sábado, 10 de dezembro de 2022

O Amor

 O Amor

Eros



Porque melhor expressa a grandeza do Pai Criador, o amor é luz.

Onde se manifesta medra a alegria. Ao seu influxo, renovam-se as paisagens da alma, que se colore de esperança e beleza.

Hálito vivificador, sem a sua interferência perece a vida, facultando desgovernos e sombras. Encontra-se em toda a parte, e, mesmo quando ignorado, jaz em gérmen, que se agiganta, ao influxo dos estímulos superiores, fomentando elevação e felicidade. Sendo a treva o resultante da luz ausente, o ódio não passa de reação do amor animal que enlouqueceu...

Equilibrados nas galáxias pela lei de gravidade, os astros repetem, infinitamente, sua própria órbita, em voos incessantes... É o amor de Deus em manifesta grandiosidade. Também circulando em volta umas das outras, as almas que se buscam, o amor nelas constitui a estrela que sustenta em órbita de afinidade os sentimentos de que necessitam. O amor em toda parte e lugar compõe a harmonia em que se exterioriza a suprema perfeição de Nosso Pai Excelso, esperando pela elevação e glória de todos nós.

Eros por Divaldo Franco do livro:
Heranças de Amor

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Definição Inesperada

Definição Inesperada

Irmão X.


Silvério Conde voltara de longa viagem à Europa e aos Estados Unidos e, presente à sessão, no modesto grupo de cultivadores da seara espírita, que frequentava de tempos a tempos, declarou que apresentaria importante relato, mas somente quando João da Mata, um dos colaboradores desencarnados da instituição, estivesse a postos. Razões de reconhecimento e simpatia pessoal. A noite era de socorro aos obsediados e, à face disso, larga fila de doentes se esparramava nos bancos próximos; entretanto, era a única, naquela semana, em que lhe seria possível falar, de modo direto, com o amigo espiritual que viria, caridoso, ao encontro dos enfermos, necessitados de paz e consolação.

Após receber-lhes as saudações fraternas, nos votos de boas vindas, através do médium Celino que lhes emprestava as faculdades, principiou Silvério, entre solene e discreto:

- Irmão João, é justo me entusiasme ao dizer-lhe, tanto quanto aos nossos companheiros, que voltei armado de novos recursos, em matéria de fé. As experiências, que eu tive ocasião de acompanhar em Londres, foram deveras convincentes. Comecei assistindo a preciosas demonstrações de clarividência, em duas das grandes sessões do congresso Espírita Internacional. Médiuns que nada conheciam da Itália identificaram diversos familiares de amigos meus, domiciliados em Roma, desde o berço. Um moço da Dinamarca desatou em lágrimas ao reconhecer-se na presença da própria genitora desencarnada, segundo apontamentos indiscutíveis, fornecidos por uma senhora vidente, junto de todos. Fui apresentado ao Sr. Stuart, honrado presidente da antiga Associação Espiritualista da Grã-Bretanha, que me pôs em contato com vários círculos de fenômenos puros.  Presenciei manifestações de voz direta que me deixaram absolutamente convicto, quanto à sobrevivência. Num grupo particular de Marylebone, onde fui por gentileza de amigos, apertei comovidamente as mãos de um Espírito materializado, que me deu provas irrecusáveis da existência individual, para lá da morte. Desses novos companheiros de ideal dos quais me aproximei, um deles mostrou-me valiosa documentação sobre materializações de Jane Seymour, em antigo palácio inglês. Numerosas pessoas não espíritas dão conta dessas aparições. Perguntando, de minha parte, por que motivo essa entidade voltava com tanta frequência ao ambiente de Hampton Court, contaram-me que a rainha, há tantos anos desencarnada, numa sessão mediúnica realizada em Hampshire alegara pessoalmente que assim procedia por motivos de amor, ao que irmãos outros, já familiarizados com os princípios da reencarnação, acrescentaram que a esposa de Henrique VIII se fizera guardiã espiritual de muitos dos seus velhos afeiçoados, agora renascidos na Inglaterra. As anotações que pude compulsar representam explícito relatório da imortalidade.

Silvério Conde fez uma pausa e indagou do benfeitor:

- Que me diz dessas experiências, irmão João?

- Meu filho – informou o amigo, com a simplicidade que lhe é característica -, rendamos graças a Deus. Você, Silvério, adquiriu alicerces para a fé renovada...

- Isso mesmo, irmão João – tornou Conde -, isso mesmo. Fé renovada é o tesouro de que hoje disponho.

