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domingo, 26 de julho de 2026

Reformas sociais

Reformas sociais

Richard Simonetti


O assunto surgiu na reunião de estudos. Para a edificação de uma sociedade justa não seria razoável a participação em movimentos que defendem uma mudança nas estruturas sociais?

Várias opiniões foram apresentadas. Houve quem preconizasse um engajamento do Centro, contribuindo até mesmo para a constituição de partido político capaz de pugnar pelos ideais espíritas. Outros defendiam uma mobilização popular, se necessário, pressionando os governantes, a fim de que as legítimas aspirações do povo fossem atendidas.

Terminada a discussão, ofereceu-se a palavra a Josefo, dedicado mentor espiritual que, após saudar os presentes pela psicofonia mediúnica, falou:

- O assunto hoje foi empolgante. É louvável o interesse que demonstraram na procura de soluções para os grandes problemas sociais. Considerem, entretanto, que todas as mudanças envolvendo a sociedade, para serem legítimas e proveitosas, pedem antes a renovação do Homem, o que não pode ser feito à custa de meras reivindicações, de verbalismo ou do exercício da força, porquanto, para tanto, é preciso entrar em seu coração e não há outro caminho senão o Amor. Pode parecer piegas aos doutos, mas é a pura expressão da realidade. Jesus o demonstrou incansavelmente em seu apostolado. O Espiritismo faz a mesma proposta, apresentando a caridade como a base da salvação humana. Com a caridade desenvolveremos a vocação de servir, que é o Amor em ação, atuante, empreendedor, irresistível no apelo à renovação.

- No entanto - retruca Luiz, um dos defensores do engajamento político - o amigo não nega que uma mobilização dos espíritas poderia favorecer as mudanças pretendidas.

- Sim, todos podem participar de tais iniciativas, desde que observem a ordem e a disciplina, com respeito aos poderes constituídos, mas, sem envolver a Doutrina Espírita como movimento, a fim de que não tenhamos a reedição dos perigosos enganos cometidos pelos líderes religiosos no passado, que terminaram por atrelar a religião ao poder, assimilando os males que pretendiam combater.

- Mas o irmão não admite que uma mobilização popular, até com eventual exercício de força, apressaria as mudanças pretendidas? - indaga Gabriel, um dos defensores das medidas revolucionárias.

- Semelhantes iniciativas realmente promovem modificações nas estruturas sociais, mas em nada contribuem para a edificação de um Mundo melhor. Muitos movimentos de força têm sido disparados. Sistemas se sucedem, mas perpetuam-se os males humanos... Países desenvolvidos resolvem transitoriamente os problemas da miséria material, mas caem na miséria moral, que é muito pior, a primeira é provação para coletividades imensas, funciona como cadinho purificador, a segunda é semeadura de dores... Ocioso pretender-se a reforma da sociedade sem a renovação do cidadão. Impossível construir uma casa sólida com tijolos crus.

Josefo fez pequena pausa, como a esperar que seus conceitos fossem assimilados, concluindo, incisivamente:

- Quando Jesus proclamou que o Reino de Deus está dentro de nós, deixou bem claro que ele não se estenderá sobre o planeta antes dessa gloriosa conquista. Por isso, meus amigos, o nosso trabalho é junto ao coração humano, sem pressões e sem pressa, com o exemplo de nosso próprio empenho no Bem, a fim de que o Reino Divino se estenda ao nosso redor.

Qualquer sistema de governo funcionará satisfatoriamente se governados e governantes se ajustarem aos princípios da Justiça e da Verdade, da Fraternidade e da Solidariedade, do Trabalho e da Disciplina, do Respeito e da Compreensão.

Semelhantes realizações, que jamais poderão ser impostas, se concretizarão na medida em que os homens se dispuserem a seguir o Cristo pelos caminhos do Amor.

