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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Pluralidade dos mundos habitados

Pluralidade dos mundos habitados

Richard Simonetti


No Universo há outros mundos habitados, com seres de diferentes graus de evolução: iguais, mais evoluídos e menos evoluídos que os homens.

 

Para os antigos o céu era o teto da Terra.

Nele fixados o Sol, farol que sustentava o dia; a lua e as estrelas, luzes que enfeitavam a noite.

Obedecendo a indevassável mecanismo, a abóbada celeste movimentava-se em torno da Terra.

Quando surgia, o Sol espantava a noite.

Quando o Sol declinava, morria o dia.

A Ciência engatinhava e suas concepções se confundiam com a teologia dogmática:

A Terra, o centro do Universo.

O Homem, o rei da criação.

Com o tempo descobriu-se que o teto da Terra é o infinito; as luzes do Céu, astros distantes.

Não obstante, durante séculos, a religião, atrelada ao carro do poder temporal, impôs suas concepções, valendo-se de precários cálculos e observações de Ptolomeu, astrônomo grego que viveu no primeiro século da era cristã. Ele foi o autor da teoria geocêntrica, em que se sustentava a fantasia teológica.

Proibido avançar além dela.

Castigo — a morte!

É bastante ilustrativo o episódio famoso, envolvendo o astrônomo italiano Galileu Galilei, no século XVII, levado às barras de um tribunal inquisitorial. Foi convidado, sob pena de arder na fogueira, a negar a concepção que defendia, atribuída a Nicolau Copérnico, que vivera um século antes.

Era a teoria heliocêntrica, segundo a qual a Terra não é o centro do Universo, mas apenas humilde planeta que gira em torno do Sol, pequena estrela de quinta grandeza.

inadmissível para as autoridades religiosas que o Homem, o rei da Criação, habitasse um grão de poeira, em areai infinito.

Conta-se que Galileu, que não tinha vocação para o martírio, negou a teoria heliocêntrica, mas afirmou, ao mesmo tempo, aos seus companheiros:

Eppur, si muove.

Apesar de toda a intransigência, daquele fanatismo tolo, a Terra se move.

Galileu, valendo-se de uma invenção a ele atribuída — o telescópio, confirmara com cálculos matemáticos as conclusões de Copérnico.

Com o desenvolvimento da ciência astronômica ficou impossível sustentar o geocentrismo. Hoje, qualquer criança de primeiro grau tem consciência de que a Terra é apenas um satélite do Sol.

Sabe, também, que há outros planetas no sistema solar — Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Netuno, Plutão, Saturno e Urano, num total de nove.

O Sol pertence a uma família de estrelas, a Via Láctea, galáxia que tem perto de 200 bilhões de estrelas.

E há bilhões de galáxias!

Quando pensamos nessa vastidão infinita somos levados a admitir que não estamos sós.

Certamente há vida em outros rincões do Universo.

No passado, raros cientistas cogitavam dessa possibilidade. Estrela sustentando uma família de planetas, como o Sol, seria uma exceção no Universo. Por outro lado, quanto mais avançavam as pesquisas sobre nosso sistema solar, mais os cientistas se convenciam de que só havia vida na Terra. Os demais planetas são muito quentes, como Mercúrio e Vénus, onde a temperatura chega a 500 graus centígrados, ou muito frios, próximo a 200 graus abaixo de zero.

Hoje as ideias são outras.

Não há como negar a existência de vida em outros rincões do espaço infinito.

Com a moderna tecnologia foram descobertos vários planetas fora de nosso sistema solar e, segundo cálculos de especialistas, admite-se havia somente na Via Láctea pelo menos cem mil planetas com possibilidade de serem habitados por seres que fazem uso da inteligência, alguns certamente compondo civilizações mais avançadas que a nossa.

Há importante pesquisa sobre a vida em outros planetas, iniciada na década de 60, e que envolve muitos países, com a utilização de radiotelescópios.

São aparelhos semelhantes às antenas parabólicas, mas muito maiores, usados para captar mensagens radiofônicas de outros mundos.

Seria a suprema realização, para comprovar que não estamos sós no Universo.

O problema é a vastidão do Cosmos.

Sintonizar uma civilização extraterrestre é como procurar agulha num palheiro sem fim.

Por outro lado, haveria insuperável problema de comunicação. Suponhamos que captássemos sinais emitidos por uma civilização situada há mil anos-luz da Terra. Estaríamos recebendo uma transmissão feita há dez séculos, já que as ondas hertzianas viajam à velocidade da luz. A resposta levaria o mesmo tempo para chegar lá.

Um diálogo pediria o concurso dos milênios.

O mesmo problema da distância diz respeito à presença de extraterrestres, os decantados ETs.

Grande parcela da população acredita nessa possibilidade. Frequentemente, a imprensa noticia que pessoas viram os famosos discos voadores; outras teriam entrado em contato com seus tripulantes.

Há histórias incríveis acerca dessas declarações.

Quando pesquisadas, revelam-se fantasias, ilusões de óptica, fenômenos atmosféricos, alucinações, mistificações...

É possível que tenhamos recebido ou venhamos a receber a visita de extraterrestres, mas as dificuldades a serem superadas são ponderáveis.

A primeira é a distância.

