passos, ergue-se a Federação Espírita Brasileira, guardando, na cidade maravilhosa, as grandes tradições da caridade e da esperança, filhas do coração de Ismael, cujo pensamento inspira as atividades do Evangelho nas terras de Santa Cruz.

Já tive ocasião de manifestar o meu respeito por essa instituição venerável, cujas portas se abrem generosas para os famintos do pão espiritual e para os necessitados do corpo, ao lado do formigueiro humano, onde se agitam cerca de dois milhões de pessoas.

Conhecendo-lhe, embora, a finalidade evangélica, em cuja base imortal repousam os seus labores associativos, no objetivo de emprestar a minha colaboração humilde ao desdobramento dos seus programas, procurei alcançar numa visão de detalhe a sua obra edificadora.

A visita de um desencarnado não se verifica conforme as praxes sociais que presidem, no mundo dos homens de carne, a um ato dessa natureza; mas, no pórtico da Casa de Ismael encontrei o mesmo Pedro Richard, que me levou a observar as intimidades do seu santuário.

Visitei, uma a uma, as suas dependências.

Nas escadarias e nos gabinetes amplos, não somente se reúnem os médiuns abnegados e os sofredores que aí os procuram diariamente; verdadeiras legiões de seres invisíveis, que os vivos considerariam como fileiras de sombras, deslizam pelas salas e pelos corredores, revezando-se no sagrado mister da caridade, fornecendo o que podem, no labor piedoso e cristão.

A presença dos enfermeiros invisíveis enche a atmosfera da casa de fluidos suaves e balsâmicos. É, talvez, por esse motivo que alguns amigos meus procuravam descansar na Federação, quando passávamos nas vizinhanças da antiga rua do Sacramento, cansados dos rumores urbanos e das longas distâncias, acreditando alcançar ai um bando regenerador de suas energias psíquicas.

- Aqui – explicava Pedro Richard -, nos reunimos todos nós, os que amamos as claridades do Evangelho, ansiosos de repartir as esperanças da Boa Nova,. Há lugar, nesta casa, para todos os trabalhadores, e basta querer para que cada um seja incorporado à caravana que nunca se dissolve. À maneira daqueles coxos e estropiados, a que se referia Jesus no seu ensinamento, vivemos pela misericórdia do Senhor, que não nos desampara com a sua bondade infinita. O banquete de Ismael está aqui sempre posto e, das alturas divinas, caem sobre o seu templo humano as flores da esperança, da piedade e do perdão, transformadas em bênçãos de Deus, repartidas, como a luz do Sol, com todos os corações. Aproveitamos, nos estudos da doutrina, aquela parte que representava a predileção de Maria, em contraposição com os trabalhos apressados e inquietos de Marta, segundo a observação do Divino Mestre, e pugnamos pelo esforço da reforma interior de cada um, reconhecendo que somente na assimilação dos princípios morais da doutrina, em sua feição de Cristianismo restaurado, poderemos atingir a finalidade de nossas preocupações.

- Mas – perguntei admirado – a instituição desprezará, porventura, as expressões científicas do Espiritismo?

- “De modo algum – respondeu-me solícito -, seus aspectos fenomênicos merecem da Federação todo o zelo possível, mas essas expressões da ciência representam os meios e não o fim, constituindo, desse modo, corolários das expressões morais do ensinamento dos Espíritos, chegando-se à ilação de que nada se terá feito sem a edificação das consciências, à luz dos seus princípios. Haja vista o que aconteceu na Europa, bafejada por tantos fenômenos extraordinários. Com algumas exceções, os sábios que ali se ocuparam do assunto, possuídos do mais avançado personalismo, definiram os fatos mediúnicos dentro de suas vaidades pessoais, complicando o estudo da doutrina com o sabor científico de suas palavras, desconhecendo a profunda simplicidade dos ensinamentos revelados.”

- É com essa expressão religiosa e regeneradora que o Espiritismo conta esclarecer os problemas do campo social? – perguntei ainda.

