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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Deveres imediatos

Deveres imediatos

Victor Hugo



Porque perseverem, no mundo, as separações discriminativas da sociedade, isolando as classes e as raças humanas e formando grupos infelizes; porque o abuso do poder propicie a subtração das liberdades e dos direitos humanos; porque o homem continue escravo do homem e as conjunturas econômicas respondam pela miséria das massas; porque o obscurantismo a respeito da cultura real domine verdadeiras multidões e o acesso às escolas que libertam e burilam o pensamento constitua um privilégio para as minorias dominantes, devemo-nos empenhar em esforço hercúleo para mudar as estruturas vigentes.

Enquanto a dor física desgaste a alma, ou os problemas psíquicos gerem enfermidades orgânicas, ou as conjunturas emocionais produzam distúrbios na economia espiritual dos homens; enquanto a indiferença dos ricos marginalize o sofrimento dos pobres e o menor esforço receba estipêndios vultosos num atentado ao sacrifício das classes trabalhadoras; enquanto a morte pela fome dizime centenas de milhões de vidas ou apenas uma vida, o homem necessita modificar a forma de comportar-se, na Terra, ampliando os recursos da solidariedade e do auxílio fraterno.

Viceje o vício, que ceifa a juventude e entenebrece a vida; predomine a corrupção, que envilece a criatura; permaneçam os promotores da degradação dos costumes; assente-se o triunfo nos pântanos da vergonha moral; prospere a injustiça, mascarada de direito; reinem a violência e a agressividade, atestando a situação de primitivismo e semibarbárie da civilização, faz-se imprescindível educar o ser humano e conscientizá-lo das superiores finalidades da sua vilegiatura no curto período do trânsito somático.

Desde que o egoísmo tenha prioridade no relacionamento entre os homens em face do êxito da intriga e da calúnia bem forjadas; diante da traição que se mascara de amizade; frente ao suborno da dignidade e da consciência, na disputa dos valores de monta insignificante, porque mui passageiros; perante a vitória da impunidade, da delinquência de qualquer espécie, a real cultura não se pode entorpecer pelos vapores do adesísmo de frutos apodrecidos, mas levantar-se para profligar o abuso e exalçar as conquistas do bem, do verdadeiro e do belo.

Como ainda predomine o comércio de vidas, nos bordéis da licenciosidade e nos escritórios de luxo, que vendem "imagens" ao público ávido de sensações; desde que permanece o tráfico de drogas e de alucinógenos, enlouquecendo dezenas de milhões de vidas jovens e aniquilando-as sob os disfarces da insensatez e do prazer; porque sobreviva a chantagem moral e a financeira e a submissão indigna faça parte da metodologia de situações vantajosas, eleitas pelo equívoco dos aproveitadores, é justo que o silêncio acumpliciador das mentes e caracteres honrados seja substituído pelo verbo quente e pela ação repulsiva ao estado de decomposição moral em que se encontra a quase totalidade do organismo social.

A quietação do homem justo diante do disparate do crime é conivência inconsciente para com a delinquência.

A acomodação da dignidade responde pela prevalência da desordem.

A imoralidade não espera a anuência da virtude para assentar o seu quartel, antes impõe-se, chocante e intempestiva, produzindo, pela violência dos costumes, uma aceitação a princípio tímida e depois aplaudida.

Justo que os contornos da honra não fiquem diluídos em sombras, nem os deveres do bem cedam lugar às permissividades a pretexto de tolerância e progresso.

O código irrefragável do "amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" tem preferência a quaisquer outras posturas, porque é uma síntese soberana da lei mosaica e do antigo direito romano, que ainda, teoricamente, serve de base à Justiça humana.

As débeis tentativas da persistência do bem e da ordem deverão fortalecer-se e amiudar-se tomando o terreno que foi arbitrariamente cedido às paixões nefastas para prejuízo da harmonia social.