Considerando, com Einstein, que a velocidade limite do universo é a da luz — trezentos mil quilômetros por segundo — uma nave que se deslocasse a essa espantosa velocidade, partindo de um planeta situado a cinquenta anos-luz, levaria exatamente esse tempo para chegar aqui. Entre ida e volta seriam cem anos.

Ainda de acordo com as teorias de Einstein, se alguma civilização conseguisse desenvolver engenhos capazes de deslocar-se tão rápido quanto a luz, dentro da nave o tempo fluiria mais lento. Um astronauta de retorno, após vinte anos, constataria estar centenas à frente, como se houvesse viajado para o futuro. Todas as suas ligações, envolvendo família, amigos, sociedade, profissão, estariam perdidas.

Há o problema do combustível. Para se chegar a um décimo da velocidade da luz, segundo cálculos atuais, haveria necessidade de um impulso inicial que exigiria algo equivalente a toda a energia que o homem consumiu desde o seu aparecimento na Terra.

A sede de devassar o Cosmos é própria das ambições humanas, envolvendo conquistas.

Seres superiores, capazes de remover todas as dificuldades de uma viagem interestelar, teriam atingido um patamar superior de conhecimentos que fatalmente os estimularia a privilegiar os aspectos espirituais da vida.

Estariam empenhados em devassar seu universo interior, em busca do autoaprimoramento mental e moral.

Isso os habilitaria a visitar outros mundos deslocando-se em espírito, o que dispensaria naves espaciais.

Assim, poderiam visitar a Terra, sem maiores problemas.

Muitos o fazem, certamente, inacessíveis à observação humana.

Antecipando-se à Ciência, a Doutrina Espírita sempre admitiu a pluralidade dos mundos habitados.

Na questão 55, de O Livro dos Espíritos, respondendo a uma indagação de Kardec, o mentor espiritual informa que são habitados todos os mundos que se movem no espaço; que só o orgulho e a vaidade podem sustentar a ideia de que o Homem está solitário no Universo.

O astrônomo enfronhado com a pesquisa do Cosmos dirá que essa afirmativa está certa pela metade. Concebe que a Terra certamente não é o único planeta habitado, mas que pouquíssimos há em idênticas condições, a começar pelo nosso sistema solar, onde somente na Terra pulula a vida.

Com base no conhecimento espírita atual, podemos, tranquilamente, demonstrar que a questão 55 está correta por inteiro.

Quem está familiarizado com a obra de André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, sabe que nosso planeta tem uma vasta população de Espíritos desencarnados. Habitam vários níveis espirituais, em colônias que se estendem a partir da crosta terrestre. Nelas aprimoram-se pelo estudo, pelo trabalho, pelo empenho de renovação...

Se por um fenômeno natural — a colisão de um gigantesco asteroide, por exemplo —, ou em virtude de uma guerra atômica, fosse eliminada a vida biológica da face da Terra, a população passaria a viver no Plano Espiritual, transferindo-se, eventualmente, para outros planetas.

Certa feita, no auge da Guerra Fria, quando havia grande possibilidade de um conflito atômico envolvendo os Estados Unidos e a União Soviética, um confrade apavorado dirigiu-se a Francisco Cândido Xavier:

— Vão acabar com nosso mundo! O que será de nós?!

E Chico, com a tranquilidade de sempre:

— Não se preocupe, meu filho. Deus arranjará outro rincão pra gente morar.

O médium estava absolutamente certo.

Sempre haverá um lugar para nós.

Usaremos um corpo de matéria densa em planetas semelhantes à Terra.

Estaremos revestidos de matéria sutil, o perispírito, para viver em outros planos do infinito.

Os mundos que giram no espaço, estrelas e planetas, são como naves espaciais, conduzindo coletividades encarnadas ou desencarnadas que neles fazem estágios evolutivos.

Assim seguimos todos, rumo à angelitude, habilitando-nos a viver um dia em mundos divinos, ostentando corpos celestes, inabordáveis para a frágil inteligência humana.

A Doutrina Espírita, com essa visão ampla das realidades espirituais, confirma as conquistas da cosmologia, mas situa-se adiante de suas possibilidades nos domínios do espírito, levando-nos a cogitar da grandeza da vida universal e do glorioso futuro que nos espera.

Lamentamos, então, as mesquinharias em torno dos interesses materiais, o cultivo obstinado dos sentimentos de orgulho, vaidade e egoísmo que nos prendem à Terra.

Agindo assim, assemelhamo-nos à lagarta que pretendesse permanecer presa ao casulo, recusando-se a desenvolver asas para ganhar a amplidão.

Richard Simonetti do livro:
Espiritismo, uma nova era

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Lastros Espirituais

Lastros Espirituais

Richard Simonetti


A Vida futura reserva aos homens penas e gozos compatíveis com o procedimento de respeito ou não à Lei de Deus.

Era conhecido como João do Vento.

O apelido não fazia referência a qualquer afinidade com ventanias. Ao contrário, tinha horror a qualquer movimento atmosférico, ainda que leve brisa.

Dentro de casa mantinha hermeticamente fechadas portas e janelas. Considerava aparelhos de ar condicionado uma tortura; puro masoquismo o uso do ventilador.

Não obstante, era um homem bom, caridoso, sempre disposto a socorrer doentes e necessitados.

