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quarta-feira, 22 de julho de 2026

O médico e o fiscal

O médico e o fiscal

Hilário Silva


Imagem gerada por IA

— Se possível, acelere um pouco a marcha.

Era o abnegado médico espírita, Dr. Militão Pacheco, que rogava ao amigo que o conduzia por gentileza.

E acrescentava:

— O caso é crupe.

O companheiro ao volante aumentou a velocidade, mas, daí a momentos, um fiscal apitou.

O carro atendeu com dificuldade e, talvez por isso, a motocicleta do guarda sofreu pequeno choque sem consequências.

O policial, porém, não estava num dia feliz e o Dr. Pacheco com o amigo receberão uma saraivada de palavrões.

Notando que não reagiam, o funcionário fez-se mais duro e declarou que não se conformava apenas com a multa.

Os infratores estavam detidos.

O Dr. Pacheco deu-lhe razão e informou que realmente seguiam com pressa para socorrer um menino sem recursos, rogando, humilde, para que a entrevista com a autoridade superior fosse adiada.

— Se o senhor é médico — disse o interlocutor, com ironia —, deve proceder disciplinadamente, sem sair do regulamento. Para ser franco, se eu pudesse, meteria os dois, agora, no xadrez.

Embora o amigo estivesse rubro de indignação, o Dr. Pacheco, benevolente, fez uma proposta.

O guarda deixaria, por alguns instantes, o veículo, e seguiria com eles no carro, mantendo vigilância.

Depois do socorro ao doentinho, segui-lo-iam para onde quisesse.

Havia tanta humildade na súplica, que o fiscal concordou, conquanto repetisse asperamente os insultos.

— Aceito — exclamou —, e verificarei por mim mesmo. Ando saturado de vigaristas. E creio que, se estão agindo com mentira, hoje dormirão no Distrito.

A motocicleta foi confiada a um colega de serviço e o homem entrou, seguindo em silêncio.

Rua aqui, esquina acolá, dentro em pouco o carro atingiu modesta residência na Lapa, em S. Paulo.

Os três entram por grande portão e caminham até encontrar esburacado casebre nos fundos.

Mas, ao ver o menino torturado de aflição nos braços de infeliz mulher, o bravo fiscal, com grande assombro dos circunstantes, ficou pálido e com os olhos rasos de água.

O petiz agonizante e a jovem senhora sem recursos eram seu próprio filhinho e a sua própria esposa que ele havia abandonado dois anos antes...

Hilário Silva do livro:
Almas em Desfile de Chico Xavier / Waldo Vieira
Hilário Silva é o pseudônimo de um estudioso e aplicado Espírito por intermédio do Espírito André Luiz, de quem foi parceiro de trabalho e estudo para assistência aos irmãos habitantes das regiões umbralinas. Desde o início de sua participação na divulgação do ideal espírita, Hilário Silva compreendeu a necessidade de renovação que a popularização da Doutrina demanda, exige novas formas de pensamento para apresentar e ensinar os caminhos para transformação justa da vida. Autor de diversas obras ditadas a partir do mundo espiritual, como Almas em Desfile e A Vida Escreve, editadas pela FEB.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O assalto da lisonja

O assalto da lisonja

Hilário Silva


Em sua residência no Méier, Manuel Quintão, que era, ao tempo, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira, recebia a visita de um companheiro que se autobiografava, a cada instante:

– Como você sabe – dizia ele agora –, quando eu fundei a casa espírita a que nos referimos, todos me aplaudiram... Minha conferência foi muito bem comentada... Minha opinião, no assunto, foi um sucesso... Os jornais pediram meu parecer e fiz o que pude pela Doutrina Espírita, com a aprovação de todos...

De quando em quando, mergulhava a ponta do charuto no cinzeiro e continuava:

– Todos estão satisfeitíssimos comigo... Sinto-me plenamente apoiado...

Quintão, depois de ouvir longo tempo, falou sério:

– Sim, meu caro, Deus o conserve assim festejado; entretanto, não nos esqueçamos... A lisonja, em qualquer situação, é uma pedra de tropeço...

