segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Sonhos, como compreendê-los?

Sonhos, como compreendê-los?

Marlene Nobre / Chico Xavier / Fernando Worm

Folha Espírita de janeiro e julho de 1977



FW (Fernando Worm) - Poderia definir-nos quando um sonho é mera criação do nosso inconsciente, segundo a concepção freudiana, e quando se trata de clara influência ou intervivência com o mundo dos espíritos?

Chico Xavier: Os Benfeitores Espirituais nos explicam que não é fácil estabelecer o ponto de interação na vida de sonho, pelo qual fiquemos conscientizados quanto ao que seja proteção de nosso inconsciente ou mensagem clara do Plano Espiritual. Por enquanto, já que coletivamente não possuímos o necessário adestramento para o trato do assunto, o sonho, na maioria das vezes, é um campo nebuloso de impressões propriamente nossas, registrando, por vezes, quase sempre de maneira simbólica, os avisos e comunicados que os espíritos amigos nos queiram ou nos possam transmitir. Cremos que quando pudermos limpar a nossa mente de ideias e preconceitos, condicionamentos e pontos de vista pessoais, então teremos o pensamento semelhante a um espelho cristalino, habilitado a refletir com a segurança precisa, a palavra ou a imagem que nos são enviadas pelos Amigos da Vida Maior. (janeiro de 1977)

FW - Nas horas de sono físico você faz desdobramentos espirituais frequentes? Lembra-se, depois, do que aconteceu em tais desdobramentos? 

Chico Xavier:  Sei que com o auxílio dos amigos espirituais, tenho muitas experiências em desdobramento, mas, muito raramente, eles me permitem conservar a lembrança do que me ocorre nessas ocasiões. Quando retomo o corpo físico, por momentos rápidos conservo a lembrança intacta de todos os fatos e observações pelos quais tenha passado, fora do corpo físico, mas, num toque magnético que não sei definir, os Benfeitores Espirituais me retiram as reminiscências que eu estimaria conservar, agindo com a minha memória, como quem apaga textos já registrados num gravador comum. Permanece em mim a convicção de ter agido ou estudado fora do corpo físico, mas não retenho detalhe algum, com exceção dos assuntos que os Amigos Espirituais desejam que eu guarde no pensamento. Eles me informam que agem assim comigo para efeito de serviço, diante das muitas responsabilidades que carregam. (julho de 1977)

FW - Voltando a Freud: a Psicanálise cura?

Chico Xavier: Benfeitores Espirituais comumente nos asseveram que a Psicanálise é uma ciência das mais respeitáveis na orientação do comportamento humano, esperando-se, no entanto, que venha a se enriquecer de valores espirituais sempre mais altos para o estabelecimento de motivações nobilitantes para a vida a favor de quantos lhe recorrem à intervenção e aos ensinos. Afirmam, ainda, que aguardam isso, porque não será justo despir a nossa alma de todos os recursos do mundo externo, dos quais nos valemos para angariar os patrimônios da vida imortal do espírito. Cremos que o espírito analisado para deixar todas as crenças ou ideais que haja esposado, mesmo em caráter transitório na existência terrestre, precisa substituir esses mesmos ingredientes de que se vê despojado por outros que lhe garantam a alegria e o interesse de viver. Portanto, acreditamos que um tratamento de saúde, qualquer que seja, deve visar a nossa própria melhoria, no capítulo do bom ânimo e da autoconfiança, afim de que a nossa vida alcance o máximo no rendimento do bem de todos. (janeiro de 1977)

FW - Que falta então à Psicanálise para transformar-se numa ciência
completa?

