Flagelo das obsessões
Joanna de Ângelis
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.
Estude sem propagandas atrapalhando o que você quer ler! Dai de graça o que de graça recebestes! "- Fora da caridade não há salvação." Allan Kardec
No plantão para encaminhamento aos recursos da organização socorrista espírita, Roberto fitava, compadecido, a jovem que lhe falava. O ventre volumoso era promessa de vida em gestação, mas o rosto atormentado proclamava a morte da esperança.
- Enamorei-me de um homem insinuante, que me seduziu. Quando fiquei grávida, abandonou-me, incontinenti, confessando-se casado, preso a insuperáveis compromissos conjugais. Envergonhada, durante meses evitei comentar o problema com meus pais... Eles são rigorosos em questões morais. Quando se tomou impossível esconder meu estado, chocaram-se muito, despejando sobre mim acusações e ameaças. Sugeriram o aborto. Ante minha recusa, impuseram que saísse da cidade por alguns meses. Após o nascimento do filho deverei deixá-lo no hospital para adoção. Então poderei voltar. Exigem sigilo absoluto. Nossa família é muito conhecida. Aos amigos informam que viajei para o exterior.
Emocionada, a jovem estabelece pausa regada de lágrimas. Perplexo, Roberto comenta:
- Incrível! Um comportamento preconceituoso e retrógrado em pleno século XX! Seus pais não consideram que a criança que está por vir é neto deles?
- Não admitem nem falar a respeito! Esse assunto é tabu entre nós. Preferem ignorá-lo. Para eles uma mãe solteira em casa configura escândalo impensável.
- Não posso aplaudir o que fez, minha filha, mas, certamente, a atitude de seus pais é muito pior. A situação, agora, transcende as convenções humanas. Há uma criança que precisa de amparo, de uma família...
- O senhor compreenderia melhor se os conhecesse. São extremamente rígidos.
- Eles têm religião?
- Sim, são espíritas.
- Espíritas?!...
- E dizem que justamente por levar o Espiritismo a sério não podem apoiar-me. Devo responder pelo que fiz, assumindo minha responsabilidade.
- Pretendem que cuide do assunto sozinha, livrando-se do filho? Creio que ainda não aprenderam as lições mais elementares da Doutrina, relacionadas com o exercício da caridade...
Buscando conter a indignação que o tomara, Roberto muda o rumo da conversação:
- Você está bem financeiramente? Tem onde ficar?
- Justamente por isso vim falar-lhe. Não pretendo dar meu filho. Assim, não contarei com a ajuda de meus pais. Peço-lhe, por misericórdia, um cantinho. Trabalharei como doméstica, se preciso, aqui ou num lar que se disponha a me acolher.
- Certamente conseguiremos algo em seu favor. É preciso, porém, procurar seus pais. Devem saber onde você está. Se possível, alguém os alertará, conscientizando-os de que lhe devem amparo. De onde vem, minha filha?
- Porto Alegre.
- Ótimo. Tenho um contato lá. Um colega de profissão que conheci num simpósio. É espírita, bem sintonizado com os ideais doutrinários. Inteligente e culto, tenho certeza de que conseguirá sensibilizar seus pais. Seu nome é Túlio Firmino.
Vendo que a jovem chorava novamente, extravasando imensa angústia, Roberto tenta consolá-la:
- Calma, menina. Fique tranquila. Tudo dará certo.
- Não vai adiantar, “seo” Roberto! Não vai adiantar!...
- Vai sim. Confie. Túlio Firmino é muito persuasivo.
- Não, “seo” Roberto, não vai acontecer nada disso porque Túlio Firmino... é meu pai!
* * *
A Doutrina Espírita é bastante clara ao nos alertar quanto aos nossos compromissos diante do próximo, particularmente no que diz respeito ao exercício da caridade.
A grande dificuldade está naquele “próximo mais próximo”, sob o mesmo teto, que atende pelo nome de irmão, filho, cônjuge, pai, mãe, avô, neto...
Diante deles, por um atavismo psicológico calcado no cultivo milenar do egoísmo, insistimos em impor nossos padrões de comportamento. Se contrariados, brandimos atitudes preconceituosas e duvidoso moralismo, furtando-nos, assim, ao compromisso de compreender e ajudar.
Peçamos ao Senhor o poder
de amar sem reclamações,
de servir sem recompensa,
de compreender sem exigir compreensão para nós,
de obedecer aos sublimes desígnios,
de vencer as próprias imperfeições,
de abençoar os que nos perseguem,
de orar pelos que nos ferem e caluniam,
de amparar aos que nos criticam,
de estimular o bem onde se encontre,
de praticar a fraternidade legítima,
de aproveitar todas as oportunidades da vida para a edificação do espírito imortal.
Senhor!
No templo que nos concedeste para a sustentação dos nossos ideais de fé, permite que Te possamos corresponder aos objetivos sagrados, dedicando-nos com fervor e abnegação.
Honrados pelo Teu convite a engrossar as fileiras dos que trabalham contigo, multiplica em nossas mãos as sementes luminosas da caridade, a fim de que os nossos celeiros não permaneçam vazios de claridade.
Colocados na Terra que merecemos, diante dos obstáculos a transpor e das dificuldades a vencer, faculta-nos a resistência contra as paixões que vivem dentro de nós, de modo a podermos transferir das baixadas em que nos encontramos as aspirações maiores, içando-as ao planalto que anelamos atingir.
Não é esta, Jesus, a primeira vez que Te juramos fidelidade, para logo depois negarmos o compromisso assumido...
Antes, prometemos-Te abnegação total e a apostasia fez-nos recuar da tarefa encetada, que deixamos entregue ao escalracho da incompreensão, ao abandono... Hoje, por compreendermos melhor a destinação que nos é reservada, com a alma túmida de emoções superiores, aprestamo-nos ao labor com que nos honras, não obstante os liames com os compromissos negativos que mantemos com a retaguarda...
Ensina-nos outra vez a servir e a amar, ampliando-nos o horizonte do atendimento, a fim de que a estreiteza da nossa visão não se aperte nos antolhos da nossa mesquinhez egoística.
Benfeitor de todos nós, sustenta-nos na fragilidade sistemática e renova-nos na noite em que nos debatemos, pontilhando-a com essa luz meridiana que flui do Alto através da Consoladora Doutrina dos Imortais, em que nos engajamos agora, desencarnados e encarnados, constituindo o rebanho de que Te fazes o Bom Pastor!
Ante a nossa impossibilidade de servir-Te, mais e melhor, deixa-nos doar-Te a nossa inutilidade por ser tudo quanto temos.
Suplicamos-Te, também, que, enquanto aljofrem lágrimas na Terra, não nos seja lícito auferir o prêmio de ser feliz, que não merecemos.
Oxalá que as nossas mãos se ergam a serviço do alimento das criancinhas em carência, do irmão em agrura, do próximo em enfermidade, do ser enregelado, da criatura desnuda, concedendo a cada um a baga de amor, que é uma estrela nascente, na noite sombria e dominadora que a todos atemoriza...
Jesus, apiada-Te de nós, no templo que nos facultas para reacender e manter a chama da fé viva! Torna-nos dignos de aqui estar, louvando-Te e amando-Te através do amor aos nossos irmãos da retaguarda.