Com exceção dos problemas gerados por sua fobia, vivia bem com a família, cumpria seus deveres, fazia o melhor...

Por isso, quando morreu foi conduzido ao Céu.

Tinha tudo para desfrutar de inefáveis bem-aventuranças, mas havia um probleminha: as paragens celestiais eram intoleravelmente ventiladas.

Sopravam aragens incessantes, cariciosas para os eleitos, tormentosas para nosso herói.

E tanto se incomodou que um dia procurou São Pedro e pediu transferência para o Purgatório.

O santo ponderou que não seria razoável. Enfrentaria sofrimentos e atribulações...

— Não importa — desabafou —, quero mesmo é livrar-me das correntes de ar.

Ante sua insistência, foi-lhe concedida a autorização.

Passado algum tempo, preocupado, o guardião celeste pediu a um anjo que descesse ao departamento de purgação para ver como estava João.

Para surpresa do emissário, o atendente informou que o inquieto inimigo do vento mudara novamente de residência.

Reclamando contra a existência de correntes de ar, despachara-se para o Inferno. Alegara que em ambiente fechado, aquecido pelas fornalhas, ficaria melhor.

E o anjo desceu mais.

Bateu às portas do pedro-botelho.

Em breves momentos o próprio tinhoso abriu o postigo. Rispidamente, como é próprio do comportamento diabólico, perguntou-lhe o que desejava.

Antes que o anjo pudesse explicar, ouviu-se, lá de dentro, a voz de João do Vento, a pedir, enfático:

— Fecha a porta! Fecha a porta, por favor! Está fazendo corrente de ar!

Há certas ideias que são instintivas.

Exemplos: a imortalidade e as consequências das ações humanas na vida futura.

Antes mesmo de espremermos os miolos em torno do assunto, sentimos que somos imortais, que um dia, em outra vida, nos cobrarão pelo que estamos fazendo ou deixando de fazer.

São raros os negadores autênticos, convictos de que a única realidade é a matéria, num Universo sem criador e sem criaturas.

Semelham-se a filhos que não acreditam na existência do Pai.

Imaginam-se um mero aglomerado de células que o acaso fez pensantes.

Curioso que raros materialistas se suicidem ante as agruras da vida. Concebendo que a vida desemboca no nada, não haveria motivo para temores. Seria uma maneira prática de resolverem seus problemas.

É que têm medo.

Não conseguem compatibilizar a convicção materialista com o sentimento mais profundo, instalado no recôndito de suas almas, a lhes dizer que a sepultura é apenas a porta de ingresso em outra dimensão.

Segundo a Doutrina Espírita, quando o Espírito desencarna, deixa a dimensão física, onde ficou o corpo, a máquina que usava, e entra na dimensão espiritual, que se desdobra em vários níveis.

Os antigos diziam que há sete céus superpostos, acima da crosta terrestre, habitados pelos mortos, de conformidade com seus méritos.

Quanto maior o merecimento do falecido, mais alto vai viver, mais completa a felicidade. Por isso, quando alguém é muito feliz costuma-se dizer que está “no sétimo céu”, uma espécie de cobertura de luxo no edifício celeste.

Nossos ancestrais intuíram a verdade, embora não tivessem uma visão ampla sobre o assunto.

Imaginemos a Terra como uma imensa cebola.

Na primeira camada interior estaria a crosta, onde vivemos.

Nas demais, as regiões espirituais.

A densidade subordina-se à altura.

Nas mais altas estariam os Espíritos depurados.

Nas mais baixas, Espíritos comprometidos com a vida terrestre.

Quando desencarnamos estamos de imediato na primeira camada, muito densa, uma projeção do plano físico.

O que vai definir quanto tempo ficaremos por aqui é a condição de nosso perispírito, o corpo celeste, a que se refere Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios.

Quanto mais envolvido o indivíduo com a vida material, seus vícios e paixões, maior a densidade perispiritual.

Pessoas assim, ao desencarnarem permanecem em convivência com os homens, geralmente sem consciência de sua nova condição, por absoluto despreparo para a vida além-túmulo.

Não raro, atormentadas e perplexas, perturbam os familiares, procurando socorro.

Com o passar do tempo, desfazendo-se as vibrações mais grosseiras, o Espírito terá uma densidade perispiritual menor, como um balão que reduz o lastro que o prende à Terra.

Poderíamos situar as regiões próximas à Terra, que o Espírito André Luiz denomina umbral, como purgatoriais.

Nelas os desencarnados fazem estágios depuradores para “perder lastro”.

Na sua famosa A Divina Comédia, Dante Alighieri, poeta florentino, reporta-se a uma excursão que teria feito pelo Inferno e o Purgatório, guiado pelo poeta latino Virgílio; depois no Céu, conduzido por sua amada Beatriz.

Não obstante o caráter poético e fantástico da obra, tem-se a impressão de que Dante transitou pelo umbral durante o sono, quando ocorre a emancipação da alma.

Imaginou-se no Inferno ou no Purgatório, segundo o que via e os contatos que estabelecia com seus habitantes.

Depois, com Beatriz, identificou por celestes as regiões etéreas de nosso planeta, morada de Espíritos luminosos, em altos estágios de espiritualidade.

Existe muito de fantasioso em sua narrativa, mas há, também, aspectos surpreendentemente próximos do que nos revela a Doutrina Espírita.

