sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Marcados na alma

Marcados na alma

Eunice Weaver



Sempre o preconceito — esse filho espiritual da ignorância e do obscurantismo — ditando as normas infelizes da vida e levantando obstáculos ao progresso, ao soerguimento da criatura que sai da sombra no rumo da luz.

Sobrevivendo, ardilosamente, aos impositivos éticos de cada geração humana, ressuma, hábil, mantendo velhos ditames infelizes, mesmo nos dias atuais quando luz o conhecimento decorrente da experiência intelectual nas pesquisas da ciência, da sociologia, das doutrinas psicológicas.

De um lado, as excelentes aquisições do pensamento hodierno e das investigações felizes em todos os campos do saber com relevantes contributos para a estruturação segura e ditosa da vida, se espraiam na Terra. Doutro lado, a intolerância mal disfarçada, decorrente do preconceito de raça, de posição econômica, de casta, de religião estabelecendo conflitos, litígios e contendas infindáveis que, não raro, se transformam em perseguição infame aos que lhe padecem o talante.

Não obstante, a geral preocupação médica pela terapêutica recuperadora e preciosa dos pacientes vitimados pelas alienações mentais e a aparente naturalidade das pessoas, em relação aos que experimentam problemas psicológicos, não impedem que o preconceito marque os que lhes sofreram a injunção.

Embora os contributos das ciências da alma no tratamento e recuperação dos viciados em drogas alucinógenas, em álcool, em substâncias aditivas, os seus libertados prosseguem marcados pelo preconceito, que os não perdoa a experiência, que ora lhes constitui o passado de que se desejam olvidar.

Apesar de resgatado o débito para com o organismo social, o ex-presidiário prossegue marcado pelo preconceito, que não permite esquecer o momento infeliz da delinquência, não poucas vezes empurrando-o a inditosa recidiva, com consequente retorno ao cárcere.

Mesmo nestes dias denominados de "emancipação da mulher”, o preconceito mordisca as carnes da alma, do coração feminino que desejou manter o filhinho indefeso, quando o companheiro a abandonou, relegando-a à posição de “mãe solteira” com que a marcam no meio social onde deve prosseguir vivendo.

O preconceito sempre levanta o mapa negativo das almas e atira em rosto a evocação do momento infeliz de quem iniciou, ou transitou pela existência planetária, com maus momentos, instantes-experiências de dor...

Quem, todavia, não jornadeou, ainda, pelas sendas da ascensão áspera, tormentosa e difícil?

Sem o pretexto de justificar os erros e os equívocos humanos, convém ressaltarmos que os passos iniciais de todo viandante são sempre incertos, a princípio, para depois robustecerem-se na segurança, avançando com elevação e firmeza de propósitos. A presença, todavia, mais danosa do preconceito é diante dos egressos das Colônias de Hanseníase ou simplesmente perante os liberados do “mal de Hansen”. Marcados no corpo, não raro, por mutilações muito dolorosas, o preconceito marca-lhes, a fogo, a alma, indelevelmente, negando-lhes oportunidade de serem úteis na sociedade. Recuperados, formam colônias isoladas, como se fossem párias, ou devessem experimentar punição por se haverem liberado do compromisso cármico com que as Soberanas Leis os convocou à felicidade em vigoroso resgate, isto porque são sumariamente desprezados pelos chamados “sadios” da sociedade humana.

Olhados a medo, interrogados com indiscrição, examinados como avis rara veem-se constrangidos ao retomo hospitalar ou à periferia das cidades, nas circunvizinhanças da Colônia de Saúde donde saíram clinicamente curados.

Marcados, esses irmãos constituem convite à compreensão humana, já que ninguém se pode considerar indene à experiência mediante a enfermidade mutiladora, ao distúrbio mental, à queda na delinquência...

Jesus recomendou a oração e a vigilância para nós todos, simultaneamente, e porque conhecia as limitações, as fraquezas do ser humano, ensinou-nos a pedir ao Pai que “nos livre da tentação”, porquanto resistir-lhe à insidiosa e pertinaz compulsão é muito mais difícil.

Pululam em bandos, não obstante a sadia e risonha aparência, os marcados na alma, ocultando, em manobras várias e vários mecanismos psicológicos, os seus dramas e paixões, as suas ansiedades e doenças íntimas. São também, preconceituosos contra os que apresentam sinais de fácil identificação como a realizarem uma catarse, com que eliminam os próprios traumas pelos outros ignorados, naqueles que são fáceis de conhecidos.

Indispensável pugnar-se pela chegada rápida do momento em que a mentalidade humana compreenda os seus irmãos na dor, na provação, no resgate, distendendo-lhes mãos gentis e oportunidade de crescimento, livres das marcas e mutilações morais que não mais os deverão afligir ignobilmente.

Diante da mulher que pecou, Jesus não teve outra atitude, senão a do amor e do entendimento em forma de perdão, recomendando-lhe não reincidir nos deslizes, a ela que havia delinquido...

Diante dos enfermos de qualquer denominação, recuperados ou não, que o preconceito ceda lugar ao sentimento de solidariedade humana e de caridade cristã, para evitar que eles, nossos irmãos sofredores, prossigam marcados duramente, pela impiedade, na alma.


Eunice Weaver por Divaldo Franco do livro:

Terapêutica de Emergência


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