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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Experiência e Autoridade

Experiência e Autoridade

Deolindo Amorim



Durante muito tempo, nas discussões filosóficas e demandas teológicas, o critério da experiência e o critério da autoridade tiveram muita influência no pensamento crítico. Insurgindo-se contra a última palavra do púlpito ou da cátedra, o que significava simplesmente fazer tábua rasa da autoridade, os apologistas da experiência faziam questão da prova direta, queriam a verificação em campo aberto e não as sentenças dos mestres. Os empiristas invocavam a experiência como valor indiscutível enquanto os tradicionalistas faziam da autoridade o valor decisivo nos critérios da verdade. Praticamente duas posições antagônicas: aceitar uma verdade somente depois de comprovada pela experiência ou aceitar uma verdade mesmo sem prova, somente porque provinha de uma autoridade, que poderia ser um doutor, um teólogo, um filósofo...

Como em todas as posições radicais, (...) o exagero de um lado e do outro prejudicou sensivelmente o equilíbrio. Ninguém, criteriosamente, seria capaz de pôr em dúvida a necessidade da experiência sem submissão integral às noções já prontas e acabadas. Fechar o campo da experiência para não ser irreverente com a autoridade dos mestres, é impedir a evolução, é querer colocar o espírito inquiridor dentro de uma redoma. Em todos os campos a experiência sempre abriu caminho à crítica, a não ser nos períodos obscuros da Humanidade, quando não havia sequer a mínima condição de indagar e discutir... A experiência descobre novos filões e permite uma avaliação crítica mais segura, podendo oferecer até elementos para a revisão de certas posições. Se não fosse o respeito à experiência, o conhecimento humano em grande parte ainda estaria parado no tempo e no espaço.

Apesar de tudo, convenhamos, tanto o valor da experiência como o testemunho da autoridade são relativos. O exagero em que incidiram os partidários das duas soluções é evidente! Nem tudo se pode provar pelos instrumentos da experiência sensível, nem todas as verdades podem ser determinadas pelos compassos de precisão ou dentro dos tubos de ensaio. O fato de se não poder demonstrar com exatidão de uma lei ou de um princípio no banco da experiência objetiva não quer dizer que essa lei não seja verdadeira ou seja fantasia.

A experiência tem suas limitações em qualquer campo de investigação. Seria o caso de negar a existência de Deus, em nome da experiência, por não ser possível prová-la diretamente, segundo o desejo de muita gente... O mundo subjetivo ou mundo íntimo tem realidades que escapam a todos os critérios de comprovação prática. Alguém, porventura, já conseguiu trazer o EU na ponta do escalpelo, apesar de tudo quanto já se fez para penetrar na alma humana ou analisar intimamente a personalidade? Nem por isso seria possível negar a existência do EU profundo no ser humano.

O exagero sempre deforma a visão clara das coisas. Os próprios sentidos humanos, que são o meio mais simples ou primário de experiência, estão sujeitos a equívocos e, muitas vezes, a verdadeiras traições. Um indivíduo apaixonado ou exaltado, ainda que esteja de olhos abertos ou de ouvidos atentos, pode ver uma coisa e confundir o choro de uma criança com o grito de um cão... Os sentidos nem sempre funcionam bem! Quem está sozinho dentro de uma casa vê coisas e figuras apavorantes, confundindo a perna de uma cadeira com uma arma de fogo... Não podemos, pois, dar tanta ênfase aos instrumentos sensíveis do conhecimento.

Se é certo que devemos prezar a experiência como caminho necessário à procura da verdade em qualquer terreno possível, também é certo que não devemos desprezar a autoridade daqueles que viveram suas experiências, mas viveram mesmo, acumulando observações proveitosas, deixando livros e depoimentos que se incorporaram à riqueza moral e cultural do Espiritismo.

Trata-se de um acervo que não pode ser depreciado ou relegado ao rol das velharias, como às vezes se diz.

O maior exagero de muitos partidários da verdade positiva está justamente no fato de exaltarem demais a experiência, fazendo até pouco caso do que já existe ou do que já se escreveu. Por sua vez, os que invocam o testemunho da autoridade e esquecem de que ninguém neste mundo é dono da verdade. O sábio que era autoridade numa ciência há 50 anos, por exemplo, já não pode competir, hoje, com os que estão acompanhando o desenvolvimento científico e tecnológico. Por mais erudito, mais culto que seja um indivíduo, precisa atualizar-se, aparelhar-se com o instrumental da época, a fim de não perder o sentido de continuidade e renovação através dos tempos. Autoridade e experiência, portanto, são conceitos relativos.

Dentro deste panorama de contradições e desvios, o que se nota, no fundo de tudo, é a falta de senso de equilíbrio! Não se deve dar à experiência prática um valor absoluto, assim como não se pode atribuir ao critério da autoridade a força de uma sentença definitiva. O desencontro entre a experiência e o testemunho histórico também se observa às vezes no próprio meio espírita.

A preocupação de fazer Espiritismo exclusivamente experimental, como se fosse apenas laboratório, deixando os princípios doutrinários inteiramente à margem, leva ao exagero de uma formação inevitável — o desinteresse quase ostensivo em relação ao trabalho de outras gerações. Até parece que tudo está começando da estaca zero, como se nada se tentou nem se realizou antes... Ora, e as grandes obras, as pesquisas estafantes, as profundas elaborações do pensamento no patrimônio da literatura espírita? Estaria tudo isso obsoleto?

Claro que o Espiritismo suscita e aceita novas pesquisas, tanto quanto o reexame de posições, sempre que necessário. Mas não é por isso que se deve chegar ao extremo de afastar sistematicamente as obras mais autorizadas, ainda hoje, no campo espírita, como se fossem contos da carochinha! Não...!