E, notando que o amigo, incorporado ao médium, ia sair da mesa orientadora, para atender aos doentes no fundo da sala, deu-se pressa em acentuar:

- Peço, ainda, permissão para comunicar à nossa casa, em palavras breves, que estive igualmente nos Estados Unidos, onde observei, por felicidade minha, admiráveis fenômenos de efeitos físicos. Materializações, transportes, levitações, desenhos em condições supranormais. Na Carolina do Norte, demorei-me vários dias, alinhando anotações que reputo de incalculável valor. E sabendo que professores da atualidade se dedicam ao reexame de todas as conclusões dos pesquisadores do passado, através da parapsicologia, não me contentei com as manifestações evidentes do Mundo Espiritual pela mediunidade, mas procurei também ouvir, em Nova Iorque, muitos companheiros que se acham ligados ao conjunto de estudiosos da Universidade de Duke, e compreendi que muitos deles já aceitam de modo pleno a interpretação espírita, tendo abandonado para trás os pontos de vista da chamada “percepção extra sensorial”. Em muitos entendimentos, percebi que vários parapsicologistas e metapsiquiatras estão hoje perfeitamente convencidos, com respeito à continuação da vida, além-túmulo, e afirmam, desassombrados, que, no Universo, tão maravilhosamente ordenado, é impossível que as faculdades superiores do homem sejam perdidas a esmo, simplesmente porque o corpo perecível se desfaça no sepulcro, a modo de roupa velha.

Silvério relanceou os olhos pela assembleia interessada e, reparando que o tempo avançava, disse para o benfeitor desencarnado que o ouvia polidamente:

- Em suma, Irmão João, venho transformado. Adquiri a convicção integral que me faltava...

- Sim, meu filho – anuiu o interlocutor com ardente sinceridade a transparecer-lhe da voz -, é preciso aprender, analisar, verificar, anotar... Sem o estudo, a Terra seria uma floresta, e nós, dentro dela, estaríamos na posição de animais em lamentável selvageria.

Estudemos sim, estudemos sempre...

Conde fixou belo sorriso e sublinhou, encantado:

- Oh! irmão João, que alegria! As suas palavras exprimem amorosa compreensão... Sim, sim! Adquiri realmente a fé!...

Tenho agora fé viva...

Nesse ponto da entrevista, o comunicante levantou-se, abraçou Silvério e, tomando a direção dos enfermos, disse-lhe, cortês:

- Então, meu filho, vamos agora ao trabalho!

Conde, algo constrangido, quis lançar delicada escusa, mas, enlaçado por aquelas mãos que se habituara a querer, aquiesceu, sem qualquer reação.

E ali, diante de quarenta e sete irmãos infelizes, alguns extremamente perturbados, ao lado de outros, chagados e tristes, convidou João, sensibilizado:

- Silvério, meu filho, faça uma prece, em favor dos doentes.

O interpelado diligenciou recuar, porquanto, a seu ver, não contava com facilidades quaisquer para a oração em voz alta, mas tomou a palavra, agora titubeante, e exorou a Bênção Divina para os enfermos que o fitavam, esperançosos.

Quando terminou, desajeitado, o amigo espiritual tornou a convocá-lo:

- Agora, meu filho, ajude-me, por obséquio, no serviço de passes. Diversos instrutores da Esfera Superior estão presentes, amparando-nos as tarefas. Aliviemos os nossos irmãos que sofrem...

- Mas, irmão João – ajuntou Silvério, surpreendido -, eu não sei dar passes, nunca dei passes.

- Meu filho – aduziu o benfeitor -, você atualmente é um homem de fé baseada no raciocínio, que é a luz do grande conhecimento. Seu espírito, presentemente, deve ser considerado qual estudante diplomado numa escola superior e o êxito em qualquer atividade nobre, principalmente para quem sabe, depende do começar...

- Entretanto – explodiu Silvério num desabafo respeitoso -, dê-me licença, Irmão João, para perguntar-lhe... Como entende o conhecimento? Que é conhecimento, meu amigo?

O benfeitor espiritual pensou alguns instantes e respondeu, muito calmo:

- Eu acho, meu filho, que o conhecimento é obrigação...

E, depois de expressivo silêncio finalizou, humilde:

- Tem que render...

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Relatos da Vida
 
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Esperança

Esperança

Casimiro Cunha


 

Repara a luz da esperança
Sempre viva, sempre acesa,
Fulgindo sem descansar
Na bênção da Natureza.

