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domingo, 7 de setembro de 2025

Arquivos espirituais da Independência do Brasil

Arquivos espirituais da Independência do Brasil

Hermínio C. Miranda


Quadro de Pedro Américo retratando o grito de D. Pedro I
— Foto: Divulgação/Museu Paulista


Chama-se historiografia à arte de escrever a História, ou seja, descrever os acontecimentos que se desenrolaram ao longo do tempo no plano humano. Chama-se historiologia à filosofia da História, isto é, à maneira de analisar e interpretar os acontecimentos. O historiador ou historiógrafo não deve imaginar fatos inexistentes para preencher lacunas ou justificar a “sua” filosofia da História. Deve limitar-se a narrar os fatos tal como se apresentam na documentação existente ou na melhor e mais verossímil tradição. Além desses limites, cessam os contornos da historiografia e os historiadores viram ficcionistas sofisticados, no afã de preencher os claros dos registros históricos com narrativas imaginárias e suposições mais ou menos engenhosas.

Duas correntes podemos distinguir na classificação dos historiadores quanto à posição que tomam diante da historiologia, isto é, quanto ao ponto de vista que adotam como filosofia da História: de um lado, uma corrente materialista, que nega a interferência divina na História e, de outro lado, o grupo dos que veem no traçado geral da História a marca sutil e poderosa de Deus. Entre esses dois extremos, muitas nuanças pessoais de caráter misto.

Quase que seria dispensável dizer-se que a historiologia moderna é essencialmente materialista, ainda que nem sempre marxista. O marxismo vê na História apenas um jogo cego de forças econômicas, que se confrontam e se guerreiam tanto quanto os homens. Outros integrantes da corrente materialista podem negar aos fatores econômicos tanta importância, mas não conseguem ver na aventura humana nem mesmo um sopro de inspiração divina. Está colocado nesta última posição, por exemplo, o eminente historiador americano Will Durant, autor de um verdadeiro monumento de saber histórico, desdobrado em vastos painéis vivos, escritos em magnífica linguagem, mas de um ponto de vista puramente humano, como se a História tivesse apenas a sua face visível e não fosse nada mais senão um relato linear das coisas que os homens fizeram antes de mergulhar nas sombras da “morte”.

Não há como censurar esses autores. Falta-lhes simplesmente a visão espiritual para vislumbrar as motivações ocultas dos movimentos históricos e a própria continuidade da atuação humana ao longo de muitas encarnações, durante as quais os Espíritos incumbidos de determinadas tarefas vão e vêm entre o mundo encarnado e o outro, trabalhando num e noutro, ativamente, sempre dentro de um plano superiormente articulado, visando a um objetivo bem estudado e programado. Isso não quer dizer que os homens sejam simples marionetes de forças superiores, sem vontade própria e sem consciência do que realizam. Ao contrário, é exatamente a faixa considerável de livre-arbítrio que lhes é reservada que os leva, muitas vezes, a desvios amplos que retardam a chegada aos objetivos programados.

Os antigos historiadores eram, ao contrário dos modernos, profundamente místicos. Para eles, sim, o homem era simples joguete dos deuses, a realizar, no plano humano, a vontade férrea das forças ocultas do Universo, tanto as boas como as outras. A mitologia grega, que misturava misticismo, história e ficção, punha juntos deuses, homens e mulheres num só quadro narrativo, a realizarem os movimentos históricos. Como sempre, a virtude está a meio do caminho. Aqueles que têm hoje algum conhecimento do mecanismo das forças espirituais sabem que a História não é só o que os homens fazem, nem somente o que fazem os poderes divinos por meio dos seres desencarnados. Ela resulta de uma integração desses dois campos vibratórios, desses dois planos onde a vida se desenrola sob as bênçãos de Deus. Seria inadmissível para os espíritas supor que há uma História
espiritual da Humanidade inteiramente autônoma e separada da História dos homens encarnados. Na verdade, elas se entrelaçam inextricavelmente, porque os seres que atuam do lado de lá da vida são os mesmos que por aqui estiveram antes, no comando de movimentos históricos, políticos, sociais, culturais, artísticos, enquanto os homens encarnados são os mesmos Espíritos que, do mundo espiritual, acompanharam os acontecimentos da Terra, neles participaram ativamente e acabaram por se incumbir de tarefas a serem realizadas aqui, ao renascerem. A História é, pois, o desdobrar de um plano articulado, executado em estrito regime de cooperação, como um concerto a quatro mãos. Tem, como background musical, as grandes massas sinfônicas da orquestração universal. Os desvios e as falhas que aí ocorrem não provêm de erros do compositor na partitura, que é perfeita, mas de descuidos e imperícias dos executantes, ainda presos às imperfeições humanas.

Há muito que essa historiologia me fascina. Tentei mesmo um ensaio tímido, escrevendo um livro chamado Mecanismos secretos da História, ainda inédito, para oferecer algumas interpretações e sugestões em torno desse tema extraordinário. As bases para esses estudos, porém, ainda são muito precárias, porque contamos apenas com os falhos e imperfeitos registros humanos. Trinta anos após um fato importante, quantas versões mais ou menos prováveis existirão dele? Qual a verdadeira, ou, pelo menos, qual delas se coloca mais próxima da realidade?

Há, porém, registros indeléveis e muito vivos de acontecimentos do passado mais remoto, na memória dos seres que os presenciaram. Essa fonte inesgotável de consulta acha-se praticamente inexplorada, a não ser por alguns autores desencarnados. Podemos admitir, e esperar, no entanto, que um dia a História da Humanidade será toda reescrita dentro dessa concepção historiológica, colhendo-se nas fontes autênticas o testemunho sereno daqueles que se incumbiram de tarefas memoráveis. Espero merecer a honra e a alegria de trabalhar nessa equipe de levantamento da crônica humana, porque sou daqueles que veem na História a presença inequívoca de Deus e, por isso, também, a importância das lições que elas encerram para melhor entendimento do presente e mais lúcida projeção do futuro. Se tirássemos melhor proveito dos ensinamentos contidos no passado, mais breve seria a nossa redenção espiritual, que é o objetivo supremo da História, ponto onde convergem as metas individuais e as coletivas.

Essa visão espiritual da História, por mais curioso que pareça, é revelada inesperadamente num pensador de origem judaica, profundamente interessado na figura do Cristo, o Dr. Hugh J. Schonfield, no livro The Politics of God (A política de Deus). 

Mas não é deste autor que pretendo cuidar agora, e sim de Humberto de Campos, que através de Chico Xavier escreveu, nos idos de 1938, um ensaio de história espiritual do Brasil chamado Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

Desse livro, consagrado por nove edições, com mais de 50.000 exemplares vendidos, na oportunidade em que se comemorou o Sesquicentenário da Independência do Brasil, quero destacar alguns capítulos.

*

Ao que nos informa o Espírito Humberto, as Cruzadas haviam confundido as lições do Evangelho “ensanguentando todas as bandeiras do mundo cristão”. Era preciso começar tudo de novo.

Assim, no último quartel do século XIV, decidiu Jesus confiar à gente que viria compor o povo brasileiro a tarefa de revigoramento da mensagem de amor que Ele pregara na Palestina. Como nos parecem longos e pacientes os caminhos e os métodos daqueles que, muito acima de nós, estão fora do alcance do tempo... O minucioso planejamento começa com a movimentação do primeiro tarefeiro. Jesus chama Helil, “encarregado dos problemas sociológicos da Terra”, e lhe atribui a primeira etapa do gigantesco trabalho. Já no fim do século, em 1394, renasce ele em Portugal, filho de D. João I e de D. Filipa de Lancaster. Chamou-se Henrique, o infante de Sagres, e foi o primeiro a sonhar e pôr em prática os planos de expansão mundial do pequeno e valoroso reinado português.

