terça-feira, 7 de julho de 2026

O acidente providencial

O acidente providencial

Irmão X.


Martinho Sousa era rapaz inteligente, muito culto, mas excessivamente confiado a ideias fixas.

Após firmar esse ou aquele ponto de vista, não cedia a ninguém no campo da opinião.

Renovava os pareceres que lhe eram peculiares somente à força de fatos e, assim mesmo, apenas quando os acontecimentos lhe ferissem os olhos. Declarava-se absoluto nas interpretações e, rebelde, brandia pesada argumentação sobre quantos lhe não aderissem ao modo de ver.

Dentro de semelhantes características, foi colhido na trama sutil de terrível obsessão.

A influenciação deprimente das entidades infelizes envolveu-lhe o campo mental em rede extensa de vibrações perturbadoras. E o desequilíbrio psíquico progrediu singularmente, senhoreando-lhe o sistema nervoso.

O desventurado amigo começou por abandonar o trabalho diuturno, recolhendo-se ao ambiente domestico, onde se consagrou ao exame particularizado do próprio caso, enquanto se alarmavam a esposa e os filhos pequeninos do casal...

Martinho alimentava conversações estranhas, gesticulava a esmo, esbugalhava os olhos como se fixasse horrendas paisagens, dominado de incoercível pavor.

Não chegava a identificar as sombras que o cercavam, ameaçadoras e inflexíveis na perseguição sem tréguas; no entanto, assinalava-lhes a presença e captava-lhes os pensamentos sinistros, em forma de cruéis sugestões.

Atacado de insônia insistente, não se aquietava senão durante alguns minutos, pela madrugada, para o descanso corporal, gastando as horas em movimentação anormal e excitante, através dos aposentos, ao jardim e do quintal, errando sempre, obcecado por invisíveis malfeitores.

De quando em quando, alguém comentava a situação, convidando-o a estudar a suposta enfermidade, à luz do Espiritismo renovador, mas o teimoso doente se retraía nas interpretações científicas.

Tratava-se, dizia ele convicto, de choques sucessivos no sistema nervoso, agravados por uma avitaminose significativa. Além disso, acrescentava, padecia enorme deficiência no pâncreas. Não se lhe processava a nutrição com a regularidade devida e via-se esgotado em vista da assimilação imperfeita.

Os companheiros de luta, interessados em seu bem-estar, não conseguiam demovê-lo.

O obsidiado tecia longas considerações de natureza técnica e relacionava diagnósticos complicados.

Lia, atencioso, as anotações médicas, referentemente aos sintomas que lhe diziam respeito e, para refutar os amigos, trazia à conversação, exasperado e irritadiço, textos e gravuras de natureza científica para exaltar os próprios males. 

Agravava-se-lhe o tormento dia a dia.

Assim, atingira Martinho perigosa posição mental.

Os adversários de sua paz subtraíram-no, quase totalmente, à alimentação e acentuaram-lhe as preocupações na vigília enfermiça.

Horas a fio mantinha-se na estranha contemplação de paisagens horríveis, na tela escura do pensamento atormentado.

Piorando-se-lhe a situação, os benfeitores espirituais, que por ele se interessavam, multiplicaram recursos de salvação, mobilizando novos colaboradores encarnados, de maneira indireta, que passaram a visitar o enfermo por verdadeiros emissários da solução indispensável.

Eram portadores de consolação, remédio, esclarecimento e luz; entretanto, o doente não se abria ao socorro que se lhe dispensava.

Bastaria escutar calmamente a leitura de algumas páginas espiritualizantes e encontraria em si mesmo o recurso à reação; todavia, negava-se ele, impaciente e menos delicado.

– Influências de ordem psíquica? – indagava, exaltado, aos visitantes – é rematada maluquice de vocês. Sou vítima de exaustão geral por falta de suprimento vitaminoso adequado. Estou arrasado. Tenho o fígado apático, os rins intoxicados e os intestinos inertes...

E estendendo o braço magríssimo, na direção dum velhinho prestimoso que o visitava com frequência, exclamava, estentórico:

– E o senhor, “seu” Luís, ainda me vem falar de atuação do outro mundo?! Não será ironia de sua parte?

Silenciavam os circunstantes, desapontados.

Luís Vilela, o ancião citado nominalmente pelo enfermo, traduzindo o pensamento de abnegados mentores invisíveis, retrucava sem irritação:

– Deveria você, Martinho, acalmar-se convenientemente para o exame das necessidades próprias. Como julgar, com tanto rigor, princípios edificantes e curativos que você absolutamente não conhece? Não devemos condenar sem base firme.

