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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Encontro de reparação

Encontro de reparação

Amélia Rodrigues



O diálogo, na praça ensolarada, no qual a mulher adúltera foi compreendida por Jesus, tornou-se um esperado escândalo.

Surpreendentemente, o Mestre não censurou o delito, recomendando a lapidação da equivocada, nem a liberou de responsabilidade, considerando-a inocente.

Reportou-se, isto sim, à leviandade dos acusadores que se encontravam incursos no mesmo crime.

Tal atitude havia desconcertado os intrigantes e vingadores gratuitos, que se rebelavam contra a terrível chaga do organismo social, que é o adultério, esquecidos de que, ao lado da caída encontrava-se o comparsa que tombara no mesmo erro.

Passada a surpresa e debandada a multidão sedenta de sangue, e porque a sós, com a infortunada, o Senhor recomendou-lhe que não voltasse a pecar a fim de que não lhe acontecesse mal pior, conforme era habitual.

Naquela noite, no entanto, quando o episódio já esmaecia, inclusive, entre os discípulos, a mulher, decidida a imprimir novo rumo à existência, procurou o Amigo Divino, na residência que O acolhia...

Demonstrando, no constrangimento que exteriorizava, todo o drama e sofrimento maceradores, solicitou e conseguiu uma entrevista com Aquele que por cuja interferência tivera a vida poupada.

Compreendendo a angústia que a apunhalava, o Senhor ensejou-lhe o início da conversa de edificação, saudando-a com carinho e sem afetação.

– Rogo perdão – disse ela reticente – por vir perturbar-Vos a paz.

– A verdadeira paz – retrucou-lhe, calmo – é a que flui do coração aclimatado ao culto do dever, que nada perturba. “Fala tranquila e te ouvirei...”

– Sinto-me aturdida – ripostou-Lhe em pranto –, sem saber que rumo dar à minha existência. Lutei muito antes de tombar... O sedutor rondou-me os passos como lobo voraz ante a presa invigilante...

“Meu esposo, passados os primeiros dias da novidade conjugal, retornou às noitadas alegres, deixando-me em solidão... Enferma da alma e carente de bondade, permiti-me envenenar por tormentos que não merecem compaixão.

“Com sede de ternura, embriaguei-me de concupiscência, e ansiosa pela água pura do amor, chafurdei no lodaçal dos desejos doentios. O resultado foi a tragédia...

“Abandonada e sem lar, agora padeço o desprezo e a zombaria geral, não sabendo que rumo seguir, nem como agir.

“Peço-Vos um roteiro e uma lâmpada acesa de esperança, a fim de prosseguir...”

Jesus penetrou naquela alma ansiosa e sofrida, nela encontrando as dores da Humanidade através dos tempos, e considerou, bondoso:

– A paciência e a confiança em Deus serão as duas providências iniciais que te facultarão a cura e a renovação da saúde. Cometido o erro, ele passa a pesar na economia social e a sobrecarregar a consciência culpada.

“Não é de importância o que os outros pensam de nós, e a cobrança, pela impiedade, com que desejam fazer justiça. O problema íntimo é o vital, e somente quando o homem se reintegra no concerto da ordem, do bem, é que pode fruir de tranquilidade.

“Arma-te de humildade e confia no amanhã.

“A memória do povo é fraca e passa rápida em relação às virtudes do próximo. Todavia, é firme, clara e duradoura em referência às faltas alheias, sempre recordadas com o ácido da acusação e os acepipes da malícia.

“O exemplo decorrente do arrependimento se transforma na defesa do equivocado, que assim repara perante o Pai, ante si mesmo e a sociedade, o engano perpetrado.”

– Para onde irei, agora? – inquiriu, vencida...

– As aves dos céus têm ninho, as serpentes e feras, os seus covis, mas o filho do Homem não tem onde se agasalhar, vivendo sob a abóbada estrelada e avançando na direção do Infinito...