O homem tem o dever de recompor-se moralmente para viver em harmonia consigo mesmo e com as leis que vigem em a Natureza, refletindo a ordem da Criação.

Nunca se fizeram tão necessários quanto hoje os esforços pelo bem geral das comunidades e jamais houve tão grande urgência para as lideranças enobrecidas.

Substituir os hábitos perniciosos por comportamentos corretos; gerar atitudes e compromissos salutares no relacionamento com as demais criaturas; promover o trabalho realizador e educar o povo; produzir leis justas e fomentar o respeito pela sua vigência são as tarefas do homem integrado na vera filosofia do Cristianismo, desvestido de arbitrariedades e sofismas, acomodações utilitaristas e dogmas absurdos, numa tentativa de restauração do otimismo, que cede lugar à angústia e à neurose, ao mesmo tempo antecipando o amanhã pacífico e ditoso da Humanidade.

Bruxelas, Bélgica, 07.09.80

Victor Hugo por Divaldo Franco do livro:
Roteiro de Libertação

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

A restauração

A restauração

Victor Hugo


Victor Hugo

Toda uma era de agressividade e descalabros se aproxima do seu fim inexorável.

As sementes da discórdia, atiradas a esmo na terra dos corações, germinam com abundantes crises que fazem o estertor das modernas estruturas, cujas aparentes bases de segurança se permitem pulverizar sob os camartelos da insatisfação geral.

A falência inevitável dos valores éticos se apresenta imediata, em face das buscas do prazer alucinado, que entenebrece os sentimentos, enquanto a indiferença pela criatura humana, em si mesma, e pelos povos em geral, atesta a fúria bestial de indivíduos e governos desarvorados sob o estridor das forças desconcertadas decorrentes das emoções e instintos asselvajados.

Estabelece-se a paz sob a mira de ogivas de mísseis intercontinentais e de médio alcance, com ilimitado poder destrutivo, enquanto a diplomacia dos sorrisos mal oculta a sanha armamentista dos que desejam submeter o mundo aos pés, sem dar-se conta das sombras do sepulcro que já lhes cobrem a simulada vitalidade orgânica de que se fazem possuidores.

A fome que grassa no mundo ceifando milhões de vidas por ano, e as enfermidades que zombam das conquistas médicas, porque não debeladas, são estudadas e discutidas em busca de soluções não desejadas, em hotéis de superluxo, e banquetes, nos quais o supérfluo excede entre sorrisos de representantes das nações que jamais examinaram de perto os problemas, informados somente por estatísticas elaboradas em setores especializados para onde convergem os dados a serem computados.

A loucura de todo porte domina as ruas da Terra, por transbordarem dos lares onde os conflitos explodem em intensidade, e dos lugares de trabalho, nos quais o equilíbrio se torna impossível, como decorrência das circunstâncias e fatores desumanizantes. Surgem e se generalizam conflitos psicológicos individuais, que afetam os grupos sociais e os dissociam, fermentando as massas que externam recalques, necessidades e frustrações em forma de saques e violências de toda espécie, porque padecem a infamante pressão do poder que os oprime e os ignora.

Em contrapartida, os poderosos, porque colimaram as metas que almejaram, desmotivam-se e a insânia neles se estabelece, promovendo espetáculos que açulam as paixões primitivas e os tornam humilhados em si mesmos, sem qualquer respeito pela própria, e pela vida alheia.

Multiplicam-se os paradoxos num contexto histórico de transição.

Os líderes dos povos estertoram, jugulados a outros senhores que os comandam, conduzindo e sendo conduzidos.

Materialistas trabalham pela paz, e religiosos fomentam as revoluções; pesquisadores exaurem-se na busca de equações para os problemas humanos, enquanto as multidões ensurdecem-se diante das propostas positivas para o seu bem-estar; missionários da ciência promovem a esperança e o povo agita-se na rebeldia; astrofísicos buscam vida fora da Terra, na medida em que os seus governos aplicam fortunas que venceriam a maioria dos males que a destroem no planeta; atuam governos e povos trabalhando pelos “direitos humanos”, que espoliam com agressões a minorias raciais e a pequenos países onde atuam os seus serviços de inteligência...

