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terça-feira, 28 de julho de 2026

A única dádiva

A única dádiva

Irmão X.

Conta-se que Simão Pedro estava cansado, depois de vinte dias junto do povo.

Banhara feridentos, alimentara mulheres e crianças esquálidas, e, em vez de receber a aprovação do povo, recolhia insultos velados, aqui e ali...

Após três semanas consecutivas de luta, fatigara-se e preferira isolar-se entre alcaparreiras amigas.

Por isso mesmo, no crepúsculo anilado, estava ele só, diante das águas a refletir...

Aproxima-se alguém, contudo...

Por mais busque esconder-se, sente-se procurado.

É o próprio Cristo.

- Que fazes Pedro? – diz-lhe o Senhor.

- Penso Mestre.

E o diálogo prolongou-se.

- Estás triste?

- Muito triste.

- Por quê?

- Chamam-me ladrão.

- Mas se a consciência te não acusa, que tem isso?

- Sinto-me desditoso. Em nome do amor que me ensinas, alivio os enfermos e ajudo aos necessitados. Entretanto, injuriam-me. Dizem por aí que furto, que exploro a confiança do povo... Ainda ontem, distribuía os velhos mantos que nos foram cedidos pela casa de Carpo, entre os doentes chegados de Jope... Alegou alguém, inconsideradamente, que surrupiei a maior parte... Estou exausto Mestre. Vinte dias de multidão pesam muito mais que vinte anos de serviços na barca...

- Pedro, que deste aos necessitados nestes últimos vinte dias?

- Moedas, túnicas, mantos, ungüentos, trigo, peixe...

- De onde chegaram as moedas?

- Das mãos de Joana, a mulher de Cusa.

- As túnicas?

- Da casa de Zobalan, o curtidor.

- Os mantos?

- Da residência de Carpo, o romano que decidiu amparar-nos.

- Os unguentos?

- Do lar de Zebedeu, que os fabrica.

- O trigo?

- Da seara de Zaqueu, que se lembra de nós...

- E os peixes?

- Da nossa pesca.

- Então Pedro?

- Que devo entender Senhor?

- Que apenas entregamos aquilo que nos foi ofertado para distribuirmos em favor dos que necessitam. A Divina Bondade conjuga as circunstancias e confia-nos de um modo ou de outro os elementos que devamos movimentar nas obras do bem... Disseste servir em nome do amor...

- Sim Mestre...

- Recorda então, que o amor não relaciona calúnias, nem conta sarcasmos.

O discípulo entremostrando súbita renovação mental não respondeu.

Jesus abraçou-o e disse apenas:

- Pedro, todos os bens da vida podem ser transmitidos de sítio a sitio e de mão em mão...

Ninguém pode dar em essência esse ou aquele patrimônio do mundo senão o próprio Criador, que nos empresta os recursos por Ele gerados na Criação... E se algo, podemos dar de nós, o amor é a única dádiva que podemos fazer, sofrendo e renunciando por amor...

O apostolo compreendeu e beijou as mãos que o tocavam de leve.

Em seguida puseram-se ambos a falar alegremente sobre as tarefas esperadas para o dia seguinte.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Contos Desta e Doutra Vida

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

O segredo da juventude

O segredo da juventude

Irmão X.


Formoso Anjo da Justiça, na Balança do Tempo, recebia pequena multidão de Espíritos recém-desencarnados na Terra.

Eram todos eles pessoas maduras, em torno das quais o Ministro da Lei deveria emitir um juízo rápido, como introdução a mais ampla análise, assim como um magistrado terreno que, na fase inicial de um processo, pode formular um despacho saneador.

Velhos gotosos e dementados, abatidos e caquéticos, demonstrando evidentes sinais de angústia, congregavam-se ali, guardando os característicos das enfermidades que lhes haviam marcado o corpo.

Muitos choravam à feição de crianças medrosas, outros comprimiam o coração com a destra enrijecida, ao passo que outros muitos se erguiam com imensa dificuldade, arrastando-se, trêmulos...

As sensações da carne ferreteavam-lhes o íntimo, detendo-lhes o ser nas amargas recordações que traziam do mundo.

Conduzidos a exame, sob a custódia de benfeitores abnegados, acusavam essa ou aquela diferença para melhor, recebendo uma folha explicativa para o início das novas tarefas que os aguardavam no plano Espiritual.

Agora, era um psicopata recobrando a lucidez; depois, era um hemiplégico retomando o equilíbrio...

