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terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Amor e compreensão

Amor e compreensão

Joanna de Ângelis


A compreensão que o amor propicia conduz à solidariedade nos momentos difíceis.

O amor que não compreende expressa interesse pessoal, que se projeta noutrem, não sendo o que pretende.

Quando se ama realmente, a compreensão das dificuldades e falhas do outro apresenta-se como natural, destituída de ambição retributiva. Essa compreensão é rica de doação de afeto espontâneo, que descobre o outro conforme é, não lhe exigindo modificações que ainda não pode operar, nem encontrar-se em níveis de elevação espiritual que faltam ser conseguidos. Como consequência, ninguém pode obrigar que outrem o ame, não obstante seja o seu um grande amor e, por isso, despido da paixão que objetiva alterar o comportamento do ser amado.

Desse modo, em qualquer faixa de amor, a compreensão deve assinalar todos os passos de conquista, em constante ascendência.

O amor ilumina e harmoniza.

É a alma da felicidade que preenche todos os espaços e aspirações do ser humano.

As pessoas esvaziadas e perturbadas pelas posses externas acreditam que a felicidade reside na sucessão das glórias que o poder faculta e nos recursos que amealha.

Ledo equívoco, porque o tormento da posse aflige e impulsiona a sua vítima a logros cada vez mais desmedidos, reduzindo-lhe a existência a uma busca sem fim.

Narra-se que o sábio Sólon, grande magistrado de Atenas, visitando o rei Creso, da Lídia, considerado o homem mais rico do seu tempo, foi convidado a conhecer-lhe o suntuoso palácio, contemplar suas joias e outros tesouros, seus magníficos jardins e participar de um banquete especialmente preparado para o homenagear.

Terminado o repasto incomum, Creso, autodeslumbrado pelo narcisismo que o caracterizava, perguntou ao nobre visitante:

— Qual o homem mais feliz do mundo?

Aguardava ser apontado e prelibava a satisfação, quando ouviu, algo decepcionado, a resposta do erudito visitante:

— Recordo-me de um homem pobre que morava em Atenas, chamado Telus que, na minha opinião, era o homem mais feliz do mundo.

— E por quê? – indagou, frustrado, Creso.

— Bem, porque era honesto, havendo trabalhado por toda a vida, a fim de criar os filhos com dignidade, oferecendo-lhes correta educação. E quando se encontrava mais velho, ao invés de receber a retribuição dos filhos, ofereceu-se ao exército, doando a vida em defesa da sua cidade.

— Haveria outrem – volveu, Creso, à interrogação – que o pudesse seguir como a segunda pessoa mais feliz do mundo?

Houve um silêncio constrangedor em face da expectativa que o rei exteriorizava, de ser apontado pelo sábio, o que não ocorreu.

Logo após, Sólon redarguiu:

— Conheci dois jovens em Atenas que, ficando órfãos na infância, trabalharam com persistência, honorabilidade, e mantiveram o lar pobre com dignidade, incluindo a genitora que era muito doente. Quando ela morreu ofereceram sua vida a Atenas, a fim de a servirem com dedicação e desapego até a própria morte.

Novo desencanto do ambicioso, que indagou, irritado:

— Como é possível ser superado por essa gente pobre, eu que tenho tanto poder e riqueza?

Sem qualquer ressentimento, Sólon encerrou a entrevista, afirmando:

— Ninguém há que possa dizer que sois feliz ou desditoso antes da vossa morte, porquanto ninguém pode imaginar os infortúnios de que se pode ser vítima, de um para outro momento, ou a tristeza que sempre espia os venturosos e os vence.

Anos mais tarde, Creso foi vencido por Ciro, rei dos persas, e por pouco não morreu, tornando-se-lhe vassalo submisso.

A felicidade independe do que se tem momentaneamente, mas sim daquilo que se é, estruturalmente constituído pelo amor.

Essa compreensão que o amor propicia conduz à solidariedade nos momentos difíceis, nas grandes dores, na solidão e na amargura que periodicamente afligem todas as criaturas.

Em ocasiões de sofrimento superlativo, o amor apresenta-se solidário, em várias expressões de compreensão do que ocorre, auxiliando sem exigência, participando da aflição, erguendo o ânimo e sustentando antes que a adversidade alucine a sua vítima.

Sem a necessidade dos gestos grandiosos, manifesta-se nos pequenos acontecimentos e situações que alimentam aquele que se encontra combalido e o erguem de volta ao lugar onde deve encontrar-se, de forma a poder prosseguir e superar o incidente infeliz.

Nas tragédias, aparece gentil, impossibilitando que o outro sucumba ante o peso da amargura e do dissabor excessivo.

Além da compreensão solidária, emerge em todos os momentos como forma de gratidão pela vida e suas manifestações, nas expressivas como nas singelas formas em que se apresenta.

Enquanto a pessoa não experimenta o suave envolvimento do amor, movimenta-se nas heranças dos desejos, nos cipoais dos instintos, sofrendo sempre quando os seus interesses não se encontram atendidos e suas aspirações não são respeitadas.

Lentamente, porém, à medida que as dúlcidas vibrações do amor a tomam, desembaraça-se das penosas injunções do primarismo e liberta-se da escravidão da posse, da fantasia em torno da felicidade pelo que tem.

Um amadurecimento interior se lhe opera lento e prodigioso, facultando-lhe alegria e desprendimento, consciência de dever e respeito por todos e por tudo.

Reconhece que, localizada no contexto universal, a sua tarefa essencial é a de autoiluminação, que logo se desdobra em serviço a favor do progresso, mediante a consideração pela ordem, não a violando, nem a submetendo aos caprichos e desaires que lhe predominam no mundo íntimo.

