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domingo, 20 de setembro de 2020

A razão de ser do espiritismo

A razão de ser do espiritismo

Victor Hugo




Quando o obscurantismo da fé dominava as mentes, levando-as ao fanatismo desestruturador da dignidade e do comportamento; quando a cultura, enlouquecida pelas suas conquistas no campo da ciência de laboratório, proclamava a desnecessidade de qualquer preocupação com Deus e com a alma, face à fragilidade com que se apresentavam no proscênio do mundo; quando a filosofia divagava pelas múltiplas escolas do pensamento, cada qual mais arrebatadora e irresponsável, inculcando-se como portadora da verdade que liberta o ser humano de todos os atavismos e limitações; quando a arte rompia as ligações com o clássico, o romântico e a beleza convencional, para expressar-se em formulações modernistas, impressionistas, abstracionistas, traduzindo, ora a angústia da sua geração remanescente dos atavismos e limitações do passado, ora a ansiedade por diferentes paradigmas de afirmação da realidade; quando se tornavam necessários diversos comportamentos sociais e políticos para amenizar a desgraça moral e econômica que avassalava a Humanidade; quando a religião perdia o controle sobre as consciências e tentava rearticular-se para prosseguir com os métodos medievais ultramontanos e insuportáveis; quando as luzes e as sombras se alternavam na civilização, surgiu o Espiritismo com a sua razão de ser para promover o homem e a mulher, a vida e a imortalidade, o amor e o bem a níveis dantes jamais alcançados. 

Realizando uma revolução silenciosa como poucas jamais ocorridas na História, tornou-se poderosa alavanca para o soerguimento do ser humano, retirando-o do caos do materialismo a que se arrojara ou fora atirado sem a menor consideração, para que adquirisse a dignidade ética e cultural, fundamentada na identificação dos valores morais, indispensável para a identificação dos objetivos essenciais e insuperáveis da paz interna e da consciência de si mesmo durante o trânsito corporal. 

Logo depois, no College de France, proclamando ser Jesus um homem incomparável, no seu memorável discurso, o acadêmico e imortal Ernesto Renan confirmava, a seu turno, embora sem qualquer contato com a Doutrina nascente, a humanidade do Rabi galileu, rompendo a tradição dogmática do Homem Deus ou do ancestral Deus feito Homem

Sob a ação do escopro inexorável das informações de além túmulo, o decantado repouso ou punição eterna, o arbitrário julgamento mais punitivo que justiceiro, cediam lugar à consciência da vida exuberante que prossegue morte afora impondo a cada qual a responsabilidade pela conduta mantida durante a trajetória encerrada. 

As narrações da sobrevivência tocadas pela legitimidade dos fatos, fundamentadas na lógica da indestrutibilidade do ser espiritual, davam colorido diferente às paisagens da Eternidade, diluindo as fantasias e mitos que as adornaram por diversos milênios. 

Permitiu que o ser humano se redescobrisse como Espírito imortal que é, preexistente ao berço e sobrevivente ao túmulo, facultando-lhe compreender a finalidade existencial, que é imergir no oceano do inconsciente, onde dormem os atos pretéritos e as construções que projetam diretrizes para o momento e o futuro, a fim de diluir as volumosas barreiras de sombra e de crueldade a que se entregou e que lhe obnubila a compreensão da sua realidade, emergindo em triunfo, para que lobrigue a imarcescível luz da verdade que o há de conduzir pelos infinitos roteiros do porvir. 

Intoxicado pelos vapores da organização fisiológica, mergulhado em sombras que lhe impedem o discernimento, vagando pelos dédalos intérminos da busca da realidade, somente ao preço da fé raciocinada e lógica, portadora dos instrumentos que se derivam dos fatos constatados, o homem e a mulher podem avançar com destemor pelas trilhas dos sofrimentos inevitáveis, que são inerentes à sua condição de humanidade, vislumbrando níveis mais nobres que devem ser conquistados. 

O Espiritismo traçou novos programas para a compreensão da vida e a mais eficaz maneira de enfrenta-la, desafiando o materialismo no seu reduto e os materialistas no seu cepticismo, oferecendo-lhes mais seguras propostas de comportamento para a felicidade ante as vicissitudes do processo existencial. 