- “De fato – continuou o meu generoso amigo -, toda a vitória da doutrina tem de começar no coração. Sem o selo da renovação interior, qualquer tentativa de reforma constitui um caminho para novas desilusões. Seria, pois, inútil organizarmos grandes movimentos para uma salvação imediata, se o espírito geral se encontra nas sombras. Onde se terá visto uma colheita sem o trabalho da semeadura? A missão dos espíritas não representa, portanto, uma tarefa artificiosa e nem lhes compete disseminar os laboratórios de ilusões. Suas responsabilidades são muito grandes no campo da educação evangélica das massas e no plano da caridade pura, assistindo os sofredores e os desesperados. Esse campo de trabalho moral é o imenso reservatório das forças indestrutíveis da Nova Revelação, e a beleza dos seus aspectos tem seduzido muitas mentalidades de elite, do mundo inteiro. Mesmo a esta Casa têm aportado muitos espíritos brilhantes, vindos da Política e da Ciência, considerando que o Espiritismo, verdadeiramente interpretado, é a síntese maravilhosa que abrange todas as atividades humanas, no sentido de aperfeiçoá-las para o bem comum.”

- Mas – ponderei -, não seria aconselhável movimentarem-se os elementos da doutrina, projetando-se as expressões de seus valores no mundo das realizações?

- “Não reprovamos quantos se entregam, desde já, aos trabalhos dessa natureza, reconhecendo que o Espiritismo é um campo imenso onde cada qual tem a sua tarefa a desempenhar, e onde o exclusivismo pecará sempre pela inoportunidade; mas, julgamos prudente criar-se a mentalidade evangélica antes das obras espíritas, a fim de que elas não se percam nos labirintos do mundo e para que sejam devidamente cultivadas pelos verdadeiros discípulos do único Mestre, que é Jesus-Cristo”.

As palavras esclarecedoras de Richard calaram-me no espírito.

Compreendi que, de fato, nunca, como agora, a sociedade humana precisou tanto de recorrer ao auxilio sobrenatural do mundo invisível para reorganizar as suas energias, a fim de manter a sua própria estabilidade moral.

Em companhia do mesmo amigo, voltei para o saguão de entrada do edifício, onde se reunia a legião de aflitos e de consolados.

Era noitinha. A Avenida Passos regurgitava de automóveis de luxo, plena de luz e de movimento. E enquanto os sujeitos felizes procuravam, no coração enorme da cidade, as casas alegres da noite, uma grande multidão de pessoas, ricas e pobres, subia com humildade as escadas do grande edifício, para se curvarem sobre o Evangelho, procurando aí a lição divina e o socorro espiritual. E antes que me confundisse, de novo, com as coisas da minha nova vida, lembrei-me das primitivas assembleias cristãs, onde se misturavam todas as posições sociais no exemplo de fraternidade apostólica, no recanto humilde das catacumbas romanas.

Pedro Richard estava com a razão.

É verdade que Nero não está hoje no poder, mas os circos dos suplícios foram substituídos, prevalecendo a mesma perversidade entre os homens, envenenando-lhes o coração.

Aos funestos efeitos de uma nova aliança com Constantino, é preferível, portanto, esclarecer e iluminar o coração de Constantino.

Humberto de Campos por Chico Xavier do livro:
Crônicas de Além-Túmulo

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sábado, 29 de agosto de 2026

Motivos de sofrimentos

Motivos de sofrimentos

Joanna de Ângelis



Na busca incessante do prazer, o homem transfere-se, exteriormente, de uma para outra sensação, sem dar-se conta de que o desequilíbrio gerador de ansiedade é responsável pelo sofrimento que o aturde, ameaçando-o de desespero cruel. Enquanto não se resolva por selecionar os valores reais daqueles aos quais atribui significado e que são apenas fogos-fátuos, terá dificuldade em afirmar-se e seguir uma diretriz propiciadora de paz.

Vivendo sob a injunção de uma máquina, que lhe impõe necessidades a serem atendidas e o predispõe a outras falsas perturbadoras, ele opta pelas últimas, que são produto das sensações do ego dominador, empurrando-o para as aspirações mais grosseiras, em detrimento daqueloutras sutis e enobrecedoras, que adquirem resistência na renúncia, no esforço elevado, na abnegação, no cultivo da vida interior, no domínio da matéria pelo Espírito.

O corpo deve ser considerado um instrumento transitório para o ser eterno, temporariamente um santuário, em face da finalidade edificante de propiciar à alma a sua ascensão, mediante as experiências iluminativas que faculta, nos aspectos moral, espiritual, intelectual, pelo exercício das virtudes que devem ser postas em prática, e jamais para atendimento das sensações que lhe caracterizam a constituição
molecular.