“Assim, busca a oportunidade de reparação e adapta-te à situação atual, aguardando o amanhã com a disposição de quem compreende o prejuízo a si mesmo causado, ao arrojar fora o hoje...

“A negligência do esposo ingrato e leviano não constitui respaldo para que assumisses compromisso infeliz semelhante. E porque ele é doente também, vivendo num organismo comunitário alienado do amor, não tem condições de distender-te a mão amiga, quando dele necessitas e conforme de ti no futuro igualmente dependerá.

“A vida é feita de permutas, que facilitam a felicidade para todos, sem cujo concurso faz-se mais difícil.

“Segue, porém, renovada pela certeza do triunfo, porquanto todo aquele que se levanta da queda, encontra apoio na fé e na luta para firmar-se.

“O Pai Criador não desampara filho algum e vela, devotado, por todos.”

Fazendo-se um silêncio natural, profundo e tocante, foi a mulher quem o arrebentou, rogando:

– Permiti-me seguir-Vos, na minha pequenez, e dai-me a Vossa bênção.

Jesus envolveu a sofredora em uma onda de ternura ímpar, e, erguendo-a, pois que, comovida, prosternara-se-Lhe aos pés, concluiu:

– Vai, filha, e não sofras mais. Aqueles que se arrependem e buscam ensejo de redenção, encontram-no. Há sempre um lugar no rebanho do amor para as ovelhas que retornam e desejam avançar.

“Aonde quer que vás, eu estarei contigo, e a luz da verdade, no archote do bem, brilhará à frente, clareando o teu caminho.”

No céu silencioso, a sinfonia dos astros espalhava luz cintilante, apontando o futuro.

*

Dez anos depois, na cidade de Tiro, uma casa humilde de aspecto e rica de amor recolhia peregrinos cansados e enfermos sem ninguém.

Uma mulher, que traía na face desgastada vestígios de grande beleza em decadência, reunia ali os infelizes, limpava-lhes as chagas e falava-lhes de Jesus.

Tornara-se, por isso, querida e respeitada por todos.

Num cair de tarde amena, chegou, trazido por mãos piedosas, um homem chagado, em extrema penúria, quase morto sob o fardo de mil vicissitudes.

Recolhido com carinho, teve as úlceras lavadas e aliviadas com unguentos medicamentosos, recebendo caldo reconfortante das mãos da caridade.

Quando se recobrou um pouco do desalento que o vitimava, ouviu a mensagem de encorajamento, em nome de Jesus, enunciada com unção e carinho pela desconhecida benfeitora.

Emocionado, e quase sem vitalidade, indagou interessado:

– Esse Jesus a quem vos referis é o galileu que foi crucificado m Jerusalém?

– Sim, é Ele mesmo. Morreu por nós, mas volveu ao nosso convívio para nunca mais deixar-nos.

– E vós O conhecestes para terdes a certeza de que os Seus ensinos são verdadeiros?

– Sim, eu O conheci, oportunamente, quando a mim Ele salvou...

– Também eu tive a honra de O conhecer – respondeu o moribundo, quase sem forças –, mas não soube beneficiar-me. A vós Ele salvou, mas, eu, egoísta e mau, O detestei, afastando-me da Sua presença, confuso e amargurado.

– Que vos fez Ele para que fugísseis magoado?

– Salvou a minha mulher que adulterara contra mim e não me concedeu uma palavra, sequer, de consolação. Não pude compreendê-lO, então.

“Abandonei a companheira a quem eu infelicitara com os meus vícios e envenenei-me de dor.

“Passados os anos e havendo despertado para a verdade, tenho-a buscado em vão por toda parte, até que a doença me devorou o corpo e aqui estou...”

Embargada pelas emoções em desenfreio, naquele momento, a mulher recordou-se da praça e do diálogo, à noite, com o Mestre, um decênio antes, reconheceu o companheiro do passado e, sem dizer-lhe nada, segurou-lhe a mão suavemente e o consolou:

– O arrependimento do erro, a confiança em Deus e a paciência são os primeiros passos para a reparação de qualquer delito.