Não se compadecendo da presunção dos vazios de sentimento e soberbos de conhecimentos em ebulição de ideias, demonstrou a sua força arrastando desesperados que foram confortados, violentos que se acalmaram, alucinados que recuperaram a razão, delinquentes que volveram ao culto do dever, perversos que se transformaram, ateus que fizeram as pazes com Deus, ingratos que se reabilitaram perante os seus benfeitores, miseráveis morais que se enriqueceram de esperança e de alegria de viver, construindo juntos o mundo de bem-estar por todos anelado. 

O Espiritismo trouxe a perfeita mensagem da justiça divina, por enquanto mal traduzida pela consciência humana, contribuindo para a transformação da sociedade, mas sem a revolução sangrenta das paixões em predomínio, que sempre impõe uma classe poderosa sobre as outras que são debilitadas à medida que vão sendo extorquidos os seus parcos recursos até a exaustão das suas forças, quando novas revoluções do mesmo gênero explodem, produzindo desgraça e ódios que nunca terminam... 

Trabalhando a transformação moral do indivíduo, propõe-lhe o comportamento solidário e fraternal, a aplicação da justiça corretiva e reeducativa quando delinqui, conscientizando-o de que as suas ações serão também os seus juízes e que não fugirá de si mesmo onde quer que vá. 

Todo esse contributo moral foi retirado do Evangelho de Jesus, especialmente do Seu Sermão da montanha, no qual reformulou os valores humanos até então aceitos, demonstrando que forte não é o vencedor de fora, mas aquele que vence a si mesmo, e poderoso, no seu sentido profundo, não é aquele que mata corpos, mas não é capaz de evitar a própria morte. 

Revolucionando o pensamento ético e abrindo espaço para novo comportamento filosófico, a Sua palavra vibrante e a Sua vivência inigualável, colocaram as pedras básicas para o Espiritismo no futuro alicerçar, conforme ocorreu, os seus postulados morais através da ética do amor sob qualquer ponto de vista considerado. 

Nos acampamentos de lutas que se estabeleciam no Século XIX, quando a ciência e a razão enfrentavam a fé cega e a prepotência das Academias e dos seus membros fascinados como Narciso por si mesmo, o Espiritismo surgiu como débil claridade na noite das ambições perturbadoras e lentamente se afirmou como amanhecer de um novo dia para a Humanidade já cansada de aberrações de conduta como fugas da realidade e sonhos de poder transitório, transformados em pesadelos de guerras infames, cujas sequelas ainda se demoram trucidando vidas e dilacerando sentimentos. 

A razão de ser do Espiritismo encontra-se na sua estrutura doutrinária, diversificada nos seus aspectos de investigação científica ao lado das demais correntes da ciência, do comportamento filosófico com a sua escola otimista e realista para o enfrentamento do ser consigo mesmo e da vivência ético-moral-religiosa que se estrutura em Deus, na imortalidade, na justiça divina, na oração, na ação do bem e sobretudo do amor, única psicoterapia preventiva-curativa à disposição da Humanidade atual e do futuro.

Psicografia de Divaldo Franco, no dia 07/06/2001, em Paris, França.

Victor Hugo por Divaldo Franco do livro:
Compromissos de Amor / Jornal Mundo Espírita de novembro de 2001.

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Significado do desenho da Cepa Espírita na foto:

Histórico

Por ocasião dos estudos e pesquisas iniciais da Revelação Espírita, e já em trabalho de lançar O Livro dos Espíritos, o codificador espírita recebeu uma comunicação mediúnica (a identidade do médium é desconhecida), assinada por várias entidades espirituais, cujo texto seria utilizado dentro do prefácio da obra, intitulado "Prolegômenos". No ínterim desta comunicação, um parágrafo assim se expressa:

"Coloca no cabeçalho do livro a cepa que te desenhamos, porque é o emblema do trabalho do Criador. Aí se acham reunidos todos os princípios materiais que melhor podem representar o corpo e o espírito. O corpo é o tronco; o espírito é o licor; a alma ou espírito ligado à matéria é o bago. O homem purifica o espírito pelo trabalho e tu sabes que só mediante o trabalho do corpo é que o Espírito adquire conhecimentos."
De fato, em anexo àquela mensagem, os Espíritos enviaram um desenho, de autoria da espiritualidade (psicopictografia), conforme Kardec assegurou, através da nota de rodapé posta na página seguinte à reprodução da imagem: "A cepa que se vê na página anterior é o fac-símile da que os Espíritos desenharam."

