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quarta-feira, 19 de julho de 2023

Fatalidade ou ...?

Fatalidade ou ...?

Richard Simonetti


Sempre que vinha à cidade, Pires, rico fazendeiro, gostava de conversar com Osíris, vizinho de sua irmã em cuja propriedade ficava hospedado.

O amigo era um homem idoso, muito lúcido e franco. Estudioso da Doutrina Espírita, costumava esclarecê-lo a respeito de problemas existenciais.

- Desta vez bem que estou precisando de seus conhecimentos. Sinto-me acabrunhado, arrasado mesmo, com o prejuízo que sofri.
 
- A colheita foi mal?

- Pior. Não houve colheita. Fiz vultoso investimento numa grande fazenda em formação. Gastei muito dinheiro com maquinário, casas para os colonos, adubos e defensivos agrícolas. Tudo foi muito bem cuidado, desde o preparo do solo à irrigação. No entanto, às vésperas da colheita violento temporal provocou uma inundação como nunca houve na região, e tudo foi destruído.

- Coisas assim realmente aborrecem. Console-se, no entanto, considerando que provavelmente trata-se de um problema cármico.

- Cármico?

- Sim, aprendemos com o Espiritismo que existe uma lei de causa e efeito, segundo a qual recebemos de volta o resultado de nossas ações. Quando nos comprometemos com o mal, o sofrimento decorrente é o nosso carma, uma espécie de pagamento da dívida que contraímos perante a justiça de Deus.

- Se é assim, não vejo porque estar pagando. Jamais prejudiquei alguém conscientemente. Não me considero um modelo de virtude, mas tenho procurado respeitar o próximo. Nunca fiz nada que justificasse esse desastre.

- Nesta existência não, mas certamente o fez em vidas anteriores. Se fôssemos santos não estaríamos no educandário terrestre, às voltas com lutas, dores e problemas que se situam por mestres infalíveis de nossa renovação.

- Como pode ter certeza disso?

- Por mera questão de lógica. Se concebemos que Deus é misericordioso, justo e bom, torna-se imperioso aceitar que vivemos antes ou não haveria justificativa para o sofrimento humano. Inconcebível que o Criador estivesse a impor aflições a seus filhos por mero diletantismo.

- Mas o que me diz do esquecimento do passado? Não é ilógico pagar um débito cuja origem desconhecemos?

- Há várias razões para essa amnésia. Ela funciona em nosso benefício, principalmente quando somos chamados à reconciliação com os desafetos de vidas anteriores. Conseguiria você abraçar um filho sabendo que ele foi odiado inimigo?

- Realmente não seria fácil...

- E considere que o esquecimento nos proporciona a bênção do recomeço, ajudando-nos a superar paixões e fixações que determinaram nossos fracassos.

Conservamos apenas a experiência, com aquisições morais e intelectuais que são inalienáveis, a se manifestarem na forma de impulsos e aptidões...

- O jeito, então...

- O jeito é registrar o prejuízo na contabilidade da existência como débito resgatado e seguir em frente. A vida renova-se diariamente, com abençoadas oportunidades de trabalho e realização. 

Pires concordou. Afinal, com a reencarnação ou sem ela, era preciso dar seguimento às suas atividades.

Retornando à fazenda, propôs-se a recomeçar.

Efetuou a limpeza do solo, reconstruiu as casas, comprou maquinário novo, adubo, sementes, material de irrigação... Fez farto investimento.

Semeadura feita, tudo corria muito bem até que caiu nova tempestade, o céu desabou em água sobre a terra, a plantação foi invadida e houve perda total.

Pires aborreceu-se mais que nunca. Aquilo era demais. Parecia perseguição!

De retorno à cidade, procurou Osíris, contou-lhe o ocorrido e desabafou:

- Até quando estarei sujeito a essa fatalidade? Se sua teoria está correta, será que meus débitos não têm fim?

O amigo respondeu sorridente:

- Desta vez parece-me que não houve fatalidade...

- Como assim? Não ocorreu o mesmo?

- Exatamente por isso. Se você tinha conhecimento da possibilidade de nova inundação e não tomou nenhuma providência para evitar o prejuízo, simplesmente pagou o preço da imprevidência. Ao invés de fatalidade diríamos que foi...

