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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Mediunidade e luta

Mediunidade e luta

Irmão X.



Diz você que a mediunidade parece não encontrar recanto entre os homens e, decerto, você argumenta com sobejas razões.

Basta que a criatura evidencie percepções inabituais, entrando em contato com as Inteligências desencarnadas, para que sofra policiamento constante. Examina-se-lhe a ficha social, pede-se-lhe o grau de instrução, analisam-se-lhe os hábitos de leitura e emprestam-se-lhe qualidades imaginárias para que se lhe cataloguem os serviços de intercâmbio no capítulo de fraude inconsciente. E encontrada essa ou aquela brecha naturalmente humana, no conjunto da personalidade medianímica, por mais convincentes hajam sido as demonstrações da vida espiritual por seu intermédio, vê-se marcado o sensitivo à conta de embusteiro confesso.

Sabe-se que as irmãs Fox, pioneiras do Espiritismo, quando em plenitude das forças psíquicas, foram ameaçadas de linchamento, num salão de Rochester, porque distinta comissão de pessoas insuspeitas se manifestou à legitimidade das comunicações de que se faziam intérpretes, e, mais tarde, quando fatigadas da incompreensão e sofrimento se afizeram ao uso de certos aperitivos, como acontece a algumas damas distintas e infelizes da sociedade moderna, foram consideradas ébrias impenitentes, que fraudaram a vida toda.

Convença-se, contudo, de que não é propriamente o médium o objeto da injúria e sim a realidade da sobrevivência além-túmulo, que a maioria dos homens, atolada no egoísmo, não quer aceitar.

Depois de soberbas e irrecusáveis demonstrações da imortalidade da alma, com a chancela de sábios eminentes, nas mais cultas nações do Globo, a ciência terrestre, manobrando inconcebíveis sutilezas de raciocínio, procurou desterrar a Doutrina Espírita e seus areópagos e experimentos, fundando a metapsíquica e a parapsicologia, com o intuito evidente de procrastinar a verdade.

Há mais de um século, doutos pesquisadores, dignos, aliás, do maior respeito, observam médiuns e fenômenos mediúnicos quais cobaias e reações do laboratório, mas, com raras exceções, se inquiridos quanto à existência da alma, esboçam clássico sorriso de superioridade e desprezo.

O que o homem, por enquanto, não deseja absolutamente admitir é a responsabilidade de viver.

Entretanto, isso não é motivo para esmorecimento de nossa parte.

A ideia da imortalidade foi apaixonadamente perseguida em nosso Divino Mestre.

A humanidade pressentiu que Ele trazia a maior mensagem da Vida Eterna, por todos os meios, hostilizou-lhe a presença.

Contemplado à distância, Jesus apareceu como alguém injustamente corrido de toda parte.

Recusado pelas estalagens de Belém, é constrangido a buscas as sombras da estrebaria para nascer. Mal descerra os olhos, é transportado por Maria e José, em demanda do Egito, fugindo à espada de inesperadas humilhações. Detém-se, de retorno, nas alegrias de Nazaré, fruindo a convivência dos familiares mais íntimos, no entanto, em pleno ministério de amor, é escarnecido pelos seus. Qual mestre sem lar, jornadeia de vila em vila, consagrando-se aos sofredores. Ele mesmo registra a dureza de Betsaida e lastima os remoques que lhe são desfechados em Corazim e em Cafarnaum. Em todos os lugares, há quem lhe ironize o trabalho. Encontra por refúgio a casa da Natureza e mobiliza, por tribunas da Boa Nova, pobres barcos de alguns amigos. Após inolvidáveis ações, em que positiva a perpetuidade do espírito, visita Jerusalém, mais uma vez, para o testemunho de fé santificante; contudo, malquisto no Templo, por dizer a verdade, é preso e conduzido ao Sinédrio. Os grandes sacerdotes, tentando turvar-lhe o ânimo, enviam-no a Pilatos para julgamento sub-reptício. O magistrado, entretanto, receando-lhe a força moral, remete-o ao exame de Herodes. Mas este, irônico e matreiro, devolveu-o ao Juiz inseguro que o entrega, então, à ira do populacho que, não sabendo onde mais o coloque, dependura-o no lenho da ignomínia como vulgar malfeitor. Glorificado, volta Jesus, redivido, à intimidade dos homens, mas ainda aí, os principais do templo subornaram soldados e guardiães com dinheiro de contado para desmoralizarem a mensagem da ressurreição do Senhor.