Alimentada pela seiva nutriente do amor, desenvolvem-se os demais sentimentos da compaixão e da ternura, da caridade e do perdão, que são as partituras que mantêm as melodias da vida feliz.

Envolvida nessa vibração de fraternal compreensão dos acontecimentos, das outras pessoas e suas dificuldades, dos fenômenos que se manifestam na existência, o amor desenvolve-lhe os valores mais elevados e a induz à gloriosa tarefa de servir e passar despercebida, deixando, porém, suas luminosas pegadas pelo caminho transitado...

A vida é um perene convite ao amor e à compreensão dos limites que exornam cada pessoa no seu processo de crescimento para Deus.

Quanto mais se lhe alargam os horizontes do desenvolvimento emocional e moral, mais o amor se lhe apossa do ser, alcançando as demais criaturas e inundando de bênçãos tudo a sua volta.

Ama, pois, sem qualquer tipo de limite ou de interesse passional.

O amor é luz, não a detenhas, evitando que predomine a escuridão...

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Garimpo de Amor

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terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Amor e espiritualidade

Amor e espiritualidade

Joanna de Ângelis


Amor e espiritualidade são termos da mesma equação da vida, convidando a criatura à busca de Deus.

Pode-se medir o grau de espiritualidade de um indivíduo pela sua capacidade de amar.

Quando o seu é um desprendimento que o leva a pensar antes no seu próximo do que em si mesmo, estabelecendo diretrizes de felicidade que cumpre com devotamento, distante dos tormentos do egoísmo e das paixões dissolventes, já é capaz de amar em plenitude. Isso não o impede de agir com prudência, mantendo-se em equilíbrio diante das circunstâncias e dos acontecimentos que envolvem o seu sentimento de doação.

Ao mesmo tempo, proporciona-lhe uma visão realista em torno dos seus deveres de cidadania e de autoburilamento, por entender que a proposta de ascensão espiritual é destituída de qualquer limite.

Igualmente descobre as imperfeições morais que ainda lhe tisnam o caráter, gerando-lhe embaraços que lhe dificultam mais rápida vitória sobre os empeços da marcha.

Não luta, porém, contra esses fatores de perturbação, assumindo antes uma postura de compreensão dos limites que lhe assinalam o ser, buscando amar também a esses atavismos que procedem das experiências pretéritas e que não foram ainda eliminados.

Sempre que acossado por desejos inquietadores, não se rebela, devendo procurar substituí-los por sentimentos opostos, aqueles que edificam e asserenam.

Cônscio do que pode realizar em benefício próprio, sem qualquer prejuízo para as demais pessoas, investe na luta de renovação constante, sem traumas nem ansiedades, insistindo sempre na conquista de mais amplos horizontes emocionais que o afastem das províncias de sombra e de dor por onde deambulou.

Esse esforço pessoal auxilia-o a entender os limites em que as pessoas se debatem, sem possibilidades de autossuperar-se de um para outro momento. A paciência, diante das imperfeições alheias, dá-lhe resistência para suportá-las quando se lhe apresentam em forma de hostilidade, de perseguição, de inveja, de competitividade malsã.

O amor instala-se no sentimento humano, quando se lhe abrem as portas para a entrada, evitando-se os obstáculos torpes dos interesses pessoais e das lutas de dominação, que tipificam a agressividade latente e o egoísmo doentio.

Não tendo fronteiras que o limitem ou o impeçam de avançar sempre, é atuante e compassivo, sempre disposto a servir e a enriquecer as vidas que se lhe acercam e passam a necessitar do seu hálito vital.

Em consequência, o amor não tem passado, reservando-se um intérmino presente, que se manifesta em tempo que já passou e em oportunidade que virá.

Nunca se permite ser discutido, pois que o excesso de palavras entorpece-o, enquanto que a ausência total delas, desvitaliza-o.

Não se assoberba, porque conhece o campo em que moureja, lúcido e jovial, abrindo os braços à solidariedade, passo inicial para alcançar a culminância na caridade e no perdão total.

A vigência do amor no mundo independe de ideologias de natureza política, religiosa, cultural, social. Medra em todos os segmentos em que se movimentam as criaturas humanas, sendo, naturalmente, mais emulado quando um ideal arrebatador domina a mente e o coração do indivíduo. Não obstante, independe de grupo ou de clã, porquanto, se assim não o fora, expressar-se-ia com o sentido de retribuição na facção de qualquer natureza onde se instala.

Por isso mesmo, não dissente em relação àqueles que lhe não compartem o pensamento nem o comportamento, estando atento a essa sutileza, a fim de poder ser totalmente livre, ganhando espaço e intemporalidade, com que avança no rumo da imortalidade, que é sua meta esplendorosa.

O amor é o instrumento para que a sociedade se encontre em patamar avançado de natureza moral, especialmente quando ultrapassa os níveis primários onde tem início o seu processo de fixação.

Sem dúvida, portanto, cada um expressa o amor de conformidade com o estágio de desenvolvimento espiritual em que se encontra.

Eis por que, variante e complexo, encontra-se em toda parte no Universo, particularmente na vida terrena, enlaçando todos os indivíduos no mesmo elã de alegria de viver e de cooperar em benefício geral.

A conquista da espiritualidade é assinalada pelos inúmeros passos do amor.

No primitivismo, em que a defesa do grupo é essencial para a sobrevivência, passando pelos graves combates de destruição, surgem os passos em favor do intercâmbio social, econômico, moral, desenvolvendo-se como método de crescimento tribal para tornar-se uma sociedade mais conforme a fraternidade, na qual o direito substitui a força, superando os impulsos asselvajados para transformar-se em emoções compensadoras.

Dessa forma, à medida que vão ficando na retaguarda do processo de desdobramento ético, mais aprimoradas fazem-se as formas de expressar-se, aproximando o Espírito sedento de plenitude da Fonte Inexaurível de onde procede.

