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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Sugestão e persuasão

Sugestão e persuasão

Deolindo Amorim



Embora estejam bem próximas nos resultados, sugestão e persuasão usam processos diferentes. É verdade que muitas pessoas reagem a qualquer forma de sugestão, como também não se deixam influenciar por argumentos persuasivos. Em grande parte, porém, o que a experiência bem demonstra, o elemento realmente sugestionável obedece à ordem do operador, como no caso específico da sugestão hipnótica. Mas ORDENAR e PERSUADIR são operações diferentes. Uma e outra podem ser praticadas para o Bem ou para o Mal, dependendo naturalmente do fim que se tenha em vista. É um problema de ordem ética ou de consciência. Escrúpulo moral, enfim. Independentemente da sugestão hipnótica, que exige técnica apropriada e muita segurança no terreno, há outras formas de sugestão, até mesmo na vida cotidiana.

Há pessoas, por exemplo, que têm muita autoridade sobre outras por força de amizade ou admiração exagerada, senão às vezes também por atrativos pessoais. Pela convivência constante, o elemento que é sempre admirado ou exaltado como ídolo passa a exercer uma influência fora do comum, e, progressivamente, essa influência transforma-se em poder sugestivo absorvente. Daí por diante, aquele que se deixou influenciar demais chega a um ponto em que não tem vontade, já não é mais dono de si, como se diz, pois fica dependendo do outro em quase tudo. E quantos, ainda mais, ficam sugestionados por um discurso empolgante ou comovente! Por outro lado, há muitos casos de sugestão coletiva.

Já ouvi contar (não sei se é verídica) a história de um comandante que, nas horas mais difíceis da luta, quando notava que os soldados estavam ficando desanimados, mandava que a banda de música tocasse um dobrado forte, desses dobrados arrebatadores, dava um grito de encorajamento e levava a tropa de um ímpeto, como se estivesse eletrizada. E não é uma forma de sugestão? Certamente que sim. A música vibrante ou marcial era um recurso emocional para sacudir, enquanto a voz imperativa do chefe, já pela sua autoridade, já pelas vibrações de que se impregnou a decisão, imprimiu uma expressão sugestiva, e, portanto, dominadora.

A sugestão chega de um impacto e geralmente contagia não apenas um indivíduo, mas o grupo inteiro. Há inúmeras experiências, anotadas na própria convivência do dia a dia. E por que não pensar também nos casos de sugestão de origem espiritual, se o elemento desencarnado sabe muito bem aproveitar certas disposições e tendências humanas? A sugestão de um Espírito, desde que encontre facilidade no encarnado, transforma-se em ideia fixa no decorrer de algum tempo. As observações neste campo oferecem alguns dados de referência para estudos sérios, não há dúvida. Se alguém, suponhamos, tem inclinações para “revelações” deslumbrantes, vai a uma sessão mediúnica e lhe dizem lá que o seu passado é muito ilustre ou lhe incutem a ideia de que já fora nobre ou tivera “sangue azul” em existência anterior, e se a ideia for realmente absorvida ou incorporada à vida mental, naturalmente vai influir, aos poucos, no procedimento, devido às repercussões na própria personalidade. A criatura começa a sentir-se outra, às vezes até com a postura de um nobre ou aristocrata dos velhos tempos. Certas “revelações” de caráter pessoal têm muito poder sugestivo.

