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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Nos bastidores da obsessão

Nos bastidores da obsessão

Hermínio C. Miranda



Todos aqueles que conhecem razoavelmente bem a Doutrina Espírita sabem dos terríveis dramas da obsessão que atormentam verdadeiras multidões de Espíritos encarnados e desencarnados.

Poucas vezes, no entanto, nos é oferecida a oportunidade de penetrar nos desvãos escuros dos processos obsessivos, nos seus mecanismos, nas suas motivações, nas suas consequências, bem como nos recursos que podem ser empregados para livrar da aflição e da angústia seres que se prendem uns aos outros pelas escuras cadeias do ódio. Aqueles que admitem a vida apenas como um punhado de anos mal vividos entre berço e túmulo nem sequer suspeitam da extensão e complexidade do problema, do qual conhecem apenas a face visível, ostensiva. Mesmo a ciência oficial, a despeito de um século de estudos e de pesquisas realizadas no campo da fenomenologia espírita, praticamente ignora a obsessão.

Cuidando dos efeitos, raramente atinge as raízes, as causas dos problemas humanos por ela suscitados. E por isso, aí estão os desafios permanentes das psicoses, da alienação mental, do abuso das drogas, das taras sexuais, do alcoolismo, terríveis efeitos de causas muito mais profundas e tenebrosas implantadas e impulsionadas até às suas últimas consequências por seres humanos protegidos pela invisibilidade e pela ignorância dos homens.

Aqui e ali aparecem médicos, como o famoso Dr. Carl Wickland ou Denys Kelsey, que não apenas descobrem o mecanismo da obsessão — confirmando os ensinamentos da Doutrina Espírita —, como aprendem a tratar dessa mazela espiritual, investigando, como é certo, as causas provocadoras até chegarem aos Espíritos que as precipitam. Não é com drogas, nem com choques elétricos, nem com terapêutica psicanalítica que se resolvem essas aflitivas doenças espirituais. A utilização consciente dos métodos espíritas poderia libertar parte considerável da imensa e crescente população dos hospitais psiquiátricos, bem como multidões incontáveis de atormentados que vagueiam pelas ruas em variados estados obsessivos. Entre esses, encontramos desde aqueles que de tão afetados não têm condições nem de articular coerentemente o pensamento, até os que, embora afligidos por perseguições inomináveis, conseguem, de certa forma e à custa de tremendo esforço, levar uma aparência razoável de vida, executando normalmente sua parcela de trabalho na coletividade. Nesse meio, quanta dor escondida, quanta tragédia oculta, quanta angústia envergonhada...

Suas causas? São muitas. Seria de estarrecer uma coleta estatística que por certo revelaria a esmagadora incidência de vinganças pessoais desencadeadas por antigos desafetos, ou casos de influência egoísta de Espíritos que, presos aos sofrimentos, entendem que também os que ficaram estão obrigados a sofrer por solidariedade. Em muitos desses Espíritos doentes, vamos encontrar o traço comum do desconhecimento total das leis que regulam o nosso procedimento. Em outros, para surpresa nossa, verificamos estarem familiarizados com as regulações do mundo espiritual, o que os torna especialmente perigosos e bem equipados para a prática dos processos obsessivos.

Tudo isso, minuciosamente pesquisado e explicado, encontramos no livro Nos bastidores da obsessão, que o Espírito Manoel Philomeno de Miranda ditou ao nosso querido Divaldo Pereira Franco e que a Federação Espírita Brasileira acaba de lançar numa daquelas suas bem cuidadas edições. (Em referência ao texto e livro publicados em 1971 - nota nossa)

É uma pena, realmente, que a literatura mediúnica — especialmente desse nível — continue tão ignorada do grande público leitor, fora dos meios espíritas. Os fatos narrados — e são realmente fatos e não ficções — passaram-se no decorrer dos anos de 1937 e 1938 lá mesmo na Bahia, onde Divaldo psicografou o livro. O autor espiritual ainda se encontrava encarnado e servindo ao lado de outro valoroso e dedicado companheiro: José Petitinga.

Manoel Philomeno aguardou seu retorno ao mundo espiritual para estudar em todos os seus pormenores a trama dolorosa que ajudara a desfazer enquanto ainda encarnado. É certo que, mesmo conhecendo o lado ostensivo do drama espiritual, faltavam-lhe alguns elementos complementares e esclarecedores para que a narrativa guardasse todo o seu impacto e ao mesmo tempo sua autenticidade. Algumas das personagens reais desse drama real ainda permanecem na carne e, por escrúpulos compreensíveis, o autor espiritual quis evitar que fossem identificadas.

Muito sabiamente, o Espírito comunicante faz preceder a história propriamente dita de uma introdução esclarecedora, dividida em três partes distintas: um “Exórdio” explicativo, no qual o autor declara que “diante dos lancinantes problemas da obsessão na atualidade, tem-se a impressão de que nada até o momento haja sido feito a fim de ser modificado esse estado de coisa”. E, no entanto, desde que Kardec lançou a Doutrina Espírita, quantas realizações, quantos estudos, quanta pesquisa, quanta documentação que a ciência oficial continua teimosamente a ignorar, enquanto milhões de seres gemem aflições que nem mesmo conseguem entender.

Nos “Prolegômenos” é feito um breve relato histórico acerca do fenômeno mediúnico, pelo qual a todo instante, através do tempo, os espíritos dos “mortos” vêm atestar a sua própria sobrevivência. Finalmente, no texto “Examinando a obsessão” o autor apresenta um estudo doutrinário extremamente lúcido e útil tanto àqueles que já têm algum conhecimento da Doutrina como para os leigos. Dessa forma, qualquer pessoa razoavelmente esclarecida, mesmo sem estudo aprofundado do Espiritismo, pode beneficiar-se dos conhecimentos que os fatos relatados vão revelando ao longo de todo o livro.

Por isso, a narrativa mesma somente começa no capítulo 1 do livro.

Ângulos insuspeitados dos processos obsessivos começam a desdobrar-se diante dos nossos olhos à medida que a história se revela nos seus intrincados meandros. Lá está a grande luta da vida, nos seus diversos setores e nos dois planos da existência: ódios que geram vinganças, angústias que clamam por socorro, dedicações que redimem.

E assim como há equipes voltadas para o bem, tentando libertar tantos seres acorrentados às suas dores, vemos que há também organizações bem estruturadas, dirigidas com mão de ferro e inteiramente consagradas à prática de espalhar aflições. Assistimos estarrecidos ao funcionamento de uma instituição dessas, sob a direção do Dr. Teofrastus, espírito altamente inteligente, experimentado e conhecedor das leis do mundo espiritual, às quais desobedece deliberadamente, com o intuito não apenas de saciar suas paixões pessoais de vingança como ainda de instruir outros para também saciarem com rigor e conhecimento os seus ódios.