Quando ainda atado ao primarismo, apresenta-se como dedicação e posse, carinho e dominação, bondade e jogo de interesses, devotamento e retribuição, entrega e zelo excessivo.

Possuidor de mil faces, apresenta-se conforme o período moral que tipifica a criatura, que se sente invadida pela sua força, e nem sempre sabe decodificar-lhe a excelência, obrigando-a a submeter-se-lhe quando assume a postura exigente, muitas vezes perversa, em que se compraz.

Inegavelmente estrutura-se nos próprios enganos e caprichos, aprendendo a libertar-se de qualquer constrição, para então espraiar-se sobranceiro e gentil, nada solicitando, nada aguardando, nada impondo.

O amor é humilde, porque reconhece a energia de que se constitui, no entanto, não se permite vangloriar pelo poder de que dispõe, preferindo vencer as resistências suavemente e fixar-se imperceptivelmente, terminando por dominar o ser.

Amor, portanto, e espiritualidade, são termos da mesma equação da vida, convidando a criatura à busca de Deus.

Não deve, porém, o amor ser buscado com aflição, embora a espiritualidade seja desafiadora e necessite ser trabalhada com intensidade.

Quando se corre atrás do amor com ansiedade e sofreguidão, ele provavelmente não será encontrado, porque sempre será encontrado pacientemente aguardando...

Cada passo que dês em direção à autoespiritualização, mais próximo sentirás o amor, que te impulsionará a conquistá-la, não te permitindo deter no que já conseguiste, antes acenando-te com novos desafios evolutivos.

Renunciarás então aos dispositivos egoísticos para cresceres com o grupo social no qual te encontras, enquanto irradiarás as energias da vida em todas as direções, consciente de que a tua será a decorrência da felicidade daqueles que seguem contigo pelo mesmo caminho, e que aguardam a tua cooperação, a fim de superarem os impedimentos que os aturdem.

Na raiz da espiritualidade do ser encontra-se o amor, e no sublime oceano do amor desenvolvem-se os compreensíveis impositivos da espiritualização que liberta e sublima.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Garimpo de Amor

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Amor e ressentimento

Amor e ressentimento

Joanna de Ângelis


O amor é portador da magia renovadora, abrindo espaços para a instalação da felicidade.

Os relacionamentos humanos, em razão da falta de profundidade, são extravagantes, quer pelas suas exigências ou pelas suas necessidades de complementação afetiva.

Invariavelmente rápidos, expressam-se através de metas a serem conquistadas, sejam de caráter emocional, social, econômico, físico, espiritual...

Os indivíduos refletem as suas nas necessidades dos outros e nas aspirações dos demais, tornando-os ou transformando-se em espelhos através dos quais se contemplam.

Enquanto não definidos, esses relacionamentos fazem-se encantadores, entusiásticos, à medida que se aprofundam, mesmo que, em superfície, passam à constatação da realidade do outro, dos seus limites, dos seus conflitos, das suas necessidades.

Do júbilo inicial transferem-se para o desencanto gradativo, caracterizando-se como decepção em relação de uns pelos outros, pela falta de entendimento, para a compreensão de que ninguém pode ser ou deverá tornar-se a imagem que dele se elabora.

Quando os interesses e os objetivos propostos não se fazem conforme desejados, ocorrem os choques, o desrespeito, as agressões, as lamentáveis inimizades, que se abrem em feridas purulentas de curso largo...

Remanescem os ressentimentos, as acusações, as referências desmoralizantes, as culpas, o recuo para as atitudes formais e de indiferença pela afetividade, os propósitos de não mais se permitirem atingir pelas agressões que transferem para os outros.

Sucede que a criatura humana, invariavelmente, ainda não aprendeu a amar sem mergulhar nos sentimentos do outro, procurando devassar-lhe o mundo íntimo, descobrir-lhe os impedimentos e desaires, administrar-lhe o comportamento.

Logo que se aproximam, os indivíduos, desacostumados à renúncia, tendem à submissão em aparência de bondade e de enternecimento, ou à imposição, por cujo mecanismo procuram assumir o comando da existência do outro, que sempre viveu sem esse direcionamento.

Surgem as exigências descabidas de um ou do outro lado, atravessando-se a linha do respeito que se deve manter em relação aos sentimentos pessoais, às ocorrências do passado, aos erros ou às conquistas, vivendo-se o claro-escuro perigoso dos desentendimentos.

Ninguém existe que se compraza em viver sem identidade, exceto nos casos patológicos.

Cada indivíduo é a soma das próprias experiências, dos seus erros e acertos. Pode aceitar amizade, sugestão, esclarecimento, nunca porém imposição, domínio, viver em posição subserviente.

No início, numa falsa tolerância, resultado do deslumbramento e do júbilo do encontro, da conquista, cede-se para agradar; age-se dessa forma para conquistar, mesmo que a prejuízo momentâneo das próprias aspirações, na certeza de recuperar-se o comando oportunamente, e quando isso não ocorre, ou surge ocasião de ruptura, o inevitável da agressividade faz-se abruptamente, gerando ressentimentos injustificáveis.

Enquanto se demoram as lembranças amargas dos relacionamentos malsucedidos, por exclusiva responsabilidade das atitudes levianas e da falta de respeito pela vida interior do outro, o amor permanece congelado. Toda vez que ocorre uma oportunidade de diluir a camada que o esfriou, a imagem do insucesso anterior é projetada e o recuo faz-se inevitavelmente.

Trata-se de uma atitude equivocada, porquanto não se pode mensurar todas as pessoas com os dados adquiridos na convivência com alguém.

O desacerto em um relacionamento deve ensinar a como não mais comportar-se em nova ocasião.

Para tanto, torna-se imperiosa a conduta de libertação da mágoa, abrindo-se ao milagre do amor.