Quem, afinal, já estudou bem a Doutrina e já fez reflexões profundas não tem preocupações com o que teria ou poderia ter sido noutras existências, mas procura esclarecer-se na vida presente, preparando um futuro melhor a fim de evitar, certamente, uma experiência reencarnatória mais difícil ou penosa. Cada qual, em sua intimidade, ao observar as circunstâncias de sua vida, e se já tem noções claras acerca da reencarnação, mais ou menos calcula que tipo de vida tivera no passado. Mas é autoexame ou inferência muito subjetiva, não é assunto para revelações e muito menos para publicidade. Claro que há comunicações e fatos pelos quais nós aceitamos comprovações reencarnatórias. Mas o que não é aconselhável, segundo o ensino espírita, é o desejo sempre insatisfeito de estar em volta de médiuns para saber do passado ou “descobrir” alguma encarnação anterior, com brasões ou grandeza do mundo. Se alguém, lá em suas cogitações, tem a desconfiança de que já foi príncipe ou rei em passado longínquo, então guarde a desconfiança para seu governo e procure ser cada vez mais humilde, agora, a fim de eliminar os resíduos espirituais de orgulho ou de glórias terrenas. Se vier a supor, ou imaginar, que já foi tirano, um mandatário cruel, cuide logo de cultivar a bondade, tomando-se brando nas palavras e nos atos, a fim de aproveitar bem a existência atual. Não temos necessidade, porém, de viver preocupados com as nossas existências anteriores, pedindo comunicações aqui, ali, ou tentar obter alguma “revelação” de interesse puramente particular. A ideia constante de receber uma “revelação” sobre o passado pode transformar-se em sugestão, às vezes de efeito perturbador.

Há outra modalidade sugestiva, muitas e muitas vezes observada em sessões de desenvolvimento mediúnico. Quando, depois de algum tempo, o candidato a médium, o que vai à mesa de experiência e nada recebe, começa a querer desistir, o dirigente da sessão passa a exortá-lo, não como censura, mas com a boa intenção de fazê-lo um médium da casa em pouco tempo:

— Vamos, meu irmão! Você vai receber! A entidade está aí! Dê passividade!

Ora, aos poucos a palavra do dirigente transforma-se em sugestão. E o iniciante, naturalmente para sair de uma situação vexatória, vai repetindo expressões usuais:

— A paz de Deus esteja com todos.

— Meus irmãos, muita fé e muita caridade.

E assim por diante...

Vemos, por aí, quantos problemas o quadro geral de sugestão coloca em nossa frente a exigir, sem dúvida nenhuma, estudo e meditação.

Cabe aqui, ainda, uma referência à sugestão hipnótica, embora de passagem, apesar da bibliografia que já existe sobre o assunto. Entretanto, além dos depoimentos já divulgados em livros, jornais e revistas, há muitas observações pessoais, com aspectos bem relevantes. Seja como for, a sugestão é um campo complexo e, por isso mesmo, exige técnica apropriada, muita segurança no terreno e, acima de tudo, muita consciência de responsabilidade. Ninguém, pois, deve tentar a hipnose a esmo ou por brincadeira, pois é uma faixa experimental das mais delicadas, não é um espetáculo nem um domínio livre, aberto à curiosidade vulgar. Nos trabalhos de hipnose, como se sabe, o operador assume a bem dizer uma posição de comando perante o paciente, pois dá ordem, quando o paciente já está devidamente preparado, e este obedece. Também já se sabe que há pacientes refratários a qualquer interferência sugestiva. Muitos, portanto, obedecem mas há os que não o fazem pois nem todos são hipnotizáveis. Todavia, a influência sugestiva muitas vezes chega a ser total, porque domina por completo. Cada paciente, no entanto, é um mundo em si, tem suas reações próprias e organização psíquica mais sujeita ou menos sujeita a certas ordens. Isto quer dizer que, como demonstra a própria experiência, existem tipos vulneráveis e tipos invulneráveis, impenetráveis.

