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quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Treino para a morte

Treino para a morte

Manoel Philomeno de Miranda


Durante o Seminário no G-19 — Fundação para a Melhoria da Consciência Global — em Zurique, Suíça, no dia 29 de maio (1.994), foi proposta, como exercício de preparação, uma experiência de morte.

Nessa noite, terminadas as atividades, o Benfeitor Espiritual ditou os presentes comentários a respeito do assunto.

A cessação dos fenômenos biológicos é inevitável.

Máquina sofisticada e completa, que se vem aprimorando através dos séculos, gasta-se o corpo à medida que funciona, emperrando sob ações e condições variadas, desajustando-se por interferência de agentes perturbadores e enfermiços, por fim, transformando-se pela morte.

Essa é uma fatalidade irrecorrível, por mais se pretenda escapar-lhe.

Como a vida, porém, não são apenas os implementos admiráveis da constituição celular, e o ser que a vitaliza seja-lhe preexistente, compreende-se que, morrer, não é extinguir-se, antes é liberar-se da temporária prisão onde se esteve, sobrevivendo-lhe à argamassa material.

Em razão da impregnação da energia espiritual pelas vibrações do campo físico, o ser apega-se ao corpo e teme perdê-lo. O adormecimento da consciência profunda, na maquinaria cerebral, faz que ele esqueça, nesse período, da sua procedência, iludindo-se mais com as sensações a que se encontra acostumado do que com as emoções transcendentes do seu estado real.

A morte assemelha-se-lhe, então, a uma interrupção definitiva da vida, ao seu aniquilamento, o que se lhe toma terrível e devastador.

Surgem, em razão disso, reações de rebeldia, de pavor ou de desinteresse, de desprezo pelo fenômeno transformador.

A expressiva massa humana, todavia, apegada às experiências fisiológicas, não se dispõe a meditar a respeito da morte, a preparar-se para ela, a entender-lhe a ocorrência. Vivendo em uma espécie de sonho, não se propõe a despertar, transferindo mentalmente essa reflexão para um momento que, talvez, não alcance.

Vive-se no corpo, acompanhando-se-lhe a incessante, a automática transformação molecular. Morrem células aos bilhões com frequência, que são substituídas por outras; os órgãos sofrem alterações contínuas, que não são percebidas imediatamente, e somente quando o desgaste se acentua é que se notam as mudanças, a insuficiência de forças, o enfraquecimento da visão, da audição, da memória, da bomba cardíaca e de outros equipamentos vitais...

A inexorabilidade da morte está, portanto, presente na vida, e toma-se medida saudável e racional pensar-se sempre nela, no momento terminal, equipando-se de energias morais para o enfrentamento, a libertação.

A morte não produz dor, por ser um suave deslindamento de vínculos, quando o fenômeno é natural.

Cada morte é decorrência de cada experiência de vida, sendo, então, especial e particular, para cada indivíduo.

No processo biológico final, normal, morrer é uma forma de adormecer, para um consequente despertar com as mesmas características e disposições anteriores ao processo terminal fisiológico.

Ao acordar, nem coro de anjos, nem presenças satânicas aguardando, exceto para aqueles que abominaram a vida, tomando-a insuportável para si como para os outros, vinculados que viveram, aqueles que assim se comportaram, com os Espíritos perversos e obsessores. Aqueloutros, que se iluminaram pelo bem e ascenderam aos parámos do amor, defrontam os seus amigos diletos, que os precederam e ali estão para recebê-los de volta ao lar.

Cada qual desperta com a posse da bagagem que acumulou na Terra e conduziu na mente como no sentimento. Ela dispensa os objetos, os recursos amoedados e títulos, os valores materiais que ficaram e agora se tornam motivos de lutas da usura, de animosidades e rixas cruéis.

A verdadeira posse permanece com o seu cultivador, que deixa de ser aquele que tem para tomar-se o que é. Nesse momento, dá-se conta do que é verdadeiro ao lado daquilo que é falso; do que tem permanência e do que sofre transitoriedade; do que se transforma em asas de libertação, em detrimento do que sucumbe ao peso das paixões primitivas...

Essa avaliação é automática, rápida ou prolongada, conforme os comprometimentos morais de cada ser.