Certamente, aqui não cabe também o comportamento asceta, alienador, que fomenta a fuga da realidade aparente, porquanto, o importante é a vida mental modeladora da física. Pode-se mudar de lugar sem alterar-se a conduta, vivendo-se um estado exterior e outro íntimo. Pela falta de sintonia entre as duas formas de vida, surge a desagregação do indivíduo, com aparecimento de neuroses e psicoses devastadoras, impondo sofrimentos que poderiam ser evitados, caso se permitisse uma melhor compreensão das finalidades existenciais.

O exame racional e lúcido das necessidades legítimas faculta o direcionamento saudável, com as compensações da harmonia íntima e do equilíbrio emocional.

A ambição desmedida pelas coisas, divertimentos e gozos nunca preenche os espaços do prazer, pelo contrário, frustra aqueles que lhe tombam nas armadilhas.

Há indivíduos que dispõem de somas consideráveis, prestígio social, fama e inteligência, graças aos quais adquirem o que lhes apraz, viajam para onde desejam, relacionam-se com as mais diferentes pessoas e, não obstante, são atormentados pelo vazio, pelo tédio, pela insatisfação, fortes causas de sofrimento.

Invariavelmente colocam os acontecimentos e interesses fora de sua realidade, no mundo exterior, passando a considerá-los a fonte dos sofrimentos ou dos gozos, conforme conseguem fruí-los ou não. Todavia, a questão é mais profunda e pertinente à sua vida íntima. Não havendo um real significado interior, o aparente sentido que demonstram perde-se tão logo sejam conseguidos. Nisso reside a maior soma de frustrações e de insatisfações que causam sofrimentos.

Algo vale somente quando inspira o mesmo sentido para todas as pessoas, que projetam as suas necessidades íntimas e aspirações legítimas na sua conquista.

Os lugares belos, as cidades ricas e cosmopolitas que a uns indivíduos causam impacto, provocando o desejo incomum de aí ficarem, noutros despertam mal-estar, desconforto e desagrado. Ilhas paradisíacas e refúgios de oração que a uns fascinam, a outros causam sensações desencontradas, angústias e desesperos insuportáveis. Vestuários luxuosos e joias cobiçadas, que aumentam a cupidez em alguns, noutros não conseguem a sensibilização, não lhes geram qualquer interesse, nem qualquer sofrimento, por não possuí-los.

A busca da realidade, do Eu, deve partir de uma análise profunda e interna das necessidades legítimas da vida, jamais da preferência de adornos, objetos e situações, que destacam o ego e perturbam-no, tornando-o jactancioso, prepotente ou, na sua falta, magoado, ressentido, receoso...

Primeiro, é necessário adquirir um estado de espírito de paz, para passar por tudo sem ater-se a nada.

A chama que clareia exteriormente projeta luz, mas faz sombra, enquanto a que se manifesta do interior, irradia-se por igual em todas as direções, sem gerar qualquer escuridão.

A mente e o corpo susceptíveis à dor pela posse ou perda das coisas externas sempre atravessarão largos períodos de sofrimentos, transferindo-se de uma para outra forma de sofrimento, sem conseguir a libertação. Essa ocorre quando o homem se esvazia de ambição, instalando a abnegação no íntimo e superando os desejos.

O ato de querer (desejar para si, manifestando apego) é fator prenunciador de perda (transferência para outrem, porque o que se detém se deve, não se possui), assim suscitando o domínio responsável pelas sensações de ansiedade, insegurança, medo, que são geradores de sofrimentos.

O autoconhecimento coopera para que se possa discernir em torno do que é útil ou supérfluo, indispensável ou secundário à vida feliz.

As conquistas dispensáveis pesam na economia emocional e passam a constituir preocupação que desvia a mente das metas que deve perseguir.

Jesus afirmou com sabedoria que o “Filho do Homem não possuía uma pedra para reclinar a cabeça”, embora “as aves dos céus, as serpentes e feras tivessem ninhos e covis”, demonstrando o Seu desapego total a todas as coisas que sobrecarregam a criatura de tensão, de inquietação.

A um jovem que O queria seguir, Ele esclareceu que uma coisa lhe faltava: “Vende tudo e dá aos pobres”. Ele, que afirmava ser justo, cumpridor das leis, permanecia, todavia, envolvido, perdido nas quinquilharias do mundo a que se atava... E ele não O seguiu.