E, no transcurso de quase três séculos, todos os seguidores fiéis do Nazareno, por lhe guardarem o ensinamento puro, foram batidos, vilipendiados, espoliados, caluniados, encarcerados ou lançados às feras, nos espetáculos públicos, até que a política e o profissionalismo religioso escondessem a Divina Revelação na intrincada vestimenta do culto externo.

Como vê, meu caro, a perseguição gratuita a que se refere é de todos os tempos.

Sirvamos, contudo, à realidade do espírito com destemor e seriedade, porquanto a morte é o velho meirinho da grande renovação que não poupa a ninguém.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

No Evangelho Nascente

 No Evangelho Nascente

Irmão X.


Enquanto o Mestre ouvia alguns doentes na intimidade do lar de Simão Pedro, eis que um cavaleiro e duas damas se adiantam a consultá-lo.

Vinham de pontos diversos. Estranhos entre si. Contudo, partilhando a mesma expectativa, permutavam impressões dando-se a conhecer.

O rude pescador de Cafarnaum observava-os, atento.

As ciciantes palavras que trocavam eram realmente chocantes.

Supunham fosse Jesus um feiticeiro vulgar e buscavam-lhe os dons mágicos.

Eliakim, o recém-chegado, era um mercador de olhos astutos que proletava a obtenção de certa propriedade, pertencente a um dos tios que estava a morrer. Tratava-se de uma vinha fecunda, suscetível de aumentar-lhe os bens. Ambicionava-lhe a posse por baixo preço e não se resignaria a perdê-la. Ouvira tantas alusões a Jesus, que não vacilava em rogar-lhe a interferência. No condição de mago eficiente, o Cristo, decerto, lhe facultaria a realização do negócio, sem maior sacrifício. Dea, a mulher mais idosa, trazia assunto mais grave. Pretendia vingar-se de antiga companheira que lhe transviara o marido. Via-se agoniada, infeliz. Preferia a morte à renúncia. Não perdoaria à impostora que lhe deixara o lar deserto. Vinha ao famoso Mestre, suplicar-lhe a intercessão de modo a matá-la. Recompensá-lo-ia dignamente desde que pudesse ver Efraim, o esposo, humilhado aos seus pés. Ruth, a mais nova, passou a expor o caso que a preocupava. Queria casar-se, mas Salatiel, o noivo, parecia esquivar-se. Mostrava-se desinteressado, frio. Esperava que Jesus lhe auxiliasse, infundindo ao homem amado mais intensa afetividade, de vez que o moço ganhava distância, pouco a pouco.

O apóstolo registrava um ou outro apontamento, agastadiço.

Ciente de que o Mestre atendia em sala próxima, demandou o interior e explicou-lhe a situação.

Os consulentes revelavam o maior desrespeito.

Eliakim era um negociante voraz e ambas as mulheres pareciam subjugadas por apetites inferiores.

Jesus meditou alguns instantes e, fixando o discípulo, solicitou, prestimoso:

- Pedro, as tarefas desta hora não me permitem serviços outros. Vai, porém, aos nossos hóspedes e socorre-os, ajudando-me a encontrar o caminho de melhor auxiliá-los.

O pescador voltou à presença dos forasteiros, dispondo-se a escutá-los, em nome do Salvador.

Quando lhes anotou os propósitos de viva voz, enrubesceu, indignado. Levantou-se, trêmulo, e gritou sob forte crise de cólera:

- Malditos! Fora daqui! O Mestre não aceita ladrões e mulheres relapsas!...

Cravando o olhar no comerciante, sentenciou:

- Vai roubar noutra parte! Que a vinha de teus parentes seja o inferno onde te cures da cupidez!

Aos ouvidos de Dea, brandou:

- Assassina! Não somos teus sequazes... Certamente foste abandonada pelo marido em razão das chagas de ódio que te consomem o coração!... Mata como quiseres e deixa-nos em paz.

Em seguida, concentrando a atenção sobre Ruth, que tremia de medo, o apóstolo ordenou:

- Saia daqui, amaldiçoada! A mulher que concorre à posse dos homens não passa de meretriz...

Amedrontados, os três abandonaram o recinto, precipitadamente.

Impulsivo, Simão cerrou com estrépido a porta sobre eles. Ao se voltar, porém, para trás, na atitude de quem triunfara no serviço que lhe coubera fazer, deu com Jesus, que o contemplava tristemente.

