domingo, 19 de julho de 2026

As Bênçãos de Deus

As Bênçãos de Deus

Joanna de Ângelis


Imagem gerada por AI

Narra uma antiga história popular que um modesto trabalhador braçal encontrava-se no seu trato de terra lavrando-o, em um amanhecer de beleza arrebatadora, quando se lhe acercou um indivíduo citadino muito bem vestido, materialista confesso, que, impossibilitado de conter a emoção e a arrogância diante do festival de cor, som e magia que a natureza lhe apresentava, perguntou-lhe: 

— Camponês, tu crês em Deus? 

— Sim, senhor, eu creio em Deus! – respondeu-lhe o homem simples.

 — Então, nesta manhã maravilhosa, mostra-me um lugar onde Deus se encontra – e sorriu, sarcástico. 

O homem humilde olhou em volta, enquanto se apoiava ao cabo da enxada, e depois, com naturalidade, respondeu:

— Senhor, eu não sou capaz de mostrar um lugar onde Deus se encontra nesta paisagem iluminada. No entanto, eu peço ao senhor para mostrar-me um lugar onde Deus não está.

Tomado de espanto, o soberbo afastou-se desconsertado.

Deus se encontra em toda parte, onde quer que se apresente a Sua obra. Desde a sinfonia galáctica, nos espaços infinitos, até o acelerado ritmo das micropartículas em suas órbitas.

Quando os geneticistas conseguiram realizar o milagre da decodificação do genoma humano, surpreenderam-se com os bilhões de informações contidas em cada DNA, narrando toda a sua história do passado e guardando as marcas dos acontecimentos orgânicos para o futuro...

Até este momento, por mais aprofundem as reflexões e pesquisas, ainda não conseguiram detectar os fatores que levam alguns genes a mutações que irão responder por diversos processos degenerativos no organismo, e por que numa sequência familiar mantendo o padrão em determinado grupo, logo, subitamente, sem causa lógica, rompe a cadeia e apresenta uma significativa alteração…

De igual maneira, é perturbadora a formação das novas galáxias assim como o desaparecimento de outras nos buracos negros

Por mais penetre a investigação científica e tecnológica nos milagres da vida, mais lhes constata a anterioridade, a harmonia, a grandiosidade.

Nas tentativas de interpretar o cosmo, têm sido elaboradas teses contínuas, algumas frutos dos resultados adquiridos com os instrumentos de pesquisa, especialmente depois dos estudos geométricos de Kepler, no fim do século XVI, a respeito da localização dos planetas em volta do Sol, que abriram as perspectivas para melhor entender-se a Criação.

Da mesma forma, desde o modesto telescópio construído por Galileu até o avançado Hubble, novas informações são registradas a cada momento, dando lugar às variadas teorias como as dos universos paralelos, das supercordas, da unificação, da final ou de tudo e, mais recente, da desordem ou do caos… 

… E enquanto as mentes mais audaciosas analisam a ocorrência do big bang, especialmente nos seus três primeiros minutos, não poucos tentam impor a ideia da autocriação dispensando a presença de Deus, conforme ocorreu com Laplace ao ser interrogado pelo imperador Napoleão Bonaparte, quando, após ler o seu livro, encontrando-o no palácio do Louvre, informou-o que não havia encontrado nenhuma referência a Deus na sua obra: — Não necessitei dessa hipótese, senhor! – respondendo com sarcasmo, como se ele houvesse elaborado todas as respostas para explicar a Criação. E, nada obstante, encontra-se hoje quase que totalmente superada, apesar da presunção do seu autor. 

*

Tudo são bênçãos em a natureza.

O Espírito imortal, na sua saga formosa de desenvolvimento dos tesouros inabordáveis que lhe jazem em germe, etapa após etapa acumula experiências e conhecimentos que o levam a louvar, a agradecer e a pedir a Deus ajuda para melhor integrar-se na harmonia da Criação. 

Penetrando, pouco a pouco, a sua sonda perquiridora do raciocínio no organismo da vida exuberante, vai encontrando as respostas que o engrandecem e lhe facilitam o entendimento em torno dos objetivos essenciais da pequena existência terrena, ambicionando a grandeza estelar. 

Observa a ordem em todas as coisas e o equilíbrio das leis universais e morais, sentindo-se compelido a contínuas alterações de entendimento, conforme os resultados obtidos no seu empenho de crescimento intelecto-moral.