Aprendemos, por exemplo, que os Espíritos em regiões purgatoriais tendem a se reunir, de conformidade com a natureza de suas mazelas e crimes. Constituem grupos afins, os avarentos, os assassinos, os assaltantes, os maledicentes, os invejosos, os viciosos, os pervertidos, exatamente como Dante descreve.

Destaque especial, nas informações espíritas, para os suicidas, que se situam em regiões específicas, de sofrimentos inenarráveis, sem similar na Terra.

São os chamados vales dos suicidas.

O estágio do Espírito em regiões umbralinas não é um castigo de Deus, nem implica o pagamento de suas dívidas, que deverão ser ressarcidas em novas existências na carne.

Está ali porque sua densidade perispiritual impede o acesso aos planos mais altos.

E ali ficará até que reconheça sua miséria moral e deseje sinceramente, do fundo de seu coração, modificar-se. Isso o libertará dos lastros da rebeldia e da revolta, habilitando-o a ser atendido em organizações assistenciais, em pleno umbral, verdadeiros oásis em meio à aridez do deserto.

Aqueles que praticam o bem e evitam todo mal apresentam, ao desencarnar, uma leveza perispiritual que os habilita a atravessar rapidamente as camadas densas do umbral, amparados por benfeitores espirituais.

Elevam-se a moradas espirituais que homem comum chamaria de paradisíacas.

Consideremos, entretanto, que isso jamais será garantia de felicidade em plenitude.

Semelhante realização só será concretizada quando nos integrarmos na dinâmica do Universo, cultivando o aprendizado incessante, o empenho permanente de renovação e o esforço no bem.

Aqui voltamos ao João do Vento.

O vento da renovação, o convite ao desenvolvimento de nossas potencialidades criadoras sopra em todos os quadrantes do Universo, como o hausto do Criador, na Terra e no Além, no Inferno ou no Céu.

Onde quer que estejamos, é de fundamental importância que nos movimentemos, porque, se pretendemos a beatitude e a contemplação, fechando-nos em nós mesmos, recusando-nos a caminhar, haveremos de nos sentir desajustados e infelizes, ainda que eventualmente estagiemos em regiões etéreas.

Se não tivermos medo dos desafios do progresso, se não nos furtarmos ao arejamento pelo vento da renovação, estaremos bem, mesmo nos sufocos da Terra.

E se parece estranho a alguém essa necessidade de atividade incessante, progredindo sempre, consideremos que isso não é novidade.

Jesus deixou isso bem claro, ao proclamar, conforme está em João, capítulo 5:

Meu Pai trabalha desde sempre, e eu trabalho também.


Richard Simonetti do livro:
Espiritismo, uma nova era.

Obs: Os grifos no texto são do autor.

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quarta-feira, 27 de novembro de 2024

A flor e o espinho

A flor e o espinho

Richard Simonetti


Jesus é o guia e modelo para toda a Humanidade.

E a Doutrina que ensinou e exemplificou é a expressão mais pura da Lei de Deus.

Medições precisas, mediante cálculos astronômicos, demonstram que a Terra tem perto de quatro bilhões e quinhentos milhões de anos.

Se quisermos ter uma ideia do que é esse tempo, imaginemos a história de nosso planeta contada num livro de quinhentas páginas, desde o momento em que se desprendeu do Sol, massa de fogo incandescente.

O ser humano surgiria na derradeira linha da última página. Na última letra da palavra final estaria contida a história da Civilização Ocidental.

Segundo Darwin, a evolução dos seres vivos se processa por seleção natural.

Indivíduos de uma mesma espécie conseguem adaptar-se a determinada situação, a partir de sutis modificações em sua estrutura, dando origem a mutações que resultam em novas espécies.

O processo é extremamente lento.

Demanda milhões de anos, razão pela qual não é perceptível.

A Doutrina Espírita admite a seleção natural, atendendo às contingências do Planeta e à capacidade de adaptação das espécies, mas com um reparo fundamental:

Nada é aleatório.

Há um planejamento feito por Espíritos Superiores, prepostos do Cristo, que chamaríamos de engenheiros siderais, especializados em engenharia genética.

Eles é que, desde os primórdios, transformaram a Terra em gigantesco laboratório onde manipulavam, com recursos magnéticos, os genes, em experiências que visavam ao aperfeiçoamento dos seres vivos, até um estágio de complexidade que permitisse a encarnação dos seres pensantes — os Espíritos.

Este corpo que ostentamos, que causa espanto aos próprios cientistas por sua perfeição, levou milhões de anos para ser aprimorado pelos técnicos espirituais, que trabalham na intimidade das células, direcionando as mutações.

As espécies intermediárias que ficaram, compondo a fauna e a flora, situam-se em degraus evolutivos a serem galgados pelo princípio espiritual em evolução, a caminho da razão.

A Terra é hoje uma incubadora espiritual e ao mesmo tempo um educandário para Espíritos no estágio de evolução em que se encontra a Humanidade.

***

Tudo isso implica organização, marcada por uma hierarquia que envolve cadeias de comando a se afunilarem, como uma grande pirâmide.

No topo, alguém dirigindo.

Aqui entra a figura extraordinária de Jesus, que, segundo informa Emmanuel, no livro A Caminho da Luz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, não foi simplesmente o fundador de uma religião.