- Já sei - adiantou Pires.

Caindo em si e reconhecendo que desta vez a culpa fora sua, concluiu:

- Foi burrice mesmo!

Há problemas humanos que surgem independente de nossa vontade, em resgates cármicos relacionados com saúde, família, profissão, finanças...

Forçoso reconhecer, entretanto, que em sua vasta maioria eles não decorrem de faltas do passado, mas de invigilância no presente, com o cultivo de velhas tendências à indisciplina e à rebeldia.

É no que fazemos e não no que fizemos que residem nossas dificuldades maiores nas experiências humanas.

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- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Noiva recalcitrante

Noiva recalcitrante

Richard Simonetti


Ariosto era um espírita culto e esclarecido.

Favorecido por disciplinadas faculdades mediúnicas e por permanente disposição para ajudar o semelhante, conseguia definir com objetividade a natureza dos problemas de pessoas que procuravam sua orientação.

Confiantes em suas possibilidades, Luzia e seu marido Ernani aproximaram-se, após a reunião habitual, no Centro Espírita onde o dedicado seareiro atuava. A esposa adiantou-se:

- Dora não está bem, meu caro Ariosto, ante a proximidade de seu casamento, dentro de um mês.

- Medo de casar?

- Antes fosse apenas isso. Normalmente a noiva sente alguma vacilação, em face da radical mudança em sua vida. Ocorre que, muito mais que atemorizada, ela está deprimida, angustiada, quase infeliz...

O marido intervém:

- Já comentei com Luzia que talvez o problema seja de natureza afetiva. Dora começa a perceber que Alcides não é exatamente seu eleito.

- Não concordo, meu querido. Eles se amam muito. Dora não poderia sequer cogitar de desfazer o noivado.

Daí o problema. Entendo que há algum envolvimento espiritual que desconhecemos...

- Pois é, Ariosto. Luzia acha que um “empurrãozinho” do Além resolveria. E você tem nossa procuração para isso.

- Não brinque... Não quero forçar nada, muito menos uma união que não faça parte do destino de nossa filha. Sei que uma forte rejeição pode significar que o noivo não faz parte de seu caminho, mas tenho absoluta convicção de que sua perturbação guarda outra origem. Sou testemunha do afeto que ela dedica a Alcides e quanto tem sofrido com essa situação.

Após ouvir atentamente as ponderações do casal, Ariosto comentou:

- Pelo que conheço dos dois jovens, entendo que eles têm um compromisso firmado perante a Espiritualidade. Ocorre que há um Espírito tentando atrapalhar. Alguém que compartilhou com Dora de experiências menos edificantes no passado e que a envolve agora, num processo obsessivo, pretendendo impedir o casamento. Não conseguirá seu propósito, porquanto matrimônios planejados no Céu dificilmente deixam de concretizar-se na Terra.

Luzia adiantou-se:

- Devemos, então, alertar Dora sobre o assunto, para que se disponha a vencer as pressões que vem sofrendo?

- Não é conveniente. Evitem falar-lhe a respeito. Depois saberão porque.

- E como poderemos ajudar?

- Oferecendo-lhe carinho e compreensão. E, sobretudo, orem, favorecendo a ação dos amigos espirituais. O casamento será realizado na data marcada e dentro de um ano, aproximadamente, a influência obsessiva estará inteiramente superada.

Luzia e Ernani seguiram a orientação. Confiantes na ajuda espiritual esperaram pela decisão da filha, sem pressioná-la.

Vencendo finalmente suas vacilações, Dora casou-se na data que fixara com o noivo. Espírito amadurecido, Alcides enfrentou com serenidade os “grilos” da jovem, suas crises de angústia que perduraram.

Em breve ela engravidou, iniciando uma gestação pontilhada de males físicos e eventuais crises de agressividade, quando parecia possuída de irreprimível aversão pelo marido.

Com o nascimento de Oswaldo, um meninão robusto e chorão, Dora readquiriu a alegria de viver e reencontrou o afeto pelo marido, a quem sentia-se agora mais ligada do que nunca.

Feliz, Luzia procurou Ariosto.