É perfeitamente natural que, em cada época, conforme o desenvolvimento dos valores intelectivos, o ser humano, em sua ânsia de decifrar as incógnitas que encontrava em toda a parte, procurasse entender Deus e submetê-Lo ao crivo da sua dimensão ridícula.

O esforço redundou nas conceituações primárias em torno do Criador, limitando-O à sua capacidade de compreensão, estabelecendo normas que O diminuíssem aos limites das condições precárias da razão em desenvolvimento, facultando o surgimento dos deuses, como verdadeiros inevitáveis arquétipos defluentes do seu avanço pela escala evolutiva.

Do Deus bárbaro e vingativo, imprevidente e humanoide, lentamente passou com Jesus Cristo à condição de Sublime Pai, num conceito afetuoso e ainda humano, porém compatível com a humana capacidade de vivenciá-Lo no seu dia a dia. 

Com o advento da ciência, com o desdobramento da filosofia, rompendo as barreiras do passado e facultando a libertação de conceitos que foram deixados porque portadores de rebeldia e de pessimismo, nova compreensão da Sua magnitude tomou lugar na esfera das reflexões e o materialismo surgiu como sendo a fórmula mágica para tranquilizar as mentes incapazes de penetrar nas abstratas concepções em torno Dele.

Na atualidade, ainda vestido de mitos e de absurdos, dominado por paixões nacionais e políticas, crendices e ritualismos, permanece vitorioso em cultos externos que não resistem às profundas análises da lógica nem da razão, servindo de ópio para as massas, que o autoritarismo religioso de algumas doutrinas ortodoxas ou ingênuas ainda submetem.

Essa Inteligência criadora que precede ao big bang permanecerá por tempo indeterminado não entendida em todos os seus aspectos, pois que, se o fosse, já não seria a Causalidade, cedendo seu lugar ao ainda mesquinho ser humano que ensaia os seus primeiros passos na compreensão da sua própria realidade.

Vivendo mais por automatismo e acreditando por condicionamentos como bem viver e melhor ser feliz, o ser humano em evolução não dispõe da capacidade de abarcar a Natureza da natureza, somente para satisfazer a sua ambição intelectual.

Desse modo, mesmo quando não entende Deus, sente a Realidade em tudo e percebe-se mergulhado nesse Oceano de harmonia que o comove e não lhe permite estabelecer se Deus está nele ou se apenas é…

*

 Quando alguém perguntou ao eminente cientista Jung se ele acreditava em Deus, ele teria respondido com simplicidade:

Eu não acredito. Eu sei… 

Saber é para sempre enquanto crer é transitório.

As bênçãos de Deus inclusive se encontram na capacidade fantástica de o ser humano poder pensar, entender e aprofundar reflexões, conseguindo conquistar a gloriosa oportunidade de saber e transformar em utilidade pelos instrumentos de que se utiliza para penetrar no macro e no microcosmo, mas acima de tudo no Psiquismo gerador do universo e da vida.

Vive de tal forma que te encontres perfeitamente em sintonia com as bênçãos de Deus onde te encontres e diante do que faças, até poderes afirmar um dia, conforme Jesus elucidou: 

— Eu e o Pai somos um…

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Entrega-te a Deus

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sábado, 18 de julho de 2026

Poder e política

Poder e política

Hammed


Imagem gerada por IA

(…)Os corpos melhorados, em se procriando, reproduziram-se nas mesmas condições, como ocorre com árvores enxertadas; deram nascimento a uma nova espécie que, pouco a pouco, distanciou-se do tipo primitivo, à medida que o Espírito progrediu.(…) (A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo / Allan Kardec.)
Existem ínfimas diferenças entre o DNA humano e o dos chimpanzés e bonobos; como somos todos primatas, há muito mais semelhanças do que diferenças, diz de Waal.

Destas últimas, ele assevera, as principais são a linguagem e a família nuclear.

Aptidões linguísticas estão ausentes neles, entretanto podem aprender alguns princípios da linguagem, como, por exemplo, expressar-se por meio de símbolos, mas não conseguem nada além do que uma criança pequenina pode realizar. Outra diferença básica é que não possuem uma estrutura familiar mais ampla como na espécie humana. Os machos não estão envolvidos com os cuidados familiares, pois quem toma conta da subsistência das crias são só as fêmeas.

Os chimpanzés disputam o território e as coalizões para eles são essenciais. Descreve o primatólogo que “nenhum macho pode dominar sozinho, pelo menos não por muito tempo, pois o grupo como um todo pode derrubar qualquer um.