Chico Xavier: Não temos competência para articular uma resposta à altura da indagação. Cremos apenas que nenhum ser consegue atingir ápices de evolução de um momento para outro. Em cada etapa da nossa jornada para os cimos da vida precisamos de elementos e meios que se nos fazem necessários à aquisição de experiências. Não seria razoável impor de imediato as nossas ideias a um índio recém-chegado da selva, para elevar-lhe a conduta e sim entender-lhe as necessidades e auxiliá-lo a subir para a civilização com os recursos que ele próprio disponha. Cremos que a Psicanálise, unida à reencarnação, mas adotando os processos educativos da reencarnação no espaço e no tempo seria para o mundo de hoje uma realização ideal. (janeiro de 1977)

Marlene Nobre 
do livro Lições de Sabedoria
Nota: O livro Lições de Sabedoria trata-se de uma compilação das entrevistas concedidas por Chico Xavier à Folha Espírita durante a existência deste importante veículo de divulgação da Doutrina Espírita entre abril de 1974 e março de 1997, organizada e publicada por Marlene Nobre.
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domingo, 29 de dezembro de 2024

Servir sem exigir

Servir sem exigir

André Luiz


Despendemos, por vezes, enormes coeficientes de força, tempo e atenção, falando em servir.

E largamos a palavra, certos de que o amor ao próximo se limita às rendas materiais com que costumamos obsequiar a vida física.

Sem dúvida o mérito da assistência às carências do corpo é virtude que não pode ser apreciada em medida terrestre.

Ninguém contestará, no entanto, que até agora, noventa por cem das atividades que se reportam a ela se desenvolvem na base da sobra sem proveito real para os braços que a distribuem.

Além disso, em muitas ocasiões, o ato beneficente se circunscreve ao propósito de fuga pelo qual somos instintivamente impelidos a desembaraçar-nos de quantos se nos apresentam em penúria, cujas condições nos alfinetam a consciência.

Servir será muito mais.

Será viver e conviver com os outros, conhecendo-lhes as fraquezas e imperfeições, quanto reconhecemos nossas imperfeições e fraquezas e auxiliá-los mesmo assim, em padrão idêntico ao anseio de sermos auxiliados.

Normalmente o impulso de quem beneficia a alguém inclui o troco da gratidão.

Servir, contudo, no câmbio espírita que revive o exemplo de Jesus, o Mestre e Servidor, — não espera o menor laivo de agradecimento.

Isso porque o espírita não desconhece o problema da idade espiritual e sabe que pessoas adultas, do ponto de vista das leis fisiológicas, não passam, no íntimo, de crianças ou doentes da alma entaipados na moradia orgânica, a lhe pedirem apoio e afeição, sem o mínimo entendimento do trabalho ou do sacrifício que semelhantes dádivas lhe custem.

Servir, na essência, é amparar o outro no lugar e na situação de necessidade em que o outro esteja sem cogitar nem mesmo da opinião desfavorável que o outro expresse, de vez que nem todo enfermo aceita sem reclamar o remédio que se lhe aplica, não obstante o remédio lhe efetive a cura.

Aprendamos a auxiliar sempre, mas convencidos de que nossos irmãos são consciências por si, não raro sem o mínimo nexo de afinidade com o nosso modo de sentir e de ver.

Apenas nesse molde aproximar-nos-emos da Providência Divina, através do Amor Que Ama Sem Nome, compreendendo, por fim, que a felicidade é servir e passar.

André Luiz por Waldo Vieira do livro:
Sol nas Almas

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sábado, 28 de dezembro de 2024

Conforto

Conforto

Emmanuel


“Se alguém me serve, siga-me.”  - Jesus (João, 12:26)

Frequentemente, as organizações religiosas e mormente as espiritistas, na atualidade, estão repletas de pessoas ansiosas por um conforto.

De fato, a elevada Doutrina dos Espíritos é a divina expressão do Consolador Prometido. Em suas atividades resplendem caminhos novos para o pensamento humano, cheios de profundas consolações para os dias mais duros.

No entanto, é imprescindível ponderar que não será justo querer alguém confortar-se, sem se dar ao trabalho necessário...

Muitos pedem amparo aos mensageiros do plano invisível; mas como recebê-lo, se chegaram ao cúmulo de abandonar-se ao sabor da ventania impetuosa que sopra, de rijo, nos resvaladouros dos caminhos?

Conforto espiritual não é como o pão do mundo, que passa, mecanicamente, de mão em mão, para saciar a fome do corpo, mas, sim, como o Sol, que é o mesmo para todos, penetrando, porém, somente nos lugares onde não se haja feito um reduto fechado para as sombras.

Os discípulos de Jesus podem referir-se às suas necessidades de conforto.