Significado do desenho

Bem como a própria comunicação explica, o desenho é uma representação gráfica do trabalho de Deus — ou seja, a Criação. Embora pareça ilustrar especificamente a criação dos Espíritos (os seres inteligentes, indivíduos, pessoas), não deixa de representar também o princípio material (da qual se originam os corpos físicos, substâncias, planetas etc.), ao se referir ao "corpo", assim como o termo "espírito" pode representar o princípio espiritual (do qual se originam as individualidades, ou seja, os Espíritos).

O galho da videira (que dá sustentação aos frutos) significa a forma física, quer dizer, o corpo humano, pois é esse envoltório físico que possibilita a manifestação do Espírito no mundo material. O licor da uva (a essência, o líquido que contém o sabor) significa o Espírito, pois este é a própria essência do Ser, a consciência, o indivíduo. O bago, ou seja, a uva, a parte carnosa que contém o licor, é a representação da alma (Espírito encarnado), da ligação entre o Espírito e o organismo físico, intermediada pelo perispírito.
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quinta-feira, 26 de março de 2020

Terrorismo de natureza mediúnica

Terrorismo de natureza mediúnica

Vianna de Carvalho



Sutilmente vai se popularizando uma forma lamentável de revelação mediúnica, valorizando as questões perturbadoras que devem receber tratamento especial, ao invés de divulgação popularesca de caráter apocalíptico.

Existe um atavismo no comportamento humano em torno do Deus temor que Jesus desmistificou, demonstrando que o Pai é todo Amor, e que o Espiritismo confirma através das suas excelentes propostas filosóficas e ético-morais, o qual deve ser examinado com imparcialidade.

Doutrina fundamentada em fatos, estudada pela razão e lógica, não admite em suas formulações esclarecedoras quaisquer tipos de superstições, que lhe tisnariam a limpidez dos conteúdos relevantes, muito menos ameaças que a imponham pelo temor, como é habitual em outros segmentos religiosos.

Durante alguns milênios o medo fez parte da divulgação do Bem, impondo vinganças celestes e desgraças a todos aqueles que discrepassem dos seus postulados, castrando a liberdade de pensamento e submetendo ao tacão da ignorância e do primitivismo cultural as mentes mais lúcidas e avançadas...

O Espiritismo é ciência que investiga e somente considera aquilo que pode ser confirmado em laboratório, que tenha caráter de revelação universal, portanto, sempre livre para a aceitação ou não por aqueles que buscam conhecer-lhe os ensinamentos. 

Igualmente é filosofia que esclarece e jamais apavora, explicando, através da Lei de Causa e Efeito, quem somos, de onde viemos, para onde vamos, porque sofremos, quais são as razões das penas e das amarguras humanas... De igual maneira, a sua ética-moral é totalmente fundamentada nos ensinamentos de Jesus, conforme Ele os enunciou e os viveu, proporcionando a religiosidade que integra a criatura na ternura do seu Criador, sendo de simples e fácil formulação.

Jamais se utiliza das tradições míticas greco-romanas, quais das Parcas, sempre tecendo tragédias para os seres humanos, ou de outras quaisquer remanescentes das religiões ortodoxas decadentes, algumas das quais hoje estão reformuladas na apresentação, mantendo, porém, os mesmos conteúdos ameaçadores.

De maneira sistemática e contínua, vêm-se tornando comuns algumas pseudos-revelações alarmantes, substituindo as figuras mitológicas de Satanás, do Diabo, do Inferno, do Purgatório, por Dragões, Organizações demoníacas, regiões punitivas atemorizantes, em detrimento do amor e da misericórdia de Deus que vigem em toda parte.

Certamente existem personificações do Mal além das fronteiras físicas, que se comprazem em afligir as criaturas descuidadas, assim como lugares de purificação depois das fronteiras de cinza do corpo somático, todos, no entanto, transitórios, como ensaios para a aprendizagem do Bem e sua fixação nos painéis da mente e do comportamento.

O Espiritismo ressuscita a esperança e amplia os horizontes do conhecimento exatamente para facultar ao ser humano o entendimento a respeito da vida e de como comportar-se dignamente ante as situações dolorosas.

As suas revelações objetivam esclarecer as mentes, retirando a névoa da ignorância que ainda permanece impedindo o discernimento de muitas pessoas em torno dos objetivos essenciais da existência carnal.