Mas quem foi Helil no passado?

Ao editar o livro de Humberto, a FEB esclarece, em nota do cap. 1, que o autor espiritual preferiu a forma árabe Helil em vez da hebraica Hilel, mais usada.

A Enciclopédia Britânica informa que Hilel viveu entre o ano 70 a.C. e o ano 10 da nossa era. Foi, assim, quase contemporâneo de Jesus e membro eminente do Sanhedrin. Seu espírito de há muito devia estar ligado ao do Mestre, porque seus ensinamentos são notavelmente coincidentes com os do Cristo: “O que for desagradável para ti, não faças ao teu próximo, nisto se resume toda a Lei; tudo o mais não passa de comentário”. “Não julgues o teu semelhante antes de te colocares em seu lugar”. 

Hilel foi um dos mais eminentes rabis do seu tempo, conhecido e amado pela sua tolerância, caridade e humildade.

Tornou-se príncipe (nasi) do Sanhedrin. Atribui-se a ele a criação das sete regras que formaram a base da hermenêutica rabínica.

Esse foi o homem que Jesus escolheu para o primeiro impulso à civilização brasileira. Lançadas as bases do programa de expansão mundial na Escola de Sagres, o antigo Rabi recolheu-se novamente ao mundo espiritual e de lá continuou sua ativa colaboração, agora invisível, mas não menos ativa. Quando Cabral parte do Tejo em busca das Índias lendárias, são aproveitados “todos os seus ascendentes mediúnicos. As noites de Cabral são povoadas de sonhos sobrenaturais e, insensivelmente, as caravelas inquietas cedem ao impulso de uma orientação imperceptível”.

Descoberto o Brasil, Helil se preocupa. A terra é grande e rica demais e pode despertar a cobiça das nações poderosas. 

Jesus o tranquiliza, dizendo que “as injunções políticas terão nela atividades secundárias”, porque o sinal da fraternidade universal estaria presente na sua história. Quanto ao receio da conquista, “as potências imperialistas da Terra esbarrarão sempre nas suas claridades divinas e nas suas ciclópicas realizações”.

E foi assim que o Brasil gigantesco, riquíssimo, presa aparentemente fácil para a pilhagem mundial, pois apenas tinha na sua defesa o minúsculo Portugal, atravessou os séculos sem perder uma fração do seu imenso território com oito mil quilômetros de costa aberta para o mar.

Em seguida, Jesus atribui a Ismael a guarda “dos patrimônios imortais que constituem a Terra do Cruzeiro”. Alguns emissários de confiança das forças espirituais são enviados à reencarnação no Brasil: Anchieta, Nóbrega, Bartolomeu dos Mártires. O primeiro voltaria depois, na notável personalidade de frei Fabiano de Cristo, para trazer, mais uma vez, o clarão do seu espírito sereno, envolto nas doces luzes da humildade e do serviço ao próximo. É curioso observar que, tanto na primeira vez como na segunda, nasce em Portugal, mas seu espírito tem a irresistível intuição de servir o Brasil. Diz Humberto que a vida como Fabiano constituiu “a última pedra que faltava na sua coroa de apóstolo da imortalidade”.

Muitos desses vultos se repetem na História do Brasil. Estácio de Sá, por exemplo, que fundou e defendeu a “muy heroica e leal” cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, como diziam as antigas crônicas, voltou aqui de outras vezes, como assegura Humberto.

“Ainda há poucos anos” — prossegue o autor espiritual — “podia ser encontrada (a personalidade de Estácio de Sá) na figura do grande benemérito do Rio de Janeiro, que foi Osvaldo Cruz.”

Talvez desejasse salvar muitas vidas humanas — e o conseguiu — para repor as que, nos combates pela defesa do Rio, teve de
permitir que se eliminassem.

*

Chegou, afinal, o momento em que a terra brasileira deveria adquirir maioridade política. O país estava maduro e a opressão se tornara insuportável. Era grande a miséria do povo, esmagado ao peso de impostos desumanos, numa terra em que tanta riqueza podia dar para todos. A fim de lançar a primeira e trágica semente, a ser regada com sangue e lágrimas muitas, é convocado o espírito valoroso de um antigo inquisidor arrependido e desejoso de resgatar suas faltas. Esse homem foi Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, líder de um grupo de intelectuais que, reunidos em Vila Rica, atual Ouro Preto, sonharam com a libertação do Brasil, não apenas dos laços políticos que o prendiam à Corte Portuguesa, mas de suas dores e angústias, da sua pobreza no meio da opulência, da tristeza de seu povo na imensa paisagem de belezas indescritíveis. O movimento aparentemente fracassou, com a “liquidação” dos sonhadores pela denúncia de Silvério dos Reis.

Tiradentes, enforcado e esquartejado, regressou à pátria espiritual redimido, não antes de passar pela minuciosa devassa inquisitorial que em tempos passados ele dirigia, sentado na cadeira imponente de Inquisidor.

Ismael recebe-o de braços abertos, declarando que ele acabara de redimir suas antigas faltas e que passaria a ser “um símbolo para a posteridade, com o seu heroísmo resignado nos sofrimentos purificadores”. “Qual novo gênio” — diz-lhe Ismael — “surges para espargir bênçãos sobre a Terra do Cruzeiro em todos os séculos do seu futuro.”

É por isso que vimos nos cartazes comemorativos do Sesquicentenário da Independência a frase que a intuição ditou: “Tudo começou com ele...” E continua com ele, poderíamos acrescentar.

Para o crescimento da jovem nação, tudo é aproveitado sabiamente pelo atento mundo espiritual. Quando Napoleão invade Portugal, por intermédio de Junot, D. João VI traz, na fuga para o Brasil, preciosos impulsos políticos, culturais e econômicos.

Ainda na Bahia, abre os portos brasileiros ao comércio mundial.

No Rio, mais tarde, fundaria a Escola de Medicina, o Real Teatro São João, o Banco do Brasil. Organizam-se instituições que se tornariam respeitáveis e tradicionais, como a Academia de Marinha, o Conselho Militar, a Biblioteca Real. Com D. João veio também a imprensa e, portanto, o livro, terreno fértil onde tanta sementeira é realizada. Até mesmo esboços de indústrias, hoje poderosas, como a siderurgia, surgiram naqueles recuados tempos.

Mas D. João VI tinha de retornar à Europa, porque assim o exigia a inquietação dos seus súditos portugueses. E voltou, embora muito a contragosto. Deixou seu filho Pedro no Brasil para viver missão histórica das mais importantes, que a sua acuidade política pressentiu claramente. Chegou mesmo a aconselhar ao filho que, se surgisse, como esperava, qualquer movimento separatista, ele, Pedro, tomasse logo a coroa para si, evitando que o país caísse em mãos de aventureiros.

Os trabalhadores invisíveis reconhecem as fraquezas do jovem regente, mas se utilizam prudentemente do lado positivo de sua personalidade ainda imatura. Para contrabalançar muitas de suas imprudências, está ao lado do Príncipe a figura serena de Leopoldina, a quem o autor espiritual do livro dedica as expressões de maior carinho e grande admiração, dado que foi “trazida ao Brasil de acordo com as determinações do mundo invisível, para colaborar na realização dos elevados projetos de Ismael e dos seus mensageiros”. “Somente o seu coração doce e submisso” — prossegue Humberto — “poderia suportar resignadamente as estroinices do esposo, em um dos períodos mais delicados da sua vida, sem provocar escândalos que acarretariam atraso na marcha dos acontecimentos previstos.” (Grifo meu.)