Ironicamente dão-se as mãos a miséria e a abundância, misturando-se lágrimas de dor, esgares de ódio, risos de prazer...

A inteligência que busca as estrelas, desdenha do astro onde se radica.

Negando a fé, a ciência foi conduzida pela razão filosófica a encontrar o nada e afirmá-lo, defrontando, por fim, a energia como fonte única de tudo, na qual o espírito se individualiza sob o comando da divina presença que lhe é independente, causal, pensante e atuante.

No báratro das desconexas situações são reformulados, apressadamente, os conceitos sob a origem dos seres, da vida e suas finalidades, sem modelos adredemente estabelecidos nem fórmulas simplistas de aplicação imediata.

Havendo falhado a tecnologia e a presunção científica em geral para tornar o homem feliz, ei-lo que se volta para Deus, a Fonte Inexaurível, e para o amor, Seu investimento maior, numa excelente proposta de autorrealização e de paz.

Começa a restauração da criatura, que se ergue do caos de uma civilização aturdida, sob esforços de superação imediata dos atavismos ante os acenos da felicidade.

Uma cultura trabalhada sobre o respeito à vida substituirá o estereótipo tradicional que fez do homem a cobaia para todos os experimentos.

Uma fé no futuro espiritual, numa religião comum a todos os homens, fundamentada nas experiências do intercâmbio dos Espíritos e da reencarnação como demonstra o Espiritismo, centralizada nos pontos essenciais de todas: Deus, imortalidade da alma, justiça divina, a oração e a caridade como expressão do amor aplicado na ação do bem.

Uma filosofia otimista, porque conhecedora do equilíbrio das leis que regem a vida e favorecem um comportamento ideal.

Evidentemente, há muito por fazer entre os escombros sociais e políticos, éticos, econômicos e humanos.

Os pioneiros da restauração, que testemunham a inabordável hecatombe moral da Era que passa, não poderão mensurar os recursos a serem aplicados na grande luta que já se trava em toda parte, conscientes de que iniciam a obra, mas os resultados pertencem ao futuro. Abrem espaços, preparam as mentes, despertam os indivíduos e atuam sem cansaço, ignorando sacrifícios e renúncias, bandeirantes do novo ciclo.

Não importem os investimentos que parecem não render valores creditáveis, que somente serão considerados mais tarde.

A semente jaz esquecida até o momento em que germina e responde com vida ao chamado da Vida.

Uma fímbria de tênue claridade na noite é vitória da luz sobre a treva.

Logo mais, na restauração, uma bandeira tremulará em toda parte, ao lado de todas: a da paz; um idioma se falará junto aos demais: o da fraternidade; um ideal se fará presente no meio dos outros: o do progresso; e uma religião única estabelecerá a ponte de união entre o homem e Deus: a do amor universal.

Paris, França, 01.11.1983.

Victor Hugo por Divaldo Franco do livro:
Seara do Bem

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quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Única alternativa

Única alternativa

Victor Hugo


O malogro da civilização contemporânea, sob o ponto de vista ético-moral, tem as suas raízes no abuso do pensamento racionalista e da ação exageradamente tecnológica, que pretenderam transformar o homem em uma máquina destituída de sentimentos, e a sociedade, como efeito, em um campo de operações sob controle remoto. Um novo mecanismo fisiologista irrompeu nesse contexto comportamental, deixando, à margem, os fenômenos psicológicos e espirituais do ser humano, responsáveis reais pela vida e suas manifestações.

O conteúdo moral do indivíduo, em relação ao próprio crescimento interior, à solidariedade e à paz, cedeu lugar ao utilitarismo hedonista e aos voos vertiginosos da agressividade, como recursos de defesa do indivíduo, da sua família, do seu patrimônio.