Teofrastus, por certo, não ignora as responsabilidades que assume, nem desconhece a extensão e gravidade dos compromissos que subscreve para futuro resgate. Nem por isso, no entanto, recua diante da tarefa a que se impôs livremente e que exerce com a prepotência de um soberano impiedoso na administração absoluta de seus domínios.

Como, então, subtrair alguém da influência desse homem que o crime endureceu e que conta com uma organização rígida ao seu dispor? Até mesmo o acesso às regiões tenebrosas onde opera é difícil e arriscado: tudo é vigiado; os desconhecidos são examinados e mantidos sob suspeita, num ambiente opressivo de angústias indefiníveis. É preciso, no entanto, encontrar uma brecha nas muralhas de ódio que cercam o poderoso mago, para que a luz penetre na sua alma. Dedicadíssimos benfeitores espirituais descobrem-na afinal. A
fórmula mágica e infalível é, como sempre, o amor. Numa pobre criatura que sofre horrores na carne, identificam os mensageiros do Bem a secular paixão de Teofrastus. Somente quando o impiedoso diretor das trevas recebe o impacto da dor, ao ver a bem-amada sob a angústia da perseguição espiritual, é que começa a compreender a extensão da sua própria tragédia íntima e da inutilidade do seu programa de trabalho.

A trama começa a desenovelar-se pouco a pouco, libertando-se das suas aflições tanto perseguidos como perseguidores. Só daí em diante os conflitos começam a resolver-se em processos reencarnatórios, pelos quais antigos desafetos se reencontram sob as bênçãos de novos lares constituídos na Terra.

*

Quanto à história, em si, seria impraticável resumi-la numa apreciação sumária como esta; julgo, no entanto, oportuno destacar um episódio do relato, ocorrido do lado de cá da vida.

José Petitinga, venerável figura do Espiritismo na Bahia, subira à tribuna para uma palestra evangélica. Estudava-se O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e o texto do dia era a mensagem intitulada “Perdão das ofensas”, ditada em Bordeaux, em 1862, por um Espírito que assinou apenas Simeão.

Numa das pausas da dissertação de Petitinga, entrou pela sala um pobre homem atormentado, evidentemente sob o controle de um Espírito infeliz, o qual bradou ruidosamente:

— Hipócrita! Quem és para pregar? Imperfeito como tu, como te atreves a falar da verdade e ensinar pureza, possuindo largas faixas de desequilíbrio íntimo, que ocultas dos que te escutam? Dize!

Caiu sobre todos na sala um pesado constrangimento. Petitinga, sob forte emoção, fitou o pobre homem e declarou com humildade:

— Tens toda a razão e eu o reconheço. O tema em pauta, hoje, que o caro irmão não ouviu, se refere exatamente ao “Perdão das ofensas”...

Mas o Espírito não estava disposto a ouvir e acusou-o de tentar escapar covardemente.

— Refiro-me às condições morais de que se devem revestir os que ensinam ao que chamas a verdade, e que te faltam... Desafio-te a que abandones a tribuna religiosa ou abandones a vida que levas...

Não era possível continuar o duelo verbal diante da assistência
atônita e que conhecia muito bem as claras virtudes pessoais do bondoso pregador espírita.

Voltando-se, então, para o público, Petitinga fez longa, humilde e serena confissão daquilo que, a seu ver, constituía suas deficiências espirituais. Falou das lutas íntimas que experimentava, tentando melhor servir à causa que abraçava. Que persistiam no seu espírito arestas ásperas que procurava eliminar. Que ainda lhe pesava um passado sombrio de erros. Mas que jamais abandonaria o serviço do Mestre só porque tinha “as mãos impróprias”, pois que por toda parte nascia a erva daninha e escasseavam obreiros. Que preferia “ser enfermo ajudando doentes” a ficar na ociosidade, esperando tornar-se bom para então trabalhar pelo próximo. E depois de desfiar todas as suas fraquezas humanas, concluiu com uma prece: 
“Perdoa-me, Senhor, na imperfeição em que me demoro e ajuda-me na redenção que persigo...”.
A essa altura, a tensão do ambiente era insuportável e Petitinga deixava correr suas lágrimas. Subitamente, o Espírito
invasor atira o seu médium ao chão e pede perdão a Petitinga, em altos brados, vencido pela humildade cristã do velho pregador.

Petitinga desceu da tribuna para socorrer com o poder da prece comovida o Espírito arrependido que antes lhe dizia palavras tão duras e injustas.

Pouco depois o médium despertou para a realidade que o cercava, sem saber o que se passara naqueles momentos dramáticos.

Que estava fazendo ali? Petitinga esclareceu-o em poucas palavras e retornou à tribuna para prosseguir sua preleção, como se nada houvesse acontecido.

Hermínio C. Miranda do livro:
Reencarnação e Imortalidade

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Amor e progresso

Amor e progresso

Joanna de Ângelis


Mediante o amor, todos despertarão para as responsabilidades que lhes dizem respeito.

O amor é o mais prodigioso fomentador do progresso moral, do qual decorrem todas as demais formas de desenvolvimento.

Quando não viceja no ser humano, as conquistas realizadas, por mais brilhantes, tendem à destruição ou são filhas especiais do egoísmo, que as realiza para atender fins nem sempre respeitáveis.

A atualidade tem-se feito caracterizar por muitas formas de progresso, que têm impulsionado a cultura e a civilização a níveis elevados, não obstante a vigência dos crimes hediondos, da fome estarrecedora, das enfermidades infectocontagiosas, das guerras contínuas, dos abusos do poder, dos preconceitos ainda não erradicados, da intolerância de vário matiz, dos descalabros morais por meio dos vícios destruidores como o alcoolismo, o tabagismo, as drogas químicas...

A Ciência e a Tecnologia têm impulsionado o indivíduo a relevantes realizações, porém esquecidas do amor, e dessa forma as máquinas que ele criou substituem-no, desumanizam-no enquanto o superpovoamento das grandes cidades alucina-o, tornando-o mais agressivo e estressado.

Não obstante as propostas sociológicas que se multiplicam, esse cidadão perde a identidade e confunde-se na massa que detesta, tornando-se violento e sentindo a sua existência quase sem objetivo.