Muito mais que isso — é nosso governador!

Quando a Terra foi formada Jesus já era um Espírito puro e perfeito, um preposto de Deus.

Foi, então, convocado pelo Criador para governar o Planeta, com a tarefa de presidir a sua evolução e orientar multidões de Espíritos que aqui seriam trazidos, quais alunos levados a uma escola para aprendizado específico relacionado com suas necessidades.

Somos todos tutelares do Cristo, que nos conduz, segundo a expressão do salmista, pelas veredas retas da Justiça.

E ainda que muitos, quais adolescentes rebeldes e inquietos, desdenhem suas lições, comprometendo-se em desatinos que fazem a perturbação do mundo, permanecemos todos sob controle e mais cedo ou mais tarde terminaremos em seus caminhos, tangidos pela dor, amadurecidos pela experiência.

Alunos do educandário terrestre, temos recebido a visita de muitos professores, cultos e sensíveis, que periodicamente nos trazem algo de seus conhecimentos, de suas virtudes.

Sócrates, Platão, Aristóteles, Confúcio, Buda, Lao-Tsé, Moisés, Isaías e Francisco de Assis, são alguns deles.

Vale destacar Moisés, que, não obstante incapaz de superar as limitações de sua época, foi suficientemente lúcido e firme no propósito de conduzir o povo judeu pelos caminhos do monoteísmo, a crença no Deus único, criando condições para que a Humanidade recebesse a primeira revelação divina.

Está consubstanciada na Tábua dos Dez Mandamentos, recebida no Monte Sinai, que, em síntese, ensina ao Homem o que não deve fazer:

Não matar, não roubar, não mentir, não cobiçar nada do próximo, não cometer adultério, não desrespeitar os pais.

É a revelação da Justiça, o princípio segundo o qual nossos direitos terminam onde começam os direitos do semelhante.

E houve a revelação maior, tão grandiosa, tão transcendente, tão sublime, que o próprio governador da Terra decidiu trazê-la pessoalmente, a fim de que fosse apresentada em toda sua pujança, sem problemas, sem distorções.

Foi assim que Jesus aportou ao Planeta com a divina chama do Amor.

A palavra amor, embora empregada e decantada hoje mais do que nunca, está repleta de conotações infelizes que a desgastam.

Muitos confundem amor com sexo, ignorando a lição elementar de que o sexo é apenas parte do amor e não a mais importante.

Há os que fazem do amor um exercício de exclusivismo, sufocando o ser amado com exigências descabidas.

Há os que amam como quem aprecia um doce. Gostam dele porque satisfaz o paladar... Assim, cansam-se logo de amar, porque estão saciados ou empolgados por novos sabores.

Há os que fazem do amor um exercício de egoísmo a dois, pretendendo construir um céu particular. Dane-se o resto.

O amor não é nada disso!

É muito mais que isso!

Em sua grandeza essencial, o amor é um exercício de fraternidade e solidariedade entre os homens, inspirando a derrubada das barreiras de nacionalidade, raça e crença, para que sejamos na Terra uma grande família.

Foi para nos transmitir essa revelação gloriosa, esse tipo de amor, que Jesus esteve entre nós, não desdenhando lutas e sacrifícios.

Mergulhando na carne, Jesus, desde a infância, superou o choque biológico do nascimento, que impõe o esquecimento do passado, mostrando-se na plena posse de seus conhecimentos e virtudes.

É ilustrativo o episódio no templo, em Jerusalém, quando maravilhou os doutores da Lei com uma sabedoria invulgar, inconcebível num adolescente.

Em outros aspectos do apostolado de Jesus identificamos sua grandeza:

• Na clareza de suas ideias e na admirável capacidade de síntese. O Sermão da Montanha é uma obra-prima de concisão e simplicidade, que atende às aspirações éticas e estéticas de todas as inteligências, mas convidando-nos a ser filhos verdadeiros de Deus.

• Na firmeza de suas convicções, disposto a enfrentar a própria morte por manter fidelidade aos seus princípios.

• Nos prodígios que realizou, transformando a água em vinho, multiplicando pães e peixes, andando sobre as águas, curando enfermos de todos os matizes, a demonstrar que era alguém muito especial.

• No estoicismo diante dos sofrimentos que lhe impuseram, sem queixas, sem vacilações.

• Na admirável capacidade de perdoar seus algozes e os próprios discípulos, que o haviam abandonado no momento extremo, fugindo precipitadamente.

• Nos exemplos de humildade e sacrifício ao longo de seu apostolado, marcados indelevelmente pela manjedoura e a cruz.

Na questão 625, de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta:

— Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, para lhe servir de guia e modelo?

Responde o mentor espiritual que o assiste:

— Jesus.

E comenta o Codificador:

Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra.

Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da Lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava.

Adeptos de qualquer doutrina religiosa vinculada ao Cristianismo, felizes aqueles que aceitam Jesus por Mestre, que colocam em prática as suas lições, que imitam seus exemplos.

Estes vivem sempre bem, felizes, e animados, mesmo em meio às dores e atribulações humanas, porque, como diz Cármen Cinira, psicografia de Francisco Cândido Xavier (Parnaso de Além-Túmulo):

(...) com o mundo uma flor tem mil espinhos, Mas com Jesus um espinho tem mil flores!


