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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Reencarnação, Lei biológica natural

Reencarnação, Lei biológica natural

Marlene Nobre



O princípio da reencarnação é uma consequência natural da lei do progresso porque, com os retornos sucessivos ao plano físico, o Espírito consegue alcançar a perfeição. Desde o seu estágio nos seres unicelulares, até o momento em que deu seus primeiros passos humanos no Planeta, o princípio espiritual percorreu um longo caminho, construindo seus próprios envoltórios, os sutis e o mais denso; mas ainda tem muito que caminhar, até chegar ao estágio conhecido no mundo cristão como angelitude. Embora tenha adquirido faculdades intelectuais muito desenvolvidas, suas conquistas no campo do sentimento são ainda muito insatisfatórias, situando-o mais próximo de sua natureza animal, com o predomínio do egoísmo, em suas atitudes.

Só a conquista do Amor universal, condensando a caridade no seu conceito mais amplo, poderá libertar o ser humano dos grilhões da carne e fazê-lo feliz.

No século XX, tivemos importantes pesquisadores da reencarnação.

Recordemos os nomes de alguns desses pioneiros.

Hamendras Nath Banerjee, professor da Universidade de Rajastan, na índia, investigou cerca de 1.000 casos de reencarnação, tanto em seu país, como nos EUA, contribuindo com seus trabalhos pioneiros para que ela fosse inserida no campo da pesquisa científica.

O engenheiro Hernani Guimarães Andrade, no Brasil, pesquisou 75 casos de reencarnação, publicando oito deles no livro Reencarnação no Brasil e um em Renasceu por Amor.

Ian Stevenson, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Virgínia, EUA, tem cerca de 2.600 casos pesquisados, em vários países. Depois de publicar Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação e Cases of Reincarnation em quatro volumes, em que coletou expressivos casos em diferentes países, lançou, em 1997, dois alentados volumes, cerca de 2.300 páginas, Reincarnation and Biology, abordando, especialmente, Marcas de Nascença e Defeitos Congênitos, os quais vão influir muitíssimo, em futuro próximo, nos novos rumos a serem seguidos pela Ciência Médica. Essa importante obra merece um estudo aprofundado de todos os que se interessam em saber qual o verdadeiro significado da vida na Terra. Lamentamos não poder comentá-la, aqui, mas fica o registro para todos os que desejam aprofundar-se no assunto.

Todos esses trabalhos estão a merecer exames apurados por parte dos que fazem Ciência, para que esta não se restrinja aos acanhados compartimentos reducionistas, incapaz de alçar voos mais altos.

Com os Espíritos Instrutores, no século XX, obtivemos informações detalhadas e únicas em todo o mundo, com relação ao processo reencarnatório.

Dada a impossibilidade de descrevê-lo aqui, recomendamos os livros Missionários da Luz e Entre a Terra e o Céu, de André Luiz.

Vamos oferecer, aqui, muito resumidamente, alguns dados sobre este importante processo: um laço do perispírito liga o reencarnante ao óvulo e, a partir da fecundação, ele recomeça a nova existência; do zigoto ao feto, o ser parte de uma única célula, para a extraordinária complexidade multicelular do recém-nascido, passando, nas primeiras semanas, do desenvolvimento embrionário por todas as etapas principais que atravessou, ao longo da filogênese, repetindo-as: ser unicelular, peixe, anfíbio, réptil, ave, e, finalmente, mamífero superior. Esse fenômeno de recapitulação, para o qual os cientistas não têm uma explicação satisfatória, pode ser compreendido se se admite que algo vinculado ao ser vivo conservou a memória de toda a sua história pregressa e repete-a, de forma resumida, durante a ontogênese. Esse algo, é o Modelo Organizador Biológico (MOB), uma das funções do perispírito. Este, para retornar à Terra, necessita deixar a "matéria" do mundo espiritual, tornando-se mais maleável, adquirindo maior plasticidade. Para a reencarnação, dizem os Instrutores, basta o magnetismo dos pais associado ao forte desejo do Espírito reencarnante; este, uma vez ligado ao óvulo, por laços perispirituais, inicia, na concepção, a modelagem do novo corpo, promovendo, automaticamente, através do MOB, a recapitulação das várias fases pelas quais passou na filogênese, adaptando-se, paulatinamente, à matéria física.

Como vimos, o princípio espiritual construiu o corpo humano e seus envoltórios ao longo de bilhões de anos de evolução: "Desde a ameba, na tépida água do mar, até o homem, vimos lutando, aprendendo e selecionando..." .

Foi uma longa caminhada: "Quantos séculos consumiu (o princípio espiritual) revestindo formas monstruosas, aprimorando-se, aqui e ali, ajudado pela interferência indireta das Inteligências superiores?