(…) manter-se no topo é um exercício de equilíbrio entre expressar veementemente a dominância, mantendo os aliados satisfeitos evitando uma revolta em massa”.

Alguns membros do agrupamento buscam frutas e as “doam” para outros, com o intuito de serem escolhidos futuramente como líderes ou para conseguir o comando do grupo.

Se isso nos parece familiar é porque a política humana funciona exatamente da mesma forma.

Entre eles, é comum formarem aliança de amigos que se autoprotegem por toda a vida. Os mais altruístas ajudam doentes e idosos a se alimentarem. Eles também apresentam senso de justiça; por exemplo: se um chimpanzé se recusa a dividir seu alimento, o grupo o castiga, não o deixando chegar perto da comida numa próxima caçada.

Frans de Waal nos informa a respeito do relacionamento entre dois machos que disputam o poder. (Frans de Waal, Eu, Primata - Por Que Somos Como Somos, Companhia das Letras) Notou que o poderio é a alavanca motivadora dos chimpanzés machos; para eles o poder é um refinado afrodisíaco e que, além do mais, vicia. Os machos guardam ciumentamente seu cetro de comando e não se deixam amedrontar diante de ninguém que os possa afrontar.

A violenta batalha entre dois chimpanzés, o jovem Luit e o ancião Yeroen na luta pelo domínio, enquadra-se com perfeição na teoria psicológica da decepção-agressividade, ou seja, quanto maior for a frustração, maior será o ódio. Para Yeroen, além de tudo, aquela não fora a primeira peleja perdida para Luit. A ferocidade do ataque pode ter sido consequência do fato de ser a segunda vez que o velho macho perdera a liderança.

Na primeira vez em que Luit chegou ao topo da chefia, assinalando o fim do ancien régime (sistema político, econômico e social da monarquia francesa antes da revolução de 1789) – liderado por Yeroen –, relata de Waal que ficou abismado ante a reação deste chefe destronado, costumeiramente imponente e majestoso que, depois da derrota, ficou irreconhecível. Em meio à disputa acirrada, ele assemelhava-se a um fruto podre caído de uma árvore, debatia-se com gritos de cortar o coração, como uma criança que, durante os surtos de chilique, olha de esguelha para a mãe em busca de sinais de acolhimento.

Yeroen reparava em quem se aproximava dele, esperando sempre ser reconfortado pelo resto do grupo. Se o bando à sua volta fosse grande e poderoso, em especial se incluísse uma fêmea alfa, ele ganhava valentia instantânea. Contando com os defensores ao seu redor, ele reacendia o confronto com o rival. Os faniquitos de Yeroen eram, sem dúvida, mais um exemplo de hábil manipulação. O que mais fascinou o brilhante cientista foram os paralelos que fazia com a cena de apego infantil, observados com clareza em expressões como “agarrar-se ao poder” e “ser desmamado do poder”.

São pontes utilizadas pelo autor para caracterizar a natureza do poder. Destronado do seu pedestal, aquele macho manifestava a mesma reação de uma criança pequena, quando lhe tiramos a chupeta ou seu brinquedo favorito. Quando Yeroen percebeu finalmente que perdera a liderança, sentou-se desanimado fitando o vazio, com um olhar inexpressivo. Alheio à atividade social ao seu redor, recusou comida por semanas. De Waal chegou a pensar que o símio estivesse doente, mas o veterinário não encontrou problema algum. O antropoide era uma pálida sombra do chefão imponente que fora. Ao perder o mandato, ele perdeu a alegria de viver.

Encontramos na própria sociedade humana, em muitas ocasiões, transformações drásticas como essa acima descrita, notadas de modo claro em pessoas que perderam o status social ou o lugar de comando. Adotam uma postura completamente diferente daquela arrogância que exibiam antes. Ficam parecendo anos mais velhas, demonstram uma linguagem corporal lânguida, um estado de abatimento e uma grande fraqueza física e mental.

Em O Livro dos Espíritos, a Espiritualidade faz referência a uma primitividade que ela denomina de estado de natureza. E explica “(…) estado natural é a infância da Humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, e carregando em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não está destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem dele se liberta pelo progresso e pela civilização.” (*)

Muitos homens, porém, vivem até agora num estágio infantil trazido de sua ancestralidade, presos ainda a um “estado de natureza”, quase sem nenhum desenvolvimento intelectual e moral.