A consciência, sem anestesia, passa a comandar a razão com vigor, não mais podendo ser camuflada a verdade, ou postergado o momento de autoanálise, de autodescobrimento.

Muitas vezes, a memória, desatrelando-se dos neurônios cerebrais, recorda toda a existência, em forma regressiva, desde a desencarnação ao nascimento, fixando as lembranças infelizes, que se fazem acompanhar de dolorosos arrependimentos e mágoas, ou alegrias inefáveis, quando são ditosas essas recordações. Nesse instante, o que está feito não pode ser alterado até que se renovem os compromissos de reparação, quando negativos, ou prolongando as emoções de felicidade, quando ditosos.

A reencarnação tem como objetivo imediato facultar o desenvolvimento intelecto-moral do Espírito, e, ao ser ela concluída, a imediata avaliação de resultados estabelecerá os futuros empreendimentos, ficando esse período intermediário, entre o túmulo atual e o futuro berço, como preparatório, em esfera de paz ou campo de luta.

É necessário pensar-se na morte enquanto se está no corpo; fazer-se uma análise de como se encontra e qual seria o seu estado emocional ao despertar, caso a mesma lhe chegasse nesse momento.

Valeriam a pena os apegos exorbitantes a pessoas e a coisas; as disputas por heranças perturbadoras e complicadas que ficarão, por terras e propriedades que passarão de mãos? E o cultivo do amor-próprio ferido, das vaidades enganosas, dos ódios angustiantes, dos caprichos pessoais, das exigências extravagantes, das dores desnecessárias que o egoísmo e o orgulho ocasionam?

Ver-se-á, com essas reflexões, que há muito acúmulo de entulho a que se dá valor descabido nos depósitos dos interesses pessoais da existência terrestre.

Quanto maior for a soma das paixões, das fixações fortes, dos jogos dominadores nos painéis mentais e nas emoções, mais largo será o período de aflição ante a morte e de perturbação íntima, que leva a estados infelizes de obsessão os que ficaram no corpo como legatários, os adversários, os amores desequilibrados, os disputadores das coisas e posses.

É necessário um treino moral para libertar-se do que não se pode conduzir, doando-se, transferindo-se com alegria para outrem, ou deixando-se sem saudades nem amarguras todas as coisas.

Uma reflexão diária sobre a morte ajuda a partida de todos que, inevitavelmente, viajarão para o país de sua origem, de onde volverão de retomo ao mundo, no futuro, em algemas ou inteiramente livres para a preparação da sua plenitude.

Manoel Philomeno de Miranda por Divaldo Franco
do livro: Sob a Proteção de Deus

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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

O Passe

O Passe

Manoel Philomeno de Miranda


Terminada a conferência em Basel, Suíça, sobre o tema Experiências pessoais mediúnicas e o Espiritismo, no PSI-Centrum, no dia 1 de junho, foi solicitado que se explicasse a técnica de aplicação da bioenergia, logo seguida de uma demonstração. Na manhã seguinte, o devotado Mentor Espiritual escreveu a mensagem que intitulou:

Todo ser vivo irradia a energia que lhe mantém os equipamentos constitutivos e, no caso especial das criaturas humanas, através do perispírito essa exteriorização forma a aura, que revela os estados de saúde física, emocional e psíquica, ao mesmo tempo caracterizando o nível evolutivo de cada um.

Esse campo de irradiação tanto recebe como transmite a bioenergia, que procede do espírito nos seus elementos essenciais.

É o perispírito o grande mediador, graças ao qual se expande, e por cujo intermédio é captado.

Pela sua natureza, o perispírito é constituído do mesmo tipo de fluido espiritual. Ao assimilá-lo, transmite-o ao organismo, que passa a sofrer-lhe a ação positiva ou negativa.

Todos possuem essa energia, que transmitem e captam, conscientemente ou não.

Quem deseje dedicar-se à doação bioenergética, com objetivos curadores, pode e deverá fazê-lo, observando, no entanto, alguns requisitos que se lhe tomam essenciais. Primeiro: cumpre preservar a saúde física mediante o equilíbrio das forças psicofísicas, que procedem de uma vida mental correta, com a consequente conduta moral equilibrada. Segundo: são necessários disciplinas espartanas em relação aos alcoólicos, fumo, drogas adictivas, comportamento sexual, alimentação tóxica... Terceiro: o esforço para o exercício da bondade, da abnegação e, sobretudo, do sentimento de amor, especialmente dirigido aos pacientes. Esses, por sua vez, têm como dever, o interesse por transformar-se interiormente para melhor, manter receptividade mental e emocional ao auxílio que lhe é dirigido; buscar a autoiluminação.