Entretanto, os traços da velhice corpórea perseveravam quase intactos, decerto, longo tempo na vida nova para serem devidamente desintegrados.

Em derradeiro lugar, no entanto, aproximou-se do Anjo pobre velhinha, humilde e triste.

Os cabelos de prata e as rugas que lhe desfiguravam o rosto denunciavam-lhe aproximadamente oitenta anos de luta física.

Trazida, contudo, à grande balança, oh! divina surpresa!... De anotação em anotação, fazia-se mais jovem, até que, abençoada pelo sorriso do Aferidor Angélico, a estranha anciã converteu-se em bela menina e moça, nos vinte anos primaveris.

Toda a assembleia vibrou de felicidade, ante o quadro inesquecível.

Intrigado, abeirei-me de antigo orientador e perguntei pela razão da inesperada metamorfose.

O esclarecido mentor pediu a ficha da celestial criatura, para socorro de minha ignorância, e, na folha branca e leve, pude ler, admirado:

Nome - Leocádia Silva

Profissão – Educadora

Existência Terrestre – 701.280 horas

Aplicação das Horas:

Serviço de autoassistência para a justa garantia no campo da evolução:

1) Mocidade Laboriosa                                                  175.200
2) Magistério digno                                                         65.700
3) Alimentação e higiene                                               43.800
4) Estudo proveitoso e atividades religiosas              41.900
5) Repouso necessário ao refazimento                      109.500
Serviço extra, completamente gratuito, em favor do próximo:
1) Devotamento aos necessitados                                  85.100
2) Movimentação fraterna em missões de auxíli0     32.840
3) Noites de vigília em solidariedade aos enfermos  33.000
4) Conversação sadia no amparo moral genuíno       54.750
5) Variadas tarefas de caridade                                      59.490

Total – Horas                           701.280

- Compreendeu? – disse-me o orientador, sorridente.

E, ante o meu insopitável assombro, concluiu:

- Quem dá o seu próprio tempo, a benefício dos outros, não conta tempo na própria, idade no sentido de envelhecer. Leocádia cedeu todas as suas horas disponíveis no socorro aos irmãos do mundo. Os dias não lhe pesam, assim, sobre os ombros da alma...

Meu interlocutor afastou-se, lépido, para felicitar a heroína, e, contemplando, enlevado, o semblante radioso do Mensageiro Sublime que presidia à Grande reunião, compreendi o motivo pelo qual os Anjos do Amor Divino revelam em si a suprema beleza da juventude eterna.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Contos Desta e Doutra Vida

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sexta-feira, 10 de maio de 2024

Um desastre

Um desastre

Irmão X.




I

Duarte Nunes enriquecera. Duas grandes farmácias, muito bem dirigidas, eram para ele duas galinhas de ovos de ouro. Dono do próprio tempo, não sabia usá-lo da maneira mais nobre e, por isso, estimava nas grandes emoções suas grandes fugas.

Corridas de cavalos, corridas de automóveis, concursos de lanchas...

Entusiasta de todas os esportes. Gastador renitente.

Apesar disso, era bom esposo e bom pai. De vez em vez, levava os filhinhos, Marilene e Murilo, às brigas de galos. O belo casal de garotos, porém, não gostava. Marilene voltava o rosto para não ver, e Murilo, forte petiz de quatro anos, chorava desapontado.

– Poltrão! – dizia, o pai, com adocicada ironia. E colocava os dois no carro para longo passeio. A esposa, muitas vezes presente, rogava aflita: “Nunes, mais devagar.” Ele, porém, sorria, sarcástico, e dava largas ao freio. Sessenta, oitenta quilômetros...

Noutras circunstâncias, era Elmo Bruno, o amigo inseparável, que advertia, quando o carro de luxo parecia comer o chão :

– Não corra assim, tanto... Olhe os pedestres!

– Que tenho eu lá com isso?

E Bruno explicava :

– Há pessoas distraídas, e crianças inconscientes. Nem sempre conseguem, de pronto, ver os sinais...

Duarte encerrava o capítulo, acrescentando :

– Rodas foram feitas para rodar. E depressa.

De outras vezes, era o próprio pai dele a aconselhá-lo, enquanto o veículo parecia voar:

– Meu filho, é preciso prudência... O volante pede calma... Penso que, além dos quarenta quilômetros, tudo é caminho para desastre...

– Frioleiras, papai – respondia Nunes, bem humorado, agravando o problema.

