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terça-feira, 7 de setembro de 2021

Os Cátaros, o amor e a reencarnação

 Os Cátaros, o amor e a reencarnação

Hermínio C. Miranda


A primeira consulta da nova cliente do Dr. Arthur Guirdham foi em março de 1962. Tratava-se de jovem senhora com pouco mais de 30 anos de idade, bonita, comunicativa e sorridente. Falava com vivacidade, sem contudo, demonstrar sinal de grande tensão. Seu caso não parecia também ser muito grave, a julgar pela carta do médico que a apresentava. O encaminhamento da paciente a um psiquiatra havia sido feito a pedido dela mesma. O problema se resumia num pesadelo recorrente, sempre acompanhado de terríveis gritos de pavor que ameaçavam acordar a rua inteira em que a família residia. O fato em si não parecia de grande interesse, mas é evidente que para a cliente tinha significado emocional de grande profundidade. No sonho, um homem entrava pela direita no cômodo em que era surpreendida deitada no chão. À sua aproximação, ela era tomada de indescritível terror, que a fazia despertar aos gritos. Havia vinte anos que o pesadelo se repetia, a princípio no espaço de alguns meses; ultimamente, porém, duas ou três vezes por semana.

A ficha médica enviada ao Dr. Guirdham mencionava alguns "ataques de inconsciência" que a paciente tivera na adolescência. Neurologista, consultado na época, pediu encefalograma e acabou diagnosticando na menina caso de epilepsia, opinião da qual o Dr. Guirdham não partilhava. Por outro lado, este não sabia ainda que os períodos de inconsciência começaram juntamente com os sonhos e certas "revelações", sobre as quais muito temos ainda a conversar ao longo deste artigo, em comentário ao livro do Dr. Guirdham. ["The Cathars & Reincarnation" ("Os Cátaros e a Reencarnação"), Arthur Guirdham, Edição Neville Spearman, Londres, 1976].

Aquela primeira entrevista com o novo médico produziu resultado inesperado na Sra. Smith, como a chama o autor. Ela ficou livre do pesadelo, que nunca mais se repetiu, mas disso o médico somente iria saber ano e meio depois.

Bem mais tarde, o Dr. Guirdham ficaria sabendo também que aquela consulta médica ensejara o reencontro de dois seres que haviam vivido linda história de amor na atormentada região do Languedoc, na França do século XIII. Começava naquele dia de março de 1962 a desdobrar-se lentamente o vasto painel histórico, no qual fora superposto o romance de dois e a tragédia de muitos.

Antes de passar adiante, porém, convém dizer que o Dr. Guirdham também tinha o seu pesadelo, que se repetia a intervalos irregulares desde os vinte e poucos anos. (Ao escrever o livro, segundo se depreende, estaria na faixa dos sessenta.) O pesadelo do médico era algo semelhante ao da paciente e não menos aterrorizante, porque ele também emitia gritos de pavor. No sonho, um homem alto aproximava-se-lhe por trás, à esquerda, enquanto dormia. Às vezes, o intruso se debruçava sobre ele, para observá-lo de perto, fazendo-o ficar rígido de pavor.

Há dois curiosos detalhes com relação ao caso do Dr. Guirdham: primeiro, descobriu que o indivíduo do seu episódio onírico era o mesmo do da Sra. Smith; segundo, que a partir da época em que se encontrou com ela (ou melhor, reencontrou-se) não teve mais o sonho. Ele não se lembra, ao escrever o livro, se foi pouco antes ou pouco depois, mesmo porque a essa altura, como vimos, ainda não sabia que o pesadelo dela também cessara misteriosamente.

*

O livro do Dr. Guirdham exige certo esforço de atenção do leitor e deixa este, às vezes (pelo menos foi o meu caso), algo frustrado, mas é evidente que sua maneira de apresentar a história tem o seu mérito próprio, por mais complexo e fragmentado que seja. Ele preferiu narrar os acontecimentos através das cartas e de outras referências pessoais da Sra. Smith, na ordem cronológica em que ela ia desenovelando suas lembranças.

No desenrolar desse processo, durante o qual as informações vão chegando aos pedaços, fora da sequência natural e, às vezes, muito enigmáticas, o autor mergulhou na pesquisa histórica sobre o período que serve de "background" ao romance de amor. Sob as mais estranhas e inesperadas circunstâncias e "coincidências", o Dr. Guirdham começa a encontrar gente, livros e artigos que tratam do assunto, detendo-se principalmente em dois especialistas, e das maiores autoridades mundialmente reconhecidas, no tema específico das lutas religiosas que ensanguentaram o Languedoc por causa da heresia dos cátaros. Um desses "experts" é o Prof. René Nelly; outro, o Prof. Jean Duvernoy, autores, ambos, de obras de elevado conceito, meticulosamente pesquisadas e escritas ao longo, dos anos.

É preciso fazer aqui uma abertura para nos situarmos no contexto da época. Antes, porém, uma ponderação dentro da digressão: a primeira leitura que fiz do livro do Dr. Guirdham, há cerca de um ano, causou-me inexplicável impacto. O volume pertencia, no entanto, a uma biblioteca e não me foi possível, à época, escrever sobre a bela história nele narrada, mesmo porque eu também me propunha realizar as minhas próprias pesquisas, dado o fascínio que o tema suscitou em mim. Sentia-me de alguma forma envolvido no drama daqueles românticos e valentes heréticos da França medieval. E - coisa curiosa! - comecei a descobrir referências em livros antigos e recentes, que pareciam, intencionalmente vir ter às minhas mãos, como, por exemplo, "The Occult", de Collin Wilson (Edição Mayflower, Londres, 1976), e "Lês Grandes Heures Cathares", de Dominique Paladilhe (Edição Penin, Paris, 1969). Só com o tempo, descobri que numa existência no século XII tive realmente envolvimento pessoal com a efervescente e febricitante heresia que se estenderia até meados do século XIII, quando ocorre a história narrada pelo Dr. Guirdham. Naquele tempo estava eu do lado da velha e poderosa Igreja Católica, naturalmente, mas estejam os leitores descansados que não fui nenhum inquisidor de maus bofes.

A palavra cátaro é de origem grega, como se percebe facilmente, e quer dizer puro. O Dr. Guirdham, em nota de rodapé na página 11, informa que, para efeitos gerais e com vistas ao leitor não especialista, cátaros e albigenses podem ser considerados praticamente como sinônimos. E sob este segundo nome que ela se tornou mais conhecida, mas o termo contém conotações meramente geográficas, de vez que foi em torno da cidade de Albi que a seita mais se desenvolveu.

Segundo Will Durant ("The Age of Faith", Ed. Simon & Schuster, N. Y., 1950), a heresia foi como que "importada" da Bulgária, via Itália, implantando-se primeiramente em Montpellier, Narbonne e Marselha para fixar-se depois no Languedoc e na Provence, especialmente em Toulouse, Albi, Pamiers, Carcassone, Bézieres e adjacências.

Até recentemente eram escassos os conhecimentos acerca da verdadeira estrutura do pensamento cátaro, e a razão é fácil de ser explicada. É que praticamente tudo o que se sabia da famosa heresia era informação de segunda mão veiculada basicamente pelos cronistas católicos, principalmente os inquisidores, que a encaravam com os antolhos do fanatismo. Graças, porém, a pesquisas mais recentes - e aqui entram os eminentes autores franceses, há pouco citados - sabe-se hoje um pouco mais e melhor acerca das crenças, práticas e motivações dos cátaros. Ao tempo em que a Sra. Smith anotou suas mais importantes visões, impressões e sonhos, ela era uma menina de 13 anos e frequentava na Inglaterra uma escola primária. Como diz o Dr. Guirdham, o conhecimento sobre os cátaros na Inglaterra era infinitesimal. Que uma criança de 13 anos pudesse conhecer tanto do assunto seria efetivamente verdadeiro assombro, pois longe estava de saber que as informações por ela transmitidas tinham algo a ver com os cátaros, e ao procurar o Dr. Guirdham ainda ignorava totalmente essa conexão. Chega a ser, pois, fantástico que, através das suas visões e recordações, tenha frequentemente contestado os eruditos especialistas franceses, a tal ponto que o Prof. Nelly se decidiu por acordar com o Dr. Guirdham que, em caso de dúvida ou controvérsia sobre algum ponto obscuro, o mais certo seria adotar a opinião da Sra. Smith. E ela sempre achou que a teologia catara, por mais que os historiadores a tenham indevidamente complicado, era simples, como simples eram suas práticas.