O texto evidencia que Leopoldina foi o poder moderador, arauto do mundo espiritual junto ao Príncipe. Amou o Brasil à primeira vista, e a História registra, fielmente, o seu admirável trabalho em favor da Independência. Dá testemunho disso o grande José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca. O momento era de extrema tensão e fortes paixões estavam desatadas. Para as tropas portuguesas aqui residentes, aqueles que a História consagrou como heróis da Independência eram simples rebeldes, inclusive o Senhor Regente. No mundo invisível, Tiradentes trabalha ativamente. A certa altura, consulta Ismael sobre se não teria chegado o momento decisivo. Sentia que era preciso aproveitar a exaltação patriótica dos ânimos. “As possibilidades estão dispersas, mas poderíamos reunir todas as forças para o fim de derrubar as últimas muralhas que se opõem à liberdade da Pátria do Evangelho”, diz ele.

Ismael aconselha prudência e moderação, assegurando, não obstante, que a libertação do Brasil não vinha longe. Ele achava que era preciso “difundir a educação individual e coletiva, dentro das nossas possibilidades, formando os espíritos antes das obras”. Além do mais, era preciso servir-se da autoridade do Príncipe — elemento de que dispunha o mundo espiritual. Para isso, D. Pedro seria envolvido nas “claridades fraternas da nossa assistência espiritual. Povoemos suas noites de sonhos de amor à liberdade, desenvolvendo-lhe no espírito as noções da solidariedade humana”.

A Independência tinha que ser obtida sem sangue. A 9 de janeiro, já no ano da emancipação, “D. Pedro, diante da massa de povo, sente a assistência espiritual dos companheiros de Ismael, que o incitam a completar a obra da emancipação política da Pátria do Evangelho, recordando-lhe, simultaneamente, as palavras do pai no instante das despedidas”. Foi assim o dia do “Fico”.

Houve depois um momento de extrema tensão, a 11 de janeiro, quando as tropas fiéis à Corte Portuguesa passaram a considerar o próprio D. Pedro como rebelde, desobediente à ordem de regressar à Europa. O povo brasileiro juntou-se aos soldados que apoiavam D. Pedro, dispostos a enfrentar os portugueses no Campo de Santana. A aflição é grande no mundo espiritual. Ismael mais uma vez interfere e, “sem um tiro, o chefe português obedeceu, com humildade, à intimação do príncipe D. Pedro, capitulando a 13 de janeiro e retirando-se com as suas tropas para a outra margem da Guanabara, até que pudesse regressar com elas para Lisboa”.

Há lutas, porém, inevitáveis, na Bahia. Num desses episódios dolorosos, sacrificou-se a valorosa e querida Joana Angélica, que hoje, do mundo espiritual, derrama sobre todos nós a ternura do seu coração afetuoso em mensagens repassadas de amor ao Mestre.

Nesse ínterim, o centro nevrálgico do movimento desloca-se para São Paulo, onde também se reúnem os trabalhadores invisíveis, no Colégio de Piratininga, sob a direção de Ismael.

Ultimavam-se as providências para formalizar a separação.

Entende Ismael que a independência do Brasil já se encontrava definitivamente proclamada, e que desde 1808 “ninguém lhe podia negar ou retirar essa liberdade”. Mas eram precisos um gesto histórico e uma data. Tiradentes é mais uma vez chamado à ação direta, com a incumbência de acompanhar D. Pedro no seu regresso ao Rio. De São Paulo deveria partir o brado libertador. “O grito da emancipação” — diz Ismael — “partiu das montanhas e deverá encontrar aqui o seu eco realizador.”

Em seguida, a vasta assembleia espiritual entra em prece “pelo bem do Brasil”.

Tiradentes segue atentamente a figura do Príncipe, até o ponto em que “ele deixa escapar o grito de ‘Independência ou Morte!’, sem suspeitar de que era dócil instrumento de um emissário invisível, que velava pela grandeza da pátria”.

“Eis por que” — prossegue Humberto — “o 7 de setembro, com escassos comentários da história oficial que considerava a independência já realizada nas proclamações de 1º de agosto de 1822, passou à memória da nacionalidade inteira como o Dia da Pátria e data inesquecível da sua liberdade. Esse fato, despercebido da maioria dos estudiosos, representa a adesão intuitiva do povo aos elevados desígnios do mundo espiritual.”

Era, pois, o toque pessoal de Tiradentes na formalização da Independência do Brasil.

*

A proclamação, no entanto, era apenas o começo da obra gigantesca que se impunha aos seres encarnados e desencarnados incumbidos da formação da nacionalidade brasileira. Era preciso, agora, consolidar a obra, dar uma estrutura política ao país, contornar as tendências separativistas, estabelecer relações internacionais, criar, enfim, as bases da jovem nação. Foi inestimável, nesse momento, a experiência e a clarividência do velho Andrada. Ele também voltaria em outra vida, como Ruy Barbosa, para consolidar a República, como consolidara o Império. As paixões, porém, estavam exaltadas e curto seria o reinado de D. Pedro I, que continuava a experimentar as pressões da Corte Portuguesa.

Ismael sonda o futuro e busca novamente apoio na sabedoria infinita de Jesus. Era preciso encontrar um espírito sábio, tranquilo e esclarecido para prestar os serviços de que necessitava a nova Nação. A tarefa é difícil e de imensa responsabilidade, porque muita coisa no futuro haveria de depender daquele começo de vida. Jesus manda chamar à sua presença um Espírito muito chegado ao seu: Longinus. Expõe-lhe o problema e lhe pergunta:

— Sente-se o teu coração com a necessária fortaleza para cumprir uma grande missão na Pátria do Evangelho?

Longinus, mergulhado em “expectativa angustiosa e refletida esperança”, declara-se disposto a servir e acrescenta:

— Muitas existências de dor tenho voluntariamente experimentado para gravar no íntimo do meu espírito a compreensão do vosso amor infinito, que não pude entender ao pé da cruz dos vossos martírios no Calvário, em razão dos espinhos da vaidade e da impenitência, que sufocavam, naquele tempo, a minha alma. (Grifos meus.)

Era, pois, um companheiro da primeira hora, mas sentia que havia falhado no seu testemunho e estava ansioso por recompor-se perante seu Grande Amigo. Está pronto. Jesus lhe assegura que se a missão for bem cumprida “constituirá a tua última romagem pelo planeta escuro da dor e do esquecimento”. Sem dúvida alguma, a tarefa é dura, mas o prêmio é enorme. “A autoridade, como a riqueza” — diz-lhe o Cristo —, “é um patrimônio terrível para os espíritos inconscientes dos seus grandes deveres.”

Renasceu Longinus a 2 de dezembro de 1825, para um longo reinado e uma longa existência. Tomou o título de D. Pedro II, mas gostava de assinar-se apenas Pedro de Alcântara, como qualquer cidadão de seu país.

Assim, poderia ele sair-se bem do encargo ou falhar. Mas quem era Longinus? A Britânica informa que Cassius Longinus viveu entre os anos 213 e 273 da nossa era. Era retórico e crítico de Filosofia. Não se sabe ao certo a origem do nome Cassius que acrescentou ao nome; supõe-se que o adotou de algum patrono romano. Nasceu, provavelmente, em Emesa (Homs), na Síria, terra de seu tio Fronto, um retórico. Estudou em Alexandria, com Orígenes, o pagão, e lecionou durante trinta anos em Atenas.

Gozou de enorme reputação pelo seu saber. Porfírio dizia que ele era “o primeiro dos críticos”, e Eunapius chamou-lhe “biblioteca viva e museu ambulante”. Numa visita ao Oriente, lecionou grego e tornou-se conselheiro de Estado de Zenóbia, rainha de Palmira.