Acolheu-se no seio tépido das águas; através dos organismos celulares, que se mantinham e se multiplicavam por cissiparidade.

Em milhares de anos, fez longa viagem na esponja, passando a dominar células autônomas, impondo-lhes o espírito de obediência e de coletividade, na organização primordial dos músculos.

Experimentou longo tempo, antes de ensaiar os alicerces do aparelho nervoso, na medusa, no verme, no batráquio, arrastando-se para emergir do fundo escuro e lodoso das águas, de modo a encetar as experiências primeiras, ao sol do meridiano" .

Na descrição dos Amigos Espirituais, "viajou de simples impulso para a irritabilidade, da irritabilidade para a sensação, da sensação para o instinto, do instinto para a razão". E, nessa viagem fantástica, em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana, construiu o cérebro, órgão sagrado de manifestação da mente.

Segundo essas revelações, publicadas no ano de 1947, o cérebro, no homem, evoluiu de modo a constituir-se em um castelo de três andares, que tem nos lobos frontais, no córtex motor e na medula espinhal, elementos importantes de cada uma dessas estruturas. 

Trata-se de um único cérebro que se divide, porém, em três regiões distintas. No primeiro andar, está o cérebro inicial, repositório dos movimentos instintivos; onde moram hábitos e automatismos. É a sede do Subconsciente. Armazém do passado, localiza-se, aí, o porão da individualidade, onde são arquivadas todas as experiências e registrados os menores fatos da vida.

No segundo andar, está a sede das conquistas atuais, representada pelo córtex motor, zona intermediária entre os lobos frontais e os nervos. Nele, localiza-se o Consciente, a possibilidade de manifestação do ser, no atual momento evolutivo, contando, para isso, com duas ferramentas fundamentais - o esforço e a vontade.

No terceiro andar, localiza-se a parte mais nobre do cérebro, representada pelos lobos frontais. Nele, configura-se o Superconsciente, através do qual chegam os estímulos do futuro, com ênfase para o ideal e a meta superior.

Esse modelo é muito semelhante ao do neurocientista Paul MacLean, que assim se expressava: "Somos obrigados a olhar para nós mesmos e para o mundo através dos olhos de três mentalidades muito diferentes", referindo-se aos três cérebros que havia detectado em suas pesquisas.

O livro de MacLean, The Triune Brain in Evolution, traz uma figura esquemática sobre a evolução do cérebro com a seguinte explicação do autor, em 1968: "Em sua evolução, o cérebro humano expande-se seguindo as linhas de três formações básicas que anatômica e bioquimicamente refletem relacionamento ancestral, respectivamente, com os répteis, mamíferos primitivos e recentes. As três formações estão no encéfalo, constituem os hemisférios cerebrais, e os elementos compreendidos do telencéfalo ao diencéfalo".

Com relação à esquizofrenia, as revelações espirituais afirmam que ela tem origem em perturbações sutis do perispírito, que se traduzem, no corpo físico, em um conjunto de moléstias variáveis e, muitas vezes, indeterminadas. 

Os transtornos mentais, quase na sua totalidade, começam nas consequências de faltas graves que o ser humano pratica, tendo por base a impaciência ou a tristeza. Uma vez instaladas no campo íntimo, essas forças desequilibrantes desintegram a harmonia mental.

Como fica a questão da Consciência, neste início do século XXI?

Com os extraordinários avanços da Física Quântica, fica difícil continuar sustentando que o cérebro nos dá consciência, inteligência, e demais atributos.

Sabe-se, hoje, que o observador é necessário, porque ele converte as ondas de possibilidades, os objetos quânticos, em eventos e objetos reais.

Como lembra o professor Amit Goswami, da Universidade de Oregon, EUA, a Física Quântica trouxe três conceitos revolucionários: "movimento descontínuo, interconectividade não-localizada e, finalmente, somando-se ao conceito de causalidade ascendente da ciência newtoniana normal, o conceito da causalidade descendente a consciência escolhendo entre as possibilidades, o evento real" .

Quando coloca esses três conceitos, o professor Goswami argumenta: "se a consciência é um fenômeno cerebral, obedece à Física Quântica, como a observação consciente de um evento pode causar o colapso da onda de possibilidades levando ao evento real que estamos vendo? A consciência em si é uma possibilidade. Possibilidade não pode causar colapso na possibilidade". Foi raciocinando dessa forma que ele abandonou o pensamento materialista com o qual tinha convivido durante 45 anos e abraçou o espiritualismo.