As enfermidades, os sofrimentos, a morte são fenômenos naturais do processo biológico, inevitáveis, por constituírem os equipamentos orgânicos apenas recursos temporários para a evolução do ser espiritual. Portanto, a terapia bioenergética não tem por objetivo impedir que os processos da existência física tenham o seu curso; no entanto, podem alterar a forma como esse programa se expressa.

A lei do mérito funciona em decorrência da conduta renovada de qualquer indivíduo, e, nesse momento, os recursos da bioenergia conseguem alterar o quadro dos resgates humanos.

Não obstante sejam conhecidas várias técnicas para a sua aplicação, nunca se deve deixar de observar a simplicidade do ato com a predominância do amor, a fim de que a preocupação exagerada com a forma não resulte em prejuízo do conteúdo.

Jesus tocava os Seus enfermos, pensava neles, usava recursos incomuns e curava-os, restituindo-lhes o equilíbrio, a sanidade, os valiosos sentidos, quando bloqueados ou afetados pelas doenças degenerativas. Todos, no entanto, no momento próprio desencarnaram, pois que a vida plena é a do espírito e não a do corpo.

O passe, igualmente, é vigorosa terapia nos estados obsessivos, por fortalecer o paciente, ensejando-lhe recursos fluídicos para a competente mudança de atitude mental e moral em relação ao seu perseguidor. Absorvendo essa vitalidade como se fora uma esponja a embeber-se de líquido, o perispírito adquire resistência para enfrentar as descargas perniciosas que lhe são transmitidas pelo adversário desencarnado, suportando-as sem prejuízo para a sua estabilidade, e, por efeito, não sendo afetados a mente ou o corpo.

A repetição da terapia e a renovação interior do enfermo são os primeiros passos para a sua recuperação, seguida da doutrinação do perseguidor ou da sua voluntária desistência ao plano de desforço a que se fixava.

Não se faz necessário que o passista seja médium ostensivo para que possa dedicar-se ao ministério fraternal da caridade. A medida que se aplique ao bem desenvolver-se-lhe-ão as faculdades curativas, permitindo-lhe, concomitantemente, receber com nitidez e consciência a influência dos Bons Espíritos, que sempre estão ao lado de todo obreiro que se afeiçoa ao serviço do Bem.

Esse auxílio, que é magnético, derivado da própria natureza humana, toma-se fluídico ante a contribuição dos Espíritos que interferem na ação socorrista.

A mente, portanto, do doador, tem papel de alta importância para os resultados do passe. Conduzida para os objetivos superiores da vida, toma-se o dínamo gerador da energia salutar que deve ser canalizada para auxílio aos enfermos.

Os fluídos são veículos seguros dos pensamentos, conforme acentuou Allan Kardec, agindo sobre os mesmos como o som age sobre o ar, assim conduzindo-os como o ar nos traz o som. Pode-se dizer, pois, com toda a verdade, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamento, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros (e visuais).

Desse modo, o pensamento, seja dos encarnados como dos desencarnados, age sobre os fluídos, sendo transmitido com facilidade.

A aplicação da bioenergia em forma de passe, sob a. inspiração do Bem, é terapia de fácil alcance e contribui admiravelmente para o equilíbrio, a saúde e o bem-estar de todas as criaturas.

Manoel Philomeno de Miranda por Divaldo Franco
do livro: Sob a Proteção de Deus

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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A lenda dos milagres do Amor

A lenda dos milagres do Amor

Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf



A família chegara à floresta para fixar residência, fazia poucos dias.

Os ventos bons da primavera trouxeram o perfume das flores e das árvores — tílias, rönn, bétulas — o canto dos pássaros e as mil vozes da natureza para saudarem os novos habitantes.

Havia festa de cor e de alegria que se exteriorizava em toda parte, bailando no ar.