Os veículos de comunicação, com o seu imenso poder de conduzir notícias, invadem os lares em toda parte, especialmente a televisão, e os abarrotam com informações ligeiras, raramente esclarecedoras e profundas quando da abordagem dos temas de alta significação, libertadores de consciência e tranquilizadores da emoção, apresentando, ao invés, muitos fatos escabrosos que ele desconhece e, não poucas vezes, estimulam-no a lutas ferozes, nas quais os demais são-lhe inimigos em potencial.

Infelizmente, esses veículos dão preferência às licenças morais devastadoras, criando uma cultura pessimista e reacionária, na qual o ódio, a frustração, o desespero assumem papel de importância na conduta interior e na maneira de viver na sociedade.

A família, embora o patrimônio multimilenário de que se constitui, sofre os camartelos da agitação e do desconcerto de que se tornou vítima, transtornando-se e esfacelando-se, tornando-se campo de rudes batalhas malsucedidas.

...E o ser humano superconfortado transita sob injunções tormentosas, derrapando em transtornos neuróticos, psicóticos, mergulhando no fosso da desolação.

Sucede que o progresso, sem amor, está sem Deus, portanto, sem o alicerce seguro do equilíbrio e da libertação das vidas dos seus atavismos primitivos, que as escravizam no primarismo de onde procedem.

Torna-se urgente uma revisão de conceitos em torno do progresso e das suas propostas, a fim de que seja realizada uma ação renovadora e saudável, propiciando relacionamentos felizes entre as criaturas.

Esse ministério somente pode ser desempenhado pelo amor.

É inevitável que a máquina robotize muitas atividades, solucionando com razoável perfeição os misteres que lhe estão programados. Entretanto, cumpre ao ser humano encontrar soluções outras e mecanismos sábios para atender aos desempregados, àqueles que foram substituídos nas empresas e fábricas, nos laboratórios e no campo...

Tal compromisso diz respeito ao amor e à compaixão.

O amor fomenta o progresso, nunca eliminando a criatura humana, sua meta e seu destino.

De que adianta um mundo tecnologicamente bem equipado, com criaturas fantasmas de si mesmas, sem objetivos de alta significação, transitando entre aspirações imediatas e prazeres fugidios?

O ser humano é o grande investimento da Divindade, que aplicou centenas de milhões de anos na sua construção, conduzindo-o, passo a passo, na longa travessia das experiências de crescimento.

Mediante o amor, de que se constitui, e na maioria ainda se encontra em latência, conseguirá romper os envoltórios resistentes, para sair à luz e desenvolver as aptidões, aumentando o campo de realizações que lhe dizem respeito.

Por meio da lucidez do amor, a Tecnologia trabalhará em favor da paz, jamais promovendo guerras de extermínio, a soldo das ambições desmedidas de indivíduos e de governos alucinados, egotistas e mercenários.

Os poderosos auxiliarão os fracos, emulando-os à conquista de recursos dignos, mediante os quais adquirirão valores para a existência saudável.

O comércio terá características humanitárias e não apenas de exploração do homem pelo homem, gerando a escravidão monetária, qual vem ocorrendo lastimosamente.

As indústrias respeitarão os direitos do cidadão, mediante horários de trabalho justo e espaços para repouso, espairecimento e estudo, mas também preservarão a Natureza.

O ser humano não foi criado para ter as suas forças exauridas, como se fora uma alimária infeliz, no justo momento em que os amigos dos animais levantam-se para profligar contra o abuso e a impiedade com que muitos os tratam.

A agricultura receberá maior respeito, tornando-se milagroso instrumento de provisão para as multidões, que não mais experimentarão fome ou escassez de alimentos.

O tráfico, em todas as formas como se apresente, será diluído na solidariedade que há de viger entre os seres pensantes da Terra.

Porque, mediante o amor, todos despertarão para as responsabilidades que lhes dizem respeito, e não apenas para os interesses mesquinhos que os submetem às tormentosas lutas de predomínio e de loucura.

Como é possível uma sociedade, na qual alguns poucos detêm o poder financeiro, que todo o restante da população do mundo, somada, não consegue sequer aproximar-se, menos ultrapassar?! Como estabelecer-se uma cultura, em nome do progresso, na qual a miséria total espia com ira a abundância e o desperdício acintoso dos poderosos?!

Como aguardar-se a paz social, estabelecida por tratados internacionais de conveniência, firmados pelas Nações mais desenvolvidas e ricas da Terra, olvidando-se dos estertores agônicos daquelas outras que lhes sofrem as injunções penosas, na condição de escravas, sem direito à palavra, à liberdade, à esperança, encontrando-se na linha abaixo da miséria estabelecida?!...

Tudo isso ocorre somente porque o amor não foi consultado, quando se cuidou de desenvolver o progresso do mundo, longe dos sentimentos da compaixão e da solidariedade para com o próximo, que não é apenas aquele que está mais perto, senão todos os seres existentes.

O amor verdadeiro, portanto, é aquele que se estabelece em todos os segmentos sociais, culturais, científicos, religiosos, artísticos, priorizando sempre a criatura humana, seu objetivo, sua razão de existir...

Com o seu hálito vivificador, comanda as consciências e os sentimentos, nunca permitindo que alguém deseje, ou faça com outrem, aquilo que não gostaria que lhe fosse feito.

Quando essa compreensão abarcar os homens e as mulheres, conduzindo-os pela trilha da evolução, o progresso será real, profundo e plenificador.

Começa, então, desde agora, com esse compromisso de amar, não pensando em resultados, exceto os do próprio amor.

O futuro encarregar-se-á de levá-lo até onde não consigas chegar, e isso, sim, é o que se faz importante.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro
Garimpo de Amor

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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Sórdidos porões

Sórdidos porões

Joanna de Ângelis


"A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola; abrange todas as relações em que nos achamos com os nossos semelhantes, sejam eles nossos inferiores, nossos iguais, ou nossos superiores.(...) (Comentários de Allan Kardec à resposta de n° 886 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS)
A civilização dita cristã no Ocidente ainda não compreendeu que Jesus é o exemplo da centralidade mais admirável que se conhece. Em todo o Seu ministério jamais houve lugar para a exclusão, para a exceção. Ele sempre Se caracterizou pela proposta de solidariedade humana e pela igualdade dos direitos humanos.

A Sua mensagem renovadora tem uma direção certa: a transformação moral da criatura para melhor, sempre e incessantemente. Nesse sentido, ninguém se pode considerar indene ao crescimento interior ou excluído da oportunidade.

Jamais o Mestre preferiu aquele que tem mais ou que pensa ser mais, preterindo aqueloutros detestados, marginalizados, esquecidos.