“Deus é amor, e Jesus, por isso mesmo, nunca está longe daqueles que O querem e buscam.

“Agora durma em paz enquanto eu velo, porquanto, nós ambos já O encontramos...”

Amélia Rodrigues por Divaldo Franco do livro:
Pelos Caminhos de Jesus

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sábado, 20 de dezembro de 2025

Barrabás, Pilatos e Jesus

Barrabás, Pilatos e Jesus

Amélia Rodrigues



A noite fria, de certo modo, representava o estado de alma enregelada daqueles acusadores atormentados.

Dominados pela ira infrene, decorrente da inveja sórdida, não trepidavam em cometer o terrível crime contra a vítima inocente.

Haviam-nO visto curar e distender as mãos misericordiosas em favor da miséria e do sofrimento sem conforto. A Sua havia sido uma vida pública inatacável. Nenhuma atitude Lhe contradizia as palavras assinaladas pela sabedoria e pelo amor.

Todo o Seu ministério fora realizado com base na justiça e na misericórdia. Os Seus momentos foram assinalados pela ternura e pela abnegação.

É certo que Ele não convivia com o crime a que estavam acostumados os “filhos de Israel” que, não obstante se rebelassem contra a arbitrária dominação romana, submetiam-se, subservientes, aos senhores, embora o ódio agasalhado contra César e os seus sequazes.

Jesus definira os rumos do Seu trabalho, estabelecendo, publicamente, que não se serve bem a dois senhores, pois que esta atitude ambígua deixa um deles em falta.

Por ser o filho de Deus, mantinha a postura excelente, exteriorizada nos atos superiores de que dava mostras.

O julgamento absurdo que não dissimulava o rancor da indignidade contra a honradez levava ao cumprimento da Lei que estabelecera a necessidade de o justo ser punido pelos delitos do amor e da perfeita doação.

Assim, o ódio farisaico desperta no povo ingrato a sede de sangue, e a malta bem trabalhada pelo verbo da revolta amotinou-se, exigindo-Lhe a morte infamante.

Passado pelas hábeis mãos do sacerdócio organizado, fora, agora, empurrado para o poder civil, a fim de que o representante do imperador ficasse responsável pela punição, carregando na consciência culpada a vida do Homem que viera mudar os rumos da História e da Humanidade.

Desta forma, a frieza da noite era semelhante à frialdade dos sentimentos entorpecidos e apaixonados, na cegueira da própria alucinação...

Pôncio Pilatos, dúbio e venal, sabia-O inocente.

Inquirira-O, repetidas vezes, submetendo-O ao jogo difícil das palavras, tentando encontrar-Lhe culpa, confundi-lO.

Transparente, porém, na Sua pureza ímpar, Ele respondera com nobreza, baseando-se no conteúdo das questões apresentadas, ou então silenciando...

Não tinha o de que defender-se.

Ali estava, exposto pelos Seus familiares, os de Sua raça e quase absolvido pelo poder gentio, dominador, que n’Ele não detectava crime.

Era o grande paradoxo. Israel O acusava e Roma O defendia.

Pilatos vezes várias tentou salvá-lO da sanha geral, pois que não Lhe encontrava delito algum, exceto o de ser portador da Verdade.

A verdade exige pesado ônus de quem a conduz, pois que, não compactuando com as licenças morais nem a delinquência dissimulada de legalidade, que passa disfarçada como direito de uns em detrimento de outros, faz-se detestada e perseguida.

Os vanguardeiros e porta-vozes da Verdade ainda pagam o tributo da coragem de vivê-la. Jesus era a representação da Verdade, no ambiente de ambições mentirosas e vãs, de ilusões enganadoras e insensatas.