A terra aguarda a semente
E a semente a floração.
Para a vitória do fruto
Em graça, beleza e pão.

O ninho da tempestade,
Ante a fúria que o balança,
Espera, silencioso,
Que o céu retorne à bonança,

Pedras aguardam buril
Para brilharem ditosas,
E o charco espera socorro
Para esmaltar-se de rosas.

O inverno rígido e triste,
Embora a engelhar-se, espera
O sol quente e generoso
Que virá na primavera.

Assim, também no caminho,
Se o pó da mágoa te alcança,
Não te mergulhes na queixa,
Nem percas a confiança.

Há vozes da experiência
Na dor que te dilacera...
Diz a vida: "Ama e confia!"
Diz o tempo: “Espera, espera”.

"Para quem cala Deus fala",
Ensina velho rifão.
Espera com Deus, que o tempo
É o mestre do coração.
Casemiro Cunha por Chico Xavier do livro:
Assembleia de Luz

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Conciliações errôneas

Conciliações errôneas

Faure da Rosa

Escolho de difícil remoção à límpida propagação do Espiritismo, conforme as bases sólidas em que o apresentou o apóstolo Allan Kardec, as reminiscências e condicionamentos do obsoleto culto externo das Religiões do passado, constitui pesada canga a ser arrojada fora dos ombros dos novos adeptos do Cristianismo, ora conduzidos pela incorruptível flama da Nova Revelação.

Aferrados, milenarmente, ao impositivo constritor dos dogmas, subjugados pelas expressões dominadoras da idolatria, arraigados ao formalismo avassalante, submetidos às punições e dádivas decorrentes da usança dos sacramentos, não conseguem, seja por acomodação aos hábitos marcantes, seja por preconceito em face das circunstâncias coercitivas, construir, inteiramente, o sublime culto interno à Divindade, sem o penoso trânsito por entre os escombros das ideias antigas, de que mui dificilmente, lobrigam libertar-se.

Aceitam, com relativa facilidade, o intercâmbio dos Espíritos com os homens, assimilam as diretrizes reencarnacionistas, não sentem qualquer pejo na prática da terapia espírita, adentram-se pelo campo da experimentação mediúnica, no entanto, não se liberam dos elos fortes com que se ligam às reminiscências do passado. Supõem não ser negativa a militância nas duas Doutrinas, experimentando conseguir uma neutralidade especial e particular, mediante a qual, se locomovem de uma para outra situação, satisfeitos em ambas, sem considerarem as contradições que engendram com essa atitude, tendo em vista as realidades de conteúdo filosófico, científico, moral e cristão vigentes naquelas confissões religiosas.

O Espiritismo acima de ser mais uma religião, atirada ao campo competitivo das tradições seitistas encarregadas de produzir sectarismo, proselitismo e toda a gama de males desses comportamentos decorrentes, é a Religião, por excelência.

Doutrina racional, elimina os intermediários entre a criatura e o Criador, facultando maturidade a todo aquele que lhe penetra as nascentes poderosas com sede de saber a verdade. Liberta o homem de todas as crendices, responsabilizando-o, conscientemente, por pensamentos, palavras e atos, graças ao conhecimento lógico das legitimidades da Lei Divina. Comprova a Imortalidade, através da comunicabilidade dos desencarnados e leciona Justiça Excelsa, pela informação dos resultados com que cada espírito se apresenta no ato do intercâmbio, relatando as dores ou as bênçãos em que se demora, após o túmulo. Deixa-se dissecar no campo experimental e sobrevive ao sarcasmo como ao cepticismo proposital dos investigadores malsãos ou dos analistas, sistematicamente adversários à indestrutibilidade da consciência depois do fenômeno da morte física. Filosofa com segura argumentação, ajudando com a preciosa chave da reencarnação, a elucidar todos os enigmas humanos do passado, do presente, marchando, com nobre tranquilidade, ao lado do homem do futuro. Moralizadora, não se converte num frio tratado de conveniências sociais, mas se reveste de elevadas conceituações éticas no que incide, seguramente com o Cristianismo que lhe é pedra angular, tomando Jesus o modelo insuperável do homem integral, que todos ambicionamos um dia ser, começando desde hoje a segui-Lo.

Fácil, transparente, seu contexto é puro, não permitindo enxertos que a tomariam corpo esdrúxulo, nem aceitando apêndices que lhe ofereceriam forma exótica, senão, ridícula.