Não sabe a quantos distúrbios pode ser conduzido um homem, sob perseguições ocultas.

Sei que o seu estado de agora impede a leitura meditada; entretanto, proponho-me a ler para os seus ouvidos e a prestar os esclarecimentos que se fizerem indispensáveis. Creio aprenderá você, desse modo, a consolidar as próprias energias e a refletir com mais clareza, repelindo as sugestões inferiores, mesmo porque, meu amigo, em qualquer processo de remediar a saúde do corpo, é imperioso sanear a mente.

O rebelde obsidiado, porém, não atendia. Não se detinha convenientemente nem mesmo para registrar as considerações de ordem afetiva. Andava, nervosamente, dum lado para outro, torcendo as mãos ou gesticulando sem propósito, gritando blasfêmias e queixas. Não aparecia recurso com que se pudesse sossegá-lo no leito.

Quase desalentados, consultavam-se os amigos entre si.

E não só no círculo dos encarnados sobravam as preocupações. Os enfermeiros espirituais partilhavam aflições e receios. Martinho não oferecia campo adequado ao entendimento e, por essa razão, os algozes intangíveis ganhavam terreno franco.

Prosseguia o perigoso impasse, quando, certa noite, um dos verdugos sugeriu ao doente a ideia de galgar a velha mangueira do quintal, no sentido de respirar atmosfera mais pura.

O doente assimilou a ideia, encantado, sem perceber que o inimigo intentava precipitá-la ao solo, em queda espetacular.

Recebeu o alvitre capcioso e gostou.

Aguardaria as primeiras horas da madrugada, quando a pequena família descansasse nos domínios do sono. Procuraria o ar rarefeito na copa da árvore antiga. Possivelmente conquistaria forças novas ao contacto das mais altas correntes atmosféricas.

Reconhecendo-lhe a disposição firme na execução do projeto, alguns colaboradores espirituais buscaram o diretor de suas atividades, a fim de traçarem normas para socorro urgente.

O chefe, contudo, ponderou, muito calmo:

– Não podemos violentar o nosso Martinho no que se reporta à preferência individual. Se ele estima a orientação dos que lhe tramam a perda, como evitar que sofra as consequências justas?

Deixemo-la confiar-se à dolorosa prova. Talvez esteja dentro dela a chave da solução que ambicionamos.

Efetivamente, ao raiar do dia, o enfermo sofreu desastrosa queda de grande altura, após escalar, facilmente, a velha mangueira escorregadia e muito alta.

Aos gritos de dor, foi socorrido pelos familiares e companheiros inquietos. Em seguida, veio o médico que o amarrou no leito para a restauração de ambas as pernas quebradas.

Foi então que Martinho Sousa, imobilizado no gesso, pôde ouvir a leitura reconfortante de Luís Vilela, partilhar os serviços de oração e receber passes curativos, libertando-se da obsessão terrível e insidiosa.

Transcorridas algumas semanas, quando conseguiu locomover-se, era outro homem. Sua queda da mangueira fora o remédio providencial.


Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Pontos e Contos

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Inimigo insidioso

Inimigo insidioso

Joanna de Ângelis



Foste estigmatizado pela infâmia cavilosa, e porque te refugiaste na oração, conseguiste superá-la sem sequelas. Experimentaste o escárnio daqueles que te subestimam o valor, no entanto, persistindo nos ideais de enobrecimento, venceste o desafio.

Suportaste a enfermidade desgastante, entretanto, mantendo o pensamento otimista e cuidando-te sem cessar, atravessaste o período de debilidade, recuperando a saúde.

Recebeste pedradas morais, promovidas por adversários invejosos que desejavam competir contigo, e porque não ambicionavas destaques no mundo, ficaste incólume às agressões.

Foste visitado, diversas vezes, pela tentação da ira, da mágoa, da revolta, porém, reflexionando a respeito dos elevados objetivos da existência, não te detiveste nos desvios da inferioridade, avançando alegremente.

Proclamaram a tua queda, a tua deserção do bem, alguns companheiros precipitados, todavia, permanecendo imperturbável, eles te odiaram, sem que isso te afetasse.

Fustigaram-te os sentimentos através de variados ardis, mas, como te encontravas com a mente referta de idealismo e o sentimento rico de entusiasmo, não foste alcançado pelo mal que te rondava.

Recebeste a ingratidão de comensais da tua afetividade, no entanto, despido dos interesses de compensação de qualquer tipo, seguiste adiante, sem lamentar-lhes o afastamento que te não fez falta.