Reparando que os olhos do amigo celeste se represavam de lágrimas que não chegavam a cair, o aprendiz, como criança estouvada que se humilha à frente do amor paterno, tentou afagar-lhe as mãos e falou em voz modificada:

- Senhor, porventura não estarás satisfeito? Poderemos, acaso, usar tratamento diverso para com aqueles que nos desfiguram o serviço? Não percebestes que os três se encontram sob o império de espíritos Satânicos?

Jesus acariciou-lhe os ombros, de leve, e respondeu:

- Pedro, todos podem descobrir feridas, onde as feridas se destacam. Contudo, raros sabem remediá-las. Não te solicitei formulasses acusações. Para isso, o mundo está repleto de críticos e censores. Eliakim, efetivamente, traz consigo o gênio perverso da usura. Dea está sob a influência do monstro da vingança e Ruth sofre o assédio de vampiros da carne.

Entretanto, notei que, ao ouvi-los, deste, por tua vez, guarida ao demônio da intolerância e da crueldade. Sombra por sombra, dá sempre um total de treva.

- Senhor, não me recomendaste, porém, socorrê-los?

- Sim – acentou Jesus, melancólico -, mas não te roguei desiludi-los ou desprezá-los.

Pedi me ajudasse a encontrar o caminho do auxílio e, como sabes. Pedro, eu não vim para curar os sãos...

Pesado silêncio invadiu a sala.

E porque o Mestre regressasse aos enfermos, com paciência e humildade, o discípulo mergulhou a cabeça entre as mãos e, olhando para dentro de si mesmo, começou a enxugar as próprias lágrimas.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Definição Inesperada

Definição Inesperada

Irmão X.


Silvério Conde voltara de longa viagem à Europa e aos Estados Unidos e, presente à sessão, no modesto grupo de cultivadores da seara espírita, que frequentava de tempos a tempos, declarou que apresentaria importante relato, mas somente quando João da Mata, um dos colaboradores desencarnados da instituição, estivesse a postos. Razões de reconhecimento e simpatia pessoal. A noite era de socorro aos obsediados e, à face disso, larga fila de doentes se esparramava nos bancos próximos; entretanto, era a única, naquela semana, em que lhe seria possível falar, de modo direto, com o amigo espiritual que viria, caridoso, ao encontro dos enfermos, necessitados de paz e consolação.

Após receber-lhes as saudações fraternas, nos votos de boas vindas, através do médium Celino que lhes emprestava as faculdades, principiou Silvério, entre solene e discreto:

- Irmão João, é justo me entusiasme ao dizer-lhe, tanto quanto aos nossos companheiros, que voltei armado de novos recursos, em matéria de fé. As experiências, que eu tive ocasião de acompanhar em Londres, foram deveras convincentes. Comecei assistindo a preciosas demonstrações de clarividência, em duas das grandes sessões do congresso Espírita Internacional. Médiuns que nada conheciam da Itália identificaram diversos familiares de amigos meus, domiciliados em Roma, desde o berço. Um moço da Dinamarca desatou em lágrimas ao reconhecer-se na presença da própria genitora desencarnada, segundo apontamentos indiscutíveis, fornecidos por uma senhora vidente, junto de todos. Fui apresentado ao Sr. Stuart, honrado presidente da antiga Associação Espiritualista da Grã-Bretanha, que me pôs em contato com vários círculos de fenômenos puros.  Presenciei manifestações de voz direta que me deixaram absolutamente convicto, quanto à sobrevivência. Num grupo particular de Marylebone, onde fui por gentileza de amigos, apertei comovidamente as mãos de um Espírito materializado, que me deu provas irrecusáveis da existência individual, para lá da morte. Desses novos companheiros de ideal dos quais me aproximei, um deles mostrou-me valiosa documentação sobre materializações de Jane Seymour, em antigo palácio inglês. Numerosas pessoas não espíritas dão conta dessas aparições. Perguntando, de minha parte, por que motivo essa entidade voltava com tanta frequência ao ambiente de Hampton Court, contaram-me que a rainha, há tantos anos desencarnada, numa sessão mediúnica realizada em Hampshire alegara pessoalmente que assim procedia por motivos de amor, ao que irmãos outros, já familiarizados com os princípios da reencarnação, acrescentaram que a esposa de Henrique VIII se fizera guardiã espiritual de muitos dos seus velhos afeiçoados, agora renascidos na Inglaterra. As anotações que pude compulsar representam explícito relatório da imortalidade.