Richard Simonetti do livro:
Espiritismo, uma nova era.

Obs: Os grifos no texto são do autor.

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terça-feira, 19 de novembro de 2024

O Efeito e a Causa

O Efeito e a Causa

Richard Simonetti


O homem tem o livre-arbítrio para agir, mas responde pelas consequências de suas ações.

Relata o evangelista Mateus, no capítulo 26 de seu Evangelho, que em plena madrugada Jesus estava no Getsêmani, um jardim de oliveiras, nas cercanias de Jerusalém, quando chegou o grupo enviado pelos sacerdotes para sua detenção.

O representante do Sinédrio deu a ordem de prisão.

Alguém iniciou violenta resistência, decepando-lhe a orelha com uma espada.

Teria sido Simão Pedro, segundo o evangelista João.

Não obstante essa informação, é estranho que Pedro portasse uma arma. Afinal, tanto ele como os companheiros eram orientados por um mestre que ensinava e exemplificava a mansuetude. Mateus, Marcos e Lucas, que também se reportam ao episódio, não identificam o agressor.

Jesus o conteve, advertindo:

— Guarda a tua espada, pois todos os que pegarem na espada, da espada morrerão.

Em seguida, segundo Lucas, tocou a orelha do homem e a curou.

Como todos os evangelistas informam que fora decepada, podemos considerar que Jesus operou o primeiro reimplante da História, simplesmente aplicando seu poderoso magnetismo.

Dia virá em que a Medicina empregará recursos semelhantes, substituindo as complexas e trabalhosas técnicas da cirurgia plástica.

Interessa-nos particularmente a observação de Jesus, que deu origem ao provérbio: Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

O apóstolo Paulo diz algo semelhante na Epístola aos Gálatas:

Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará.

Outro provérbio, inspirado nessa afirmativa, adverte:

Quem semeia ventos colhe tempestades.

Há uma relação de causalidade entre o mal que praticamos e o mal que sofremos depois.

O prejuízo que impomos ao semelhante é débito em nossa conta, na contabilidade divina.

E pagamos aqui mesmo, afirmam Jesus e Paulo.

Inelutavelmente.

Sobre essa contingência, outro provérbio:

Aqui se faz, aqui se paga.

Alguns aspectos devem ser considerados.

Há quem apronta horrores e morre, sem haver colhido um centésimo dos males que semeou.

Há quem usa e abusa da espada, no sentido de exercitar a violência. Não obstante tem vida longa e morre de causa natural.

Pior: pessoas de boa índole e caridosas enfrentam situações difíceis, sofrimentos imerecidos. Gente pacífica e prudente morre de forma violenta.

Estaria Jesus equivocado nas suas ponderações?

Evidentemente, não! Apenas tem sido mal interpretado.

É o que acontece quando deixamos de lado a ideia da Reencarnação, que, associada à Lei de Causa e Efeito, compatibiliza a justiça de Deus com as contingências humanas.

Pessoas que sofrem violências, que enfrentam acerbas dificuldades e atrozes padecimentos, aparentemente imerecidos, estão colhendo o que semearam em vidas anteriores.

Consideremos, entretanto, até para que possamos entender os mecanismos a que estamos sujeitos, que a Lei de Causa e Efeito, que gera o chamado Carma da filosofia hindu, não deve ser confundida com a pena de Talião, de Moisés, que se exprime no olho por olho, dente por dente.

Quando Jesus afirma que quem usa a espada com a espada perecerá, ou Paulo proclama que tudo o que semearmos colheremos, reportam-se ao fato de que receberemos de volta todo o mal que praticarmos, em sofrimentos correspondentes, não necessariamente idênticos, o que equivaleria à sua perpetuação.

Mato alguém com um tiro. Alguém atirará em mim. Meu assassino será fuzilado por outrem... e assim, sucessiva e indefinidamente, eternizando o mal...

Aprendemos com a Doutrina Espírita que não é assim que funciona a Justiça de Deus.

Se atiro em alguém e ele morre estrebuchando, amanhã posso ter um distúrbio circulatório fulminante que também me levará a estrebuchar, impondo-me dor idêntica à de minha vítima e um retorno à espiritualidade igualmente violento e traumático.

As sanções divinas não dependem do concurso humano.

Todo prejuízo causado ao semelhante provocará desajustes em nosso corpo espiritual, o perispírito, os quais, nesta mesma existência ou em existências futuras, se manifestarão na forma de males redentores.

***

O fato de haver uma relação de causalidade nos problemas, doenças e dores que enfrentamos — consequência de nossas ações — não significa que as causas estejam necessariamente em vidas anteriores.

Muitos males que nos afligem têm origem em nosso comportamento na vida atual.

E há enfermidades, limitações e deficiências físicas que são decorrentes de mau uso, isto é, usamos mal o corpo e lhe provocamos estragos.

Resultado: abreviamos a jornada humana e seremos responsabilizados por negligência em relação à máquina física, que Deus nos concede, por empréstimo, para uma bolsa de estudos na escola terrestre.

Isso acontece particularmente com vícios e indisciplinas que geram graves problemas de saúde.

Alguns exemplos:

• Câncer no pulmão.

Origem — cigarro.

• Cirrose Hepática.

Origem — álcool.

• Infarto.