Sempre que exortado, corria mais.

II

– Meninos de apartamento, aves engaioladas! – Dizia a mamãe Duarte Nunes, abraçando os netos.

– Então – disse a pai, sorrindo –, preferem vovó?

– Sim, sim...

Decorridos minutos, saem todos na manhã domingueira.

Dona Branca desce com a nora, amparando as crianças, ao pé da própria casa a pleno sol de Ipanema e declara:

– Nossos pássaros prisioneiros querem hoje a largueza da praia. Vamos respirar... – Riram-se todos.

E o auto, conduzindo Nunes e Elmo, saiu em disparada. Mais tarde, Petrópolis.

Amigos improvisavam corridas de bicicletas.

Bandeirinhas. Anotações. Relógios era massa. Homens magros, pedalando, ansiosos e, por fim, o ágape em hotel serrano, sob árvores farfalhudas.

Ao virar da tarde, o regresso.

Todo o Rio inda vibra de sol.

– Porque não buscar, primeiro, a cerveja pura e gelada, em Copacabana? – perguntou Nunes, contente.

O carro devora o asfalto.

– Devagar, devagar... – pede o amigo.

Depois da cerveja, o retorno a casa. Nunes inicia a marcha, como quem decola.

– Devagar, devagar – roga o companheiro.

Ele ri. Desatende. A poucos minutos, ambos vêem um pequeno em maiô. Está só. Agita-se. E corre de través procurando o outro lado. Nunes tenta frear, mas é tarde. Atropela o garoto que tomba qual pluma ao vento.

Populares gritando. O menino estendido na rua é um pássaro que agoniza.

Sangue. Muito sangue. Nunes aflige-se. Elmo volta e vê. Ergue a criança, espantado, e caminha no rumo dele.

– Seja quem for – grita Nunes –, leve à nossa farmácia... Toda a despesa gratuita...

Todavia, o amigo, boquiaberto, apresenta-lhe a menino morto e exclama:

– Nunes, este menino é...

– É quem? Diga logo – falou Nunes, impaciente.

Mas não precisou de maiores minúcias, porque Bruno, traumatizado, disse-lhe apenas :

– É seu filho...

Irmão X. por Chico Xavier
Mensagem presente nos livros:
Luz no Lar / Contos Desta e Doutra Vida 

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domingo, 22 de outubro de 2023

Decisão nas trevas

Decisão nas trevas

Irmão X.



ORGANIZADOR DE OBSESSÕES – Caros companheiros, atualmente o nosso problema intricado é o Espiritismo. Ensinamentos renovadores em toda parte, horizontes claros na mente humana...

UM OBSERVADOR DAS TREVAS – Isso mesmo. Verdadeira lástima!

ORGANIZADOR DE OBSESSÕES – Os espíritas criam atmosfera semelhante à que se conheceu nos tempos do Cristo. Não se conformam à fé expectante dos santuários. Não há meio de isola-los nas preces inativas. Por mais sugiramos encantamentos com melodias e aromas, rituais e painéis, mais se afastam das seduções magnéticas, atirando-se ao exercício do bem. Ao invés de arcas místicas, preferem tijolos para casas beneficentes. Em vez de se ajoelharem, caminham... Trocam perfumados unguentos por suor desagradável, desde que possam servir aos semelhantes. Quadro igual ao da época de Jesus, em que se realizavam caravanas de socorro aos infelizes, onde os infelizes estivessem. Sabem vocês que tudo isso ocorre em prejuízo nosso, de vez que precisamos das energias do homem, tanto quanto o homem necessita dos recursos do boi. (O gênio das sombras piscou os olhos.) Indispensável encontrar o processo de esmagá-los, destruí-los...

UM OBSESSOR EXALTADO – Convém a guerra declarada, provocação de recinto em recinto...

ORGANIZADOR DE OBSESSÕES – Bobagem! Perseguição é benefício aos perseguidos.

Deve ser feita apenas em nossa própria família, quando quisermos acordar um companheiro e torna-lo mais vantajoso...

UM OBSESSOR VIOLENTO – Pode-se promover o extermínio de todos eles... Desastres, envenenamentos... Um veículo motorizado é a morte de galochas, um medicamento mal dosado patrocina a desencarnação por descuido...