Da mesma forma como não se deve enganar os candidatos ao estudo espírita, a respeito das regiões celestes que os aguardam, desbordando em fantasias infantis, não é correto derrapar nas ameaças em torno de fetiches, magias e soluções miraculosas para os problemas humanos, recorrendo-se ao animismo africanista, de diversos povos e às suas superstições. No passado, em pleno período medieval, as crenças em torno dos fenômenos mediúnicos revestiam-se de místicas e de cerimônias cabalísticas, propondo a libertação dos incautos e perversos das situações perniciosas em que transitavam.

O Espiritismo, iluminando as trevas que permanecem dominando incontáveis mentes, desvela o futuro que a todos aguarda, rico de bênçãos e de oportunidades de crescimento intelecto-moral, oferecendo os instrumentos hábeis para o êxito em todos os cometimentos.

A sua psicologia é fértil de lições libertadoras dos conflitos que remanescem das existências passadas, de terapêuticas especiais para o enfrentamento com os adversários espirituais que procedem do ontem perturbador, de recursos simples e de fácil aplicação.

A simples mudança mental pra melhor proporciona ao indivíduo a conquista do equilíbrio perdido, facultando-lhe a adoção de comportamentos saudáveis que se encontram exarados em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, verdadeiro tratado de eficiente psicoterapia ao alcance de todos que se interessem pela conquista da saúde integral e da alegria de viver.

Após a façanha de haver matado a morte, o conhecimento do Espiritismo faculta a perfeita integração da criatura com a sociedade, vivendo de maneira harmônica em todo momento, onde quer que se encontre, liberada de receios injustificáveis e sintonizada com as bênçãos que defluem da misericórdia divina.

A mediunidade, desse modo, a serviço de Jesus, é veículo de luz, de seriedade, dignificando o seu instrumento e enriquecendo de esperança e de felicidade todos aqueles que se lhe acercam.

Jamais a mediunidade séria estará a serviço dos Espíritos zombeteiros, levianos, críticos, contumazes de tudo e de todos que não anuem com as suas informações vulgares, devendo tornar-se instrumento de conforto moral e de instrução grave, trabalhando a construção de mulheres e de homens sérios que se fascinem com o Espiritismo e tornem as suas existências úteis e enobrecidas.

Esses Espíritos burlões e pseudos-sábios devem ser esclarecidos e orientados à mudança de comportamento, depois de demonstrado que não lhes obedecemos, nem lhes aceitamos as sugestões doentias, mentirosas e apavorantes com as histórias infantis sobre as catástrofes que sempre existiram, com as informações sobre o fim do mundo, com as tramas intérminas a que se entregam para seduzir e conduzir os ingênuos que se lhes submetem facilmente...

O conhecimento real do Espiritismo é o antídoto para essa onda de revelações atemorizantes, que se espalha como um bafio pestilencial, tentando mesclar-se aos paradigmas espíritas que demonstraram desde o seu surgimento a legitimidade de que são portadores, confirmando o Consolador que Jesus prometeu aos seus discípulos e se materializou na incomparável Doutrina.

Ante informações mediúnicas desastrosas ou sublimes, um método eficaz existe para a avaliação correta em torno da sua legitimidade, que é a universalidade do ensino,  conforme estabeleceu o preclaro Codificador.

Desse modo, utilizando-se da caridade como guia, da oração como instrumento de iluminação e do conhecimento como recurso de libertação, os adeptos sinceros do Espiritismo não se devem deixar influenciar pelo moderno terrorismo de natureza mediúnica, encarregado de amedrontar, quando o objetivo máximo da Doutrina é libertar os seus adeptos, a fim de os tornar felizes.

Página psicografada no dia 7 de dezembro de 2009, durante o XVII Congresso Espírita Nacional, em Calpe, Espanha.

Vianna de Carvalho por Divaldo Franco do  livro:
Compromissos de Amor / Revista Reformador Mar. 2010.

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Revista Reformador Mar. 2010.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A lição do semeador

A lição do semeador

Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf


(Quadro: O semeador - Vincent Van Gogh)
Ulverson Olsson era um homem portador de caráter especial, que se tornara indiferente ao bem, afirmando que ninguém realizava qualquer coisa de útil, que não mantivesse sob disfarce os interesses inescrupulosos dos desejos egoísticos.

Nascera num lar abastado de família tradicional e a ociosidade dele fizera um fútil, destituído dos sentimentos superiores de solidariedade e de amor.

Nos seus comentários ácidos sempre destilava pessimismo, a soldo de um comportamento cínico e destruidor.