Como bem assinalou Jean Guitton, com a física quântica: "as interpretações objetivistas e deterministas do Universo, conformes ao bom senso, não se podem manter. Que deveremos admitir no lugar delas? Que a realidade "em si" não existe; que ela depende do modo pelo qual decidimos observá-la; que as entidades elementares que a compõem podem ser uma coisa (uma onda) e ao mesmo tempo outra (uma partícula). E que, de qualquer modo, essa realidade é, num sentido profundo, indeterminada." (Deus e a Ciência, p.9)

Assim, a visão materialista do mundo desvanece-se diante dos nossos olhos.

Entramos, definitivamente, na Era do Espírito. Preparemo-nos para uma espiral vertiginosa de novas descobertas, nunca antes imaginadas por nossos espíritos imperfeitos.

Marlene Nobre
do livro: A Alma da Matéria

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O que é animismo?

O que é animismo?

Marlene Nobre


O termo “animismo” é empregado para designar uma categoria de fenômenos produzidos pela alma, quer dizer, pelo espírito encarnado. No século XIX, Alexandre Aksakof foi quem primeiro enfrentou os opositores das comunicações mediúnicas, que desejavam reduzi-las a uma função do inconsciente do médium, de modo a desprestigiar a tese espírita. Em sua obra granítica de 635 páginas, Animismo e espiritismo, ele responde especialmente ao dr. Hartmann, que havia afirmado em sua obra sobre espiritismo: “a consciência sonambúlica é a fonte única que se oferece às nossas investigações sobre a natureza das manifestações espiríticas intelectuais”. Aksakof (Animismo e espiritismo, Cap. IV, p. 229.) reconhece a existência dos fenômenos que gravitam em torno do médium: 

Proponho designar pela palavra animismo todos os fenômenos intelectuais e físicos que deixam supor uma atividade extracorpórea ou a distância do organismo humano, e mais especialmente todos os fenômenos mediúnicos que podem ser explicados por uma ação que o homem vivo exerce além dos limites do corpo.

No entanto, não deixou de comprovar, ao lado desses, a existência dos fenômenos espiríticos propriamente ditos, produzidos pelos desencarnados. São várias as possibilidades anímicas: a telepatia ou transmissão de pensamento, o desdobramento ou experiência fora do corpo, com suas variantes, quais sejam, o aparecimento de duplos, com ou sem fenômenos de bicorporeidade, avisos no leito de morte, dupla vista ou clarividência, além de comunicações através da escrita, da fala etc. Todos esses fenômenos são importantes e comprovam a natureza do duplo do homem.

Gustave Geley, médico e pesquisador das primeiras décadas do século XX, rebate, tanto quanto Aksakof e Bozzano, a teoria dos que pretendem derrubar a explicação espírita dos fenômenos paranormais, com base na ocorrência dos fatos anímicos. Para ele, a teoria anímica “está contida por inteiro na doutrina espírita, e nem poderia ser separada dela. O chamado animismo não é senão um ramo desta Doutrina [...]”. E ressalta, como os demais pesquisadores: “a conclusão lógica do animismo não é, pois, a negação do espiritismo, antes é o reconhecimento das grandes dificuldades que pode ter para distinguir um fenômeno de origem anímica de outro de origem espírita”. De fato, essa dificuldade existe, conforme veremos ao longo do estudo dos fenômenos.

Embora não tenha utilizado, especificamente, o nome “animismo”, Kardec “considerou a existência de duas ordens de fenômenos” e os estudou em O livro dos médiuns e, especificamente, no capítulo VIII de O livro dos Espíritos.

Mistificação ou animismo?

Em A obsessão e suas máscaras, tive a oportunidade de comentar um caso do livro Nos domínios da mediunidade, mas é importante recordá-lo novamente aqui por ser um exemplo típico de comunicação anímica. Trata-se de uma senhora que buscou a casa espírita para tratamento do que ela julgava ser uma perseguição espiritual.  (Nos Domínios da Mediunidade, Cap. 22)

Na sessão mediúnica, começou a falar como se estivesse dando uma comunicação por incorporação, dizendo-se vítima de um perseguidor que lhe desfere um golpe mortal com uma arma pontiaguda. Quando André Luiz constatou que não havia comunicação de nenhum desencarnado, o assistente Áulus explicou que o fenômeno era de animismo autêntico. Na realidade, segundo o instrutor, a manifestação era decorrência dos próprios sentimentos da senhora em observação. Ela estava por demais arrojada ao pretérito, à vida anterior, de modo que recolhia as impressões deprimentes de que se via possuída, externando-as no meio em que se encontra. A pobre senhora efetua isso quase na posição de perfeita sonâmbula, porquanto se concentra totalmente nessas recordações, como se reunisse todas as energias da memória numa simples ferida, com inteira despreocupação das responsabilidades que a reencarnação atual lhe confere.