Deve-se aprender a deixar-se amar, não permanecendo, no entanto, na postura daquele que somente merece ser amado, sem os estímulos para distender o amor em outras direções.

As feridas do ressentimento devem ser cicatrizadas com as novas experiências do amor de plenitude, aquele que não se denuncia, não aguarda retribuição, não trombeteia doações.

Mesmo em se tratando da sua manifestação física – passo inicial para sua mais ampla expressão – o respeito pela liberdade e dignidade do outro deve constituir atitude nunca desconsiderada.

Ninguém realiza uma viagem de muitos quilômetros sem que ocorram incidentes, dificuldades, ou surjam desafios a enfrentar. Nada obstante, o prazer do empreendimento supera os problemas e enseja valiosas experiências que irão aprimorar futuras programações, que evitarão as ocorrências ora enfrentadas.

Na experiência do amor, não serão poucos os fenômenos desafiadores, os insucessos, as conquistas de entendimentos e de realizações, os enfrentamentos emocionais.

Cultivar-se, porém, os ressentimentos que decorrem das experiências malogradas, cuja finalidade é proporcionar amadurecimento psicológico, desenvolvimento emocional, não passa de capricho infantil.

Todo aquele que espera uma existência rica de facilidades, um solo atapetado pelos prazeres e um céu sempre azul de bênçãos, detém-se em infância espiritual, negando-se ao desdobramento das diversas fases do aprendizado, no rumo da conquista interior.

Esse esforço é pessoal e intransferível, porque a evolução é individual, abrindo as portas para o progresso coletivo.

Cicatrizando o ressentimento nos refolhos do sentimento, qualquer mossa que permaneça facilita futuros atritos que se transformarão em novas feridas propiciadoras de sofrimentos.

Uma atitude, portanto, aberta em relação ao futuro, sem lembranças amargas do passado, nem ansiedades pelo porvir, constitui uma excelente forma de preservar-se receptivo ao amor, aceitando-o conforme se apresente, e esforçando-se por oferecê-lo consoante as próprias possibilidades, assim vivendo em harmonia consigo mesmo e com todos aqueles que constituem a sociedade.

O amor é portador da magia renovadora que tudo apaga e consome, abrindo infinitos espaços para a instalação da felicidade.

Ninguém existe, que haja transitado pelos sublimes caminhos do amor, sem que tenha experienciado algum tipo de desafio, que nunca se deve transformar em ressentimento.

O amor humano, com as suas características – limites do processo da evolução de cada qual – avança inevitavelmente para o estágio divino, aquele que um dia a todos alcançará, instalando na Terra o Reino de Deus, a que tanto se referiu Jesus.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Garimpo de Amor

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domingo, 31 de dezembro de 2023

Amor e mudanças

Amor e mudanças

Joanna de Ângelis



O amor muda quem ama e altera para melhor o mundo em que vive.

Todos os atos humanos modificam a estrutura moral e espiritual do mundo. Quando sem amor, estabelecem conflitos e dão surgimento à agressividade e à violência; quando amorosos, criam climas de fraternidade e de entendimento recíproco, abrindo espaços para o desenvolvimento e progresso da sociedade.

O amor possui a força ciclópica de alterar todas as coisas, quer sejam percebidas ou ignoradas. O importante não é a visão dos acontecimentos, mas o significado que deles deflui. Por isso, o amor não pode ser dimensionado conforme os interesses de cada indivíduo, isto é, “eu amo porque me é conveniente, disso resultando-me um grande bem”, mas amar naturalmente, porque essa é a finalidade da vida.

Não apenas direcionar para os outros a seta do amor, porém vivê-lo, tê-lo introjetado no sentimento, de forma que se transforme em uma realização pessoal, constante e felicitadora.

Os grandes vultos da Humanidade, que se resolveram pelo amor, não se davam conta do quanto ofereciam em esforço e sentimento de abnegação em favor dos outros. Era-lhes tão natural a doação, que nem sequer sentiam desgaste ou aflição, quando incompreendidos ou não aceitos nos propósitos acalentados. Nunca desistiam, porque sabiam que o amor para alcançar o seu objetivo tem que romper as barreiras que tentam impedir-lhe o avanço. Sejam preconceitos sociais, religiosos, morais, raciais, que se vêm transferindo de uma para outra geração, e mesmo hoje, quando se supõe já não serem tão poderosos, ei-los embutidos no inconsciente de muitas realizações.

Uma das mudanças mais severas que o amor consegue operar, é quando descobre pessoas de quem não gosta, que lhe são inamistosas, mesmo adversárias, e devem ser conquistadas.

Não importa que mudem de atitude em relação àquele que as amará, mas que não lhe permaneçam antipáticas, nem provocadoras de mal-estar.

Como o objetivo essencial do amor é dar sem receber, mudar de comportamento em relação aos maus, não os tornando piores, aos perturbadores, não os fazendo mais alucinados, constitui um grande desafio que o esforço sincero logra resolver.

Invariavelmente há um desejo de tornar-se pessoa amorosa em relação às demais, às vezes conduzindo fel e amargura no coração, ansiedade na conduta, interrogações e conflitos na mente. Esse ainda é um estado de amor ausente, amor em desalinho, que deve ser corrigido, para que essa presença afável produza modificações internas, acalmando os torvelinhos Íntimos e apaziguando as aflições.

Trata-se da experiência do autoamor, fundamental para o amor ao próximo. Ninguém há que, em aflição, tenha tempo mental e emocional para amar quem se encontre distante e sem apresentar aparentemente necessidade de ser amado.

O amor é um estado natural na conduta, porque se irradia generoso, abarcando e preenchendo todo o espaço que defronta.