Zombava da ingenuidade de Nils Holgersson e da pata Abba de Kebnekaise em sua viagem fantástica pelas fronteiras da Suécia demarcando as regiões, reduzindo todos os atos de amor a lendas e fantasias da imaginação de pessoas que considerava servis…

Tendo visitado a Lapônia (Lapplandis lãn) desconsiderava as tradições e as heranças místicas do seu nobre povo, lamentando não haver nascido na formosa região, onde os gênios e as fadas confraternizam com as criaturas vegetais, animais e humanas, para ter o prazer de as negar.

Como a sua existência era ociosa, viajava, quase sem cessar, a fim de apaziguar o vazio interior, que resultava da falta de objetivos elevados com que a existência humana se torna digna e formosa.

Insensível ao amor, comprometera-se intimamente gratificar qualquer pessoa cujos gestos de abnegação fossem destituídos de ambições egotistas.

Mesmo quando se referia a Jesus, em cuja doutrina fora educado, recusava-se a render-se ao Amor capaz de apaziguar todas as inquietações com a doçura do Seu olhar, com a musicalidade da Sua voz e com a inefável bondade do Seu coração.

Nesse tormento, fizera-se solitário e, porque não dizer, infeliz.

A felicidade é filha predileta do sentimento dos deveres tranquilamente cumpridos, mas Ulverson, distanciado do trabalho de solidariedade humana, não atendia a compromissos morais relevantes, nem desempenhava atividades que lhe exalçassem o caráter.

Nem mesmo as doces criancinhas conseguiam arrancar-lhe um sorriso de carinho ou um gesto afetuoso.

Dizia que se tratava de seres desagradáveis, e que, ingênuas na infância iam crescer depois, tornando-se arrogantes e desagradáveis quando adolescentes e adultos...

Parecia a figueira que secou, a grave lição apresentada por Jesus, no Seu Evangelho, como ensinamento profundo a respeito da produção que tudo e todos devem cumprir.

O seu mau humor tornara-o uma pessoa indelicada e desagradável.

A vida humana é rica de oportunidades para amar-se e confraternizar-se, espalhando alegrias e produzindo bem-estar.

Existem muitos corações afetuosos que perderam o rumo e, semelhantes a embarcações sem leme, navegam à matroca, correndo riscos numerosos.

Também são incontáveis aqueles que experimentam sofrimento e solidão, por não encontrarem uma palavra de amizade ou de compreensão, ajuda fraternal e entendimento, capazes de diminuir-lhes as culpas, os conflitos, as aflições pessoais...

Toda vez quando alguém se resolve por ajudar outrem, torna-se melhor, descobre o valor da existência e enriquece-se de alegria.

Não era o caso de Olsson, o viajante desencantado de si mesmo.

Numa das viagens, enquanto caminhava triste, observou um homem de avançada idade, que plantava pinheiros… Silenciosamente, cavava o buraco na verde relva e colocava uma semente, cobria-a e seguia adiante.

Parecia cansado, vergado ao peso dos anos, mas o semblante apresentava um sorriso jovial e encantador.

Tudo nele denotava a presença da felicidade, que nascia nas fibras delicadas do amor.

O rosto se encontrava iluminado por um sorriso gentil.

Quando Olsson o viu, sentiu-se estranhamente atraído pelo semeador, a quem interrogou:

- Essas terras lhe pertencem, considerando-se que o senhor está plantando essas pináceas que crescem lentamente e que a sua idade não lhe permitirá vê-las grandiosas?

- Não, não me pertencem essas terras. São da comunidade e delas cuido para que permaneçam exuberantes em decorrência das árvores nelas plantadas e replantadas.

- Certamente não as verei adultas e belas. Mas isso, para mim, não é importante, porque todas essas que existem a volta, não fui eu quem as plantou, e aqui estão oferecendo-nos madeira, sombra, beleza, mantendo a natureza em triunfo…

Ele fez uma pausa, e logo prosseguiu:

- Quando eu era jovem, plantava legumes porque podia alimentar-me deles pouco tempo depois. Com o tempo ocorreu-me plantar árvores…

- E o que o senhor ganha com isso? – interrompeu-o, desconfiado.

