quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O remédio divino

O remédio divino

Richard Simonetti

- Então, dona Idalina, em que posso servi-la?

Lauro, entrevistador do Centro para encaminhamento aos serviços de assistência espiritual, tinha diante de si uma senhora de aproximadamente cinquenta anos, expressão infeliz, como se carregasse sobre os ombros os males do Mundo.

- Vim pedir ajuda. Sinto-me deprimida e angustiada. Impertinentes enfermidades me afligem...

- Foi ao médico?

- Passei por vários. Há meses tomo remédios, inutilmente.

- Tem filhos?

- Três, todos casados.

- E o marido?

- Está bem, embora preocupado comigo. Não tenho queixas dele. É ótimo companheiro. Estaria perdida sem seu apoio... O senhor acredita que estou sob a ação de Espíritos maus?

- Pode ser, mas geralmente as pessoas superestimam essa influência. Nossos males originam-se muito mais de preocupações e tensões a que nos submetemos, favorecendo o esvaimento das energias psíquicas. A partir daí podem surgir enfermidades e perturbações e até mesmo os envolvimentos espirituais.

- Por que o tratamento médico não resolve?

- O médico cuida apenas dos efeitos. Persistindo as causas, renovam-se incessantemente os males.

- O que pode ser feito?

- Uma transfusão de energias magnéticas. Se a pessoa está com anemia pode recompor sua vitalidade recebendo sangue doado. O mesmo ocorre no campo psíquico. Com a boa vontade de doadores, no chamado passe magnético, podemos retemperar as energias psíquicas, recuperando o equilíbrio.

- Qual a minha participação?

- A senhora virá semanalmente às reuniões. Acompanhará atentamente as palestras.

Depois submeter-se-á ao passe, confiando-se à oração.

Assim foi. Durante várias semanas Idalina cumpriu, com a fidelidade dos que sofrem, a prescrição que a ajudaria a superar o sofrimento. Eventualmente voltava a conversar com Lauro:

- Tudo bem, dona Idalina?

- Melhorei um pouco...

- Persevere. Esses problemas são assim mesmo. Não se instalam do dia para a noite, nem desaparecem da noite para o dia. Demandam tempo...

No desdobramento das reuniões a sofredora senhora ouvia as considerações dos expositores, destacando insistentemente a prática da caridade como o remédio ideal para os males humanos. A instituição mantinha vários serviços assistenciais, favorecendo aos frequentadores a possibilidade de pôr em prática os conceitos ouvidos.

Idalina foi conhecê-los. Interessou-se pelo Albergue, onde o atendimento era feito por voluntários. Combinou com o marido e ambos passaram a colaborar, em duas noites por semana.

Passaram-se alguns meses. Sem que se desse conta, de início, seus males foram lentamente desaparecendo. A angústia que a oprimia perdeu espaço em seu coração, todo tomado pela disposição de colaborar nas atividades da instituição.

Algum tempo depois, sorridente e feliz, aproximou-se do atendente:

- Que papelão, hein “seo” Lauro!...

- O que foi, dona Idalina? Fiz algo errado? Penitencio-me desde já...

- Não foi propriamente um erro, mas uma omissão.

- Omissão?!...

- Sim. Omitiu-me o melhor tratamento: o serviço no campo do Bem. Estou tão feliz em servir que já nem me lembro de meus males. Por que não me disse nada?

- É que se eu lhe recomendasse de início, a senhora teria a impressão de que estávamos a cobrar por um benefício. Talvez até o fizesse, mas simplesmente como quem toma um remédio, sem perfeita consciência do significado desse trabalho.

Deixando que a iniciativa fosse sua, com base no conhecimento adquirido, o resultado foi bem melhor. Não acha?

- Tem razão. Compreendo que o serviço em favor do semelhante, muito mais que mero remédio para a Alma, é a chave mágica de nossa felicidade. É impressionante como as mãos, movimentando-se na seara da caridade, desanuviam nossa cabeça e liberam nossas tensões.

E acentuava, eufórica:

- Médicos, psicólogos, psicanalistas, que se cuidem! Quando os pacientes aprenderem a usar essa divina terapia, eles terão que procurar outra profissão!