O companheiro apanhou-se em falta, ante a delicada observação, e ficou procurando algum ponto no ambiente para não dar a perceber o seu verdadeiro estado de alma.

Vagueando o olhar, notou, em vaso próximo, que linda begônia de Dona Alzira, a dona da casa, estava sendo atacada por enorme lagarta.

Encontrou a motivação que buscava e falou:

– Sem dúvida... (e mostrando a larva) a lisonja em nós é tal qual essa lagarta na planta...

Quintão sorriu, expressivamente, e, fazendo menção de libertar a begônia daquela indesejável presença, disse, com firmeza:

– Meu amigo, o homem não pode evitar o assalto da lisonja, mas aquele que conserva semelhante praga consigo, decerto caminha para a sua própria destruição.


Hilário Silva do livro:
Almas em Desfile de Chico Xavier / Waldo Vieira
Hilário Silva é o pseudônimo de um estudioso e aplicado Espírito por intermédio do Espírito André Luiz, de quem foi parceiro de trabalho e estudo para assistência aos irmãos habitantes das regiões umbralinas. Desde o início de sua participação na divulgação do ideal espírita, Hilário Silva compreendeu a necessidade de renovação que a popularização da Doutrina demanda, exige novas formas de pensamento para apresentar e ensinar os caminhos para transformação justa da vida. Autor de diversas obras ditadas a partir do mundo espiritual, como Almas em Desfile e A Vida Escreve, editadas pela FEB.
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sábado, 17 de janeiro de 2026

Provação

Provação

Hilário Silva



Heitor Pessoa e a esposa, D. Delminda, desde os primeiros dias na cidade eram assíduos frequentadores do templo espírita.

Corretíssimos. Generosos. Entretanto, fora disso, pareciam fechados. Excelentes companheiros na instituição; contudo, na vida particular, eram francamente inacessíveis.

— Muito bons, mas muito orgulhosos.

— Sabem ensinar a fraternidade, mas escorregam mais que os peixes.

Observações como essas eram frequentes.

E como semelhante situação estivesse incomodando, o presidente imaginou um meio de sanar as impressões.

Em cada semana, o culto do Evangelho seria atendido em determinado lar.

Assim, cada residência dos irmãos da agremiação seria aberta ao exercício da fraternidade.

Chegada a ocasião em que lhes caberia o testemunho efetivo, Heitor e senhora tentaram gentilmente esquivar-se, mas a diretoria insistiu e tiveram que abrir as portas.

Na noite indicada, o casal e o único filho, Marcelo, rapaz de nobres feições, atlético e bem posto, fizeram as honras.

A reunião correu encantadora e o texto do Evangelho, “não julgueis para não serdes julgados”, mereceu apontamentos lindos. O cafezinho foi servido carinhosamente, mas, às despedidas, veladas reclamações ouviam-se aqui e ali. Mafra, o presidente, havia perdido a carteira; Antônio Silva sentia falta do relógio; Dona Carlinda ficara sem o broche de ouro e Dona Aurora não pudera localizar a pulseira.

No dia seguinte, porém, Heitor, muito desapontado, visitou os companheiros, um a um, restituindo-lhes os objetos perdidos e explicando que não costumava receber visitas porque tinha o filho ainda desajuizado, em vagaroso tratamento.

Boquiabertos, os amigos compreenderam que o distinto e esquivo casal trazia a provação de um filho, muito sadio de corpo, mas positivamente obsidiado.

Hilário Silva do livro:
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Em livros espíritas

Em livros espíritas

Hilário Silva



— Quero dois mil cruzeiros em livros espíritas!

Era uma jovem senhora no balcão, a fazer o pedido.

Mas o gerente da casa solicitou:

— Faça, por obséquio, a relação.

— Não há necessidade — afirmou a dama —, escolha os melhores e mande ao Dr. Anísio Fortes.

E forneceu o endereço exato.

O chefe do serviço, porém, coçou a cabeça, encabulado.