Silvério Conde fez uma pausa e indagou do benfeitor:

- Que me diz dessas experiências, irmão João?

- Meu filho – informou o amigo, com a simplicidade que lhe é característica -, rendamos graças a Deus. Você, Silvério, adquiriu alicerces para a fé renovada...

- Isso mesmo, irmão João – tornou Conde -, isso mesmo. Fé renovada é o tesouro de que hoje disponho.

E, notando que o amigo, incorporado ao médium, ia sair da mesa orientadora, para atender aos doentes no fundo da sala, deu-se pressa em acentuar:

- Peço, ainda, permissão para comunicar à nossa casa, em palavras breves, que estive igualmente nos Estados Unidos, onde observei, por felicidade minha, admiráveis fenômenos de efeitos físicos. Materializações, transportes, levitações, desenhos em condições supranormais. Na Carolina do Norte, demorei-me vários dias, alinhando anotações que reputo de incalculável valor. E sabendo que professores da atualidade se dedicam ao reexame de todas as conclusões dos pesquisadores do passado, através da parapsicologia, não me contentei com as manifestações evidentes do Mundo Espiritual pela mediunidade, mas procurei também ouvir, em Nova Iorque, muitos companheiros que se acham ligados ao conjunto de estudiosos da Universidade de Duke, e compreendi que muitos deles já aceitam de modo pleno a interpretação espírita, tendo abandonado para trás os pontos de vista da chamada “percepção extra sensorial”. Em muitos entendimentos, percebi que vários parapsicologistas e metapsiquiatras estão hoje perfeitamente convencidos, com respeito à continuação da vida, além-túmulo, e afirmam, desassombrados, que, no Universo, tão maravilhosamente ordenado, é impossível que as faculdades superiores do homem sejam perdidas a esmo, simplesmente porque o corpo perecível se desfaça no sepulcro, a modo de roupa velha.

Silvério relanceou os olhos pela assembleia interessada e, reparando que o tempo avançava, disse para o benfeitor desencarnado que o ouvia polidamente:

- Em suma, Irmão João, venho transformado. Adquiri a convicção integral que me faltava...

- Sim, meu filho – anuiu o interlocutor com ardente sinceridade a transparecer-lhe da voz -, é preciso aprender, analisar, verificar, anotar... Sem o estudo, a Terra seria uma floresta, e nós, dentro dela, estaríamos na posição de animais em lamentável selvageria.

Estudemos sim, estudemos sempre...

Conde fixou belo sorriso e sublinhou, encantado:

- Oh! irmão João, que alegria! As suas palavras exprimem amorosa compreensão... Sim, sim! Adquiri realmente a fé!...

Tenho agora fé viva...

Nesse ponto da entrevista, o comunicante levantou-se, abraçou Silvério e, tomando a direção dos enfermos, disse-lhe, cortês:

- Então, meu filho, vamos agora ao trabalho!

Conde, algo constrangido, quis lançar delicada escusa, mas, enlaçado por aquelas mãos que se habituara a querer, aquiesceu, sem qualquer reação.

E ali, diante de quarenta e sete irmãos infelizes, alguns extremamente perturbados, ao lado de outros, chagados e tristes, convidou João, sensibilizado:

- Silvério, meu filho, faça uma prece, em favor dos doentes.

O interpelado diligenciou recuar, porquanto, a seu ver, não contava com facilidades quaisquer para a oração em voz alta, mas tomou a palavra, agora titubeante, e exorou a Bênção Divina para os enfermos que o fitavam, esperançosos.

Quando terminou, desajeitado, o amigo espiritual tornou a convocá-lo:

- Agora, meu filho, ajude-me, por obséquio, no serviço de passes. Diversos instrutores da Esfera Superior estão presentes, amparando-nos as tarefas. Aliviemos os nossos irmãos que sofrem...

- Mas, irmão João – ajuntou Silvério, surpreendido -, eu não sei dar passes, nunca dei passes.

- Meu filho – aduziu o benfeitor -, você atualmente é um homem de fé baseada no raciocínio, que é a luz do grande conhecimento. Seu espírito, presentemente, deve ser considerado qual estudante diplomado numa escola superior e o êxito em qualquer atividade nobre, principalmente para quem sabe, depende do começar...