Foi graças à sua orientação que Zenóbia articulou a recuperação da independência de seu país, mas o movimento foi esmagado por Aureliano. Zenóbia, que seria levada a Roma para a humilhação do desfile no triunfo de Aureliano, foi resgatada pelo seu Conselheiro. Longinus deixou obra extensa e variada, mas da qual pouca coisa sobreviveu. Um dos livros a ele atribuído é uma espécie de manual prático para estudantes: sugestões para inventos, arranjos de frases, estudos sobre estilo, testes de memorização etc. Como D. Pedro II, fundou o Colégio Pedro II, sementeira de homens ilustres há mais de século. Gostava mesmo de ir lá, às vezes, arguir os alunos, como simples mestre-escola visitante, reproduzindo inconscientemente seu antigo trabalho de professor na velha e lendária Atenas.

Seu reinado foi longo e pacífico. Apenas uma vez deixou-se envolver em conflitos sérios, com a Argentina e o Paraguai. É, por isso, advertido docemente pelo próprio Mestre. Após uma prece no seu oratório particular, o Imperador parece adormecer e em espírito é levado à presença de Jesus, “que lhe fala como nos maravilhosos dias da ressurreição, após os martírios indizíveis do Calvário.” (Grifo meu.) O Senhor o adverte com brandura e amor:

— Pedro, guarda a tua espada na bainha, pois quem com ferro fere, com ferro será ferido. A tua indecisão e a tua incerteza lançaram a Pátria do Evangelho numa sinistra aventura.

Parece Jesus falando novamente a Pedro, que acaba de decepar a orelha de Malcus...

*

É assim que os poderes espirituais fazem a História, escrevendo-a primeiro na memória e no coração dos seres que devem, por assim dizer, materializá-la no plano humano. Há falhas, às vezes, porque os espíritos não são constrangidos; são convidados. Fica-lhes o livre-arbítrio e, por isso, estão sujeitos a deslizes que podem retardar o programa, mas nunca invalidar o objetivo superior traçado no mundo espiritual. No Brasil, a tarefa tem sido realizada com inexcedível carinho e sucesso. O país permaneceu unido na geografia, na língua, nos costumes, nas tendências de seu povo generoso. As tentativas de assalto desfechadas pelos poderes estrangeiros sempre encontraram aquela barreira de luz de que falou o Cristo. As grandes transformações políticas realizam-se tradicionalmente sem sangue, indicando o seguro poder orientador que tudo supervisiona e prevê. A grande meta continua a ser a educação do povo, insistentemente lembrada pelos Guias da nossa nacionalidade.
O maior problema é o da educação nacional, para que os filhos das outras terras, necessários e indispensáveis ao progresso econômico da nação, não se sintam dispostos a reviver, no Brasil, as taras de suas antigas organizações, e sim absorvidos no círculo espiritual do Evangelho, e possam integrar as suas fileiras de fraternidade e evolução. 

É o que diz Humberto à página 235 do seu notável livrinho [pág. 210 da 33a edição]. E mais adiante:

No Brasil, a chamada contribuição estrangeira é indispensável; e o único recurso contra a incursão do elemento nocivo e ameaçador da estabilidade das instituições brasileiras é a educação ampla do povo, em cujos labores sagrados deveriam viver todos os programas do bom nacionalismo. (Grifos meus).
Temos, portanto, excelente matéria-prima humana. Não precisamos importar cultura, pois aqui mesmo estão aqueles que podem e devem e querem criar uma cultura nova, matriz genial de que outros povos se utilizarão no futuro. As novas estruturas do pensamento, já planejadas para o Brasil, serão sínteses de conhecimento e moral, realizando, afinal, o ideal da ciência iluminada pelas doces claridades do Evangelho de Jesus.

Hermínio C. Miranda do livro:
Reencarnação e Imortalidade

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Nos bastidores da obsessão

Nos bastidores da obsessão

Hermínio C. Miranda



Todos aqueles que conhecem razoavelmente bem a Doutrina Espírita sabem dos terríveis dramas da obsessão que atormentam verdadeiras multidões de Espíritos encarnados e desencarnados.

Poucas vezes, no entanto, nos é oferecida a oportunidade de penetrar nos desvãos escuros dos processos obsessivos, nos seus mecanismos, nas suas motivações, nas suas consequências, bem como nos recursos que podem ser empregados para livrar da aflição e da angústia seres que se prendem uns aos outros pelas escuras cadeias do ódio. Aqueles que admitem a vida apenas como um punhado de anos mal vividos entre berço e túmulo nem sequer suspeitam da extensão e complexidade do problema, do qual conhecem apenas a face visível, ostensiva. Mesmo a ciência oficial, a despeito de um século de estudos e de pesquisas realizadas no campo da fenomenologia espírita, praticamente ignora a obsessão.

Cuidando dos efeitos, raramente atinge as raízes, as causas dos problemas humanos por ela suscitados. E por isso, aí estão os desafios permanentes das psicoses, da alienação mental, do abuso das drogas, das taras sexuais, do alcoolismo, terríveis efeitos de causas muito mais profundas e tenebrosas implantadas e impulsionadas até às suas últimas consequências por seres humanos protegidos pela invisibilidade e pela ignorância dos homens.

Aqui e ali aparecem médicos, como o famoso Dr. Carl Wickland ou Denys Kelsey, que não apenas descobrem o mecanismo da obsessão — confirmando os ensinamentos da Doutrina Espírita —, como aprendem a tratar dessa mazela espiritual, investigando, como é certo, as causas provocadoras até chegarem aos Espíritos que as precipitam. Não é com drogas, nem com choques elétricos, nem com terapêutica psicanalítica que se resolvem essas aflitivas doenças espirituais. A utilização consciente dos métodos espíritas poderia libertar parte considerável da imensa e crescente população dos hospitais psiquiátricos, bem como multidões incontáveis de atormentados que vagueiam pelas ruas em variados estados obsessivos. Entre esses, encontramos desde aqueles que de tão afetados não têm condições nem de articular coerentemente o pensamento, até os que, embora afligidos por perseguições inomináveis, conseguem, de certa forma e à custa de tremendo esforço, levar uma aparência razoável de vida, executando normalmente sua parcela de trabalho na coletividade. Nesse meio, quanta dor escondida, quanta tragédia oculta, quanta angústia envergonhada...

Suas causas? São muitas. Seria de estarrecer uma coleta estatística que por certo revelaria a esmagadora incidência de vinganças pessoais desencadeadas por antigos desafetos, ou casos de influência egoísta de Espíritos que, presos aos sofrimentos, entendem que também os que ficaram estão obrigados a sofrer por solidariedade. Em muitos desses Espíritos doentes, vamos encontrar o traço comum do desconhecimento total das leis que regulam o nosso procedimento. Em outros, para surpresa nossa, verificamos estarem familiarizados com as regulações do mundo espiritual, o que os torna especialmente perigosos e bem equipados para a prática dos processos obsessivos.

Tudo isso, minuciosamente pesquisado e explicado, encontramos no livro Nos bastidores da obsessão, que o Espírito Manoel Philomeno de Miranda ditou ao nosso querido Divaldo Pereira Franco e que a Federação Espírita Brasileira acaba de lançar numa daquelas suas bem cuidadas edições. (Em referência ao texto e livro publicados em 1971 - nota nossa)

É uma pena, realmente, que a literatura mediúnica — especialmente desse nível — continue tão ignorada do grande público leitor, fora dos meios espíritas. Os fatos narrados — e são realmente fatos e não ficções — passaram-se no decorrer dos anos de 1937 e 1938 lá mesmo na Bahia, onde Divaldo psicografou o livro. O autor espiritual ainda se encontrava encarnado e servindo ao lado de outro valoroso e dedicado companheiro: José Petitinga.