- Ganho a alegria de semear. Recordo-me que muito antes de mim, houve Alguém que semeou vidas para todo o sempre. Mesmo quem planta árvores pensa em acolher-se na sua sombra, o que não é o meu caso, mas quem planta vidas, semeia para a eternidade, sem esperar qualquer recompensa. Foi o que fez Jesus…

- Nunca devemos semear esperando a colheita por nós mesmos, mas por todos aqueles que virão depois.

- Não espera nenhuma compensação?

- Sim, o prazer de semear, de plantar beleza, de participar da vida.

Emocionado, pela primeira vez, Ulverson Olsson, saltou do animal e acercando-se do ancião, disse-lhe com inusitada alegria:

- Permita-me plantar árvores com você e cuidar da sua vida, porque sou jovem e cheio de energias.

- Como Alguém plantou vidas, espero que Ele aceite que eu seja cuidador também da vida que Ele semeou.

A partir dali, em face da lição do semeador, Ulverson fez-se, também, semeador de esperança, de alegria, de paz, de árvores e de vidas…

Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf por  Divaldo Franco, 
Na noite de 28 de maio de 2008, em Estocolmo, Suécia.

Publicado nos livros:
A lição do semeador / Compromissos de Amor 



Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf
(20/11/1858 - 16/03/1940) 
Foi uma escritora sueca, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1909. 

Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a ser membro da Academia Sueca, em 1914.

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sábado, 29 de setembro de 2018

Oração à Pátria brasileira

Oração à Pátria brasileira

Deodoro da Fonseca




Pátria brasileira!                  

Abençoada pela fulgurante luz das estrelas do Cruzeiro do Sul, estás programada pelo Senhor da Vida para que sejas, em futuro não distante, o centro de irradiação do Evangelho restaurado.

Enquanto a Humanidade sofre a noite terrível que se abate sobre a Terra, e tu experimentas, solo verdejante, a sombra dominadora do descalabro moral dos homens, na Consciência Cósmica, que te gerou, estão definidos os desafios e rumos para que logres as tuas conquistas em futuro próximo.

Dormem, nas montanhas em que te apoias e na intimidade das águas oceânicas do Atlântico, que te banha de norte a sul, tesouros inimagináveis que te destacarão mais tarde no concerto econômico das grandes nações.

Embora a conspiração deste momento contra as tuas matas grandiosas, sobreviverás às ambições desconcertantes de madeireiros, pecuaristas e agricultores desalmados, e dos conciliábulos nefandos que lutam pela destruição da tua Amazônia, que permanecerá como o último pulmão da Terra, sustentando a sociedade que hoje se encontra sem rumo.

Padeces, na conjuntura atual, a sistemática desagregação dos valores ético-morais, políticos e emocionais, os mesmos que abalam o mundo, mas esses transitórios violadores do dever passarão, enquanto persistirá a tua destinação histórica, Pátria do porvir!

Conseguiste libertar-te da mancha cruel da escravidão em etapas contínuas, que culminaram no gesto audaz da tua filha, que não teve pejo de,  na ausência do pai, pôr fim ao abuso da exploração impiedosa do negro, também teu filho, no eito terrível e hediondo da perversidade.

Logo depois, já livre do jugo da pátria-mãe que te humilhava, pondo-te em subalterna situação, aspiraste por voos mais altos, que um dia se transformaram em liberdades democráticas que sorriram para ti, e o teu pavilhão verde, azul e amarelo tremulou, numa república, que a partir de então podia compartilhar do banquete internacional realizado pelos povos livres da Terra.

É certo que ainda estertoras, neste momento de desafios, quando a cultura cambaleia, a ética desfalece, a moral se perverte e os direitos humanos esquecidos são postos à margem pelos dominadores ignorantes de um dia.

Tu, porém, sobreviverás a toda essa desdita, Brasil!

Compreende, neste momento, a desenfreada manobra dos manipuladores da opinião pública e a daqueles que te dilapidam os valores, transferindo-os para os paraísos fiscais da ignomínia e da insensatez, porque esse hediondo crime contra tua economia e os milhões de vidas será de duração efêmera. Eles morrerão deixando tudo em contas secretas, em aplicações de que jamais se utilizarão.

Enquanto isso ocorre, gemem em teu solo os filhos da miséria, ocultos nos escombros do abandono.

As tuas vielas, ruas e avenidas nos pequenos burgos do interior, nas metrópoles, veem e sofrem, inermes, a desenfreada correria da violência que se atrela ao selvagem potro da morte, dizimando vidas, taladas em pleno alvorecer.