Pilatos o sabia. Estava sempre cercado de bajuladores mesquinhos, acostumado aos famanazes da indignidade, que lhe recolhiam as migalhas do poder, que também não lhe pertencia, e na sua transitoriedade passava de mãos... Sabia não possuir amigos, e sim exploradores da situação.

Aquele Homem nada lhe pedia, nem mesmo se justificava ou aguardava qualquer compaixão. Rei, não solicitava nem esperava consideração, por que o Seu não era o reino terrestre, pois que se encontrava além e acima das vacuidades humanas, que erigem e derrubam tronos em batalhas de sangue e de impiedade...

Vendo-O seviciado, numa tentativa de aplacar a sede dos perseguidores, não se pôde furtar por covardia moral ao atendimento da imposição que bradava: – “Morte! Crucifica-O!” Fugindo à posição de legislador e homem de governo, temendo a turba que odiava, aquiesceu, perdendo a paz.

Ofereceu Barrabás, que também se chamava Jesus, e eles não aceitaram a troca. Este, segundo alguns, era revolucionário terrestre, enquanto o outro era-O celeste.

O bandido agradava a multidão e a conveniência dos poderosos de um dia. Este podia viver.

O outro, espiritual e celeste, abalava as estruturas da mentira e dos interesses mesquinhos. Ele deveria morrer.

Lavando as mãos, Pôncio Pilatos não limpou a consciência ultrajada, que permaneceria exigindo-lhe retificação de conduta.

*

Os anos se passaram...

Tibério César cedeu o seu lugar, vitimado em Anacapri, a outro temporário e iludido imperador, que foi Calígula...

Pilatos, caindo em desgraça, retornou a Roma e foi mandado para o exílio na Suíça.

A neurose de culpa ficou-lhe impressa na conduta atormentada.

O ato de lavar as mãos repetiu-se cruel, constante, em tentativa tormentosa de autoliberação.

O olhar do Inocente eram, na sua lembrança, duas estrelas de intensidade ímpar, penetrando-lhe os esconsos redutos da alma sofrida.

Desarmado de fé e corroído pelos remorsos incessantes, com o sangue nas mãos, da vítima que representava todas as vítimas que lhe sofreram a injunção criminosa, que se avolumava, e sem valor moral para a reabilitação através do bem, atirou-se, inerme, infeliz, na cratera profunda de um vulcão extinto, fugindo da vida física para adentrar-se na Vida onde a Verdade estua perene.

O sonho da esposa, naquela noite terrível e fria, cumprira-se.

Ela o advertira: – “Este homem, durante toda a noite, fez-me sofrer em sonho. Não te envolvas com Ele.”

Em todos os tempos, os Pilatos do mundo requintado e torpe lavam as mãos a respeito dos destinos dos Cristos-amor, perseguidos pelos dominadores dominados pelas quimeras.

O amor, porém, sobrenada no mar dos ultrizes comportamentos apaixonados.

São eles que repetem o código soberano das bem-aventuranças, abrindo espaços para os que anelam por um mundo melhor e mais feliz, edificando o “Reino de Deus” no país das almas.

Barrabás, Pilatos ou Jesus – eis o desafio de ontem e de hoje.

No passado, os adversários de Jesus preferiram Barrabás – filho de pai – e Pilatos, na representação da suprema covardia moral. Estes, no entanto, passaram, a morte os recolheu...

Quem, no entanto, elegeu Jesus, vive na memória do bem e desfruta felicidades, embora a vida os tenha chamado...

Os primeiros, Barrabás e Pilatos, são símbolos de execração, enquanto Jesus permanece como o ideal de dignificação e engrandecimento do homem e da sociedade, amado e aguardado.

Amélia Rodrigues por Divaldo Franco do livro:
Pelos Caminhos de Jesus

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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Ergue-te e vai!

Ergue-te e vai!

Amélia Rodrigues


Jesus e o paralítico na piscina de Betsaida

Anunciada a tarefa, começaram os aprestos para sua realização.

As convulsões produzidas despertariam os mais controvertidos sentimentos.