Provaste solidão e foste impelido ao silêncio, por circunstâncias penosas, entrementes, sintonizando com as Esferas superiores, ouviste as vozes dos Céus e sentiste a companhia dos benfeitores espirituais, dando prosseguimento ao trabalho.

Tentaram arruinar-te o nome, objetivando dificultar o teu acesso aos corações, apesar disso, os teus testemunhos de dignidade superaram as informações descabidas e falsas, mais ampliando os teus horizontes de edificações morais.

Armaram redes de acusadores fixados em ti, perturbados pela monoideia de impedir-te o avanço, assim mesmo, porque não cessaste de agir e de servir, esses inimigos da tua paz sofrem por ver-te impertérrito na desincumbência do compromisso assumido com Jesus.

Em todas as situações afligentes, lograste manter a inteireza moral, superando-te a ti mesmo.

Porque o teu vínculo é com Jesus e não com as pessoas, tudo quanto te fizerem, certamente não te afetará, se porfiares, porque Ele te defende de todo mal que não esteja estabelecido pela Lei de Causa e Efeito.

Na luta forjam-se os heróis e os santos, os mártires e os abnegados construtores da Humanidade feliz.

Nunca temas, nem te afadigues em defesas injustificáveis quão desnecessárias, porquanto estás fadado à conquista do Infinito...

*

A situação em que te vês agora é bem diversa, mais grave do que todas antes enfrentadas, porque sutil, quase despercebida.

Semelhante a cupim devorador e oculto no âmago da madeira, estás sendo carcomido interiormente, perdendo valiosas energias e vigor.

Insidioso, esse inimigo cruel tem-te rondado os passos, desde há muito tempo, sendo sempre repelido com tenacidade.

Agora, talvez porque te sintas cansado, como é natural, ei-lo tomando as províncias do teu sentimento e apoderando-se do teu entusiasmo.

Trata-se do desânimo, esse inimigo sibilino e torpe.

Tem cuidado e redobra a atenção a seu respeito.

Sob pretexto algum lhe dês oportunidade de alojamento no teu mundo íntimo.

Ele tem sido responsável por muitas defecções de obreiros do progresso, que se sentiram desestimulados e desistiram de lutar.

A princípio, não se lhe percebe a façanha destrutiva, porque se apresenta como tédio, para logo transformar-se em indiferença, por fim converter-se em abatimento e fuga das responsabilidades.

Contrapõe-lhe a vontade férrea, a alegria de viver, o interesse para concluir o trabalho iniciado.

Se te escassearem energias, refaze-te na oração, mergulhando no oceano de forças benfazejas que a tudo envolve.

De imediato, a seguir, busca a meditação, analisando a transitoriedade de todos os fenômenos e remontando-lhes às causas eternas, assim constatando que não vale a pena desperdiçar o tempo em questões de secundária importância.

Tem em mente que estes momentos também passarão, como se diluíram outros de alegrias e de tristezas, aguardando o porvir.

Se, por acaso, persistir o bafio pestilento, considera as aflições do teu próximo a quem podes ajudar, e sai da jaula asfixiante do desânimo para a liberdade de servir.

Respirarás, então, o oxigênio da caridade, logo te sentindo renovado.

Ama, pois, e auxilia em qualquer situação que se te apresente.

Iniciar atividades é muito fácil, mantê-las é mais difícil e concluí-las é o desafio que a reencarnação propõe a todos.

*

Jesus assinalou com muita propriedade e sabedoria que tudo é possível àquele que crê, que se empenha e não cessa de lutar.

Investe mais nos teus objetivos abraçados e insiste durante os bons e os maus períodos.

A vitória somente pode ser celebrada quando concluída a luta, encerrada a tarefa.

Sob a inspiração de Jesus, persevera e crê nos resultados superiores dos investimentos da tua atual existência e conseguirás alcançar a meta.

Desanimar, porém, nunca!

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Libertação pelo Amor

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domingo, 5 de julho de 2026

Aforismos

Aforismos

Casimiro Cunha



Desgostos, chagas e angústias,
Martírio rude e violento,
São rebolos invisíveis
De santo aprimoramento.

Ser rico e ser justiceiro
Na virtude sem disfarce,
É como viver no fogo,
Respirando sem queimar-se.

Dois apoios precisamos
Na jornada de ascensão:
A lanterna da bondade
E o trilho da retidão.

Cumpre o dever que te assiste,
Servindo, ditoso e crente.
Da consciência tranquila
Nasce a calma permanente.