Muitos autores batizaram esse fenômeno de “mistificação inconsciente ou subconsciente”. Para Áulus, porém, é uma doente mental que merece carinho, a fim de que se recupere. Na sessão mediúnica, deve ser tratada com a mesma atenção ministrada aos sofredores que se comunicam. A ideia de mistificação talvez impelisse os participantes da reunião à atitude desrespeitosa, diante do seu padecimento moral. Primeiro, é preciso remover o mal, para depois fortificar a vítima na sua própria defesa, lembra o mentor.

Ante a pergunta “podemos considerá-la médium, mesmo assim?”, Áulus respondeu: “Como não? um vaso defeituoso pode ser consertado e restituído ao serviço”. Quanto ao fato mediúnico, o benfeitor comentou: “indiscutivelmente essa mulher existe nela mesma”. Para auxiliá-la, devemos nos abster de designar a sua doença com nomes pomposos, pois, antes, é preciso compreender-lhe a dor.

Esse estado de alma é mais comum do que se pensa, basta lembrar a situação de muitos mendigos, que vestem, na encarnação atual, roupas esburacadas, mas acreditam, com todas as forças de sua fixação mental, que envergam os mesmos mantos de púrpura e ouro de vidas pretéritas, quando, insensíveis e egoístas, gozavam do luxo e dos excessos de toda ordem que a realeza efêmera proporciona.

Em seu campo de experimentação, Kardec (O Livro dos Médiuns, Cap. XIX, item 223.) muitas vezes teve dúvida quanto à natureza da comunicação, porque sabia perfeitamente da existência dessa outra realidade, contida no iceberg do inconsciente, onde o encarnado armazena suas recordações pregressas, e buscou o esclarecimento dos espíritos instrutores:

Desde que o espírito do médium pôde, em existências anteriores, adquirir conhecimentos que esqueceu debaixo do envoltório corporal, mas de que se lembra como espírito, não poderá ele haurir nas profundezas do seu eu próprio as ideias que parecem fora do alcance da sua instrução?

E obteve a seguinte resposta: “isso acontece, frequentemente, no estado de crise sonambúlica, ou extática, porém, ainda uma vez repito, há circunstâncias que não permitem dúvida. Estuda longamente e medita”.

Apesar disso, a comunicação do espírito do médium ainda é considerada um grande tabu nas casas espíritas. Se há algo que tem criado muitos obstáculos nas sessões de intercâmbio é a predominância da tese animista. Mesmo comunicações autênticas têm sido taxadas de anímicas, como podemos acompanhar no livro No mundo maior (Cap. 9). A médium Eulália recebeu a comunicação psicográfica de um médico desencarnado, amigo do grupo espírita que frequenta. Embora seu pensamento não esteja voltado para a mesma frequência de vibração do comunicante, pois não comunga do entusiasmo dele pela Ciência, nem mesmo demonstrou esse interesse em outras existências, é notável a sua boa vontade no desempenho da função mediúnica. Eulália carrega, portanto, uma riqueza que só o trabalho sentido e vivido lhe poderia conferir. Sem ele, é impossível a ascensão às zonas mais altas da vida. Infelizmente, porém, os companheiros de reunião não a veem assim. O resultado é que a comunicação do médico foi rejeitada pela maioria dos participantes da sessão, sob a alegação de que, nela, não fora possível identificar a personalidade do comunicante.

O autor da mensagem espiritual ficou desapontado, argumentando que bastaria aos encarnados ter um pouco de amor pelos enfermos para compreender o que ele queria transmitir. Eulália ouvia as objeções com dolorosa amargura.

Percebendo que as observações poderiam colocar a perder o trabalho da médium, o benfeitor Calderaro foi em seu auxílio, impondo as mãos sobre sua cabeça, impedindo-a de ouvir as referências sem proveito. O mentor encheu os seus lobos frontais – a região mais nobre do cérebro – de intensa luz; com isso, ela passou a ter outros pensamentos, dispôs-se a trabalhar até o fim, a converter as opiniões desanimadoras em mais auxílio, em motivo de energia nova, sem se esquecer de corrigir os próprios defeitos. Enfim, prometeu a si mesma fazer da mediunidade um campo de trabalho, em que aperfeiçoaria cada vez mais os próprios sentimentos.

Esses dois casos lembram a necessidade de se estudar sempre, porque a mediunidade é muito complexa. Ensinam, sobretudo, que não basta ter ilustração superficial, é preciso desenvolver o discernimento em profundidade para que se faça uma análise justa das comunicações. Assim como existe animismo autêntico, que não é reconhecido, há comunicações espirituais legítimas taxadas de anímicas. Na raiz das interpretações errôneas, há sempre excesso de preconceito.