Os galileus eram considerados desprezíveis na própria pátria e os que se originavam da Nazaré pequenina, menos respeito mereciam.

As paixões sectárias haviam dividido aquele povo reduzido em facções que se detestavam e, por isso, Israel sofrera demorados e cruentos jugos através dos tempos, que lhe depauperaram a alma, não a aniquilando, graças ao fervor religioso e ao ascético monoteísmo que lhe impunha sacrifícios e sofrimentos acerbos.

*

Jesus já estivera por mais de uma vez em Jerusalém, a cidade áspera dos profetas, desde que iniciara o messianato.

Nos intervalos da ação, retornara à Galileia gentil, passando pela Samaria e divulgando as notícias do “Reino de Deus”.

Na oportunidade, o Seu verbo ressoara na ação prodigiosa das curas, que comoviam e convocavam seguidores para o Seu rebanho de pastor das almas.

Há pouco, liberara o jovem filho de uma autoridade que, à morte, produzia terrível sofrimento na família. Nem mesmo o viu, sequer. À sua ordem, a distância, o rapaz sarou do mal que o consumia, deixando o pai e todos os seus, afervorados e reconhecidos.

*

A cidade febricitante regurgitava, naquela oportunidade, com a presença de muitos peregrinos.

As festas anuais atraíram visitantes de toda parte, o que ocasionava balbúrdia, agitação e fervor religioso.

Adentrando-se pela porta das ovelhas, parou, um pouco, junto à piscina da Bezatha, ou Betsaida, famosa pelos seus cinco pórticos, onde os enfermos, paralíticos e infelizes estagiavam, aguardando milagres e socorros...

Uma velha tradição informava com viso de verdade que, vez por outra, um anjo lhe movimentava as águas, o que propiciava a cura de todas as mazelas orgânicas.

Certamente, o movimento no seio se originava dos minadouros que a vitalizavam com o fluxo da correnteza.

Um paralítico, no entanto, que se lamentava sobre um catre de vergonha e desespero, anunciava a todos que, apesar de ali vir diariamente, fazia trinta e oito anos, nunca se pudera beneficiar do favor divino, porque, tão logo as águas se moviam alguém se lhe arrojava antes, por não ter quem o ajudasse a mergulhar naquelas correntes curativas...

Jesus compadeceu-se e, tomado de imenso amor, ordenou lhe:

– Ergue-te, toma da tua cama e vai!

Fascinado, comovido por aquele Homem de olhar penetrante e dulçoroso, o paralítico moveu-se, pôs-se de pé, e, exultante, tomou do leito, logo saindo a clamar hosanas.

Quantos lhe perguntavam quem era aquele que o libertara, não o sabia dizer.

Passeando a felicidade por toda parte, foi ao Templo para que todos o vissem, quando ali reencontrou o Benfeitor e o apontou, sorridente, aos que o inquiriam sobre o acontecimento inusitado.

O Rabi, que conhecia as causas anteriores das aflições e a necessidade delas, tanto quanto o perigo da saúde, que mal aproveitada é geratriz de futuros males, informou-o, enérgico: 

– “Tem cuidado e não peques, para que te não aconteça algo pior.”

*

A inveja farisaica, escrava da ortodoxia e do formalismo, porque soubesse que a cura se dera num sábado, numa violação ao artigo legal que prescrevia o repouso nesse dia, não podendo negar o fato em evidência, arremeteu contra aquele que realizava o que eles, os tecelões da intriga, não conseguiam, indagando, hipócritas:

– “Por que curas no sábado, todo ele dedicado ao repouso?”

Sem preocupar-se com as suas mesquinharias, o Senhor redarguiu-lhes:

– “O Pai trabalha continuamente e eu também trabalho”–

como a dizer que a preservação das Leis que regem o Cosmo e a vida, exige, também, trabalho.

*

O escândalo que as Suas ações produziam acumularia ódios que se voltariam contra Ele...