O olvido das questões espirituais, substituídas pelos compromissos sociais e desportivos, insensibilizou os centros da emoção em relação ao próximo e à busca permanente dos valores do espírito, engendrando a indiferença e a frieza em relação a Deus, à alma, à imortalidade.

Sem os suportes éticos da fé religiosa, embora estruturado na investigação científica e na análise da razão, o homem desnorteia-se, porquanto a vida inteligente se descaracteriza, vitimada pela exiguidade do tempo que medeia entre o berço e o túmulo.

É demasiadamente pequena a faixa existencial para cada ser, que se constituiria a partir da fecundação, extinguindo-se no momento em que ocorre a anoxia cerebral, e o pensamento, a energia pulsante se desintegrariam, retornando a vida ao caos.

A aglutinação das moléculas orgânicas, que obedece a um plano adrede estabelecido, para o qual a Natureza aplicou milhões de anos em um processo lento e progressista, demonstra a anterioridade de um psiquismo gerador e organizador da vida, que se aprimora cada vez mais, eliminando ou alterando a ordem dos fatores dissolventes, degenerativos.

O homem, por sua vez, se de outra forma fosse, não alcançaria o estágio em que se encontra, para ser facilmente destruído, nele se apagando todas as heranças ancestrais e aquisições contemporâneas.

Em tudo se faz presente um finalismo superior, que se inicia na organização dos elementos essenciais até o instante que, naturalmente, cessam as forças agregadoras, devolvendo-os às suas origens.

A energia central responsável pela ação que leva à forma, que vitaliza e age com interação nos campos de vida e fora deles, precede àquela ação e continua, mesmo quando, aparentemente, a mesma cessa.

E o fator primordial, indispensável à vida, que, ao adquirir inteligência, após individualizar-se, permanece granjeando mais amplos recursos que aplica na sua evolução, objetivando a meta fatalista do aperfeiçoamento.

O declínio da fé responsável, nas mentes e nos corações, substituída pelo formalismo e pelas injunções sociais, deixou árido o sentimento humano e indiferente o raciocínio para as questões espirituais, anulando-as por parecerem destituídas de sentido, abrindo espaços emocionais para o gozo sem limite, numa sofreguidão irrefreável.

Como consequência crescem o egoísmo, a insensibilidade afetiva, a insatisfação, a angústia, a insegurança e o medo, gerando carências superlativas, que armam os sentimentos com rebeldia, agressividade, luxúria, insensatez a caminho da loucura.

Os alicerces morais da sociedade ruem, e a decadência da civilização se apresenta inevitável.

Negam-se os valores morais dos homens e das Instituições, substituídos pelo individualismo, pelo poder de pessoas, de Agremiações e do Estado, em detrimento das conquistas elevadas do amor e da solidariedade, com os seus reflexos no bem-estar do homem e da sociedade.

Nesse contexto, o indivíduo progride na horizontal do imediatismo sem a resultante verticalista responsável pelo bem, pelo bom e pelo belo a benefício geral.

Os paradoxos se estabelecem propiciando o surgimento das sociedades ricas, pobres e miseráveis, que são habilmente denominadas como desenvolvidas, em desenvolvimento e subdesenvolvimento, esmagadas as últimas pela exagerada supremacia da primeira, que se alimenta nas carnes em decomposição daquelas, que se lhes exaurem nas garras arbitrárias.

Mesmo que, na aparência, a humanidade se encontre em paz, os conflitos irrompem, exagerados, denunciando a inquietação dos dominados e a insatisfação dos dominadores, que se arrojam nas justas íntimas, familiares, grupais, e, sucessivamente, ameaçando o mundo com guerras, cada vez mais destrutivas e impiedosas...

Em tal campo, todavia, encontravam-se as condições favoráveis para as mudanças que se ensaiam, qual ocorre em solo adubado por excremento, que, recebendo sementes selecionadas, em breve se converterá em jardim e pomar, ricos de bênçãos, alterando completamente a paisagem em abandono e desolação.