Por mais importantes que sejam as experiências, sempre estimáveis, não obscurecem a autoridade, por exemplo, de Crookes, de Aksakof, de Bozzano, de Imbassahy, entre outros autores categorizados. Negar a autoridade desses homens, sem falar em Allan Kardec, que é a base de todo o edifício doutrinário, é querer tapar o sol com a peneira.

É evidente que não podemos ficar apenas no testemunho da autoridade, citando Crookes, Flammarion, etc., pois é preciso estudar e investigar mais, abrir novos campos de perquirição, o que, aliás, está no espírito da própria Doutrina codificada por Allan Kardec. No entanto, também não é justo que se dê mais realce a certas experiências, inegavelmente positivas, no domínio da Parapsicologia e de outras esferas de investigação, querendo fazer crer, por causa disto, que os autores clássicos do Espiritismo, homens que estudaram, observaram e experimentaram seriamente, já não têm mais expressão de autoridade no assunto.

Convém notar, a propósito, que muitas novidades ou descobertas de hoje, se examinarmos bem, se quisermos tirar os rótulos empregados por certas escolas, não estão inovando tanto, não, como poderia parecer à primeira vista. Muita coisa já está em Crookes, em Bozzano, naturalmente com os termos cabíveis nas circunstâncias em que eles trabalharam.

Apesar de tudo quanto já se estudou e realizou em Psicologia experimental, nas técnicas psicanalíticas e nos laboratórios de Parapsicologia a respeito da natureza da alma humana e dos fenômenos inerentes à personalidade e despeito de tudo isto, ainda não se pode encostar O Livro dos Médiuns, como não se pode fechar a vigorosa bibliografia de Gabriel Delanne, cujos livros continuam sendo uma das fontes mais autorizadas no Espiritismo. Dentre eles podemos citar A Evolução Anímica, O Espiritismo perante a Ciência, A Reencarnação, etc.

(...) No terreno filosófico, finalmente, haverá porventura alguma contribuição de natureza humana ou espiritual, que já tenha suplantado a profundidade e a lucidez de pensamento de Léon Denis, autor de livros, como por exemplo, Depois da Morte, Cristianismo e Espiritismo, O Porquê da Vida, O Problema do Ser, do Destino e da Dor? Por que, pois, não estimar, não respeitar a autoridade real de certas obras que estão resistindo aos tempos com toda a integridade? Por que em suma olhar o passado com tanto desinteresse, como se tudo fosse quimera ou sonho romântico se é do passado que nos vem o lastro de experiência? Por que, afinal, relegar a herança que recebemos de outras gerações, se é através da continuidade, dos enriquecimentos e das transformações que se formam as grandes sínteses do conhecimento.

Para terminar, podemos dizer que no meio espírita existem duas tendências desajustadas e, por isso, devem ser reexaminadas criteriosa e serenamente.

Primeira: Valor quase dogmático ao testemunho da autoridade, repetindo o que já se disse, sem um passo a mais no sentido de melhoramento das aquisições científicas e doutrinárias; Segunda: Depreciação da autoridade dos autores históricos, velada ou declaradamente, a fim de exaltar as novas experiências, desprezando tudo quanto constitui o tesouro da cultura espírita.

Ora, nenhuma das duas tendências se compatibiliza com o verdadeiro caráter do Espiritismo pois a Doutrina indica sempre, em todas as situações, o caminho seguro do bom- senso.

Revista Estudos Psíquicos — Lisboa, Portugal — Jun. 1974

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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Explicação e Compreensão

Explicação e Compreensão

Deolindo Amorim



Embora já se saiba que a Doutrina Espírita é reencarnacionista, nem todos quantos batem às portas das sociedades espíritas, em situações graves ou para chorar as suas mágoas, estão em condições de compreender prontamente certos problemas à luz da reencarnação. Em determinados casos, o esclarecimento deve ser muito prudente, sempre compreensivo, pois é inútil, e às vezes até contraproducente, começar falando logo em resgate de dívida do passado, em situações cármicas, etc., se a pessoa aflita está inteiramente fora do assunto, vindo de um ambiente todo estranho ao meio espírita.

Há explicações que são muito bem aceitas por pessoas que já têm pelo menos algumas noções de Espiritismo ou já ouviram palestras sobre reencarnação, mas não podem ser absorvidas, logo de entrada, por elementos que, além de nunca terem ouvido falar em compromissos do passado, provas e assim por diante, estejam em estado de desespero, precisando apoiar-se em alguém que inspire confiança. Quem chega a uma casa espírita para pedir socorro, completamente arrasado por causa de um problema inesperado e doloroso, e não tem, por sua vez,
qualquer base de conhecimento acerca da reencarnação, naturalmente não pode raciocinar com frieza ou muito menos entrar em especulações filosóficas para chegar à causa remota de seu drama. Quem está nessa situação, sem saber o que fazer nem que rumo tomar, procura o meio espírita justamente para receber uma palavra de conforto, uma prova de solidariedade humana, o apoio espiritual de que necessita. Mas não pode apreender logo umas tantas elucidações justamente porque a mente está ainda muito tumultuada. É um problema psicológico. Passado o primeiro período da crise, quando a criatura volta à calma, ainda que relativa, e já está mais ou menos com as ideias no lugar, então vem a explicação reencarnacionista, se for o caso, mas mesmo assim em doses homeopáticas.