ORGANIZADOR DE OBSESSÕES – Morte assim não resolve. (Sorriu, brejeiro.) Vocês sabem que desde a crucificação de Jesus não valem vítimas públicas. Vítimas são cartazes de propaganda para as ideias que representam. Que adiantaria retirar essa gente do corpo físico? Engrossaria aqui a fileira dos que nos combatem. Imperioso inventar diferentes empresas de anulação.

UM MALFEITOR RECRUTA – Penso que seria ótimo se conseguíssemos formar falanges e falanges de obsessores, capazes de invadir os lares e as instituições espíritas, gerando a loucura em massa.

ORGANIZADOR DE OBSESSÕES – Medida contraproducente. As perturbações multiplicadas induziriam os espíritas a mais amplos estudos e observações dos princípios que abraçam... E vocês não desconhecem que o Espiritismo, quanto mais observado, mais luz fornece ao pensamento... Ora, é claro que a luz não nos permite o serviço da sombra...

UM OBSESSOR CONFUSIONISTA – Será possível engenhar novos truques, novas mistificações...

ORGANIZADOR DE OBSESSORES – Tolice! Isso traria mais estudo...

UM MALFEITOR ANTIGO – Calúnias e discórdias, criticas e escárnios nunca foram empregados em vão...

ORGANIZADOR DE OBSESSORES – Tudo isso é técnica superada. O povo em si quer rendimento de boas obras. Toda pessoa injuriada vence facilmente essas tramoias, desde que se converse trabalhando...

UM OBSESSOR FABRICANTE DE DÚVIDAS – A melhor providência seria, decerto, a dúvida. As maiores celebrações caem pela incerteza, imitando árvores poderosas quando sufocadas pela erva-de-passarinho... Procuremos atrasar o passo dos espíritas, instilando-lhes a vacilação em matéria de fé... Bastará um tanto mais de trabalho em nossas organizações e desconfiarão da Providência Divina e da imortalidade da alma, acabando com a mediunidade e arquivando as doutrinas pregadas por eles mesmos...

ORGANIZADOR DE OBSESSÕES – A ideia é interessante, mas o tiro sairia pela culatra.

Sobrariam aqueles de ânimo inquebrantável que, estimulados pela dúvida, se decidiriam por mais ampla incursão nos domínios da realidade e, quando se pronunciassem, depois de mais amplas visões da vida, atrairiam multidões contra o nosso próprio esforço.

UM VAMPIRIZADOR EXPERIENTE – tenho um projeto que me parece viável. Será fácil treinar alguns milhares de companheiros para a hipnose em larga escala e faremos que os espíritas se acreditem santos de carne e osso. Mobilizaremos legiões de amigos nossos que lhes assoprem lisonja ao coração, ocupando a mediunidade, seja na palavra falada ou escrita, para a sustentação de elogios mútuos. Faremos que se suponham heróis e reis, místicos e fidalgos reencarnados com títulos honoríficos, garantidos dos mundos superiores, como os beatos do tempo antigo se julgavam donos de poltronas cativas no reino dos Céus.

Depois dessa primeira fase, estarão dispostos a serem bonzinhos, a viverem na santa paz com todos. Não mais abraçarão problemas; considerarão a análise desnecessária; não estimarão perder a companhia dos desencarnados ou encarnados que os bajulem, ao invés de canseira, a serviço de outros, mergulharão a existência em meditações no colchão de molas, esperando que os anjos lhes emprestem asas para a ascensão aos Espaços Felizes; usarão o silêncio para que a verdade não os incomode e aproveitarão a palavra, quando se trate de dourar a mentira que os favoreça.

Cada qual, assim, passará a viver entronizado na pequenina corte dos adoradores que lhes mantenham as ilusões. Colocarão considerações terrestres muito acima dos patrimônios espirituais, para não ferirem a claque dos amigos que os incensem; abominarão desgostos e aborrecimentos; nada quererão com discernimento e raciocínio; dirão que o mal será apagado pela bondade de Deus e não se lembrarão de que Deus espera por eles para que o bem triunfe do mal, estirando-se em meditações inoperantes acerca dos milênios vindouros; fugirão do mundo para não perderem a veste imaculada; detestarão qualquer empreendimento que vise a movimentar as ideias espíritas nas praças do mundo, a fim de não sofrerem incompreensões e desgaste...

Em suma, há religiões que possuem santos de pedra ou gesso, mas nós com a hipnose na base da ação acabaremos improvisando neles santos de carne e osso por fora, conquanto prossigam na condição de homens e mulheres por dentro...