- Aconteceu exatamente como você previu. Dora superou seus problemas e se regozija com o casamento, tomada de amores pelo filho e o marido.

- Agradeçamos a Deus.

- E o obsessor? Certamente foi afastado, segregado em regiões sombrias da Espiritualidade...

- Nada disso.

- Continua perto?

- Mais do que nunca.

- Então, ainda exerce sua influência?

- Ao contrário. Ele é influenciado.

- Não estou entendendo...

- É fácil: o obsessor reencarnou como seu filho.

Inspirados nas mais variadas motivações, há Espíritos que promovem obsessões cruéis, pretendendo submeter as vítimas aos seus caprichos, comandando-lhes a existência.

Sempre que há possibilidade, tais envolvimentos começam a ser solucionados com programas reencarnatórios que ligam obsessores e obsidiados pelos laços da consanguinidade, ajudando-os a superar todas as divergências em favor da própria renovação.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

A teoria e a prática

A teoria e a prática

Richard Simonetti



Reunidos informalmente no lar de Custódio e Nora, dois casais amigos, Godofredo e Zenóbia, Osório e Afonsina, companheiros de atividades espíritas, conversam sobre temas doutrinários.

- Não há dúvida, minha gente - diz Godofredo, convicto - a prática do Bem é a base de um mundo melhor. Allan Kardec deixou bem claro isso ao proclamar: “Fora da Caridade não há Salvação”. Se pensarmos um pouco no semelhante, verificaremos quanto podemos realizar em favor da paz, onde estivermos. A caridade é o refrigério das almas atormentadas.

A feliz definição desperta uma lembrança no dono da casa, que se dirige à esposa:

- Benzinho, que tal um refrigerante?

Em breves instantes saboroso guaraná é servido. O diálogo prossegue, animado, com comentários oportunos e edificantes. É a vez de Custódio:

- As pessoas têm uma visão distorcida da Caridade. Há quem a suponha uma contribuição mensal a obras assistenciais ou o atendimento de um necessitado que nos procura. Parece-me, todavia, que não se trata de um comportamento para determinadas situações e, sim, de uma atitude perante a vida. Onde estivermos, no lar, no local de trabalho, na rua, podemos exercitá-la, estimulando o bem onde estivermos. E voltando-se para Nora:

- Amor, por falar em estímulo, seria ótimo um estimulante cafezinho...

A diligente senhora atende com presteza. Em poucos minutos delicioso aroma invade a sala. Saboreando a apreciada bebida, diz Afonsina:

- O que dificulta o exercício da Caridade é o comodismo. Há ensejos mil de realizarmos pequenos serviços em favor do bem comum. No entanto, engessamo-nos na inércia, embalados pela indolência.

- É verdade - intervém Zenóbia - perdemos valiosas oportunidades, furtando-nos a elementares deveres...

Suas observações são interrompidas pela balbúrdia de crianças que entram na sala em correria. Custódio intervém:

- Querida, por favor, contenha a meninada... Nora recolhe os pequenos, acomoda-os em outra dependência da casa e retorna, após alguns minutos, a tempo de ouvir outra solicitação do marido:

- Benzinho, estão tocando a campainha... Ela vai atender e retorna em seguida:

- Custódio, é um moço que veio buscar os livros. Diz que você sabe do que se trata.

- Ah! Sim! Estão na biblioteca, num pacote sobre a mesa.

A prestimosa senhora providencia a entrega, enquanto o marido, enfático, argumenta com os amigos, retomando o tema em estudo:

- O mais importante é o exemplo. Não há melhor maneira de demonstrar as excelências da Caridade senão exercitando-a onde estivermos.

- A esse propósito - argumenta Osório - lembro-me de uma observação de Santo Agostinho, em O Livro dos Espíritos”, onde o generoso benfeitor espiritual recomenda que façamos uma análise de nosso comportamento todos os dias, ao deitar, a ver se aproveitamos as oportunidades de fazer algo em favor do semelhante, se não faltamos ao cumprimento de um dever, renovando-nos para o Bem a cada dia que passa.

- Por falar nisso - lembra Godofredo, sorridente, a levantar-se - é tempo de nos prepararmos para uma conversa com o travesseiro...