Decorre dai, naturalmente, a classificação de duas categorias de pacientes: 1ª) os que são realmente passíveis de influência externa, ainda que seja avassaladora ou absorvente; e 2ª) os que não abrem mão de sua faculdade crítica, não perdem a noção de livre-arbítrio. Há muitos e muitos desses casos. O emprego da hipnose, entretanto, muitas e muitas vezes se toma necessário e de efeito salutar, dependendo da intenção. Se o trabalho não tem uma orientação ética ou não está inspirado no desejo de fazer o bem, ou se o objetivo oculto se ressinta da falta de escrúpulos de ordem moral, o que se pode esperar, com o tempo, é o desequilíbrio, pois nunca se deve explorar o mundo íntimo de alguém com propósitos duvidosos. Se a sugestão tem o seu lado positivo e o negativo, como tudo quanto se faz entre criaturas humanas, a persuasão também pode insinuar decisões benéficas ou levar a procedimentos desastrosos.

Persuadir é convencer. E, para convencer, envolvendo-a pouco a pouco, até que a criatura bem trabalhada mude de ideia e tome uma resolução inevitável, naturalmente é preciso tempo, habilidade, argumentos bem calculados. Há benefícios decorrentes de um trabalho de persuasão honesto e caridoso. Nos casos, por exemplo, de pessoas que se consideram vencidas ou arrasadas por desgostos, prejuízos ou injustiça, e já estão quase no estado de extremo desespero, muitas vezes uma conversação bem encaminhada e persuasiva com o desejo de ajudar, consegue perfeitamente remover dificuldades que nenhuma técnica remove. É o que se faz constantemente nas casas espíritas, a Caridade no sentido mais exato da palavra.

Há ocasiões em que se modifica todo o panorama mental da criatura sofredora e profundamente deprimida, sem ser necessário levá-la às sessões mediúnicas. O trabalho de persuasão consiste em convencê-la realmente, depois de algum tempo de paciência e assistência amorosa, de que nem tudo está perdido. Aos poucos, com argumentos ponderados e com segurança perseverante, a situação modifica-se e, por fim, o paciente que entrara no Centro sem esperança, sentindo-se abandonado e perdido, adquire como que uma visão nova do mundo e da vida. E reergue-se, porque se convence de que não está só e de que se lhe abre, agora, uma nova perspectiva.

A outra face do processo persuasivo é profundamente negativa. É um modo de convencer para servir-se de um indivíduo neste ou naquele sentido. Assim, aos poucos, aparentemente sem pressa, mas injetando ideias cuidadosamente preparadas, o interessado na doutrinação do paciente obtém o que quer, se não encontra boa formação espiritual capaz de repelir as insinuações jeitosas. A vitima da persuasão fica como que sendo usada como se fosse um objeto. Rumorosos casos de fraudes, assim como crimes de natureza política, etc. foram cometidos por influência de uma urdidura persuasiva, às vezes camuflada e demorada, mas sempre pertinaz. Não nos faltariam exemplos ilustrativos na vida social ou nos conciliábulos do vício ou do crime... Suponhamos a situação do indivíduo que é Caixa de um banco ou de uma empresa. É honesto e trabalhador. Mas vive com dificuldades e ainda não está muito amadurecido para contornar certos embaraços. Vem outro indivíduo, com interesses ocultos, e começa a dizer que o Caixa está trabalhando demais e poderia mudar o rumo de vida, não lhe sendo difícil sair das aperturas e ficar rico sem que ninguém soubesse do golpe. Dia a dia, pacientemente, a mesma conversa ao pé do ouvido, incutindo um mundo de coisas na cabeça do amigo até que ele fique com a cabeça virada pelo poder de persuasão e concorde em dar um desfalque. Resistiu no começo, mas a persuasão do outro, que estava em arrumar dinheiro fácil, apresentou tantos meios enganosos, usou de tanta habilidade que, por fim, chegou ao ponto desejado. A fraqueza espiritual do funcionário, responsável pelo dinheiro da empresa ou do banco, cedeu às insinuações. Convenceu-se de que deveria enriquecer de uma hora para outra e deu mesmo o desfalque! Foi a derrocada! Há muita gente que sabe convencer pela persuasão, mas no sentido maléfico.