Creio que, desse modo, enquanto estiverem preocupados em preservar a postura e a mascara dos santos, não disporão de tempo algum para os interesses do espírito...

ORGANIZADOR DE OBSESSORES – Excelente! Excelente! (O Chefe mostrou largo sorriso de satisfação.) Até que enfim! Até que enfim!... Mãos à obra!...

MILHARES DE MALFEITORES E OBSESSORES – Muito bem!...Muito bem!...

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Contos Desta e Doutra Vida

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Candidato à redenção

Candidato à redenção

Irmão X.



Integrado nos fluidos comburentes a se lhe derramarem da própria alma, o Espírito desditoso, com sede de esquecimento no corpo de carne, pedia em pranto:

- Senhor, por piedade, concedei-me a graça de renascer no planeta físico! Percebo agora a extensão de meus débitos e a enormidade de meus crimes! Feri vossa Lei, espalhando miséria e destruição!... E sofro, Senhor, por desleixo meu, o resultado de minha imprevidência delituosa! Trago em minhas entranhas o inferno que acendi em mim mesmo!... Ó Benfeitor da Eternidade, conduzi-me, de novo, à escola da Terra, a fim de que eu possa, por algum tempo, olvidar minhas horrendas feridas... Dai-me o câncer, a lepra ou outra enfermidade, Senhor, em cuja virulência bendita expungirei de meu ser o veneno da culpa! Encarcerai-me num corpo paralítico em cuja armadura ressecada eu consiga olvidar o pretérito, regenerando os meus infelizes pensamentos! Entregai-me às provas da idiotia, em que me redima, detende meu Espírito arrependido num leito de chagas terrestres em cujos tormentos acrisole o coração entenebrecido no desespero! Dai-me o aleijão, a cegueira, a epilepsia, a forma torturada, a fome e a nudez, mas ajudai-me a renascer no mundo com a graça do esquecimento!...

Nisso, quando mais comoventes se lhe faziam as lágrimas, comparece junto dele benemérito Amigo Espiritual, que lhe diz, bondoso:

- Acalma-te, meu irmão! Tuas súplicas foram ouvidas! A Divina Bondade conferir-te-á nova bênção no campo dos homens... Não precisarás, porém, recorrer à morfeia, à imobilidade, ao pênfigo ou à mutilação para o resgate das tuas dívidas... Afirma-nos o Senhor: - “misericórdia quero, não sacrifício...” Voltarás ao mundo em berço acolhedor e servirás ao Espiritismo, com Jesus, na condição de médium amigo da redenção... Aprenderás que o amor cobre a multidão de nossos pecados e afeiçoar-te-ás ao bem de todos, buscando no bem de todos a luz de teu próprio bem!...

Enlevado com a promessa, o mísero bradou, esperançoso e desafogado:

- Louvada seja a Bondade Infinita de Deus! Oh! sim, cultivarei o serviço aos meus semelhantes na concessão com que o Céu me agracia! Saberei usar a benevolência em todos os lances da luta! Abraçarei os humildes e compreenderei os orgulhosos para ajudá-los com amor! Tolerarei sem revolta flagelações e calúnias, consagrar-me-ei ao desprendimento das posses materiais! Respirarei na Terra, mentalizando a Compaixão Celeste para saber auxiliar sem recompensa e entender sem exigir! Sim! Serei médium e sofrerei amando, como Jesus nos amou!...

Recolhido a grande hospital de socorro, a breve tempo conseguia habilitar-se para o novo renascimento.

Mergulhado em rendas de ilimitado carinho, ressurgiu num corpo abençoado e perfeito, em lar simples e generoso que o acariciou com alegrias puras, qual santuário que o preparasse na direção de uma festa de luz.

Foi assim que, alcançando a maioridade corpórea, o candidato ao serviço do bem foi conduzido naturalmente à província de trabalho em que lhe competia a execução dos votos que formulara.

Entretanto, ao contato inicial com as bênçãos da tarefa, sentiu que a dúvida e a irritação lhe visitavam o campo íntimo.

Em toda parte, surpreendia incompreensão e discórdia, censura e suspeita constantes...

Amedrontado perante a luta que se esboçava feroz, pediu, certa feita, numa sessão de fraternidade e intercâmbio, a orientação do Benfeitor Espiritual que o ajudava no templo espírita em que se lhe sediavam as esperanças primeiras, e, tão logo saudado pelo Instrutor, rogou compungidamente:

- Que fazer, meu amigo, diante das sombras que me entravam os movimentos?