Muitas pessoas, que amam de maneira espontânea, não se dão conta do poder de que dispõem e de como conseguem mudar as pessoas que se lhes acercam, alterar os acontecimentos à sua volta, favorecer o mundo com os seus pensamentos e conduta.

Por mais humilde que seja a função exercida, aquele que ama sorri e contagia os outros que perderam o endereço de si mesmos, despertando-os para outras responsabilidades.

Um suave amigo da fraternidade encontrava-se aguardando o veículo que o levaria de volta ao lar, após dia fatigante de trabalho e de lutas. Apesar do cansaço que o tomava, do calor que dominava o entardecer, do tumulto à sua volta, ele mantinha-se sorrindo discretamente, sem permitir-se envolver pelo desequilíbrio que se agitava, generalizado, a gritaria, o ruído dos veículos e suas buzinas.

Aturdido cavalheiro acercou-se-lhe, e o interrogou com violência na voz:

— Você está sorrindo de mim ou para mim?

— Nem uma coisa, cavalheiro, nem outra. Eu estou sorrindo comigo mesmo – respondeu sem alterar-se. – Como não tenho razão para estar contrariado, alegro-me por estar vivo e em paz.

— Mesmo que neste inferno? – indagou o maldisposto senhor.

— Não o considero um inferno. Recordo-me dos que estão entediados na inutilidade, limitados nos movimentos em hospitais onde carpem dolorosas aflições, os que se encontram vencidos pelo arrependimento, os tristes e infelizes... Como não estou com qualquer desses problemas, sorrio em agradecimento a Deus, homenageando todas as pessoas que se movimentam na busca de um lugar de triunfo na vida.

E continuou sorrindo. A sua expressão, leve e fraternal, desarmou o violento que, logo depois, passou a narrar-lhe as dificuldades que o atormentavam, as aflições que o maceravam, estabelecendo-se proveitoso diálogo, que terminou com uma nova e diferente interrogação do cavalheiro:

— Como poderei fazer para alterar esta paisagem de agonia em que me encontro?

— Amando a aflição – respondeu, sorrindo. – Quando se ama a objeção ela diminui de intensidade, quando se ama a vida ela se apresenta menos severa, mesmo porque, rebelando-se e odiando, somente se complica tudo, sem realizar outra senão a colheita de desespero que lhe segue empós.

O amor muda quem ama e altera para melhor o mundo em que vive.

Tão enriquecedores se tornam os momentos em que o ser se lhe entrega, que a sua existência se transforma em um permanente estado de amor.

É certo que não concordará com tudo quanto ocorra, nem com aqueles que se caracterizam pelas arbitrariedades, ao crime, à insensatez. Não conivirá com o erro em qualquer forma como se manifeste. Somente que não aumentará o seu raio de ação, diminuindo os efeitos danosos da sua vigência, diluindo as cargas de ódio e de revolta que produzem.

Igualmente não se faz melífluo, ou adota postura exterior sem o real consentimento do que o anima interiormente.

Por isso, não se trata de uma conquista momentânea, porém de uma realização de longo prazo, que sempre está sendo aprimorada e exercitada sem desfalecimento ou celeridade, conquistando cada passo no devido momento.

O amor estabelece uma ponte entre o ego e o self, fazendo que o eu interior recupere os tesouros de que se constitui, muitas vezes malbaratados pela personalidade enfermiça ou indiferente aos valores do progresso.

O amor verdadeiro é uma forma de manter Cristo no pensamento, nas palavras e nos atos.

O amor transcende qualquer formulação verbal ou escrita, pessoal ou estabelecida, porquanto sempre se expressa conforme a ocasião e a circunstância.

Pode traduzir-se em um grande silêncio diante de uma ocorrência grave ou de uma canção de bondade em instante de pequena, mas profunda significação, num gesto de abnegação ou num olhar de enternecimento.

Tendo por missão mudar o mundo, o amor é a presença de Deus na psicosfera do planeta terrestre.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Amor e família

Amor e família

Joanna de Ângelis



O amor na família constrói a sociedade do mundo.

O amor é a mais sublime manifestação do pensamento de Deus, portanto de origem divina, que deve ser preservado com alegria e distribuído com exuberância, graças à sua potencialidade ilimitada.

Procedente do Genitor por Excelência, torna-se uma forma de ação emocional que se transforma em energia a ser concedida a todos quantos se encontram próximos da sua fonte de exteriorização.

Não é apenas um sentimento que sofre as injunções da emotividade, alterando-se conforme as ocorrências do dar e receber, do doar e não ser aceito, do oferecer sem retribuição.

Deve transformar-se em uma atividade viva e pulsante, capaz de expressar-se conforme a situação em que se apresente: paternal, fraternal, conjugal, social, geral, abrangente e infinito.

Para que atinja esses diferentes níveis, torna-se essencial que se dirija a Deus, de tal forma que inunde a alma de alegria, a fim de poder manifestar-se nas diversas modalidades a que se destina.

Com o amor a Deus vicejando nas emoções e traduzindo-se em ações do bem, a família passa a constituir o núcleo de maior necessidade da sua vigência, tomando as formas de conjugal, filial, paternal, maternal... Os pais, em consequência, são convidados a vivenciá-lo em todos os instantes, não somente em relação aos filhos, a fim de que se conscientizem da profundidade de que se reveste, mas também para que possam fruir os benefícios que proporciona, como segurança, equilíbrio, confiança e entrega.

No mesmo sentido, esse amor não deve privilegiar os filhos gentis e generosos, em detrimento daqueles que são difíceis e atormentados, ou que apresentam quaisquer distúrbios de comportamento, assim podendo desmerecer a afetividade.

Se o genitor, contrariado com a atitude rebelde do filho, desconsidera-o, poderá criar insegurança nos outros, que passarão a pensar que somente serão amados enquanto agradarem, submeterem-se às determinações domésticas e cooperarem em favor da harmonia no lar.