Há explicações que até desorientam, embora sejam bem intencionadas. Figuremos, como simples ilustração, o caso de uma senhora que, na condição de mãe sofredora, profundamente deprimida porque o filho morreu afogado, sem nenhuma noção do que seja Doutrina Espírita, sem jamais haver pensado em reencarnações, recorra a um centro espírita como ponto de apoio e conte o seu caso, banhada em lágrimas inconsoláveis. Evidentemente que se trata de uma situação dificílima que exige muito tato, muita paciência. Imagine-se, agora, se alguém, com a intenção caridosa de esclarecer e ajudar, comece logo assim:

— É assim mesmo, É a lei de causa e efeito. Conforme-se com a realidade. É a sua prova. A senhora já deve ter afogado alguém noutra existência!...

Francamente, parece mais crueldade do que caridade.

Consideremos o problema sensatamente: como poderia admitir tais coisas quem se encontra em aflição e não tem o mínimo preparo acerca das ideias espíritas? Impossível. Além de tudo, o problema não deve ser colocado nestes termos. Certas maneiras de interpretar a reencarnação podem até comprometer a própria lógica da Doutrina, É preciso aguardar o momento psicológico para entrar no assunto. Não se deve usar a mesma linguagem para todas as pessoas, como não se deve apresentar o mesmo fio de argumentos em todos os casos, em todas as circunstâncias, a propósito de todas as situações. As condições psicológicas, emocionais e intelectuais variam muito. Somente depois de preparado o terreno, pela elucidação e pelo amor, é que se começa a doutrinação específica. Ainda assim, é bom frisar, há ocasiões em que o modo de encarar os problemas pelo prisma reencarnacionista, ao invés de esclarecer, lançam ainda mais confusão. A experiência que o diga.

Quem estuda a Doutrina Espírita já sabe muito bem que a reencarnação é um princípio universal, válido no tempo e no espaço. E o caminho lógico da compreensão da Justiça Divina, a resposta filosófica aos chamados desafios da Natureza. Mas acontece que, às vezes, se leva a reencarnação para um terreno muito rígido e casuístico, esquecendo-se de que a reencarnação não anula o livre arbítrio, não significa o puro fatalismo. A reencarnação deve ser entendida como lei geral. Sob a lei, que é inevitável, mas não é somente punitiva, porque proporciona meios de reparação perante a Justiça Divina, assim como oferece campo para o desempenho de missões nobres e grandiosas na Terra, sob a lei (repita-se) cada qual pode fazer as suas opções, ajustando-se a esta ou àquela conjuntura.

Ninguém foge à lei, é certo. Quem causa prejuízo aos outros terá de responder pelos seus atos, seja onde for, seja quando for, mas justamente aí é que se nota a inconveniência de certas explicações muito restritivas e prejudiciais ao entendimento da Suprema Justiça, que fica parecendo rígida demais, senão até desumana!

Se alguém causou afogamento do próximo -, noutra existência, terá fatalmente de morrer afogado na vida atual (?)... Se lançou fogo na casa do vizinho, terá de reencarnar com a previsão de ser vítima de um incêndio... E assim por diante. Ora, não podemos ver os problemas exclusivamente por um prisma tão estreito, tão inflexível. Afinal, a pessoa que causou afogamento não poderá voltar à Terra com a incumbência de trabalhar como salva-vidas, que é uma profissão humanitária, a fim de reparar o que fez na existência anterior? Não será muito mais útil do que morrer afogado? É questão de lógica. O espírito reencarnatório pode interferir no carma, ainda que não possa desviar o curso da lei. Aquele, por exemplo, que provocou incêndio intencionalmente, por perversidade, não poderá reencarnar e tornar-se bombeiro, sacrificando-se para salvar muitas pessoas de incêndio? Não será então uma oportunidade ampla, muito mais benéfica do que ter de morrer queimado?!...

Há várias maneiras de saldar dívidas do passado e reparar os danos causados ao próximo. E a perspectiva da reencarnação. Algumas interpretações muito ao pé da letra, entretanto, levam certas pessoas a uma confusão ainda maior, quando não saem dos centros dizendo que o ensino espírita é um absurdo! Infelizmente. No entanto, a reencarnação, quando bem compreendida, abre uma janela nova ao espírito para que compreenda seguramente a grandeza e a perfeição da obra divina. A tese de reencarnação é também uma fonte de esperança!
(Correio Fraterno do ABC — São Bernardo do Campo — SP — Dezembro de 1980)
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Interpretação e experiência

Interpretação e experiência

Deolindo Amorim



Em qualquer campo de estudo ou de crítica, como já se sabe, a interpretação está muito sujeita a influências pessoais. Cada qual quer torcer o sentido das palavras ou dos textos para o seu lado, segundo as conveniências de ordem religiosa, política, jurídica, etc. Por isso mesmo, sempre se disse, e é verdade, que a interpretação é um terreno muito inseguro e muito aberto a distorções. Mas existe a interpretação criteriosa e, portanto, equilibrada.

Temos a interpretação literal, que se atém à frase ou ao texto, tal como está escrito, e temos a interpretação ideal, que procura descobrir o pensamento oculto nas entrelinhas. Nem sempre o que está escrito dá para entender. Muitas vezes se torna necessário até desprezar um pouco a forma e tentar identificar a ideia no fundo de um período ou de um contexto inteiro.

É difícil, muito difícil interpretar, principalmente quando se deseja encontrar a verdadeira intenção no emaranhado das palavras. Seja como for, há um elemento importante na interpretação. É O bom-senso! Quando a forma e a disposição das ideias não nos parecem suficientes para o entendimento claro, é justo recorrer ao bom-senso.

A experiência ensina que a interpretação ao pé da letra é bem arriscada, podendo levar a deduções falsas em muitos casos.