Extasiado, o casal, à porta de entrada da choupana, bendizia a vida, agradecendo essas belas homenagens. Menos o filhinho único de seis anos, que tinha o olhar distante e melancólico.

Nesse momento de alegria, saiu do bosque, risonho, um troll (duende), que se aproximou dos recém chegados e pediu licença para fazer parte do grupo familiar.

Vendo-o, assustaram-se os adultos, que o expulsaram com insultos, dizendo-lhe:

— Como se atreve a vir importunar-nos, esse velho de grandes orelhas e disforme nariz, feio de rosto com rabo eriçado e tão pequeno de estatura, que é insignificante!?

Procurando sorrir, ele explicou:

— Eu sou um small troll (gentil duende) e desejo ser útil. Eu sei amar; porém, ninguém me ama. Por favor, deixem-me entrar e ficar com vocês. Eu vivo muito só.

Com azedume, os adultos exigiram-lhe que não os importunasse mais e se fosse dali, imediatamente.

O troll fitou, então, o menino melancólico, que o olhava com simpatia, e sorriu-lhe. Por um momento a criança não reagiu, mas logo depois, corando, retribuiu- lhe o sorriso.

A partir dali, diariamente, o troll retornava e brincava com a criança, para desagrado dos pais, que o toleravam somente porque perceberam a suave mudança que se foi operando na face pálida e triste do filhinho. Ele agora sorria e falava, corria e cantava as músicas que o troll lhe ensinava.

O novo amigo falou-lhe, então, dos encantos da floresta, dos animais, das águas, dos ventos, das árvores, das folhas, das flores e dos frutos. Apresentou-o às fadas e aos elfos, aos gênios e aos gnomos...

Conforme se passavam os dias, o troll foi tendo diminuídos o rabo eriçado, as grandes orelhas, o enorme nariz, assumindo uma forma grácil e terminando por tomar-se um lindo jovem, que se incorporou à família.

O amor recíproco, entre o troll e a criança, operou os milagres de tornar a criança feliz e o troll um belo e ditoso jovem.

Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf por Divaldo franco do livro:
Sob a Proteção de Deus

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Nota da publicação: A conferência em Estocolmo, Suécia, abordou, no dia 11 de junho de 1994, o tema: Reencarnação, lei de amor e as doenças. Os Amigos Espirituais trouxeram à comunicação psicográfica a veneranda contista Selma Lagerlöf, que apresentou a bela e delicada página aqui presente.
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quinta-feira, 1 de abril de 2021

A verdade sempre predomina

A verdade sempre predomina

Joanna de Ângelis



O culto à mentira é dos mais danosos comportamentos a que o indivíduo se submete. Ilusão do ego, logo se dilui ante a linguagem espontânea dos fatos. Responsável por expressiva parte dos sofrimentos humanos, fomenta a calúnia que lhe é manifestação grave e destrutiva - a infâmia, a crueldade...

A maledicência é lhe filha predileta, por expressar-lhe os conteúdos perturbadores, que a imaginação irrefreada e os sentimentos infelizes dão curso. 

Além desses aspectos morais, a mentira não resiste ao transcurso do tempo. Sem alicerce que a sustente, altera a sua forma ante cada evento novo e de tal maneira se modifica, que se desvela. Por ser insustentável, quem se apoia na sua estrutura frágil padece insegurança contínua. 

Porque é exata na sua forma de apresentar-se, a verdade é o inimigo normal da mentira. Enquanto a primeira esplende ao sol dos acontecimentos e exterioriza-se sem qualquer exagero, a segunda é maneirosa, prefere a sombra e comunica-se com sordidez. Uma é fruto da realidade; a outra, da fantasia, que não medita nas consequências de que se reveste. 

A mentira teme o confronto com a verdade. Aloja-se nas sombras, espraia-se, às escondidas, e encontra, infelizmente, guarida. 

A verdade jamais se camufla; surge com força e externa-se com dignidade. Não tem alteração íntima, permanecendo a mesma em todas as épocas. Ninguém consegue ocultá-la, porque, semelhante à luz, irradia-se naturalmente. Nem sempre é aceita, por convidar à responsabilidade. Amiga do discernimento, é a pedra angular da consciência de si mesmo, fator ético-moral da conduta saudável. 