O mesmo se dá com a Humanidade contemporânea, que, exaurida e desnorteada, passa a buscar respostas mais profundas para os seus problemas, para as suas indagações, que se enraízam no espírito, e somente a partir dele poderão ser equacionadas.

Deste modo surgem, por sua vez, Movimentos esdrúxulos, na área do Espiritualismo, engendrados por mentes insanas, em que o absurdo confraterniza com o lógico, e o irreal, o fantasioso se abraça ao real e possível.

Simultaneamente, reaparecem as Doutrinas grandiosas da Imortalidade, alterando o convencionalismo e iluminando as consciências com a claridade da razão, responsável pela fé libertadora que dá sentido e direção a vida, equilibrando o homem e o auxiliando nos voos da inteligência e no crescimento do coração.

Face a nova conquista, o conceito de Deus, atualizado e compatível com a mentalidade hodierna, faculta o discernimento correto a respeito da existência humana, ensejando reformulações éticas e ideológicas que alterarão o comportamento da sociedade, então dirigido para a igualdade dos homens, a justiça e o bem-estar de todos, conforme os elevados ideais dos pensadores espiritualistas de todas as épocas, que em Jesus Cristo se refletem de forma incomum, pela excelência do Seu apostolado e pela inigualável grandeza da Sua vida.

Victor Hugo por Divaldo Franco do livro:
Antologia Espiritual

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domingo, 20 de setembro de 2020

A razão de ser do espiritismo

A razão de ser do espiritismo

Victor Hugo




Quando o obscurantismo da fé dominava as mentes, levando-as ao fanatismo desestruturador da dignidade e do comportamento; quando a cultura, enlouquecida pelas suas conquistas no campo da ciência de laboratório, proclamava a desnecessidade de qualquer preocupação com Deus e com a alma, face à fragilidade com que se apresentavam no proscênio do mundo; quando a filosofia divagava pelas múltiplas escolas do pensamento, cada qual mais arrebatadora e irresponsável, inculcando-se como portadora da verdade que liberta o ser humano de todos os atavismos e limitações; quando a arte rompia as ligações com o clássico, o romântico e a beleza convencional, para expressar-se em formulações modernistas, impressionistas, abstracionistas, traduzindo, ora a angústia da sua geração remanescente dos atavismos e limitações do passado, ora a ansiedade por diferentes paradigmas de afirmação da realidade; quando se tornavam necessários diversos comportamentos sociais e políticos para amenizar a desgraça moral e econômica que avassalava a Humanidade; quando a religião perdia o controle sobre as consciências e tentava rearticular-se para prosseguir com os métodos medievais ultramontanos e insuportáveis; quando as luzes e as sombras se alternavam na civilização, surgiu o Espiritismo com a sua razão de ser para promover o homem e a mulher, a vida e a imortalidade, o amor e o bem a níveis dantes jamais alcançados. 

Realizando uma revolução silenciosa como poucas jamais ocorridas na História, tornou-se poderosa alavanca para o soerguimento do ser humano, retirando-o do caos do materialismo a que se arrojara ou fora atirado sem a menor consideração, para que adquirisse a dignidade ética e cultural, fundamentada na identificação dos valores morais, indispensável para a identificação dos objetivos essenciais e insuperáveis da paz interna e da consciência de si mesmo durante o trânsito corporal. 

Logo depois, no College de France, proclamando ser Jesus um homem incomparável, no seu memorável discurso, o acadêmico e imortal Ernesto Renan confirmava, a seu turno, embora sem qualquer contato com a Doutrina nascente, a humanidade do Rabi galileu, rompendo a tradição dogmática do Homem Deus ou do ancestral Deus feito Homem

Sob a ação do escopro inexorável das informações de além túmulo, o decantado repouso ou punição eterna, o arbitrário julgamento mais punitivo que justiceiro, cediam lugar à consciência da vida exuberante que prossegue morte afora impondo a cada qual a responsabilidade pela conduta mantida durante a trajetória encerrada. 