Em resumo (atenho-me à obra já citada de Dominique Paladilhe, bem como aos livros de Wilson e Durant), os cátaros, que foram, aliás, reencarnacionistas convictos, tinham o mais santo horror à matéria. Como Deus, infinitamente perfeito e bom, não poderia ter criado a matéria corruptível e má, esta só poderia ter sido obra de uma espécie de Antideus, ou seja, um Deus mau que seria Satã ou Satanael. Algumas seitas não chegavam a esse dualismo absoluto, emprestando a Satã apenas a condição de semideus. Este, porém, não tinha poderes para criar seres humanos a fim de povoar a Terra; o recurso foi, portanto, provocar a queda dos anjos criados pelo Deus bom. Para aprisioná-los nos corpos físicos seduziram-nos com os prazeres grosseiros da carne. Com a finalidade de salvar os seus anjos decaídos, o Deus bom resolveu então enviar à Terra um dos que lhe permaneceram fiéis. A este competia mostrar aos irmãos pecadores o caminho da salvação. Escolhido para essa missão, Jesus aceitou o encargo, não sendo, pois, o próprio Deus, segundo até hoje ensina a teologia católica. (Somente isto já é uma tremenda heresia.) Como anjo que era, no entanto, não poderia ter contato algum com a matéria impura e ignominiosa e, por isso, seu corpo foi apenas aparente, elaborado de alguma substância não material, mesmo porque ele não poderia, na realidade, nascer de uma mulher.

A despeito desse afastamento em relação aos dogmas católicos, os cátaros consideravam-se verdadeiros cristãos; era-lhes prece predileta o "Pai Nosso" e se conduziam pelos padrões da moral do Sermão da Montanha. Observavam abstinência de carne, que substituíam pelo peixe; vestiam-se com simplicidade e viviam em regime de grande fraternidade. Dividiam-se em duas categorias: os "Parfaits" (Perfeitos) ou "Parfaites" (Perfeitas) que constituíam uma espécie de sacerdócio e os "Croyants" (Crentes).

Estes deviam a maior veneração aos "Parfaits", cumprindo-lhes mesmo ajoelharem-se diante deles. Uma vez assumida a condição de "Perfeito", ou "Perfeita", a pessoa tinha que renunciar aos laços de família, se fosse o caso, sendo mandatória a abstinência sexual.

O ritual de iniciação era denominado "consolamentum" e incluía a imposição de mãos. Por causa dos rigores impostos aos Perfeitos, que também se chamavam "Bonshommes", eram muitos os crentes que adiavam a hora do "consolamentum", como certos cristãos primitivos adiavam o batismo para, tanto quanto possível, morrerem purificados pelo sacramento que, supostamente, lavava a alma de todos os pecados. Na realidade, somente os "Parfaits" eram considerados parte integrante da Igreja Catara, da mesma forma que só o batizado faz parte da Católica. Os "croyants" formavam como que uma espécie de catecúmenos, ou seja, aspirantes. Havia uma insistência considerável no retorno às práticas e crenças primitivas dos cristãos, o que, segundo Paladilhe, explica o enorme êxodo da heresia, especialmente no Languedoc.

Na verdade, a seita começou a alcançar projeção e a ganhar força, ainda que, a princípio, não lhe houvessem emprestado grande importância. A certa altura, a Igreja deu de sentir-se ameaçada e designou S. Bernardo, o monge de Clairvaux, para tentar reconduzir os cátaros ao Catolicismo. O prestigioso santo visitou o Languedoc, pregou admiravelmente, realizou vários "milagres", mas não conseguiu senão limitado êxito, aqui e ali: os cátaros permaneceram firmes nas suas crenças, nas suas práticas e na divulgação das suas ideias, até que o Papa Inocêncio III achou que não fazia sentido despachar Cruzadas para combater os muçulmanos, quando havia ali mesmo na Europa perigosos inimigos da Igreja. E foi assim que, após novos esforços de conversão realizados por S. Domingos no século seguinte ao de Bernardo, a Igreja montou dois dispositivos imbatíveis para esmagar os cátaros: a Inquisição e uma Cruzada. A luta foi longa e sangrenta, porque a heresia estava solidamente implantada no coração do povo; o clero católico, acomodado; e os nobres, quando não abertamente partidários, protegiam a seita ou a toleravam. Enquanto isso, os trovadores - e isto seria um artigo à parte -, muitos deles "croyants" ou simpatizantes, nas suas andanças de castelo em castelo, de cidade em cidade contribuíam com as suas baladas para divulgar cada vez mais a seita que ameaçava empolgar toda a França. Ou, quem sabe, até a Europa inteira!...

É no período de ameaças, perseguições e atrocidades que se desenrola o belo romance de amor que a Sra. Smith foi resgatando à sua memória, para oferecer ao Dr. Arthur Guiidham. É hora, pois, de voltar a eles.

*

Tentarei reconstituir a história que eles viveram no século XIII, costurando os inúmeros retalhos que o Dr. Guirdham extraiu da correspondência da Sra. Smith. Quando disse alhures que o livro me deixou algo frustrado é porque teria preferido que ela o houvesse escrito e não ele. Enquanto o estilo do médico é frio, algo impessoal, mesmo algum tanto monótono e, portanto, cansativo, o da paciente põe nos depoimentos o colorido da sua personalidade e o calor das emoções, pois, a despeito do discreto tratamento que dá aos episódios, e até mesmo de certo pudor em deixar transparecer a carga de emotividade, a força do amor desborda das barreiras de algumas convenções, da mesma forma que atravessou a barreira do tempo para renascer purificado setecentos anos depois.

No Languedoc medieval, cujos costumes e imagens povoaram as visões e os sonhos da Sra. Smith desde a infância, ela fora uma jovem de origem humilde e o Dr. Guirdham um "croyant" de sangue nobre, por nome Roger. Todas as suas emoções e lembranças giram em torno desse homem, bem mais velho do que ela (tal como na vida atual), e das pessoas que compunham o pequeno grupo envolvido nas graves questões religiosas da época. Por muito tempo ela pensou que aquelas figuras e aqueles acontecimentos resultavam simplesmente de sua imaginação, pois nada mais natural que uma jovem sonhasse com o seu príncipe encantado. Às vezes, tornava-se até difícil separar a realidade da evocação, e principalmente distinguir a sequência a que nos habituamos em relação ao tempo.

"Em certas ocasiões - escreve ela ao Dr. Guirdham -, fico tão confusa que não tenho certeza, honestamente, se uma pessoa acabou de me dizer algo ou se alguém mo dirá um dia, ou se já mo disse no passado."

Maior receio não tinha senão o de que estivesse fora de seu juízo. Em uma das numerosas cartas, declara que parece ter apenas duas opções: ou é epiléptica, ou lunática.

Só com o tempo Dr. Guirdham, que também aceita a doutrina da reencarnação e a sanidade das pessoas dotadas de faculdades psíquicas, fá-la convencer-se, como terceira opção, de que é uma criatura perfeitamente normal, e apenas se recorda de seu passado remoto. Ao convencer-se disso, ela lhe manifesta seu enorme alívio. Não obstante, durante esse processo - as pesquisas e a troca de correspondência - às vezes ainda se desespera:

"Se, quando o senhor estiver na França, encontrar Fabrissa, Roger Pierre de Mazerolles ou qualquer um dessa turma de malucos, diga-lhes para irem todos para o inferno."

Não adianta, porém, as tentativas de recuo; os sonhos e as visões de vigília persistem.

Ela vai ao sótão buscar os cadernos escolares, onde anotou nomes, emoções, fragmentos de lembranças desconexas, como quem desenha isoladamente as peças de um vasto quebra-cabeça, sem saber ainda que arranjo vai surgir daquilo, se é que algo coerente possa emergir dali. Chegou mesmo a escrever o que chama de novela - provavelmente uma peça de inspiração mediúnica ou, certamente, anímica -, na qual derramou toda a força das suas emoções. Colocou nessa obra tanto de si mesma que, infelizmente, acabou por sacrificar os preciosos originais ao fogo. Era certamente a história de seu amor e das paixões e tumultos que mancharam de sangue e lavaram de lágrimas aquela época ao mesmo tempo tenebrosa e romântica.

