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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Insucesso aparente

Insucesso aparente

Ignotus


A viagem aérea transcorria tranquila.

Os dois passageiros iniciaram a conversação sem maior profundidade.

- As viagens aéreas fazem-me mal. Elucidou um, sinto-me nervoso, muito tenso.

- Não lhe dê maior importância. Isto ocorre, certamente, porque você vive inquieto.

- Sem dúvida. Agora mesmo estou vivendo momentos cruciais...

- Não só agora. Sua vida tem sido áspera. Suas conquistas se dão após imenso esforço e você vem atingindo as metas a penates de sacrifício...

- Como sabe? Em verdade penso insistentemente em suicidar-me. Sou um engenheiro químico fracassado. Perdi o meu primeiro emprego e não consigo outro. Retorno à casa com mais um insucesso... A ideia de autodestruição me atormenta e é - me a única saída. Tenho esposa e um filhinho...

- E crê que solucionará o seu caso? Não será uma crueldade deixá-los à mercê de si mesmos, eles que contam com você? Além disso, não se engane: A morte abre as portas da vida e você continuará a viver, certo que em condição pior...

O estranho falou-lhe, infundiu-lhe ânimo.

- Como o senhor pode ter tanta paz e conhecimento da pessoa humana?

- Sou espírita militante e compreendo que a felicidade depende de como cada criatura se comporta em relação à vida.

Detalhou-lhe as bases da crença, as experiências, os estudos espiritistas.

- Que deverei fazer, a fim de livrar-me destes problemas?

- Primeiro, recorde-se de que os insucessos externos são sempre aparentes e graves aqueles de natureza interior, as atitudes que mantemos contra o próximo e nós mesmos: vícios, erros, compromissos morais negativos. Depois, tome contato com a Doutrina Espírita. Formule um programa de renovação interior e viva-o.

- Por exemplo?

- Estabeleça: eu sou forte em Jesus e n’Ele tudo posso.

Hoje faz sol eu sempre tenho sol em mim.

Quem aceita o desânimo já se encontra a caminho do fracasso.

O otimismo deve ser-me uma atitude interior.

Confio no bem, porque o bem é sempre bom.

Por enquanto estou colhendo. Não cessarei de semear. Assim fazendo recolherei bênçãos mais tarde.

Não temerei nada. O receio em coisa alguma ajuda.

Sou um homem de valor. Assim lograrei minhas metas.

O insucesso é experiência, lição que ensina o que não deverei fazer.

Em qualquer circunstância distribuirei alegria e esperança.

Como vê são pequenas regras, cheias de simplicidade e estímulo.

Aplique-as na vida diária. Não espere o êxito agora ou amanhã, porém mais tarde.

- Como agradecer-lhe? Estamos chegando. O senhor colocou vida e sol em minha existência. Bendigo a Deus esta viagem.

- Certamente. Ante este êxito você constata que o seu aparente insucesso enseja-lhe experiência nova. Felicidades!

*

Você possui algo com que pode ajudar.

Não se escuse fazê-lo.

Ao seu lado, desconhecido, há alguém necessitando de sua cooperação. Tente doá-la.

Ignotus por Divaldo Franco do livro:
Espelho Dalma

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sábado, 4 de abril de 2026

Jesus e o observador

Jesus e o observador

Ignotus



Quem o visse cercado pela multidão, em cuja face estavam as marcas iniludíveis do desconforto, das aflições e das ansiedades, talvez ficasse à distância, sem ter a menor ideia do que Ele pudesse fazer àquelas gentes.

Quem o visse exprobrando a conduta reprochável dos maus sacerdotes infelizes governantes, certamente recearia, afastando-se do círculo em que Ele estava.

Quem O acompanhasse pelas longas viagens, sempre cercado pelas dores do povo, sem agasalhos nem alforjes, sob a canícula ou as chuvas, suporia estar ao lado de um visionário, um sonhador.

Quem se detivesse no exame das Suas palavras renovadoras, em dias de rapina e crueldade, entoando Salmos de amor e esperança, evitaria a participação no grupo que Ele compunha, receando consequências.

Quem penetrasse no círculo mais íntimo dos que O seguiriam, dominados pelo magnetismo dEle, suporia estar entre fanáticos que pretendesse lutar contra tudo, afervorados pela implantação de um Reino impossível.