Origem — sedentarismo.

• Acidentes.

Origem — imprudência.

• AIDS

Origem — promiscuidade.

Quanto ao mal que praticamos contra o semelhante, os reflexos que colhemos em nós mesmos representam apenas parte da conta que nos é cobrada.

Há a questão da harmonização com aqueles a quem tenhamos prejudicado.

Um homem sem escrúpulos seduz uma jovem e a inicia nos perigosos caminhos das drogas. Depois a precipita na prostituição. Sua vítima compromete-se em desvios lamentáveis, tem uma existência conturbada e acaba desencarnando, vitimada pela AIDS.

Reencarnará com problemas de saúde, vulnerável a influências espirituais, instável emocionalmente, em virtude de seus comprometimentos.

Quem deverá ajudá-la?

Obviamente, o companheiro que a seduziu.

Virá associado a ela, como pai, filho ou marido. Terá o compromisso de ajudá-la em sua recuperação.

Por isso que a Doutrina Espírita adverte que é preciso muito cuidado nas questões familiares, evitando deserções ou omissões, sob alegação de que determinado familiar não corresponde às nossas expectativas ou conturba nossa existência.

Talvez nosso compromisso maior seja com ele.

Se fugirmos, mais tarde a conta será reapresentada.

O débito será maior.

À medida que evoluirmos, adquirindo condições para definir entre o bem e o mal, o certo e o errado, o caminho reto e o desvio, maior será a nossa responsabilidade. Mais drásticas, portanto, serão as sanções da Lei de Causa e Efeito.

O selvagem que mata e come o inimigo não assume grande compromisso, porque esse comportamento está subordinado ao seu horizonte cultural.

Se fizermos o mesmo, colheremos graves consequências, porque já sabemos que isso não pode, não deve ser feito.

O conhecimento da Lei de Causa e Efeito nos permite compreender, em plenitude, a justiça perfeita de Deus.

Sentimos que tudo tem uma razão de ser, que nada acontece por acaso.

Males e sofrimentos variados que enfrentamos estão relacionados com o nosso passado.

É a conta a pagar.

Mas há outro aspecto, muito importante:

Se a dor é a moeda pela qual resgatamos o passado, Deus nos oferece abençoada alternativa — o Bem.

Todo esforço em favor do próximo amortiza nossos débitos, tornando mais suave o resgate.

• se em face de compromissos cármicos teremos um braço amputado, a prática do bem nos habilitará a perder um dedo apenas.

• se uma grave doença nos deva acometer, refletindo desajustes perispirituais, com o exercício da caridade seremos depurados, aliviando o compromisso.

• se devemos nos harmonizar com o familiar difícil, alguém que prejudicamos no passado, o cultivo do carinho, da compreensão e da tolerância tornará mais tranquila nossa convivência.

• Se o destino impõe que nos vejamos sem o conforto de uma família, em face de nossas omissões no pretérito, exercitando a solidariedade nunca estaremos solitários. Viveremos rodeados pelos beneficiários de nossas ações.

Misericórdia quero e não sacrifício — diz Jesus, lembrando o profeta Oséias (6:6), a explicar que Deus não deseja nosso sofrimento.

Espera apenas que nos convertamos aos valores do bem, exercitando a lei maior — o Amor.

Quem o faz viverá sempre melhor, débitos aliviados.

Simão Pedro, o grande apóstolo do Cristo, define com precisão o assunto, quando proclama em sua primeira epístola (4:8):

- Tende, antes de tudo, ardente amor uns para com os outros, porque o amor cobre a multidão dos pecados.


Richard Simonetti do livro:
Espiritismo, uma nova era.

Obs: Os grifos no texto são do autor.

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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Da animalidade à angelitude

Da animalidade à angelitude

Richard Simonetti


Os Espíritos são os seres inteligentes da criação. Constituem o mundo dos Espíritos, que preexiste e sobrevive a tudo.

Os Espíritos são criados simples e ignorantes. Evoluem, intelectual e moralmente, passando de uma ordem inferior para outra mais elevada, até a perfeição, onde gozam de inalterável felicidade.

As pessoas que têm animais domésticos surpreendem-se com seu comportamento.

Em algumas iniciativas parecem dotados de discernimento, particularmente o cão, o que melhor se relaciona com o Homem. São incontáveis as histórias sobre sua vivacidade.

No entanto, as religiões tradicionais situam os irracionais por simples máquinas comandadas por programações biológicas — os instintos.

Não seriam, portanto, imortais.

Em círculos religiosos obscurantistas, na Idade Média, acreditava-se que as crianças com sérias limitações mentais não possuíam alma. Daí se aproximarem do comportamento instintivo dos irracionais.

Ainda hoje, superada essa aberração, a questão constitui sério problema para a teologia ortodoxa, envolvendo a situação dos excepcionais após a morte.

Não podem ir para suposto inferno. Sem condições para exercitar o livre-arbítrio, não assumem responsabilidade por suas ações.

Mas, pela mesma razão, também não fazem por merecer o Céu.

Por outro lado, há as crianças que morrem ao nascer.

Para onde vão suas almas, se não tiveram tempo para opções condenáveis ou louváveis?

A solução encontrada por teólogos medievais não satisfaz à lógica.