Os comentários ácidos a respeito desses descendentes geradores de atritos não podem ser abordados com aspereza, não só porque mais aumenta a distância deles em relação aos pais, como também abre brechas de ressentimentos desnecessários.

Por outro lado, essa atitude demonstra que esse tipo de amor é retributivo, homenageando quem o devolve, censurando quem o não aceita e condenando quem o rechaça...

Afinal, é esse filho ingrato e incapaz de entender o alto significado da família, da doação dos pais, que nunca devem alegar o que fazem ou trazer à consideração os esforços e empenhos que lhe têm sido direcionados, evitando a impressão de que está havendo uma cobrança, tornando-se uma dívida a ser resgatada na primeira oportunidade...

O próprio amor gera um sentimento de compreensão naquele que se vê enriquecido pela sua presença, explícita ou não, invisível mas percebida, sem qualquer imposição verbal ou exigência comportamental.

Naturalmente, quem doa amor, inconscientemente que seja, aspira à sua vigência no mundo, especialmente na família.

Desabituado a esse sublime investimento, o ser humano, que procede dos instintos primários e automatistas, somente a pouco e pouco se impregna do seu valor especial, passando a compreender a profundidade do ato de amar.

No começo, é algo egoísta, permanecendo na consanguinidade, ampliando-se em outros relacionamentos afetivos até alcançar o patamar da comunidade, que nem sequer tem conhecimento do seu benefício.

Como treinamento para melhor fixação no imo da alma, a convivência, o diálogo positivo, a participação nas atividades dos filhos, o interesse pelos seus estudos, sem exigências de bons resultados, pelos seus ideais humanitários, desportivos ou de outra natureza, transformando-se em vínculo de segurança e de estreitamento das relações saudáveis e enriquecedoras do clã.

Vivenciada essa experiência, alastra-se para o meio social, irrigando de coragem e bem-estar todos quantos participam da convivência desse indivíduo afável, os quais passam também a assumir comportamento equivalente e produtivo.

Tal atitude não significa anuir com os desmandos e desequilíbrios que, não poucas vezes, irrompem nas famílias, gerando tumulto e crises existenciais.

Uma atitude enérgica, educativa, não implica uma postura agressiva, mesclada de violência.

O amor estabelece parâmetros de respeito e de consideração que devem ser vivenciados, facultando, ao mesmo tempo, ordem e disciplina no aconchego da família.

Quando esse amor é vitalizado pelos exemplos de paciência e de amizade, impede a virulência da rebeldia e da tensão doméstica.

Por sua vez, os filhos são convidados ao amor fraternal, convivendo uns com os outros em clima de concórdia e de afeto, ajudando-se reciprocamente e amparando-se quando necessário, sem acusações nem desculpas quando as ocorrências não sejam corretas.

O amor na família constrói a sociedade do mundo.

Provavelmente alguns membros do grupo familiar não consigam alcançar a estrutura afetiva necessária, permanecendo em infância psicológica, geradora de insegurança e de mal-estar, descambando para os vícios e as dissensões. Tal ocorrência, porém, resulta da situação do Espírito ali reencarnado, em si mesmo necessitado de mais amparo, em face dos seus compromissos perturbadores com a retaguarda evolutiva de onde procede sob injunções penosas.

Muitas famílias são redutos de batalha, onde se reencontram adversários de renhidas lutas fratricidas do ontem, em tentativa de recomposição e restabelecimento de vínculos afetivos. Em razão disso, maior deverá ser o investimento do amor que não ceda às provocações nem aos desatinos dos seus membros.

Por outro lado, a verdadeira união dos cônjuges, que saberão renunciar aos caprichos egoístas, a fim de não perturbarem a prole, representará o maior investimento para o sucesso familiar.

Costuma-se dizer, na atualidade, em uniões que foram duradouras, que o amor não existe mais e por isso a separação apresenta-se como inevitável.

Será o caso, então, de recomeçar-se o amor, desconsiderando os sentimentos feridos e magoados, descobrindo novas fontes de inspiração, particularmente havendo uma prole para cuidar.

...E quando ocorrer que a situação se apresente quase insustentável, há um recurso de que o amor nunca pode prescindir, que é a oração, igualmente possuidora de energia divina, porque reaproxima a criatura do Criador e permite que o Criador se comunique com o orante.

Quem ama, ora, e quem perdeu o contato com o amor, mais necessidade tem da oração, a fim de reatar os laços consigo mesmo, com o seu próximo e com Deus.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Garimpo de Amor

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Amor e comportamento

Amor e comportamento

Joanna de Ângelis



O amor contribui para o comportamento ditoso daquele que o cultiva.

O treinamento do amor na conduta torna-se indispensável para que se desenvolva e alcance níveis elevados de emoção.

O amor não surge concluído, em condições de esparzir suas vibrações em clima de plenitude. É resultado de esforço e conquista de que paulatinamente se enriquece, conseguindo estabelecer fronteiras nas paisagens íntimas do ser humano. É uma força irresistível que necessita ser bem canalizada a fim de produzir os resultados opimos a que se propõe.

Por isso, ninguém pode esperar que surja poderoso, de inopino, arrebatando, ao mesmo tempo felicitando.

Quando assim ocorre, trata-se de impulso inicial da sua manifestação, ainda arraigada aos desejos e aspirações pessoais, que anelam pela permuta de interesses imediatistas, longe do significado real que o deve caracterizar.

É um empreendimento emocional-espiritual muito específico, que exige o combustível da ternura e da afabilidade, para poder compreender e desculpar toda vez quando convidado a envolver as pessoas com as quais se convive.