Manoel Philomeno aguardou seu retorno ao mundo espiritual para estudar em todos os seus pormenores a trama dolorosa que ajudara a desfazer enquanto ainda encarnado. É certo que, mesmo conhecendo o lado ostensivo do drama espiritual, faltavam-lhe alguns elementos complementares e esclarecedores para que a narrativa guardasse todo o seu impacto e ao mesmo tempo sua autenticidade. Algumas das personagens reais desse drama real ainda permanecem na carne e, por escrúpulos compreensíveis, o autor espiritual quis evitar que fossem identificadas.

Muito sabiamente, o Espírito comunicante faz preceder a história propriamente dita de uma introdução esclarecedora, dividida em três partes distintas: um “Exórdio” explicativo, no qual o autor declara que “diante dos lancinantes problemas da obsessão na atualidade, tem-se a impressão de que nada até o momento haja sido feito a fim de ser modificado esse estado de coisa”. E, no entanto, desde que Kardec lançou a Doutrina Espírita, quantas realizações, quantos estudos, quanta pesquisa, quanta documentação que a ciência oficial continua teimosamente a ignorar, enquanto milhões de seres gemem aflições que nem mesmo conseguem entender.

Nos “Prolegômenos” é feito um breve relato histórico acerca do fenômeno mediúnico, pelo qual a todo instante, através do tempo, os espíritos dos “mortos” vêm atestar a sua própria sobrevivência. Finalmente, no texto “Examinando a obsessão” o autor apresenta um estudo doutrinário extremamente lúcido e útil tanto àqueles que já têm algum conhecimento da Doutrina como para os leigos. Dessa forma, qualquer pessoa razoavelmente esclarecida, mesmo sem estudo aprofundado do Espiritismo, pode beneficiar-se dos conhecimentos que os fatos relatados vão revelando ao longo de todo o livro.

Por isso, a narrativa mesma somente começa no capítulo 1 do livro.

Ângulos insuspeitados dos processos obsessivos começam a desdobrar-se diante dos nossos olhos à medida que a história se revela nos seus intrincados meandros. Lá está a grande luta da vida, nos seus diversos setores e nos dois planos da existência: ódios que geram vinganças, angústias que clamam por socorro, dedicações que redimem.

E assim como há equipes voltadas para o bem, tentando libertar tantos seres acorrentados às suas dores, vemos que há também organizações bem estruturadas, dirigidas com mão de ferro e inteiramente consagradas à prática de espalhar aflições. Assistimos estarrecidos ao funcionamento de uma instituição dessas, sob a direção do Dr. Teofrastus, espírito altamente inteligente, experimentado e conhecedor das leis do mundo espiritual, às quais desobedece deliberadamente, com o intuito não apenas de saciar suas paixões pessoais de vingança como ainda de instruir outros para também saciarem com rigor e conhecimento os seus ódios.

Teofrastus, por certo, não ignora as responsabilidades que assume, nem desconhece a extensão e gravidade dos compromissos que subscreve para futuro resgate. Nem por isso, no entanto, recua diante da tarefa a que se impôs livremente e que exerce com a prepotência de um soberano impiedoso na administração absoluta de seus domínios.

Como, então, subtrair alguém da influência desse homem que o crime endureceu e que conta com uma organização rígida ao seu dispor? Até mesmo o acesso às regiões tenebrosas onde opera é difícil e arriscado: tudo é vigiado; os desconhecidos são examinados e mantidos sob suspeita, num ambiente opressivo de angústias indefiníveis. É preciso, no entanto, encontrar uma brecha nas muralhas de ódio que cercam o poderoso mago, para que a luz penetre na sua alma. Dedicadíssimos benfeitores espirituais descobrem-na afinal. A
fórmula mágica e infalível é, como sempre, o amor. Numa pobre criatura que sofre horrores na carne, identificam os mensageiros do Bem a secular paixão de Teofrastus. Somente quando o impiedoso diretor das trevas recebe o impacto da dor, ao ver a bem-amada sob a angústia da perseguição espiritual, é que começa a compreender a extensão da sua própria tragédia íntima e da inutilidade do seu programa de trabalho.

A trama começa a desenovelar-se pouco a pouco, libertando-se das suas aflições tanto perseguidos como perseguidores. Só daí em diante os conflitos começam a resolver-se em processos reencarnatórios, pelos quais antigos desafetos se reencontram sob as bênçãos de novos lares constituídos na Terra.

*

Quanto à história, em si, seria impraticável resumi-la numa apreciação sumária como esta; julgo, no entanto, oportuno destacar um episódio do relato, ocorrido do lado de cá da vida.

José Petitinga, venerável figura do Espiritismo na Bahia, subira à tribuna para uma palestra evangélica. Estudava-se O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e o texto do dia era a mensagem intitulada “Perdão das ofensas”, ditada em Bordeaux, em 1862, por um Espírito que assinou apenas Simeão.

Numa das pausas da dissertação de Petitinga, entrou pela sala um pobre homem atormentado, evidentemente sob o controle de um Espírito infeliz, o qual bradou ruidosamente:

— Hipócrita! Quem és para pregar? Imperfeito como tu, como te atreves a falar da verdade e ensinar pureza, possuindo largas faixas de desequilíbrio íntimo, que ocultas dos que te escutam? Dize!

Caiu sobre todos na sala um pesado constrangimento. Petitinga, sob forte emoção, fitou o pobre homem e declarou com humildade:

— Tens toda a razão e eu o reconheço. O tema em pauta, hoje, que o caro irmão não ouviu, se refere exatamente ao “Perdão das ofensas”...

Mas o Espírito não estava disposto a ouvir e acusou-o de tentar escapar covardemente.

— Refiro-me às condições morais de que se devem revestir os que ensinam ao que chamas a verdade, e que te faltam... Desafio-te a que abandones a tribuna religiosa ou abandones a vida que levas...

Não era possível continuar o duelo verbal diante da assistência
atônita e que conhecia muito bem as claras virtudes pessoais do bondoso pregador espírita.

Voltando-se, então, para o público, Petitinga fez longa, humilde e serena confissão daquilo que, a seu ver, constituía suas deficiências espirituais. Falou das lutas íntimas que experimentava, tentando melhor servir à causa que abraçava. Que persistiam no seu espírito arestas ásperas que procurava eliminar. Que ainda lhe pesava um passado sombrio de erros. Mas que jamais abandonaria o serviço do Mestre só porque tinha “as mãos impróprias”, pois que por toda parte nascia a erva daninha e escasseavam obreiros. Que preferia “ser enfermo ajudando doentes” a ficar na ociosidade, esperando tornar-se bom para então trabalhar pelo próximo. E depois de desfiar todas as suas fraquezas humanas, concluiu com uma prece: 
“Perdoa-me, Senhor, na imperfeição em que me demoro e ajuda-me na redenção que persigo...”.
A essa altura, a tensão do ambiente era insuportável e Petitinga deixava correr suas lágrimas. Subitamente, o Espírito
invasor atira o seu médium ao chão e pede perdão a Petitinga, em altos brados, vencido pela humildade cristã do velho pregador.

Petitinga desceu da tribuna para socorrer com o poder da prece comovida o Espírito arrependido que antes lhe dizia palavras tão duras e injustas.

Pouco depois o médium despertou para a realidade que o cercava, sem saber o que se passara naqueles momentos dramáticos.