Marlene Nobre do livro:
O Dom da Mediunidade - Um sentido novo para a vida humana, um novo sentido para a humanidade

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terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Mediunismo, mediunidade e especialização

Mediunismo, mediunidade e especialização

Marlene Nobre


Embora seja uma das funções humanas mais primitivas, a mediunidade “somente agora começa a aparecer no conjunto de atributos do homem transcendente”. (1) É natural que seja assim porque ela evolui com o próprio ser. Na longa trajetória “do átomo ao arcanjo”(2), em busca da espiritualidade superior, o espírito vem estagiando, em incontáveis encarnações sucessivas, nos organismos os mais diversos, dos cristais atômicos aos seres pluricelulares, passando por toda a escala zoológica, dos animais irracionais aos homens primitivos e atuais, despojando-se muito lentamente da animalidade grosseira.

Nesse longo trajeto evolutivo, o princípio espiritual ou inteligente vem se individualizando. Hoje, podemos dizer que não se encontra nem mesmo na metade do objetivo a ser alcançado, que é o de atingir o estágio de anjo ou de aperfeiçoamento superior, por isso, é fácil compreender as dificuldades da criatura humana em aceitar o estudo e o exercício da própria faculdade mediúnica. Não se pode esquecer que essa faculdade é neutra e independe de raça, religião e classe social. Na maior parte dos casos, nem mesmo de evolução espiritual. Por isso mesmo, é necessário fazer a distinção entre mediunismo e mediunidade.

Referimo-nos ao mediunismo quando a faculdade é conservada em estado bruto e exercida de modo empírico, sem que o médium se submeta à disciplina conferida pelo estudo e pela reforma íntima, que significa empenho em domar as más inclinações. Sem lapidação da conduta moral, de conformidade com as lições de Jesus, dificilmente a faculdade terá emprego útil. No entanto, ao contrário, o uso do termo “mediunidade” pressupõe a busca de disciplina, alicerçada no estudo construtivo e na aplicação útil, o que significa doação inteiramente gratuita dos dons recebidos da Divina Providência. Por essa razão, “a mediunidade é conferida sem distinção, a fim de que os espíritos possam trazer a luz a todas as camadas, a todas as classes da sociedade, ao pobre como ao rico; aos retos, para os fortificar no bem, aos viciosos, para os corrigir”.(3)

No estudo da mediunidade, é preciso deter-se também na questão da especialidade, pensada como importante momento da própria disciplina necessária ao bom desenvolvimento do médium. Ensina Kardec que esse estudo é necessário não só para os próprios médiuns, mas também para os pesquisadores, que precisam escolher entre os mais aptos. O espírito Sócrates (4) reforça essa necessidade na seguinte passagem:

Limitando-se à sua especialidade o médium pode aprimorá-la e obter bons resultados. [...] não é raro ver-se, infelizmente, médiuns que não se contentam com as faculdades recebidas e aspiram, por amor próprio ou por ambição, possuir faculdades excepcionais, capazes de os tornarem famosos. Essa pretensão lhes tira a mais preciosa qualidade: a de médiuns seguros!

Com Emmanuel (5), reconhecemos que “o homem enciclopédico em faculdade ainda não apareceu, senão em gérmen, nas organizações geniais que raramente surgem na Terra, e temos de considerar que a especialização na tarefa mediúnica é mais que necessária [...]”.

O próprio benfeitor espiritual deu um exemplo muito claro do que é especialização ao médium missionário Chico Xavier, seu tutelado. Segundo testemunhas, o mentor materializou-se, certa feita, na cidade de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais, numa das aparições mais extraordinárias de que se tem notícia: todo revestido de uma túnica brilhante, que tinha à frente, em destaque, marchetada de luz, a constelação do Cruzeiro do Sul. Com a finalidade de dar um recado aos participantes, colocou um ponto final na realização dessas sessões, que contavam também com a doação ectoplásmica de Chico Xavier, porque este deveria concentrar suas energias mediúnicas na recepção de livros, sua missão principal. A especialização em mediunidade é, pois, uma necessidade. Cada médium deverá obedecer aos desígnios do mais alto, de comum acordo com o seu guia e protetor, a fim de descobrir a melhor forma de ser útil e render mais.