À semelhança dos profetas antigos Ele veio resgatar os mais sofridos, os mais perseguidos, os mais desesperados. Não há lugar em Sua palavra para qualquer tipo de preconceito. Ele próprio pertenceu a um lugar de excluídos, conforme anotou João no comentário feito por Natanael, quando convidado por Filipe para conhecê-lO: - Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (Jo. I-46).

Não poucas vezes Ele sofreu o opróbrio, a humilhação, o acinte, a perseguição sistemática.

Conhecendo, portanto, a hediondez da perversidade e injustiça humanas, Ele colocou no centro aqueles que são empurrados para a periferia, para a marginalidade, fazendo com eles um pacto de amor. É esse amor que viceja em toda a mensagem neotestamentária, renovando as esperanças do mundo e apontando um rumo de segurança onde predomine a vera fraternidade.

Os indivíduos que se apresentam como sendo mais poderosos, mais possuidores, também não foram rejeitados, porquanto Ele sabia que esses, igualmente são infelizes, refugiando-se no terror, na opressão, na vingança, na exploração do seu próximo, através de cujos artifícios se sentem seguros nos tronos de mentira em que se sentam.

Os opressores, os perseguidores, são pessoas que perderam a direção de si mesmos, tornando os corações empedrados, por não se permitirem a doçura que tanto desejam e de que sentem irresistível falta. Invejam-na em quem a tem, e por isso, através da projeção do seu conflito, perseguem-no implacavelmente, com violência, como se a houvessem roubado do seu sacrário íntimo.

Jesus respeitou todas as vidas, concedendo o direito de cidadania igualitária a todos quantos adotassem o reino de Deus e se empenhassem pelo conseguir.

Os modernos cristãos, conforme ocorreu com muitos outros no passado, não compreenderam esse ensinamento, que registraram no cérebro, mas não insculpiram nos sentimentos. São capazes de abordar o tema da solidariedade com lágrimas, no entanto, não saem do pedestal em que se encastelam, para proporcionar centralidade ao seu próximo, arrancando-o da periferia marginalizadora.

* * *
Não obstante as gloriosas conquistas culturais, científicas e tecnológicas, o ser humano ainda mantém o seu próximo em muitos porões de exclusão, que são habitados pelos que se fizeram ou foram tornados marginais: crianças que se prostituem por imposição da crueldade moral, geradora da miséria socioeconômica, pela escravidão do indivíduo que não tem escolha e perdeu a liberdade de decisão e de movimento, e os que vivem nas ruas do mundo, desconsiderados e sem quaisquer direitos, perfeitamente descartáveis pela sociedade hedonista.

Suas dores, suas necessidades são propositalmente ignoradas, e não raro, tidos como lixo social, são assassinados, exilados, expulsos dos seus guetos, porque enxovalham a sociedade que os excluiu.

Trata-se de hediondez da modernidade, que somente pensa no crescimento horizontal do seu poder e da sua libertinagem, esquecendo-se do ser humano em si mesmo, que é o grande investimento da vida.

Nesse lixo social, encontram-se também muitas joias perdidas: homens e mulheres de bem e de valor, que derraparam nas ruelas da existência e não tiveram resistência para enfrentar e vencer as vicissitudes, enveredando pelo alcoolismo, pela toxicomania, pela perversão de conduta nos vícios sexuais, vivendo nos escuros porões que lhes servem de refúgio.

Perdida a dignidade humana, eles relutam para permanecer nesses sítios de vergonha e sombras, sendo denominados como criminosos, mesmo que crime algum hajam cometido.

Rotulados de lixo, criminosos, excluídos, gentalha, perdem a identidade e não se encorajam a recuperar a sua humanidade, que lhes foi tirada e nunca devolvida.

Afirma-se que esses irmãos da agonia se recusam a sair dos porões onde se encontram, e que, ao serem retirados, fogem de retorno aos mesmos lugares onde se entregam aos disparates da vergonha moral. Talvez tenham razão com a exceção, jamais com a totalidade.

Ocorre, muitas vezes, que se encontram enfermos, sem autoconfiança, sem nenhuma autoestima, e autopunem-se, após haverem sido torturados, estuprados, pervertidos. A sua terapia de recuperação é lenta, quanto o foi a imposição da degradação, da perda de sentido existencial.

É impressionante observar como poucos cristãos dão-se conta do que está ocorrendo a sua volta e poderá atingir o seu castelo de refúgio e de ilusão.

Mesmo quando vêm à superfície as denúncias contra a dignidade violada do seu próximo e ele aparece como fantasma apavorante, esses cristãos cerram os olhos para não o ver e tapam os ouvidos, a fim de não escutar o clamor da sua voz, porque isso os perturba e inquieta, tirando-lhes alguns momentos de sono ou de excesso de alimentos.

...E confessam a crença em Deus, a Quem dizem amar, em Jesus, que tomam por modelo teórico, mas não lhe seguem os ensinamentos libertadores.

Perfumados e bem vestidos evitam o contato com eles, nunca se permitem ir aos porões, temem-nos e abandonam-nos, quando os deveriam visitar e amar, procurando conviver com eles, trazendo-os à luz do dia da compreensão de todos.

Eles ficam nos seus porões e os cristãos nos seus esconderijos de luxo e de proteção com medo deles, aqueles a quem Jesus procurou trazer para o centro, retirando-os do abismo escuro em que se refugiavam.

* * *

Felizmente, nem todos os cristãos se escondem do seu próximo retido nos porões. Eles denunciam a sua existência, tentam arrancá-los dos sórdidos lugares onde jazem, esquecidos e perseguidos, recordando-se de Jesus, e imitando-0.

Raia uma luz na treva em favor dos excluídos, ainda muito débil é certo, mas que se expandirá como o rosto brilhante da manhã após a noite renitente, que vai devorada pela claridade.

O novo Cristianismo propõe que se acabem com os porões, que se recicle o lixo social mediante os mecanismos do amor, que se traga para o centro da comunidade todos aqueles que têm sido excluídos, de forma que a sociedade se torne verdadeiramente digna do Mestre e Senhor, que é Modelo e Guia para todos através dos evos...

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco (13/07/2000). 
Paramirim, Bahia.

Fonte: Jornal Mundo Espírita - Fev. 2001.
Posteriormente publicada no livro: Lições para a Felicidade

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    sábado, 4 de julho de 2020

    A Lei dos Destinos

    A Lei dos Destinos

    Léon Denis



    Tendo sido feita a prova das vidas sucessivas, o caminho da existência se acha desobstruído; a rota firme e segura, está traçada.