Que estava fazendo ali? Petitinga esclareceu-o em poucas palavras e retornou à tribuna para prosseguir sua preleção, como se nada houvesse acontecido.

Hermínio C. Miranda do livro:
Reencarnação e Imortalidade

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

A Redescoberta da Reencarnação

A Redescoberta da Reencarnação

Hermínio C. Miranda



Quando se fizer, no futuro, um levantamento dos grandes equívocos do pensamento humano, um deles avultará de maneira singular entre os maiores: o abandono da doutrina da reencarnação. Creio não exagerar ao dizer que larga parte das mazelas que assolam a civilização moderna se deve ao desconhecimento dessa ideia tão simples e de tão importantes consequências morais para todo ser humano.

Não deixa de ser curiosa essa atitude, porque não apenas a ideia vem sendo trazida aos homens com insistência, como os mensageiros dessa doutrina têm sido as figuras mais representativas da classe pensante da Humanidade. Mesmo que faltassem outros reencarnacionistas eminentes, na Filosofia e no pensamento teológico, não bastaria citar Platão? Há, porém, Pitágoras, Menandro, Plotino, para lembrar apenas os maiores e uns poucos deles entre os gregos, sem necessidade de recorrer à galáxia de pensadores latinos. De tempos em tempos, outros vultos respeitáveis também manifestaram sua adesão a essa ideia que resolve com lógica irrefutável tantos conflitos morais e filosóficos.

Por isso, ao contrário do que muita gente poderia pensar, não foi o Espiritismo que lançou a doutrina da reencarnação. Kardec adotou-a por sentir nela a força de uma lógica irrespondível. Aconteceu, porém, uma coisa notável: as concepções proclamadas pelo Espiritismo sacudiam de tal maneira o convencionalismo religioso, científico e filosófico da época que quase todas as suas grandes ideias ficaram sob suspeita ou de quarentena. No entanto, como os fatos continuaram a se repetir com toda a gente — aqueles mesmos fatos que o Espiritismo estudara e explicara lucidamente —, os cientistas resolveram fundar uma ciência para examiná-los. E assim surgiu a Metapsíquica, na qual pontificou um grande cientista, o eminente professor Charles Richet, que apenas “namorou” aquilo a que ele chamava hipótese espírita, mas não se decidiu por ela francamente. Depois disso, voltou tudo ao esquecimento — abstraído um ou outro pesquisador mais corajoso —, até que o Dr. J. B. Rhine recomeçou tudo em 1930, já sob o nome de Parapsicologia. O campo de pesquisa, no entanto, é muito vasto e os métodos utilizados pelas chamadas ciências positivas nem sempre servem para pesquisar o Espírito. Ademais, os cientistas estão sempre recomeçando do bê-a-bá, isto é, da existência do Espírito. De pouco tempo a esta parte, retomaram o problema da sobrevivência sob o nome de função ou fenômeno THETA.

De sua parte, o professor Ian Stevenson resolveu reiniciar o estudo da reencarnação. O prof. Stevenson é médico e exerce o elevado e honroso cargo de diretor do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos.

Tenho aqui diante de mim o seu livro Twenty Cases Suggestive of Reincarnation (Vinte casos prováveis de reencarnação). A obra foi publicada com uma apresentação do prof. C. J. Ducasse, presidente da Comissão de Publicações da Sociedade Americana de Pesquisa Psíquica, sendo que o livro constitui o volume XXVI (setembro de 1966) dos famosos Proceedings da American Society for Psychical Research, custa US$ 6 (seis dólares) e tem 362 páginas.

O Dr. Stevenson possui uma coletânea de 600 casos, entre os quais selecionou os 20 desse livro, por apresentarem certas características em comum. Acha ele que os casos mais convincentes são os que emergem de lembranças espontâneas, especialmente em crianças que se recordam de existências anteriores. Já a pesquisa, em laboratório, se torna mais difícil porque quase sempre inibe a manifestação do fenômeno.

Na longa introdução ao seu livro, o prof. Stevenson descreve o seu método de pesquisa e os cuidados que colocou em examinar o assunto, a fim de evitar erros de julgamento que invalidassem os resultados. Investigou pessoalmente todos os casos que relata, tendo viajado, para isso, aos mais longínquos recantos do mundo para colher dados e informações. A sua seleção inclui os seguintes casos e países:
7 casos na Índia
3 no Ceilão
2 no Brasil
7 no Alasca
1 no Líbano
Na impossibilidade de examinar caso por caso, o que equivaleria praticamente a fazer um resumo traduzido do livro do prof. Stevenson, vamos resumir apenas um e comentar outro.

*

O caso de William George Junior, do Alasca, pareceu-me mais adequado para esta apresentação, pelas características que reúne, fazendo lembrar vários outros, porque não apenas inclui memória espontânea de uma existência anterior, como ainda a previsão da seguinte, até mesmo com sinais físicos de identificação.

William George (pai) era um famoso pescador do Alasca que acreditava na reencarnação como quase todos os membros mais idosos de sua gente — os índios Tlingits. Parece, no entanto, que nos últimos anos de sua vida começou a experimentar algumas dúvidas acerca da validade dessa doutrina, ao mesmo tempo em que sentia forte desejo de renascer após a morte. Dizia frequentemente à sua nora que, se a reencarnação fosse um fato, ele voltaria a nascer como filho dela. Dizia ainda que ela o reconheceria pelos seus sinais corporais de nascença, como os que tinha. E mostrava dois sinais proeminentes de cerca de meia polegada de diâmetro cada. O primeiro ficava na altura do ombro esquerdo e o segundo na parte interna do antebraço, duas polegadas abaixo da dobra do cotovelo. No verão de 1949, William George, que contava então cerca de 60 anos, manifestou novamente o desejo de retornar à vida como filho de sua própria nora. Nessa ocasião deu ao seu filho um relógio de ouro que ganhara de sua mãe e lhe disse:

— Eu voltarei. Guarde esse relógio para mim. Serei seu filho. Se há mesmo alguma coisa nessa história de reencarnação, eu o farei.

O filho Reginald foi para casa e deu o relógio à sua esposa Susan, transmitindo-lhe o recado do pai. O relógio foi guardado numa caixa de joias, onde ficou cinco anos.

*

No princípio de agosto de 1949, poucas semanas depois desses acontecimentos, o velho George desapareceu de um barco que capitaneava, sem que os membros da tripulação tivessem visto qualquer coisa ou pudessem recuperar-lhe o corpo. Supõe-se que tenha escorregado, sendo levado pelas ondas.

Pouco depois, Susan George ficou grávida e, em 5 de maio de 1950, deu à luz um menino, 9 meses após a morte do seu sogro. Essa criança era a nona de seus dez filhos, pois ainda teve mais uma. Durante o parto ela sonhou que o sogro lhe apareceu e lhe disse que estava esperando seu filho para ver. O menino realmente nasceu com duas manchas pigmentadas nos locais exatos em que existiam essas marcas no corpo do seu avô. Deram-lhe o nome do velho: William George. A criança apanhou uma grave pneumonia com um ano de idade. Somente começou a falar de três para quatro anos. Gaguejava, mas depois conseguiu dominar essa dificuldade. Informa o prof. Stevenson que William George tem inteligência normal e ia bem na escola quando ele o entrevistou.

À medida que crescia, foi-se evidenciando a semelhança dele com o falecido avô. Os mesmos gostos e antipatias e as mesmas aptidões. Até mesmo um pequeno defeito no caminhar, que tinha o velho, transmitiu-se ao menino. Também gestos, posturas e expressões lembravam o avô. Por outro lado, o menino demonstrou, logo cedo, vasto conhecimento acerca de pescaria e barcos. Conhecia as mais piscosas baías e, pela primeira vez que subiu numa embarcação, já sabia manejar as redes. Tinha, porém, muito mais medo da água do que os meninos da sua idade e era mais sisudo e sensível que os companheiros.