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

A turma do prefiro

A turma do prefiro

Richard Simonetti


Os dois irmãos habitavam bela residência herdada de seus pais. Construção antiga, mas sólida, confortável, de cômodos amplos e arejados. Ali poderiam permanecer por longos anos, sem problemas.

No entanto, por uma insignificância desentenderam-se, concluindo, após ásperas discussões, que não continuariam juntos. A solução seria vender o imóvel, ideia que nenhum deles admitia. Então resolveram dividi-lo ao meio, providenciando para que fossem erguidas paredes onde existiam portas ligando as duas metades.

Isto feito, instalaram-se, cada qual em sua nova residência, dois arremedos de casa, porquanto, sem recursos para gastos maiores, acomodaram-se ao que existia. Um ficou sem cozinha; o outro, sem banheiro. Situação incômoda, desconfortável.

Um amigo comum passou por ali e, observando a tolice cometida pelos dois irmãos, que apenas lhes complicara a vida, sugeriu:

- Por que vocês não se reconciliam, derrubam as paredes divisórias e voltam a viver confortavelmente?

- Não! - respondeu cada um por si. Prefiro viver assim!

E assim permaneceram por muitos anos, sem jamais conversarem, existência azedada pelo ressentimento, numa casa dividida pela intransigência.

Muitos vivem assim, a levantar barreiras de ressentimento, mágoa e irritação, que impedem uma convivência pacífica com o semelhante.

Quando instados a modificar suas disposições, engrossam as fileiras lamentáveis da “turma do prefiro”.

Tudo seria diferente se exercitassem um pouco de compreensão e tolerância, evitando as divisórias de intransigência que separam as pessoas, gerando desconfortáveis situações.

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sábado, 13 de junho de 2026

Operação despertamento

Operação despertamento

Richard Simonetti


Olegário, nobre mentor espiritual, desenvolvia, há muito, abençoadas tarefas em favor de seus irmãos encarnados.

Dentre eles, Flávio e Ernestina, velhos tutelados seus, que compunham um lar razoavelmente ajustado, em companhia de dois filhos adolescentes.

Preocupava-se com eles. Ambos, já perto dos quatro decênios de existência, permaneciam alheios às tarefas que lhes competiam desenvolver junto a crianças carentes, conforme compromissos assumidos no Plano Espiritual.

Religiosos de tradição, prendiam-se muito mais às fantasias da Terra, desligados das inspirações do Céu. Simplesmente flutuavam ao sabor das futilidades humanas, envolvidos com lazeres e prazeres, sem nenhum interesse em adquirir lastros de virtude e sabedoria.

Não eram inconsequentes. Cumpriam seus deveres profissionais e familiares, mas perdiam precioso tempo em relação aos objetivos de aprendizado e renovação da jornada terrestre, estagiando voluntariamente na aridez das convenções mundanas.

Fazia-se imperioso ajudá-los de forma mais efetiva. Olegário estudou demoradamente o assunto e planejou a “Operação Despertamento”, contando com a autorização e o apoio de seus superiores na organização espiritual onde servia.

Passados alguns meses, Ernestina dava à luz um filho, após inesperada gravidez que driblara os anticoncepcionais que usava com rigorosa disciplina, desde que ela e o marido decidiram evitar que mais filhos perturbassem sua festiva programação existencial.

O aborrecimento pela frustração de seus propósitos não ultrapassou os limites da gestação, porquanto, tão logo nasceu, o menino tornou-se centro das atenções e alegrias da casa. Fazia por merecê-lo, bebê lindo, forte, calmo, sorridente - um santinho!

Nos anos que se seguiram, Lucas revelou-se um garoto especial. Difícil definir o que o distinguia mais: se a precocidade, incrivelmente ativo e inteligente, ou o carinho envolvente que dispensava aos familiares, alegre, comunicativo, humilde, obediente - um anjo do Céu a iluminar a escuridão da Terra!