Isso é natural. Todavia, antes disso, necessitam saber se estão servindo ao Mestre e seguindo-o.

O Cristo nunca faltou às suas promessas. Seu reino divino se ergue sobre consolações imortais; mas, para atingi-lo, faz-se necessário seguir-lhe os passos e ninguém ignora qual foi o caminho de Jesus, nas pedras deste mundo.

Emmanuel por Chico Xavier do livro:
Caminho, Verdade e Vida

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Na glória da vida

Na glória da vida

Vianna de Carvalho



Nesta hora em que a aflição campeia no mundo açoitado pelas calamidades morais e sociais do século, o homem bate às portas da fé, sedento de paz e esperança nas promessas de Jesus.

A religião tradicional, porém, encontra-se muito preocupada com os negócios políticos, na disputa dos poderes terrenos para manter a supremacia de seus enunciados, adornada de ouro e joias de alto preço. Não se preocupa com o homem em si mesmo.

A igreja de Martinho Lutero e suas facções dissidentes demoram-se no desespero proselitista, arregimentando números para estatísticas retumbantes e combatendo-se reciprocamente, ou fazendo alianças improcedentes para vencer nos grandes jogos do mundo. Não se pode deter no auxílio do indivíduo.

Os diversos pastores, sobrecarregados de responsabilidades sociais, em nome das igrejas a que pertencem, não dispõem de tempo. Deslizam apressados junto aos fiéis atônitos que lhes seguem os passos, desencantados, mantendo postura de fé, no Templo, e vivendo profanamente no lar, na rua e na oficina de trabalho.

A ciência materialista do século XX alargou os horizontes do mundo e prolongou a vida física sobre o Orbe. Antibióticos poderosos combatem focos de vidas microscópicas, organizadas nos recessos da célula em tarefas de destruição da existência física. As sulfas aniquilam perigosos adversários da saúde. Produtos farmacêuticos surgem diariamente, perseguindo as enfermidades orgânicas. Tuberculose, lepra, sífilis e tantas outras doenças, que dizimavam multidões, pertencerão, em breve, aos horrores do passado. No entanto, com os mesmos valiosos recursos continuam funcionando as máquinas do aborto delituoso, a criminosa eutanásia, o desrespeito à maternidade pela limitação de filhos, através de processos pouco dignos, a câmara de gás...

Os índices de criminalidade, decorrentes do uso da maconha, cocaína e morfina, são alarmantes nos países cristãos com foros de civilidade.

A eletricidade aliada à técnica, em nome do conforto e da comodidade, criou veículos velozes, climas artificiais no reduto doméstico, aparelhos fabulosos de várias utilidades, instrumentos de precisão e outros encurtando as distâncias como o telefone, a televisão, o avião nas suas várias modalidades; radares e sonares que penetram os abismos do ar e das águas anotando objetos estranhos, localizando-os e medindo-lhes o peso, a velocidade e seguindo-os implacáveis.

Todavia, nos recintos superconfortados campeiam perversões de toda ordem, em que o pudor é motivo de desprezo e vergonha; originam-se hediondos crimes passionais e propaga-se a aberração moral em flagrante desprestígio da inteligência e da cultura. As manchetes de jornais apresentam diariamente suicídios nefandos, fatos policiais lamentáveis, levando ao seio das famílias os espetáculos das tragédias que, de cedo, predispõem as mentes infantis ao cinismo e à amoralidade.

Os teleguiados que sondam os céus e as distâncias, oferecendo dados fabulosos aos geofísicos, são constantemente alçados à condição de arma inconsciente de destruição pelos governos apaixonados e dominadores.

...E o homem apenas sonha, transformando a antevisão em terríveis pesadelos.

As grandes lunetas, que a inteligência aponta para os Altos Cimos, mostram as glórias de Deus, apresentam as leis de equilíbrio e falam da grandeza da ordem, apelando para a razão e o sentimento humanos.

Se olham em torno do Sol, deslumbram-se com o seu poder de rei adornado de áulicos obedientes a circularem à sua volta em movimentos harmônicos e gráceis.