As almas das crianças, bem como as dos excepcionais, iriam parar no limbo, região intermediária isenta dos tormentos infernais, mas sem a plenitude das venturas celestiais.

Certamente não estariam satisfeitas. Haveriam de reclamar pelo fato de Deus não lhes ter oferecido a possibilidade de conquistar as etéreas paragens.

Assim como os animais seriam seres à parte, na Criação, outros haveria, seres especiais, denominados anjos, superiores em inteligência, cuja principal função seria a de atuar como intermediários entre Deus e os homens.

Cada ser humano teria o seu, designado pelo Criador para protegê-lo.

Poderíamos perguntar, como o fariam os animais se falassem:

— Por que Deus não me fez anjo? Por que a existência desses seres privilegiados, situados em patamar superior à Humanidade, não por méritos pessoais, mas por escolha divina?

É como um pai que, por vontade própria, gerasse filhos irracionais, ou débeis mentais, ou precariamente racionais, ou inteligências geniais, conforme lhe desse na veneta.

Os anjos, embora superiores aos seres humanos, nem sempre foram virtuosos e obedientes. Muitos se rebelaram. Ao invés de ajudar os homens em nome de Deus, passaram a persegui-los em nome de suas ambições, procurando arrastá-los ao mal na Terra, para aprisionar e torturar suas almas no Além.

O diabo seria esse anjo rebelde.

Essas ideias são questionadas na atualidade, quando o homem vai atingindo sua maturidade intelectual e se torna mais exigente quanto aos princípios religiosos, esperando que sejam, sobretudo, racionais, que atendam à lógica.

Ideal seria uma teoria mais abrangente, uma ideia que permitisse explicar melhor a vida, os seres vivos e os propósitos de Deus, atendendo aos imperativos da Justiça.

É exatamente essa proposta da Doutrina Espírita a partir de informações colhidas da Espiritualidade, sem especulações teológicas.

Segundo o Espiritismo, todos os seres vivos têm um princípio espiritual em evolução.

Poderíamos situá-lo como a “alma” dos irracionais.

Submetido à experiência reencarnatória, com breves estágios na Espiritualidade, obedece à sintonia vibratória que o liga a determinada espécie.

Desenvolvendo-se, habilita-se à encarnação em espécies superiores, como quem sobe os degraus de uma escada.

O princípio espiritual chegará um dia à complexidade necessária para conquistar a capacidade de pensar.

Será, então, um Espírito, um ser pensante.

Uma senhora, ouvindo a respeito do assunto, suspirou:

— Ah! Agora está explicado por que meu marido parece um gorila mal-educado. É o próprio!

E ele:

— Agora sei por que minha mulher comporta-se como uma jararaca! Venenosa como ela só!

Ambos estão equivocados, caro leitor.

A transição entre o princípio espiritual e o Espírito ocorre em outros planos do Infinito, demandando largo tempo.

Entre o irracional e o homem, há longos caminhos a percorrer, fora da Terra.

A ideia de que os animais têm um princípio espiritual que evolui explica por que alguns demonstram lampejos de inteligência.

Estão mais perto dela. Já a possuem, de forma rudimentar.

Pode parecer estranho, mas é perfeitamente lógico.

Segundo Darwin, o corpo que usamos levou bilhões de anos para ser preparado por Deus, na oficina da Natureza.

Ora, por que o Espírito, a personalidade imortal, que é incomensuravelmente mais complexo, deveria ser criado num passe de mágica por Deus, dotado da capacidade de pensar e de decidir seu destino?

Como não fomos criados todos ao mesmo tempo, já que Deus o faz incessantemente, é natural que encontremos Espíritos, encarnados e desencarnados, menos evoluídos, mais evoluídos ou no estágio de evolução em que nos encontramos.

A todo momento, no contato com as pessoas, constatamos essa realidade. Não somos iguais, como diferentes são uma criança de cinco anos e um ancião de oitenta.

Os Espíritos mais evoluídos moral e intelectualmente tornam-se intermediários de Deus para ajudar seus irmãos menos experientes.

Daí a existência dos anjos protetores.

Não são seres privilegiados. Apenas irmãos nossos mais vividos, mais esclarecidos e conscientes, a cumprir os programas de Deus.

Como a evolução dos Espíritos está subordinada às suas iniciativas, pode ocorrer que avancem intelectualmente e se atrasem moralmente. Não raro, seguindo por caminhos de rebeldia, pretendem impor a desordem na Terra e o domínio sobre aqueles que se rendem à sua influência.

O diabo nada mais é que a representação desses Espíritos.

Situação transitória, porque Deus nos criou para a perfeição e lá chegaremos quer queiramos ou não, porque essa é a sua vontade.

O demônio de hoje será o anjo de amanhã, quando a vida lhe impuser penosas experiências de reajuste, reconduzindo-o aos roteiros do Bem.

***

Da irracionalidade à angelitude há longa jornada.

A Doutrina Espírita nos diz que poderemos caminhar mais depressa, com mais segurança, com menos sofrimento, com menos problemas.

Sobretudo, podemos caminhar felizes e confiantes.

Como?

É simples.

Basta que nos disponhamos a desenvolver o conhecimento das Leis Divinas, com o estudo, e a sensibilizar o coração, com a prática do Bem.

Richard Simonetti do livro:
Espiritismo, uma nova era

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