Aquela moça sorridente a fazer uma compra significativa, assim desacompanhada... A indicação do nome de um médico que ele sabia materialista, embora respeitável...

Não desejava criar um caso entre a instituição que a livraria representava e o clínico referido.

— A senhora está credenciada por ele para fazer a compra?

A cliente sorriu, compreendendo a dificuldade, e, rogando ao diretor de vendas um minuto de atenção, explicou:

— Bem, o senhor não me conhece e devo esclarecer a questão, em meu próprio benefício.

Esboçou na face a expressão silenciosa de quem ouve a própria consciência e continuou:

— Narrando os próprios erros, atendemos à profilaxia necessária contra as nossas imperfeições. Imagine o senhor que, há precisamente quatro anos, cometi falta grave.

Recém-casada, vi meu esposo adoecer sem recursos. Não tendo o apoio de qualquer parente que me pudesse prestar auxílio, aceitei a única oportunidade que me apresentavam, a de zelar pelo asseio no gabinete do Dr. Fortes. Encerar, porém, duas salas e limpar instrumentos e vidros, móveis e vasos asseguravam-me ninharia... O ordenado dava mal para alguns sanduíches. Minha luta crescia. Penhorei o que pude.

Mesmo assim, os débitos aumentavam. Apareceu, entretanto, a grande oportunidade.

Amigos de meu esposo lembraram-me o nome numa prova de habilitação para atendente.

Poderia ingressar, assim, no Serviço Público. Contudo, a preparação de papéis requeria dinheiro. A aquisição de traje novo requeria dinheiro. Vivia na expectativa inquietante, quando, de caminho para o trabalho, encontrei precioso vaso quebrado, sob elegante janela. Fina porcelana estilhaçada. E veio-me ideia estranha. Por que não aproveitar?

Juntei fragmento a fragmento, recompus a peça o quanto me foi possível, adquiri papel fino, adequado a presentes e fiz pequenino volume de bela aparência. Apressei o passo e cheguei mais cedo. Fiz todo o serviço que me competia e, postando-me atrás da porta com o presente numa das mãos, esperei que o Dr. Fortes viesse. Eu sabia que ele chegava de repente, varando a porta à feição de vento tempestuoso. Aconteceu o que previa. O Dr. Fortes empurrou a porta de vaivém com força, e zás!... O embrulho rolou no piso e os cacos com grande ruído deram a impressão perfeita de que a preciosidade se perdera naquela hora. Meu jogo fora certo. O bondoso amigo, cavalheiro corretíssimo, fitou-me consternado...

Como a voz da interlocutora se fizera hesitante, o gerente indagou, interessado:

— E o resto?

— Ante as perguntas do médico, que se supunha responsável pelo desastre, menti que se tratava de uma lembrança que meu marido e eu havíamos adquirido a custos para ofertar a minha irmã, prestes a casar-se... O Dr. Fortes consultou os remanescentes da peça e, homem muito experimentado, avaliou-a pelo justo valor. “Não quero que a senhora tenha qualquer prejuízo” — disse, pesaroso. E, de imediato, sacou do bolso dois mil cruzeiros, entregando-nos a título de indenização, pedindo desculpas. Embora desconcertada, recebi o dinheiro e utilizei-o nas providências que desejava. Concorri ao cargo e consegui nomeação para trabalhar num instituto assistencial. Abandonei minhas antigas atividades. Conquistei salário digno. Depois de algum tempo, buscando auxílio moral na Doutrina Espírita em benefício de meu esposo, tornei-me espírita, igualmente, e compreendi meu erro grave, percebendo que me fiz ladra, através do que podemos chamar uma “falta perfeita”. Procurei, então, o Dr. Fortes e confessei-lhe o meu gesto infeliz. Ele ouviu-me, com simpatia e respeito, mas não concordou com a devolução do dinheiro. Abraçou-me, benevolente, e apenas pediu que eu lhe desse um livro do nosso movimento, à guisa de amostra, desejando conhecer os princípios que me revolviam, assim, o fundo da consciência...

