domingo, 22 de dezembro de 2024

O anjo solitário

O anjo solitário

Irmão X.



Enquanto o Mestre agonizava na cruz, rasgou-se o céu em Jerusalém e entidades angélicas, em grupos extensos, desceram sobre o Calvário doloroso...

Na poeira escura do chão, a maldade e a ignorância expeliam trevas demasiadamente compactas para que alguém pudesse divisar as manifestações sublimes.

Fios de claridade indefinível passaram a ligar o madeiro ao firmamento, embora a tempestade se anunciasse a distância...

O Cristo, de alma sedenta e opressa, contemplava a celeste paisagem, aureolado pela glória que lhe bafejava a fronte de herói, e os emissários do Paraíso chegavam, em bandos, a entoarem cânticos de amor e reconhecimento que os tímpanos humanos jamais poderiam perceber.

Os Anjos da Ternura rodearam-lhe o peito ferido como a lhe insuflarem energias novas.

Os portadores da Consolação ungiram-lhe os pés sangrentos com suave bálsamo.

Os Embaixadores da Harmonia, sobraçando instrumentos delicados, formaram coroa viva, ao redor de sua atribulada cabeça, desferindo comovedoras melodias a se espalharem por bênçãos de perdão sobre a turba amotinada.

Os Emissários da Beleza teceram guirlandas de rosas e lírios sutis, adornando a cruz ingrata.

Os Distribuidores de Justiça, depois de lhe oscularem as mãos quase hirtas, iniciaram a catalogação dos culpados para chamá-los a esclarecimento a reajuste em tempo devido.

Os Doadores de Carinho, em assembleia encantadora, postaram-se à frente dele e acariciavam-lhe os cabelos empastados de sangue.

Os Enviados da Luz acenderam focos brilhante nas chagas doloridas, fazendo-lhe olvidar o sofrimento.

Trabalhavam os mensageiros do Céu, em torno do Sublime Condutor dos Homens, aliviando-o e exaltando-o, como a lhe prepararem o banquete da ressurreição, quando um anjo aureolado de intraduzível esplendor apareceu, solitário, descendo do império magnificente da Altura.

Não trazia seguidores e, em se abeirando do Senhor, beijou-lhe os pés, entre respeitoso e enternecido. Não se deteve na ociosa contemplação da tarefa que, naturalmente, cabia aos companheiros, mas procurou os olhos de Jesus, dentro de uma ansiedade que não se observara em nenhum dos outros.

Dir-se-ia que o novo representante do Pai Compassivo desejava conhecer a vontade do Mestre, antes de tudo. E, em êxtase, elevou-se do solo em que pousara, aos braços do madeiro afrontoso. Enlaçou o busto do Inesquecível Supliciado, com inexcedível carinho, e colocou, por um instante, o ouvido atento em seus lábios que balbuciavam de leve.

Jesus pronunciou algo que os demais não escutaram distintamente.

O mensageiro solitário desprendeu-se, então, do lenho duro, revelando olhos serenos e úmidos e, de imediato, desceu do monte ensolarado para as sombras que começavam a invadir Jerusalém, procurando Judas, a fim de socorrê-lo e ampará-lo.

Se os homens lhe não viram a expressão de grandeza e misericórdia, os querubins em serviço também lhe não notaram a ausência. Mas, suspenso no martírio, Jesus contemplava-o, confiante, acompanhando-lhe a excelsa missão, em silêncio.

Esse, era o anjo divino da Caridade.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Estante da Vida

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.



sábado, 21 de dezembro de 2024

Espírito - força e matéria

Espírito - força e matéria

Cairbar Schutel



Não negamos a existência da força, como não negamos as propriedades da matéria, mas não nos é possível admitir que a uma ou a outra fossem concedidos os atributos que só ao Espírito foi permitido gozar.

Espírito, força, matéria, eis, pois, a trindade real, indefectível que se apresenta aos olhos humanos e cujo estudo reclama a sua atenção.

Por que querer fazer abstração de um, que é causa preponderante da manifestação das outras, quando no nosso modo de julgar tudo o que se apresenta no cenário da vida não pode renunciar o fator inteligente com as suas prerrogativas industriais, científicas e artísticas?

Diante de uma simples cadeira construída de tábua nós reconhecemos uma entidade operante, uma inteligência e nem nos lembramos da matéria e da força que se lhe acham adstritas; entretanto, em face de coisas de muito maior valor e difícil execução que uma cadeira, negamos a ação espiritual e nos perdemos no labirinto das teorias abstratas que não falam ao sentimento, nem ao raciocínio!