Paga, porém, em paciência e compaixão o preço da tua destinação histórica, na tua condição de futura pátria da paz e do Evangelho de Jesus.

Isto passará, e logo depois da noite sombria, uma aurora de esperanças irá colocar-te no lugar que te está reservado, quando poderás oferecer lições de misericórdia e de solidariedade ao mundo que não perdoa, tu que te apresentas em forma de um grande coração, simbolizando a afabilidade e a doçura.

Oro por ti, Brasil, e por vós, brasileiras e brasileiros, na condição de filho que também, sou da terra iluminada pela constelação do Cruzeiro do Sul.

Mensagem recebida na noite de 16/11/2005, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.

Deodoro da Fonseca por Divaldo Franco do livro:
Compromissos de Amor / 
Revista Reformador Set. 2006.

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Revista Reformador Set. 2006.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Conceitos e Ações

Conceitos e Ações

Irmão X.



José Benevides reencarnou com um excelente programa de atividades em favor da autoiluminação.

Espírito fracassado várias vezes, nas hostes cristãs onde militou em outras existências, preparou-se na erraticidade sob o carinho de dedicados benfeitores espirituais para o cometimento de reparação que lhe dizia respeito. 

Dificuldades e perturbações que o haviam vencido foram reencaminhadas, debilidades morais estiveram sob estudo cuidadoso, angústias receberam tratamento especializado e todo um programa de serviço foi elaborado com a anuência do viajante da esperança.

Reencarnou comprometido com as lides espíritas, encarregadas de restaurar na Terra o pensamento de Jesus, que também ele conspurcara oportunamente com a conduta reprochável que se permitia, experienciando, antes do berço, muitos fenômenos mediúnicos, de modo que a faculdade lhe servisse de instrumento valioso para o ministério libertador. 

Banhos magnéticos foram-lhe aplicados, exercícios de concentração e técnicas de bioenergia foram providenciados, a fim de que se encontrasse robustecido no ânimo e na fé, objetivando a vitória sobre as más inclinações do passado. 

Desse modo, em face das providências seguras, renasceu em lar espírita, haurindo o conhecimento da Doutrina desde os primeiros dias, aprimorando o caráter frágil nos exemplos domésticos. 

Desde cedo habituou-se a conviver com os desencarnados que lhe apareciam amiúde, manifestando-se com frequência, dessa forma preparando-o emocionalmente para a tarefa enriquecedora da divulgação e vivência do Espiritismo. 

Desde os primeiros anos como era de esperar-se, revelou pendores religiosos, que se manifestaram na infância, participando da evangelização espírita em Núcleo bem constituído doutrinariamente, demonstrando lucidez no entendimento das mensagens e loquacidade especial para os comentários quando lhe eram solicitados. 

Aos quatorze anos, começou a explanar a Doutrina entre os companheiros no grupo juvenil, tornando-se líder natural estimado por todos. 

Na sucessão do tempo, tornou-se expositor simpático e convincente, logo arrebanhando expressivo número de simpatizantes e adeptos da sua oratória brilhante, que se foi aprimorando mediante a experiência e os estudos contínuos. 

Tornando-se advogado, vinculou-se ao serviço público, justificando a necessidade de um salário digno para a sobrevivência e de tempo hábil para dedicar-se ao ministério de divulgação da Terceira Revelação. 

Em razão do número de amigos que mourejavam à sua volta, foi estimulado a criar uma Sociedade Espírita, na qual pudesse ampliar as possibilidades de serviço doutrinário, e utilizar dos amplos recursos da mídia moderna para a finalidade a que se propunha. 

Não teve qualquer dificuldade, porquanto pessoas abastadas, politicamente bem situadas, que lhe recorreram ao auxílio através da faculdade mediúnica de valor inquestionável, dispuseram-se a ajudá-lo no cometimento, que se fez coroar de êxito. 

No começo, a fidelidade à Codificação Espírita era total e todos os empreendimentos objetivavam a iluminação de consciências e o conforto dos corações atemorizados ou sofridos pelos infortúnios da existência. 

Dedicado, procurava lenir as exulcerações das almas, envolvendo-as em carinho e em esperança. 

A mediunidade abriu-lhe as portas para o sucesso, e o entusiasmo de pessoas inadvertidas, teleguiadas por Espíritos zombeteiros, passou a envolver o trabalhador do Evangelho, que lentamente despertou os adormecidos comportamentos levianos e insensatos, deixando-se arrastar pela presunção e autovalorização. 