Temos uma ilustração a este respeito. Lê-se no Evangelho, por exemplo: Graças te rendo meu Pai, Senhor do Céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos (Mateus, XI, 25).

Doutos, como se sabe, são os possuidores de grandes conhecimentos, notadamente os que ostentam título de alto saber. Acontece, no entanto, que há doutos que não são doutores, assim como também há doutores que não são doutos. Mas o sentido está claro na lição evangélica. Prudência, na realidade, é cautela, moderação, equilíbrio de espírito, o que é, aliás, próprio da sabedoria. Todavia, os prudentes, dentro do texto, estão associados aos doutos.

Então, há um sentido de equivalência, dando a entender que prudente, ali, é também o douto, segundo o conceito do mundo. Justamente por isso, a Doutrina Espírita interpreta a lição e reafirma que Deus, em sua infinita sabedoria, deixa aos orgulhosos e pretensiosos, o trabalho de pesquisa dos segredos da Terra e revela os segredos do Céu aos simples e humildes... (O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VII, item 8).

De acordo com a advertência evangélica, aliás muito explícita, os doutos que se envaidecem ou se julgam donos da verdade não podem penetrar nos conhecimentos de ordem espiritual, apesar de todos os títulos acadêmicos, uma vez que estão dominados pela perigosa ilusão de que sabem tudo e, por isso, chegam a fazer pouco caso dos assuntos que dizem respeito à vida futura, às leis divinas, e assim por diante. O orgulho cega o espírito de sorte que as pessoas verdadeiramente humildes, não são as que o são apenas há aparência, as verdadeiramente humildes (convém insistir) têm mais possibilidades de receber a luz da sabedoria, pois desejam conhecer outros caminhos de adiantamento. São os humildes de coração e querem de fato progredir.

Pois bem, apesar de a recomendação evangélica ser bem clara, não deixando nenhuma dúvida, a sua interpretação ao pé da letra seria em tudo por tudo inconveniente. Se tomarmos o que aí está inteiramente letra por letra, chegaremos à inadequada conclusão de que os homens de grandes conhecimentos, sem exceção, pelo simples fato de serem intelectualizados, estariam impedidos de alcançar algum plano da sabedoria espiritual. Ora, seria uma contradição.

A que tipo de sábio ou douto se refere então o Evangelho?

Refere-se ao sábio orgulhoso. Nem toda criatura humana de grande cabedal de conhecimentos é orgulhosa. Não é pelo fato de acumular muito conhecimento que o homem intelectualizado deixa de ter aptidão para as coisas superiores. É pelo fato, aí sim, de se envaidecer com o conhecimento e julgar-se acima de tudo e de todos. Não façamos incursões no Evangelho com a ideia preconcebida de que toda pessoa de grande cultura é vaidosa, assim como não se deve pensar que todo ignorante é humilde. A vida cotidiana mostra muitos exemplos frisantes, de um lado e do outro. Não se pode ser unilateral na interpretação evangélica à luz do Espiritismo.

Há muitos homens notáveis, homens que poderiam ser chamados de sábios, mas tão simples, tão humildes, que se apagam ou se anulam, ao passo que muitos semianalfabetos são cheios de si, têm arrogância intelectual de tal ordem, que chega a causar espanto! Assim, a interpretação radical, sem a luz da observação serena do bom senso corre o risco de abrir muitas brechas para distorções perigosas.

Afinal, o que a vida nos ensina, a cada passo, é exatamente isto: a humildade não é privilégio da ignorância, tanto assim que há muito sábio humilde e muito iletrado visivelmente vaidoso. Os segredos do Céu estão abertos a todos; mas a condição é séria e difícil: é preciso humilhar-se, despojar-se das valorizações convencionais e amadurecer espiritualmente.

Não é com a cultura puramente livresca nem com os sofisticados instrumentos de pesquisas que o ser humano cresce em conhecimento espiritual. Mas também não é com a falsa humildade que encobre muita ignorância vaidosa, que se conquistam os degraus da sabedoria espiritual. A humildade não está na ignorância; está no íntimo do ser humano. Por isso, o homem muito culto também pode ser humilde e compreender as coisas do espírito.

(Resumo de uma crônica na Rádio Rio de Janeiro — Programa do Instituto de Cultura Espírita do Brasil).

(Mundo Espírita - Curitiba - PR - Setembro de 1983)

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quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Aptidões e tarefas

Aptidões e tarefas

Deolindo Amorim



O princípio da desigualdade ou diversidade das aptidões individuais justifica racionalmente o aproveitamento dos valores humanos em todas as situações, em qualquer nível intelectual, econômico ou social. É um argumento dentre outros da tese reencarnacionista, como se sabe. 

Cada espírito que reencarna tem sua situação, suas experiências, seus compromissos, seu grau de conhecimento e de capacidade. Sendo desiguais espiritualmente, não quanto à natureza, mas quanto ao estágio evolutivo em que se encontram, é natural que sejam também desiguais as inclinações, as preferências, as aptidões... 

Justamente por isso, o Espiritismo é uma doutrina essencialmente democrática, uma vez que valoriza o elemento humano em qualquer plano da vida em que esteja situado. 

Ninguém é inútil ou desnecessário porque não sabe fazer isto ou aquilo, porque tem mais inclinação para uma coisa do que para outra. Todos são úteis. 

Os campos de serviço, que se abrem constantemente na seara espírita, oferecem oportunidades a todos, de acordo com as possibilidades individuais. Cada qual procura naturalmente uma faixa de ação onde sinta que possa estar mais à vontade ou possa prestar serviços com mais eficiência. As opções são livres e necessárias, aliás em todo movimento, principalmente no espírita, que exige esforço desinteressado e muita dose de renúncia.