As crônicas criminais registram um atentado, ocorrido já no final do século passado, também envolvido nas teias da persuasão danosa. Houve uma trama política, cujos interessados queriam encontrar alguém que servisse de instrumento e este foi exatamente um rapaz sem instrução nem discernimento, mas bem “trabalhado” durante certo tempo. Meteram-lhe na cabeça que poderia tomar-se famoso e sair da condição obscura em que vivia, etc., etc. Ninguém lhe deu propriamente uma ordem para que cometesse o crime a serviço de terceiros, porém, houve um trabalho manhoso de insinuações e promessas aparentemente vantajosas para a sua inexperiência. E ele aceitou a perigosa incumbência, já agora tocado pela ambição de se tomar uma figura importante, ser chamado de herói... Vítima de um processo de persuasão, criminosa evidentemente, deixou-se usar por ignorância, terminando a existência de um modo dolorosamente trágico!

A História tem muitos casos semelhantes.

Finalmente, a sugestão e a persuasão podem muito bem ser empregadas como bons meios de auxílio físico e espiritual, quando há dignidade e amor, mas podem, infelizmente, ser praticadas para fins nocivos quando não há nenhum respeito pela pessoa humana.

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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Inovação e originalidade

Inovação e originalidade

Deolindo Amorim



Embora tenha incorporado ideias e experiências muito antigas, como a sobrevivência, a vida futura, a comunicação dos espíritos, a reencarnação, a moral cristã, por exemplo, a Doutrina Espírita não é uma colcha de retalhos nem tampouco uma complicação de diversas teorias. O fato de não ser original naqueles pontos, que lhe são muito anteriores, não quer dizer que não constitua uma estrutura própria pela sua natureza. Entretanto, a crítica ao Espiritismo às vezes formula esta objeção: a falta de originalidade, justamente nos pontos básicos. E qual é a doutrina, a escola filosófica, a civilização inteiramente original? O próprio Cristianismo, como se sabe, recebeu enxertos inevitáveis de ideias matrizes, como o Judaísmo, principalmente. O Catolicismo, por sua vez, absorveu material de procedência diversas, até do Paganismo. Em matéria de civilização, os romanos usufruíram muito do pensamento grego, porém, os gregos beberam muito no velho Egito, e assim por diante.

Onde a originalidade absoluta? Vamos ao caso do Espiritismo. Se é verdade que o intercâmbio entre mortos e vivos já existia de todos os tempos, e não há originalidade, realmente, sob este ponto de vista, também é verdade que a Doutrina Espírita (1857) racionalizou a prática mediúnica e deu interpretação nova aos fenômenos chamados de além-túmulo, tendo afastado, ao mesmo tempo, a ideia de milagres, e umas tantas crendices que cercavam e ainda cercam as comunicações mediúnicas entre pessoas desinformadas a respeito do Espiritismo. Ainda mais: a Doutrina estabeleceu uma classificação que nos habilita a situar as categorias de fenômenos e os diversos tipos de médiuns. Nada disto se havia feito antes do Espiritismo. Diferentemente de outras doutrinas espiritualistas, a Doutrina Espirita deu o devido valor à fenomenologia extraterrena, porém extraiu, delas, consequências que jamais haviam sido imaginadas, quer na ordem filosófica, quer na ordem moral. A Doutrina forma, portanto, uma estrutura homogênea, com os seus termos, os seus conceitos, a sua metodologia. E neste aspecto exatamente estão os seus traços de característica própria, inconfundível, embora não seja original nos princípios que lhe servem de base: sobrevivência, a comunicação, o ensino do Cristo, convém frisar novamente.

Conquanto a sua motivação inicial tenha sido o elemento mediúnico, a Doutrina Espírita não se limitou ao trabalho de catalogação, que viria a tomar-se monótona ou rotineira com o tempo, mas formou, na realidade, um corpo íntegro de proposições abrangentes, justamente porque englobam inquirições e deduções filosóficas, com aplicações morais a todas as circunstâncias da vida humana. Como decorrência de seu embasamento, a Doutrina concilia a inteligência e o sentimento, a cultura e a moral, o amor e o conhecimento puro, dentro de uma síntese muito bem equilibrada.