A necessidade de autoridade e de prestígio que encontramos em inúmeros homens, seja nos círculos religiosos, políticos, profissionais, seja nos esportivos, filantrópicos e outros tantos,
decorre de uma “aspiração de dominar” ou de um “sentimento alfa”, pois somos herdeiros biológicos/espirituais dos primatas das florestas de quem todos descendemos. Essa necessidade é proveniente, também, do complexo de inferioridade que desenvolveram em outras etapas existenciais. São mentalidades adquiridas em vidas pretéritas, ou mesmo na presente, na convivência com familiares egomaníacos e de baixa autoestima.

Há certas almas humanas, insaciáveis de atenção e controle, que precisam supor-se superiores para compensar a crença na sua suposta insignificância ou falta de sentido em que vivem.

Inferioridade, disputa e rivalidade formam um núcleo central em sua vida, cujo objetivo primordial é obter domínio sobre tudo e sobre todos.

Seria uma visão por inteiro equivocada e reducionista presumir que tais fenômenos humanos são apenas subprodutos de processos econômicos e sociais; muito pelo contrário, o desenvolvimento de tais complexos é ancestral e/ou primitivo e modela personalidades, tornando-as cada vez mais ávidas pelo domínio e controle sobre tudo o que existe. Alegar categoricamente que a busca do poder é sempre errada é tão incorreto quanto afirmar que está sempre certa. De modo que não há erro algum em buscar competição e disputa de poder, desde que essa busca não seja baseada em ameaça, chantagem e sedução, mas, sim, conquistada por mérito ou qualidades morais e/ou intelectuais.

Não existe problema algum em competir e concorrer, nem aspirar aos feitos das pessoas e/ou almejar por igual sucesso; a única falta ocorrerá se utilizarmos um modo destrutivo de competição e métodos de politicagem que produzam danos e efeitos negativos à sociedade.

Em muitos momentos, as criaturas tentam contrabalançar seu sentimento de inferioridade, abraçando modos de viver em que
superestimam ou exaltam a própria personalidade. Arrogância, porte megalomaníaco e ostentação desmedida fazem parte do séquito daqueles que possuem uma disputa pelo poder interiorizada de baixa autoestima.

Alma humana alguma é superior ou inferior a outra, e sim mais ou menos experiente do que outra. Se há algo que nos torna superiores é a nossa capacidade de amar e pensar, e nunca a de impor e decidir de modo arbitrário.

O apóstolo Lucas, no capítulo 22, versículo 46, de seu Evangelho, esclarece sobre as raízes das tentações: “(…) e disse-lhes: - Por que estais dormindo? Levantai, e orai, para que não entreis em tentação!”

A tentação do poder não é, de modo geral, um agente externo, praticado pelos maus espíritos, atraindo-nos para o desequilíbrio.

Nossos hábitos atávicos é que gritam no íntimo de nós mesmos, impulsionando-nos a perpetuar os costumes do poder desmedido e as viciações do comando. A tentação de subjugar sempre aparecerá enquanto estivermos no estado de sono, “dormindo”, quer dizer, invigilantes, displicentes, inconsequentes. Ninguém é tentado, se não trouxer a tentação dentro de si mesmo.

O poder seduz o ignorante, o cidadão despreparado e todos aqueles que caminham sem objetivo maior, mas querem, a qualquer preço, sentir-se importantes.

Hammed por Francisco do Espírito Santo Neto do livro:
Estamos Prontos
(*) Questão 776 (O Livro dos Espíritos - Allan Kardec) – O estado natural e a lei natural são a mesma coisa?
– Não, o estado natural é o estado primitivo. A civilização é incompatível com o estado natural, ao passo que a lei natural contribui para o progresso da Humanidade. O estado natural é a infância da Humanidade e o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível, e carregando em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não está destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem dele se liberta pelo progresso e pela civilização. A lei natural, ao contrário, rege a Humanidade inteira, e o homem se aperfeiçoa à medida que compreende melhor e pratica melhor essa lei.
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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Com você mesmo

Com você mesmo

André Luiz


Imagem gerada por IA

Meu amigo, você clama contra as dificuldades do mundo, mas será que você já pensou nas facilidades em suas mãos?

Observemos:

Você concorre, em tempo determinado, para exonerar-se da multa legal, com expressiva taxa de consumo de luz e força elétricas; todavia, a usina solar que lhe fornece claridade, calor e vida, nem é assinalada comumente pela sua memória...