- Entretanto – explodiu Silvério num desabafo respeitoso -, dê-me licença, Irmão João, para perguntar-lhe... Como entende o conhecimento? Que é conhecimento, meu amigo?

O benfeitor espiritual pensou alguns instantes e respondeu, muito calmo:

- Eu acho, meu filho, que o conhecimento é obrigação...

E, depois de expressivo silêncio finalizou, humilde:

- Tem que render...

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
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quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Pergunta no ar

Pergunta no ar

Irmão X.



Tempos depois do regresso de Jesus às Esferas Superiores, transformara-se Pedro, o apóstolo, em Jerusalém, no esteio firme da causa evangélica. Todos os dias, a faina difícil.

Os necessitados de todas as procedências e, com os necessitados, os perseguidores, os adversários, os donos do sarcasmo, os campeões da galhofa e quantos compunham a multidão de obsessos e infelizes.

Simão, ora brando, ora enérgico, servia sempre.

A feição humana do amigo de Jesus era, porém, examinada, sem qualquer compaixão, pelos críticos intransigentes.

Era Pedro fraco ou forte, vaidoso ou humilde, compreensivo ou intolerante?

Nesse clima de diz-que-diz, achava-se Eliaquim, filho de Josias, à procura de ervilhas, em pequeno mercado de verduras, quando se viu à frente de Natan, fariseu letrado e rico da cidade, que passou a inquiri-lo de maneira direta:

- Então, é você agora um cliente daqueles que seguem o Messias?

- Sim – confirmou o interpelado. – Vi-me doente de um dia para o outro, e, além de tudo, despojado de todos os meus bens pela ambição de parentes ingratos... Em terrível penúria, recorri a Simão, que me acolheu...

- Simão Pedro?

- Ele mesmo.

- E, porventura, você se sente tranquilo?

- Como não? Tenho hoje, com ele, um novo lar.

Natan pousou a destra no ombro do amigo e murmurou:

- Eliaquim, francamente não entendo a razão pela qual tantos compatriotas se deixam embair pelas manhas do pescador que se faz de santo. Tenho lido e ouvido algo, acerca do Profeta Nazareno, e não lhe regateio admiração. Mas... Pedro? Um brutamontes mascarado de mestre? Descansei por várias semanas na Galileia, junto ao lago, em cujas bordas andou Jesus ensinando a nova doutrina... E, em torno de Simão, apenas recolhi apontamentos escabrosos. É um poço de prepotência e brutalidade, na forma de um homem. Contam-se dele coisas incríveis. Não se trata unicamente da negação em que se fez conhecido por traidor do próprio Jesus, a quem diz reverenciar. Dizem que foi sempre um modelo completo de crueldade e ingratidão. Mau filho, mau amigo. Alguns companheiros, que pude ouvir mais intimamente, declaram-no viciado e vaidoso. Além de tudo isso, é notório em Jerusalém que ele não tem cultura alguma. Arrasa com as nossas tradições e ensinamentos, quando se expõe a falar em público. O homem abre a boca e o desastre aparece. Confunde Isaías com Jeremias, atribui a David palavras de Moisés. Israelitas distintos, recém-chegados da Grécia, que se puseram a escutá-lo, por respeito a Jesus, retiraram-se daqui escandalizados, segundo me disseram. Que fazem vocês com um ferrabrás dessa ordem? Acaso, não buscam saber se Pedro possui moral bastante e educação suficiente para tratar de encargos de que ousadamente se ocupa?

E porque Eliaquim emudecesse, respeitoso, Natan, insistiu:

- Diga-me, por favor, qual é a sua própria opinião?

O interpelado fitou o poderoso fariseu, demoradamente, e, depois de alguns instantes de expectação, respondeu sem alterar-se:

- Natan, é verdade que Simão é um homem rude, com muitos defeitos, apesar dos tesouros de amor e serviço que derrama do coração, mas... e você, meu amigo? 
Você que possui milhares de livros e estudou ao pé dos sábios de Jerusalém e de Alexandria, você que conhece Roma e Atenas, talvez palmo a palmo, você que é proprietário de fazendas e terras, casas e rebanhos, você que pode ser virtuoso, provavelmente porque não tem nenhuma de nossas necessidades materiais, que faz você, por amor a Deus, em auxílio ao próximo?

Natan fixou um sorriso amarelo, deu de ombros, lançou saliva na terra seca, ergueu a cabeça altiva e afastou-se, enquanto a pergunta ficou no ar.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Médiuns ontem e hoje

Médiuns ontem e hoje

Irmão X.