Por tudo quanto vimos, cremos muito justa a observação de André Luiz (6):

a mediunidade não requisitará desenvolvimento indiscriminado, mas, sim, antes de tudo, aprimoramento da personalidade mediúnica e nobreza de fins, para que o corpo espiritual, modelando o corpo físico e sustentando-o, possa igualmente erigir-se em filtro leal das esferas Superiores, facilitando a ascensão da Humanidade aos domínios da luz.
Marlene Nobre do livro:
O Dom da Mediunidade - Um sentido novo para a vida humana, um novo sentido para a humanidade

Referências Bibliográficas:

(1) O Consolador, questão n. 388.
(2) O Livro dos Espíritos, questão n. 540.
(3) O Livro dos Médiuns, Cap. XXIV, item 12.
(4) O Livro dos Médiuns, Cap. XVI.
(5) O Consolador, questão n. 388.
(6) Evolução em dois Mundos, Cap.17.

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Livro: O Consolador (Emmanuel por Chico Xavier)
388 – Nos trabalhos mediúnicos temos de considerar, igualmente, os imperativos da especialização?
– O homem do mundo, no círculo de obrigações que lhe competem na vida, deverá sair da generalidade para produzir o útil e o agradável, nas esferas de suas possibilidades individuais.
Em mediunidade, devemos submeter-nos aos mesmos princípios. O homem enciclopédico, em faculdade, ainda não apareceu, senão em gérmen, nas organizações geniais que raramente surgem na Terra e temos de considerar que a mediunidade somente agora começa a aparecer no conjunto de atributos do homem
transcendente.
A especialização na tarefa mediúnica é mais que necessária e somente de sua compreensão poderá nascer a harmonia na grande obra de vulgarização da verdade a realizar.
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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Sonhos, como compreendê-los?

Sonhos, como compreendê-los?

Marlene Nobre / Chico Xavier / Fernando Worm

Folha Espírita de janeiro e julho de 1977



FW (Fernando Worm) - Poderia definir-nos quando um sonho é mera criação do nosso inconsciente, segundo a concepção freudiana, e quando se trata de clara influência ou intervivência com o mundo dos espíritos?

Chico Xavier: Os Benfeitores Espirituais nos explicam que não é fácil estabelecer o ponto de interação na vida de sonho, pelo qual fiquemos conscientizados quanto ao que seja proteção de nosso inconsciente ou mensagem clara do Plano Espiritual. Por enquanto, já que coletivamente não possuímos o necessário adestramento para o trato do assunto, o sonho, na maioria das vezes, é um campo nebuloso de impressões propriamente nossas, registrando, por vezes, quase sempre de maneira simbólica, os avisos e comunicados que os espíritos amigos nos queiram ou nos possam transmitir. Cremos que quando pudermos limpar a nossa mente de ideias e preconceitos, condicionamentos e pontos de vista pessoais, então teremos o pensamento semelhante a um espelho cristalino, habilitado a refletir com a segurança precisa, a palavra ou a imagem que nos são enviadas pelos Amigos da Vida Maior. (janeiro de 1977)

FW - Nas horas de sono físico você faz desdobramentos espirituais frequentes? Lembra-se, depois, do que aconteceu em tais desdobramentos? 

Chico Xavier:  Sei que com o auxílio dos amigos espirituais, tenho muitas experiências em desdobramento, mas, muito raramente, eles me permitem conservar a lembrança do que me ocorre nessas ocasiões. Quando retomo o corpo físico, por momentos rápidos conservo a lembrança intacta de todos os fatos e observações pelos quais tenha passado, fora do corpo físico, mas, num toque magnético que não sei definir, os Benfeitores Espirituais me retiram as reminiscências que eu estimaria conservar, agindo com a minha memória, como quem apaga textos já registrados num gravador comum. Permanece em mim a convicção de ter agido ou estudado fora do corpo físico, mas não retenho detalhe algum, com exceção dos assuntos que os Amigos Espirituais desejam que eu guarde no pensamento. Eles me informam que agem assim comigo para efeito de serviço, diante das muitas responsabilidades que carregam. (julho de 1977)

FW - Voltando a Freud: a Psicanálise cura?

Chico Xavier: Benfeitores Espirituais comumente nos asseveram que a Psicanálise é uma ciência das mais respeitáveis na orientação do comportamento humano, esperando-se, no entanto, que venha a se enriquecer de valores espirituais sempre mais altos para o estabelecimento de motivações nobilitantes para a vida a favor de quantos lhe recorrem à intervenção e aos ensinos. Afirmam, ainda, que aguardam isso, porque não será justo despir a nossa alma de todos os recursos do mundo externo, dos quais nos valemos para angariar os patrimônios da vida imortal do espírito. Cremos que o espírito analisado para deixar todas as crenças ou ideais que haja esposado, mesmo em caráter transitório na existência terrestre, precisa substituir esses mesmos ingredientes de que se vê despojado por outros que lhe garantam a alegria e o interesse de viver. Portanto, acreditamos que um tratamento de saúde, qualquer que seja, deve visar a nossa própria melhoria, no capítulo do bom ânimo e da autoconfiança, afim de que a nossa vida alcance o máximo no rendimento do bem de todos. (janeiro de 1977)

FW - Que falta então à Psicanálise para transformar-se numa ciência
completa?

