quarta-feira, 1 de julho de 2026

Enquanto há paz

Enquanto há paz

Eros


 
Enriquece-te de amor.
Sai a semear a luz da esperança,
Onde se adensa A sombra
E se demora o desespero...

Abre valas na terra áspera dos corações
E sulca o leito dos córregos
Para que estes espraiem a vida
Rica de flores, e colorida.
Em luxuriante verdor das margens...

Acompanha com os olhos irisados de luz
As verdes e belas campinas Salpicadas de cores.
Abençoados por miosótis azuis,
Respingadas por amores-perfeitos.
Sem defeitos.
Adornadas de boninas...

Esquece as dores,
Deixa de lado a amargura.
Volve à candura.
Refreia a revolta
Enquanto há paz...

A guerra está de férias;
Os instrumentos de destruição
Permanecem nos museus, no chão.
Longe dos destroços que produzem.

Segue, então, o pássaro ligeiro.
Prossegue alvissareiro.
Dominado pelo amor.
Atende ao cordeiro que pasta ao lado do chacal
E à rebelião que, morrendo, ao bem distende a mão...

Não te afadigues pensando no mal.
Conserva o encanto
Do serviço — o teu fanal —
Junto ao teu irmão.

Está decretado
Que o bem é vida
E a caridade bem vivida
É alma da fé...
Enquanto há paz.

Dilata a ação da bondade Não relaciones desfavores,
Nem engodo,
Nem malogro,
Nem doto,
Nem desamores...

Abre-te em festa
E canta a ligeira lição do serviço
Que renova a erma paisagem
Do continente das almas ressequidas.
Renovando as vidas
Cansadas de esperar...
Enquanto há paz.

Sustenta a confiança.
Promove a abastança.
Transforma pântano em jardim.
Impõe à enfermidade seu fim 
Como tragédia...

Acende estrelas na noite sombria,
Diminui a angústia em cada alma
Todo dia,
E, desdobrando bênçãos e calma.
Evitarás futuras guerras.
Enquanto há paz.

Um dia, o amor
Vestiu-se de homem.
Dignificou singelas sementes.
Honrou as redes do mar,
Cantou o valor de uma dracma,
Entreteceu considerações felizes
Nos rubros entardeceres
E pálidos amanheceres,
E dando-se.
Pereceu numa Cruz
Que se faria sublime ponte de luz...

No entanto, para que permanecesse a paz
Volveu aos homens,
Numa linda madrugada,
A fim de que jamais
Desaparecesse do humano coração
A suave e doce presença da paz.

Em paz,
Esquece a destroçada guerra
No repouso permanente do museu.
Abominada, olvidada,
Para que, abandonada e vencida
Não volva nunca mais.

Eros por Divaldo Franco do livro:
No Longe do Jardim

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