Flávio e Ernestina já não se empolgavam com os programas vazios a que estavam habituados. Havia um bem mais atraente: “curtir" o filho, acompanhando seus passos seguros nos ensaios de vida. Anotavam, orgulhosos, seus progressos nas primeiras letras: contagiavam-se com sua exuberante vivacidade; edificavam-se com sua vocação para a fraternidade, sensível aos sofrimentos alheios, nunca permitindo que necessitado algum batesse à porta sem algo receber.

Foram tempos inesquecíveis, de plena ventura, até que se deu a tragédia. Lucas adoeceu subitamente, febre alta, fortes dores de cabeça, manchas escuras pelo corpo. O socorro médico foi providenciado rápido! Internação urgente, exames variados e... o diagnóstico terrível: meningite meningocócica do tipo B, a mais grave! Em poucas horas o menino faleceu!...

Angústia, perplexidade, desespero, inconformação, revolta, estabeleceram sequência naqueles corações despreparados para as grandes dores. Depois, o desencanto, a tristeza insuperável!...

Nada os animava. Flávio e Ernestina comportavam-se como sonâmbulos: falavam, alimentavam-se, trabalhavam, mas incapazes de retornar à normalidade, vinculados ao passado, como se vivessem interminável pesadelo.

Os dias seguiram seu curso. Sucederam-se os meses e o tempo repetiu o eterno milagre, recompondo neles a vontade de viver. No entanto, nunca mais seriam os mesmos. Haviam perdido as ilusões! Festas, bailes, viagens, passeios, jogos, vida social - tudo o que os motivava tanto, perdera inteiramente o sabor.

Manifestou-se neles uma insuspeitada vocação religiosa e, como ocorre com frequência em situações semelhantes, encontraram consolo na Doutrina Espírita, emocionando-se com as informações sobre a vida no Além e a perpetuidade das ligações afetivas.

Uma nova alegria felicitou aquelas almas combalidas quando começaram a participar de serviços assistenciais, devotando-se particularmente a crianças carentes. Parecia-lhes, então, que Lucas estava junto deles.

Não se equivocavam. Olegário prestava-lhes carinhosa assistência, rejubilando-se com o sucesso da “Operação Despertamento”, que o levara a breve mergulho na carne, com a missão de arrebatar seus tutelados do perigoso sorvedouro dos enganos humanos.

Aqueles que se debruçam sobre o esquife de uma criança, junto da qual sepultam suas alegrias e esperanças, precisam saber que nada acontece por acaso.

Há razões ponderáveis a determinar que Espíritos retornem à Espiritualidade mais cedo, nos verdes anos da infância, envolvendo provações e resgates.

E o fazem, também, como parte de um processo de iniciação dos pais em programas de despertamento, com vestibulares de sofrimento e saudade, como se Deus houvesse instituído a morte de crianças para ensinar os adultos a viver.

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Leme ou âncora

Leme ou âncora

Richard Simonetti



Trabalhador incansável, Justino dedicava-se de corpo e alma ao Espiritismo. Inspirado em nobres ideais, fundara um Centro Espírita. A expressão não define exatamente seu empenho. Muito mais que isso, edificara a sede, organizara os serviços, dirigia as reuniões, cuidava da contabilidade, promovia campanhas, atendia famílias carentes, aplicava passes, doutrinava espíritos e ainda encontrava tempo para cuidar da construção de um abrigo onde seriam amparados cem velhinhos.

Havia poucos colaboradores e reduzida frequência ao Centro, mas isso não importava. Justino sentia-se capaz de dar conta de tudo, como um craque de futebol que, além de jogar em todas as posições, fosse dono e técnico do time.

Preocupado com tantas atividades, que lhe pareciam excessivas para um homem de 63 anos, Alberto, seu irmão mais velho, homem experiente e lúcido, ponderava:

- Justino, você ainda se mata de trabalhar! Distribua as tarefas. Há muita gente que pode e deve ajudar.