Vejamos como a Sra. Smith descreve seu primeiro encontro com Roger, segundo as notas redigidas aí por volta dos 13 anos de idade:

"Eu poderia escrever um livro sobre Roger sem esforço algum - diz ela. Sonhei tudo aquilo em diferentes oportunidades e é muito fácil passar para o papel. Mas, se o fizer, nunca será publicado. Eu não o suportaria. É bom saber que outras meninas também sonham com seus amados. Eu preferiria não ter, porém, esta incômoda sensação de que o meu caso é diferente. Não quero viver de fantasia, ainda que aquele mundo seja tão real para mim. Talvez, se eu escrevesse um livro, me libertasse dessas impressões. Jamais me casarei. Tom (o namoradinho da época) não gostará disso. Devo ter natural aversão ao casamento. No meu sonho não sou casada, nem mesmo com Roger."

Observem, a seguir, o maravilhoso impacto do primeiro amor, que é, provavelmente, aquele único e imortal amor que se repete vida após vida, muito embora separadas, às vezes, por séculos e até milênios:

"Apaixonei-me por ele naquela mesma noite em que chegou a nossa casa, durante a tempestade de neve. Esforçava-me por não ficar a contemplá-lo; mas, sentia incoercível consciência da sua proximidade. Não tinha forças para me afastar dele, mesmo que o desejasse. A casa era muito pequena. Chamei-a de casa, mas era pouco mais do que uma cabana. Um só cômodo - eis tudo. E ele parecia ocupar ali cada polegada de espaço. Estou certa de que não havia outro pavimento. Os únicos móveis eram um banco rude e uma mesa. Era quase tão escuro ali dentro como lá fora, porque a pequena janela não tinha vidros e a abertura era vedada por um rústico pedaço de tábua, para não deixar entrar os elementos."

Ao escrever isto, a autora não sabia que o vidro na Idade Média era objeto de luxo; só os palácios dos ricos, e as igrejas, os exibiam.

"Eu me sentia cheia de alegria - prossegue a narrativa quase infantil -, porque o tempo estava péssimo e era necessário que ele ficasse para pousar. Aquela noite eu o beijei enquanto dormia. Dormíamos no chão, com as roupas de uso diário, em torno do fogo e, na meia-luz, eu via a sua mão com um anel no polegar. Cheguei-me para perto dele muito devagarzinho, pois não queria que ninguém acordasse. Quando estava suficientemente perto, beijei-lhe a mão e me senti feliz. Nunca havia beijado um homem antes."

Ela descreveria não apenas aquele anel com um símbolo cátaro gravado, mas também suas roupas, seus hábitos, suas ideias. É claro que Roger também amou a jovem camponesa, à qual chamava carinhosamente de Puerília, uma palavra com a raiz latina "puer", que quer dizer criança. A diferença de idade era grande e, para o sisudo Roger, a moça deveria ser realmente adorável criança que o amava com enorme respeito e admiração.

"Roger costumava ir a umas reuniões em Montbrun, e eu também. Somente ia para vê-lo. Eu sabia que meu pai ficaria zangado se soubesse dessas reuniões e de algo sobre Roger. Tínhamos de ser cautelosos. Havia muitos lugares onde podíamos estar a sós. Havia bosques na região. Roger costumava falar bastante quando reunido com os seus pares, mas andávamos, às vezes, milhas de mãos dadas e raramente trocávamos palavra."

Há dois lugares por nome Montbrun (um deles escreve-se Monbrun), perto de Toulouse; outro, a cerca de 32 quilômetros de Foix; e um quarto, pouco ao norte de Corbières, no Aude. A Sra. Smith insiste, porém, em que o seu Montbrun ficava nas vizinhanças de Montgaillard, não muito longe de Foix, e que teria desaparecido ou mudado de nome no correr dos séculos.

É preciso esclarecer, ainda, que, a despeito de sua liderança e da sua pregação, Roger não era um "Parfait", não tendo chegado, portanto, a receber o "consolamentum".

Do contrário, seria estranho que mantivesse aquele tipo de relacionamento com Puerília. Vejamos, porém, como foi que prosseguiu a história.

"O dia em que meu pai me bateu e me expulsou de casa foi o mais feliz de minha vida. Fui para Roger apenas com a roupa do corpo. Estava até sem sapatos. Acho que eu os tinha, pois não me lembro de caminhar descalça ao lado dele. Devo tê-los deixado para trás. A casa dele ficava no alto de um morro, e o caminho que levava até lá era áspero e pedregoso. Ele morava numa casa grande - uma habitação fortificada que não chegava a ser propriamente um castelo. Passamos por um portão aberto em alto muro e atingimos um pátio, que atravessamos para alcançar a porta principal. Entrei relutantemente por causa da minha roupa. Gostaria de ter algo mais bonito para vestir. Depois da porta principal havia alguns degraus que levavam a grande salão. Era enorme e tinha vários bancos, cadeiras e mesas. Havia algumas pessoas na casa. Foram todas elas muito boas para mim e eu me sentei perto do fogo, na extremidade do salão. Estavam cozinhando alguma coisa. Não sei o que era. À noite, fiquei sentada a contemplá-lo, enquanto ele entretinha-se em jogar. Fazia lembrar um jogo de damas, com fichas muito trabalhadas e um dado."

Foram "sublimemente felizes", no dizer dela. E quando ele partia para as suas frequentes andanças, parece que levava consigo um pouco de sua própria vida. "Eu era uma alma perdida sem Roger..."

É nesse ponto que começam a aparecer as demais personagens da história. Havia, por exemplo, Alais ou Helis, irmã de Roger. Outros três irmãos, pertencentes à família dos Fanjeaux, eram netos do conhecido trovador Guillaume de Dufort. Helis casou-se com Arnaud de Mazerolles. Seu filho, Pierre, um tipo irresponsável e interesseiro, era a figura espectral que atormentava o Dr. Guirdham e a Sra. Smith nos pesadelos. Nessa dramática série de eventos, ele participara de pequeno grupo que assassinou dois inquisidores, do que muito se orgulhava. Foi quem anunciou a Puerília que Roger havia sido preso. Chegara quando ela dormia no chão, como de hábito, e não só lhe trouxe a notícia terrível como tentou ainda beijá-la. Aquele assassinato contribuiu para intensificar as perseguições.

Uma grande figura dessa época era Fabrissa de Mazerolles, identificada como cunhada de Helis e de Roger e tia do famigerado Pierre. Era uma "Parfaite" proeminente, de algumas posses, e na sua ampla casa havia reuniões constantes, onde os cátaros perseguidos sempre encontraram acolhedor refúgio. Por isso, quando as recordações da Sra. Smith começaram a emergir, uma frase estava bem clara naquele emaranhado de lembranças fragmentárias e misteriosas:

"Se algo me acontecer vai a Fabrissa." 

Nem o Dr. Guirdham nem a Sra. Smith sabiam se Fabrissa era nome de pessoa ou de lugar. Mais tarde, porém, com a colaboração dos eruditos e as pesquisas nos depoimentos da tenebrosa Inquisição, aqueles nomes, que pareciam meras fantasias, ganharam os contornos da realidade. Eram gente mesmo que amou e sofreu por uma causa perdida, por um ideal que nem o terror da fogueira conseguiu extinguir naquelas sofridas criaturas.

*

Depois da prisão de Roger, que sofreu longas e penosas torturas para morrer abandonado numa prisão, a vida de Puerília foi curta e inapelavelmente infeliz.

"Não conseguia esquecer-me de Roger e desejava morrer para reunir-me a ele. Será que todas aquelas viúvas (ela vivia, então, numa espécie de convento cátaro) também choravam secretamente como eu?"

Por toda parte havia perseguições, torturas e matanças. A todo momento chegavam notícias tristes: amigos presos, companheiros mortos, gente massacrada ou queimada viva.

"A vida era algo barato - escreve a Senhora Smith, recordando-se - e podia ser extinta em poucos segundos. Em breve, todo mundo estaria morto e a Terra ficaria juncada de carne podre, malcheirosa."

Chegou finalmente, o dia da libertação de Puerília. Ela reviveu toda a cena em um dos seus sonhos. Havia outras pessoas. Ninguém parecia ter medo do que os esperava.

"Caminhávamos descalços pelas ruas na direção de uma praça, onde achas de lenha estavam prontas para ser acendidas. Havia vários monges em redor, cantando hinos e rezando. Não me senti grata a eles. Achei que tinham mesmo que orar por mim. Eu deveria ter sido pessoa muito má. (O texto foi escrito quando a Sra. Smith tinha apenas 13 anos e, como se vê, ignorava a extensão e profundidade da tragédia que vivera 700 anos antes.) Não penso em coisas más quando estou acordada, mas sonho coisas terríveis. Detesto aqueles monges ali reunidos para assistirem à minha morte. Uma colega, na escola, me disse certa vez que sonhou com a crucificação do Cristo. Eu preferia ser crucificada do que queimada."