As narrações da sobrevivência tocadas pela legitimidade dos fatos, fundamentadas na lógica da indestrutibilidade do ser espiritual, davam colorido diferente às paisagens da Eternidade, diluindo as fantasias e mitos que as adornaram por diversos milênios. 

Permitiu que o ser humano se redescobrisse como Espírito imortal que é, preexistente ao berço e sobrevivente ao túmulo, facultando-lhe compreender a finalidade existencial, que é imergir no oceano do inconsciente, onde dormem os atos pretéritos e as construções que projetam diretrizes para o momento e o futuro, a fim de diluir as volumosas barreiras de sombra e de crueldade a que se entregou e que lhe obnubila a compreensão da sua realidade, emergindo em triunfo, para que lobrigue a imarcescível luz da verdade que o há de conduzir pelos infinitos roteiros do porvir. 

Intoxicado pelos vapores da organização fisiológica, mergulhado em sombras que lhe impedem o discernimento, vagando pelos dédalos intérminos da busca da realidade, somente ao preço da fé raciocinada e lógica, portadora dos instrumentos que se derivam dos fatos constatados, o homem e a mulher podem avançar com destemor pelas trilhas dos sofrimentos inevitáveis, que são inerentes à sua condição de humanidade, vislumbrando níveis mais nobres que devem ser conquistados. 

O Espiritismo traçou novos programas para a compreensão da vida e a mais eficaz maneira de enfrenta-la, desafiando o materialismo no seu reduto e os materialistas no seu cepticismo, oferecendo-lhes mais seguras propostas de comportamento para a felicidade ante as vicissitudes do processo existencial. 

Não se compadecendo da presunção dos vazios de sentimento e soberbos de conhecimentos em ebulição de ideias, demonstrou a sua força arrastando desesperados que foram confortados, violentos que se acalmaram, alucinados que recuperaram a razão, delinquentes que volveram ao culto do dever, perversos que se transformaram, ateus que fizeram as pazes com Deus, ingratos que se reabilitaram perante os seus benfeitores, miseráveis morais que se enriqueceram de esperança e de alegria de viver, construindo juntos o mundo de bem-estar por todos anelado. 

O Espiritismo trouxe a perfeita mensagem da justiça divina, por enquanto mal traduzida pela consciência humana, contribuindo para a transformação da sociedade, mas sem a revolução sangrenta das paixões em predomínio, que sempre impõe uma classe poderosa sobre as outras que são debilitadas à medida que vão sendo extorquidos os seus parcos recursos até a exaustão das suas forças, quando novas revoluções do mesmo gênero explodem, produzindo desgraça e ódios que nunca terminam... 

Trabalhando a transformação moral do indivíduo, propõe-lhe o comportamento solidário e fraternal, a aplicação da justiça corretiva e reeducativa quando delinqui, conscientizando-o de que as suas ações serão também os seus juízes e que não fugirá de si mesmo onde quer que vá. 

Todo esse contributo moral foi retirado do Evangelho de Jesus, especialmente do Seu Sermão da montanha, no qual reformulou os valores humanos até então aceitos, demonstrando que forte não é o vencedor de fora, mas aquele que vence a si mesmo, e poderoso, no seu sentido profundo, não é aquele que mata corpos, mas não é capaz de evitar a própria morte. 

Revolucionando o pensamento ético e abrindo espaço para novo comportamento filosófico, a Sua palavra vibrante e a Sua vivência inigualável, colocaram as pedras básicas para o Espiritismo no futuro alicerçar, conforme ocorreu, os seus postulados morais através da ética do amor sob qualquer ponto de vista considerado. 