Na impossibilidade de O superarem, perseguiam-nO, arranjando motivos para desmerecê-lO.

A mesquinhez compete contra a grandeza, tentando solapar-lhe as bases.

Em todos os tempos, os pigmeus em espírito agredirão os gigantes do bem que não se deterão a responder-lhes ou mesmo a defender-se.

A inveja detestará sempre a honra e a beleza, disseminando calúnias.

O ódio seguirá as pegadas da ação dignificante, ateando os fogos da destruição para alcançá-la.

A hipocrisia engendrará tramas contra a lealdade, por lhe não suportar os testemunhos superiores.

(...) No entanto, acima de todas as vicissitudes o bem triunfará sobre o mal, assim como a luz diluirá a treva sem alarde...

As coisas, os dias, estão na escola do mundo para que o homem os utilize no empenho de crescimento para Deus e não o homem que esteja para submeter-se às suas conjunturas.

*

Sempre será sábado para os ociosos e negligentes, mas, para os obreiros da verdade, cada hora de todo dia é sempre bênção para a renovação e o trabalho libertador.

Iniciada a tarefa evangélica, desatavam-se as cadeias do futuro e o pleno amor instalava, na Terra, o reino da felicidade, que jamais se acabará...

Ergue-te e vai!  
(João, 5:1 a 18 - Nota da autora espiritual).

Amélia Rodrigues por Divaldo Franco do livro:
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segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Perdão: A melhor terapia

Perdão: A melhor terapia

Amélia Rodrigues



Extraordinária terapia para a exulceração moral é o perdão.

Elevada expressão do amor, abençoa quem o doa e apazigua aquele que o recebe.

Ninguém há, que passe pela existência corporal, sem necessitar do seu lenitivo.

Sem ele, o clima social se intoxica com os vapores venenosos e os indivíduos se asselvajam, descontrolados; a intolerância extrapola na agressividade e a ira arma o ódio de vingança brutal...

O perdão chega e suaviza a gravidade do delito, auxiliando na reparação, mediante a qual o equivocado se reabilita, alterando a conduta e tornando-se útil à comunidade onde está situado.

Quem perdoa, cresce; quem recebe o perdão, renova-se.

O doador enriquece-se de paz, e o beneficiado recupera o valor para dignificar-se através da reabilitação.

Enquanto o homem não perdoa, permanece no estágio primário da vida, renteando com a barbárie em processo de estagnação.

Aquele que recusa o perdão, duplamente enfermo, padece de hipertrofia dos sentimentos, ruminando desforço, atado a distúrbios da emoção.

Por ser de amor, toda a Doutrina de Jesus é lavrada na conduta do perdão.

Perdoando, o amor enseja refazimento da estrada antes percorrida com desequilíbrio, por cujo esforço a consciência amplia o campo de serviço e se desalgema do remorso, da intranquilidade, do medo...

Não é importante que o outro, o agressor, aceite a vibração luarizadora de quem perdoa, porquanto a ação beneficente é sempre maior e mais útil para quem a exerce. Todavia, se a onda de amor encontra receptividade naquele a quem vai dirigida, mais extraordinários serão os efeitos da doação.

Há reações infelizes que explodem no homem, gerando conflitos como efeito de mágoas não superadas, de receios infundados, de angústias não diluídas.

Aspirando a psicosfera dos ressentimentos e da amargura, o indivíduo apequena-se, envenenando-se e reagindo de forma irracional.

Compraz-se em infelicitar, porque é desditoso; alegra-se em ferir, em razão de estar doente; semeia incompreensões, porque se acredita menosprezado.

A Boa-nova possui um conteúdo de restauração, de enobrecimento, de dignificação.

Ninguém que a recebe, que se não toque da sua magia transcendente.

Protótipo do amor que fecunda o perdão, Jesus transpirava a compaixão com que envolvia todos que d’Ele se aproximavam, sempre compassivo, por conhecer as mazelas humanas e as paixões mesquinhas, dominadoras, que governam os homens.