- É o que venho fazendo há anos, meu caro, mas está difícil. Raros se habilitam a servir em troca do salário espiritual...

- Talvez seja uma questão de estímulo. Convoque o pessoal. Ressalte a importância dos serviços relacionados com o ideal espírita.

- Também pouco tem adiantado. Nos estudos de “O Livro dos Espíritos”, que desenvolvo em lugar do Armando, desde que se afastou porque não concordei com algumas sugestões, venho demonstrando que o espírita que não serve enquadra-se em vadiagem espiritual. Falo alto, com a força e a veemência dos antigos profetas e sempre tenho a impressão de dirigir-me a uma assembleia de surdos. Ninguém ouve...

- Bem, talvez fosse melhor amenizar um pouco suas perorações. E se convocasse pessoalmente as pessoas? Um envolvimento amigo opera prodígios de boa vontade. Experimente distribuir simpatia antes de oferecer compromissos.

- Qual o quê! Vejo que você não está habituado a lidar com a natureza humana! Rasgar seda pouco resolve. É preciso despertar as consciências. Quando isso acontece surge o servidor.

- Aparentemente tem acontecido com raridade...

- Infelizmente. O pior é que mesmo com os “despertos” não se pode contar. São pouco produtivos e cheios de melindres. Há meses tento passar a tesouraria ao Nunes. Afinal, essa é sua função. Mas não engrena. Além do mais, não confio nele. É muito displicente. O Aurélio, responsável pelo Departamento de Doutrina, não enxerga um palmo adiante do nariz, compelindo-me a organizar e desenvolver todas as atividades. O Bertineli é limitadíssimo na Assistência Espiritual. Sem meu concurso o setor não funciona...

- E nossas irmãs? A alma feminina é muito sensível aos apelos da Caridade. Há inúmeras tarefas que podem desenvolver com proveito.

- E largar sem jeito!... Por sugestão de minha mulher instalamos uma oficina de corte e costura, com promissoras perspectivas, mas ela em breve desistiu, no que foi seguida pelas demais colaboradoras, apenas porque não quiseram se sujeitar à minha coordenação. Cheguei a tentar, eu mesmo, a confecção de roupas para os pobres. Faltou-me tempo e um pouco de experiência.

- E o abrigo, como vai?

- Devagar, mas sempre. No domingo trabalho até como pedreiro, sozinho. Os membros da comissão nomeada para a construção ainda não se decidiram a atuar, discordando de minhas opiniões.

É natural. Não estão habituados a lidar com obras assistenciais.

- Seu empenho é louvável, Justino, mas está na hora de delegar responsabilidades. Você já não tem idade para tantos compromissos.

- Não se preocupe. Vendo saúde. O serviço é meu alimento!

- Cuidado! Não vá se intoxicar...

As ponderações de Alberto eram procedentes. Passados alguns meses, Justino, não suportando a carga de preocupações e serviços, sofreu fulminante enfarte, desencarnando em poucos minutos.

O Centro, com seus serviços variados e precários, certamente soçobraria, qual nave sem rumo.

No entanto, o inesperado aconteceu. Sem a presença do heroico comandante, Nunes assumiu a tesouraria, Aurélio organizou o Departamento de Doutrina, Bertineli dinamizou a Assistência Espiritual, Armando tornou-se notável expositor, a oficina de corte e costura voltou a funcionar com a liderança da esposa e o abrigo, com as iniciativas felizes da comissão e o apoio decidido de uma comunidade espírita florescente, em breve tornou-se feliz realidade.

Na ausência de Justino, que não obstante seus méritos, estava mais para âncora do que leme, a instituição finalmente habilitou-se a singrar os mares abençoados do serviço, com uma tripulação numerosa e operante.

* * *

O Centro Espírita é promissora célula de trabalho, embrião da sociedade futura, onde o empenho da fraternidade será a tônica das ações humanas.