    A alma vê claramente seu destino, que é a ascensão à mais alta sabedoria, à luz mais viva. A equidade governa o mundo; nossa felicidade está em nossas mãos. Tendo como objetivo a beleza e como meios a justiça e o amor, o Universo não pode mais falir. Desde então, todo temor quimérico, todo pavor do Além se desfazem. Em vez de temer o futuro, o homem desfruta da alegria das certezas eternas. Com a confiança no porvir, suas forças se redobram; seu esforço para o bem será, por isso, centuplicado.

    Todavia, ainda se faz uma pergunta: através de que forças secretas a ação da justiça se exerce no encadeamento de nossas existências?

    Assinalemos, primeiramente, que o funcionamento da justiça humana nada nos oferece que se compare à Lei Divina dos destinos. Esta se cumpre por si mesma, sem intervenção exterior, tanto para os indivíduos, quanto para as coletividades.

    O que nós chamamos de mal, ofensa, traição, assassinato, determina, nos culpados, um estado de alma que os entrega aos golpes do destino, em uma medida proporcional à gravidade de seus atos.

    Esta lei imutável é, antes de tudo, uma lei de equilíbrio.

    Estabelece a ordem no mundo moral, da mesma forma que as leis da gravitação e da gravidade asseguram a ordem e o equilíbrio, no mundo físico. Seu mecanismo é, ao mesmo tempo, simples e grandioso. Todo mal se repara pela dor.

    Aquilo que o homem realiza de acordo com a lei do bem resulta-lhe em serenidade e contribui para sua elevação; qualquer violação provoca o sofrimento. E este prossegue em sua obra interior; vasculha as profundezas do ser; mostra os tesouros de sabedoria e bondade que ele guarda e, simultaneamente, elimina-lhe os germens malsãos. Prolongará sua ação e voltará a atuar durante tanto tempo quanto for necessário, até que o ser floresça no bem e vibre em uníssono com as forças divinas.

    Mas, no empreendimento desta obra grandiosa, reservar-se-ão compensações à alma. Alegrias, afetos, períodos de repouso e de felicidade vão se alternar, no rosário de suas vidas, com existências de luta, de resgate e de reparação. Assim, tudo se acha arrumado e organizado, com arte, ciência e bondade infinitas, na obra da Providência.

    No começo de sua caminhada, em sua ignorância e fraqueza, o homem desconhece e transgride, com frequência, a Lei. Daí, as provas, as enfermidades, as servidões materiais. Mas, ao esclarecer-se, ao aprender a pautar os atos de sua vida segundo a regra universal, expõe-se, cada vez menos, à adversidade.

    Nossos pensamentos e nossos atos traduzem-se em movimentos vibratórios, e seu foco de emissão, pela repetição frequente desses mesmos atos e pensamentos, transforma-se, pouco a pouco, em um potente gerador, para o bem ou para o mal. Assim, o ser classifica-se a si próprio, pela natureza das energias das quais é o centro irradiador. Mas, enquanto as forças do bem se multiplicam por si mesmas e crescem incessantemente, as forças do mal destroem-se por seus próprios efeitos, pois estes efeitos retornam à causa, ao centro de emissão, traduzindo-se sempre por consequências dolorosas. Assim como todos os seres, o mau está submetido ao impulso evolutivo, por isso, forçosamente, vê crescer sua sensibilidade. As vibrações de seus atos, de seus pensamentos maus, após terem efetuado sua trajetória, voltam, mais cedo ou mais tarde, em direção a ele, oprimindo-o, constrangendo-o à necessidade de se reformar.

    Este fenômeno poderia ser explicado cientificamente pela correlação das forças, por esta espécie de sincronismo vibratório que reconduz sempre o efeito à sua causa. Temos uma demonstração disto, neste fato bem conhecido: em tempo de epidemia, de contágio, as pessoas atingidas são, principalmente, aquelas cujas forças vitais se harmonizam com as causas mórbidas em ação, enquanto os indivíduos dotados de vontade firme e isentos de temor, geralmente, ficam imunes.

    Ocorre o mesmo, do ponto de vista moral. Os pensamentos de ódio e de vingança, os desejos de prejudicar, só nos podem atingir e influenciar, se encontrarem, em nós, elementos que vibrem em uníssono com aqueles pensamentos e desejos. Caso nada tenhamos de similar, aquelas forças más deslizam, sem nos atingir, voltando àquele que as projetou, atingindo-o, por sua vez, no presente ou no futuro, assim que circunstâncias particulares as façam entrar na corrente de seu destino.

    *

    A lei de repercussão dos atos tem, portanto, algo de mecânico, de aparentemente automático. Entretanto, uma vez que ela acarreta duras expiações, reparações dolorosas, espíritos elevados intervêm, para pautar-lhe a execução e acelerar a marcha das almas, no processo evolutivo. A influência deles se faz sentir, sobretudo, na hora da reencarnação, a fim de guiar estas almas em suas escolhas, determinando as condições e os meios favoráveis à cura de suas doenças morais e ao resgate das faltas anteriores.

    Sabemos que não há educação completa, sem a dor.

    Adotando este ponto de vista, devemos evitar ver, nas provas e nos males da Humanidade, a consequência exclusiva dos erros passados. Nem todos os que sofrem são, necessariamente, culpados em processo de expiação. Muitos são simplesmente espíritos ávidos de progresso, que escolheram vidas penosas e laboriosas para colher o benefício moral correspondente a toda pena suportada.

    No entanto, em tese geral, é do choque com a lei de harmonia, é do conflito do ser inferior que ainda se ignora, que nasce o mal, o sofrimento. É pelo retorno gradual e voluntário do mesmo ser à harmonia que se restabelece o bem, isto é, o equilíbrio moral. Em todo pensamento, em toda obra, há ação e reação, e esta é sempre proporcional em intensidade à ação realizada. Por isso, podemos dizer: o ser colhe exatamente o que semeou.

    E ele o colhe mesmo, já que, com sua ação continuada, modifica sua própria natureza, purifica ou materializa seu envoltório fluídico, o veículo da alma, o instrumento que serve para todas as suas manifestações e no qual se modela o corpo físico, em cada renascimento.

    Vimos, precedentemente, que nossa situação no Além resulta das ações repetidas que nossos pensamentos e nossa vontade exercem constantemente sobre o perispírito. Segundo sua natureza e seu objetivo, eles o transformam, pouco a pouco, em um organismo sutil e radiante, aberto às mais altas percepções, às sensações mais delicadas da vida do Espaço, capaz de vibrar harmonicamente com os espíritos elevados e de participar das alegrias e impressões do Infinito. No sentido inverso, eles farão do perispírito uma forma opaca, grosseira, agrilhoada à Terra por sua própria materialidade e condenada a ficar confinada nas baixas regiões.