Nos acampamentos de lutas que se estabeleciam no Século XIX, quando a ciência e a razão enfrentavam a fé cega e a prepotência das Academias e dos seus membros fascinados como Narciso por si mesmo, o Espiritismo surgiu como débil claridade na noite das ambições perturbadoras e lentamente se afirmou como amanhecer de um novo dia para a Humanidade já cansada de aberrações de conduta como fugas da realidade e sonhos de poder transitório, transformados em pesadelos de guerras infames, cujas sequelas ainda se demoram trucidando vidas e dilacerando sentimentos. 

A razão de ser do Espiritismo encontra-se na sua estrutura doutrinária, diversificada nos seus aspectos de investigação científica ao lado das demais correntes da ciência, do comportamento filosófico com a sua escola otimista e realista para o enfrentamento do ser consigo mesmo e da vivência ético-moral-religiosa que se estrutura em Deus, na imortalidade, na justiça divina, na oração, na ação do bem e sobretudo do amor, única psicoterapia preventiva-curativa à disposição da Humanidade atual e do futuro.

Psicografia de Divaldo Franco, no dia 07/06/2001, em Paris, França.

Victor Hugo por Divaldo Franco do livro:
Compromissos de Amor / Jornal Mundo Espírita de novembro de 2001.

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Significado do desenho da Cepa Espírita na foto:

Histórico

Por ocasião dos estudos e pesquisas iniciais da Revelação Espírita, e já em trabalho de lançar O Livro dos Espíritos, o codificador espírita recebeu uma comunicação mediúnica (a identidade do médium é desconhecida), assinada por várias entidades espirituais, cujo texto seria utilizado dentro do prefácio da obra, intitulado "Prolegômenos". No ínterim desta comunicação, um parágrafo assim se expressa:

"Coloca no cabeçalho do livro a cepa que te desenhamos, porque é o emblema do trabalho do Criador. Aí se acham reunidos todos os princípios materiais que melhor podem representar o corpo e o espírito. O corpo é o tronco; o espírito é o licor; a alma ou espírito ligado à matéria é o bago. O homem purifica o espírito pelo trabalho e tu sabes que só mediante o trabalho do corpo é que o Espírito adquire conhecimentos."
De fato, em anexo àquela mensagem, os Espíritos enviaram um desenho, de autoria da espiritualidade (psicopictografia), conforme Kardec assegurou, através da nota de rodapé posta na página seguinte à reprodução da imagem: "A cepa que se vê na página anterior é o fac-símile da que os Espíritos desenharam."

Significado do desenho

Bem como a própria comunicação explica, o desenho é uma representação gráfica do trabalho de Deus — ou seja, a Criação. Embora pareça ilustrar especificamente a criação dos Espíritos (os seres inteligentes, indivíduos, pessoas), não deixa de representar também o princípio material (da qual se originam os corpos físicos, substâncias, planetas etc.), ao se referir ao "corpo", assim como o termo "espírito" pode representar o princípio espiritual (do qual se originam as individualidades, ou seja, os Espíritos).

O galho da videira (que dá sustentação aos frutos) significa a forma física, quer dizer, o corpo humano, pois é esse envoltório físico que possibilita a manifestação do Espírito no mundo material. O licor da uva (a essência, o líquido que contém o sabor) significa o Espírito, pois este é a própria essência do Ser, a consciência, o indivíduo. O bago, ou seja, a uva, a parte carnosa que contém o licor, é a representação da alma (Espírito encarnado), da ligação entre o Espírito e o organismo físico, intermediada pelo perispírito.
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sábado, 14 de dezembro de 2019

Alcoolismo

Alcoolismo

Victor Hugo




Sem nos determos no exame dos fatores sóciopsicológicos causais do alcoolismo generalizado, de duas ordens são as engrenagens que o desencadeiam, observado o problema do ponto de vista espiritual.

Antigos viciados e dependentes do álcool, em desencarnando não se liberam do hábito, antes sofrendo-lhe mais rude imposição.