Você salda, periodicamente, largas contas relativas ao gasto de água encanada; no entanto, nem se lembra da gratuidade da água das chuvas e das fontes a enriquecer-lhe os dias...

Você estipendia na feira, com apreciáveis somas, todo gênero alimentício que lhe atenda ao paladar; contudo, o oxigênio – elemento mais importante a sustentar-lhe o organismo – é utilizado em seu sangue sem pesar-lhe no orçamento com qualquer preocupação...

Você resgata com a loja novos débitos, cada vez que renova o guarda-roupa, e, apesar disso, nunca inventariou os bens que deve ao corpo de carne a resguardar-lhe o Espírito...

Você remunera o profissional especializado pela adaptação de um só dente artificial: entretanto, nada despendeu para obter a dentadura natural completa...

Você compra a drágea medicamentosa para leve dor de cabeça; todavia, recebe de graça a faculdade de articular, instante a instante, os mais complicados pensamentos...

Você gasta quantias inestimáveis para assistir a esse ou aquele espetáculo esportivo ou à exibição de um filme; contudo, guarda sem sacrifício algum a possibilidade de contemplar o solo cheio de flores e o Céu faiscante de estrelas...

Você paga para ouvir simples melodia de um conjunto orquestral; no entanto, ouve diariamente a divina musica da natureza, sem consumir vintém...

Você desembolsa importâncias enormes para adquirir passagens e indenizar hospedarias, sempre que se desloca de casa; não obstante, passa-lhe despercebido o prêmio vultoso que recebeu com o próprio ingresso na romagem terrestre...

Não desespere e nem se lastime...

Atendamos à realidade, compreendendo que a alegria e a esperança, expressando créditos infinitos de Deus, são os motivos básicos da vida a erguer-se, a cada momento, por sinfonia maravilhosa.

(Em referência a O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. V / Item 13.)

André Luiz do livro: O Espírito da Verdade 
de Chico Xavier e Waldo Vieira (Espíritos Diversos)

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Divisionismo e Espiritismo

Divisionismo e Espiritismo

C.M. (Hermínio C. Miranda)

1ª publicação de Hermínio C. Miranda na Revista Reformador em Dez 1956.



É comum encontrarmos pessoas bem dotadas de inteligência e espírito inquisitivo que experimentam dificuldade em aceitar fatos convincentes e comprovados. Ainda há pouco estive lendo um livro escrito por um desses homens inteligentes e de grande cultura humanística. Ele procurava demonstrar, a certa altura, que não existem raças inferiores e, por conseguinte, o mito da superioridade racial é outra tolice. Sua argumentação se desenvolve por páginas e mais páginas, citando, entre outros, o caso do grande negro americano George Washington Carver, que dedicou sua vida e sua inteligência a serviço da Humanidade, descobrindo, além de outras coisas, cerca de 300 aplicações diferentes para um simples produto da terra: o amendoim. Milhares de exemplos semelhantes poderiam ser citados, pois a História está cheia deles. Em nosso próprio país encontraremos figuras como a de Machado de Assis, de origem humílima, doentio, mas iluminado pela fulguração do gênio. Encontraremos José do Patrocínio, dono daquela inteligência magnífica, que tanto fez pelos homens de sua raça. E quantos outros? Nem todos usam seus talentos na direção inequívoca do bem, mas a grande maioria realiza, de um modo ou de outro, as coisas que estavam em seu poder e em sua compreensão realizar. Muitos argumentos poderão ser alinhados contra a teoria absurda e desumana da desigualdade racial.

O argumento máximo, porém, e irrespondível, é fornecido pela Doutrina Espírita. O corpo — branco, negro ou amarelo — é mera vestimenta designada por Deus. Os Espíritos não têm cor, nem nacionalidade, nem raça, nem mesmo religião, tomada no estreito sentido com que nos acostumamos a equacionar esse problema. Sua nacionalidade é universal, sua raça emana do tronco único, da única fonte criadora que é Deus. Sua religião, antes de ser católica, protestante, judaica ou budista, é o culto supremo de Deus, a prática permanente da caridade, o exercício constante do amor ao próximo. 

*

Muitas vezes temos ouvido que todas as religiões são boas e todos os caminhos levam a Deus. Há mais verdade nisso do que se pensa. Mas há também alguma incompreensão. Todos os caminhos, de fato, levam a Deus, porque Ele está sempre no horizonte, no ponto de convergência de nossas vidas. Para Ele caminhamos todos. Só que uns levam mais tempo que outros. Uns conseguem enxergar mais claro as veredas e atravessam logo o espaço que os separa de Deus. Outros se perdem na noite do pecado e do crime e vagueiam desorientados pelos atalhos. Levam muito mais tempo, mas, afinal de contas, que é a fração de tempo de nossas existências terrenas comparada com o maravilhoso desdobramento da eternidade?