E, a seguir, a descrição do fim, que quase chega a doer no leitor:

"A dor era de enlouquecer. A gente deveria orar a Deus quando está morrendo, se é que se pode orar em plena agonia. No meu sonho, eu não orava a Deus. Pensava em Roger e no quanto eu o amava. A dor daquelas chamas não era nem a metade da que experimentei quando ele morreu. Senti-me subitamente alegre por estar morrendo. Eu não sabia que quando a gente morre queimada a gente sangra. Eu sangrava que era um horror. O sangue pingava e chiava nas chamas. Gostaria de ter bastante sangue para apagá-las. O pior, porém, foram os meus olhos. Detesto a ideia de ficar cega. Já basta o que penso quando estou acordada, mas nos sonhos não posso me livrar dos meus pensamentos. Eles persistem. Neste sonho eu estava ficando cega. Tentei fechar os olhos, mas não pude. Eles devem ter sido queimados e agora aquelas chamas iriam arrancar-nos com os seus maléficos dedos. Eu não queria ficar cega..."

De repente, inopinadamente:

"As chamas não eram tão cruéis, afinal de contas. Comecei a senti-las frias. Geladas. Ocorreu-me, então, que eu não estava sendo queimada, e sim morrendo congelada. Estava ficando anestesiada pelo frio e, de repente, comecei a rir. Havia enganado toda aquela gente que pensava poder me queimar. Sou uma feiticeira. Por artes mágicas, tinha transformado fogo em gelo!"

E assim termina a história de Puerília, aí por volta do ano de 1240, no Languedoc. Termina a sua história? Não. É apenas um capítulo que a fogueira inquisitorial escreveu. Partira, afinal, ao encontro do seu Roger amado, para reencontrá-lo na Inglaterra, 700 anos mais tarde.

*

Às vezes, parece que a Sra. Smith enfrenta certos conflitos interiores ao relatar a história ao Dr. Guirdham:

"Poderia contar-lhe muita coisa mais sobre Roger - escreve ela certa vez. Não que eu esteja deliberadamente a ocultá-las do senhor. É que me sinto tão estupidamente constrangida, que não consigo dizê-las."

É evidente que ela não pode esquecer-se de que o velho psiquiatra, que a curou de maneira quase mágica de um pesadelo de 20 anos, é o seu Roger do século XIII.

Numa visita que ela fez à França, esteve em Bayonne e de lá escreveu a ele:

"No alto da elevação há velha catedral com interior escuro, feio e opressivo. Foi aqui neste lugar sombrio que senti estar justamente onde estive antes e, sinto dizer-lhe isto, tive uma esmagadora sensação da sua presença."

Vejam, agora, a beleza deste depoimento da Senhora Smith, também do tempo em que era uma menina de 13 anos, na Inglaterra:

"Seria maravilhoso se fosse possível encontrar um homem que eu amasse como o amei.

Sei que, várias vezes, pensei estar amando e acho que estou amando agora. Possivelmente Tom e eu seríamos felizes se nos casássemos. Nas profundezas do meu coração, porém, ainda amo aquele homem dos meus sonhos. Sinto que pertenço a ele e a ninguém mais. Gosto que Tom me beije. Às vezes, penso em como seria estupendo casar-me, mas isso não seria nem uma fração do que seria se o casamento fosse com Roger, que nunca foi meu marido, e é, contudo, o mais precioso amante que tive ou que jamais terei."

Tão belo quanto a pureza desses amores é descobrir que o fio invisível da nossa vida se entrelaça com muitos outros e ao longo dos milênios vão tecendo um tapete mágico de sonhos e de dores, de mortes e renascimentos, de alegrias e de esperanças. É muito belo saber que um dia veremos todo o tapete diante de nossos olhos siderados e só então haveremos de perceber que aqueles fios, tecidos pelas mãos hábeis das leis, divinas, vão ficando cada vez mais diáfanos, até que, convertidos na substância mesma da luz, mergulham na luz maior e mais pura que nasce do âmago mesmo do próprio Deus...

Hermínio C. Miranda do livro:
Nas fronteiras do além (Seleção de textos do autor, 
publicados na Revista Reformador - FEB)

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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O conde de Rochester

O conde de Rochester

Hermínio C. de Miranda


John Wilmot - Conde de Rochester

ARTIGO: A aventura, a tragédia, o remorso
FONTE: Revista Reformador de fevereiro de 1976 
Hermínio C. de Miranda


O CONDE DE ROCHESTER

Em meados de 1680, um nobre inglês de 33 anos de idade morria lentamente de velhice, numa longa e dolorosa agonia física e espiritual. Chamava-se John Wilmot, Conde de Rochester.

No dia 19 de junho, ditou um documento pungente de remorso e mágoa ante o tempo perdido, a inutilidade de uma preciosa existência consumida em loucuras inomináveis, e de um talento desperdiçado tão abundantemente na elaboração do verso genial, mas corrupto. 

Esse testamento espiritual, escrito “em beneficio daqueles que possam ter sido arrastados ao pecado pelo meu exemplo e estímulo”, foi assinado na presença da velha mãe e da jovem esposa. Por exemplo expresso de seu signatário, deveria ser lido a toda a criadagem, “até ao tratador de porcos”. Dizia, em suma, que “do fundo da minha alma, detesto e abomino todo o curso de minha vida iníqua”.

A 25 do mesmo mês, em carta ditada ao Reverendo Gilbert Burnet, seria ainda mais explicito:

“Meu ânimo e meu corpo definham tão juntamente que lhe escreverei uma carta tão fraca como me sinto. Começo por dizer que coloco os sacerdotes acima de todas as criaturas no mundo e o senhor acima de todos os sacerdotes que conheço.”

O fim chegava lento, penoso e inexorável. De há muito estava minado seu vigoroso organismo. Em abril de 1678, dois anos antes, circulara mesmo a notícia de sua morte. A informação, que Anthony Wood registrara em seu diário, era falsa, mas não as suas mazelas, pois estivera mesmo “at the gates of death”, às portas da morte. Já em 1669, no entanto, frequentava ele os “banhos” da Srª Foucard, em busca de alívio para a depredação que as doenças venéreas estavam causando em seu corpo. Aos 24 anos de idade segundo ele próprio declarou por escrito – seus olhos não suportavam mais vinhos nem água.

“Se abandonasse o vinho e as mulheres escreve Graham Greene, no seu estupendo livro – poderia ter sido salvo, mas não tinha força de vontade para isso, mesmo que o quisesse.”

Levado pela paixão desesperada pela vida, consumira-se de um só trago. “queimando a vela pelas duas pontas”, como diz a expressão inglesa. Tornara-se, agora , a sombra do que fora, enquanto jazia atormentado pelas dores físicas e morais, no leito de agonia, úlceras atrozes consumiam-lhe a bexiga, que era expelida aos pedaços, em crises insuportáveis, segundo relato de Burnet, o anjo bom dos seus últimos dias. Não obstante, dessa ruína física emergiam os clarões de decisões importantes para a vida daquele espírito bem dotado.

“Quando seu moral estava tão baixo e exausto que ele não podia nem andar ou mover-se –escreve Burnet -, e pensava não viver mais que uma hora, disse ele que sua razão e sua capacidade de julgamento estavam tão claras e fortes que, daquele momento em diante, estaria totalmente convencido de que a morte não significa o desaparecimento ou a dissolução da alma, mas apenas sua separação da matéria. Sentia, durante a doença, grandes remorsos ante sua vida pregressa, mas como me disse, depois, tais remorsos eram mais de natureza de horrores generalizados e trevosos do que uma convicção de tivesse pecado contra Deus. 

Lamentava que tivesse vivido de modo a dissipar as suas energias tão cedo, e criado tão má reputação em torno de si mesmo; sua mente estava de tal modo agoniada que ele nem sabia como se expressar.”

Não foram poucos os que duvidaram desse arrependimento de última hora. É difícil aos companheiros da libertinagem e do erro admitirem que um deles, de repente, saltou a cerca espinhosa da dor e caiu, ofuscado e atônito, do lado claro da verdade. William Fanshawe foi um desses.

Em carta de 19 de junho à sua irmã, Lady Rochester, mão do doente, narra a cena do reencontro dos dois amigos, um ainda preso ao desespero de viver todos os prazeres e outro atirado ao leito, à espera da morte, exatamente porque tentara também frui-los todos.