Aprende, ensina e esclarece.
Trabalha, ajuda e auxilia.
Não há maior desventura
Que a da existência vazia.

Não tornes por humildade
A vileza fraca e nula.
A humildade serve sempre,
Mas a vileza bajula.

Faze o bem ainda que o bem
Não seja bem que te agrade.
Resume-se a fé cristã
Na palavra – caridade.

Que lisonja por mais linda
Não te seduza o interesse.
O mérito é como a luz –
Por si mesmo resplandece.

Cultiva o bem, sem cessar,
Ao longo de teu caminho.
Terra boa, desprezada,
É mãe do mato escarninho.

Nas lições da vida inteira,
Sê firme, animado e forte.
Quem desiste de aprender
Começa a buscar a morte.

Casimiro Cunha por Chico Xavier do livro:
Gotas de Luz

Casimiro Cunha

Poeta fluminense e espírita dedicado, Casimiro Cunha nasceu em Vassouras (RJ), em 14 de abril de 1880. Após um acidente aos 14 anos, tornou-se cego de um olho, dois anos depois perdeu a outra visão. Desencarnou em 1914, aos 34 anos, deixando vasta e preciosa obra literária poética. Em Espírito, continuou a presentear o mundo com histórias como a obra Cartilha da Natureza, psicografada por Francisco Cândido Xavier. Com a FEB Editora contribuiu com as obras: - Cartilha da natureza, História de Maricota, Gotas de luz, Juca Lambisca, Timbolão. (FEB)

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sábado, 4 de julho de 2026

Energia mental e vida saudável

Energia mental e vida saudável

Joanna de Ângelis


Cabe ao ser inteligente descobrir na Terra a razão fundamental da própria existência, a fim de estabelecer os parâmetros propiciadores da felicidade, de forma a desenvolver a capacidade de crescimento interior, razão primacial da sua autorrealização. Enquanto não se resolva por detectar e aplicar os métodos mais compatíveis para o enriquecimento moral e espiritual, tudo se lhe apresentará sem maior sentido ou significado transformador, tornando-se o trânsito carnal um desafio recheado de desencanto e aflição.

Remanescendo no seu inconsciente profundo todos os conflitos do processo de racionalização a que foi submetido no passado, mediante os dolorosos episódios de dor e de sombra experimentados, as castrações impostas pela ignorância, os medos decorrentes dos estágios primevos, mais facilmente se entrega aos fenômenos mórbidos da depressão, da ansiedade, da insegurança, do que ao encantamento das aspirações de enobrecimento, de beleza e de paz, que lhe devem constituir emulações para a vitória nas mais diferentes situações existenciais.

A alegria de viver deve ser uma norma de conduta natural em todos os seres pensantes, mesmo quando as circunstâncias não se exteriorizam conforme desejariam. Isto porque, as ocorrências do dia a dia alteram-se a cada instante, transformando tristezas em júbilos como felicidade em infortúnio.

O fato de alguém encontrar-se usufruindo a bênção do corpo físico, mesmo que assinalado por dificuldades e limitações, representa-lhe uma dádiva com promissoras ocasiões de autossuperação que se lhe apresentam, facultando-lhe alterar a paisagem pessoal, dependendo exclusivamente da própria opção direcionada ao comportamento que se deve permitir.

A mente, nesse mister como noutros, desempenha papel relevante em relação à conduta, porque dela procedem todos os programas a que o corpo se submete. A sua ação eficiente transmite-se através de ondas que alcançam as delicadas engrenagens dos neuropeptídeos que se ramificam pelos diferentes sistemas nervoso central, imunológico, endócrino, que se interdependem, comunicando-se com todos os demais departamentos celulares da organização somática.

Quase sempre, porém, o indivíduo, trazendo marcas profundas de compromissos não solucionados de outras existências, torna-se vítima espontânea das fixações que ressumam, imprimindo na área emocional conflitos depuradores a que se aferra como necessidade psicológica de autopunição, perfeitamente dispensável no mecanismo de sua evolução para uma vida realmente saudável e ditosa.

A teimosa atitude em manter as emoções desordenadas responde pelos inumeráveis sofrimentos a que se submete, passando a viver de maneira masoquista, embora sem dar-se conta do distúrbio que o conduz.

A aspiração do bom e do belo, da paz e da alegria, sinaliza despertamento de consciência para mais altos voos.

O cérebro, sob o comando da mente, responde conforme o gênero de ordens que recebe, contribuindo com enzimas estimuladoras da saúde ou toxinas que irão destruir os sensíveis equipamentos da maquinaria orgânica, emocional ou mental.