Enquanto a mentira viger, a acomodação, o crime afrontoso ou sob disfarce, o abuso do poder e a miséria de todo tipo predominarão na Terra exaltando os fracos, que assim se farão fortes, os covardes, que se tornarão estóicos, os astutos, que triunfarão em detrimento dos sábios, dos nobres e dos bons... 

Face a tais logros, que propicia, não obstante efêmeros, os seus famanazes e cultuadores detestam e perseguem a verdade. Não medem esforços para impelir-lhe a propagação, por saberem dos resultados que advirão com o seu estabelecimento entre as criaturas. 

São baldas, porém, tão insanas atitudes. 

A verdade espera... Seus opositores enfermam, envelhecem e morrem, enquanto ela permanece. 

A mentira é de breve existência. Predomina por um pouco, esfuma-se e passa... 

(...) Jesus, em proposta admirável, afirmou: 
"- Busca a verdade e a verdade te libertará."
Ninguém tem o direito de ocultar a verdade, qual se fosse uma luz que devesse ficar escondida. Onde se encontre, irradia claridade e calor. 

O seu conhecimento induz o portador a apresentá-la onde esteja, a divulgá-la sempre. Pelos benefícios que proporciona, estimula à participação, à solidariedade, difundindo-a. (...) 

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Sob a proteção de Deus

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quarta-feira, 29 de março de 2017

Entrevistando Emanuel Swedenborg

Entrevistando Emanuel Swedenborg

Irmão X.



A conferência em Estocolmo, Suécia, no dia 10 de junho (1994), abordou o tema da Sobrevivência do Espírito. Encerrada a reunião, o Amigo Espiritual escreveu a interessante mensagem que aqui se encontra.

Visitava Estocolmo, a bela capital da Suécia, nesta ensolarada manhã de junho, país que ofereceu homens e mulheres notáveis à Humanidade, quais Tycho Brahé, o admirável astrônomo, Alfredo Nobel, o inspirado benfeitor do progresso da Ciência e da Cultura, Selma Lagerlöf, a inesquecível contista, Carl Mieles, o Miguel Ângelo moderno, entre outros, quando me recordei do sábio e místico Emanuel Swedenborg, de elevados dotes intelectuais e mediúnicos.

Sabia que a pequena casa onde ele meditara no sul da cidade, no século XVIII, fora transferida integralmente para o belo parque Skansen, que é um misto de zoológico, museu onde se encontram páginas vivas do país, com as suas construções do passado, ao mesmo tempo bosque e ampla área de recreação.

Dirigi-me à imensa área verde, enriquecida pelo perfume das flores do verão sueco e, em recanto especial, entre roseiras exuberantes, encontrei a modesta construção de madeira, ainda impregnada pelas vibrações do famoso cientista e vidente.

Com o faro aguçado de jornalista curioso, adentrei-me na pequena e bem conservada habitação, revendo os móveis singelos, ao mesmo tempo tentando penetrar no campo psíquico que ali perdurava.

Alongando observações com referência aos frequentadores do santuário, discípulos e admiradores do inspirador da Igreja da Nova Jerusalém, vi o eminente sensitivo sentado na sala, conversando com alguns interessados e aprendizes devotados.

Acerquei-me do grupo, com o máximo de respeito e atenção, anotando algumas expressões e pensamentos renovadores que foram citados pelo palestrante.

Terminada a conversação, aproximei-me e apresentei-me ao simpático Espírito, que me recebeu jovialmente.

Expliquei-lhe que tomara conhecimento, embora superficialmente, da sua Doutrina, quando encarnado, e que, se possível, gostaria de apresentar-lhe algumas breves questões que me surgiram há tempos, face aos meus estudos no além-túmulo, da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec.

Sem opor qualquer dificuldade, o nobre pensador aquiesceu. Sem demora, indaguei-lhe:

— Transcorridos quase duzentos e cinquenta anos da vossa expressiva experiência mediúnica, em 1745, que assinala o início do vosso apostolado, teria algo de novo a acrescentar às revelações recebidas?

Não se fazendo rogado, e com naturalidade, ele respondeu:

— Como o amigo deve encontrar-se informado, o fenômeno se me manifestou por primeira vez em forma de um sonho, no qual eu senti uma tremenda ventania que me atirou com a face no solo. Comecei a orar, temeroso, então vi Jesus, que manteve uma grave conversa comigo, da qual me ficaram apenas as palavras Bem, então, assim, que foram as únicas possíveis de recordar- me ao despertar.