Entretanto, o próprio Sol é vassalo de Alcione, em torno da qual preenche, em duzentos e vinte e cinco mil séculos, uma das suas graciosas revoluções. E Alcione é apenas uma das estrelas do grupo das Plêiades, que se compõe de aproximadamente mil astros, dos quais apenas sete podem ser vistos a olho nu.

Tão longe se encontra do homem a grandiosa Alcione que a sua luz demora 715 anos para chegar à vista insignificante da mais poderosa luneta terrestre.

Alfa de Centauro, a mais próxima estrela do homem, dista 4,3 anos-luz.

Sirius, de luz alvinitente, viaja nove anos-luz pelos espaços para oscular a Terra com os seus raios diamantinos.

Aprofundando as observações, fulgura na constelação do Navio, serena e majestosa, a soberba Canopus, com uma luz correspondente a 8.760 sóis, brilhando simultaneamente reunidos, a girar soberana no Infinito.

Apesar da distância incomensurável, Arcturus, estrela dupla de primeira grandeza, na constelação do Boeiro, situada no prolongamento da cauda da Ursa Maior, apresenta singulares e múltiplas variações, brilhando como a mais bela do céu boreal.

Betelgeuse, na constelação do Orion, vale muitos milhares de sóis iguais ao nosso.

A Via-Láctea, que nos serve de berço, ornamenta-se de cem bilhões de estrelas e, perto dela, num arquipélago de bilhões de astros distantes setecentos mil anos-luz, encontra-se Andrômeda, a galáxia deslumbrante...

E muito além das nossas concepções fulguram ilhas interplanetárias, quais a Nébula M-87, distante oito milhões de anos-luz... (1)

Os microscópios eletrônicos, pesquisando o infinitamente pequeno, revelam, na máquina grandiosa que é o corpo humano, dados impressionantes. Num centímetro quadrado de pele humana viva, há cerca de quatro metros de filetes nervosos, mil pontos sensoriais da dor, com mil canais sudoríparos, cinco mil pontos sensíveis, seis milhões de células, vinte e cinco pontos de apalpação, duzentos pontos de percepção da dor, doze pontos sensitivos do frio e um metro de vasos... expressando a sabedoria do Criador na vida organizada. (2)

Além da sua esfera, o homem descobre a Majestade Divina em toda parte e se demora esmagado.

No arcabouço que lhe serve de indumentária para a ascensão da alma nos continuados avatares, encontra a Sabedoria Infinita, tecendo a glória da vida, e permanece angustiado.

A Eletrônica empurra-o para a frente nas pesquisas incessantes.

A Cibernética - como ciência do porvir - abre-lhe as portas para novas conquistas.

Mas, no casulo carnal onde dorme, incessante inquietação interior o aflige e estiola.

Pulsa o coração divino em todo o Universo. Todavia, o homem não tem ouvidos para auscultar a vibração sublime.

Constata que a ciência moderna redescobriu o mundo e o embelezou. No entanto, observa-se escravo da paixão, sendo, por isso mesmo, perturbado e desditoso.

Olha o firmamento com o cérebro incendido de anseios de Liberdade. Mas permanece na Terra, torturado pelos mais comezinhos fenômenos da existência...

É nesse homem, todavia, que os acordes de uma fé racional e pura, consoladora e científica, tangidos pela bondade de Deus, encontram ressonância. Escutando essa harmonia que a Doutrina Espírita lhe dirige, encontra a alegria que lhe falta e a
chave que desvenda todos os mistérios do ser.

Através de processos metafísicos positivos, no Espiritismo, defronta um contingente novo de inquirições e soluções, descerrando a cortina da ficção religiosa para a realidade divina, cujo caminho ainda é Nosso Senhor Jesus Cristo, o Sublime Governador do Orbe terrestre.

Cantam, então, nessa alma renovada, as emoções superiores do espírito em libertação, buscando integrar-se na obra grandiosa do Celeste Pai, glorificando a vida imortal.
Nota: (1 e 2) Os dados apresentados são suscetíveis de alteração, considerando-se as diferenças dos mesmos entre diversos autores. Notas do Autor espiritual.
Vianna de Carvalho por Divaldo Franco do livro:
À Luz do Espiritismo

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