A Lei suprema de Deus, revelada por Jesus, é o Amor.

Seu primeiro artigo, e único, o define como o empenho de fazer ao semelhante o bem que gostaríamos nos fosse feito.

Todo esforço nesse sentido é precioso treinamento para nossa adequação à vontade do Criador.

Por isso a sabedoria popular consagrou a frase: 

“Quem não vive para servir não serve para viver.”

Poderíamos acrescentar:

“Só vivem em plenitude os que vivem para servir.”

Richard Simonetti do livro:
Encontros e desencontros

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- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Espíritas, meditai

Espíritas, meditai

Cairbar Schutel


Espíritas!

Quem pode sopesar o exato valor do Espiritismo na vida humana?

Doutrina impessoal por não ter fundador.

Espontânea por distanciar-se de serviços remunerados.

Clara por escapar a todo profissionalismo em matéria de fé.

Libertadora por não possuir sacerdócio hierárquico.

Atualizada pela ciência dos homens conjugada aos ensinamentos dos Planos Superiores.

Indestrutível por se elevar de bases imateriais.

Inatacável por dirigida incessantemente sob a inspiração de Jesus e de Suas legiões renovadoras da Humanidade.

Firme por fundamentar-se nas demonstrações e nos fatos.

Contínua por situar-se a cavaleiro de todas as crises planetárias.

A mediunidade que lhe veicula os princípios, qual recurso inestancável no espírito, não pode ser sufocada, tanto quanto seria impraticável a adoção de medidas tendentes a enceguecer todos os homens.

A descoberta de novas "terras do céu" confirmar-lhe-á os postulados, ampliando-lhe todos os horizontes.

O avanço do conhecimento terrestre consolida-lhe o avanço.

A queda desse ou daquele conceito errôneo exalta-lhe as verdades.

À vista disso, compenetrai-vos de vosso elevado ministério à frente da vida.

Não sois espíritas à revelia das circunstâncias.

Vossas testas surgem marcadas por sinais invisíveis, definindo-vos responsabilidades e trabalho.

Vossas vidas são acompanhadas atenciosamente de uma vida mais alta.

Vossos atos cotidianos são anotados com emoção e justiça.

Não há espírita sincero agindo a sós; todos participam naturalmente de equipes intangíveis, empenhadas na atividade constante e redentora.

Sede leais à própria fé.

Muitos de vós trazeis o nome vinculado a obras de regeneração e progresso, devotamento e amor, iniciadas noutras esferas e noutros mundos.

Crêde! A Terra vem alcançando a esperada maturidade espiritual.

Do mesmo modo que Jesus predissera o advento do Espiritismo Consolador, consequentemente o Excelso Mestre anunciara a existência de vós todos — os espíritas de hoje —, construtores do mundo novo, decerto muita vez experimentados pelos ataques das sombras interessadas na perturbação e na decadência, mas vigiados e sustentados pelos Vanguardeiros do Porvir que seguiram adiante de vós a fim de esperar-vos na Vida Eterna.

 Cairbar Schutel por Waldo Vieira do livro:
Seareiros de volta

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Diálogo Diferente

Diálogo Diferente

Camilo



"Pode evocar-se o Espirito de uma pessoa viva?"
"Pode-se, visto que se pode evocar um Espírito encarnado. O Espírito de um vivo também pode, em seus momentos de liberdade, se apresentar sem ser evocado; isto depende da simpatia que tenha pelas pessoas com quem se comunica." (Kardec, Allan - O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 284, pergunta 38)

Não são poucas as vezes em que a misericórdia de acréscimo do Pai Celeste, sob a administração de Jesus, tem consentido e providenciado o atendimento de diversos companheiros necessitados, nas reuniões de socorro aos desencarnados, havendo um dado importante, que em grande número de vezes, não é levado em conta: o de estarem eles ainda encarnados.

Muitos se encontram em estado de tormentos em leitos hospitalares ou mesmo em seus lares, amargando pavores e carências que requerem o auxílio próximo da mediunidade.