    Esta ação contínua do pensamento e da vontade, exercida, ao longo dos séculos e das existências, sobre o perispírito, faz-nos compreender como se criam e se desenvolvem nossas aptidões físicas, assim como nossas faculdades intelectuais e nossas qualidades morais.

    Nossas aptidões para cada gênero de trabalho, nossa habilidade, nossa destreza em todas as coisas, são o resultado de inumeráveis ações mecânicas acumuladas e registradas pelo corpo sutil, do mesmo modo que todas as lembranças e aquisições mentais ficam gravadas na consciência profunda. Na ocasião do renascimento, estas aptidões são transmitidas, por uma nova educação, da consciência externa aos órgãos materiais. Assim se explica a habilidade consumada e quase inata de certos músicos e, em geral, de todos aqueles que mostram, em um domínio qualquer, uma superioridade de execução que surpreende, à primeira vista.

    A mesma coisa acontece com faculdades e virtudes, com todas as riquezas da alma adquiridas ao longo dos tempos. O gênio é um extenso e enorme esforço de ordem intelectual e a santidade é conquistada por uma luta secular contra as paixões e as atrações inferiores.

    Com um pouco de atenção, poderíamos estudar e acompanhar em nós o processo de nossa evolução moral. Cada vez que praticamos uma boa ação, um ato generoso, uma obra de caridade, de devotamento, a cada sacrifício do eu, não sentimos uma espécie de dilatação interior? Algo parece desabrochar em nós. Uma chama se acende ou se aviva, nas profundezas do ser.

    Esta sensação não é ilusória. O espírito se ilumina a cada pensamento altruísta, a cada impulso de solidariedade e de amor puro. Se estes pensamentos e estes atos se repetem, se multiplicam, se acumulam, o homem se acha como que transformado, ao final de sua existência terrestre. A alma e seu envoltório fluídico terão adquirido um poder de irradiação mais intenso.

    Em sentido oposto, todo pensamento mau, todo ato culposo, todo hábito prejudicial, provocam um encolhimento, uma contração do ser psíquico, cujos elementos se condensam, se escurecem, acumulando fluidos grosseiros.

    Os atos violentos, a crueldade, o assassínio, o suicídio, produzem, no organismo do culpado, uma perturbação, uma comoção prolongada, que repercute, de renascimento em renascimento, no corpo material e se traduz em doenças nervosas, em tiques, em convulsões e até em deformidades, em enfermidades, em casos de loucura, segundo a gravidade das causas e a potência das forças em ação. Toda infração à lei acarreta um incômodo, um encolhimento, uma privação de liberdade.

    As vidas impuras, a luxúria, o alcoolismo, a depravação, conduzem-nos a corpos débeis, desprovidos de vigor, de saúde, de beleza. O ser humano que abusa de suas forças vitais condena-se, a si mesmo, a um futuro infeliz, a enfermidades mais ou menos cruéis.

    A reparação tanto se efetua em uma longa vida de sofrimentos, necessária para destruir as causas do mal em nós, quanto em uma existência curta e difícil, encerrada com uma morte trágica. Às vezes uma atração misteriosa reúne, em um ponto específico, os culpados, de lugares longínquos, para atingi-los em comum. Citemos, como exemplos, as catástrofes célebres, os grandes sinistros, as mortes coletivas, tais como o incêndio do bazar da Charité, a explosão de Courrières, a de Iena, o naufrágio do Titanic e de tantos outros navios.

    Assim se explicam as breves existências. Elas são o complemento de vidas precedentes, concluídas muito cedo, abreviadas prematuramente, seja por excessos, abusos, ou qualquer outra causa moral e que, normalmente, deveriam prolongar-se.

    Deve-se evitar incluir entre esses casos as mortes de crianças em tenra idade. A curta vida de uma criança pode ser uma prova para os pais, assim como para o espírito que quer reencarnar. Em geral, é simplesmente uma entrada falha, no teatro da vida, seja por causas físicas, seja por falta de adaptação entre os fluidos. Neste caso, a tentativa de encarnar se renova pouco depois, no mesmo meio; ela se repete, até o sucesso completo, ou, então, se as dificuldades forem insuperáveis, efetua-se em um meio mais favorável.

    *

    Todas estas considerações o demonstram: para assegurar a depuração fluídica e o bom estado moral do ser, tem-se que estabelecer uma disciplina do pensamento, promover uma higienização da alma, como é preciso observar uma higiene física para manter a saúde do corpo.

    De acordo com esta ação constante do pensamento e da vontade sobre o perispírito, vê-se que a retribuição é absolutamente perfeita. Cada um colhe o fruto imperecível de suas obras passadas e presentes. E o colhe, não pelo efeito de uma causa exterior, mas por um encadeamento que liga, em nós mesmos, a aflição à alegria, o esforço ao sucesso, a falta ao castigo.

    É, pois, na intimidade secreta de nossos pensamentos e na flagrante exterioridade de nossos atos, que se deve procurar a causa eficiente de nossa situação presente e futura.

    Somos colocados, segundo nossos méritos, no meio de onde nossos antecedentes nos chamam. Se nos encontramos infelizes, é porque não estamos bastante perfeitos, para desfrutar de uma sorte melhor. Mas, nosso destino melhorará, quando soubermos fazer nascer, em nós, mais desinteresse, mais justiça, mais amor. O ser tem de aperfeiçoar, embelezar incessantemente sua natureza íntima, aumentar seu mérito pessoal, construir o edifício de sua consciência: tal é o objetivo de sua evolução.

    Cada um de nós possui aquele gênio particular, que os druidas chamavam awen, isto é, a aptidão primordial de todo ser para concretizar uma das formas especiais do pensamento divino. Deus depositou, no fundo da alma, os germens de faculdades poderosas e variadas; todavia, há uma das formas de seu gênio que ela está destinada a desenvolver, acima de todas as outras, através de um trabalho constante, até que tenha atingido seu ponto de excelência. Estas formas são inumeráveis.

    São os aspectos múltiplos da inteligência, da sabedoria e da bondade eternas: a música, a poesia, a eloquência, o dom da invenção, a previsão do futuro e das coisas ocultas, a ciência ou a força, a bondade, o dom de educação, o poder de curar, etc.

    Projetando a entidade humana, o pensamento divino a impregna mais particularmente com uma dessas forças e, por isso mesmo, assinala-lhe um papel especial, no vasto concerto universal.