A Sua presença na Terra era um ato de perdão divino aos delinquentes humanos, que trucidaram os profetas e O crucificariam, sanguissedentos.

Apesar de saber o que O aguardava, pôde amar e perdoar os trêfegos e insensatos com os quais compartiu as Suas horas, ensejando-lhes responsabilidade e elevação.

(...) E mesmo quando foi abandonado e posto na cruz, prosseguiu perdoando, para retornar, após a noite da morte, a fim de positivar a claridade do dia de vida eterna.

As parábolas Lhe escorriam dos lábios como pérolas luminíferas, para adornar as almas em sombras da ignorância.

A Galileia querida, espraiada entre o Mediterrâneo e o mar Morto, ia ficando para trás.

Já não haveria retorno daquela vez.

A Judeia, astuta e perversa, rica de pobreza emocional dignificadora, se tornaria o palco para o grande testemunho, a imolação...

As ciladas armadas pelos inimigos do progresso não O retêm.

Ele desvencilha-se com facilidade, elucidando que “somente lobos caem em armadilhas para lobos”.

Os discursos de amor e de esperança, como onomatopeias da Natureza, vão alcançando as almas, para ficar impressos por todo o sempre nos corações.

“O Reino dos Céus – narrou Sua meiga e poderosa voz – é comparável a um rei que quis tomar conta aos seus servidores.” (Mateus, 18: 23 a 35 - Nota da autora espiritual).

As atenções se fixaram n’Ele, na mensagem de sabor ancestral.

“Tendo começado a fazê-lo – deu prosseguimento, calmo –, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Mas, como não tinha meios de os pagar, mandou seu senhor que o vendessem a ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que lhe pertencesse, para pagamento da dívida. O servidor, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo: “Senhor, tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo.” Então, o senhor, tocado de compaixão, o mandou embora e lhe perdoou a dívida.”

O débito era grande e a Lei permitia que toda a família respondesse por ele, podendo ser vendida, a fim de ser resgatado.

O endividado, no entanto, pediu nova oportunidade, prosternando-se e suplicou.

A concessão lhe foi feita com integral dispensa do pagamento.

Uma grande dívida e um largo gesto de perdão.

Embevecidos, os ouvintes acompanharam o acontecimento ali exposto.

“Esse servidor, porém – continuou com tranquilidade –, ao sair, encontrando um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, o segurou pela goela e, quase a estrangulá-lo, dizia: ‘Paga o que me deves.’ O companheiro, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo: ‘Tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo.’ Mas o outro não quis escutá-lo; foi-se e o mandou prender, para tê-lo preso até pagar o que lhe devia.”

A maldade é doença cruel.

A intolerância dela se deriva na condição de filha espúria.

A dívida era pequena e a ganância, grande.

Perdoado o devedor em uma grande soma, não teve misericórdia do outro que lhe devia uma inexpressiva quantia.

A falta de compaixão enlouquece e degrada, enquanto o perdão cura e santifica.

“Os outros servidores – adiu, suavemente –, seus companheiros, vendo o que se passava, foram, extremamente aflitos, e informaram o senhor de tudo quanto acontecera. Então, o senhor, tendo mandado vir à sua presença aquele servidor, disse-lhe: ‘Mau servo, eu te havia perdoado tudo o que me devias, porque mo pediste. Não estavas desde então no dever de também ter piedade do teu companheiro, como eu tivera de ti?’ E o senhor, tomado de cólera, o entregou aos verdugos, para que o tivessem, até que ele pagasse tudo o que devia.”

A lição de justiça marcha ao lado do ensinamento do amor.

Recusando-se ao amor, o homem tomba na Lei e sofre-lhe o efeito, pois que somente o amor possui bálsamo para todas as feridas.

Perdoado, não quis perdoar.

Amado, recusou-se a amar.

E concluiu, sábio:

“É assim que meu Pai, que está no céu, vos tratará se não perdoares, do fundo do coração, as faltas que vossos irmãos houveram cometido contra cada um de vós.”