Todos esses caminhos estão abertos à nossa frente. Nenhuma religião pode arvorar-se em proprietária absoluta da verdade. O proprietário da verdade é Deus, e Ele jamais cuidou de fundar religiões. Nem mesmo Jesus Cristo, seu enviado especial à Terra, preocupou-se em fundar mais uma religião. Basta ler com atenção seus ensinamentos. Que dizia ele?

Que não vinha destruir ou reformar a lei antiga. Vinha reforçá-la, vinha abrir os olhos dos povos, vinha reavivar nos corações embotados o senso da verdadeira religiosidade.

No fundo de seu ser, o homem anseia por Deus, como a mais forte de suas necessidades espirituais. Não é o homem que bate no peito e diz "Senhor, Senhor" que irá para a glória, dizia o Cristo, mas todo aquele que ouve a palavra de Deus. Quanto aos ritos e fórmulas cabalísticas, não lhes interessavam, porque ele sabia, na luminosidade de seu espírito, que os homens estavam dando mais importância às fórmulas que ao conteúdo de sua religiosidade.

Curar no sábado? Pecado, diziam os ortodoxos. Colher trigo no sábado? Sacrilégio, resmungavam os hipócritas. Mas a palavra de Jesus foi clara e continua clara, dois mil anos depois: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.

Essa frase ainda possui o mesmo significado hoje. As fórmulas não importam, o que importa é a legitimidade do sentimento cristão. Então, deixa-se morrer a criatura humana porque é pecado curar no sábado?

Ninguém vai para o céu ou para o inferno pelo simples fato de ter praticado esta religião em lugar daquela outra. Na verdade, as grandes religiões do mundo fundamentam-se em princípios gerais, como a prática do bem, a existência de um ente supremo, o aperfeiçoamento moral e espiritual. Se despojarmos as grandes religiões de suas fórmulas e de seu processamento exterior, veremos que, fundamentalmente, elas têm surpreendentes semelhanças. Um estudo mais profundo talvez revelasse que emanam todas da mesma fonte suprema, embora sob inspiração às vezes diversa.

O certo seria — e lá chegaremos um dia — que as religiões vivessem em coexistência harmoniosa, completando-se, trabalhando pelo objetivo comum, que é o aperfeiçoamento do Espírito e sua preparação para novos e mais altos desígnios. Há uma tremenda perda de energia nessas questúnculas e polêmicas teológicas e filosóficas. 

Em vez de se combaterem inutilmente, em pura perda de energia, deveriam unir-se contra inimigos comuns a todas as religiões: o crime, o erro, a dissolução social, os transviamentos políticos, a cegueira espiritual, o ateísmo. Esse sim é o objetivo das religiões autênticas, dignas do legado espiritual que receberam.

A diferença entre elas é mais aparente que real. O que as torna antagônicas, por vezes, não é a força que as inspirou e as estabeleceu no plano da Humanidade, mas os homens que vieram depois e se confundiram em interpretações contraditórias da mesma verdade eterna. Quiseram explicar o que já estava explicado e, em explicações de explicações, nos perdemos pelos caminhos. 

A verdade absoluta está certamente mais na singeleza poética dos Evangelhos que nos rótulos eventualmente adotados pelas diversas interpretações que se chamam religiões.

Até lá, continuemos nosso trabalho silencioso, despretensioso, sem a preocupação de sermos os únicos proprietários da verdade, porque, do outro lado da vida, sabemos que vamos encontrar junto ao trono de Deus todos os bons católicos, os bons judeus, os bons maometanos, os bons protestantes. Lá estarão também os que em sua passagem pela Terra tiveram peles brancas, pretas, amarelas ou mestiças. Todos os bons Espíritos, enfim, purificados e evoluídos na prática do bem.

A casa do Senhor tem muitas mansões, dizia o Mestre. Haverá, certamente, lugar para todos os que legitimamente aspirarem à glória e trabalharem para obtê-la.

C.M. (Hermínio C. Miranda)
Revista Reformador Dez. 1956
1ª publicação de Hermínio C. Miranda

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Revista Reformador Dez. 1956