Decididamente você tem razão quando se reporta à fenolia sutil dos adversários gratuitos do Espiritismo, quando expõem os médiuns da atualidade a toda sorte de injúrias.

- “Basta que alguém se disponha a servir entre as duas esferas, para que lhe amargue a vida que passa, então, a ser criticada e politicada por toda gente”, - afirma você com larga dose de pessimismo.

Entretanto, se meditar demoradamente, cotejando a posição dos médiuns de hoje com os médiuns de ontem, reconhecerá que as dificuldades modernas são simples operações do campo opinativo, resultando sempre em propaganda maior das verdades eternas, enquanto que os entraves do pretérito emolduravam invariavelmente a asfixia da revelação e a morte dos medianeiros.

Há pouco mais de duzentos anos espíritos notáveis, quais Voltaire e Benjamim Franklin já se encontravam no mundo, trabalhando pela libertação mental do povo, todavia, quem nessa época se atreveria a falar na sobrevivência da alma, sem os figurinos teológicos? Quem poderia enunciar conceito mais amplo da fraternidade humana ou referir-se aos fundamentos da evolução?

Perseguidores sistemáticos mantinham-se a postos.

Tudo o que escapasse ao metro estabelecido para os assuntos da fé, transpirava heresia. E desde o Tratado de Paris, em 1229, assinado sobre o sangue dos albigenses, a Inquisição havia nascido para depurar os hereges e acomodá-los às trevas da intolerância.

Quem procurasse enxergar a verdadeira posição de Jesus, quem se propusesse à livre interpretação das letras sagradas, quem admitisse a dignidade individual nas vítimas da escravidão e quem se abalançasse a mostrar faculdades medianímicas era chamado a inquéritos aviltantes, padecendo, de imediato, a segregação em masmorras inacessíveis, sob o capricho delituoso de príncipes e sacerdotes, magistrados e qualificadores inconscientes. E consumada a detenção da criatura infeliz, que se dispunha a pensar por si, começava o suplício lento pelo qual as autoridades caridosas disputavam a Satanás a alma cândida e valorosa que persistia em acreditar na liberdade do pensamento. Iniciava-se o processo condenatório, a preço de confissões extorquidas à fome, quando os instrumentos de martírio não funcionavam em recintos infectos, nos segredos da noite. Encarceravam-se-lhes os parentes, para informes especiais. Arrancavam-se depoimentos de réus contra réus para que as indicações caluniosas alcançassem o objetivo. O ódio começava as sentenças para que o medo as completasse. E estabelecida a suposta criminalidade da vítima, confiscava-se-lhe os bens, que passavam, quase sempre, ao domínio dos delatores, erguidos à condição de profissionais da mentira e da infâmia, com vistas a escusos fins.

Se o condenado era homem, mais depressa era arrancado à cama podre do cárcere para fogueira conveniente, mas se fosse mulher, ampla demora experimentava no calabouço para que se profanassem os sentimentos, pelos aguilhões da necessidade, ou pelo acicate do desespero, antes que fosse entregue ao socorro da morte.

Aos padecimentos físicos e morais, nas celas apertadas e fétidas, acrescentava-se o estigma sobre os descendentes que, fora das grades, era compelidos à exílio certo pelo sarcasmo do populacho e a muitos deles, para que se lhes terrificasse o ânimo, enviava-se, de antros invioláveis, os cabelos e olhos, as orelhas e as mãos, de pessoas queridas, quanto os prisioneiros se extinguiam de dor, sem possibilidade de exibição pública nos solenes autos de fé.

A degradação extrema e o flagelo irremediável constituíam resposta legal a todo impulso de emancipação religiosa, em quase todas as linhas da civilização, somente há dois outros séculos, com os mais celebrados tribunais de tortura, em nome do Cristo, o divino condenado à morte por haver ensinado a paternidade de Deus, a responsabilidade da consciência e o amor puro entre os homens.

Como vê, não precisamos vascolejar o lixo do tempo para descobrir as conquistas da Humanidade e exaltá-las com a nossa admiração.

Não podemos negar que os médiuns da atualidade estão expostos à incompreensão e à ironia de muitos, pois a ignorância é joio habitual na lavoura do progresso, entretanto, a lógica vem subindo de cotação entre os homens e todo intérprete dos desencarnados, no Espiritismo, pode responder com a palavra inarticulada do dever nobremente cumprido às campanhas de insulto e difamação, reconhecendo-se que a criatura humana, não vale simplesmente pelos princípios que exponha, mas, acima de tudo, pela vida que se decida a viver.