Chico Xavier: Não temos competência para articular uma resposta à altura da indagação. Cremos apenas que nenhum ser consegue atingir ápices de evolução de um momento para outro. Em cada etapa da nossa jornada para os cimos da vida precisamos de elementos e meios que se nos fazem necessários à aquisição de experiências. Não seria razoável impor de imediato as nossas ideias a um índio recém-chegado da selva, para elevar-lhe a conduta e sim entender-lhe as necessidades e auxiliá-lo a subir para a civilização com os recursos que ele próprio disponha. Cremos que a Psicanálise, unida à reencarnação, mas adotando os processos educativos da reencarnação no espaço e no tempo seria para o mundo de hoje uma realização ideal. (janeiro de 1977)

Marlene Nobre 
do livro Lições de Sabedoria
Nota: O livro Lições de Sabedoria trata-se de uma compilação das entrevistas concedidas por Chico Xavier à Folha Espírita durante a existência deste importante veículo de divulgação da Doutrina Espírita entre abril de 1974 e março de 1997, organizada e publicada por Marlene Nobre.
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domingo, 14 de novembro de 2021

Estresse e espiritualidade

Estresse e espiritualidade

Dra. Marlene Rossi Severino Nobre



Para o grande público, estresse é uma situação psicologicamente agressiva que repercute no corpo. Este, porém, é apenas um dos aspectos do estresse, a sua versão psicossomática, há outros, porém, a serem considerados. Na verdade, o ser humano vive em estado de estresse permanente, bombardeado por fatores estressantes diversos: - físicos, psicoemocionais, e espirituais - que lhe exigem constante adaptação ao mundo que o cerca.

Os fatores estressantes emocionais tanto podem ser tristes, como a morte de um ente querido, o desemprego, quanto felizes, como o sucesso do atleta ou as alegrias do reencontro - todos desencadeiam, do mesmo modo, os mecanismos e as consequências do estresse. O mesmo acontece em relação aos abalos nervosos, como no estado de cólera, medo, etc., assim como frente aos fenômenos físicos nocivos: - frio, calor, fadiga, agentes tóxicos ou infecciosos, jejum, exercícios físicos exagerados, etc.

Na verdade, o estresse é a resposta não específica que o corpo dá a toda demanda que lhe é feita. Ele corresponde à interação entre uma força e a resistência do organismo a esta força. É o complexo agressão-reação.

Se a agressão é ocasionada por uma grande diversidade de fatores, a reação comporta uma parte idêntica, comum a todos os indivíduos, e uma parte própria de cada um, denominada "coping" ou aspecto específico da reação não específica.

A medicina hoje considera a doença como sendo a resultante da agressão mais a reação não específica, mais reação específica. Isto pode ser resumido em estresse mais coping. Desse modo, considera-se a originalidade própria das reações específicas ao agente estressor, superpostas às reações não específicas do estresse, criando a diversidade dos aspectos clínicos.

Em 1936, Hans Selye, descobridor do estresse, publicou os seus primeiros trabalhos sobre o assunto. Em 1950, descreveu a Síndrome Geral de Adaptação - Reação de Alarme, estágio de Resistência e de Exaustão - com seus aspectos bioquímicos e endócrinos, mostrando qual a reação não específica do organismo às agressões do mundo exterior. Para ele, a intensidade da demanda, a duração e a repetição determinam a resposta. E condiciona o bom ou o mau estresse à eficiência ou não da fase de adaptação. Para Selye, todo indivíduo tem um capital de energia biológica diferente e pode consumir suas reservas conforme tenha maus estresses.

Na reação de alarme, a primeira resposta do organismo ao estresse, entra em ação o sistema hipotálamo-simpático-adrenérgico que prepara o organismo para a luta ou fuga. Entram em jogo a adrenalina e a noradrenalina, com isso, há muita produção de glicogênio, taquicardia, respiração acelerada, concentração do sangue nos vasos principais e nos músculos estriados, inibição dos sistemas digestivo, sexual e imunológico. Depois disso, outro sistema vai entrar em jogo, o hipotálamo - hipófiso-suprarrenal com produção de ACTH e corticóides.