Outras indicações, porém, ainda viriam. O menino somente se referia aos seus tios e tias como seus filhos e filhas, enquanto à sua tia-avó ele chamava irmã. Preocupava-se com dois “filhos” (tios na presente encarnação) que bebiam muito álcool. Os sobrinhos de seu pai atual (seu antigo filho) chamam-no, brincando, de avô, e ele nada tem a objetar.

William George Junior demonstrou sempre conhecimento de lugares e pessoas que, na opinião de sua família, vão além do que seria normal esperar-se de um menino de sua idade e que não poderia ter sido adquirido pelos recursos normais de aprendizado. O professor Stevenson dá uma lista desses fatos na tabulação que faz anexar a todos os casos que examina.

Finalmente, quando o garoto tinha quatro para cinco anos, sua mãe resolveu um dia examinar suas joias. Quando ela apanhou o relógio do sogro, o menino, que brincava noutro aposento, veio para o quarto e, notando o relógio que ela segurava, disse:

— Olha o meu relógio!

Agarrou-se ao objeto tenazmente, repetindo que era seu, e foi uma dificuldade convencê-lo a deixar guardá-lo novamente. Depois disso, gostava de mostrar aos parentes e amigos o “seu” relógio. As pessoas da casa asseguram que o relógio ficou na caixa durante cinco anos, desde julho de 1949, quando Reginald o deu a Susan para guardar, segundo instruções do velho George. Asseguram também que jamais conversaram com o menino acerca da história do relógio. Acham ainda que a identificação aconteceu por acaso, pois a senhora Reginald não tinha intenção de mostrá-lo ao menino. Simplesmente “aconteceu” que o menino entrou no quarto no momento exato em que ela estava com o relógio nas mãos, e foi o próprio garoto que tomou a iniciativa de falar, sem que a mãe lhe mostrasse o relógio ou sugerisse qualquer coisa. O prof. Stevenson visitou o Alasca quatro vezes, de 1961 a 1965. Informa que de uns tempos para cá o menino começou a esquecer-se da personalidade de seu avô. (O livro é de 1966.) É um menino normal e aparentemente evita falar sobre o assunto. O professor não pode dizer se o seu retraimento se deve à timidez diante dele ou ao fato de estarem as lembranças mais esmaecidas.

Como em todos os casos que examina, o prof. Stevenson entrevistou várias pessoas relacionadas com os fatos e, depois de relatar o resultado dessas entrevistas, apresenta seus comentários, examinando as hipóteses que poderiam ser invocadas para explicar o caso, além da reencarnação. Uma dessas alternativas seria a simples transmissão genética, dado que o menino nasceu na mesma família em que vivera o avô.
Seria um erro descartar-se da questão como se somente a genética pudesse, na fase atual de conhecimento, explicar todos os seus aspectos. A genética pode apenas indicar a possibilidade de herança de marcas pelas gerações subsequentes. Não contribui, porém, para o nosso entendimento de como, no caso de William George Junior, somente uma criança, em dez na mesma família, teve marcas nos locais onde seu avô as tinha. A reencarnação, para a qual outras evidências não são particularmente fortes neste caso, oferece uma explicação para o fenômeno. Como já foi dito, a genética ajuda à compreensão das similaridades entre membros da mesma família; a reencarnação é a teoria capaz de explicar algumas diferenças entre membros da mesma família.
(Páginas 215 e 216.)
Mais abaixo, declara o professor que o defeito na perna que leva o menino a mancar quando caminha é explicado mais satisfatoriamente pela reencarnação.

Esse é o caso de William George Junior, do Alasca.

*

Vamos ver, a seguir, o caso de Jasbir, da Índia, pelas características especiais que o compõem.

Na primavera de 1954, o menino Jasbir, filho de Sri Girdhari Lal Jat, de Rasulpur, distrito de Muzaffarnagar, Uttar Pradesh,
morreu, segundo parece, de varíola. O pai saiu de casa para obter ajuda para o enterro, mas, como já era tarde, aconselharam-no a esperar pelo dia seguinte. O prof. Stevenson esclarece que é costume na Índia cremar os cadáveres, exceto de crianças menores de cinco anos, que costumam ser enterradas. Também as pessoas que morrem de doenças infecciosas são enterradas ou atiradas aos rios.

O pai do menino voltou para casa disposto a esperar pela manhã. Durante a noite, porém, notou que o corpo do menino começava a se mexer até que reviveu completamente. Alguns dias se passaram antes que o menino pudesse falar e algumas semanas decorreram até que se lhe tornou possível expressar-se com clareza. Quando isso aconteceu, demonstrou uma completa modificação de hábitos e de caráter.

Declarou, então, chamar-se Sobha Ram, filho de Shankar, da vila de Vehedi, e que desejava ir para lá. Recusava-se terminantemente a comer qualquer alimento na casa onde estava, porque ele pertencia à classe mais alta, a dos brâmanes. Sua posição diante do problema era tão radical que teria morrido de fome se uma senhora brâmane não tivesse tido a bondade de lhe preparar alguns alimentos de acordo com as normas da sua casta. Durante cerca de ano e meio o menino alimentou-se dessa maneira. Seu pai fornecia à senhora brâmane os ingredientes necessários. Às vezes, porém, a família o enganava, dando-lhe comida feita à maneira das classes mais pobres, e o menino ficava furioso. Ante a pressão da família, no entanto, acabou cedendo e comendo junto com os demais membros da casa. O período de resistência durou cerca de dois anos.

Nesse ínterim, Jasbir comunicava aos pais pormenores de sua vida anterior, na vila de Vehedi. Informou que durante uma festa de casamento, indo de uma vila para outra, comeu alguns doces envenenados e acrescentou que os doces lhe foram dados por um homem que lhe devia certa importância em dinheiro. Ficou tonto e caiu da carruagem em que viajava, sofrendo uma fratura na cabeça, do que veio a falecer algumas horas depois.

O pai do menino, segundo informou ao prof. Stevenson, tentou dissuadir o filho daquelas fantásticas histórias, evitando falar do assunto com quem quer que fosse. A narrativa, porém, acabou por tornar-se do conhecimento público, especialmente sua recusa em comer alimentos que não fossem preparados à maneira brâmane.

Uma senhora brâmane, chamada Shyamo, de Rasulpur, e que se havia casado com Sri Ravi Dutt Sukla, de Vehedi, vinha ocasionalmente — a intervalos de vários anos — a Rasulpur, onde vivia Jasbir. Numa dessas visitas à cidade, em 1957, Jasbir a reconheceu, chamando-lhe “tia”. De volta a Vehedi, ela narrou o incidente à família de seu marido e à família Tyagi. Os pormenores da morte, alegados pelo menino Jasbir, coincidiam com os fatos acontecidos com um jovem de 22 anos, chamado Sobha Ram, filho de Sri Shankar Lal Tyagi, de Vehedi. Sobha Ram morreu em maio de 1954 num acidente de carruagem, tal como narrado por Jasbir. A família Tyagi, no entanto, nada sabia sobre o alegado envenenamento nem sobre seu devedor. Depois de tomar conhecimento desses fatos, a família passou realmente a suspeitar de morte por envenenamento.