Convém assim acentuar por isso mesmo, naturalmente repetindo o que já disse muitas vezes, que a Doutrina Espírita não veio para ser mais uma denominação de fé, o que significa, por outras palavras: não veio para aceitar tudo ou para concordar com o que já estava dogmatizado. A Doutrina teria de remover alguma coisa, como teria de corrigir muitas ideias e repelir muitas opiniões petrificadas. E, se assim não fosse, não teria razão de ser a sua existência. Com que objetivo, então, teriam os espíritos ditado a Codificação a Allan Kardec? Obviamente, para mudar alguma coisa, embora sem violência nem condenações. Mas não poderia adaptar-se a velhas fórmulas e crenças destituídas de fundamento.

É aqui, finalmente, que se defrontam dois critérios críticos: o externo ou objetivo e o interno ou subjetivo. A crítica externa vê apenas a expressão formal e, por isso, aponta falta de originalidade na Doutrina pelo simples fato de que seu embasamento tenha sido formado de ideia e crenças das mais recuadas na História. A crítica interna, entretanto, vê o pensamento consequente da Doutrina, sua linha de coerência, suas colocações próprias nos contextos fundamentais. A crítica formal ou externa pode apreciar ou julgar uma obra até mesmo pelo lado estético ou pela ordenação das matérias, sem descer ao conteúdo, ao passo que a crítica interna procura o pensamento legítimo, a exatidão dos conceitos, as posições da obra, os fundamentos mais consistentes. Pelo fio da crítica interna, portanto, logo se descobre que a Doutrina Espírita ensina o Evangelho, por exemplo, à luz de uma visão nova em relação às ideias antigas, mostrando o Cristo, não como simples filósofo, porém como um Messias Divino, como nos diz Kardec em A Gênese (capítulo n.°41). Declara a Doutrina: “Longe de negar ou destruir o Evangelho, o Espiritismo vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza, tudo quanto o Cristo disse e fez...” Correspondendo assim às exigências da época em que foi elaborada, a Doutrina elucidou pontos obscuros ou distorcidos, anteriormente interpretados sem os recursos dos conhecimentos modernos.

Nesta ordem de ideias, podemos dizer tranquilamente que a Doutrina Espírita trouxe, de fato, uma contribuição muito oportuna às questões atinentes à Justiça Divina, tanto quanto ao destino humano e à vida futura, com luzes novas, não há dúvida. Até mesmo no que se refere à reencarnação, crença velhíssima no Oriente, o pensamento espírita introduziu esclarecimentos que tornam esse princípio mais compatível com a justiça suprema e o próprio bom senso. Tanto assim que rejeitou a ideia da volta do Espírito em corpo de animal (metempsicose), noção admitida, não de um modo geral, mas em determinados círculos. A Doutrina, em suma, não subscreveu, ao pé da letra, tudo quanto já existia. E ainda nos põe diante de argumentos pelos quais podemos conciliar logicamente a reencarnação com o livre-arbítrio e o determinismo no processo evolutivo do ser humano.

À crítica puramente externa ou formal — repetimos de propósito — não vê os aspectos intrínsecos da Doutrina e, por isso, não descobre os pontos em que ela enriqueceu a compreensão do problema religioso e projetou as suas luzes na interpretação filosófica dos fenômenos que já existiam. A esta altura, enfim, o que interessa considerar não é a originalidade dos elementos componentes, mas o corpo da Doutrina, em si, com a sua característica própria.