A expansão do movimento espírita, sobretudo no Brasil, onde se desenvolve uma obra assistencial cada vez maior e onde, ao mesmo tempo, nossas ideias enfrentam problemas e desafios em vários flancos de crítica, comporta muito bem, ou indispensavelmente, o funcionamento simultâneo de vários tipos de atividades, visando ao mesmo objetivo — o serviço pela causa espírita. Nada mais que isto.

O campo assistencial, por exemplo, é muito grande e meritório, exigindo vocações autênticas. Também meritório é o campo mediúnico, como são igualmente meritórios outros campos de trabalho espírita. No entanto, por mais que se reconheça a realidade, certas faixas de serviço ainda não foram bem compreendidas. Uma delas, por exemplo, é a faixa cultural. Não existe propriamente, nem poderia existir, principalmente agora, uma cúpula que se poderia chamar de elite espírita. Com as novas condições de vida e por força da interdependência em que vivem, hoje, os homens, os grupos, as classes, enfim, a noção de elite, no velho sentido de predominância intelectual de caráter seletivo já está obsoleta, já é uma ideia arcaica.

A equivalência cultural e profissional hoje em dia já não permite distinguir as pessoas pela situação intelectual ou social. O conceito de distância social, que teve muito peso nas sociedades antigas, abrindo um fosso profundo na escala profissional, está muito reduzido atualmente. Em primeiro lugar porque certas carreiras e profissões se valorizaram muito. E em segundo lugar porque as oportunidades de ascensão intelectual e profissional são cada vez maiores. Assim, não se pode mais olhar a sociedade como se fosse uma pirâmide lá em cima, no vértice, a elite mais intelectualizada e cá em baixo, na base, a massa confusa, sem capacidade para compreender os grandes problemas. 

Hoje, seria uma visão completamente errada de vez que a sociedade não está mais assim.

Justamente por isso, não se pode pensar na formação de uma elite no movimento espírita. Também não se deve chegar ao exagero de querer desvalorizar o trabalho daqueles que na seara espírita, e pela força mesma das circunstâncias, desempenham tarefas de ordem intelectual. Porventura o campo cultural do Espiritismo também não é importante? Também não se precisa de obreiros capazes? Nosso movimento precisa, ao mesmo tempo, de trabalhadores idealistas em todos os campos. Assim, o homem prático, que é o administrador, tem seu lugar inconfundível, 0 médium, quando compenetrado de sua missão, é elemento insubstituível. O articulador de congraçamento é igualmente um trabalhador necessário, do mesmo modo que é necessário o elemento que promove campanhas humanitárias. Cada qual, em seu campo de trabalho, pode ser um apóstolo do bem. Não se pode nem deve, porém, enaltecer uma faixa de serviço, minimizando outras, como se fossem de importância secundária.

Sem dúvida, o trabalho assistencial é de natureza diferente do intelectual.

Mas qual dos dois trabalhos é mais importante? Eis aí um julgamento difícil, senão impossível. No momento da necessidade humana, fala mais alto a assistência social, no momento em que é preciso esclarecer ou defender a causa espírita quando desafiada pela crítica, fala mais alto o lado cultural. E assim por diante... (...)

Porque colocar, pois, em segundo plano o campo cultural do movimento espírita, dando mais ênfase ao campo da produção mediúnica ou hipertrofiando a significação das obras assistenciais?

(...) Negar o valor das atividades culturais no meio espírita é fechar os olhos a uma realidade evidente. Não há conflito, não há dissonância entre os diversos campos de trabalho, como não há qualquer avaliação de superioridade; mas é preciso que haja mais discernimento a este respeito.

É por isso mesmo que a Doutrina Espírita democraticamente aproveita os valores humanos em todos os graus, considerando sempre a desigualdade das aptidões como ponto de referência. (...) todos podem servir, todos podem ser obreiros da mesma seara, cada qual colocado na esfera de ação que lhe seja mais indicada. Ninguém fica de fora, a não ser que, por si mesmo, queira sobrar no conjunto. Há funções para todos, e todas elas são relevantes quando se observa a harmonia, a realização geral, É com este espírito construtivo que devemos avaliar o trabalho dos companheiros que se ocupam de tarefas diferentes no meio espírita, mas todos eles estão integrados no mesmo pensamento, no mesmo ideal — trabalhar pela causa comum, a causa do Espiritismo como doutrina de renovação do homem e da sociedade.

(Jornal Mundo Espírita — Curitiba — PR — Abril de 1973)

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quinta-feira, 16 de maio de 2024

Conceitos e princípios

Conceitos e princípios

Deolindo Amorim



Os conceitos humanos são considerados, em grande parte, segundo os pontos de vista de quem os interpreta. Cada conceito, dentro de um ângulo de visão, tem um valor próprio, de acordo com as diversas concepções de vida. O conceito de verdade, que é muito subjetivo, toma sentidos muito diferentes, conforme os contextos em que esteja situado. A verdade, para um filósofo, tem aspectos ou sutilezas que o homem de espírito muito pragmático não pode apreender, justamente porque está habituado a ver tudo pelo prisma concreto e imediato. A visão do místico, do homem que vive mais para o espírito não coincide com a visão objetiva do homem de laboratório. O conceito de honra, para um indivíduo depravado, não tem o mesmo peso, o mesmo sentido de nobreza moral desse mesmo conceito, quando considerado por um homem de bem. O conceito de amor, para uma criatura dissoluta, não tem a significação de amor entendido em termos de espiritualidade, do amor cultivado pelas pessoas que se elevaram acima das paixões comuns.