Há dirigentes, entretanto, que conseguem conter a vocação do Centro Espírita com uma liderança autocrática de quem deseja fazer tudo e termina por fazer quase nada.

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Inconcebível preconceito

Inconcebível preconceito

Richard Simonetti


No plantão para encaminhamento aos recursos da organização socorrista espírita, Roberto fitava, compadecido, a jovem que lhe falava. O ventre volumoso era promessa de vida em gestação, mas o rosto atormentado proclamava a morte da esperança.

- Enamorei-me de um homem insinuante, que me seduziu. Quando fiquei grávida, abandonou-me, incontinenti, confessando-se casado, preso a insuperáveis compromissos conjugais. Envergonhada, durante meses evitei comentar o problema com meus pais... Eles são rigorosos em questões morais. Quando se tomou impossível esconder meu estado, chocaram-se muito, despejando sobre mim acusações e ameaças. Sugeriram o aborto. Ante minha recusa, impuseram que saísse da cidade por alguns meses. Após o nascimento do filho deverei deixá-lo no hospital para adoção. Então poderei voltar. Exigem sigilo absoluto. Nossa família é muito conhecida. Aos amigos informam que viajei para o exterior.

Emocionada, a jovem estabelece pausa regada de lágrimas. Perplexo, Roberto comenta:

- Incrível! Um comportamento preconceituoso e retrógrado em pleno século XX! Seus pais não consideram que a criança que está por vir é neto deles?

- Não admitem nem falar a respeito! Esse assunto é tabu entre nós. Preferem ignorá-lo. Para eles uma mãe solteira em casa configura escândalo impensável.

- Não posso aplaudir o que fez, minha filha, mas, certamente, a atitude de seus pais é muito pior. A situação, agora, transcende as convenções humanas. Há uma criança que precisa de amparo, de uma família...

- O senhor compreenderia melhor se os conhecesse. São extremamente rígidos.

- Eles têm religião?

- Sim, são espíritas.

- Espíritas?!...

- E dizem que justamente por levar o Espiritismo a sério não podem apoiar-me. Devo responder pelo que fiz, assumindo minha responsabilidade.

- Pretendem que cuide do assunto sozinha, livrando-se do filho? Creio que ainda não aprenderam as lições mais elementares da Doutrina, relacionadas com o exercício da caridade...

Buscando conter a indignação que o tomara, Roberto muda o rumo da conversação:

- Você está bem financeiramente? Tem onde ficar?

- Justamente por isso vim falar-lhe. Não pretendo dar meu filho. Assim, não contarei com a ajuda de meus pais. Peço-lhe, por misericórdia, um cantinho. Trabalharei como doméstica, se preciso, aqui ou num lar que se disponha a me acolher.

- Certamente conseguiremos algo em seu favor. É preciso, porém, procurar seus pais. Devem saber onde você está. Se possível, alguém os alertará, conscientizando-os de que lhe devem amparo. De onde vem, minha filha?

- Porto Alegre.

- Ótimo. Tenho um contato lá. Um colega de profissão que conheci num simpósio. É espírita, bem sintonizado com os ideais doutrinários. Inteligente e culto, tenho certeza de que conseguirá sensibilizar seus pais. Seu nome é Túlio Firmino.

Vendo que a jovem chorava novamente, extravasando imensa angústia, Roberto tenta consolá-la:

- Calma, menina. Fique tranquila. Tudo dará certo.

- Não vai adiantar, “seo” Roberto! Não vai adiantar!...

- Vai sim. Confie. Túlio Firmino é muito persuasivo.

- Não, “seo” Roberto, não vai acontecer nada disso porque Túlio Firmino... é meu pai!

* * *

A Doutrina Espírita é bastante clara ao nos alertar quanto aos nossos compromissos diante do próximo, particularmente no que diz respeito ao exercício da caridade.