Combatida, sobrepairou às acusações da perfídia que se ocultava por trás dos interesses escusos e ainda agora, antagonizada pelo totalitarismo de toda natureza, porque construtora de homens lúcidos e livres, é a esperança da melhor Humanidade que já se mobiliza na Terra, integrando-se nas suas fileiras.

Os empeços, todavia, aí estão, a multiplicar-se.

Não foi outro o fantasma que ameaçou o Cristianismo nos seus primeiros séculos, que o perturbou com as fundas mutilações que o marcam, dolorosamente. Haja vista o lamentável processus de afirmação histórica das religiões ditas cristãs, fazendo-se um estudo comparativo entre elas e o Evangelho, seus ministros e templos, com Jesus, seus discípulos e o santuário da Natureza onde viveu e pregou.

Cultivando no homem, mantido, quando possível, em ignorância a respeito dos valores reais da vida, o gosto pelo sobrenatural, espetaculoso, fenomenal, miraculoso, ditas religiões, acorrentaram-no aos ferros da mentira, alimentando-o com os vapores da ilusão com que lhe anestesiaram a razão e lhe amorteceram os sentimentos fazendo que gravitasse, desde então, atoleimado ou fanatizado, em inconsciência, em volta de símbolos litúrgicos, promessas, aparências mas não de Deus, nem da vida.

Ante as luminescências da Revelação Espiritual, esse homem inquieto e supersticioso teima em conciliar questões irreconciliáveis com que pretende, em malabarismos espetaculares, atender a Deus e a Mamon.

Toma-se espírita pela crença mas não adquire consciência pelo estudo que é fator iluminativo nas experiências pessoais.

Admite a fluidoterapia e associa-se à transubstanciação da hóstia em corpo de Deus.

Conhece as leis de causa e efeito, porém, submete-se a este ou aquele sacramento para eliminação de tais ou quais pecados, ou, para a conquista de bênçãos.

Participa das sessões de desobsessão e faz-se membro dos “Cursos de Cristandade”, simultaneamente, a fim de estar bem situado no consenso social da última moda, afirmando manter a consciência em paz, não obstante a ausência da reforma moral de dentro para fora, construindo o homem novo...

Aclimatado às visões tradicionais de santos e arcanjos, transfere para as tarefas espíritas o engodo quanto à possibilidade de estar em comunicação direta com as Entidades Excelsas, ridicularizando, por imprevidência, venerandos nomes, que passam a apresentar ridículas teorias e lamentáveis profecias quanto à hora chamada final...

O Espiritismo, porém, sobreviverá límpido e passará à posteridade, salutar, como nos foi legado pelas “Vozes do Céu” e coligiu Allan Kardec. Os Espíritos da Luz, vigiam, e, no momento próprio, interferem como hão feito sempre, até aqui.

Não nos equivoquemos. Reflitamos pausada, demoradamente, nos labores espirituais que nos cabem desenvolver e, libertando-nos em definitivo das couraças das superstições e dos fetiches religiosos, enderecemos ao Senhor nossos puros pensamentos, nossos atos de elevação, evitando tomarmo-nos “pedras de escândalo” ou espalhar escolhos no caminho por onde seguem os pés ativos dos Seus trabalhadores.

(Luanda, Angola, em 21 de agosto de 1971).

Faure da Rosa por Divaldo Franco do livro:
Sol de Esperança

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O Coronel José Augusto FAURE DA ROSA nasceu em Leiria, Portugal, a 16 de novembro de 1879, tendo cursado a Escola do Exército. Foi chefe do Estado Maior do Quartel General do Governo Geral da Índia Portuguesa e exerceu relevantes funções que o notabilizaram. Recebeu inúmeras medalhas pelos serviços prestados à Pátria. Revelou-se excelente escritor, deixando várias Obras de valor. Ao tomar-se espírita, dedicou-se à Doutrina com acendrado amor, tendo sido Presidente da Direção e da Assembleia Geral da Federação Espírita Portuguesa. Dirigiu as Revistas “Espiritismo” e “Mensageiro Espírita”, tendo colaborado eficientemente em “Estudos Psíquicos” que ainda hoje se edita em Lisboa. Dentre as muitas Obras Espíritas deixou: “A Metapsíquica e o Espiritismo à Luz dos Fatos”, “O Além para todas as inteligências”, como diversas comédias que, a seu tempo, foram encenadas no Teatro português. Desencarnou em Lisboa no dia 8 de novembro de 1950.
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