É muito difícil liberar-se dos atavismos: pertences e hábitos que se impregnam ao comportamento, passando a constituir uma nova natureza, a predominante. Sob o fardo dessas dependências, o ser não logra ver a luz, discernir a meta, libertar-se para encontrar-se.

Confunde a paz com a tranquilidade dos recursos que possui, dos quais aufere conforto, destaque social; através dos quais desperta inveja, podendo perdê-los, de um para outro momento, na existência física, em razão das normais vicissitudes que a todos surpreendem, como da compulsória pela morte, que obriga a deixar tudo, nem sempre facultando a libertação, desde que o tormento prossegue além das vibrações orgânicas...

O sofrimento deve ser superado pelo amor, pela meditação, pela compreensão da sua presença na vida dos seres, fator de progresso, necessidade de reeducação, mecanismo da evolução que é, e que permanece nos indivíduos que discernem e pensam por eleição deles mesmos, já que a meta da reencarnação é a de lograr a vitória sobre ele.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Plenitude
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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Rogativa do estômago

Rogativa do estômago

André Luiz

1 – Sou a porta de sua sustentação.

Conserve-me limpo.

2 – Posso trabalhar com segurança.

Não me incline à desordem.

3 – Muita vez clama você contra a carestia.

E despende somas consideráveis para desajustar-me as funções e conturbar-me os serviços.

4 – Não me encha de excessos.

Carregando peso desnecessário, é possível venhamos a cair hoje mesmo.

5 – Não me faça depósito de condimento demasiado.

Obedecendo às leis orgânicas, transmitirei ao seu próprio sangue os venenos que você me impuser.

6 – Não me dê bebidas alcoólicas.

Se você fizer isso, não garantirei sua própria cabeça.

7 – Rogo a você afastar-me de todo entorpecente, a não ser por ocasião de tratamentos excepcionais.

Pequena drágea para repouso inconveniente pode, em verdade, aproximar-nos da morte.

8 – Não desejo e nem posso alimentar-me exclusivamente com recursos celestes.

Peço apenas a você discernimento e equilíbrio.

9 – Governe-me contra as sugestões da mesa festiva, mesmo nos mais simples prazeres familiares.

Tenho comigo a chave de sua própria harmonia.

10 – Não me diga que morrerá de fome porque não disponha de mesa lauta.

Por amor de Deus, não olvide que a maior parte das enfermidades vem do prato abundante e que nós não vivemos para comer, mas comemos simplesmente para viver.

(Em referência a O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. XIII / Item 8.)

André Luiz do livro: O Espírito da Verdade
 de Chico Xavier e Waldo Vieira (Espíritos Diversos)

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Holocausto pela verdade

Holocausto pela verdade

Vianna de Carvalho


Imagem gerada por IA.

As ideias revolucionárias de John Wyclife eram uma claridade esfuziante na terrível noite medieval. O eminente sacerdote e teólogo inglês havia compreendido que não é necessário qualquer intermediário a fim de a criatura alcançar o seu Criador. A Doutrina crista, que luzia na palavra de Jesus, era muito diferente daquela que se ensinava nos púlpitos das igrejas e que se vivia na intimidade palaciana, onde se homiziavam em luxo e poder aqueles que se diziam representantes do Mestre sem teto, despojado de quase tudo, mas enriquecido de Deus.

Foi o primeiro grande clarão que deveria incendiar o pensamento do futuro, abrindo os espaços para o amanhecer da cultura e da dignidade humana, ao lado das grandes conquistas da ciência, da filosofia e da arte.

A Boêmia então se encontrava sob a governança do imperador Sigismundo que negociava com a Igreja de Roma a segurança do trono. Todo o Império Tcheco-eslovaco obedecia cegamente à religião dominante qual acontecia praticamente com todo o mundo ocidental.

O tribunal da Inquisição levava à fogueira milhares de vidas em toda parte. Era o braço forte da doutrina católica estrangulando todos quantos se lhe opunham, realmente ou não, ameaçando igualmente o poder civil, que se lhe submetia sem qualquer disfarce ante a ameaça da ignominiosa excomunhão.