A grande dificuldade está naquele “próximo mais próximo”, sob o mesmo teto, que atende pelo nome de irmão, filho, cônjuge, pai, mãe, avô, neto...

Diante deles, por um atavismo psicológico calcado no cultivo milenar do egoísmo, insistimos em impor nossos padrões de comportamento. Se contrariados, brandimos atitudes preconceituosas e duvidoso moralismo, furtando-nos, assim, ao compromisso de compreender e ajudar.

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Pedindo tempo

Pedindo tempo

Richard Simonetti


1965

- Pedro, meu caro amigo, contamos com seu concurso no Centro! Você tem iniciativa, capacidade de organização... Será muito útil!

- Tudo bem, Ferreira, sinto que devo oferecer algo além de esporádica colaboração. Conheço o valor do serviço metódico e disciplinado. E não farei favor algum! Devo muito ao Espiritismo, este sol maravilhoso que ilumina meus caminhos... Entretanto, no presente é impossível. Tenho muitos encargos familiares e profissionais. Dê um tempo!...

1970

- Então, Pedro, já tem condições? Esperamos por você...

- Não está fácil, Ferreira. Nem queria saber a correria em que vivo! Vamos estabelecer o seguinte: dentro de poucos meses estarei aposentado e poderei começar o serviço que “rende para a vida eterna”, como dizem nossos amigos espirituais. Dê um tempo!...

1975

- Fiquei feliz em saber de sua aposentadoria, Pedro. Pensei que não aconteceria nunca! Espero por você amanhã...

- De fato, demorou “um pouco”, Ferreira. Procurei melhorar o benefício a receber. Com trinta e oito anos de contribuição e mais um pecúlio formado está garantido o “pão nosso”. Quanto às tarefas no Centro, fique tranquilo. Irei em breve, tão logo termine a construção de minha nova casa. Assumi a administração e estarei muito ocupado por alguns meses. Dê um tempo!.

1980

- Parabéns, Pedro! Você converteu-se num próspero empreiteiro nos últimos anos. Certamente ganhou muito dinheiro... Lamento que venha esquecendo as construções espirituais. Cuidado, meu amigo! A vida passa breve! Não vá ficar sem teto na espiritualidade!...

- Concordo plenamente, Ferreira. Às vezes me pergunto se não estou agindo errado... É que não consigo desligar-me dos negócios... A vida não está fácil. Com a inflação em que vivemos, ninguém pode acomodar-se... Dê um tempo.

1985

- Ferreira, meu irmão, finalmente consigo falar-lhe. Tenho suficiente conhecimento para compreender que já morri e que converso com você numa reunião mediúnica, servindo-me de um médium. Há meses vagueio por regiões escuras, sentindo-me solitário e atormentado! Por misericórdia, ajude-me!

- Calma, Pedro. A Bondade Divina não desampara ninguém. No entanto a experiência demonstra que é impossível livrá-lo de imediato dos fantasmas gerados pelo seu comprometimento com os interesses da Terra. Considere, ainda, que o conhecimento espírita, não é apenas bênção de consolo e esperança. É, sobretudo, compromisso sério relacionado com a fraternidade. Seu problema maior é que você sabia disso e, não obstante, optou pelo acomodamento, preso às ilusões do plano físico. Deverá, por isso, segundo nossos mentores, estagiar mais um pouco onde se encontra, avaliando devidamente sua omissão e sedimentando noções de responsabilidade para existências futuras. Por enquanto, meu amigo, ore bastante, reflita e... dê um tempo!...

O Espiritismo é, essencialmente, uma convocação divina em favor da reformulação de nossa existência, tendo por base fundamental o serviço ao semelhante.

O problema é que muitos adiam indefinidamente essa gloriosa realização, pretextando problemas que se renovam, compromissos que se avolumam, esperando por disponibilidades que não chegam nunca.

Assim, malbaratam abençoadas oportunidades de serviço e constatam um dia, em sofrido desengano, que apenas perderam tempo.