    As missões do ser, seu destino, sua ação na evolução geral, precisar-se-ão, cada vez mais, no sentido de suas aptidões próprias, aptidões a princípio latentes e confusas, no início de sua caminhada, mas que vão despertar, crescer, acentuar-se, à medida que percorra a espiral imensa. As intuições, as inspirações que vai receber do Alto corresponderão a este aspecto especial de seu caráter. Segundo suas necessidades e seus apelos, é desta forma que ele perceberá, no fundo de si mesmo, a melodia divina.

    Assim, da variedade infinita dos contrastes, Deus sabe fazer brotar a harmonia, tanto na Natureza, quanto no seio das humanidades.

    E se a alma abusa desses dons, se os aplica às obras do mal, se, por causa deles, nascem-lhe a vaidade e orgulho, ser lhe-á preciso, como expiação, renascer em corpos incapazes de manifestá-los. Viverá, entre os homens, como um gênio ignorado, humilhado, o tempo necessário para que a dor triunfe sobre os excessos da personalidade e lhe permita retomar seu impulso sublime, sua caminhada, momentaneamente interrompida, em direção ao ideal.

    *

    Almas humanas que percorreis estas páginas, elevai vossos pensamentos e vossas resoluções à altura das tarefas que vos cabem. As estradas do infinito abrem-se diante de vós, cobertas de maravilhas inexauríveis. Em qualquer ponto a que vosso impulso vos conduza, por toda a parte, assuntos a estudar vos aguardam, com fontes inesgotáveis de alegrias e encantamentos de luz e de beleza. Por toda a parte e sempre, horizontes desconhecidos sucederão aos horizontes percorridos. 

    Tudo é beleza na obra divina. Em vossa ascensão, vos está reservado o desfrutar de aspectos inumeráveis, agradáveis ou terríveis, desde a flor delicada, até os astros flamejantes; o assistir às eclosões dos mundos e das humanidades. Ao mesmo tempo, sentireis desenvolver-se vossa compreensão das coisas celestes e crescer vosso desejo ardente de penetrar Deus, de mergulhar nele, em sua luz, em seu amor; em Deus, nossa fonte, nossa essência, nossa vida!

    A inteligência humana não poderia descrever os futuros pressentidos, as ascensões entrevistas. Nosso espírito, preso em um corpo de argila, nos elos de um organismo perecível, nele não consegue encontrar os recursos necessários para expressar esses esplendores; a expressão ficará sempre abaixo das realidades.

    A alma, em suas intuições profundas, tem a sensação das coisas infinitas das quais participa e às quais aspira. Sua destinação é vivê-las e desfrutar delas, cada vez mais intensamente.

    Porém, tentaria, em vão, exprimi-las, através dos balbucios de um frágil idioma humano; em vão, esforçar-se-ia por traduzir as coisas eternas para a pobre linguagem terrena. A palavra é impotente, mas a consciência evoluída percebe as sutis radiações da vida superior.

    Dia virá em que a alma engrandecida dominará o tempo e o espaço. Um século não será para ela mais do que um instante e, com um lampejo de pensamento, ela ultrapassará os abismos do céu. Seu organismo sutil, purificado em milhares de vidas, vibrará a todos os sopros, a todas as vozes, a todos os apelos da imensidão. Sua memória mergulhará nos tempos já idos. Poderá reviver, quando quiser, tudo aquilo que tiver vivido; chamar para junto de si ou ir ao encontro das almas queridas que tiverem partilhado de suas alegrias e de suas dores.

    Pois todas as afeições do passado se reencontram e se reúnem na vida do Espaço; tecem-se novas amizades e, pouco a pouco, uma comunhão mais poderosa aproxima os seres em uma unidade de vida, de sentimento e de ação.

    Crê, ama, espera, homem, meu irmão... Depois, age!

    Aplica-te a deixar transparecer em tua obra os reflexos e as esperanças de teu pensamento, as aspirações de teu coração as alegrias e as certezas de tua alma imortal. Explicita tua fé nas inteligências que te rodeiam e compartilham de tua vida, a fim de que elas te secundam em tua tarefa e que, por toda a Terra, um poderoso esforço subtraia o fardo das opressões materiais, triunfe das paixões grosseiras, abra uma vasta clareira para os voos do espírito.

    Brevemente, uma ciência jovem e renovada – não mais a ciência dos preconceitos, das rotinas, dos métodos estreitos e envelhecidos, mas uma ciência aberta a todas as pesquisas, a todas as investigações, a ciência do Invisível e do Além – virá fecundar o ensino, esclarecer o destino, fortificar a consciência.

    A fé na sobrevivência edificar-se-á sob formas mais belas, apoiadas na rocha da experiência e desafiando qualquer crítica.

    Uma arte mais idealista e mais pura, banhada pelas luzes que não se apagam, imagem da vida radiosa, reflexo do céu entrevisto, virá regozijar e vivificar o espírito e os sentidos.

    O mesmo ocorrerá com religiões, crenças, sistemas. No impulso do pensamento, para se elevar das verdades de ordem relativa às verdades de ordem superior, acabarão por aproximar-se, unir-se, fundir-se, para fazer das crenças múltiplas do passado, hostis ou mortas, uma fé viva que reunirá a Humanidade em um mesmo ímpeto de adoração e de prece.

    Trabalha com todas as potências de teu ser no preparo desta evolução. É preciso que a atividade humana se coloque com maior intensidade na direção das rotas do espírito. Após a humanidade física, é necessário criar a humanidade moral; depois dos corpos, as almas! O que se conquistou em energias materiais, em forças exteriores, perdeu-se em conhecimentos profundos, em revelação do sentido íntimo. O homem triunfou sobre o mundo visível; as aberturas que realizou no universo físico são ilimitadas; resta-lhe conquistar o mundo interior, conhecer sua própria natureza e o segredo de seu esplêndido porvir.

    Portanto, não discutas, mas age. A discussão é vã; a crítica, estéril; mas a ação pode ser grandiosa, se consistir em te fazer crescer, a ti mesmo e aos outros, em fazer melhor e mais belo o teu ser, pois não te esqueças de que trabalhas por ti, trabalhando por todos, associando-te à tarefa comum. O Universo, como tua alma, renova-se, perpetua-se e embeleza-se incessantemente pelo trabalho e pelas trocas. E Deus, aperfeiçoando sua obra, regozija-se dela, como tu te regozijas da tua, embelezando-a. Tua mais bela obra és tu mesmo. Com teus esforços constantes, podes fazer de tua inteligência, de tua consciência, uma obra admirável, de que desfrutarás indefinidamente.

