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quinta-feira, 5 de maio de 2022

O servo não é mais que o senhor

O servo não é mais que o senhor

João Marcus 

(Pseudônimo de Hermínio C. Miranda)


Aproximava-se o fim da jornada terrena. Chegara a hora das despedidas e das últimas recomendações. Por algum tempo ainda o veriam e depois... seria a separação. Teriam compreendido bem os ensinamentos e os exemplos de todos aqueles anos de peregrinação? Teriam entendido as lições imortais do amor? Estariam em condições de divulgar por toda parte a palavra e as doces expectativas do Reino de Deus?

Talvez ainda não, mas ele não podia esperar mais, porque sua hora chegava rápida. Pareciam crianças grandes, sempre acostumadas a se voltarem para o Mestre e perguntar o que fazer e o que dizer. Nos momentos finais da última reunião ainda pareciam desarvorados e inseguros.

— Senhor, diz Felipe, mostra-nos o Pai e isso nos bastará.

— Tanto tempo estou convosco e ainda não me conheces, Felipe? O que viu a mim, viu ao Pai. Como é que dizes: Mostra-nos o Pai? Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim?

Mais tarde, depois que houvesse partido, como agiriam se ainda agora queriam a prova impossível da visão de Deus? Tinha ainda muito que dizer e ensinar, mas chegara o termo da tarefa e, mesmo que prorrogasse a permanência entre eles por alguns séculos à frente, nem assim poderia dizer-lhes tudo quanto era necessário. Só mais tarde, muito mais tarde na escala humana, daria mais uma parcela da Verdade eterna que liberta. Por enquanto, a lição tinha que ser primária, vazada em imagens e expressões singelas, quase infantis. Era preciso dramatizar sua mensagem, traduzi-la em ação que estivesse ao alcance da compreensão dos seus amados. Por algum tempo seriam eles os depositários da sua mensagem. Era preciso conservá-la intacta, viva e atuante. Os riscos eram muitos e certamente ele seguiria os passos de cada um, mesmo oculto nas dobras invisíveis do Infinito. Estaria presente neles, amorosamente. Mas era preciso deixar-lhes os sinais da sua passagem, as lembranças dos seus ensinos, a certeza da sua compreensão, a segurança do seu afeto. Que seriam fiéis depositários da verdade, não tinha dúvidas, mas teriam alcançado toda a extensão do legado e as responsabilidades que sua guarda envolvia? No futuro, muitos os perseguiriam e os atormentariam, porque haviam sido discípulos seus, mas muitos outros haveriam de atirar-se aos seus pés pelas mesmas razões. Aqueles homens rudes conviveram com o Mestre maior que descera de inacessíveis regiões do mundo espiritual. Haviam estudado a lição do amor diretamente de seus lábios e aprendido as lições da vida diretamente de seu exemplo. Estariam livres do orgulho? Escapariam ao doce e perigoso cântico da vaidade? Quando alguém lhes chegasse aos pés e lhes dissesse:

— Abençoado sejas porque teus olhos contemplaram o Mestre Imortal. Ensina-nos como ele te ensinou, porque tu também és Mestre.

Sim, havia o risco, porque eram humanos também, e muito humanos, profundamente humanos. Por isso mesmo os escolhera. Como, porém, implantar-lhes no espírito para sempre a lição eterna da humildade? A palavra não bastava, porque a palavra se esquece no momento seguinte e ele não estaria mais presente para repeti-la.

Enquanto isso, a última ceia prosseguia e sobre eles pairava uma indefinível angústia e a intuição de uma saudade que ainda não era. Foi quando ele se levantou, sem nada dizer. Tomou uma toalha e prendeu-a em torno do corpo. Que pretenderia? É certo que todos o olhavam e se entreolhavam. Em seguida, tomou uma bacia e se curvou para lavar os pés de seus amigos.

Pedro, estupefato, recusava-se terminantemente a consentir que o seu Mestre, dobrado sobre o chão como um escravo qualquer, lavasse os pés empoeirados e rudes de rude pescador.

— Senhor, lavar tu meus pés?

— O que faço — respondeu Jesus — não entenderás agora, só mais tarde.

— Jamais me lavarás os pés.

— Se não me deixas lavá-los, não terás parte comigo.

Isso também não; nunca! Lavasse, então, não apenas os pés, mas também as mãos e a cabeça.

Não era, porém, porque estivessem sujos.

— O que se lavou não necessita lavar-se; está limpo — disse ainda Jesus. — E vós outros estais limpos, ainda que nem todos...

E nesse diálogo prossegue a tocante cerimônia. Talvez pensassem que seria aquilo um novo ritual que Jesus desejasse ensinar-lhes. Qual seria, porém, o sentido profundo da cena inesquecível?