A mente, porém, pode ser vítima de hábitos que se arraigam, tornando-se fatores degenerativos para o ser pensante.

Indispensável, portanto, que se renove, cultivando ideias elevadas, que gerem respostas de bem-estar.

É compreensível que periodicamente o organismo se ressinta sob a agressão de vírus e bacilos, de desordens de uma ou de outra natureza, mesmo que o indivíduo se encontre perfeitamente sintonizado com as ideias saudáveis, o que é natural.

A própria constituição material que reveste o ser real é frágil e susceptível de experimentar vários naturais distúrbios e processos degenerativos, já que tende a transformações contínuas, inclusive à dissolução do arquipélago celular que lhe expressa o todo. Do contrário, seria aguardar-se a imortalidade da forma, que sempre se altera e se decompõe. O importante, no entanto, é como se encontra o indivíduo para enfrentar o mecanismo físico de que se reveste, mantendo-se em clima de otimismo e de harmonia.

A doença, não raro, deve desempenhar um papel muito significativo na conduta do ser humano, porque lhe demonstra, em primeiro lugar, a fragilidade de que se constitui o corpo; depois, convida-o a reflexionar em torno das causas desencadeadoras da ocorrência enfermiça; por fim, proporciona-lhe a capacidade de aprender a administrar todos os fenômenos existenciais.

Dessa forma, surge a interrogação a respeito de como fazer-se com o sofrimento, quando se manifesta. Pode-se rejeitá-lo, pura e simplesmente, detestá-lo sob a pressão da revolta ou aceitá-lo com resignação, quase indiferença. Entretanto, é possível enfrentá-lo com um diferente tipo de conformação, aquela que se apresenta dinâmica.

A rejeição, em si mesma, de forma alguma altera-lhe o quadro, antes dificulta-lhe a captação da mensagem de que se reveste, trabalhando em favor da sua ampliação, da complicação do problema. O enfrentamento rebelde destrói as reservas de equilíbrio e de força, aumentando a carga de aflição. 

resignação estática, indiferente, que não trabalha pela erradicação da causa, é morbidez que deve ser combatida, desânimo que se instala no ser... Somente uma aceitação, aquela que compreende o acontecimento afligente e se esforça por modificar-lhe as consequências, superando os limites impostos e dando prosseguimento aos compromissos abraçados, mesmo que a peso de grande esforço, é que contribui para a estruturação do ser inteligente, apreendendo a lição que sempre segue a todo tipo de dor ou provação.

Por isso, é imprescindível o auxílio da esperança, que fomenta a coragem, que se deriva da vibração mental positiva, enriquecedora, de procedência superior, porque dimana da vida.

O Espírito experiência a jornada carnal a fim de desenvolver todos os valores que se lhe encontram em germe, por isso mesmo vinculado às Fontes Superiores de onde procede, que o inspiram e animam em todas as vicissitudes que deve enfrentar e pelas quais passará inevitavelmente. O seu crescimento se dará sempre pelos processos de harmonia, isto é, equilíbrio e alteração de conduta, que não significará certamente desajuste, mas que lhe desenvolverá novas capacidades de enfrentamento das circunstâncias e processos inerentes à evolução.

Todo esse programa se torna factível se o indivíduo se propuser à tarefa do autoconhecimento, descobrindo a própria realidade que ultrapassa o limite da sua corporalidade e avança pela senda da sua imortalidade. Passo contínuo, estabelece as metas existenciais, as finalidades e objetivos da peregrinação humana, empenhando-se por atingir a meta, mesmo que etapa a etapa, sem pressa angustiante nem postergação mortificadora.

A lucidez mental propele o ser ao avanço que não cessa e irradia mensagens que o fortalecem, auxiliando-o a manter o padrão de equilíbrio que deve caracterizar a real saúde, aquela que permanece mesmo quando momentaneamente se instalam doenças, surgem aflições, aparecem distúrbios de qualquer natureza. Predominante no íntimo do ser, esse estado de bem-estar encarrega-se de predispor a novos tentames felizes que o impelem à conquista da felicidade.

A preservação da mente em harmonia com o Cosmo, eis a meta que deve ser conquistada, a fim de ser estabelecido o programa de evolução possível, que aguarda a criatura humana.

Em qualquer situação, pois, em que se encontre o ser pensante, a sua fonte de irradiação psíquica deve estar em perfeita sintonia com as ondas do Psiquismo Divino de onde procedem todos os dons da vida e os meios para serem logrados os objetivos existenciais.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Dias Gloriosos

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