“Mr. Fanshawe, seu grande amigo – escreve Lady Rochester , esteve aqui para vê-lo e, enquanto em pé, ao lado da cama de meu filho, este olhou-o intensamente e disse... 

“Fanshawe, pense em Deus, deixe-me dar-lhe este conselho, e arrependa-se de sua vida passada, e se emende. Acredite no que eu digo: Deus existe, um Deus poderoso, um Deus terrível para os pecadores impenitentes. Está chegando a hora do julgamento, com grande terror para os maus; por isso, não adie o seu arrependimento: o desagrado de Deus desabará sobre você, se você não o fizer. Você e eu somos antigos companheiros, e praticamos juntos muitos erros. Amo a criatura humana e lhe falo diretamente da minha consciência, para o bem de sua alma.”

Segundo Lady Rochester, Fanshawe ficou ali em pé por alguns minutos mais, sem dizer uma palavra; pouco depois, “stole away out of the room”, ou seja, retirou-se de mansinho do quarto. Quando Rochester percebeu que ele havia saído, perguntou só para confirmar: “Ele foi embora? Coitado. Temo que seu coração esteja muito endurecido.”

O antigo companheiro de farras memoráveis estava convencido de que o amigo tinha ficado doido, e não fez segredo algum de sua convicção, porque a notícia chegou ao conhecimento de Lady Rochester, que se queixa disso em nova carta de 26 de junho. Foi depois da visita de Fanshawe que Rochester ditou o seu testamento espiritual, mas não foram poucos os que continuaram a duvidar da sinceridade da contrição de um jovem muito brilhante que envelhecera e envilecera na devassidão.

Um dia se escreverá a historia de como John Wilmot, Conde de Rochester, se transformou em J. W. Rochester, autor espiritual das extraordinárias narrativas históricas escritas com a dócil mão de Wera Krijanowskia. Enquanto não temos essa história, que só ele mesmo poderá contar, vejamos como foi que o ex-faraó Mernephtah e o ex-beneditino da tenebrosa Abadia do século 13 se tornou John Wilmot, Conde de Rochester.

O livro que conta essa história chama-se “Lord Rochester Monkey” (“O Macaco de Lord Rochester”), edição da Bodley Head, Londres, de autoria do escritor inglês Graham Greene.

O autor informa, no prefácio, que o livro foi escrito entre 1931 e 1934, mas foi então recusado pelo seu editor, Heinemann, o que o deixou tão desapontado que ele não teve coragem de oferecê-lo alhures. Greene supõe que a editora ficou temerosa de enfrentar a opinião pública, pois o livro era considerado obsceno, principalmente em vista da reprodução de vários poemas de Rochester. Graham Greene não obstante, não perdeu o interesse pelo seu tema, pois julga, com muita razão, que Rochester foi um poeta genial, dos maiores da língua inglesa. De qualquer forma, os originais de seu livro magistral dormiram quarenta anos nos arquivos da Universidade do Texas que permitindo fossem copiados, possibilitou a publicação, em 1974.

Trata-se de um volume de 231 páginas, primorosamente elaborado, tanto do ponto de vista literário como gráfico. Impresso em papel excelente, contém inúmeras ilustrações em preto e branco, e maravilhosas reproduções a cores, inclusive retratos e autógrafos de Rochester, com um ar algo sarcástico, colocando uma coroa de louros na cabeça de um macaco que, sentado sobre dois livros, estraçalha um terceiro com um ar de deboche. Rochester segura, na outra mão, a esquerda, originais manuscritos de alguns poemas.

Rochester nasceu em 1647 – há dúvidas quanto à data precisa, que seria 1º ou 10 de abril, num período difícil da história da Inglaterra. Duas das mais fortes paixões humanas – religião e política – haviam concorrido para criar um clima de tensões violentas, que precipitaram o país em crises e lutas sangrentas. Nem mesmo a execução do rei Charles I, em 30 de janeiro de 1649, acalmou os ânimos, e, depois de um interlúdio, em que Cromwell governou com vigorosa disciplina, Charles II recuperou o trono , em maio de 1660. Governaria o país, a seu modo, até 1685. Nascera em 1630, sendo, portanto, cerca de 17 anos mais velho que Rochester, e foi rei do poeta, que o serviu em várias condições, como veremos.

A Enciclopédia Britânica diz que ele era “demasiado preguiçoso e amante dos prazeres para se dedicar com firmeza às suas funções, mas às vezes enérgico, e sempre inteligente”. Não teve filhos legítimos, mas um meia dúzia de bastardos, os quais agraciou com títulos de nobreza. Queixa-se a Britânica de que os que denunciam sua moral demoram-se nos seus vícios, esquecidos de seus talentos.

Rochester era filho de Henry Wilmot e de Anne, filha de Sir John St. John, viúva de Sir Francis Henry Lee, com que esteve casada apenas dois anos. Este casamento deixou-lhe dois filhos e uma propriedade em Ditchley. Casou-se com Lord Wilmot, em 1644. Era, segundo Greene, mulher obstinada, impulsiva, cheia de preconceitos, e sobreviveu ao marido, ao filho e ao neto, bem como à nora. Anthony Wood ouvira dizer, conforme escreveu em seu diário, que John Wilmot, o segundo Conde de Rochester, seria filho ilegítimo de Sir Allen Apsley, mas Greene não endossa o registro, atribuindo-o à malícia daqueles tempos socialmente tumultuados, pois a virtude de Lady Rochester jamais foi questionada, a despeito de seu temperamento desabrido.

Além do mais , ele se parecia com o pai, não apenas fisicamente, como até no gênio aventuroso e folgazão. Henry Wilmot era ambicioso, orgulhoso e incapaz de se contentar com o que quer que fosse. Bebia abundantemente e tinha temperamento dominador, “suportando com impaciência a contradição”; sem escrúpulos religiosos, entregou-se à devassidão.

“Era bem o pai do homem que, segundo disse Gilbert Burnet, o historiador, durante cinco anos consecutivos se manteve embriagado...” – escreve Greene.

Devido ao importante papel que desempenhou na fuga do rei Charles I, Henry Wilmot teve de deixar a Inglaterra. Entre 1653 e 1654, Lady Wilmot esteve em Paris com seus filhos – dois do primeiro matrimônio, e o pequeno John, então com seis para sete anos – em busca do marido aventureiro que, aliás, se encontrava na Alemanha, tentando levantar dinheiro para ajudar a causa do rei, seu amigo e senhor. A essa altura, Henry Wilmot, já havia sido distinguido com o título de Conde “Earl”, em inglês, e empenhava-se, no continente, no esforço de repor seu rei no trono e, certamente garantir para si próprio uma fatia de poder. 

Lady Rochester, porém, não tinha paciência nem gosto pela vida na Corte, muito menos, a de um rei pobre e destronado, ocupado com a sua décima sétima amante.

Henry Wilmot morreu em Sluys, em 1658, e foi enterrado temporariamente em Bruges, na Bélgica, deixando ao segundo Conde de Rochester, então com 11 anos, “pouca herança além das honrarias e do título”. Desde que deixara Paris, em 1656, de volta a Ditchley, que herdara de seu primeiro marido, até a morte do segundo em 1658, Lady Rochester tivera oportunidade de estar com Henry apenas uma vez.

Daí em diante, ao se referir ao Conde de Rochester, o livro quer dizer o segundo, ou seja, John Wilmot, que se tornaria tão popular ao público brasileiro de nossos dias sob o nome de J. W. Rochester, autor de tantos livros fascinantes, como “Romance de uma Rainha”, “Herculanum”, “O Sinal da Vitória”, “O Chanceler de Ferro”, “A Vingança do Judeu” e outros.

Enquanto seu pai vivia seus derradeiros anos de aventura, o jovem John Wilmot crescia em Ditchley, que nunca foi suplantada na sua preferência, nem mesmo pelas atrações e prazeres que mais tarde teria em Londres, nos meios aristocráticos.

“A cidade – escreve Graham Greene – seria o divertimento nublado pela bebida, as intrigas do teatro, as amizades artificiais com os poetas profissionais, os casos de amor e luxúria, as disputas na Corte, a amizade do rei a que ele desprezava, os bordéis de Whetstone Park, as doenças e os remédios, os “banhos” da Sra. Fourcard. O interior seria a paz, uma espécie de pureza mesmo, e, finalmente, o lugar para morrer.”