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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Teatrinho

Teatrinho

Richard Simonetti



ATO I - Na empresa

Chefe, seu filho sofreu um acidente!...

Meu Deus! Que foi? É grave?!...

Acalme-se. Apenas artes de jovem. Pichava o muro de uma residência quando apareceu o proprietário. Na fuga apressada caiu e fraturou a perna.
ATO II - No hospital

Pai, sinto tê-lo aborrecido. Não fiz por mal. Uma brincadeira tola...

Tudo bem, filho.

Desculpe.

Desculpar o quê? Foi apenas uma experiência... E terrível! Terrível!.., Quando a perna estalou pensei que morreria de dor.

Faz-me lembrar a Lei de Causa e Efeito.

Toda ação mal direcionada resulta sempre em prejuízo nosso.

Principalmente quando a gente foge à responsabilidade, né?

Isso mesmo. Seria menos complicado enfrentar o proprietário prejudicado por sua brincadeira.

Na próxima vez terei mais cuidado... ao fugir.

Malandro! Espero que não ocorra uma próxima vez...

ATO III - Em casa
Ufa, pai!... Finalmente estou recuperado. Foram dois meses de dores e incômodos com a imobilização e a fisioterapia. Carma pesado, velho! Paguei com juros e correção monetária.

Engano seu, filho. Isso tudo foi apenas a consequência inicial. O pagamento começa agora, com a pintura do muro pichado.

Castigo é? Pensei que estava perdoado...

Perdoado, sim. Remido, não. É preciso reparar o prejuízo causado.

Você me dará o dinheiro?

O débito é seu. Farei um adiantamento de sua mesada para as tintas. Será um empréstimo. A pintura fica por sua conta.

Puxa, você "gosta mesmo" de mim, hein pai?

Muito mais do que imagina, filho. Mas tão importante quanto o amor é a justiça. Há uma dívida a resgatar. É responsabilidade sua, intransferível. Se não o fizer agora, aprendendo a respeitar os patrimônios alheios, a Vida o exigirá mais tarde. Será bem mais difícil.

Está bem, chefe. Você venceu. A cidade ganhou um pintor.

Espero que se tenha livrado de um pichador...

ATO IV - Junto ao muro

Oi, bicho!... Virou pintor? e a Faculdade?

- Oi, companheiro!.

Não deixei o estudo e agora mesmo estou aprendendo que às vezes é preciso abraçar as tarefas mais simples para medir o valor das coisas.

Então capriche, rapaz. Faça bem feito para não ser preciso retocar a pintura...

Curioso, isso me recorda um princípio espírita...

Não entendo... Que tem o Espiritismo a ver com tintas? 

- Nada não, meu chapa. Esquece...

*

A Vida é um imenso painel, Somos os pintores. Iremos adiante, desenvolvendo técnicas e pendores artísticos na medida em que nos aprimorarmos nos domínios da inteligência e do sentimento.

Os "pichadores" inconsequentes permanecem presos às suas criações lamentáveis, recomeçando sempre.

Richard Simonetti do livro:
Atravessado a Rua

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quinta-feira, 1 de maio de 2025

O pão da vida

O pão da vida

Richard Simonetti


"Porque provê a Natureza, por si mesma, a todas as necessidades dos animais?" 

"Tudo em a Natureza trabalha. Como tu, trabalham os animais, mas o trabalho deles, de acordo com a inteligência de que dispõem, se limita a cuidarem da própria conservação. Dai vem que do trabalho não lhes resulta progresso, ao passo que o do homem visa duplo fim: a conservação do corpo e o desenvolvimento da faculdade de pensar, o que também é uma necessidade e o eleva acima de si mesmo..." (O Livros dos Espíritos - Questão n°677  - Da Lei do Trabalho).
É elementar que não podemos analisar a Bíblia em seu sentido literal, sob pena de cairmos em infantilidades como a de supor que Deus tenha criado o Universo em seis dias, descansando no sétimo, como se fora um operário cósmico.