Os visitantes despedem-se. Pouco depois a família recolhe-se. Faz-se silêncio na casa.

Deitado, Custódio recorda Santo Agostinho e resolve fazer uma avaliação de seu dia.

Cuidadosamente analisa seu comportamento. Até que não fora mal, desenvolvendo com diligência a atividade profissional e ainda encontrando tempo para, no horário de almoço, atender algumas pessoas no Centro Espírita.

A surpresa surge na análise das últimas duas horas.

Por cinco vezes, sem a menor cerimônia, chamara a esposa ao cumprimento de variados encargos, recolhido em inarredável comodismo.

E concluiu, algo decepcionado consigo mesmo, que nas iniciativas da caridade, que se exprimem no espírito de serviço, ele estivera muito mais para “receber” do que “dar”, muito enfronhado com a teoria, mas distanciado da prática.

Nos caminhos de nossa edificação espiritual é importante que assumamos encargos variados em obras assistenciais e sociais, buscando fazer algo em favor do semelhante.

Todavia, para um melhor aproveitamento nesse sentido, não podemos nos limitar a servir algumas horas, segundo o que consideramos nossa disponibilidade. É imperioso que nos disponhamos a servir sempre, onde estivermos, com a gloriosa iniciativa de fazer o que geralmente esperamos que outros façam.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Aprendendo com os próprios erros

Aprendendo com os próprios erros

Richard Simonetti

Ambrósio recebeu o assistente Rogério, que se fazia acompanhar de um visitante.

- Este é Dagoberto, velho amigo, pai de Mariana, que reencarnou sob orientação de nossa casa.

O diretor da respeitável instituição socorrista, no Plano Espiritual, contemplou com simpatia o recém chegado, percebendo sofrida ansiedade em seu olhar.

- Temos acompanhado a trajetória de Mariana, amparando-a na medida do possível.

Conhecemos a extensão de seus problemas atuais.

- Sabe, então, que minha filha casou-se há duas semanas, em virtude de inesperada gravidez... Estou muito preocupado, pois ela tem apenas dezessete anos e o marido, Leo, 20. Ambos abandonaram os estudos por força da nova situação, assumindo atividades profissionais. Embora a aparente felicidade, sinto-os apreensivos e perturbados. Para minha tranquilidade venho pedir-lhe um favor...

Observando que o amigo vacilava, Rogério adiantou-se:

- Dagoberto gostaria de examinar o planejamento reencarnatório de Mariana, a fim de verificar se sua situação atual faz parte das experiências que programou.

Considerando que a solicitação não se inspirava em mera curiosidade, partindo do coração angustiado de um pai, e que a consulta poderia reservar valores educativos, Ambrósio solicitou a uma auxiliar que providenciasse o dossiê da jovem.

Em breves momentos os três Espíritos podiam tomar contato com os eventos mais significativos da experiência reencarnatória de Mariana, relacionados com nascimento, família, estrutura física, detendo-se em alguns dados reveladores:

Profissão: Médica.

Casamento: Por volta dos trinta anos encontraria Rubens, companheiro de pretéritas existências, que a antecedera em dez anos na experiência física.

Filhos: Receberia três Espíritos, Magda, Flávia e Alberto.

Objetivos principais da reencarnação: Consolidação de ligações afetivas, encaminhamento dos filhos, desenvolvimento de tarefas em favor da saúde humana.

Tempo aproximado de vida: Setenta anos.

Dagoberto não se conteve:

- Meu Deus! Estamos diante de um desvio! 

Ambrósio confirmou:

- Sem dúvida. Mariana casou-se com o homem errado, na hora errada, pelo motivo errado.

- E o filho?

- Não é nenhum daqueles que deveriam acompanhá-la. Trata-se de entidade sofredora, ligada ao psiquismo do marido. O envolvimento passional favoreceu o automatismo reencarnatório.

- E agora?