Quem, todavia resolvesse mergulhar na Sua Aura, reflexionando demoradamente os conceitos que Ele emitia, sentindo as angústias das multidões que Ele saciava com o verbo divino, seguindo-O pelas trilhas da compaixão e da misericórdia, vivendo as esperanças que Ele acenava em relação aos dias do futuro e se facultasse senti-Lo no imo do coração, amá-Lo-ia por certo, entregasse totalmente ao mistério da fraternidade até a imolação, como parte essencial da Era Nova que Ele iniciava, mas que somente se concretizaria nos confins dos tempos futuros.

Jesus não é uma mensagem de uma época, um tempo uma Civilização.

É o pão de sustento do século, a água refrescante das eras e a esperança modelar de todos os povos. Segurança do mundo moderno, é o Luzeiro em cuja claridade solar todas as trevas se dissipam, a aquecer por todo o sempre sofrido coração do espírito humano desejoso de felicidade, de plenitude da paz.

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sábado, 28 de março de 2026

A coisa mais importante

A coisa mais importante

Ignotus



A prisão feminina recebia o orador espírita por primeira vez.

As mulheres condenadas a períodos diversos e nunca inferiores a seis anos encontravam-se desagradadas, face ao impositivo compulsório de estarem presentes a palestras.

Rostos contraídos, lábios em ríctus, enfado ...

O orador foi apresentado pela Diretora em considerações breves.

Concedida a palavra, ele propôs uma pequena “estória com interferência”, a fim de motivar as assistentes.

Logrou o intento.

Modificou-se o ambiente.

O tema era a felicidade.

Argumentos leves e significativos, assuntos do dia a dia chamados para dar melhor ênfase ao tema, quando, perguntou:

- “Qual a coisa mais importante na vida?”

A indagação tomou as espectadoras de surpresa. Silêncio geral.

Uma voz acanhada respondeu do fundo da sala: - “O amor”.

Outra disse: - “A liberdade”.

Alguém afirmou: - “O dinheiro”.

Outrem postulou: - “A saúde”.

As opiniões se multiplicaram e ele as ouviu sem comentar.

Quando se fez novo silêncio, ele considerou:

- “Para mim a coisa mais importante na vida é a paz de espírito”.

“O amor vem e vai, quando não se tem paz”.

“Se a liberdade fosse importante, ninguém estaria aqui, pois que tudo faria a fim de não a perder. Aliás, a verdadeira liberdade é interior. Pode-se estar no cárcere, sendo inocente, permanecendo-se livre e estar-se na rua preso aos vícios e paixões...”

“O dinheiro compra muita coisa menos a paz. A saúde pode ser perdida pela nossa negligência e aí estão os exemplos dos que derrapam nos excessos, nas dissipações e a malbaratam...”

Uma grande expectativa pairava no ar.

Depois de um momento de reflexão, ele prosseguiu:

- A verdadeira paz dá felicidade, porque decorre de uma conduta reta - sem erros a ressarcir -, de um coração pacífico - sem mágoas nem paixões -, de uma consciência tranquila - que é o resultado das outras aquisições.

“Jesus nos ensinou a usar as coisas, as posses, sem depender delas; a viver o amor sem o corromper; a resguardar a saúde, a fim de preservá-la... A paz, porém, Ele nos deu, afirmando ser uma paz que o mundo não podia dar - essa que amolenta e degrada o homem -, mas só Ele poderia conceder - a que resultar do sacrifício da abnegação e da dedicação ao bem do próximo - então, enobrecedora, permanente. Essa paz proporciona a felicidade”.

Alongou os argumentos, propôs considerações, enquanto uma paz de felicidade espiritual impregnava o ambiente e os corações, face à música sublime dos comentários espíritas.

*

Não se afadigue pela posse das coisas. Quase sempre quem possui fica possuído pelas coisas que o atormentam.

Seja libre de amarras terrenas inundando-se da paz que o Cristo oferece aos que O servem e você desfrutará do mais importante bem da vida.

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quinta-feira, 19 de março de 2026

Questão de prova

Questão de prova

Ignotus



- Senhor – disse o fátuo negador -, dê-me uma prova da imortalidade da alma.

O conferencista, paciente, fez um levantamento histórico do processo antropológico do homem, dos fatos e das experiências probantes da indestrutibilidade do Espírito.

A palavra erudita apresentava larga documentação científica de ontem como de hoje, quando o apressado descrente o interrompeu, informando, irônico:

- Não creio em nada disso.

- É um direito que lhe assiste – aludiu o outro – desculpe-me, porém, indagar-lhe: O senhor crê na imortalidade da alma?

- Não!

- Então, por favor, dê-me uma prova de que a alma não é imortal.

- Não posso!