- Perdoa e ajuda, meu filho – respondeu-lhe o mensageiro benevolente.

- E quando alguém me crive de calúnia e maldade?

- Ajuda e perdoa para que a luz do entendimento se faça vitoriosa.

- E a desconfiança? Como agir perante as criaturas que me experimentam com aspereza e sarcasmo?

- Perdoa e ajuda, aguardando o tempo.

- E as pessoas cruéis que me procuram, tocadas de más intenções, à maneira do animal que se sacia nas águas de um poço, agitando o lodo que lhe dorme no seio?

- Ajuda e perdoa para que se renovem um dia...

- Sofro com as mistificações que, por vezes, me assaltam... Como proceder diante daqueles que me ensombram a inspiração, compelindo-me ao desencanto?

- Perdoa e ajuda sem repousar, recebendo em tais lições do caminho o justo apelo à tua construção de humildade... De quando em quando, a mistificação auxiliar-te-á a entender que os talentos do Alto não te pertencem, ensinando-te o respeito ante a Bondade Celestial.

- Vejo-me cercado pela exigência daqueles que me interpretam à conta de malfeitor, solicitando-me as horas para o resvaladouro do crime... Como tratá-los na rota de minha fé?

- Perdoa e ajuda sempre.

- Mas de que modo agir com ignorantes e ingratos, com as raposas da astúcia e com os lobos da crueldade que pretendem senhorear minhas forças?

- Ajuda e perdoa constantemente.

- Ainda mesmo quando não me desculpem as fraquezas e não me auxiliem na solução das próprias necessidades?

- Sim, meu filho – acentuou o benfeitor -, é imprescindível ajudar e perdoar sem descanso.

Levantou-se o consulente para a despedida, e após o encerramento da reunião, com fervorosa prece, o candidato à mediunidade que pedira o câncer e a lepra, a cegueira e a mutilação, a paralisia e o infortúnio, para ressarcir o passado delituoso, retirou-se da casa e ninguém mais o viu.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
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domingo, 16 de maio de 2021

Posições

Posições

Irmão X.

(O rei e o mendigo)

Há longo, longo tempo, compareceram no Tribunal Divino dois homens recém chegados da Terra.

Um trazia o sinal da muleta em que se apoiara.

Outro mostrava as marcas da coroa que lhe havia adornado a cabeça.

Fariam prova de humildade para voltarem ao mundo ou seguirem além...

Postos, um a um, na balança, o primeiro acusou enorme peso. Era ainda presa fácil de lutas inferiores, parecendo balão cativo.

O segundo, no entanto, revelava grande leveza. Poderia viajar em demanda dos cimos.

Inconformado, contudo, disse o primeiro:

- Onde a justiça divina? Fui mendigo paupérrimo, enquanto ele...

E indicando o outro:

- Enquanto ele era rei... Passei fome, ao passo que muita vez o vi no banquete lauto.

Esmolava na rua, avistando-o na carruagem. Conheci a nudez, reparando-o sob manto dourado, quando seguia no triunfo... Vivi entre os últimos, ao passo que ele sempre aparecia como o primeiro entre os primeiros...

O outro baixou a cabeça, humilhado, em silêncio...

Mas o amigo sereno, que representava o Senhor, falou persuasivo:

-Viste-o na mesa farta, mas não lhe percebeste os sacrifícios ao comer por obrigação.

Notaste-o de carro; entretanto, não lhe observaste o coração agoniado de dor, ante os problemas dos súditos a que devia assistência. Fitaste-o sob dourado manto, nos dias de júbilo popular; todavia, não lhe contemplaste as chagas de sofrimento moral, diante das questões insolúveis... Conheceste-o entre os maiores da Terra; entretanto, não sabes quantos punhais de hipocrisia e de ingratidão trazia cravados no peito, embora fosse obrigado a sorrir... Alem disso, na posição de soberano, podia ferir e não feriu, humilhar e não humilhou a ninguém, prejudicar e não prejudicou, desertar e não desertou... 

Na situação de mendigo, não foste lançado a semelhantes problemas da tentação...

Diante do companheiro triste, o ex-monarca recebeu passaporte para ascensão sublime.

Sozinho e em lágrimas, perguntou então o ex-mendigo:

- E agora?

O ministro angélico abraçou-o sensibilizado, e informou:

- Agora, renascerás na Terra e serás também rei.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Contos Desta e Doutra Vida

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