Ao longo do Velho Testamento está sempre presente a concepção antropomórfica de um criador à imagem e semelhança do Homem, com os mesmos impulsos passionais, os mesmos desejos e contradições e até a necessidade de repousar.

O Universo, segundo está definido pela Ciência, tem no mínimo quinze bilhões de anos; a Terra, perto de quatro bilhões e meio. São eternidades diante dos acanhados quatro ou cinco mil anos que nos fazem supor os textos bíblicos para o início de tudo.

Da mesma forma, é ridículo, em face do conhecimento atual, conceber que Deus tenha moldado Adão da argila, soprando-lhe a vida, e que uma de suas costelas foi a matéria-prima para o nascimento de Eva. Sabemos hoje que a presença do Homem na Terra representa a culminância de uma evolução que começou há bilhões de anos, com manifestações primitivas de vitalidade, em organismos unicelulares que se desenvolveram lentamente, até atingir a complexidade necessária para a manifestação da inteligência.

A Bíblia revela que Adão e Eva perderam o paraíso por terem cometido o "pecado" de comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Um incrível absurdo, se tomado ao pé da letra.

Imaginemos um pai ameaçando o filho:

"Dar-lhe-ei proteção, alimento, moradia e atenção, mas com uma condição: que você permaneça na ignorância. A partir do momento em que se atrever a qualquer empenho de aprendizado eu o expulsarei!"

E como Adão e Eva poderiam incorrer em desobediência se, antes de cometerem o "crime" de discernir entre o bem e o mal, não tinham noção do que é certo ou errado, justo ou injusto, obedecer ou desobedecer?

Erich Fromm, famoso psicanalista alemão, escreve que o pecado original simboliza a conquista da razão. A partir do momento em que algumas espécies animais, parentes dos símios antropoides, começaram a ensaiar o raciocínio, saíram da Natureza, isto e, deixaram de ser conduzidas e se viram na contingência de caminhar com seus próprios pés. Surgia, assim, o Homem, o ser pensante, que perdia o paraíso ou, mais
exatamente, a plena identificação com a vida natural.

O castigo divino, "ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto", registrado na Bíblia, apenas exprime uma contingência imposta pelas necessidades evolutivas do Homem, não mais um simples animal irracional, controlado pelo instinto, mas um ser inteligente chamado a exercitar o livre-arbítrio.

O trabalho configura-se, assim, como uma lei de observância indispensável, não apenas em favor de sua sobrevivência, mas também para que desenvolva a inteligência e supere em definitivo os resquícios de irracionalidade.

No irracional, guiado pelo instinto, o esforço pela subsistência é mínimo. A mãe natureza o atende. No homem, orientado pela razão, que deixou o berço e começa a andar, há uma solicitação bem maior de trabalho que tanto mais complexo se torna quanto maior o seu desenvolvimento intelectual, sofisticando suas necessidades de conforto e bem estar.

O aprimoramento da inteligência é uma benção, mas lhe impõe dúvidas e incertezas que não existiam no "paraíso".

A principal delas é saber sobre si mesmo, decifrar os porquês da existência e, sobretudo, descobrir o que há além da dimensão física, já que algo lhe diz, nas profundezas da Alma, que a Vida sobrepõe-se à morte do corpo físico.

Para tanto é preciso trabalhar por um outro tipo de alimento, que muito mais que o mero suor do rosto, exige o desenvolvimento da sensibilidade, a disciplina das emoções e muita humildade, para que, habilitado a enxergar além das limitações físicas, encontre os sinais de sua gloriosa destinação.

Algo desse "pão da vida" foi oferecido ao Homem num instante glorioso da história humana, por um mensageiro divino que se chamou Jesus.

Richard Simonetti do livro:
A Constituição Divina

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