Embora a ocorrência, permanecia dedicado às atividades que lhe diziam respeito, estando sempre em labor decorrente da agenda de compromissos oratórios, que o levavam de um para outro lado, escasseando-lhe o tempo para reflexões, autoanálises, refazimento de forças morais... 

O seu estilo especial e agradável logo fez escola, e diversos simpatizantes passaram a constituir-lhe corte generosa e bajulatória. 

À medida que os anos se dobaram uns sobre os outros, José Benevides foi-se afastando dos sofredores, dos mais necessitados, demonstrando desagrado ante os excluídos, que passou a denominar como os malcheirosos

As pessoas de sociedade que o cercavam, asfixiando-o com elogios mentirosos e referências vãs, tomaram o lugar dos desprotegidos socialmente, daqueles para quem viera Jesus, naturalmente sem exclusão dos dominadores do mundo...

Com o tempo, embora a jovialidade que mantinham, passou a cultivar a irritação interior e o tédio, desde que tudo lhe corria agradável e fartamente, desencantando-se com as próprias aspirações, exceto nos momentos de exaltação da personalidade. 

O nobre Espírito Henrique, seu dedicado mentor que o acompanhava desde antes do renascimento carnal, percebendo o perigo em que se encontrava o pugilo invigilante, não regateou socorros: advertências verbais e escritas, inspiração superior, enfermidades variadas com o objetivo de demonstrar-lhe a fragilidade orgânica, alguns problemas nos relacionamentos afetivos, solidão... Convidava-o constantemente à oração e à convivência com a caridade em relação aos irmãos da retaguarda, igualmente com os desencarnados em sofrimento, que evitava, narcisisticamente, acreditando-se médium especial para contato somente com os Espíritos elevados... 

Prosseguindo nos disparates, permitiu-se o culto ao corpo, utilizando-se dos recursos em voga, e, passando dos temas sérios à vulgaridade, àqueles de humor duvidoso, assumiu comportamentos esdrúxulos... 

Aplaudido e enganado em si mesmo, foi-se divorciando da conduta enobrecida, passando a agredir verbalmente as demais pessoas, quando se sentia contrariado ou temendo competidores, ele que se fizera competidor dos outros, como se fosse irretocável, um missionário sob medida para o divertimento e a salvação da Humanidade. 

Por sentir-se desconsiderado, o mentor advertiu-o severamente, explicando-lhe a gravidade da situação elegida e os riscos que lhe rondavam. 

A obsessão, em decorrência do cerco de inimigos do passado, que lhe padeceram injunções penosas, instalou-se-lhe nos painéis mentais e, obstinado pela conquista de aplausos, de fama, saiu da proteção amorosa do generoso guia, que lhe reservou a dádiva do tempo para o despertamento. 

Tornando-se frívolo e imitando os triunfadores do mundo, esqueceu-se da simplicidade e da abnegação, fazendo-se interesseiro e atormentado. 

Para o público, mantinha a aparência alegre, bombástica, a crítica ferina, enquanto que, a sós, cedia espaço à angústia em insidioso processo depressivo e obsessivo. 

Conheci o candidato à iluminação nos seus áureos tempos e recordo-me das formosas e edificantes exposições espíritas de que se fazia portador. Acompanhei, também, logo depois, as preocupações do devotado benfeitor rejeitado, assim como as suas advertências carinhosas, mas Benevides, à semelhança de Epimeteu, deixou-se seduzir por Pandora enviada pelo colérico Zeus, e sucumbiu-lhe aos encantos e enredamentos... 

Tive ocasião de revê-lo recentemente, mergulhado no abismo do transtorno depressivo, aos sessenta anos, receando a morte que não se permitira considerar quanto deveria, e que se lhe acerca apressadamente... 

O antigo excelente orador e médium, multiplicador de opiniões, verdadeiro showman, afastou-se das hostes doutrinárias e, abandonado pelos aficionados que antes o aplaudiam e agora o censuram, sucumbe ao fracasso irremediável. 

A teoria no seu verbo brilhante infelizmente não se fortaleceu na prática, no exemplo de vida correta, defraudando a responsabilidade e iludindo-se com as fantasias da imaginação infantil.
Página psicografada, na sessão mediúnica da noite de 04/05/2009, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia, BA.
Irmão X. por Divaldo Franco do livro:
Compromissos do Amor / 
Revista Reformador Nov. 2009.

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