Os fatos nada mais são que caracteres: eles representam  a palavra escrita das nossas aptidões, produtos do grau de inteligência com que o Criador nos galardoou; e, quando esses fatos se manifestam de forma que não podem ser produtos humanos, é que existem seres imperceptíveis aos nossos limitadíssimos sentidos carnais que os engendraram para denunciarem aos homens a existência de um mundo extracorpóreo, cujos Espíritos vivem, sentem, amam e odeiam, e têm vontade própria, inteligência e liberdade de ação.

O homem não precisa fazer conjeturas, refundir os elementos esparsos das filosofias incongruentes, ideias que se chocam e se destroem para explicar as causas dos Fatos Espíritas que vêm valorizar a Moral e dar novo incremento à ciência, porque as teorias negativistas são como os castelos de cartas que caem ao mais leve sopro.

Mas, então, perguntar-nos-á o leitor: o Espiritismo atribui aos Espíritos, às Almas dos que impropriamente chamamos mortos todos os fenômenos psíquicos atualmente observados em todo o mundo? O Espiritismo diz que todos os fenômenos são produzidos pelos Espíritos, não só desencarnados, que constituem o mundo suprassensível, mas também pelos encarnados que vivem na Terra.

Aos primeiros deu-se o nome de fenômenos espíritas, porque são produzidos pelas "almas dos mortos"; aos segundos, anímicos, porque são produzidos pelas "almas dos vivos". Mas é sempre a alma, o espírito, o autor das manifestações.

Desça o homem do pedestal em que falsamente se colocou, e reconhecerá as suas aptidões, compreenderá a sua existência independente do corpo carnal e sua sobrevivência à morte desse corpo, instrumento que é da sua manifestação na Terra.

Para que fazer dos agentes causa, quando nós sabemos, perfeitamente, que para todos os atos da vida não podemos dispensar os intermediários da nossa vontade que a ela se acham subordinados?

Estamos nos tempos em que o raciocínio, como atributo da inteligência, precisa ser aplicado para o discernimento do que estudamos.

As palavras vãs nada explicam e ainda têm o inconveniente de levar a desorientação àqueles que nos leem, e que nos ouvem, pois aceitam-nas às mais das vezes por subserviência, outras para fazer favor, mas não por compreenderem e se convencerem do que dissemos.

Os fatos ai estão e vão se repetindo como tem acontecido em todas as épocas.

Verifiquem os fatos, mas estudem-nos em suas múltiplas fases que hão de encontrar neles este lema: Espiritismo.

Cairbar Schutel do livro:
Os fatos Espíritas e as forças X. - Espiritismo e Materialismo

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Pluralidade dos mundos habitados

Pluralidade dos mundos habitados

Richard Simonetti


No Universo há outros mundos habitados, com seres de diferentes graus de evolução: iguais, mais evoluídos e menos evoluídos que os homens.

 

Para os antigos o céu era o teto da Terra.

Nele fixados o Sol, farol que sustentava o dia; a lua e as estrelas, luzes que enfeitavam a noite.

Obedecendo a indevassável mecanismo, a abóbada celeste movimentava-se em torno da Terra.

Quando surgia, o Sol espantava a noite.

Quando o Sol declinava, morria o dia.

A Ciência engatinhava e suas concepções se confundiam com a teologia dogmática:

A Terra, o centro do Universo.

O Homem, o rei da criação.

Com o tempo descobriu-se que o teto da Terra é o infinito; as luzes do Céu, astros distantes.

Não obstante, durante séculos, a religião, atrelada ao carro do poder temporal, impôs suas concepções, valendo-se de precários cálculos e observações de Ptolomeu, astrônomo grego que viveu no primeiro século da era cristã. Ele foi o autor da teoria geocêntrica, em que se sustentava a fantasia teológica.

Proibido avançar além dela.

Castigo — a morte!

É bastante ilustrativo o episódio famoso, envolvendo o astrônomo italiano Galileu Galilei, no século XVII, levado às barras de um tribunal inquisitorial. Foi convidado, sob pena de arder na fogueira, a negar a concepção que defendia, atribuída a Nicolau Copérnico, que vivera um século antes.

Era a teoria heliocêntrica, segundo a qual a Terra não é o centro do Universo, mas apenas humilde planeta que gira em torno do Sol, pequena estrela de quinta grandeza.

inadmissível para as autoridades religiosas que o Homem, o rei da Criação, habitasse um grão de poeira, em areai infinito.

Conta-se que Galileu, que não tinha vocação para o martírio, negou a teoria heliocêntrica, mas afirmou, ao mesmo tempo, aos seus companheiros:

Eppur, si muove.