À medida que se instala no homem e na mulher, altera-lhes o comportamento para melhor, dulcificando-lhes a existência mesmo quando esta se encontra sob os camartelos dos sofrimentos e das dificuldades. Suaviza a aspereza da jornada e contribui em favor da alegria que deve ser preservada, mesmo que a peso de sacrifícios.

O amor não se deixa impressionar pela aparência física ou pelos atributos pessoais de outrem, embora, de alguma forma, esses possam contribuir em favor dos primeiros passos, como o fascínio, a aproximação, o intercâmbio afetivo, definindo-se depois pela própria qualidade de que se reveste.

Desdobra-se na convivência ou não com as pessoas que lhe recebem o alento, jamais diminuindo de intensidade por multiplicar-se largamente em todas as direções.

Pode-se amar a um número incontável de pessoas, com qualidade especial em relação a cada uma, sem que haja predominância de alguém em detrimento das demais. A sua chama nunca se apaga, porque não se consome, antes autossustenta-se com o combustível da alegria em que se expressa.

Nos relacionamentos agressivos e imprevistos da sociedade hodierna, como de outros passados tempos, não se influencia negativamente, corrompendo-se ou diluindo os vínculos, porque nada exige, possuindo a capacidade de compreender as dificuldades que sempre surgem, revigorando-se à medida que se doa.

O amor é otimista e sempre atuante, contribuindo eficazmente para o comportamento ditoso daquele que o cultiva.

Jamais agredindo, estimula os neurônios cerebrais à produção de moléculas propiciatórias à saúde e ao bem-estar, para evitar que os mesmos sejam bombardeados por toxinas procedentes do sentimento da amargura, do ressentimento, da revolta, do ódio...

Envolvente, é suave como um amanhecer e poderoso como a força ciclópica da própria vida.

Não se desnatura, quando não recebido conforme é do seu merecimento, nem se rebela, porque desdenhado. Mantém-se paciente e tolerante, por entender que o outro, aquele a quem se dirige, encontra-se doente, destituído de sensibilidade para recebê-lo.

A vigência do amor é o recurso mais hábil para uma real mudança de conduta da sociedade, que passaria a viver de maneira mais consentânea com as conquistas da Ciência e da Tecnologia, utilizando-se desse extraordinário contributo da evolução para tornar a existência terrestre muito mais feliz e menos preocupada.

Na raiz da crueldade e do crime encontramos o amor ausente naquele que se deixa arrastar pela loucura, que o não recebeu e não foi impregnado pela sua vitalidade prazenteira. Pelo contrário, acumulou resíduos de ira, de maus tratos, de indiferença e de perseguição, que se encarregaram de asfixiar quaisquer possibilidades de vivência da compaixão e da misericórdia, que são filhas diletas do amor.

Complexos de culpa e de inferioridade, rebeldia sistemática, amargura continuada, distimia contumaz são os frutos espúrios de uma existência sem amor, que se desenvolveu longe da esperança e da compreensão.

Esse coração sempre esteve fechado à irradiação do sol do amor, que não conseguiu penetrar-lhe a intimidade, alterando-lhe a pulsação emocional.

É necessário que se abram os sentimentos à sua presença, de forma que qualquer lampejo produza claridade interior, estimulando ao aumento de luminosidade.

Exercitando-se a vivência das suas vibrações, aumenta-se a capacidade de senti-lo e expressá-lo nas mais diversas situações.

Ao mesmo tempo, especial bem-estar domina o comportamento, proporcionando emoções enobrecidas e aspirações elevadas que objetivam a harmonia geral.

Quando alguém ama, o mundo começa a transformar-se. Basta que esse sentimento seja direcionado, indiscriminada ou especificamente, em favor de alguém e logo ocorre uma real mudança na psicosfera do indivíduo, que se irradia em toda as direções, modificando a estrutura perturbadora e desconfiada que por acaso exista à sua volta.

Conforme o Sol é sempre novo em cada amanhecer e sua luminosidade enriquece de luz e calor a Terra, o amor esplende de beleza e de vitalidade a cada momento em que se expande. Se houver noite moral, ele se torna claridade fraternal; se permanece a suspeita, ele oferta segurança; se campeia o desencanto, ele faculta a confiança, porquanto a todos aquece com o vigor da bondade e da paz.

Dizem os escritos evangélicos que Deus amou tanto ao mundo e à Humanidade, que ofereceu o Seu Filho, a fim de que, crendo n’Ele, todos encontrassem paz e felicidade.

Também se pode dizer que, amando-O, todos desfrutarão de equilíbrio e ventura.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Garimpo de Amor

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Amor e progresso

Amor e progresso

Joanna de Ângelis


Mediante o amor, todos despertarão para as responsabilidades que lhes dizem respeito.

O amor é o mais prodigioso fomentador do progresso moral, do qual decorrem todas as demais formas de desenvolvimento.

Quando não viceja no ser humano, as conquistas realizadas, por mais brilhantes, tendem à destruição ou são filhas especiais do egoísmo, que as realiza para atender fins nem sempre respeitáveis.

A atualidade tem-se feito caracterizar por muitas formas de progresso, que têm impulsionado a cultura e a civilização a níveis elevados, não obstante a vigência dos crimes hediondos, da fome estarrecedora, das enfermidades infectocontagiosas, das guerras contínuas, dos abusos do poder, dos preconceitos ainda não erradicados, da intolerância de vário matiz, dos descalabros morais por meio dos vícios destruidores como o alcoolismo, o tabagismo, as drogas químicas...

A Ciência e a Tecnologia têm impulsionado o indivíduo a relevantes realizações, porém esquecidas do amor, e dessa forma as máquinas que ele criou substituem-no, desumanizam-no enquanto o superpovoamento das grandes cidades alucina-o, tornando-o mais agressivo e estressado.

Não obstante as propostas sociológicas que se multiplicam, esse cidadão perde a identidade e confunde-se na massa que detesta, tornando-se violento e sentindo a sua existência quase sem objetivo.