- Se não o senhor não me pode provar que o espírito NÃO é imortal, deduzo que não faz, porque ele o É. Verdade? Então não lhe necessito provar a imortalidade, já que o senhor não me pode documentar o contrário.

E calaram-se.

*
É muito cômodo arremeter com duas simples palavras, contra um fato, dizendo, apenas: “Não creio”.

Difícil é documentar a negação.

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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Vinte anos depois...

Vinte anos depois...

Ignotus



O local não era dos mais apropriados. Salão de bailes acolhia habitualmente homens e mulheres sedentos de fruir sensações mais fortes. Aquela, porém, era uma noite especial. A frequência denotava outro tipo de necessidade. Era uma festa, todavia, espiritual. Ela o percebera à entrada. O movimento diversificava do habitual. Em tribuna improvisada, junto a ampla mesa, na qual se encontravam personalidades do lugar, assomou um moço, que explanou, por mais de uma hora, conceitos e lições que não estava acostumada. Sentiu-se atônita. Buscava o prazer abrasador e sentia-se atendida por aragens refazentes. Não compreendera tudo, e, todavia, percebia-se invadida por desconhecida alegria... Seguir a fila de pessoas que se congratulavam com o jovem. Entregou-se automaticamente. No curto momento, no diálogo ligeiro, desnudou-se, emocionada.

- Sou vendedora de ilusões – falou sem retoques, - Ouvindo a história da companheira de equívocos, tema central desta noite, sinto uma revelação diferente... Gostaria de conversar com o senhor, rogo-lhe ajuda, orientação...

- Conte com os nossos parcos recursos.

- Quando poderemos fazê-lo?

- Hoje... Logo mais, porquanto amanhã já não me encontrarei aqui.

- A esta hora?

- Por que não?

- Onde?

- Na residência em que me hospedo.

- Não serei recebida ali... Todos sabem quem sou...

- Se ali não houver lugar para você, positivamente, também, não haverá pra mim.

- Mas, eu sou...

- ... Uma irmã em busca da paz...

A conversa alongou-se, passando aquele momento, até a Alva, no lar fraterno que os recebeu. Concluída a entrevista, o evangelizador, orando, rogou ajuda para ela. Vinte anos depois, em outro Salão, agora, num Educandário na mesma cidade, o expositor espírita encerrava outra conferência.

- O senhor não se recordará de mim!

- Realmente.

- Eu sou a “vendedora de ilusões”, que há vinte anos atrás o escutou nesta cidade... “Encontrei Jesus naquela noite”... E após reflexionar:

- No dia imediato abandonei o local em que me hospedava e transferi residência para uma rua modesta, dando novo rumo à existência.

- Louvado seja Deus!

- Não é tudo. Antigo Companheiro informado da minha renovação buscou-me. Asseverou-se amar-me. Visitou-me com nobreza reiteradas vezes. Propôs-me matrimônio...

- Não lhe exijo amor – expôs -, rogo-lhe respeito e consideração.

Amar-me-á depois. Enxugou a face lavada pelo pranto.

- Consorciamo-nos – prosseguiu. – Face a impossibilidade de tornar-se mãe, resolvemos adotar uma criança cada dois anos, qual fosse nosso próprio filho. Já temos oito criaturas admiráveis em nosso lar... Venho agradecer-lhe a luz que acendeu no velador da minha alma.

- Agradeçamos ambos a Deus. Apresentou o esposo e os dois “filhos” mais velhos entre sorrisos e partiu. Orando em lágrimas, naquela noite o expositor, reconheceu ao Pai, o primeiro encontro há vinte anos atrás...

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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Perigo desnecessário

Perigo desnecessário

Ignotus



A senhora vivia num bairro elegante, no último andar do edifício que mandara construir.

Rica, em plena madureza orgânica, fruía a felicidade transitória que os bens materiais podem proporcionar.

Cercada por amigos, que também eram seus inquilinos, gozava o prazer, descansava, vivia regaladamente sem preocupações.

O esposo, que era médico em outra cidade, volvia ao lar somente nos fins de semana. O filho, já adulto e casado, visitava-a com frequência. Possuidor de caráter violento, instava com a genitora para que ficasse com um revólver, a fim de defender-se de algum delinquente. Esclarecia que ela vivia praticamente a sós, num apartamento com peças e joias de alto preço, e o revólver podia tornar-se um providencial amigo, num momento em que fosse surpreendida por algum bandido.

A senhora se escusava aceitar a oferta, enquanto o filho insistia.

Por fim, aquiesceu.

Guardou a arma carregada com o firme propósito de não a utilizar nunca.