Apesar de toda a intransigência, daquele fanatismo tolo, a Terra se move.

Galileu, valendo-se de uma invenção a ele atribuída — o telescópio, confirmara com cálculos matemáticos as conclusões de Copérnico.

Com o desenvolvimento da ciência astronômica ficou impossível sustentar o geocentrismo. Hoje, qualquer criança de primeiro grau tem consciência de que a Terra é apenas um satélite do Sol.

Sabe, também, que há outros planetas no sistema solar — Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Netuno, Plutão, Saturno e Urano, num total de nove.

O Sol pertence a uma família de estrelas, a Via Láctea, galáxia que tem perto de 200 bilhões de estrelas.

E há bilhões de galáxias!

Quando pensamos nessa vastidão infinita somos levados a admitir que não estamos sós.

Certamente há vida em outros rincões do Universo.

No passado, raros cientistas cogitavam dessa possibilidade. Estrela sustentando uma família de planetas, como o Sol, seria uma exceção no Universo. Por outro lado, quanto mais avançavam as pesquisas sobre nosso sistema solar, mais os cientistas se convenciam de que só havia vida na Terra. Os demais planetas são muito quentes, como Mercúrio e Vénus, onde a temperatura chega a 500 graus centígrados, ou muito frios, próximo a 200 graus abaixo de zero.

Hoje as ideias são outras.

Não há como negar a existência de vida em outros rincões do espaço infinito.

Com a moderna tecnologia foram descobertos vários planetas fora de nosso sistema solar e, segundo cálculos de especialistas, admite-se havia somente na Via Láctea pelo menos cem mil planetas com possibilidade de serem habitados por seres que fazem uso da inteligência, alguns certamente compondo civilizações mais avançadas que a nossa.

Há importante pesquisa sobre a vida em outros planetas, iniciada na década de 60, e que envolve muitos países, com a utilização de radiotelescópios.

São aparelhos semelhantes às antenas parabólicas, mas muito maiores, usados para captar mensagens radiofônicas de outros mundos.

Seria a suprema realização, para comprovar que não estamos sós no Universo.

O problema é a vastidão do Cosmos.

Sintonizar uma civilização extraterrestre é como procurar agulha num palheiro sem fim.

Por outro lado, haveria insuperável problema de comunicação. Suponhamos que captássemos sinais emitidos por uma civilização situada há mil anos-luz da Terra. Estaríamos recebendo uma transmissão feita há dez séculos, já que as ondas hertzianas viajam à velocidade da luz. A resposta levaria o mesmo tempo para chegar lá.

Um diálogo pediria o concurso dos milênios.

O mesmo problema da distância diz respeito à presença de extraterrestres, os decantados ETs.

Grande parcela da população acredita nessa possibilidade. Frequentemente, a imprensa noticia que pessoas viram os famosos discos voadores; outras teriam entrado em contato com seus tripulantes.

Há histórias incríveis acerca dessas declarações.

Quando pesquisadas, revelam-se fantasias, ilusões de óptica, fenômenos atmosféricos, alucinações, mistificações...

É possível que tenhamos recebido ou venhamos a receber a visita de extraterrestres, mas as dificuldades a serem superadas são ponderáveis.

A primeira é a distância.

Considerando, com Einstein, que a velocidade limite do universo é a da luz — trezentos mil quilômetros por segundo — uma nave que se deslocasse a essa espantosa velocidade, partindo de um planeta situado a cinquenta anos-luz, levaria exatamente esse tempo para chegar aqui. Entre ida e volta seriam cem anos.

Ainda de acordo com as teorias de Einstein, se alguma civilização conseguisse desenvolver engenhos capazes de deslocar-se tão rápido quanto a luz, dentro da nave o tempo fluiria mais lento. Um astronauta de retorno, após vinte anos, constataria estar centenas à frente, como se houvesse viajado para o futuro. Todas as suas ligações, envolvendo família, amigos, sociedade, profissão, estariam perdidas.

Há o problema do combustível. Para se chegar a um décimo da velocidade da luz, segundo cálculos atuais, haveria necessidade de um impulso inicial que exigiria algo equivalente a toda a energia que o homem consumiu desde o seu aparecimento na Terra.

A sede de devassar o Cosmos é própria das ambições humanas, envolvendo conquistas.

Seres superiores, capazes de remover todas as dificuldades de uma viagem interestelar, teriam atingido um patamar superior de conhecimentos que fatalmente os estimularia a privilegiar os aspectos espirituais da vida.