Esses sistemas entram em funcionamento na fase de reação e o organismo pode sofrer esgotamento ou entrar na fase de exaustão, tendo como resultado final doença e morte. São inúmeras as doenças de adaptação, entre elas, hipertensão, úlcera, hemorróidas, ataques cardíacos, acidente vascular cerebral, diabetes, enxaqueca, etc.

Hoje, como avanço dos estudos, considera-se o sistema limbo-hipotálamo-hipófiso-suprarrenaliano (LHHS). Através do hipotálamo na zona parvocelular mediana do núcleo paraventricular (NPV), são liberados o CRF, o Fator de liberação corticotrófico (Corticotrophin Releasing Factor) e a Argenina Vasopressina (AVP) - que determinam a liberação de ACTH pela hipófise e esta o cortisol pela suprarrenal.

Com vemos, o estresse está ligado ao centro das emoções no hipotálamo, assim é importante o estudo de fatores como o medo, a raiva, etc, nos seus mecanismos e reações. Assim, quando o indivíduo sente raiva, por exemplo, é como se ele estivesse diante de um predador, de um perigo iminente e isto desencadeia a reação.

Como vimos, cada indivíduo tem uma reação específica frente ao estresse. Ele coloca suas estratégias de ajuste cognitivas e comportamentais, o "coping", para fazer face aos agentes estressores.

As pesquisas têm demonstrado que doenças como depressão estão absolutamente ligadas ao estresse. Investigação ampla, realizada em 52 países, da qual participou o dr. Alvaro Avezum, do Brasil, acerca dos fatores de risco da doença cardíaca, demonstrou que os psico-sociais entram em mais de 30% dos casos.

O estresse é o campo da medicina que reunifica corpo e alma. O seu estudo está, portanto, intimamente ligado à espiritualidade.

Segundo as lições espirituais dadas em 1947, no livro No Mundo Maior, o nosso cérebro tem três áreas distintas: a inicial, onde habita o automatismo e que está no plano subconsciente, a do córtex motor que engloba as conquistas do hoje e está na área do consciente e a dos lobos frontais que representam o ideal e a meta superiores e estão vinculados ao superconsciente. Esta classificação encontra respaldo no livro de Paul Maclean, de 1968, The Triune Brain in Evolution, que nos fala acerca dessas três regiões, afirmando que vemos o mundo através de três cérebros distintos.

Aprendemos também com os Instrutores Espirituais que somos seres em evolução. Quanto mais perto nos encontramos da animalidade mais agimos com instintos e sensações. Com o passar do tempo, e a evolução espiritual consequente, passamos a ter sentimentos, sendo o amor, o mais sublimado deles. 

Se estamos escravizados aos instintos, a maneira pela qual fazemos face aos fatores estressantes é muito primitiva e resulta quase sempre em um mau estresse.

Aprendemos também que é preciso humildade para vencer a animalidade inferior. Infelizmente, porém, em nossas relações em sociedade e no lar estamos muito longe desse sentimento sublime que está intimamente ligado ao amor.

Assim, a fé é importante porque abre as portas do coração para sentir e viver o amor divino em nossas vidas. Através da oração, da meditação, da compreensão do valor da dor, temos a possibilidade de conhecermo-nos a nós mesmos e a reagirmos de forma mais equilibrada às tensões da existência humana. Compreendemos, igualmente, que é preciso treino para o perdão e para eliminação da raiva, da inveja, da mágoa e de outros sentimentos negativos.

A nossa busca da paz para viver no lar, no ambiente de trabalho, dentro da sociedade tem de ser centralizada em Jesus, o Médico da Almas, que afirmou ter a paz verdadeira para nos oferecer. Chico Xavier disse com muita sabedoria: "A paz em nós não resulta de circunstâncias externas e sim da nossa tranquilidade de consciência no dever cumprido." Para vencer positivamente o estresse é preciso guardar a paz, tê-la como patrimônio. E esta pacificação interior que é responsável pelo sucesso do "Coping", só será uma conquista definitiva quando houver harmonia entre os três cérebros. Para isso, no entanto, é imprescindível não esquecer que é preciso fé em Deus e obediência às Suas Leis. 

* Dra. Marlene Nobre é presidente da Associação Médico Espírita do Brasil e Internacional

Dra. Marlene Rossi Severino Nobre. Nascida no interior de São Paulo, em 1937, era viúva do deputado Freitas Nobre. A líder espírita foi fundadora do C. E. Cairbar Schutel, em São Paulo, e da Associação Médico-Espírita (de São Paulo, do Brasil e a Internacional); juntamente com Freitas Nobre fundou também o jornal e a Editora “Folha Espírita”; autora de vários livros. Era membro do Conselho Nacional das Entidades Especializadas da FEB, órgão instalado em 2014.
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