Terminada a cerimônia, Jesus retomou o manto que tirara para o trabalho e voltou ao seu lugar à mesa. Só então fez ver o sentido do seu gesto.

— Compreendeis o que acabo de fazer convosco? Vós me chamais de “Mestre” e “Senhor” e dizeis bem, porque o sou. Pois se eu, o Senhor e o Mestre, lavei os vossos pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos um exemplo, para que também vós façais como fiz convosco. Em verdade, em verdade vos digo, o servo não é mais que o senhor nem o enviado mais do que aquele que o envia.

A lição imortal da humildade foi narrada por uma testemunha ocular, pois consta do capítulo 13 do Evangelho de João. Muito falamos de humildade e muito ouvimos falar dela, ao longo desses dezenove séculos, mas quantas vezes separamos um minuto do nosso tempo atribulado para, no recolhimento silencioso, visualizar aquela cena comovente de um Espírito como não há outro neste planeta, curvado ao chão, lavando e enxugando os pés de seus discípulos simplesmente para imprimir-lhes para sempre na memória o preceito da humildade.

Teriam aprendido a lição? Certamente que sim. Mais tarde, escrevendo aos seus amigos ao longe diria Pedro:

— De igual maneira, jovens, sede submissos aos mais velhos; revesti-vos todos de humildade em vossas mútuas relações, pois “Deus resiste aos orgulhosos e concede sua graça aos humildes”.

A lição é sutil porque humildade não é sinônimo de subserviência, de bajulação, de servilismo. O Cristo de Deus, ajoelhado ao chão lavando os pés de seus amigos não servil nem bajulador — é humilde, porque a grandeza dispensa o orgulho. O orgulho só existe quando queremos ser o que não somos. Nossas posições — humanas ou espirituais — podem parecer desniveladas às vezes, mas parecer é diferente de ser. O Espírito que se assinou Irmã Rosália, escreveu em mensagem coligida por Kardec, em 1860, esta observação:

- Encontrei aqui (no mundo espiritual) um dos pobres da Terra, a quem, por felicidade, eu pudera auxiliar algumas vezes, e ao qual, a meu turno, tenho agora que implorar auxílio (“O Evangelho segundo o Espiritismo”, cap. 13).

Se por um momento de invigilância nos sentirmos maiores ou melhores do que o irmão ao lado, é bom lembrar depressa que o servo não é mais do que o senhor. E aquele a quem hoje atiramos uma distraída moeda, poderá ser amanhã aquele que vai vos estender a mão para nos tirar das sombras que nos envolverem.

João Marcus
Pseudônimo de Hermínio C. Miranda

Revista Reformador de Abr. 1974, posteriormente incluído no livro: Candeias na noite escura - FEB.

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Nota explicativa: - Hermínio C. Miranda também assinava seus artigos como João Marcus e H.C.M. Este expediente foi sugerido pelo editor da Revista Reformador para que pudessem ser publicados mais artigos dele em uma mesma revista.

O livro: - Candeias na noite escura, é uma compilação com os melhores artigos de Hermínio na revista Reformador assinadas sob o pseudônimo de  João Marcus.
Hermínio C. Miranda

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Calamidades

Calamidades

Joanna de Ângelis



Com frequência regular a Terra se faz visitada por catástrofes diversas que deixam rastros de sangue, luto e dor, em veemente convite à meditação dos homens.

Consequência natural da lei de destruição que enseja a renovação das formas e faculta a evolução dos seres, sempre conseguem produzir impactos, graças à força devastadora de que se revestem.

Cataclismos sísmicos e revoluções geológicas que irrompem voluptuosos em forma de terremotos, maremotos, erupções vulcânicas, obedecem ao impositivo das adaptações, acomodações e estruturação das diversas camadas da Terra; no seu trânsito de "mundo expiatório" para "regenerador".

Tais desesperadores eventos impõem ao homem invigilante a necessidade da meditação e da submissão à vontade divina, do que resultam transformações morais que o incitam à elevação.

Olhados sob o ponto de vista espiritual esses flagelos destruidores têm objetivos saneadores que removem as pesadas cargas psíquicas existentes na atmosfera, que o homem elimina e aspira, em contínua intoxicação.

Indubitavelmente trazem muitas aflições pelos danos que se demoram após a extinção de vidas, arrebatadas coletivamente, deixando marcas de difícil remoção, que se insculpem no caráter, na mente e nos corpos das criaturas.

Algumas outras calamidades como as pestes, os incêndios, os desastres de alto porte são resultantes do atraso moral e intelectual dos habitantes do planeta, que, no entanto, lhes constituem desafios, que de futuro podem remover ou deles precatar-se. (*) 

As endemias e epidemias que varriam o planeta no passado, continuamente, com danos incalculáveis, em grande parte são, hoje, capítulo superado, graças às admiráveis conquistas decorrentes da "revolução tecnológica" e da abnegação de inúmeros cientistas que se sacrificaram para a salvação das coletividades. Muitas outras que ainda constituem verdadeiras catástrofes, caminham para oportunas vitórias do engenho e da perseverança humana.