Estariam empenhados em devassar seu universo interior, em busca do autoaprimoramento mental e moral.

Isso os habilitaria a visitar outros mundos deslocando-se em espírito, o que dispensaria naves espaciais.

Assim, poderiam visitar a Terra, sem maiores problemas.

Muitos o fazem, certamente, inacessíveis à observação humana.

Antecipando-se à Ciência, a Doutrina Espírita sempre admitiu a pluralidade dos mundos habitados.

Na questão 55, de O Livro dos Espíritos, respondendo a uma indagação de Kardec, o mentor espiritual informa que são habitados todos os mundos que se movem no espaço; que só o orgulho e a vaidade podem sustentar a ideia de que o Homem está solitário no Universo.

O astrônomo enfronhado com a pesquisa do Cosmos dirá que essa afirmativa está certa pela metade. Concebe que a Terra certamente não é o único planeta habitado, mas que pouquíssimos há em idênticas condições, a começar pelo nosso sistema solar, onde somente na Terra pulula a vida.

Com base no conhecimento espírita atual, podemos, tranquilamente, demonstrar que a questão 55 está correta por inteiro.

Quem está familiarizado com a obra de André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, sabe que nosso planeta tem uma vasta população de Espíritos desencarnados. Habitam vários níveis espirituais, em colônias que se estendem a partir da crosta terrestre. Nelas aprimoram-se pelo estudo, pelo trabalho, pelo empenho de renovação...

Se por um fenômeno natural — a colisão de um gigantesco asteroide, por exemplo —, ou em virtude de uma guerra atômica, fosse eliminada a vida biológica da face da Terra, a população passaria a viver no Plano Espiritual, transferindo-se, eventualmente, para outros planetas.

Certa feita, no auge da Guerra Fria, quando havia grande possibilidade de um conflito atômico envolvendo os Estados Unidos e a União Soviética, um confrade apavorado dirigiu-se a Francisco Cândido Xavier:

— Vão acabar com nosso mundo! O que será de nós?!

E Chico, com a tranquilidade de sempre:

— Não se preocupe, meu filho. Deus arranjará outro rincão pra gente morar.

O médium estava absolutamente certo.

Sempre haverá um lugar para nós.

Usaremos um corpo de matéria densa em planetas semelhantes à Terra.

Estaremos revestidos de matéria sutil, o perispírito, para viver em outros planos do infinito.

Os mundos que giram no espaço, estrelas e planetas, são como naves espaciais, conduzindo coletividades encarnadas ou desencarnadas que neles fazem estágios evolutivos.

Assim seguimos todos, rumo à angelitude, habilitando-nos a viver um dia em mundos divinos, ostentando corpos celestes, inabordáveis para a frágil inteligência humana.

A Doutrina Espírita, com essa visão ampla das realidades espirituais, confirma as conquistas da cosmologia, mas situa-se adiante de suas possibilidades nos domínios do espírito, levando-nos a cogitar da grandeza da vida universal e do glorioso futuro que nos espera.

Lamentamos, então, as mesquinharias em torno dos interesses materiais, o cultivo obstinado dos sentimentos de orgulho, vaidade e egoísmo que nos prendem à Terra.

Agindo assim, assemelhamo-nos à lagarta que pretendesse permanecer presa ao casulo, recusando-se a desenvolver asas para ganhar a amplidão.

Richard Simonetti do livro:
Espiritismo, uma nova era

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Meditação e ação

Meditação e ação

Joanna de Ângelis



O autodescobrimento é o clímax de experiências do conhecimento e da emoção, através de uma equilibrada vivência.

Para consegui-lo, faz-se indispensável o empenho com que o homem se aplique na tarefa que o possibilita. É certo que o tentame se reveste inicialmente de várias dificuldades aparentes, todas passíveis de superadas.

A realização de qualquer atividade nova se apresenta complexa pelo inusitado da sua própria constituição. Não há, todavia, nada, com que o indivíduo não se acostume. Demais, tudo aquilo que se torna habitual reveste-se de facilidade.

Assim, a busca de si mesmo, para a liberação de conflitos, amadurecimento psicológico, afirmação da personalidade, resulta de uma consciente disposição para meditar, evitando o emprego de largos períodos que se transformam em ato constrangedor e aborrecido.

A meditação deve ser, inicialmente, breve e gratificante, da qual se retorne com a agradável sensação de que o tempo foi insuficiente, o que predispõe o candidato a uma sua dilatação deste.

