O assalto da lisonja
Hilário Silva
Em sua residência no Méier, Manuel Quintão, que era, ao tempo, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira, recebia a visita de um companheiro que se autobiografava, a cada instante:
– Como você sabe – dizia ele agora –, quando eu fundei a casa espírita a que nos referimos, todos me aplaudiram... Minha conferência foi muito bem comentada... Minha opinião, no assunto, foi um sucesso... Os jornais pediram meu parecer e fiz o que pude pela Doutrina Espírita, com a aprovação de todos...
De quando em quando, mergulhava a ponta do charuto no cinzeiro e continuava:
– Todos estão satisfeitíssimos comigo... Sinto-me plenamente apoiado...
Quintão, depois de ouvir longo tempo, falou sério:
– Sim, meu caro, Deus o conserve assim festejado; entretanto, não nos esqueçamos... A lisonja, em qualquer situação, é uma pedra de tropeço...
O companheiro apanhou-se em falta, ante a delicada observação, e ficou procurando algum ponto no ambiente para não dar a perceber o seu verdadeiro estado de alma.
Vagueando o olhar, notou, em vaso próximo, que linda begônia de Dona Alzira, a dona da casa, estava sendo atacada por enorme lagarta.
Encontrou a motivação que buscava e falou:
– Sem dúvida... (e mostrando a larva) a lisonja em nós é tal qual essa lagarta na planta...
Quintão sorriu, expressivamente, e, fazendo menção de libertar a begônia daquela indesejável presença, disse, com firmeza:
– Meu amigo, o homem não pode evitar o assalto da lisonja, mas aquele que conserva semelhante praga consigo, decerto caminha para a sua própria destruição.
Hilário Silva é o pseudônimo de um estudioso e aplicado Espírito por intermédio do Espírito André Luiz, de quem foi parceiro de trabalho e estudo para assistência aos irmãos habitantes das regiões umbralinas. Desde o início de sua participação na divulgação do ideal espírita, Hilário Silva compreendeu a necessidade de renovação que a popularização da Doutrina demanda, exige novas formas de pensamento para apresentar e ensinar os caminhos para transformação justa da vida. Autor de diversas obras ditadas a partir do mundo espiritual, como Almas em Desfile e A Vida Escreve, editadas pela FEB.
- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles, a razão e a universalidade.

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