E assim diversos conceitos estão sujeitos a interpretações restritivas, em virtude das desigualdades morais, intelectuais, emocionais, etc. Cada qual, dentro de seu sistema de ideias, tem um conceito de amor, de justiça, de liberdade... Cada qual avalia os conceitos em razão de suas tendências íntimas, sua cultura, sua filosofia de vida.

O meio social, por sua vez, lança sobre o indivíduo uma carga bem forte de exigências e pressões, muitas vezes condicionando os próprios conceitos. Daí decorram os conceitos de sagrado e de profano, de decente e de indecente, de justo e de injusto, como tantos outros, os quais não podem ser definitivos nem absolutos, pois variam, no tempo e no espaço, isto é, em função da época e do meio.

Se é verdade que as chamadas injunções sociais muitas vezes modificam os conceitos, que são criações humanas, também é verdade que existem princípios capazes de resistir ao tempo e às mudanças históricas. As conveniências ocasionais podem torcer os conceitos, amoldando-os à vontade, desvirtuando-lhes o verdadeiro sentido mas não podem invalidar a consistência de certos princípios.

Chegamos então ao ponto em que se faz sentir a força do ensino espírita. Pouco importa, por exemplo, que haja diversas maneiras de entender o conceito de amor, segundo as influências da cultura ou do meio social, mas o que a Doutrina Espírita afirma, como princípio, tenha o nome que tiver, é que o amor edifica o espírito, e que sem amor não há progresso espiritual. É um princípio válido no tempo e no espaço. Cada qual pode ter o seu conceito de amor para uso próprio, mas existe o amor real, acima de todos os conceitos convencionais. A Doutrina Espírita não discute conceitos, ela ensina princípios. Lá está no Livro dos Espíritos — questão 153: Chamai as coisas como quiserdes, contanto que vos entendais. 

Quando a Doutrina afirma que existe uma Lei Moral, uma lei que não é contingente ou transitória, não está circunscrita a uma área nem a qualquer grupo, porque se sobrepõe a todas as configurações geográficas ou sociais, quando a Doutrina afirma isto — convém frisar bem — ela não pergunta qual é o conceito de Moral deste ou daquele grupo, desta ou daquela escola. O princípio é este: queiram ou não queiram os homens, tanto faz no Oriente como no Ocidente, a Lei Moral prevalece, é insubstituível. 

E qual o seu foro? 

A consciência, diz a Doutrina.

Há muitos conceitos de Moral, como se sabe, mas a Doutrina não se preocupa com os conceitos, porque lhe interessa principalmente infundir princípios que reformem o ser humano por sua influência. Não há reforma profunda e duradoura, entretanto, se não há compatibilidade com a Lei Moral. A reforma exterior apenas atende a eventualidades sociais, mas não modifica o indivíduo por dentro, 0 indivíduo pode usar todos os artifícios, empregar todos os expedientes de argúcia para burlar a lei escrita, que é obra dos homens, mas não pode fugir ao julgamento inexorável da Lei Moral, porque a consciência não dorme nem se deixa enganar. Cedo ou tarde, o espírito devedor terá que ajustar contas com a sua própria consciência, ainda que tenha sido absolvido ou exaltado pelos homens.

Cada qual deve, pois, esforçar-se, desde cedo, para evitar o julgamento severo da consciência, sob a ação inflexível da Lei Moral, pois se uma existência não for suficiente, haverá outras experiências, através da reencarnação. Este princípio, que ninguém pode alterar nem acomodar por meio de conceitos particulares, constitui uma das pedras angulares do ensino espírita. 

(Mundo Espírita - Curitiba - PR - Novembro de 1976)


Deolindo Amorim do livro:
Ponderações Doutrinárias

(Coletânea de artigos publicados por Deolindo Amorim, em diversos jornais e revistas espíritas do Brasil e do Exterior)
(Livro organizado por Celso Martins)

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Allan Kardec e a unidade doutrinária

 Allan Kardec e a unidade doutrinária

Deolindo Amorim


(...) Embora já se conheça suficientemente a biografia do Codificador do Espiritismo, há sempre o que estudar e meditar, principalmente quando nos fixamos em determinados aspectos. Vamos considerar, por exemplo, a preocupação de Allan Kardec com o ensino espírita. Como pedagogo, voltado a vida inteira para os problemas da instrução e da educação, entendia ele, e a experiência lhe dá toda razão, que o movimento espírita deveria, desde cedo, cuidar do ensino da Doutrina para a formação de adeptos capazes. Uma antecipação que podemos chamar de luminosa, sem a menor dúvida.

Uma vez concluída a obra da Codificação com o livro A Gênese (em 1868), depois de um trabalho de mais de 11 anos a fio, quis o Codificador traçar, agora, os rumos que deveria seguir o movimento espírita, ainda no início da difusão doutrinária. Veja-se, aí, a visão lúcida e penetrante de Allan Kardec: quando muita gente ainda estava no entusiasmo das primeiras impressões, quando nem todos, entre os próprios aderentes na França, haviam tomado pé no terreno, como se costuma dizer, já ele pensava na organização de um plano de atividades, prevendo providências práticas, a fim de que os continuadores soubessem conduzir bem a nova bandeira, daí o projeto de 1868 no qual incluiu a previsão de um curso regular de Espiritismo.