No ar ficaram os últimos acordes do extraordinário ensinamento.

Perdoar, do fundo do coração – é a ordem nova –, a fim de ser perdoado.

O calceta, impiedoso e venal, que não perdoa, não mais dispõe da liberdade, reencarnando-se encarcerado na dor até que pague toda a dívida.

O perdão concede a liberdade, enquanto a exigência aprisiona.

A música da Mensagem permaneceu no ar, anunciando a vitória do amor e do perdão como sublimes terapias para a felicidade humana.

Amélia Rodrigues por Divaldo Franco do livro:
Pelos Caminhos de Jesus

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Declaração de Origem

- As mensagens, textos, fotos e vídeos estão todos disponíveis na internet.
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- Se você gostou da mensagem e tem possibilidade, adquira o livro ou presenteie alguém, muitas obras beneficentes são mantidas com estes livros.

- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Apelo do livro nobre

Apelo do livro nobre

Amélia Rodrigues



Amigo:

Escute-me um pouco.

Sou fiel servidor da sua alma nos caminhos da evolução.

Corporifiquei-me, vencendo obstáculos da ignorância e dificuldades do orgulho para ajudá-lo.

Não me transforme em adorno secundário nas prateleiras das estantes da sua casa.

Nunca o importunarei!...

Minha voz chegará ao seu cérebro somente quando você se dispuser a escutar-me.

Jamais me cansarei de repetir-lhe sem enfado e com o mesmo carinho os mais nobres ensinamentos.

Não me queixarei quando a sua exasperação atirar-me sobre a mesa ou a sua cólera esfacelar-me o corpo.

Nasci com o sacrifício das árvores e vesti-me de branco para que o suor das meditações e as lágrimas da experiência dos outros me tingissem as páginas, a fim de que o amor pudesse bordar-me de luz para clarear as noites do seu pensamento.

Somente eu conseguirei aconselha-lo sem que você enrubesça de pudor ou constrangimento e apenas eu silenciarei quando você não me quiser ouvir.

Se você buscar penetrar-me, desvelarei horizontes desconhecidos à sua mente e darei cor aos seus sonhos de felicidade.

Transformar-me-ei em abençoado estímulo e darei forças aos seus pés claudicantes na romagem difícil, quando necessário.

Farei da bondade o motivo central das suas horas e, compreensivo, ajudá-lo-ei discretamente a lutar e a vencer.

Influirei na sua vida como você não pode imaginar e com você incutirei, na comunidade inteira, diretrizes superiores da vida.

Apoie-me e apoiá-lo-ei. Receba-me e abrirei muitas portas para que você passe livremente.

Se, todavia, você me relegar ao abandono, serei um amigo morto, sem expressão nem valor.

Emudecido, não tenho significação.

Fechado, sou candidato à inutilidade e ao lixo.

À margem, perco-me em sombras.

Todas as expressões que os minutos me gravaram quedam-se em abandono. Sem que o seu pensamento me atinja, nada posso fazer para ajudá-lo na perturbação e, sem o meu concurso, a treva, a breve tempo, terá dominado o seu campo, deixando-o sem luz nem vida.

Em atividade, porém, proponho-me a enobrecê-lo para que, entre os maus, o seu caráter não se envileça, nem seu coração se insensibilize na indiferença.

Enquanto você estiver a ouvir-me, escreverá, também, páginas
do livro da sua vida, nelas gravando com os seus atos, palavras e pensamentos, as experiências que lhe confiarei.

Mesmo que você me despreze, um dia surgirei diante de você, no tribunal da Vida verdadeira, apresentando ao Mestre Divino a escrituração da sua jornada, em caracteres firmes e claros, onde você identificará do seu próprio punho, as experiências malogradas nos dias da insânia e da desídia.

Amélia Rodrigues por Divaldo Franco do livro:
Crestomatia da Imortalidade

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