Os veículos de comunicação, com o seu imenso poder de conduzir notícias, invadem os lares em toda parte, especialmente a televisão, e os abarrotam com informações ligeiras, raramente esclarecedoras e profundas quando da abordagem dos temas de alta significação, libertadores de consciência e tranquilizadores da emoção, apresentando, ao invés, muitos fatos escabrosos que ele desconhece e, não poucas vezes, estimulam-no a lutas ferozes, nas quais os demais são-lhe inimigos em potencial.

Infelizmente, esses veículos dão preferência às licenças morais devastadoras, criando uma cultura pessimista e reacionária, na qual o ódio, a frustração, o desespero assumem papel de importância na conduta interior e na maneira de viver na sociedade.

A família, embora o patrimônio multimilenário de que se constitui, sofre os camartelos da agitação e do desconcerto de que se tornou vítima, transtornando-se e esfacelando-se, tornando-se campo de rudes batalhas malsucedidas.

...E o ser humano superconfortado transita sob injunções tormentosas, derrapando em transtornos neuróticos, psicóticos, mergulhando no fosso da desolação.

Sucede que o progresso, sem amor, está sem Deus, portanto, sem o alicerce seguro do equilíbrio e da libertação das vidas dos seus atavismos primitivos, que as escravizam no primarismo de onde procedem.

Torna-se urgente uma revisão de conceitos em torno do progresso e das suas propostas, a fim de que seja realizada uma ação renovadora e saudável, propiciando relacionamentos felizes entre as criaturas.

Esse ministério somente pode ser desempenhado pelo amor.

É inevitável que a máquina robotize muitas atividades, solucionando com razoável perfeição os misteres que lhe estão programados. Entretanto, cumpre ao ser humano encontrar soluções outras e mecanismos sábios para atender aos desempregados, àqueles que foram substituídos nas empresas e fábricas, nos laboratórios e no campo...

Tal compromisso diz respeito ao amor e à compaixão.

O amor fomenta o progresso, nunca eliminando a criatura humana, sua meta e seu destino.

De que adianta um mundo tecnologicamente bem equipado, com criaturas fantasmas de si mesmas, sem objetivos de alta significação, transitando entre aspirações imediatas e prazeres fugidios?

O ser humano é o grande investimento da Divindade, que aplicou centenas de milhões de anos na sua construção, conduzindo-o, passo a passo, na longa travessia das experiências de crescimento.

Mediante o amor, de que se constitui, e na maioria ainda se encontra em latência, conseguirá romper os envoltórios resistentes, para sair à luz e desenvolver as aptidões, aumentando o campo de realizações que lhe dizem respeito.

Por meio da lucidez do amor, a Tecnologia trabalhará em favor da paz, jamais promovendo guerras de extermínio, a soldo das ambições desmedidas de indivíduos e de governos alucinados, egotistas e mercenários.

Os poderosos auxiliarão os fracos, emulando-os à conquista de recursos dignos, mediante os quais adquirirão valores para a existência saudável.

O comércio terá características humanitárias e não apenas de exploração do homem pelo homem, gerando a escravidão monetária, qual vem ocorrendo lastimosamente.

As indústrias respeitarão os direitos do cidadão, mediante horários de trabalho justo e espaços para repouso, espairecimento e estudo, mas também preservarão a Natureza.

O ser humano não foi criado para ter as suas forças exauridas, como se fora uma alimária infeliz, no justo momento em que os amigos dos animais levantam-se para profligar contra o abuso e a impiedade com que muitos os tratam.

A agricultura receberá maior respeito, tornando-se milagroso instrumento de provisão para as multidões, que não mais experimentarão fome ou escassez de alimentos.

O tráfico, em todas as formas como se apresente, será diluído na solidariedade que há de viger entre os seres pensantes da Terra.

Porque, mediante o amor, todos despertarão para as responsabilidades que lhes dizem respeito, e não apenas para os interesses mesquinhos que os submetem às tormentosas lutas de predomínio e de loucura.

Como é possível uma sociedade, na qual alguns poucos detêm o poder financeiro, que todo o restante da população do mundo, somada, não consegue sequer aproximar-se, menos ultrapassar?! Como estabelecer-se uma cultura, em nome do progresso, na qual a miséria total espia com ira a abundância e o desperdício acintoso dos poderosos?!

Como aguardar-se a paz social, estabelecida por tratados internacionais de conveniência, firmados pelas Nações mais desenvolvidas e ricas da Terra, olvidando-se dos estertores agônicos daquelas outras que lhes sofrem as injunções penosas, na condição de escravas, sem direito à palavra, à liberdade, à esperança, encontrando-se na linha abaixo da miséria estabelecida?!...

Tudo isso ocorre somente porque o amor não foi consultado, quando se cuidou de desenvolver o progresso do mundo, longe dos sentimentos da compaixão e da solidariedade para com o próximo, que não é apenas aquele que está mais perto, senão todos os seres existentes.

O amor verdadeiro, portanto, é aquele que se estabelece em todos os segmentos sociais, culturais, científicos, religiosos, artísticos, priorizando sempre a criatura humana, seu objetivo, sua razão de existir...

Com o seu hálito vivificador, comanda as consciências e os sentimentos, nunca permitindo que alguém deseje, ou faça com outrem, aquilo que não gostaria que lhe fosse feito.

Quando essa compreensão abarcar os homens e as mulheres, conduzindo-os pela trilha da evolução, o progresso será real, profundo e plenificador.

Começa, então, desde agora, com esse compromisso de amar, não pensando em resultados, exceto os do próprio amor.

O futuro encarregar-se-á de levá-lo até onde não consigas chegar, e isso, sim, é o que se faz importante.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro
Garimpo de Amor

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