Curso pressupõe sequência, método, regularidade. Era justamente o que ele queria: um curso para ensinar a Doutrina. Claro que não seria um curso acadêmico, visando ao bacharelado, por exemplo, com vestibular, diploma, etc... Não! Um curso regular, na realidade, para ministrar o ensino dos princípios básicos do Espiritismo, sem formalismo nem títulos. E qual o objetivo desse curso, antevisto por Allan Kardec? Preparar adeptos capazes. Quem o diz é o próprio Codificador da Doutrina. Queria ele evitar o estudo desordenado, a improvisação e, sobretudo, a preponderância dos elementos despreparados. Como confiar a divulgação ou a interpretação de uma Doutrina a pessoas que não se prepararam convenientemente ou falam apenas por alto, quando não por momentâneo entusiasmo, mas que não têm a verdadeira segurança de conhecimento?

Era justamente a preocupação de Allan Kardec em relação ao futuro do Espiritismo, que deveria espalhar-se em todas as direções, mas poderia correr o risco de ser mal interpretado ou desfigurado em seu verdadeiro pensamento, exatamente pela falta de adeptos capazes, e não apenas crentes ou seguidores ocasionais.

Todos nós sabemos, pela experiência cotidiana, que há muita diferença entre apenas acreditar na comunicação dos espíritos e aceitar conscientemente os princípios espíritas. Kardec previa, de começo, precisamente a formação de um corpo de doutrinadores responsáveis, isto é, de pessoas identificadas com o pensamento doutrinário através de estudos metódicos, e não de leituras a esmo, leituras que podem dar noções esparsas, mas que não revelam a verdadeira linha de sequência dos ensinos básicos.

Evidentemente, não queria ele abrir caminho para a criação de elites no movimento espírita, uma espécie de cúpula intelectual, que fala de cátedra, como se estivesse muito acima da planície. Absolutamente! Nem o movimento espírita comportaria inovações deste tipo. Mas de uma coisa podemos estar certos: se é verdade que não há lugar, em nosso meio, para elites sofisticadas, também é verdade, e verdade demonstrada pela experiência, que as ideias espíritas não podem ser conduzidas ou esclarecidas sob o primado da ignorância. Exatamente por deficiência de estudo regular ou metódico, e de mais penetração no âmago da Doutrina, é que estamos vendo, lamentavelmente, tantas distorções e tanta inoculação de ideias pessoais, em nome do Espiritismo...

Um curso regular de Espiritismo, assim preconizava Allan Kardec, teria a vantagem de fundar a unidade de princípios, "fazer adeptos esclarecidos, capazes de espalhar as ideias espíritas e de desenvolver grande número de médiuns". Ainda mais encontramos em Obras Póstumas: "Considero esse curso como de natureza a exercer capital influência sobre o futuro do Espiritismo e sobre as suas consequências."

Estão associados, aí, dois pontos substanciais ou inequívocos: a unidade doutrinária e o futuro do Espiritismo. O futuro do Espiritismo depende da unidade doutrinária. Sem unidade, cada qual fará o seu Espiritismo ou apresentará a Doutrina a seu modo, como se ela não fosse realmente um corpo homogêneo, É natural que todos nós tenhamos nossas ideias particulares ou possamos ver certos aspectos do Espiritismo por um prisma muito próprio. Mas não podemos deslocar a posição dos verdadeiros conceitos espíritas a fim de acomodá-los ao nosso modo de ver. Seria a quebra da unidade doutrinária que é a espinha dorsal da estrutura doutrinária, como já se disse inúmeras vezes.

Por causa de uma visão parcial ou incompleta do Espiritismo, justamente sem a noção exata de sua unidade capital, é que muitas pessoas, por terem sido mal encaminhadas nos primeiros passos de participação espírita, ainda não compreendem que só existe UM Espiritismo, embora existam muitos campos de trabalho, muitas formas de ação.

Há quem fale em Espiritismo social, com tanta ênfase, como se o Espiritismo fosse exclusivamente campo de assistência social... Há quem realce com ardor o Espiritismo evangélico em contraposição ao Espiritismo científico. E assim por diante. São particularizações muito enfáticas, mas prejudicam a visão global, o sentido de unidade, justamente porque dão ideia de que existem diversos Espiritismos: o social, que é de uma área, o evangélico, que é de outra área. 0 científico que é de gabinete, etc. Ora, tudo isto constitui apenas uma desfiguração que incide sensivelmente na unidade doutrinária.

As consequências do Espiritismo atendem a necessidades diversas e, por isso mesmo, os campos de trabalho se desdobram cada vez mais através da pesquisa científica, da meditação e da explanação evangélica, assistência social, etc... Mas o foco que projeta luz sobre todos esses ângulos é um só — o ensino fundamental da Doutrina. A diversificação é apenas no trabalho humano, de acordo com o momento, o ambiente e as circunstâncias. A Doutrina, porém, não se diversifica nem se desfigura. Justamente por isso, é indispensável que tenhamos em vista, acima de tudo, a unidade doutrinária, que Allan Kardec tanto encareceu.

(Trechos de uma palestra proferida em 17/10/76 na Sociedade Espírita Allan Kardec, em Porto Alegre — RS)

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Ponderações Doutrinárias

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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Discípulos de ALLAN KARDEC

Discípulos de ALLAN KARDEC

Deolindo Amorim



Podemos indicar os discípulos de Allan Kardec, sem esquematização rígida, pelo menos em dois grupos: os históricos e os que, através dos tempos, procuram identificar-se mais com o pensamento do Codificador. O grupo histórico é muito pequeno, porque se resume naqueles que, estando em Paris no começo do movimento espírita, conviveram com Allan Kardec dele recebendo, diretamente, a influência de sua personalidade e absorveram os ensinos que Kardec ministrava nos círculos mais íntimos. Os outros, os que se espalharam pelo mundo no decorrer dos tempos, beberam os conhecimentos espíritas nas obras doutrinárias e, tanto quanto possível se identificam com as linhas básicas da Codificação.