O gerente da livraria, ao vê-la terminar a história, estendeu-lhe a mão, cumprimentando-a e falou, comovido:

— Minha irmã, seu exemplo me obriga a pensar...

A dama pagou a importância fixada, e, quando voltou à livraria, três dias depois, para recolher o certificado de que o médico havia recebido a encomenda, encontrou o gerente, atarefado, preparando um fardo de livros.

— Está vendo? Disse ele à recém-chegada — hoje faço igualmente o meu pacote com mil e duzentos cruzeiros, em livros da nossa Causa, para oferecer a um amigo...

— Como assim? — perguntou a visitante, evidentemente intrigada.

O gerente, contudo, apenas sorriu e falou, entre satisfeito e hesitante:

— Eu também tenho um caso...


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sexta-feira, 25 de agosto de 2023

O telefonema

O telefonema

Hilário Silva

Achava-se Agostinho Pereira de Souza, denodado trabalhador da Doutrina Espírita, no Hospital “Pedro Alcântara”, no Rio, atendendo a confrade que, por mais de duas horas, lhe tomava tempo.

Paciente, Agostinho escutava.

O amigo falava sem pausa, com a mímica de sonâmbulo. Relatórios verbais imensos.

Projetos. Notícias. Petitórios.

Acordando, por fim, para a realidade, e reconhecendo que repetia observações, como disco estragado, disse para o ouvinte bondoso:

— Mas, afinal, Agostinho, como você pode dar conta de tanto trabalho? Estamos ouvindo enfermos gemendo... Decerto você tem muitos deveres e uma longa palestra come horas... É muita gente a bater com a língua nos dentes! Como resolve o problema de tudo atender no momento exato?

— Sim, não foi fácil — replicou Agostinho, com evidente preocupação ante o serviço a fazer. — A princípio, lutei... Tomar tempo dos outros é falta de caridade, mas dizer que uma pessoa é maçante é falta de caridade também. Mas, como tantos homens extremamente ocupados, tive igualmente de dar um jeito. O nosso hospital espírita é uma casa do povo. E a repartição que administra os interesses do povo é a Prefeitura. Sem ferir, assim, a verdade, combinei com um de meus companheiros uma providência que vem dando certo. Quando alguém me absorve o tempo, falando demais, ele vai a um telefone próximo e diz que o serviço da Prefeitura está chamando...

— Ótimo! — exclamou o visitante, mostrando largo sorriso, sem se aperceber de que ele era um dos tais palradores inconscientes.

E já se dispunha a prolongar a conversa, quando o telefone tilintou.

Um servidor da instituição atendeu e, logo em seguida, voltou-se e avisou:

— Senhor Agostinho, o serviço da Prefeitura está chamando...

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quinta-feira, 11 de maio de 2023

O sofrimento alheio

O sofrimento alheio

Hilário Silva

O bonde deslizava em marcha regular, mas Belarmino Cintra, sentado no quinto banco, extravasava desespero.

Parecia não ver os carros que buzinavam, nem o casario em torno, nem circunstantes, nem a chuva garoenta.

Ele só e a excitação.

Ele só e a mágoa.

Aguardava a promoção por onze anos de trabalho correto na repartição e era funcionário a mais de vinte. Esforçara-se, renunciando a facilidades diversas, pensando na melhoria.

No momento exato, porém, a melhoria alcançara outro que, a seu ver, não correspondera.

Indignado, escrevera uma carta ao chefe, ameaçando-o com um inquérito escandaloso, e o chefe chamara-o a gabinete para entendimento pessoal.

Sentia-se desanimado, infeliz.

Era pai de família. Esposa e quatro filhos. Não tinha débitos a solver, mas nenhum vintém no pé-de-meia.

No fim do mês, era sempre a mesma situação. Contas pagas e bolso vazio.

Achava-se, por isso, inconformado, revoltado...

Não suportaria qualquer advertência.

Armara-se. Se o chefe lhe desconsiderasse a atitude, reagiria...