Através de uma concentração analítica, o neófito examina as suas carências e problemas, os seus defeitos e as soluções de que poderá dispor para aplicar-se. Não se trata de uma gincana mental, mas de uma sincera observação de si mesmo, dos recursos ao alcance e dos temores, condicionamentos, emoções perturbadoras que lhe são habituais. Estudando um problema de cada vez, surge a clara solução como proposta liberativa que deve ser aplicada sem pressa, com naturalidade.

A sua repetição sistemática, sem solução de continuidade, uma ou duas vezes ao dia, cria uma harmonia interior capaz de resistir às investidas externas sem perturbar-se, por mais fortes que se apresentem.

Após a meditação analítica, descobrindo as áreas frágeis da personalidade e os pontos nevrálgicos da conduta, o exercício de absorção de forças mentais e morais torna-se-lhe o antídoto eficiente, que predispõe ao bem-estar, encorajando ante as inevitáveis lutas e vicissitudes do viver cotidiano.

As empresas do dia a dia fazem-se fenômenos existenciais que não assustam, porque o indivíduo conhece as suas possibilidades de enfrentamento e realização, aceitando umas, e de outras declinando, sem aturdimentos emocionais, nem apegos perturbadores.

Sucessivamente passa do estado de análise para o de tranquilidade, deixando a reflexão e experimentando a harmonia, sem discussão intelectiva, como quem se embriaga da beleza de uma paisagem, de uma agradável recordação, da audição de uma página musical, de um enlevo, nos quais apenas frui, sem questionamento, sem raciocinar. Fruir é banhar-se por fora e penetrar-se por dentro, simplesmente, desfrutando.

Passado um regular período de alguns anos, por exemplo, a avaliação patenteará os resultados. Quais as conquistas obtidas? De que se libertou? Quantas aquisições de instrumentação para o equilíbrio? Estas questões se revestem de magna significação, por atestarem o progresso emocional logrado, dispondo a mais amplos experimentos.

A meditação, portanto, não deve ser um dever imposto, porém, um prazer conquistado.

Sem a claridade interior para enfrentar os desafios pessoais, o indivíduo transfere-os de uma para outra circunstância, somando frustrações que se convertem em traumas inconscientes a perturbarem a inteireza da personalidade.

A meditação, no caso em pauta, abre lugar à ação, sendo, ela mesma, uma ação da vontade, a caminho da movimentação de recursos úteis para quem a utiliza e, por extensão, para as demais pessoas.

O homem, que se autodescobre, faz-se indulgente e as suas se tornam ações de benevolência, beneficência, amor. O seu espaço íntimo se expande e alcança o próximo, que alberga na área do seu interesse, modificando para melhor a convivência e a estrutura psicológica do seu grupo social.

A ação consolida as disposições comportamentais do indivíduo, ora impregnado pelo idealismo de crescimento emocional, sem perturbações, e social, sem conflitos de relacionamento.

Em razão da sua identidade transparente, passa a compreender os dilemas e dificuldades dos outros, cooperando a benefício geral e fazendo-se mola propulsionadora do progresso comum.

A ação é o coroamento das disposições íntimas, a materialização do pensamento nas expressões da forma. Aquela que resulta da meditação é proba, e tem como objetivos imediatos a transformação do ambiente e do homem, ensejando-lhes recursos que facultam a evolução e a paz. Assim, o ato de meditar deve ser sucedido pela experiência do viver-agir, porquanto será inútil a mais excelente terapia teórica ao paciente que se recusa, ou não se resolve aplicá-la na sua enfermidade.

Tal procedimento, a ação bem vivenciada, faz que o homem se sinta satisfeito consigo mesmo, o que lhe faculta espontânea alegria de viver, conhecendo-se e amadurecendo psicologicamente para a existência.

Caracterizam a conduta de um homem que medita e age, uma mente bondosa e um coração afável. Vencendo as suas más inclinações adquire sabedoria para a bondade, evitando as paixões consumidoras. Assim, faz-se pacífico e produtivo, não se aborrecendo, nem brigando, antes harmonizando tudo e todos ao seu redor.

Essa transformação processa-se lentamente, e ele se dá conta só após vencidas as etapas da incerteza e do treinamento.

A ação gentil coroa-lhe o esforço, nunca lhe permitindo a presença da amargura, do ódio, do ressentimento e dos seus sequazes...

Uma das diferenças entre quem medita e aquele que o não faz, é a atitude mental mediante a qual cada um enfrenta os problemas. O primeiro age com paciência ante a dificuldade e o segundo reage com desesperação.

Assim, o importante e essencial é dominar a mente, adquirindo o hábito de ser bom.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
O Homem Integral

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