No mesmo bairro havia uma favela.

Quando algumas crianças do atormentado núcleo humano descobriram a piscina elegante do luxuoso edifício, passaram a fazer sortidas ocultas, a princípio, depois, menos formalmente, quando lhes aprazia.

Os inquilinos protestaram, a polícia foi notificada, no entanto, a criançada maltrapilha insistia, burlava a vigilância, perturbava...

Informada pelas constantes reclamações, a senhora desculpava os menores, sorria, prometia tomar novas providências.

Como as queixas prosseguissem, saturou-se, entrando em estado de irritação.

Certa manhã em que as pessoas saíram para as suas tarefas externas, a senhora se deu conta da burla infantil, da algazarra, no térreo, veio à varanda, e, ao contemplar a alacridade e tumulto dos pequenos, desequilibrou-se.

Gritou, xingou, ameaçou... Nada conseguiu.

A meninada redobrou doestos e mergulhos nas águas tratadas.

Recordou-se do revólver. Foi buscá-lo com o fim de os assustar.

Mostrou-lhes, do alto, a arma, e voltou a ameaçá-los.

Ante o objeto perigoso as crianças debandaram, amedrontadas.

A dama sorriu, compreendeu a validade da arma e pôs-se a correr pelas varandas externas que circundavam o apartamento.

Descobrira uma forma exitosa para afugentar o aborrecimento.

Nesse ínterim, tropeçou e caiu.

A arma disparou.

A bala ricocheteou na borda da piscina e alcançou um pequeno de oito anos que teve morte instantânea.

Desespero, angústia, presença policial.

Foi indiciada, julgada e condenada.

Os jornais fizeram estardalhaço.

A defesa não conseguiu provar o acidente.

A dama foi encarcerada por largos anos e uma criança teve a vida ceifada, graças à desnecessária presença da arma perigosa.

* * *

Não te armes com os instrumentos que geram o crime e a desgraça.

Unge-te de fé e defender-te-ás.

Quem crê em Cristo já passou da morte para a vida.

O mal nunca faz bem.

Não guardes contigo perigos desnecessários.

Mensagem recebida em 23.01.2011.

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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Repartir para ser feliz

Repartir para ser feliz

Ignotus



Concluída a conferência que versara sobre a felicidade, o cavalheiro distinto acercou-se do palestrante e sem mais delongas, interrogou:

- O senhor crê, realmente, no que acaba de dizer?

- Sim. Integralmente.

- Concebe, possível, a felicidade?

- É claro que sim.

- Pois eu não acredito nela. Imagine que eu possuo haveres de alta monta, depósitos e títulos bancários expressivos, fábricas e bens, no entanto, o câncer, que me devora por dentro, apagou-me a luz da felicidade que eu supunha possuir. Fez uma pausa e prosseguiu:

- Sempre fui patrão justo e bom, esposo cumpridor dos deveres, amigo leal, todavia... Cofiou os bigodes bem cuidados e arrematou:

- Hoje duvido de Deus, da divina justiça, da alma... Por que sou tão infeliz?

- A questão, meu amigo, está colocada em termos errados.

- Felicidade não é posse externa, porém um estado interior perante a vida. Malgrado suas posses, a sua aparente bondade, o senhor procede de um pretérito espiritual que lhe cobra, no corpo, os erros morais contraídos contra ele. Não obstante, é rico. Pior seria se o câncer que o vítima não pudesse, por falta de recursos de sua parte, receber o conveniente tratamento. 

- Extraí o estômago, e apesar de possuir tudo o que o dinheiro pode comprar, perdi a saúde, marchando inexoravelmente para a morte.

Morrer – retrucou o pregador espírita – é ocorrência natural de todos que estamos no corpo avançamo-nos para desencarnação, que nos alcançará, sem exceção. Imprescindível encarar a morte como fenômeno da vida, tendo em mente, porém, que a vida, começa, realmente após a morte...

O elegante cidadão sorriu, depois gargalhou.

- O senhor acredita nisso? – Inquiriu, zombeteiro.

- É evidente.

- Vejamos: Em minhas indústrias ergui uma cooperativa para servir aos meus empregados, uma creche para os filhos dos meus empregados, um restaurante para os meus empregados, uma escola para os filhos dos meus empregados... Sendo um homem generoso, por que sofro?

- O senhor deseja uma resposta sincera ou prefere que eu concorde conforme está acostumado?

- É claro que desejo a verdade!