Há, também, aquelas resultantes da imprevidência, da invigilância, por meio das quais o homem irresponsável se autopune, mediante os rigores dos sofrimentos decorrentes das desencarnações precipitadas, através de violentos sinistros e funestas ocorrências.

Pareceriam desnecessárias as aflições coletivas que arrebatam justos e injustos, bons e maus, se olhados os saldos precipitadamente. Conveniente, todavia, refletir quanto à justeza das leis divinas que recorrem a métodos purificadores e liberativos, de que os infratores e defraudadores das Leis e da Ordem não se podem furtar ou evitar.

Comparsas de hediondas chacinas; grupos de vândalos que se aliciam na desordem e usurpação; maltas de inveterados agressores que se identificam em matanças e destruições; corsários e marinhagens desvairados em acumpliciamentos para pilhagens criminosas; soldadesca mercenária, impiedosa e avassaladora, que se refestela, brutal, na inocência imolada selvagemente; incendiários contumazes de lares e celeiros, em hordas nefastas e contínuas; bandos bárbaros de exterminadores, que tudo assolam por onde passam; cúmplices e seviciadores de vítimas inermes que lhes padecem as constrições danosas; pesquisadores e cientistas impenitentes, empedernidos pelas incessantes experiências macabras de que se nutrem em agrupamentos frios; legisladores sádicos e injustos que se desforçam nas gerações débeis que esmagam; conquistadores arbitrários, carniceiros, que subjugam cidades nobres, tornando suas vítimas cadáveres insepultos, enquanto se banqueteiam em sangue e estupor; mentes vinculadas entre si por estranhas amarras de ódio, ciúme e inveja que incendeiam paixões, são reunidos novamente em vidas futuras, atravessando os portais da Imortalidade, através de resgates coletivos, como coletivamente espoliaram, destruíram, escarneceram, aniquilaram, venceram os que encontravam à frente e consideravam impedimentos à sua ferocidade e barbaria, vandalismo e estroinice, a fim de que se reajustem, no concerto Cósmico da Vida, servindo também de escarmento para os demais, que, não obstante se comovem ante as desgraças que os surpreendem, cobrando-lhes as graves dívidas, prosseguem, atônitos e desregrados, em atitudes infelizes sem que lhes hajam constituído lições valiosas, capazes de converter-se em motivo de transformação interior.

Construtores gananciosos que se fazem instrumento para cobranças negativas, maquinistas e condutores de veículos displicentes, que favorecem tragédias volumosas, homens que vendem a honradez e sabem que determinadas calamidades têm origem nas suas mentes e mãos, embora ignorados pela Justiça humana não se furtarão à Consciência Divina neles mesmos insculpida, que lhes exigirá retorno ao proscênio em que se fizeram criminosos ignorados para tornarem-se heróis, salvando outros e perecendo, como necessidade purificadora de que se alçarão, depois, à paz.

Não constituem castigos as catástrofes que chocam uns e arrebatam outros, antes significam justiça integral que se realiza.

Enquanto o egoísmo governe os grupos humanos e espalhe suas torpes sementes, em forma de presunção, de ódio, de orgulho, de indiferença à aflição do próximo, a Humanidade provará a ardência dos desesperos coletivos e das coletivas lágrimas, em chamamentos severos à identificação com o bem e o amor, à caridade e ao sacrifício.

Como há podido pela técnica superar e remover vários fatores de calamidades, pelas conquistas morais conseguirá, a pouco e pouco, suplantar as exigências transitórias de tais injunções redentoras.

Não bastassem as legítimas concessões do ajustamento espiritual, as calamidades fazem que os homens recordem o poder indômito de forças superiores que os levam a ajustar-se à sua pequenez e emular-se para o crescimento que lhes acena.

Tocados pelas dores gerais, partícipes das angústias que se abatem sobre os lares vitimados pela fúria da catástrofe, ajudemo-nos e oremos, formando a corrente da fraternidade santificante e, desde logo, estaremos construindo a coletividade harmônica que atravessará o túmulo em paz e esperança, com os júbilos do viajor retomando ditoso à Pátria da ventura.
(*) - À véspera, em 01/02/1974, havia irrompido, em São Paulo, o incêndio do Edifício Joelma, que arrebatou mais de 170 vidas e revelou alguns heróis.
Joanna de Ângelis por Divaldo Franco, 
página psicografada na sessão pública da noite de 02/02/1974, 
no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador Bahia.

Mensagem publicada na Revista Reformador Abr. 1974 
e posteriormente incluída no livro: Após a tempestade.

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Recorte da Revista Reformador de Abril de 1974 - FEB.