O veículo para por dois longos minutos, esperando por outro no entroncamento. E Belarmino, relanceando os olhos, é quase obrigado a ler uma frase no volume que a senhora míope ergue muito alto, no banco, em frente.

É um livro espírita, em cujo texto ele anota um aviso, letra por letra:

— “Tenha paciência. Fitando o sofrimento alheio, aprendemos a encontrar a felicidade que é nossa.”

Belarmino sente-se como sob ducha fria.

Nisso, no instante exato em que o bonde larga de novo, um homem pesado toma o veículo, a esbofar-se, enxugando o suor, apesar do tempo frio.

Senta-se rente ao escriturário preterido, e, porque um senhor vizinho lhe mostre semblante mais ameno, fala-lhe à queima roupa:

— Vida penosa! Não aguento mais!...

— É, meu caro amigo! — disse o companheiro anônimo — cada qual neste mundo tem sua quota de aflição...

Porque o bonde passasse à frente de um consultório médico em que se via grande número de consulentes esperando vez, o recém-chegado observou:

— Vida boa é de médico! Parece que os clientes lhe trazem a sopa à boca.

O outro, no entanto, discordou:

— O senhor está enganado. Eu sou médico. Estamos presos ao sofrimento humano.

Cada enfermo é um problema. E os cabelos embranquecem ou caem cedo como se tivéssemos um vulcão na cabeça. De minha parte, estou fatigado. Ainda ontem vi minha mãe morrer nos meus braços, devorada pelo câncer, sem que eu lhe pudesse dar outra coisa senão anestésicos.

E num desabafo:

— Vida boa deve ser a de quem possa andar ou viajar livremente, assim como o caixeiro viajante...

O outro, porém, revidou:

— Caixeiro viajante? Não diga isso. Sou viajante comercial há quinze anos... Encontro humilhações por toda parte, separado da família na maior parte do tempo... E, para cúmulo do azar, fui responsabilizado inocentemente por um desfalque de quatrocentos mil cruzeiros... Devedores astuciosos conseguiram envolver-me nisso, sem que eu tenha culpa...

Belarmino queria continuar ouvido, mas uma senhora triste entrou na parada próxima, carregando um pequenino doente. Faixa sanguinolenta envolvia-lhe os olhos.

— Que foi? — dessa vez foi o próprio Cintra quem perguntou, lembrando os filhos.

E a senhora:

— Meu filhinho perdeu os olhos com a explosão de uma bomba.

Belarmino procura consolá-la.

Daí a instantes, o funcionário, transformado, desce e entra no gabinete da chefia.

O diretor recebe-o, evidentemente irritado.

Mas Belarmino fala, humilde:

— Doutor, antes de tudo, quero pedir-lhe desculpas por minha carta violenta e ofensiva...

Eu não tinha razão!

O chefe sorriu, como quem se livrara de um desastre iminente, e falou, alegre:

— Oh! Graças a Deus, você entendeu por fim... As injunções políticas são pedras no caminho... Somos companheiros, Belarmino. Não perca a esperança. A promoção virá breve...

Mas Belarmino sorri também, e roga:

— Doutor, peço-lhe! Não se preocupe comigo! Eu estava perturbado.

E despediu-se tranquilo, para voltar ao trabalho.

Mas, no dia seguinte, o chefe procurou-o, com excelentes informes, e Belarmino contou-lhe a história viva da frase que lera de escantilhão.

Hilário Silva do livro:
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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

A força do exemplo

A força do exemplo

Hilário Silva



José do Espírito Santo, modesto espírita de Nilópolis, Estado do Rio, falava à porta do Centro, a pequeno grupo de amigos:

— Sim, meus irmãos, a caridade é a maior bênção.

Nisso, passam dois estudantes, ouvem breves trechos da palestra e avançam conversando:

— Você ouviu? Todo espírita é só “fachada”!

— Realmente. Fazem as coisas “para inglês ver”.

Logo depois, os rapazes deparam com infeliz mendigo. Pálido e doente. Sem paletó.