Prosseguindo a vida, embora a ausência do corpo, os vícios continuam vigorosos, jungindo os que a eles se aferraram a uma necessidade enlouquecedora. Atônitos e sedentos, alcoólatras desencarnados se vinculam às mentes irresponsáveis, de que se utilizam para dar larga à continuação do falso prazer, empurrando-os, a pouco e pouco, do aperitivo tido como inocente ao lamentável estado de embriaguez. Os que lhes caem nas malhas, tomam-se, por isso mesmo, verdadeiros recipientes por meio dos quais absorvem os vapores deletérios, caindo, também, em total desequilíbrio, até quando a morte advém à vítima, ou as Soberanas Leis os recambiam à matéria, que padecerá das dolorosas injunções constritoras que lhe impõe o corpo perispiritual...

Normalmente, quando reencarnados, os antigos viciados recomeçam a atividade mórbida, servindo, a seu turno, de instrumento do gozo infeliz, para os que se demoram na Erraticidade inferior...

Outras vezes, os adversários espirituais, na execução de uma programática de desforço pelo ódio, induzem os seus antigos desafetos à iniciação alcoólica, mediante pequenas doses, com as quais no transcurso do tempo os conduzem à obsessão, desorganizando-lhes a aparelhagem fisiopsíquica e dominando-os totalmente. No estado de alcoolismo faz-se muito difícil a recomposição do paciente, dele exigindo um esforço muito grande para a recuperação da sanidade.

Não se afastando a causa espiritual, torna-se menos provável a libertação, desde que, cessados os efeitos de quaisquer terapêuticas acadêmicas, a influência psíquica se manifesta, insidiosa, repetindo-se a lamentável façanha destruidora...

A obsessão, através do alcoolismo, é mais generalizada do que parece. Num contexto social permissivo, o vício da ingestão de alcoólicos toma-se expressão de status, atestando a decadência de um período histórico que passa lento e doído.

Pelos idos de 1851, porque enxameassem os problemas derivados da alcoolofilia, Magno Huss realizou, por vez primeira, um estudo acurado da questão, promovendo um levantamento dos danos causados no indivíduo e alertando as autoridades para as consequências que produz na sociedade.

Os que tombam na urdidura alcoólica, justificam-lhe o estranho prazer, que de início lhes aguça a inteligência, faculta-lhes sensações agradáveis, liberando-os dos traumas e receios, sem se darem conta de que tal estado é fruto das excitações produzidas no aparelho circulatório, respiratório com elevação da temperatura para, logo mais, produzir o nublar da lucidez, a alucinação, o desaparecimento do equilíbrio normal dos movimentos...

Inevitavelmente, o viciado sofre uma congestão cerebral intensa ou experimenta os dolorosos estados convulsivos, que se tomam perfeitos delírios epilépticos, dando margem a distúrbios outros: digestivos, circulatórios, nervosos que podem produzir lesões irreversíveis, graves.

A dependência e continuidade do vício conduz ao delirium tremens, resultante da cronicidade do alcoolismo, gerando psicoses, alucinações várias que culminam no suicídio, no homicídio, na loucura irrecuperável.

Mesmo em tal caso, a constrição obsessiva segue o seu curso lamentável, já que, não obstante destrambelhadas as aparelhagens do corpo, o espírito encarnado continua a ser dominado pelos seus algozes impenitentes em justas de difícil narração...

Além dos danos sociais que o alcoolismo produz, engendrando a perturbação da ordem, a queda da natalidade, a incidência de crimes vários, a decadência econômica e moral, é enfermidade espiritual que o vero Cristianismo erradicará da Terra, quando a moral evangélica legítima substituir a débil moral social, conveniente e torpe.

Ao Espiritismo cumpre o dever de realizar a psicoterapia valiosa junto a tais enfermos e, principalmente, a medida preventiva pelos ensinos corretos de como viver-se em atitude consentânea com as diretrizes da Vida Maior.

Victor Hugo por Divaldo Franco
Trecho extraído do livro:
 Calvário de Libertação

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