Outros, também mantidos em leitos variados, mas. Porque são portadores de mentes mais atiladas, vem rogando amparo e assistência para familiares que lhes são queridos, pelos quais se acham preocupados, ansiosos, temendo pela situação deles após seu desenlace.

Tantos deles guardam concepções grotescas a respeito da morte do corpo e, por essa razão, agarram-se ao veículo físico com sofreguidão, sendo socorridos pelos Enfermeiros do Invisível, nos encontros de mediunidade, até que se possam domar as tensões em que mergulharam, seguindo tranquilos para seu novo amanhã.

Considerando todas essas possibilidades, e tendo-se em conta que os médiuns encarnados são passíveis de filtrarem tanto os companheiros desencarnados quanto os encarnados para tanto destacados, levamos à mente as reflexões a respeito dos processos de doutrinação espiritual através do diálogo fraterno, no esclarecimento em sessão.

Não serão todos os comunicantes que se apresentem, afirmando medo da morte ou afirmando que permanecem no corpo, que deverão ser tomados à conta de desencarnados ignorantes do seu próprio estado. Será necessária a abertura de entendimento para esses casos em que suas afirmativas são reais. Não estão mortos e necessitam de ajuda. Embora tais situações não formem regra, e, sim, exceções, dão-se em maior número de vezes do que se possa imaginar, aqui e ali, mesmo não sendo percebidas pelos doutrinadores.

Dessa maneira, sugere-se aos lidadores do esclarecimento fraterno o desenvolvimento da sensibilidade devida, a fim de lograrem identificar pela conversa, pelos termos exarados, pelas vibrações despedidas do comunicante a possibilidade de uma ou de outra coisa, fugindo da generalização, que tanto mais poderá aturdir o atendido, quanto mais bloqueadas estejam as linhas da percepção do esclarecedor.

Cada sessão mediúnica é uma sessão plenamente distinta uma da outra, não obstante tudo pareça ser a mesma coisa. Toma-se imprescindível não mecanizar, não uniformizar os labores hebdomadários do diálogo socorrista e fraternal.

Cumpre estudar sempre mais, meditar cada vez mais para conseguir captar sutilezas e servir melhor.

Assim, cada tarefeiro encarnado da chamada doutrinação tomar-se-á apto a contribuir sempre mais lucidamente na esfera de trabalhos que o Cristo confiou às nossas mãos ainda limitadas, mas prenhes de boa vontade e disposição.

Camilo por J. Raul Teixeira do livro:
Correnteza de Luz

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domingo, 25 de dezembro de 2022

Natal de Sabina

Natal de Sabina

Francisca Clotilde


I

  NATAL!… A cidade vibra.
  Desde muito anoiteceu.
  Ouvem-se vozes cantando:
  “Hosanas!… Jesus nasceu!…”

  Rodam carros apressados,
  Muitos grupos vão a pé…
  A alegria, em toda parte,
  Traduz esperança e fé.

  Enfeites! Guirlandas! Lojas!…
  Cores de todo matiz…
  Quantas mães falando em Deus!…
  Quanta criança feliz!…

  Estrelas lembram na Altura
  Alampadários em flor
  Descendo em bandos à Terra
  Para uma festa de AMOR.

  Em meio a tanto brilho,
  Quase de rastros no solo,
  Sabina passa na rua
  Com trapos a tiracolo.

  Andrajos cobrem-lhe o corpo;
  Na face desconsolada
  Traz ainda o pó viscoso
  Do leito sobre a calçada.

  Abeira-se de uma casa,
  Pede pão, diz que tem fome,
  Afirma-se fatigada,
  Há dois dias que não come…

  Um senhor enraivecido
  Ataca de rosto em brasa:
  — “ O hospício fica mais longe,
  Afaste-se desta casa…”

  Sabina toma outro rumo,
  Pede bolo à padaria,
  Vem um rapaz e responde
  Com manifesta ironia:

  — “Não vê que está na cachaça?
  Não nota que cambaleia?
  Saia daqui, saia agora!…
  Peça bolo na cadeia!…”

  A pobrezinha se arranca,
  Procura, em travessa ao lado,
  Antiga caixa de esgoto
  Num recanto abandonado.