    Cada uma de tuas vidas é um cadinho fecundo, de onde deves sair apto a tarefas, a missões cada vez mais altas, apropriadas a tuas forças, que serão tua recompensa e tua alegria.

    Assim, com tuas mãos, dia a dia, teces teu destino. Renascerás com as formas que teus desejos constroem, que tuas obras geram, até que teus desejos e teus apelos te preparem formas e organismos superiores aos da Terra. Renascerás nos meios que amas, perto dos seres queridos que, anteriormente, se associaram a teus trabalhos, a tuas vidas e reviverão contigo e por ti, assim como reviverás com eles e por eles.

    Depois de concluída tua evolução terrestre, quando tiveres exaltado tuas faculdades e tuas forças a um grau de potência suficiente, quando tiveres esvaziado a taça dos sofrimentos, dos amargores e das felicidades que este mundo nos oferece, vasculhado suas ciências e suas crenças, comungado com todos os aspectos do gênio humano, então, subirás com teus amados para outros mundos mais belos, mundos de paz e de harmonia.

    E, tendo teu último invólucro humano voltado ao pó da Terra, tendo tua essência depurada chegado às regiões espirituais, tua lembrança e tua obra ainda continuarão sustentando os homens, teus irmãos, em suas lutas e em suas provas, e poderás dizer a ti mesmo, com a alegria de uma consciência serena: Minha passagem pela Terra não foi estéril; meus esforços não foram vãos.

    Léon Denis
    O Problema do Ser, do  Destino e da Dor
    A lei dos Destinos - Capítulo XIX

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    - Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

    - Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

    quarta-feira, 24 de junho de 2020

    Lembrança fraternal aos enfermos

    Lembrança fraternal aos enfermos

    Emmanuel



    Queres o restabelecimento da saúde do corpo e isso é justo.

    Mas atende ao que te lembra um amigo que já se vestiu de vários corpos e compreendeu, depois de longas lutas, a necessidade da saúde espiritual.

    A tarefa humana já representa, por si, uma oportunidade de reerguimento aos espíritos enfermos. Lembra-te, pois, que tua alma está doente e precisa curar-se sob os cuidados de Jesus, o nosso Grande Médico.

    Nunca pensaste que o Evangelho é uma receita geral para a humanidade sofredora?

    É muito importante combater as moléstias do corpo; mas, ninguém conseguirá eliminar os efeitos quando as causas permanecem.

    Usa os remédios humanos, porém, inclina-te para Jesus e renova-te, espiritualmente, nas lições de Seu amor. Recorda que Lázaro, não obstante voltar do sepulcro, em sua carne, pela poderosa influência do Cristo, teve de entregar seu corpo ao túmulo, mais tarde. O Mestre chamava-o a novo ensejo de iluminação da alma imperecível, mas não ao absurdo privilégio da carne imutável.

    Não somos as células orgânicas que se agrupam, a nosso serviço, quando necessitamos da experiência terrestre. Somos espíritos imortais e esses micro-organismos são naturalmente intoxicados, quando os viciamos ou aviltamos, em nossa condição de rebeldia ou de inferioridade.

    Os estados mórbidos são reflexos ou resultantes de nossa vibrações mais íntimas.

    Não trates a doença com pavor e desequilíbrio das emoções. Cada uma tem sua linguagem silenciosa e se faz acompanhar de finalidades especiais.

    A hepatite, a indigestão, a gastralgia, o resfriado, são ótimos avisos contra o abuso e a indiferença. Por que preferes bebidas excitantes, quando sabes que a água é a boa companheira, que lava os piores detritos humanos? Por que o excesso dos frios no verão e a demasia de calor nos tempos de inverno? Acaso ignoras que o equilíbrio é filho da sobriedade? O próprio irracional tem uma lição de simples impulso, satisfazendo-se com a sombra das árvores na secura do estio e com a benção do sol nas manhãs hibernais. Pela tua inconformação e indisciplina, desordenas o fígado, estraga os órgãos respiratórios, aborreces o estômago. Observamos, assim, que essas doenças avisos se verificam por causas de ordem moral. Quando as advertências não prevalecem, surgem as úlceras, as congestões, as nefrites, os reumatismos, as obstruções, as enxaquecas. Por não se conformar o homem, com os desígnios do Pai que criou as leis da natureza como regulamentos naturais para sua casa terrestre, submete as células que o servem ao desregramento, velha causa de nossas ruínas.

    E que dizermos da sífilis e do alcoolismo procurados além do próprio abuso?

    Entretanto, no capítulo das enfermidades que buscam a criatura, necessitamos considerar que cada uma tem sua função justa e definida.

    As moléstias dificilmente curáveis, como a tuberculose, a lepra, a cegueira, a paralisia, a loucura, o câncer, são escoadouros das imperfeições. A epidemia é uma provação coletiva, sem que essa afirmativa, no entanto, dispense o homem do esforço para o saneamento e higiene de sua habitação. Há dores íntimas, ocultas ao público, que são aguilhões salvadores para a existência inteira. As enfermidades oriundas dos acidentes imprevistos são resgates justos. Os aleijões são parte integrante das tabelas expiatórias. A moléstia hereditária assinala a luta merecida.

    Vemos, portanto, que a doença, quando não seja a advertência das células queixosas do tirânico senhor que a domina, é a mensageira amiga convidando a meditações necessárias.

    Desejas a cura; é natural; mas precisas tratar-te a ti mesmo pra que possas remediar ao teu corpo. Nos pensamentos ansiosos, recorre ao exemplo de Jesus. Não nos consta que o Mestre estivesse algum dia de cama; todavia, sabemos que ele esteve na cruz. Obedece, pois a Deus e não te rebele contra os aguilhões. Socorre-te do médico do mundo ou de teu irmão do plano espiritual, mas não exijas milagres, que esses benfeitores da Terra e do céu não podem fazer. Só Deus te pode dar acréscimo de misericórdia, quando te esforçares por compreendê-lo.

    Não deixes de atender às necessidades de teus órgãos materiais que constituem a tua vestimenta no mundo; mas, lembra-te do problema fundamental que é a posse da saúde para a vida eterna. Cumpre teus deveres, repara como te alimentas, busca prever antes de remediar e, pelas muitas experiências dolorosas que já vivi no mundo terrestre, recorda comigo aquelas sábias palavras do Senhor ao paralítico de Jerusalém:
    ... - “Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior.”

    Emmanuel por Chico Xavier do livro:
    Coletânea do Além / Espíritos Diversos

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