“A impressão do insólito acontecimento foi tão poderosa, que alterou completamente a minha existência, a partir daquele momento, e para esse trabalho entreguei os restantes quase vinte e sete anos de que dispus...

“As revelações e os contatos espirituais prosseguiram incessantes, e os anotei, quanto possível, no que redundou tomar-se a doutrina que preserva o meu nome.

“Quantos enganos, porém! Aquele era um período difícil. O predomínio da fé religiosa sem a razão; a ignorância, quase generalizada, a respeito dos Espíritos e das suas comunicações; o meu estado de exaltação psíquica, tudo isso contribuiu para que me equivocasse e também tombasse nos escorregadios degraus do fanatismo que me comprometeu.

"“Já tive ocasião de referir-me, através de vários médiuns, a algumas dessas questões, nos dias da Codificação espírita, no século passado, como mais recentemente, na Inglaterra, país que sempre amei.

“O amigo sabe que foi em Londres, que entreguei a alma a Deus, não é verdade?”

— Sim — redargui-lhe. — Sabia-o vagamente. Porém, os despojos mortais ainda permanecem lá?

— Não — retrucou. — O governo do meu país transferiu-os para a Catedral de Upsala, no ano de 1908, onde hoje se encontram.

— O nobre benfeitor ainda considera legítima a doutrina das correspondências que apresentou na vossa Obra?

Detendo-se a reflexionar, com suave sorriso na face, respondeu com sinceridade:

— Toda a base teológica do meu pensamento, que objetivava restaurar o Cristianismo, hauri-a na Bíblia, que tinha na condição de infalível, por ser a palavra de Deus. As revelações espirituais que me eram feitas, por sua vez, procediam de entidades algo intolerantes e fixadas às convicções que adquiriram antes da morte. A minha exaltação psíquica igualmente contribuiu para aplicar as correspondências do lendário livro com a realidade humana, nos vários aspectos — moral, espiritual, religioso — fazendo um grande esforço imaginativo e conceptual para que se apresentassem lógicas, o que certamente não foi possível. Tomou-se, assim, uma página mitológica, rica de simbolismos, alguns absurdos, sem nenhum referencial com a realidade. Hoje, procuro inspirar os seguidores da Igreja da Nova Jerusalém para que operem mais amplas aberturas interpretativas, ou mesmo deixem-na à margem.

“Reconheço, com alguma tristeza, que ignorando o trato psicológico com os imortais, não obstante as experiências com algumas ciências, tomei-me presa fácil de Espíritos, alguns pseudo-sábios e outros zombeteiros, que me induziram a conclusões errôneas, no que diz respeito à religião, assim como a outras questões de natureza filosófica.”

— Como considerais hoje a comunicabilidade dos Espíritos e a amplitude do fenômeno mediúnico, após o surgimento do Espiritismo em Paris, a 18 de abril de 1857?

— Com simpatia e preocupação. Tenho o Espiritismo como o real Consolador prometido por Jesus-Cristo, que eu pensei, à minha época, ser a mensagem de que me fizera portador, por atribuí-la ao próprio Jesus, portanto, a Deus feito homem, como eu expus nas minhas obras. O conceito esdrúxulo foi uma tentativa de negar a Santíssima Trindade, porém, respeitando alguns postulados bíblicos, criei a ideia de Deus, em Jesus humanizado, para deter os demônios que atenazavam as criaturas, e no Espírito Santo, mas que não seriam três pessoas, porém os três essenciais de um único Deus.

“O Espiritismo ensina corretamente a questão, libertando-se do atavismo clericalista e do cabalismo do número três. Racional, ele é sempre lógico. Eu defendera a tese de que se devia crer sem a necessidade da comprovação pelos fatos, o que ora me soa absurdo, assim reconfirmando que o espírito familiar que mais dialogava comigo, igualmente, ignorava muitas coisas.

“Ele fez-me ver que eu fora escolhido para o intercâmbio com os anjos e os santos, com Jesus-Deus. Permiti-me a fantasia ingênua de considerar-me um privilegiado, o único ser em condições de reformar a Religião Cristã, apresentando a verdadeira, que pouco fora conhecida.