- Sem dúvida, o senhor é um excelente investidor, ambicioso, porquanto a sua cooperativa, não obstante servindo aos seus operários, dar-lhe lucro, mínimo que seja; a creche, que atende aos filhos dos seus trabalhadores, é um investimento, desde que o servidor, que tem filhos menores resguardados, produz mais e o senhor ganha mais; o operário que se alimenta bem realiza mais e o senhor tem maior soma de lucro; o pai, cujos filhos estão em educandário, em calma atua mais e os resultados são a sua prosperidade...

 -Como, então, eu poderia ser bom?

- Para ser-lhe franco, bom, no sentido integral, não lhe será possível lograr, conforme Jesus acentuou num diálogo mantido com o jovem rico, que o chamará bom. “A ninguém chameis bom, senão ao Pai Celestial”. Disse-lhe o Senhor.

- A fim de conseguir ser generoso e justo, parece-me que a melhor maneira seria repartir a fortuna que tem, com os operários e trabalhadores, tornando-os sócios de seu patrimônio...

- Está louco?! Isso seria...

- Seria generosidade. Temos o que dividimos e possuímos o bem que realizamos. De qualquer forma o senhor terá que deixar tudo, hoje ou amanhã, para este ou aquele, porquanto os bens materiais transitam, mudam de mão...

- E a minha saúde?

- Quiçá não retorne, mas a felicidade enriquecê-lo-á com certeza.

O cavalheiro resmungou, cismou, sorriu, pediu licença e saiu meneando a cabeça, decepcionado. Dois anos depois, no mesmo recinto, após a conferência, no momento das saudações fraternas, o homem rico aproximou-se do orador e o interrogou:

- Recorda-se de mim? 

Após alguma reflexão, repostou o opositor:

- Sim, recordo-me. Conversamos aqui mesmo, há algum tempo...

- Gostaria de convidá-lo a visitar uma das minhas fábricas.

- Rogo-lhe escusas, todavia, não posso. Compromissos doutrinários...

- Eu insisto...

- Não posso!

- Por favor!

- Examinaremos uma possibilidade. 

Posteriormente, um dia e hora determinadas, em automóvel de luxo foram visitar a fábrica. 

Ao portão de entrada uma comissão de senhoras obsequiou o convidado com um ramalhete de rosas. Na sala da gerência, após abrir a persiana de ampla janela, referiu-se o milionário: 

- Ali estão minha creche, meu restaurante, minha cooperativa, minha escola, o novo hospital que acabo de edificar...

Depois de breve pausa: 

- Atendi seu conselho. No fim do ano atrasado reparti expressiva soma das minhas ações e os lucros eu reverti em interesse dos meus empregados. Agora todos são meus sócios. 

Na sala referta pelos chefes de departamentos, funcionários, alguns operários, os sorrisos eram gerais.

- Fiz bem?

- Claro que sim. Apenas uma retificação: O conselho não me pertence e sim ao Cristo.

- Está bem. Diga-me lá: sou um homem generoso?

- Deseja que eu lhe responda com a verdade ou que concorde??

Sorrindo, redarguiu: 

- Com a verdade.

- Bem, o senhor continua excelente investidor, desde que, após o triunfo na Terra, agora investe no futuro espiritual, aliás, realizando a sua melhor proeza. 

Havia alegria espontânea em todos.

Saíram. Anoitecia. Uma criança aproximou-se e entregou ao senhor da indústria modesta flor do campo. Ele se comoveu. 

- Sou hoje um homem feliz. No meu egoísmo de antes nunca permitira que qualquer criança se acercasse de mim. Não tenho filhos; não fruí essa honra... Após a decisão de repartir as ações com meus operários, certo dia saí da fábrica, quando uma criança como esta se acercou de mim e disse-me:

- Deixe-me abraçá-lo titio. Quis recusar. Era filha de alguém dos meus serventes. Algo fazia-me fugir, então, de todas as crianças.

Sem o saber ela prosseguiu:

- Lá em casa antigamente mamãe falava muito de você, agora não...

- Ela disse que hoje é o dia do seu aniversário e todos, pela manhã oramos pelo senhor. 

- Fiquei petrificado. A criança atirou-se às minhas pernas e abraçou-as. Abaixei-me. Beijou-me. Renasci. Chorei como há muito não me ocorria. Encontrei a felicidade desde então.
Comecei a estudar o espiritismo. Melhorei intimamente, a saúde está quase equilibrada. Tenho paz. 

- Não poderia deixar, portanto, de dizer-lhe: Muito obrigado!

No zimbório da noite coruscavam estrelas.

- Oremos a Jesus meu amigo, a ele agradecendo a felicidade de O conhecer e O amar.

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