Camisa em frangalhos. Pele à mostra.

A tiritar de frio, estende-lhes a mão magra.

Um dos estudantes dá-lhe alguns centavos.

Notam, então, que José do Espírito Santo vem vindo sozinho, pela rua. E um deles diz:

— Olhe! Lá vem o “tal”! Aposto que não dará nada a esse homem.

— Sim. Vamos ver. Afastemos um pouco, senão ele vai querer “fazer cartaz”.

Os dois jovens ficaram escondidos na esquina, um pouco adiante.

O pedinte roga auxílio.

José chega junto dele e o abraça, fraterno.

Em seguida, apalpa os bolsos e exclama:

— Infelizmente, meu amigo, estou sem um níquel...

Os jovens entreolharam-se, rindo... Um deles recorda:

— Não lhe disse?...

O espírita condoeu-se, vendo a nudez do homem que tremia de frio. Deitou um olhar em torno para ver se estava sendo observado. Sentiu a rua deserta.

Num gesto espontâneo, tirou o paletó. Dependurou a peça num portão de residência próxima, arrancou a camisa felpuda e, seminu, vestiu-a no companheiro boquiaberto, mas encantado.

A seguir, após recobrir, à pressa, o busto nu com o paletó, disse com simplicidade:

— Meu amigo, é só isso que tenho hoje. Volte aqui mesmo amanhã.

E estugou o passo para a frente, enquanto o necessitado sorria, feliz.

No outro dia, os dois estudantes estavam no templo espírita, ouvindo a pregação.

Hilário Silva por Chico Xavier do livro:
Almas em desfile

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sexta-feira, 2 de julho de 2021

Não perdoar

Não perdoar 

Hilário Silva 



Bezerra de Menezes, já devotado à Doutrina Espírita, almoçava, certa feita, em casa de Quintino Bocaiúva, o grande republicano. O assunto era o Espiritismo, pelo qual o distinto jornalista passara a interessar-se.

Em meio da conversa, aproxima-se um serviçal e comunica ao dono da casa:

- Doutor, o rapaz do acidente está aí com um policial.

Quintino, que fora surpreendido no gabinete de trabalho com um tiro de raspão, que, por pouco, não lhe atingiu a cabeça, estava indignado com o servidor que inadvertidamente fizera o disparo.

- Manda-o entrar – ordenou o político.

- Doutor – roga o moço preso, em lágrimas -, perdoe o meu erro! Sou pai de dois filhos...

Compadeça-se! Não tinha qualquer má intenção...

Se o senhor me processar, que será de mim? Sua desculpa me livrará! Prometo não mais brincar com armas de fogo! Mudarei de bairro, não incomodarei o senhor...

O notável político, cioso da própria tranquilidade, respondeu:

- De modo algum. Mesmo que o seu ato tenha sido de mera imprudência, não ficará sem punição.

Percebendo que Bezerra se sentia mal, vendo-o assim encolerizado, considerou, à guisa de resposta indireta:

- Bezerra, eu não perdoo, definitivamente não perdoo... chamado nominalmente à questão, o amigo exclamou desapontado:

- Ah! você não perdoa!

Sentindo-se intimamente desaprovado, Quintino falou, irritado:

- Não perdoo erro. E você acha que estou fora do meu direito?

O Dr. Bezerra cruzou os braços com humildade e respondeu:

- Meu amigo, você tem plenamente o direito de não perdoar, contanto que você não erre...

A observação penetrou Quintino como um raio.

O grande político tomou um lenço, enxugou o suor que lhe caía em bagas, tornou à cor natural, e, após refletir alguns momentos, disse ao policial:

- Solte o homem. O caso está liquidado.

E para o moço que mostrava profundo agradecimento:

- Volte ao serviço hoje mesmo, e ajude na copa.

Em seguida, lançou inteligente olhar para Bezerra, e continuou a conversação no ponto em que haviam ficado.

Hilário Silva do livro:
Almas em Desfile de Chico Xavier / Waldo Vieira

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