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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Experiência e amadurecimento

Experiência e amadurecimento

Deolindo Amorim



Muita gente, no próprio meio espírita, ainda não compreendeu a influência do ambiente em determinadas pessoas. Há pessoas, por exemplo, que trazem do passado certas inclinações irresistíveis e, por isso mesmo, não se adaptam a qualquer ambiente. É problema de tempo. Ninguém deve forçar nem pode censurar outrem pelo fato de pender para este ou aquele lado, de acordo com as disposições de foro íntimo. Sendo o Espiritismo uma Doutrina reencarnacionista, logicamente devemos saber que cada qual, quando volta a este mundo, traz sua bagagem, suas experiências e também seus gostos e suas preferências. Não é possível enquadrar um indivíduo, de um momento para outro, dentro de um sistema ou de um estilo social, se esse indivíduo não se afaz do ambiente, não se sente bem no meio onde se encontra. O mais certo, o mais justo, no caso, é deixar que o próprio indivíduo faça suas opções e procure o ambiente que melhor se ajuste a suas preferências. Vamos, agora, ao ponto concreto do assunto.

Pela experiência que venho adquirindo, dia a dia, no movimento espírita, lidando com pessoas de todas as classes sociais, ouvindo relatos e observações muitas vezes dolorosas, de sofredores de todos os níveis de vida, já observei um aspecto muito curioso e, com isso, vou aprendendo mais. Já notei que muitas pessoas tentam frequentar o meio espírita, mas não ficam, não se acomodam bem nas sociedades espíritas. Por quê? Preconceito? Acredito que haja alguns casos de preconceito, social ou religioso. Na hora da dor, quando falham lá fora todos os recursos, muita gente deixa as convenções sociais e vem bater às portas das casas espíritas em desespero. Faz-se o que pode, sem distinção de crença nem de raça, nem de cor, mas nem todos continuam. Sei que há preconceito, mas é preciso que encaremos outros aspectos do problema. Nem sempre é puro preconceito. Devemos considerar também dois fatores importantes: a formação intelectual ou religiosa do indivíduo e, ainda, a herança, o lastro do passado.

Há pessoas que, por sua formação, adquiriram uns tantos hábitos e, por isso mesmo, são muito condicionados. Aceitam certas ideias, teoricamente, não têm propriamente prevenções, gostam até de ajudar, mas ainda estão presas a determinadas convenções, nunca se sentem à vontade quando estão fora de seu ambiente. A religião de origem, a educação, os padrões sociais em que foram criadas influem muito nessas pessoas, tomando-as a bem dizer alienadas em relação a outros meios sociais. Ainda que sejam beneficiadas no meio espírita; ainda que façam leituras doutrinárias e achem a Doutrina muito boa; ainda que sejam pessoas bem intencionadas e tenham o desejo de servir — não conseguem aderir prontamente aos hábitos espíritas, porque continuam vinculadas aos Conceitos e costumes de origem. Há coisas que, para essas pessoas, representam valores, ao passo que para nós, já não têm a menor significação: são os símbolos materiais, o formalismo e assim por diante. Não é fácil mudar de um dia para o outro. É preciso que haja algum espaço de tempo. Não podemos repelir e muito menos condenar alguém porque ainda se prende a umas tantas coisas. Não há evolução sem transição.

O meio espírita é muito simples, muito natural e, por isso, não tem fórmulas nem atrativos exteriores; não tem, portanto, com que prender as pessoas que se impressionam muito com a ornamentação, os cenários, os gestos artificiais ou cabalísticos. São elementos que ainda valorizam muito o lado acessório da vida e das coisas, muito mais do que o essencial. É gente que procura o ambiente espírita por necessidade, gente sincera, mas não fica integrada: vem, entra, gosta, mas não permanece. Paciência! É problema de opção, de foro íntimo. Cada qual deve procurar livremente o ambiente onde fique à vontade, sem constrangimento.