O terror dominava as mentes e a traição estendia suas malhas por toda parte. Denúncias covardes eram acolhidas como serviços à Fé, embora não ocultassem o interesse nos espólios das suas vítimas. A intriga abraçava a hediondez e o mundo respirava os tóxicos morbíficos do ódio e do temor.

Nesse clima de incomparável desconforto moral, o eminente pregador Jan Huss tomou conhecimento da revolução ideológica wyclifeana e por ela deixou-se tocar. Interiormente, também sentia a decadência da religião e a distância que existia entre os seus teólogos e o conteúdo cristalino do Evangelho, conforme Jesus o pregara às multidões que O buscavam. Ao ler as elucubrações e propostas novas, deixou-se arrebatar, e começou a expô-las abertamente, chocando os corifeus do poder e escandalizando a hipocrisia, enquanto as multidões esfaimadas na busca da verdade, acorriam pressurosas para escutá-lo na igreja que o tornara famoso. A cada domingo, a sua voz harmônica, expressando o seu pensamento inspirado que deveria preparar o futuro, atraía maior número de ouvintes ávidos que acorriam de toda parte, da cidade como do campo, incomodando as autoridades invejosas e prepotentes.

Ademais, explicava Huss, que a Doutrina deveria ser exposta no idioma nacional, a fim de que todos tivessem acesso aos ensinamentos libertadores de Jesus, o que mais preocupava os dominadores religiosos, que se ocultavam na ignorância das verdades evangélicas para intimidar e impor-se.

Desenhava-se a Nova Era pela palavra do missionário que, sem receio, invectivava contra o abuso do comportamento, exigindo o retorno à simplicidade, à fidelidade aos dias messiânicos em que vivera o Senhor.

Como primeira medida, os seus inimigos proibiram-no de pregar na igreja, expulsando-o para pequena paróquia nos arredores de Praga, o que levou as multidões fascinadas a seguirem o seu pastor intimorato.

Não podendo silenciá-lo com a medida arbitrária, fecharam todas as igrejas, impedindo que os fiéis tivessem onde e como se comunicar com Deus, apavorando-os.

As acusações e impropérios dos fracos dominadores não foram suficientes para silenciá-lo, quando a terrível ameaça de excomunhão pairou no ar.

Considerando a gravidade da doutrina que pregava, aquela que trazia Jesus de volta às almas aflitas, o imperador convocou o sínodo de Constança, para permitir ao pregador defender-se das graves acusações de heresia.

Informado da atitude imperial e convidado por Sigismundo, que o conhecia desde a Universidade e lhe admirava os ensinamentos, ofereceu-se para ir a Constança apresentar a defesa e expor que jamais se afastara das Escrituras.

Tratava-se de uma aventura muito arriscada e que poderia culminar em traição e morte inevitável.

O missionário porém, confiante na Verdade, escudado por dois cavaleiros que lhe enviara o Imperador, partiu de Praga entre lágrimas dos seus paroquianos e seguiu na direção do holocausto que o esperava.
Compreendendo a manobra dos inimigos do Bem, houvera recorrido ao auxílio de Sigismundo, que lhe era simpático às ideias, dele conseguindo um salvo-conduto, a fim de não ser molestado, podendo defender-se em liberdade.
A construção da verdade no mundo, porém, sempre se fez a esforço hercúleo e sob o elevado preço do sacrifício.
Todos aqueles que se atreveram a erguer a bandeira do idealismo transformador, experimentaram o escárnio e a perseguição gratuita dos seus coevos, que voejavam como abutres vorazes sobre o cadáver das multidões que se lhes submetiam inermes.
Eles, porém, nunca temeram a ignorância nem a crueldade, a ingratidão nem o holocausto, impostos por aqueles que acreditavam na vitória permanente da sombra e na sua imortalidade orgânica, na suposição falsa de que a enfermidade, a velhice ou a morte nunca os alcançariam, demonstrando-lhes a fragilidade física e a transitoriedade de todas as conquistas terrenas.
Esses hediondos promotores do crime dominaram gerações, que submeteram ao talante da sua perversidade, supondo-se inatingíveis, mas sucumbindo, logo
mais, ao peso dos desenganos, quando não da própria alucinação.
Ingênuos e confiantes, os expoentes do amor e do bem sempre se deixaram conduzir pela astúcia dos maus, salvadas raras exceções, por serem nobres e incapazes de trair ou enganar.
Chegando a Constança, o pregador de Husinec procurou o cardeal Antony para justificar-se, e após diálogo caloroso, que somente aumentou o ódio do adversá
rio, foi atirado ao cárcere infecto sem qualquer acusação formal.