Essa a perspectiva da vida do menino que, aos 11 anos, carregava os títulos pomposos de Conde de Rochester, Barão Wilmot de Adderbury, na Inglaterra, e Visconde Wilmot de Athlone, na Irlanda.

Na escola primária de Burford, o jovem Conde foi aluno exemplar. Era disciplinado e aprendia com facilidade. Há depoimentos escritos de seus professores, atestando sua natureza virtuosa, boa e sempre pronta a acolher um conselho aproveitável; enfim, como disse Gifford, seu tutor doméstico, “a very hopeful youth”, ou seja, “um jovem que muito prometia”.

Gifford, no entanto, não o acompanhou a Oxford, como esperava, e, mais tarde, diria que a vida do Conde teria sido muito diferente se ele o tivesse seguido mais além, em seus dias de formação. No que, acredita-se, ela não deixou de ter alguma razão, pois era homem austero e disciplinador, e, ao que tudo indica, Rochester respeitava-o.

A cultura do jovem Conde foi bastante ampla para a época. Manejava com facilidade o latim e o grego, e era versado nos clássicos dessas línguas. Nos seus versos, mais tarde, apareceriam adaptações de Lucrécio, Ovídio ou Sêneca, a despeito dos resmungos de Gifford, que, enciumado dos progressos de seu antigo pupilo, dizia que ele pouco sabia de latim, e muito menos de grego.

Na realidade, o ressentimento era profundo. Certa vez em que Rochester reclamou que o velho não vinha vê-lo com mais frequência, Gifford respondeu com azedume e mágoa: ”My Lord, sou um sacerdote, Vossa Graça tem o péssimo caráter do devasso e do ateu, e não ficará bem para mim estar em companhia de Vossa Graça, enquanto esse procedimento durar, enquanto o senhor continuar nessa vida.”

E, assim, em 1660, sem Gifford, Rochester partiu para o Wadham College, em Oxford. Não completara 13 anos, e não estava ainda suficientemente amadurecido para experimentar a vida livre de um grande colégio, nem suportar o assédio da malícia e da irresponsabilidade de um ou outro companheiro mais impetuoso.

Quando um mestre mais impertinente tentou coibir o uso da cerveja, e chamou os alunos para uma conversa a sério, os estudantes disseram que os homens do Vice-Chanceler da Faculdade também tomavam das suas na Taverna da “Split Cow”. O Mestre foi ao Vice-Chanceler que, por sua vez, não sendo indiferente às atrações da cerveja, deu de ombros, dizendo que não via mal no que o Mestre rotulava de “aquele licor infernal que se chama cerveja”. Diante disso, o Mestre tornou a reunir os jovens e deu-lhes permissão para beber, “de modo que pudessem ser beberrões autorizados”, e não clandestinos. Esse era o ambiente de Oxford, de onde Rochester saiu em 9 de setembro de 1661, com 14 anos de idade, levando o título de “Master of Arts”. Em novembro, ele partiu para o Continente, em companhia de Sir Andrew Balfour, conhecido botânico e homem integro. A viagem seria principalmente à França e à Itália.

Ao regressar, a doce vida estava aberta diante dele.

Um relato da época descreve-o como um jovem gracioso, alto e esguio, de feições extremamente atraentes, inteligente, irresistivelmente charmoso (“charm not to be withstood”), brilhante, sutil, sublime, muito bem educado, e “adornado como uma natural modéstia que o tornava encantador”. Além do latim e do grego, já referidos, dominava perfeitamente o francês e o italiano, estando familiarizado com autores clássicos e modernos nessas línguas, sem contar o inglês. Era, pois, uma figura encantadora, com todos os atributos para conquistar a frívola sociedade de seu tempo, e até mesmo admiração autênticas.

Cedo, pois, estava ele profundamente engajado nas intrigas da corte de Charles II, de que passou a desfrutar amizade e confiança. Em carta de 26 de dezembro de 1664, o rei escrevia à sua querida irmã, casada com o Duque de Orléans: “Somente ontem recebi uma carta, por intermédio de Lord Rochester.” O Lord tinha apenas 17 anos...

No ano seguinte, raptou Elizabeth Mallet, herdeira de propriedades que rendiam 2000 libras por ano, o que não era de se desprezar para um Conde bonito e talentoso, mas empobrecido.

Era a noite de 26 de maio. A moça havia ceado em White Hall, em companhia de seu avô, com Frances Stewart, uma das Damas de Honra da corte. Achava-se a caminho de casa, com Lord Hawley, quando um grupo de homens armados, sob o comando de Rochester, fez parar a carruagem em Charling Cross. Puseram-na em outra condução e levaram-na para fora de Londres, a um lugar secreto, onde duas mulheres a esperavam. A noticia circulou, e Lord Rochester foi capturado em Uxbridge, sem Elizabeth. O rei, que havia tentado arranjar o casamento de ambos, ficou furioso. Em 27 de maio, foi expedida uma ordem de prisão, e Rochester foi recolhido à Torre. Elizabeth, resgatada, voltou aos seus. Mais tarde, precisamente em 29 de janeiro de 1667, ao cabo de inúmeras peripécias, ela se casaria com Rochester, contrariamente à expectativa de todos os seus amigos”, segundo a velha Senhora Rochester.

Antes, porém, viveu ele a aventura do mar, no combate à marinha holandesa, no que se saiu com valor, embora sem atingir o posto de almirante, como alguns acreditaram e divulgaram. 

Atribui-se, no entanto, sua admissão à Câmara dos Lordes (Parlamento), antes dos 21 anos de idade, à sua atuação na campanha. Foi nessa oportunidade que Rochester, assediado por premonições de morte, celebrou com seu amigo e companheiro Wyndham um pacto formal, com aspectos de cerimônia religiosa, segundo o qual aquele que morresse primeiro prometia aparecer ao outro, para dar notícia do futuro estado, se é que existia um futuro estado. Um terceiro amigo, um certo Edward Montague, recusou-se terminantemente a fazer parte do acordo.

Rochester regressou são e salvo à Inglaterra para encontrar seu país sacudido por uma das grandes pragas que dizimavam populações inteiras naquela época; mas a vida seguia seu curso entre o pavor da morte e o aceno dos divertimentos.

Em reconhecimento por seus serviços, o rei atribuiu a Rochester um prêmio de 750 libras que devem ter sido utilizadas para aliviar a pressão de seus credores.

Em fevereiro de 1666, a Corte retornou a Londres, de onde fugira espavorida, e, em março, Rochester foi nomeado “Gentleman of the King’s Bedchamber”, ou seja, Camareiro do Rei, posto honorífico que o monarca reservava aos seus íntimos amigos , e que rendia os vencimentos nada desprezíveis de 1000 libras por ano. A principal função do Camareiro era apresentar ao rei, todas as manhãs, a sua primeira peça de roupa, uma espécie de camisa com a qual o vestia. Além disso, supervisionava a ordem dos aposentos reais, vendo que nada faltasse ao conforto de Sua Majestade.

O jovem Conde preferia, no entanto, a aventura, e, no verão de 1666, fez-se ao mar novamente, em companhia de Sir Edward Spragge, para novas lutas com os holandeses, e desta vez para derrotas humilhantes.

Ao casar com Elizabeth Mallet, Rochester não completara ainda 20 anos, e Graham Greene queixa-se de que os 13 anos restantes de sua vida são difíceis para o biógrafo, pelas fantásticas histórias que circulam a respeito, as aventuras amorosas, com várias cortesãs e senhoras da sociedade, ??? suas amizades literárias, suas disputas, algumas das quais resultaram em duelos mais ou menos românticos, suas desavenças com o rei, seu papel de charlatão, quando resolveu ser médico, “como se todos esses anos escreve Greene fossem nublados pelos vapores da bebida”.

Suas visitas à esposa, que permanecera na propriedade rural, eram intermitentes e espaçadas. Desse período aventuroso e vago, somente se conhecem com precisão as datas do batismo de seus filhos: Anne, em 30 de agosto de 1669; Charles, o único filho varão, em 2 de janeiro de 1671; Elizabeth, em 13 de julho de 1674; e, em 6 de janeiro de 1675, sua última filha legítima, Mallet, pois teve ainda um filha com a atriz Elizabeth Barry, em Londres, em 1677.

Em suma: a vida era uma enorme “chatice” que, no entanto precisava ser vivida, e “Rochester bebia para torná-la suportável”.

Piores momentos viriam, porém.

“A paixão do ódio começou cedo, escreveu Graham Greene. Atrelada, como estava, à ingratidão, suspeita-se de que a bebida tenha começado a afetar o caráter de Rochester ai pelo fim de 1667, dez meses depois de seu casamento.”