Dito isso, meu caro, e para que não nos alonguemos em ociosa argumentação, conduzamos nossa bandeira de imortalidade para diante, oferecendo ao Cristo e ao próximo o melhor de nós mesmos, a cavaleiro da calúnia e da crueldade, por que enquanto o mundo não se houver convertido em Reino de Deus, a boca de maledicência na Terra é como a boca da noite que não se fecha para ninguém.

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sábado, 22 de outubro de 2022

O livro - dádiva do Céu

O livro - dádiva do Céu

Irmão X.



Quando o Divino Mestre, nascituro, abria os braços tenros à luz suave da noite, na estrebaria singela, eis que fulgura no alto sublimada estrela...

E quantos velavam na Terra compreenderam que o Divino Rei havia nascido.

Toda a província Romana da Palestina recebeu, de improviso, na claridade silenciosa, do astro solitário, a esperada revelação.

Sacerdotes e oráculos, políticos e príncipes da Judéia tremeram espantados.

Onde estaria o excelso Embaixador? No templo de Jerusalém ou no domicílio aristocrático de algum dos veneráveis doutores do Sinédrio?

Poderosos dignatários imperiais, nas vilas de repouso da Galileia, empalideceram, surpreendidos.

Em que privilegiado ponto do mundo permaneceria o Celeste Redentor? No palácio de Augusto ou no lar patrício de algum legado importante?

Ricos senhores da Samaria confiaram-se, perturbados, à insônia... Em que região venturosa da Terra teria surgido o Salvador? Em algum santuário do monte ou em abastada propriedade particular?

Negociantes de Cesaréa de Felipe, viajores do extenso vale do Jordão, caravaneiros que vinham da Fenícia, peregrinos de Decápole e todos os homens e mulheres acordados, desde o topo nevado do Hermon até as águas imóveis do Mar Morto, estáticos e felizes, viram a estrela descer vagarosamente, assinalando o berço divino, e os pastores e as crianças, almas simples da natureza, foram os primeiros a descobrir que o Rei Celeste brilhava na manjedoura...

Desde então, Jesus permaneceu vivo entre os homens, ensinando, reajustando, curando, redimindo...

Através de sombras e pesadelos, de calamidades e guerras, em quase vinte séculos de luta, a geografia sentimental do Cristianismo estendeu suas linhas da Palestina Ocidental a todos os círculos do Planeta e a estrela da grande Revelação, personificada hoje na ideia santificadora da fraternidade e da paz, continua luzindo no firmamento das nações, anunciando a Era Nova...

Onde encontraremos o Senhor? Prosseguem perguntando os inumeráveis viajores da vida...

Nos castelos primorosos da fé? Nos monumentos que consagram o domínio exclusivista? Nas cerimônias suntuárias do culto exterior? Nos preciosos discursos da convicção dogmática?

Eis, porém, que a claridade cintilante da ideia conduz o coração que se faz simples e sincero ao Evangelho da Vida e o livro, em seu humilde arcabouço de papel, representa a nova manjedoura, em que realizamos o nosso encontro com o Espírito do Senhor...

Veremos no livro o santuário de nossa ascensão espiritual.

Quando o povo missionário se desvairava na idolatria, O Todo Poderoso salvou-o, com o livro dos Dez Mandamentos, por intermédio de Moisés.

Quando o Mestre Divino veio trazer à Terra as justas diretrizes da redenção, determinou o Todo Compassivo que um livro – O Evangelho da Boa Nova – lhe fixasse a luz.

Quando a civilização se desequilibrava com as tempestades morais, luminosas e destruidoras, da Revolução Francesa, o Todo Sábio amparou o mundo, então no declive de tenebrosos despenhadeiros, oferecendo-lhe o livro dos Espíritos, através de Allan Kardec.

Depois da oração, o livro é a única escada pela qual o Céu pode descer a Terra. 

Em verdade, quando um povo abandona o livro, começa a penetrar, sem perceber, o vale da estagnação e da morte.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Relatos da Vida
 
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Declaração de Origem

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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Elucidando

Elucidando

Irmão X.