Se nem todos se adaptam à simplicidade do meio espírita, e é um fato que se observa constantemente, claro que não é o meio espírita que se deve modificar ou alterar seus estilos de convivência para se adaptar aos gostos alheios. Não. Somos o que somos. Há pessoas, no entanto, que, uma vez recebendo as luzes do Espiritismo, aderem logo, desprezam todos os formalismos e preconceitos do passado. É preciso ver, aí, a diferença, a desigualdade dos espíritos através da reencarnação. Paulo de Tarso, por exemplo, abriu mão imediatamente das correntes do passado quando sentiu a luz da mensagem do Cristo e tomou novo rumo. Mas nem todos, no grupo de Paulo, procederam assim. É história bem conhecida. Havia elementos, como se sabe, que não apoiavam o desligamento total nem imediato, mas, aos poucos, ainda conservando certos usos da tradição. Nem todos quantos se convertem às ideias espíritas, são do tipo de Paulo.

A reencarnação traz experiências, compromissos, provas e missões, como se sabe, mas também traz condicionamentos para muita gente, que renasce com bitolas do passado, e não é apenas durante uma existência que se desprende desses prejuízos. Sei de um presidente de Centro Espírita, velho companheiro, muito dedicado ao trabalho espírita, mas que fazia questão de ter um púlpito no centro. O orador ou conferencista naturalmente ficava embaraçado quando subia ao púlpito para "pregar” a Doutrina, como se fosse pastor ou sacerdote. E era bom trabalhador na seara espírita, porém, não dispensava o vezo antigo. Reminiscência da igreja, de onde viera, no interior de Minas Gerais. E o estudo da Doutrina Espírita não lhe tirou esse hábito.

Se alguns casos decorrem apenas de preconceitos, outros casos, no entanto, (levem ter alguma relação com ideias e costumes de outras existências. Se é certo que não devemos generalizar e dizer que tudo se explica pelo passado, também é certo que não podemos desprezar inteiramente o aspecto da reencarnanação, pelo menos em determinados tipos de comportamento. Quanta gente há, por aí, que já teve vivências orientais ou já pertenceu a fraternidades e escolas cabalísticas em tempos remotos... Não é fora de propósito admitir essa hipótese, dentro do quadro reencarnacionista. Há pessoas que embora nascidas aqui, educadas sob a influência dos costumes ocidentais, revelam tendências indisfarçáveis para as coisas do Oriente. Não houve pressão do meio nem houve mestres do orientalismo, mas a verdade é que muitas criaturas já renascem trazendo essas propensões às vezes irresistíveis. Gostam do simbolismo, ficam muito impressionadas com as vestes estilizadas, apreciam a linguagem mais figurada. Como, porém, nada disto existe no Espiritismo, e não há motivo para que deva existir, naturalmente estes elementos não se sentem bem nos Centros espíritas, pois não encontram neles o ambiente ideal. Não devemos criticá-los, pois o problema é de consciência, é de livre-arbítrio.

O modelo das igrejas espiritualistas dos Estados Unidos, onde se pratica o mediunismo sob feição diferente, imitando os templos protestantes, se fosse transplantado para cá, certamente agradaria muito mais a determinadas pessoas, não pela essência do ensino ou da mensagem que porventura se distribua, mas apenas porque nesses lugares há títulos de pastor, de reverendo, de ministro, por exemplo. Há ainda cerimônias de consagração, hinos, bênção pastoral e assim por diante. Muita gente se prende a isso e, por enquanto, só se sente bem onde haja exterioridades, honrarias humanas. As vezes é o reflexo da educação convencional, mais preocupada com a imponência e as distinções pessoais, e às vezes, é mais reminiscência do passado, é ainda o velho acervo de outras existências, em condições muito diferentes das condições atuais. O Espiritismo toca o coração, cria entusiasmo, tudo é belo e suave, mas no fundo, lá nas profundezas do EU, ainda está dormindo a saudosa lembrança de crenças muitos longínquas. E quem pode “torcer” a natureza de outra pessoa?... E quem pode fazer alguém ser o que NÓS desejamos que ele seja?... Cada qual é o que é. Não é o que gostaríamos que fosse. A experiência da vida que o diga.