“Todas as criaturas somos muito vulneráveis à presunção, essa filha da vaidade e irmã do egoísmo exacerbado.

“A minha preocupação diz respeito à ligeireza com que as pessoas tomam conhecimento da Doutrina Espírita, sem a aprofundarem, entregando-se à prática mediúnica desequipadas de conhecimentos, seriedade e cuidados, assim tomando-se instrumentos da insensatez e leviandade que permanecem também entre os mortos, como sabemos, o amigo e nós.

“Não seria lícito tentar impedir o intercâmbio generalizado, que se dá do nosso para o mundo físico, no entanto, é lícito e oportuno recomendar-se muito cuidado, mesmo porque os Espíritos não detemos todo o conhecimento, razão que levou Allan Kardec a interrogar vários, por intermédio de diferentes médiuns, comparando depois as respostas e submetendo-as ao crivo da razão, da universalidade.

“Ao mesmo tempo, o intercâmbio espiritual pelos médiuns, qual ocorreu com o próprio Jesus, no Tabor, diante de Moisés e Elias, bem como com os Apóstolos, é dos mais elevados contributos para a plenificação humana, através da certeza da sobrevivência da vida à morte física.”

E após um sorriso jovial, arrematou:

“Já não considero o intercâmbio mediúnico como o caminho para o hospício.”

— Não desejando ser inoportuno, indagaria ao caro Benfeitor, se ainda considerais que o espírito surge do sêmen do pai, enquanto a mãe oferece-lhe o corpo, conforme se encontra na Doutrina Swedenborguiana?

— Basta um regular conhecimento das leis da hereditariedade para constatar-se o equívoco da afirmativa. Vivíamos, à época, em total desconhecimento da Genética, e concepções fantasiosas tentavam explicar a origem da vida, inspirando-se no simbolismo bíblico da Criação que, não resolvendo todas as questões do Evolucionismo Darwiniano e do Transformismo Lamarckiano, que vieram só depois, abriam espaço para essa e outras audaciosas teorias.

“Sabemos que Deus jamais repousa, descansa, prosseguindo o ministério ilimitado da Criação, conforme Jesus acentuou: Meu Pai até hoje trabalha e eu também trabalho. Este conceito do Mestre basta para confirmar que o Autor continua produzindo a vida...

“Muitos reparos merecem o trabalho que deixei. Valem, porém, o esforço sacrificial, que foi aplicado nele, e o imenso amor às criaturas, as quais pretendia libertar da ignorância, agora continuando com o mesmo objetivo, embora com a visão renovada.”

— Agradeço ao querido mestre a gentileza e bondade, e rogo-vos escusas pelo tempo que vos tomei.

Gentilmente ele distendeu-me a mão e sorriu com cordialidade.

Eu porém prossegui com a mente esfervilhando de interrogações, que não deveria apresentar ao grande vidente sueco, para não pecar por descortesia ou desrespeito.

Não obstante, porque a noite demorasse de chegar, ali fiquei no imenso parque de Skansen, a meditar nas respostas do insigne místico de Estocolmo.

Irmão X. por Divaldo Franco do livro:
Sob a Proteção de Deus

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domingo, 8 de janeiro de 2017

Verdade Libertadora

Verdade Libertadora

Joanna de Ângelis



A verdade sempre predomina.

O culto à mentira é dos mais danosos comportamentos a que o indivíduo se submete. Ilusão do ego, logo se dilui ante a linguagem espontânea dos fatos. Responsável por expressiva parte dos sofrimentos humanos, fomenta a calúnia — que lhe é manifestação grave e destrutiva — a infâmia, a crueldade...

A maledicência é-lhe filha predileta, por expressar- lhe os conteúdos perturbadores, que a imaginação irrefreada e os sentimentos infelizes dão curso.

Além desses aspectos morais, a mentira não resiste ao transcurso do tempo. Sem alicerce que a sustente, altera a sua forma ante cada evento novo e de tal maneira se modifica, que se desvela. Por ser insustentável, quem se apóia na sua estrutura frágil padece insegurança contínua.

Porque é exata na sua forma de apresentar-se, a verdade é o inimigo normal da mentira. 