  Em torno, a cidade brilha,
  Toda envolvida de luz!…
  Deitada no chão de pedra,
  Sabina pensa em JESUS…

II 
  Onde nascera Sabina?
  Vivia, afinal, com quem?
  Era inútil perguntar,
  Ninguém sabia, NINGUÉM…

  Lavava roupa em fazendas,
  Capinava milharais;
  Depois, ficara doente…
  Ninguém a queria mais.

  Tivera um filho, o Antoninho,
  Que lhe fora apoio à vida…
  Morrera aos oito de idade,
  Com febre e tosse comprida.

  Desde a morte do menino,
  Fazia em tudo supor,
  Abatida e desgrenhada,
  Que enlouquecera de dor…

  Era triste, desleixada,
  Andava, de déu em déu,
  Se parava era somente
  A fim de fitar o céu.

  Nessa noite de alegria,
  Embora sem entende-las,
  Enfraquecida e cansada,
  Sabina olhava as estrelas.

  Parecia o firmamento
  Um campo da primavera…
  Onde estaria no Alto
  O filho que Deus lhe dera?

  Em lágrimas, recordava
  O Natal de antigamente,
  O barraco improvisado,
  O bule de café quente…

  Revia, a fel de saudade,
  Os sorrisos de Antoninho,
  Ao despejar-lhe nas mãos
  As dádivas do vizinho…

  Restava-lhe, unicamente,
  Depois do filhinho morto,
  Doença, frio, abandono,
  Sofrimento, desconforto…

III 
  Nisso, alguém lhe surge à frente,
  Homem moço em largo manto,
  Por tudo e em tudo irradia
  Incomparável encanto.

  — “Sabina — falou o estranho —
  Em que pensa, triste assim?
  Não vê que a cidade inteira
  É um luminoso jardim?”

  Ela explica: — “Não, senhor,
  Nada vejo, em derredor,
  Quando é Noite de Natal,
  Meu sofrimento é maior…”

  — “Que quer você? — disse o jovem —
  Dinheiro? Roupas de renda?
  Um tanque para lavar,
  Um milharal de fazenda?!…

  — “Ah! Senhor — clamou a pobre,
  Tremendo na ventania —
  Se o Céu me escutasse agora,
  Nada disso pediria…

  “Como sempre, rogo em prece,
  Enferma e só como estou,
  O filho que Deus me deu
  E a morte me arrebatou…”

  — “Sua oração foi ouvida…” —
  Ele informa, face em luz.
  — “Quem ouço?… — indaga Sabina.
  Ele diz: — “Eu sou JESUS!…”

  Do manto Dele um pequeno
  Sai envolto em doce brilho…
  Clama o garoto: — “MAMÃE!…”
  Sabina grita: — “Ah! meu filho!…”

  Encontro, surpresa, bênção,
  Júbilo imenso depois…
  SABINA beijava o filho,
  JESUS abraçava os dois!…

  Naquelas pedras de rua,
  Que a luz do Céu banha e doura
  Clarões pintavam em prata
  Lembranças da Manjedoura.

  Logo após, os três partiam
  Ouvindo canções ditosas,
  Em nave feita de estrelas
  Emolduradas de rosas.

  Em toda parte, as legendas
  Que o mundo nunca esqueceu:
  — “Glória a Deus!… Paz sobre a Terra!…
  Hosanas!… Jesus nasceu!…”

  No outro dia, cedo ainda,
  Uma senhora na estrada,
  De longe, enxerga Sabina
  Como a dormir, recostada…

  A dama quase supõe
  Na pobre que conhecera
  Um retrato da alegria
  Numa escultura de cera.

  Volta à casa… Traz um caldo,
  Quer saber se a reconforta.
  Chama Sabina, de leve,
  Mas Sabina…estava morta.
Francisca Clotilde por Chico Xavier do livro:
Natal de Sabina
Nota: O livro Natal de Sabina foi composto entremeando textos e imagens representativas, que poderão serem apreciadas consultando o original impresso em papel.
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