O ódio era difuso e impessoal, mais pela sociedade, suas hipocrisias e falsidades, pois, na palavra repetida de seu biógrafo, “odiava a imoralidade...nos outros, enquanto se permitia todos os desatinos. É essa a imagem que, provavelmente, tentou retratar o pintor que o figurou coroando um macaco que destrói livros. A 5 de outubro, foi convocado para a Câmara dos Lordes, com 21 anos incompletos, o que provocou alguns protestos veementes; mas , o rei manteve sua decisão. Estava “de bem” com Rochester. De outras vezes, expulsá-lo-ia da Corte, dado que o poeta não poupava nem mesmo o seu real amigo nos seus terríveis epigramas, às vezes em versos pornográficos irreproduzíveis, como os que constavam da sua “The History of the Insipids”.

Com outro rei mais impulsivo a carreira de Rochester estaria para sempre encerrada, e, talvez, a sua vida; mas, Charles acabava por readmiti-lo na sua intimidade, e até conferiu a ele cargos e bens. Além da posição de Camareiro, que Rochester abandonou, o rei designou-o para a Câmara dos Lordes, como vimos. Em fevereiro de 1668, foi nomeado Guardião da Caça Real, em Oxford, e, em abril, Rochester fez uma petição solicitando quatro distritos em Whittlewood Forest. Em 1673, foi-lhe atribuído, em comum com Laurence Hyde, o domínio de uma propriedade da coroa, em Bestwood, e quatro carregamentos de feno de Lenton Mead, tudo isso a troco de um aluguel nominal de 5 libras por ano. Em 1674, Rochester foi nomeado Guardião de outra propriedade, chamada Woodstock Park. Em abril do ano seguinte, nova nomeação para um cargo honorifico, e, em junho, o usufruto de algumas propriedades. Três dias depois da nomeação ele quebrou um raríssimo relógio de sol, no jardim do palácio na inconsciência da embriaguez.

Graham Greene não pode deixar de observar o estranho relacionamento entre Rochester e seu rei, que, tão pacientemente, suportou suas loucuras e impertinências. “Talvez, acrescenta o biógrafo, somente no abismal cinismo do rei se poderia encontrar a explicação.” Ou, diríamos nós, numa amizade sincera, que resistia aos mais duros embates da provocação e do ridículo em que o poeta às vezes o colocava perante a Corte e a nação, em versos que circulavam por toda parte.

Numa dessas expulsões da Corte, Rochester e seu amigo Buckingham adquiriram uma estalagem na Newmarket Road, onde se esmeravam em tratar tão bem os clientes que os homens passaram trazer também as esposas.

Enquanto os maridos bebiam, Rochester e o amigo cortejavam as esposas. Uma delas, particularmente difícil, porque o marido teimava em mantê-la em casa, aos cuidados de uma irmã, Rochester conquistou com um artificio: enquanto o amigo embebedava o marido, o poeta vestiu-se de mulher e conseguiu insinuar-se, colocando a tia-guardiã fora de combate com uma dose de ópio, habilmente ministrada.

Daí em diante, as loucuras desatam-se mesmo, constituindo, às vezes, incidentes sérios, como o de Epsom, em que Rochester só por milagre não foi levado à justiça para responder por crime de morte. Andou foragido, por algum tempo, e, depois, reapareceu na Corte. O rei o havia perdoado novamente.

Depois disso, foi a aventura como “médico”, especialmente de senhoras, e como astrólogo. Os anúncios que então publicou foram preservados.

Quanto às previsões astrológicas – dizia um texto “publicitário”, fisiognomonia, adivinhação por meio de sonho e outras (na quiromancia não acredito, porque não possui a base invocada em seu suporte), minha própria experiência me convenceu dos seus consideráveis efeitos e maravilhosas operações principalmente no sentido dos acontecimentos futuros, na preservação de perigos ameaçadores e na utilização de vantagens que se possam oferecer. 

Afirmo que minha pratica me convenceu dessa verdade do que todos os eruditos e sábios escritos existentes sobre a matéria: porque isso posso dizer por mim (sem nenhuma ostentação), que raras as vezes tenho falhado nas minhas predições, e com frequência tenho sido muito útil em meus conselhos. Até onde posso ir neste assunto, estou certo de que não poderia dizê-lo por escrito.

Com um “anúncio” desses, quem deixaria de procurar o jovem astrólogo, além de tudo muito simpático, inteligente e bonitão? Especialmente mulheres românticas e ambiciosas, ou ingênuas.

É certo, porém, que ele não acreditava no produto que anunciava, mesmo porque o Espírito de seu amigo Wyndham – aquele do pacto de morte – não voltara para dizer se havia ou não vida póstuma. No entanto, outro episódio de premonição impressionara-o bastante para merecer um relato de Burnet.

Um capelão que frequentava a casa de Lady Warren, sua sogra, sonhara que em tal dia morreria; mas, como trataram de dissuadi-lo da ideia, ele acabou por esquecer o sonho. 

Uma noite, porém jantavam 13 pessoas em torno da mesa e, segundo antiga superstição, uma delas deveria morrer breve. Uma jovem presente apontou o capelão como candidato à desencarnação, o que trouxe de volta à sua mente a lembrança do sonho, e o deixou perturbado. Lady Warren repreendeu-o pela sua preocupação com a crendice, mas o certo é que o homem, em perfeitas condições de saúde, amanheceu morto no seu aposento.

Isso, porém, somente iria fazer algum sentido para Rochester quando ele próprio se avizinhava da hora final. Enquanto essa hora não chegava, a vida tinha de ser vivida, e o mais intensamente possível.

Na sua aventura como charlatão da Medicina, seu interesse mais uma vez se focalizou na clientela feminina, à qual prometia maravilhas de restauração e conservação da beleza física, segundo técnicas que teria aprendido na Itália, onde “mulheres de 40 anos tem a mesma aparência das de 15”. Lá não se distinguia a idade pelo rosto, “enquanto na Inglaterra, ao olhar um cavalo na boca e uma mulher na face, sabe-se com precisão suas idades”. Para remediar tal situação vexatória, lá estava o Dr. Rochester, com seus remédios miraculosos que limpavam a pele, clareavam os dentes, tornando-os “brancos e redondos como pérolas, fixando os que estivessem frouxos”. Enquanto isso, as gengivas ficariam vermelhas como coral, e os lábios da mesma cor e “macios como você os desejar para beijos lícitos” (lawfull kisses”), pois o jovem médico não poderia fazer mau juízo de suas clientes... Além do mais, eliminaria gorduras indesejáveis, ou poria carnes onde necessário. Sem nenhum prejuízo para a saúde. E concluía:

“Mesmo que o próprio Galeno desse uma espiada de sua sepultura e me dissesse que isto tudo fossem recursos indignos da profissão médica, eu lhe diria, friamente, que, com muito mais glória, preserva a imagem de Deus na sua beleza imaculada, numa boa face, do que o faria remendando todas as decadentes carcaças do mundo”.

E assim segue a vida, esquecida de si mesma, atordoada em loucuras, desinteressada do futuro. Se ao menos o amigo Wyndham tivesse voltado para confirmar a vida póstuma...

Aos 30 anos, tem notícia do nascimento de sua filha ilegítima com Elizabeth Barry, em Londres. Rochester estava doente, já prematuramente desgastado, numa de suas propriedades rurais. Em carta ao seu amigo Saville – outro companheiro de desatinos – escreve que está “quase cego, completamente coxo e com remotas esperanças de Londres outra vez”. 

Mas, ainda se recuperaria para voltar a Londres e à vida tresloucada, com entreatos em sua propriedade em Woodstock, onde promovia bacanais memoráveis e distúrbios inenarráveis na vizinhança, com inocentes criaturas.

Enquanto isso, Lady Rochester, a jovem esposa, vivia por ali mesmo, a cerca de 15 milhas, em Adderbury, com os filhos, uma existência pacata, recolhida e sem horizontes.

E, por estranho que pareça, Rochester amava-a, à sua maneira, é claro, e respeitava-a. 

Ademais, adorava os filhos, e todos gostavam muito dele. Suas rápidas passagens pelo lar devem ter sido sempre momentos de alegria e descontração, pelo seu gênio alegre e pelas histórias que deveria contar, não as escabrosas, mas as que pudessem passar pelo crivo da moral. Nos seus filhos, segundo Graham Greene, ele via a única forma de imortalidade em que podia acreditar: a continuidade da vida nos descendentes.