Enquanto a primeira esplende ao sol dos acontecimentos e exterioriza-se sem qualquer exagero, a segunda é maneirosa, prefere a sombra e comunica-se com sordidez. Uma é fruto da realidade; a outra, da fantasia, que não medita nas consequências de que se reveste.


A mentira teme o confronto com a verdade. Aloja- se nas sombras, espraia-se, às escondidas, e encontra, infelizmente, guarida.

A verdade jamais se camufla; surge com força e extema-se com dignidade. Não tem alteração íntima, permanecendo a mesma em todas as épocas. Ninguém consegue ocultá-la, porque, semelhante à luz, irradia-se naturalmente. Nem sempre é aceita, por convidar à responsabilidade. Amiga do discernimento, é a pedra angular da consciência de si mesmo, fator ético-moral da conduta saudável.

Enquanto a mentira viger, a acomodação, o crime afrontoso ou sob disfarce, o abuso do poder e a miséria de todo tipo predominarão na Terra exaltando os fracos, que assim se farão fortes, os covardes, que se tomarão estóicos, os astutos, que triunfarão em detrimento dos sábios, dos nobres e dos bons...

Face a tais logros, que propicia, não obstante efêmeros, os seus famanazes e cultuadores detestam e perseguem a verdade. Não medem esforços para impedir-lhe a propagação, por saberem dos resultados que advirão com o seu estabelecimento entre as criaturas.

São baldas, porém, tão insanas atitudes.

A verdade espera... Seus opositores enfermam, envelhecem e morrem, enquanto ela permanece.

A mentira é de breve existência. Predomina por um pouco, esfiuna-se e passa...

*

Na sua constituição molecular, conforme se apresenta, o corpo é uma realidade-mentira, por ser um revestimento transitório, que sofre alterações incessantes até o momento da sua transformação fatalista pela morte.

O espirito é o ser; o corpo é o não-ser, conforme definiu Platão.

A busca da verdade — o que é permanente — é a meta da existência física.

A verdade cresce à medida que o ser se desenvolve. Sem abandonar as suas raízes, faz-se profunda, é sempre atual e enfrenta a razão em todas as épocas com os equipamentos da lógica e da realidade.

Ela objetiva sempre alcançar o ser em sua plenitude, permanecendo como diretriz para a vida, sustentação dos ideais e segurança para todos os cometimentos. É a grande libertadora da criatura. Sem a sua vigência predominam as trevas, a barbárie, o abuso dos costumes.

A verdade é pão que nutre, medicamente que cura, guia que conduz com equilíbrio. Jamais fica desconhecida, por maiores sejam os obstáculos que se lhe anteponham. Escapa a qualquer controle, por ser soberana, e, mesmo quando aparentemente morta, renasce.

O encontro com a verdade produz choque, por significar o desaparecimento da ilusão, a saída do comodismo, da paralisia, do prazer frustrante.

Jesus, em proposta admirável, afirmou: — Busca a verdade e a verdade te libertará.

*

Ninguém tem o direito de ocultar a verdade, qual se fosse uma luz que devesse ficar escondida. Onde se encontre, irradia claridade e calor.

O seu conhecimento induz o portador a apresentá- la onde esteja, a divulgá-la sempre. Pelos benefícios que proporciona, estimula à participação, à solidariedade, difundindo-a.

Quem a encontrou, sente-se convidado a tomá-la conhecida, a esparzi-la como pólem de vida.

Embora muitas criaturas cheias de si, vítimas do orgulho e da prosápia, não demonstrem interesse em travar contato com ela, não a ocultes por timidez, receio ou preconceito dos outros. A tua fé espírita fundamenta-se na verdade. Vem de Jesus-Cristo, que a anunciou.

Sem agredir ninguém, ou impô-la, coloca-a, sem qualquer constrangimento, no velador, a fim de que todos a conheçam, e com ela se relacionem aqueles que estiverem interessados ou necessitados.

Faze a tua parte, e a vida fará o restante.
NotaRealizado o estudo do Evangelho no lar de Josef Jackulack, na noite de 5 de junho, em Viena, Áustria, o tema foi: Não ponhais a candeia debaixo do alqueire, capitulo XXIV, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, após o qual a Mentora espiritual escreveu a presente mensagem.
Joanna de Ângelis por Divaldo Franco
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