- Bem, a partir do momento em que se afastou do planejamento feito, é difícil prever o futuro. Podemos, entretanto, adiantar algo a respeito. Mariana não será feliz no casamento. Passados os tempos de euforia sexual, experimentará indefinível angústia, sentindo que algo saiu errado em sua vida. A vocação para a Medicina a fará sentir-se lesada em suas aspirações. O filho não lhe satisfará os anseios maternos. No tempo previsto o companheiro que lhe está destinado aparecerá em seu caminho, impondo-lhe a amargura de um amor impossível. Se ceder às solicitações do coração, assumirá novos compromissos cármicos relacionados com a infidelidade e a deserção dos deveres conjugais.

- E os Espíritos que devem renascer em seu lar?

- Dificilmente ela se disporá a ter mais filhos, em face das desilusões conjugais. De qualquer forma, o quadro agora é diferente. O planejamento de todo o grupo será refeito.

- Minha pobre filha! Não é um preço muito alto para simples engano sentimental?

Ambrósio suspirou:

- É o preço da liberdade, meu caro. O desenvolvimento cultural da sociedade humana implica na expansão do livre-arbítrio. As pessoas hoje são mais livres para decidirem suas próprias vidas. Ocorre que raros dão-se ao trabalho de avaliar as consequências de seus atos, cultivando comedimento.

- Mariana perdeu, então, a existência?

- Absolutamente. Embora o desvio em que se envolveu, ela colherá proveito.

Aprenderá quanto à importância da reflexão, habilitando-se, em experiências futuras, a cumprir seus compromissos sem desvios. As frustrações do presente serão, em última instância, uma vacina contra equívocos semelhantes.

- Aprenderá com os próprios erros...

- Exatamente. E os sofrimentos decorrentes a tornarão mais receptiva à ajuda espiritual. Como seu pai você terá maior acesso ao seu coração, amparando-a.

Despedindo-se do visitante, Ambrósio abraçou-o, acentuando:

- Não se deixe dominar pelo desalento. Sua filha precisa de você mais do que nunca. E lembre-se: uma existência na Terra é apenas um elo na imensa cadeia de reencarnações, um segundo na eternidade. Tudo passa, menos o Reino de Deus, a meta suprema. Mariana está a caminho, como todos nós.

Na sua imensa sabedoria o Criador harmoniza os acontecimentos em favor de nosso aprendizado, nos caminhos da Evolução.

Reprogramações existenciais são realizadas vezes sem conta, na medida em que, fazendo mau uso do livre-arbítrio, comprometemo-nos em desvios do caminho, até que nos disponhamos a cumprir a programação maior, adequando-nos às Leis Divinas.

Então desfrutaremos de liberdade irrestrita para fazer exatamente o que Deus espera que façamos.

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domingo, 15 de janeiro de 2023

Encontros e desencontros

Encontros e desencontros

Richard Simonneti



Simone chegou com alguns minutos de antecedência.

Sentada em rústico banco, à sombra de frondosa árvore, recordou que ali tecera com Armando idílico sonho.

O marido representara o seu encontro com a felicidade. A seu lado vivera quinze anos de ternura, enriquecidos por quatro filhos adoráveis.

No entanto, há dois anos o sonho convertera-se em pesadelo. O encontro transviara-se em cruel desencontro: Armando apaixonou-se por inconsequente jovem, iniciando perturbadora relação extraconjugal.

Após meses de tensão o caso fora descoberto. Os filhos revoltaram-se e ele, alegando incapacidade para superar a atração irresistível, decidiu unir-se à sua amada.

Em princípio Simone ficou indignada. Viveu dias tormentosos. Não fora o conhecimento espírita e o teria odiado com todas as suas forças! Abençoada Doutrina, que a ajudara a compreender que o marido não agira com maldade. Apenas fora fraco, cedendo a impulsos desajustados.

A compreensão preservara-lhe a estabilidade emocional e a capacidade de amar.

Sim, continuava amando o marido, um afeto diferente, um pouco maternal, de mãe preocupada com o filho rebelde que deixou o lar. E tudo o que fazia era orar, pedindo a Jesus que a amparasse.

Agora ele queria conversar. O fato de ter escolhido o mesmo banco, na velha praça dos encontros primaveris, evidenciava que ele estava cogitando de uma reconciliação. Conhecia-o, entendia-lhe as mínimas iniciativas, com a precisão nascida de longa convivência, com a secreta intuição dos que amam de verdade, acima das humanas imperfeições.