Já vi, e não poucas vezes, gente simpática e inteligente chegar a Centros espíritas, exteriorizar desejo ardente de participar de nosso movimento e, logo depois, desaparecer, tomar outra direção, integrando-se em ambientes mais afins com suas inclinações. Lembro-me bem de uma organização espiritualista, que existiu no Rio de Janeiro. Não era uma sociedade espírita, e o fundador e diretor fazia questão de dizer sempre, com a maior franqueza:

— Ninguém venha aqui procurar uma sociedade espírita!

O criador desta organização viera do meio espírita e tivera, ao que dizem, certa projeção como conferencista em nosso meio, mas resolveu criar uma coisa nova, um culto especial. Deixou o movimento espírita, e fê-lo com toda a franqueza, sem menosprezar os princípios que antes defendera e propagara, e organizou uma sociedade espiritualista, semelhante a uma igreja, com seus hinos, seus rituais, etc. Quando subia à tribuna, fazia gestos de bênçãos, usando uma capa em forma de batina, começando a pregar, no culto semanal, aos domingos, em latim, para, segundo suas próprias palavras, solenizar o ato!

Fui ouvi-lo uma vez e percebi que utilizava muitas noções da Doutrina Espírita com referências também à reencarnação, mas a FORMA realmente nada tinha de comum a qualquer tipo de atos espíritas, infensos estes últimos, como é sabido, de qualquer tipo de liturgia. Seja como for, essas coisas exteriores atraíam muita gente, embora as ideias, em tese, fossem as mesmas ideias ensinadas e vulgarizadas nos Centros Espíritas. O aspecto formalístico, o conjunto externo e a expressão sacerdotal do pregador impressionavam muito, não há dúvida. Sei de gente que, tendo frequentado a Liga Espírita, por exemplo, e não encontrando ali qualquer motivação material, nem o convencionalismo de certos ambientes — passou a participar do novo culto!

A grande verdade é que há pessoas que ainda não estão preparadas espiritualmente para conviver em meios simples, embora se esforcem para demonstrar o contrário. Intimamente não se afinam com ambientes mais modestos. Há lugares, por exemplo, onde se dá muita ênfase aos títulos e às honrarias humanas, o tratamento de Excelência e assim por diante... No meio espírita, de um modo geral somos todos irmãos ou confrades, indistintamente, mas muitas pessoas ainda gostam mais de tratamento ornamental e, por isso mesmo, não se adaptam ao meio espírita. Tudo isso demonstra, finalmente, que nem todos quantos batem às portas de casas espíritas estão amadurecidos espiritualmente, como adverte a Doutrina. Já no tempo de Allan Kardec também era assim. Nem todos têm condições de compreender e sentir que a mensagem pura está exatamente na simplicidade sem farisaísmo, na modéstia sem pretensões de santidade, na humildade sem exibições devocionais. Muita gente, na realidade, ainda precisa amadurecer o espírito para poder penetrar no âmago da Doutrina. Enquanto isso não acontece, é natural que haja preferências por ambientes onde o exterior predomine sobre o interior. É questão de tempo, e nós não podemos ter a tola pretensão de querer acelerar o ritmo do tempo nas experiências de certas pessoas.

O meio espírita está sempre de portas abertas a todos, sem a menor discriminação social ou religiosa, mas os atos espíritas não podem ser modificados ou desfigurados em suas características autênticas a fim de que as conveniências de quem quer que seja encontrem ambiente adequado. Não podemos adotar superficialidades e artificialismos para atrair maior número de pessoas que ainda estão voltadas para outros centros de interesse. Cada qual deve adquirir sua própria experiência, situando-se na faixa de ação que seja mais compatível com as predisposições de seu espírito. Ninguém deve chegar ao Espiritismo por atração exterior ou sob a influência de persuasões.


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