Mais tarde, Ravi Dutt Sukla, marido da Sra. Shyamo, visitou Rasulpur e ouviu os relatos sobre Jasbir e conversou com o menino. Depois, a família de Sobha Ram, inclusive seu pai, foi a Rasulpur visitar o menino, que os reconheceu a todos e os colocou na ordem correta de parentesco. Jasbir foi levado à vila de Vehedi e, ao desembarcar na estação, lhe foi pedido que orientasse os demais até o “quadrângulo” da família Tyagi. Explica o prof. Stevenson, em nota ao pé da página, que as famílias de recursos, na Índia, possuem, além da residência propriamente dita, uma construção com vários cômodos e um terreiro, onde se reúnem os membros masculinos da família, numa espécie de sala de estar ao ar livre. O quadrângulo, às vezes, fica distante da casa de família. Pois bem, Jasbir levou todo o pessoal para o quadrângulo da família Tyagi. Mais tarde, Jasbir foi levado à casa de Ravi Dutt Sukla e, de lá, por um roteiro diferente, soube ir à casa da família Tyagi, onde vivera como Sobha Ram. Permaneceu alguns dias na cidade, onde demonstrou a todos o conhecimento pormenorizado da vida de Sobha e da família Tyagi e seus negócios. Divertiu-se muito e foi com relutância que voltou à vila de Rasulpur, onde vivia agora. Sentia-se isolado em Rasulpur e gostaria de ficar para sempre em Vehedi.

O prof. Stevenson visitou essas duas cidades, em 1961, e lá voltou em 1964, para conferir os fatos que colhera da sua primeira visita, inclusive entrevistando novas pessoas e com novos intérpretes, ou conferindo informações com pessoas que já entrevistara da outra vez. Isso demonstra o cuidado com que conduz o seu trabalho e o interesse em apresentar todos os fatos relacionados com cada caso.

Diz o Dr. Stevenson que, nos demais casos que estudou, “a personalidade anterior morreu alguns anos antes do nascimento da atual personalidade. O intervalo varia, mas a média, nos casos indianos, é de 5 a 10 anos. O caso presente” — continua ele, referindo-se a Jasbir — “possui a característica incomum de a personalidade anterior, com a qual a pessoa ficou identificada, somente ter morrido cerca de três anos e meio depois do nascimento do ‘corpo físico da personalidade atual’”. (Grifo e aspas no original, págs. 33 e 34.)

O livro do prof. Stevenson é um repositório precioso de estudos e de informações colhidas com toda a seriedade, a favor de uma nobre doutrina que ele, cautelosamente, ainda considera uma hipótese de trabalho, se bem que a mais viável. (Veremos suas conclusões mais adiante.) Acho, porém — e creio que a maioria dos espíritas conhecedores de Kardec concordará comigo —, que o caso de Jasbir não se enquadra na doutrina reencarnacionista. A admiti-la no caso, teríamos que aceitar a hipótese incongruente de que um só Espírito animara dois corpos durante cerca de três anos e meio: o de Sobha Ram, um jovem adulto, e do menino Jasbir, em cidades diferentes e sob diferentes condições de vida. Perguntado a respeito do que lhe acontecera depois que morreu como Sobha
Ram, o menino respondeu que, depois de morto, encontrou-se com um Sadhu (homem santo), que o aconselhou a tomar conta do corpo de Jasbir, filho de Girdhari Lal Jat. Em 1964, quando o Dr. Stevenson visitou a Índia, esses acontecimentos já se tinham esmaecido na memória do menino.

Creio que a hipótese de um Espírito abandonar um corpo definitivamente, pela morte, e outro Espírito tomar posse do cadáver e reanimá-lo é também fantástica e altamente improvável. No meu entender, resta uma hipótese: o Espírito de Sobha Ram, recém-desencarnado, conseguiu fascinar o Espírito de Jasbir que, embora morto, conservava ainda suas ligações fluídicas com o corpo físico, e juntos empreenderam o processo de reanimação, do qual emergiu a personalidade de Sobha e não a de Jasbir. Mas qual o papel de Jasbir no caso? Trata-se de uma possessão? Acho, de qualquer maneira, que este não pode ser relacionado como um caso de reencarnação. Ao que sabemos, o Espírito somente se liga ao corpo físico através do processo da gestação, em que vai colhendo o material e montando, célula por célula, o seu organismo físico. Espero que algum confrade mais esclarecido tenha sobre o assunto melhor juízo.

O prof. Stevenson escreve as últimas 63 páginas do seu livro para examinar as diferentes hipóteses e concluir seu trabalho. A leitura desse capítulo, que denominou “General Discussion” (“Discussão geral”), é muito interessante. Uma a uma vai examinando e afastando as hipóteses de fraude, de criptomnésia, de memória genética, de percepção extrassensorial e de personificação. Muito embora algumas dessas hipóteses possam ser aplicadas a alguns casos, não têm elas o caráter de universalidade exigido pelos critérios científicos; ou seja, não explicam todos os fatos. Eliminadas essas, passa o professor às duas hipóteses temíveis da sobrevivência e da reencarnação. Faz uma distinção entre reencarnação e possessão espiritual, apoiado nos melhores textos de Hodgson, Hyslop, Myers, Prince, Osty, Tyrrell, Gabriel Delanne, Flournoy e Ducasse (seu prefaciador). Também a obra de Kardec não lhe é estranha, pois a cita quando reporta os casos de Marta e Paulo Lorenz, os seus dois
relatos brasileiros. 

Acha ele, na pior hipótese, que os casos autênticos dessa natureza constituem “importante contribuição à evidência em favor da sobrevivência, de vez que não podemos facilmente explicá-las à base da percepção extrassensorial entre os vivos”. (Pág. 318.) Se o fenômeno estivesse escorado na ESP (Extra Sensorial Perception), por que razão então as crianças têm conhecimento paranormal daquela personalidade específica e das que com ela se relacionam e não manifestam essa faculdade em nenhuma outra situação de suas vidas? Por que os pais dessas crianças, que poderiam transmitir-lhes a informação por via telepática ou parapsicológica, não revelam essas faculdades com relação a outras pessoas e a outros acontecimentos?

Examinando reencarnação e possessão, o prof. Stevenson elimina também a possessão, que não explicaria uma série de casos constantes de seus arquivos. Isso nos leva à doutrina da reencarnação, mas o prof. Stevenson ainda não se sente preparado para proclamá-la alto e bom som. Prefere uma conclusão cercada de cuidados, em apoio da sobrevivência do Espírito. Declara que os casos de sua coletânea demonstram que as personalidades atuais apresentam certas características que não podem ter herdado e nem desenvolvido na presente existência. “E, em alguns casos, essas características coincidem com feições correspondentes e específicas de uma personalidade morta e identificável. Em tais casos temos, assim, em princípio, acredito eu, alguma evidência em favor da sobrevivência humana após a morte física.” (Grifos meus ao texto original contido nas páginas 353 e 354 da obra citada.)

Compreendemos as cautelas do prof. Ian Stevenson que, em grau maior ou menor, são comuns a todos os cientistas sérios. Já houve progressos significativos na evolução do pensamento acadêmico. Há alguns anos, um professor universitário da categoria do Dr. Stevenson, que se dedicasse a esses problemas, estaria com sua reputação seriamente ameaçada. Hoje continua sendo um respeitado cientista, interessado num problema grave e que encontra verbas consideráveis à sua disposição. É fácil fazer profecias nestes casos, leitor: a reencarnação vai ser a maior redescoberta deste fim de século e fim de milênio. Estamos cada vez mais perto de proclamar essa verdade de tal maneira conclusiva e com tal segurança que a prova será monolítica, indestrutível. Tenhamos um pouco mais de paciência.

Hermínio C. Miranda do livro:
Reencarnação e Imortalidade

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- Se você gostou da mensagem e tem possibilidade, adquira o livro ou presenteie alguém, muitas obras beneficentes são mantidas com estes livros.

- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.