Despertando de suas reminiscências, avistou Armando. O coração a bater acelerado no peito, dizia-lhe que o marido continuava a ser o homem de sua vida.

O tempo não lhe fora generoso. Estava abatido, magro, envelhecido como se houvessem passado dez anos e não apenas dois.

Ele sorriu timidamente:

- Oi, Simone, como está?

- Tudo bem, graças a Deus. E você?

- Não posso dizer o mesmo. Estou mal, mal mesmo! Arrependido até os fios de meus cabelos, afogando-me em remorsos. Será que você me perdoará um dia?

- Você sabe que não sou de guardar rancores. Não se preocupe.

Tomando-lhe as mãos Armando começou a chorar. Em princípio lágrimas furtivas, depois borbulhantes, como imensa dor represada que explodisse em torrente de mágoas.

- Meu Deus! Que foi que fiz! Destruí nosso lar a troco de uma aventura!...

Lutando por conter a própria emoção, Simone acariciou-lhe as mãos:

- Calma, Armando. Não se entregue ao desalento. Ninguém é perfeito. Todos somos passíveis de erro...

Procurando imprimir um tom de naturalidade às suas palavras, perguntou-lhe:

- Conte-me. Como vai sua vida ao lado da nova companheira?

- Não há mais nada. Foi um equívoco, um desencontro infeliz...

Separamo-nos há uma semana e tudo o que quero é regressar ao nosso lar, ainda que tenha de passar o resto de meus dias pedindo-lhe desculpas. Você me aceitaria de volta?

Simone fitou-o enternecida. Não havia nenhuma dúvida quanto a isso. Desde que se despira de ressentimentos, sentia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, na Terra ou no Além. O amor que os unia era muito forte, capaz de resistir aos vendavais dos enganos humanos.

- Claro, meu querido. É o que mais desejo.

- Há apenas um problema... Não sei como explicar...

- Fale. Tentaremos solucioná-lo... Se tem receio de nossos filhos, fique tranquilo. Eles querem nos ver juntos novamente.

- Sim, o problema envolve filhos... Mais exatamente... um outro filho... Da união infeliz resultou uma criança de dez meses. A mãe não o quer. Ficou comigo.

Sei que é pedir demais, mas você me permitiria retornar com ele?

Um raio que caísse nas proximidades não a teria abalado tanto!

Um filho com a outra, sob seus cuidados, no mesmo lar, em contato com seus próprios filhos?

A proposta soava absurda. Como reter a lembrança perene da defecção do marido?

Era pedir demais!...

Imaginou, em turbilhão de ideias, uma forma de contornar o problema. Um orfanato, talvez... Um casal disposto à adoção...

Sabia, entretanto, que uma solução dessa natureza seria desumana, uma flagrante injustiça contra o pequeno inocente.

Era como se o solo se movimentasse debaixo de seus pés, abrindo intransponível abismo entre ela e o marido.

Em prece muda, implorava a inspiração do Céu.

E o Céu veio em seu socorro.

Sem que conseguisse exprimir com exatidão o que estava acontecendo, sentiu imensa compaixão daquele ser que chegava ao Mundo em circunstâncias tão tristes, rejeitado pela mãe, um entrave na vida do pai... Pobre criança!

Então, o instinto materno, a sensibilidade de um coração generoso, a vocação para o Evangelho, triunfaram sobre a mulher traída que, tomada por uma onda de ternura, levantou-se, resoluta, arrastando o marido perplexo, ao mesmo tempo em que dizia, eufórica:

- Onde está nosso filho? Vamos buscá-lo imediatamente! Sinto que ele precisa muito de mim!

E partiram os dois, retomando a existência em comum, enriquecida pela presença de mais um filho.

Um reencontro feliz, norteado por generosos benfeitores espirituais que encontraram ressonância em meigo coração de mulher.

***

Referindo-se às disciplinas necessárias à atividade religiosa, diz o apóstolo Paulo:

“Seja tudo feito para a edificação.”

Semelhante recomendação aplica-se a todas as experiências humanas, valorizando nossas iniciativas, mesmo quando estejamos às voltas com defecções e deslizes dos companheiros de jornada.