Há os aderentes ou adeptos gerais, mas nem todos são discípulos de Allan Kardec, na realidade. Discípulo é aquele que afina com o mestre, vibra em consonância com ele, esforçando-se por seguir-lhe os exemplos, sem espírito sectário, evidentemente quem é sectário ou intolerante não pode ser tido como discípulo, justamente porque um dos traços mais afirmativos de Allan Kardec, quando bem compreendido, é a largueza de ideias, a preocupação com o sentido universal da cultura.

Há pessoas que aderem à Doutrina, chegam a estudá-la sincera e meticulosamente, mas apenas por interesse intelectual ou curiosidade transitória e, por isso mesmo, não sentem certas facetas, não apreendem umas tantas sutilezas inerentes à orientação de Allan Kardec.

Na vida escolar, por exemplo, muitos antigos alunos continuam sendo discípulos de seus mestres pela vida em fora. Daí a diferença entre discípulo e aluno. A condição de simples aluno é uma contingência da formação intelectual ou profissional, ao passo que o discípulo se forma, aos poucos, pelas afinidades, pelos laços afetivos, que se criam e se consolidam pelo tempo, dentro e fora da escola. Assim, há instrutores e professores que tiveram muitos alunos mas não fizeram propriamente discípulos, na acepção estrita do termo. Outros, porém, conseguiram transformar muitos alunos em discípulos pela comunicação profunda, pela influência que tiveram até na personalidade dos alunos, e não apenas pela convivência nas aulas ou pela rotina dos contatos. Discípulos, portanto, são aqueles em quem o mestre deixa raízes mais firmes, guardam, por isso mesmo, para sempre os reflexos de sua irradiação, seus exemplos, suas diretrizes.

Allan Kardec não teve alunos de Espiritismo, no sentido específico, embora tivesse sido ele professor de diversas matérias. Mas viveu ensinando a Doutrina Espírita, não simplesmente pelos esclarecimentos ocasionais, mas pelas afirmações, pela coerência de suas ideias e, acima de tudo, pela força de sua convicção. Teve discípulos, sim, e discípulos que nunca mais se afastaram espiritualmente do Codificador da Doutrina. Entre os históricos, inegavelmente, além de outros, dois deles se distinguiram muito, e sempre honraram a memória de Kardec — Gabriel Delanne e Léon Denis. Aproximaram-se do Codificador quando ainda eram moços, sentiram o influxo de sua irradiação pessoal e abraçaram a Doutrina através de duas direções claras: científica e filosófica. Nenhum dos dois tergiversou na direção básica, antes pelo contrário reforçaram os princípios centrais do ensino espírita.

Gabriel Delanne, pela sua formação, dedicou-se muito ao campo científico e, neste terreno, deixou obras ainda hoje autorizadas como fontes de consulta. Poderíamos lembrar O Espiritismo perante a Ciência, O Fenômeno Espírita, A Evolução Anímica, Investigações sobre a Mediunidade, dentre outros trabalhos do mesmo nível. Mas Delanne, apesar de ter mais vocação científica, entrou igualmente na esfera filosófica. Bastaria lembrar uma de suas obras, entre os livros chamados clássicos da literatura espírita: A Reencarnação. Quando ainda não se falava em Parapsicologia, nem se conheciam certos termos técnicos e muito menos as siglas hoje em uso, Delanne já investigava os fenômenos de telepatia, aparições, psicometria, etc. Pouco se fala atualmente em Delanne, mas o certo é que os seus livros poderiam ser confrontados com os mais alentados de Parapsicologia. Quando ouço dizer, às vezes, que o Espiritismo está superado pela Parapsicologia (?) fico pensando no Livro dos Médiuns, que é um livro relativamente popular, mas bem pouco interpretado. E é, no entanto, como já se sabe, um tratado de Parapsicologia, embora muita gente não se aperceba disto.

Os rótulos têm muita influência... Gostaria de remeter certas pessoas, que se impressionam muito com termos técnicos e fórmulas simbólicas, a duas grandes fontes apenas: A Evolução Anímica e Investigações sobre a Mediunidade. Poder-se-ia ver, por aí, que Gabriel Delanne se antecipou em relação a umas tantas descobertas hoje propaladas e exaltadas com tanto calor.

Com relação ao segundo discípulo de Kardec por nós antes citado, quer dizer, de Léon Denis, que representa o pensamento filosófico do Espiritismo em sua expressão mais legítima, também se pode dizer que deu boa contribuição à parte científica da Doutrina. Sua produção abrange, em síntese, todos os aspectos do Espiritismo: filosófico, histórico, moral, científico... Entre outros livros, escreveu, por exemplo: No Invisível, O Porquê da Vida, Depois da Morte, O Grande Enigma, Cristianismo e Espiritismo, etc. Há, entretanto, uma obra mais extensa na qual ele condensa a Doutrina Espírita em seus fundamentos e em suas consequências: O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Obra sólida, sob todos os pontos de vista onde há erudição e há interpretação. Léon Denis dá uma contribuição própria sobre os fundamentos científicos e filosóficos do Espiritismo.

Verdade é, no entanto, que dois autores de peso como Delanne e Denis, ficam à margem de certas discussões quando poderiam na realidade, elucidar muitos problemas atualmente em foco do campo da Parapsicologia como da Psicanálise e assim por diante. São, finalmente, eles dois, os maiores e mais completos discípulos de Allan Kardec.

Deolindo Amorim
(Obreiros do Bem - Rio de Janeiro/RJ - Junho de 1975)

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