Admira-se você de que a Doutrina Espírita recrute, por vezes, criaturas de escassa instrução intelectual, para os seus misteres, e acentua quase sarcástico: - “Porque não aconselham vocês, os desencarnados, mais ampla cultura aos que se proponham ministrar os talentos espíritas? É estranho possa qualquer um ainda mesmo os que até ontem hajam manchado a própria vida com faltas confessas, penetrar-lhe as fileiras e atender-lhe as atividades!...”

E, no mesmo tom, misturando ironia e veemência, você suspira por uma organização primorosamente talhada, em que doutrinadores e médiuns se obriguem a exibir diplomas de especialização acadêmica, a fim de se consagrarem ao socorro dos semelhantes.

Creia que em nossa resposta não vai a mínima dose de menosprezo ao doutorado terrestre, nem julgue desconheçamos o valor de companheiros ilustres que militam no campo do Espiritismo.

São eles professores distintos, médicos respeitáveis, advogados e engenheiros, administradores e industriais. Surgem, prestimosos e dignos dos mais altos ministérios da vida pública, dos santuários da educação, dos quartéis da ordem, dos caminhos da arte e dos círculos da finança...

Entretanto, porque isso aconteça, não podemos esquecer que a Doutrina Espírita, revivendo o Evangelho, é o Cristianismo em ação por instituto de todos.

E o Cristianismo, exaltando embora a grandeza do cérebro, fala primeiramente às forças do coração.

Nesse sentido, recorde você, versado qual se mostra em letras sagradas, a atitude do Cristo nos alicerces da Boa Nova.

Lembrar-se-á, facilmente, de que o Senhor procurou, no início do apostolado, os doutores do Templo para entregar-lhes à ideação fulgurante aos tesouros do amor de que se fazia intérprete.

Decerto que os preclaros rabinos entraram em longas cogitações, acerca da verdade que lhes ouviam da boca, e tudo indica que o mestre esperou quase vinte anos pelos maiorais de Israel, todos eles chumbados ao vale da indecisão.

Entretanto, porque o demorado concurso não viesse da inteligência aperfeiçoada, procurou demandar o coração generoso. E vêmo-lo desistir da aristocrática hierosolimita para buscar a humildade dos Galileus.

Entende-se, então, com os espíritos simples, totalmente arredados da casuística, indenes de preconceitos sociais e dúvidas filosóficas.

Pretendia a libertação do povo cativo às trevas do mal e, por isso, importava, antes de tudo, o bem puro a fazer.

É assim que ergue da ignorância e do anonimato o rude agente de impostos que seria mais tarde o evangelista Mateus; o temperamento agressivo de Simão Pedro, que se transforma em timoneiro da fé; o bisonhice de Tiago, filho de Zebedeu, que se converteu em heroísmo na resistência moral, e a juventude ingênua de João, que se faz patrimônio de luz para a Humanidade.

Ele, que honorificou a mulher, integrando-a no respeito devido, não tem o beneplácito das herdeiras de Ester, a sobrinha de Mardoqueu que obteve perdão de Assuero para os judeus perseguidos, ou o destemor das sucessoras de Judite, a viúva famosa, que defendeu a raça hebreia, na luta contra os generais de Nabucodonosor, todas elas irrepreensíveis e imaculadas no fausto de vivendas floridas e suntuosas; mas encontra na pobre filha de Magdala, obsediada de sete gênios infernais, a mensageira da ressurreição, e nas mulheres sem nome, de Jerusalém, as companheiras fiéis de sua dor sob a cruz da morte, endereçando à posteridade Cristã o testemunho da compaixão feminina.

No quadro de Jesus, meu amigo, não falta nem mesmo Judas, o negociante que aspirava a ser bom, recebido por Ele com extremado carinho, mas que subitamente se vê sem forças para segui-lo, com a pureza de amor da primeira hora.

Como vê, a cooperação popular nas obras do Espiritismo não é assunto novo para quem se dedique ao exame do Testamento Divino.

Em problemas de espírito, nem sempre avançam na dianteira os que se vinculam à eminência no mundo.

E esteja convicto de que, se ao nosso lado respiram muitas almas, inclusive o pobre escriba desencarnado que lhe escreve esta carta, que até ontem mancharam a própria vida com faltas confessas, segundo a sua expressão feliz, é porque os chamados puros da Terra, quase sempre, no estojo tranquilo da suposta virtude, se recebem o apelo ao suor e à aflição, em serviço dos outros, raramente se animam a responder.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Relatos da Vida
 
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