Um cônjuge de gênio difícil é um eficiente treino para a tolerância...

Um filho rebelde é ótimo teste para a vocação de educar...

Até mesmo o “fruto do pecado”, na medida em que sejamos afetados pela ação do pecador, pode converter-se em preciosa oportunidade de construir o Bem, se estivermos atentos aos imperativos da edificação.

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

sábado, 7 de janeiro de 2023

A força do Destino

A força do Destino

Richard Simonetti

Melina acordou assustada:

- Meu Deus! Que pesadelo horrível! Eduardo, o marido, encarou-a sorrindo:

- Sonhou que a troquei por outra? Olhe que não está fora de cogitação...

- Pior! Vi você morto num desastre de automóvel.

- Ora, meu bem, foi apenas um sonho...

- Mas muito nítido! Seu carro derrapou e saiu da pista, arrebentando-se no acostamento. Logo após, incendiou-se.

O marido procura acalmá-la.

- Não se envolva demais com essas impressões, que são sempre perturbadoras. Se todos os seus pesadelos tivessem algo a ver com a realidade, mil coisas más nos teriam acontecido. Você frequentemente sonha com acidentes, doenças e mortes...

- Desta vez foi diferente. Era tudo incrivelmente real!

Olhos em lágrimas, expressão angustiada, Melina pede ao marido:

- Por favor, querido, não viaje hoje. Telefone ao chefe, diga que está doente...

- Você sabe que não posso me dar ao luxo de faltar ao trabalho porque minha esposa teve um pesadelo.

- O que me aflige é a estrada. São cinquenta quilômetros.

- Tenho feito centenas de vezes o percurso, sem problemas. Você sabe que sou muito cuidadoso.

- Está bem. Então quero fazer-lhe um pedido: vá de ônibus. Deixe o carro em casa.

- Acidentes também ocorrem com coletivos...

- São menos frequentes. E no ônibus estará mais protegido. Automóveis são muito frágeis.

- A mudança trará problema. Como vou dizer ao Itamar e ao Marcelo que não irão no meu carro? É a minha vez de levá-los.

- Troque a escala. Só hoje...

Eduardo resolve aceder, a fim de tranquilizar a esposa.

- Está bem. Falarei com eles. E sorrindo:

- Devo dizer-lhes de seu sonho? Quem sabe os livraremos também?

- Meu sonho foi com você. Eles não participaram.

- O acidente foi na ida ou na volta? Se foi na ida poderei retornar com eles.

- Não brinque...

- Seja feita a sua vontade. Regressarei de ônibus. Só que chegarei mais tarde.

Não poderemos ir ao cinema.

- Não faz mal. Haverá outros dias.

Eduardo avisou os amigos. Melina foi levá-lo à rodoviária. O marido embarcou algo contrafeito, mas conformado. Faria o sacrifício em favor do bem-estar da esposa.

Beijou-a carinhosamente.

- Até à noite.

- Vá com Deus, querido.

A jovem senhora retornou aliviada ao lar. Embora o marido fosse excelente motorista, confiava mais na segurança do coletivo.

Horas mais tarde recebeu a visita inesperada de Itamar e Marcelo. Ambos taciturnos e tensos.

- Algum problema com vocês? Voltaram cedo... O carro enguiçou?

- O problema é com Eduardo. Houve um acidente com o ônibus. O veículo derrapou, saiu da estrada, bateu no acostamento e se incendiou.

- Meu Deus! E ele, como está?

- Lamentamos muito. Eduardo faleceu...

A sabedoria popular proclama que ninguém escapa ao seu destino.

Embora as restrições que se possa fazer a semelhante assertiva, já que com o exercício do livre arbítrio podemos refazer o destino todos os dias, há cobranças cármicas, envolvendo problemas da vida e circunstâncias da morte, que não podem ser dribladas.

A submissão a Deus, nesses momentos, é a nossa melhor opção, reconhecendo que a sabedoria divina sabe o que faz e que sejam quais forem as atribulações do presente, o Senhor nos reserva sempre o melhor.

Richard Simonetti do livro:
Encontros e desencontros

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