O sínodo reuniu-se e começou a julgar o doutor de Praga, não lhe concedendo o direito de defesa.

Nas poucas vezes em que foi convocado, esteve sob os camartelos do ódio gratuito, não conseguindo expor suas ideias.

Coibido o imperador, ante a ameaça de excomunhão por estar defendendo um herege, esse, covardemente, anulou o documento, traindo o súdito que nele confiara, e deixando-o ao abandono, à própria sorte.

Foram inúteis os seus argumentos contra as artimanhas e soezes sofismas criados apelo cinismo e pelo fanatismo dos hábeis adversários, que o acusavam de ser discípulo do arquicondenado John Wyclife, sendo humilhado, destituído publicamente dos seus títulos, inclusive o de sacerdote, exposto ao ridículo público, e, por fim, condenado à fogueira...

Atado, mais tarde, ao poste infamante e acompanhando serenamente a farsa dos inimigos de Deus e da Humanidade, aguardou as chamas quase em êxtase, por constatar que seriam inúteis os esforços para silencias as vozes da verdade.

As suas obras igualmente seriam queimadas publicamente, a fim de que não ficassem vestígios dos seus ensinamentos para o futuro.

Acreditavam que fazendo arder nas chamas inclementes o idealista, apagariam as suas lembranças e destruiriam as suas ideias, o que jamais acontece, porque o martírio amplia a grandeza dos pensamentos daqueles que o experimentam.

Ao serem ateadas as labaredas, em um momento de percepção do futuro, ante o aturdimento dos tresloucados verdugos e as lagrimas daqueles que o admiravam, mas nada podiam fazer, exclamou:

- Vós hoje assais o pato (Huss, em tcheco). Um dia porém, virá um cisne de luz, que voará acima das vossas labaredas e essas não o alcançarão.

E enquanto enunciava com dificuldade uma Ave-Maria, conforme a fé que abraçava, não conseguiu terminá-la...

Era o triste e sombrio período medieval, na manhã de 7 de julho de 1414.

O seu holocausto, decorrente da sua mensagem, que já houvera tocado outro eminente teólogo, Jerônimo de Praga, que também foi preso ao vir defendê-lo, permaneceria vivo na palavra do extraordinário latinista, professor de grego, que o seguiria também na fogueira no ano imediato.

Nos séculos sucessivos vieram os vendavais da História e o pensamento iluminado de Lutero, de Zuinglio, de João Calvino, abriria as portas do porvir para a vivência do Evangelho livre da soberania romana...

Os seus adversários foram também consumidos pelo túmulo, vencidos pelas paixões a que se entregavam, enquanto ele, após a ressurreição gloriosa, passados quase quatrocentos anos, voltou à Terra, no momento em que outro clarão anunciava Novo Dia - a claridade da ciência que se libertara das masmorras religiosas - na indumentária de Hippolyte Léon Denizard Rivail, a 3 de outubro de 1804.

Mais tarde, adotando o pseudônimo de Allan Kardec, tornou-se o missionário do Consolador, assim restaurando a doutrina de Jesus que pôde ser confirmada pelo bisturi da investigação científica, pela óptica superior do pensamento filosófico e através do seu superior código de ética-moral, que é a do próprio Evangelho, vir a ser a Religião cósmica do amor, fundamentada, na lógica, afirmando que fe verdadeira, somente o é, aquela que pode enfrentar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade.

O progresso é inestancável e nada pode impedir-lhe a marcha. Toda tentativa de obstaculizar-lhe o avanço redunda em vá loucura, que cede lugar à realidade.

Apesar disso, ainda hoje se multiplicam os inimigos da Verdade e do Bem que, aferrados a conveniente materialismo, conspiram contra os idealistas que os ameaçam com os seus pensamentos libertários, buscando impedir-lhes o avanço.

O holocausto de todo missionário porém, transforma-se no combustível que irá sustentar as suas ideias e erguer continuadores que conseguirão implanta-las no mundo, ampliando os horizontes do progresso e abençoando o futuro.

Praga (República Tcheca), 03 de junho de 1998.

Vianna de Carvalho por Divaldo Franco do livro:
Luzes do Alvorecer

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