Uma de suas cartas ao seu filho Charles preservou-se, com sérias recomendações sobre o bom procedimento e o amor a Deus. Greene comenta, depois de transcrevê-la, que não se trata de documento de um hipócrita. Ele realmente desejava para o filho uma vida diferente da sua, queria que o menino crescesse crendo em Deus e “não imitasse seu pai a caminhar no frio de um universo ateu”. Diria, mais tarde, a Burnet que considerava muito felizes aqueles que tinham fé, “dado que isso não estava ao alcance de toda a gente”.

É certo, porém, que, para um homem de seu talento e de suas inclinações para a vida libertina, as religiões predominantes na época não tinham muito a oferecer, ainda mais que disputavam ferozmente entre si não a supremacia dos corações e das consciências, mas a do poder temporal. É óbvio, também, que, mesmo na tormenta da sua vida inconsequente, ele ouvia em si a voz de Deus a chamá-lo. Mas, chamá-lo para onde? Para o Catolicismo? Para o Protestantismo?

Num poema intitulado “On Rome’s Pardons” (“Do Perdão de Roma”), dizia que “se Roma pode perdoar pecados, como diz, e se tais perdões podem ser comprados e vendidos não seria pecado adorar e venerar o ouro. Quando surgiu esse artifício, ou quando começou? Quem é o seu autor? Quem o trouxe? Teria o Cristo criado uma alfândega para o pecado?”.

Seja como for, ele deve ter encontrado mais lógica na doutrina reformista, pois conseguiu, já no final, converter sua mulher do Catolicismo para o protestantismo anglicano.

Pouco depois, com o corpo devastado pelas doenças, e com o Espírito ansioso, amargurado e cheio de remorsos, iniciaria, ao lado de Gilbert Burnet, a última aventura: a busca de Deus e da verdade escondida atrás do mistério da vida.

Esse dedicado sacerdote passou horas e horas ao lado do jovem Conde agonizante, e, meses depois da morte de Rochester, publicou, ainda em 1680, um precioso livro sobre a vida do malogrado amigo: “Algumas passagens sobre a vida e a morte do nobre John, Conde de Rochester, morto em 26 de julho de 1680.”

Muito gostaríamos de ter em mãos esse livro raríssimo, pois é ele o verdadeiro testamento moral de um Espírito extremamente bem dotado, mas mergulhado numa crise terrível de insatisfação consigo mesmo, sua vida e seus atos, diluído tudo numa loucura que durou umas poucas décadas, e que acabou em agonias penosíssimas.

Seria preciso, também, percorrer os seus versos geniais, para ver faiscar na lama escura da obscenidade a pedra cintilante das suas intuições, como, para citar um só exemplo, a intuição da reencarnação, colocada num verso que, de tão pornográfico, se torna irreproduzível.

Burnet foi o confidente da hora última, dia após dia, até o amargo fim, desde outubro de 1679, quando Rochester mandou buscá-lo. Depois dos primeiros encontros, “ele adquiriu confiança em mim – escreve Burnet – e abriu para mim todos os seus pensamentos, tanto em religião como em moral, proporcionando-me uma visão completa de sua vida, e não parecia aborrecer-me com minhas frequentes visitas”.

É claro que, a princípio, o depoimento de Burnet foi considerado apócrifo, especialmente pelos amigos de Rochester, que não podiam aceitar a conversão, naqueles termos tão dramáticos, de quem realmente busca, aturdido e contrito, o sentido da vida, afinal revelado nas últimas horas. A passagem do tempo, no entanto, confirmou a autenticidade do livro, porque as pesquisas realizadas em dois séculos e meio em torno de Rochester deram credibilidade ao que o bom sacerdote documentou de maneira comovente.

Burnet foi o grande doutrinador junto de Rochester. Só que , em vez de doutrinar um Espírito já desligado, esforçava-se por levar uma parcela de luz e de esperança ao coração de um que partia e se preparava para enfrentar a realidade póstuma. Seu mérito é ainda maior, quando nos lembramos de que ele dispunha apenas da precária teologia dogmática que a sua intuição e sua sabedoria devem ter suprido na extensão suficiente e necessária para acordar aquele Espírito ainda na carne.

Rochester estava, afinal, disposto a ouvir: o debate a beira do túmulo contém 302 linhas atribuídas a Rochester, e 1671 a Burnet. Mesmo assim, não deve ser sido fácil a tarefa para o virtuoso e culto sacerdote, pois seu oponente desejava uma realidade que pudesse admitir com apoio da lógica, e não uma crença que teria de aceitar à base da fé sem especulação intelectual.

Achava o Conde que nossa concepção da ideia de Deus era tão insignificante que seria mera presunção pensar nele. Era melhor adorá-lo independentemente de qualquer culto religioso, mas com uma celebração genérica, como, por exemplo, com um hino.

Quanto à vida depois da morte, “apesar de achar que a alma não se dissolve com a morte, duvidava muito das recompensas, tanto quanto das punições: as primeiras, por achá-las muito elevadas para que as alcançássemos com os nossos minúsculos serviços, e as outras demasiadamente excessivas para serem impostas ao pecado”.

Em suma: não podia aceitar céu nem inferno. Portanto, admitia claramente que deveria haver outras formas de ajustar a alma ao bem, dado que ela sobrevivia à morte do corpo físico.

Desse ajustamento, também teve intuições maravilhosas, não apenas no verso pornográfico há pouco lembrado. Certa vez interrompeu Burnet para dizer o que pensava disso:

“Pensava ele – escreve o sacerdote-biografo – que o mais certo é que a alma comece de novo, e que a lembrança do que ela fez neste corpo, registrada nos desenhos do cérebro, tão logo ela é desalojada, tudo desaparece, e a alma é levada a algum novo estado para começar um novo ciclo” (destaque desta transcrição).

Ninguém poderia ter figurado melhor a ideia da reencarnação, há quase 300 anos! O único reparo que cabe fazer na suposição de Rochester é o de que as lembranças, embora gravadas no cérebro físico enquanto o Espírito está encarnado, apagam-se realmente deste, mas permanecem nos registros perispirituais, e quando a alma começa de novo, com um novo cérebro físico, ele se esquece por sua própria conveniência, mas apenas temporariamente, porque nenhuma lembrança se perde.

John Wilmot, Conde de Rochester, voltaria mais tarde para documentar, com narrativas realmente históricas, as doutrinas que confusamente sentia e que não tinha como expressar naqueles meses agoniados em que sua vida física se extinguia lentamente. Afinal de contas, como dissera George Etherege do jovem Conde: "Sei que ele é um demônio, mas ele tem algo de anjo que ainda não se apagou nele." Ou seria o contrário: um anjo em potencial, no qual a face do demônio ainda não se apagara de todo?

Num verso inteligente e brejeiro Sir Francis Fane parece ter tido não apenas a intuição da verdade, mas também a premonição do traçado futuro da vida de Rochester. Para ele, Rochester foi um alegre emissário do Demônio que, de repente, para grande confusão do Maligno, mudou o rumo da sua nau, e, em vez de liderar para o caos as almas perdidas, enfunou as velas na direção das regiões da felicidade eterna.

E assim tivemos a história sumária de John Wilmot, segundo Conde de Rochester, um Espírito que acabou por se encontrar a si mesmo, a despeito do alarido de suas paixões desencadeadas. Não apenas isso. De regresso ao mundo espiritual, depois de pelo menos mais uma vida na carne, resolveu escrever, através de sua amiga Wera Krijanowskaia, a mais bela mensagem do mundo: a de que o Espírito sobrevive e se reencarna tantas vezes quantas necessárias ao seu reajuste perante as leis de Deus, insistentemente desobedecidas ao longo do tempo imemorial. Nada se esquece, nada se perde, tudo serve para a reconstrução do nosso mundo íntimo, até mesmo nossas loucuras, porque também com elas aprendemos a dura lição da vida, que não precisava ser dura se o quiséssemos.

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São muito populares no Brasil as obras mediúnicas ditadas por Rochester, mas uma parte considerável da sua produção histórico-literária ainda é desconhecida, segundo referências que colhemos no prefácio de "A Vingança do Judeu", edição da FEB, 1966.

Das obras já traduzidas, além da retrocitada, são mencionadas as seguintes, cujos títulos darei em português: 
• Tibério 
• A Abadia dos Beneditinos 
• O Faraó Memephtah 
• O Sinal da Vitória 
• Romance de uma Rainha 
• O Chanceler de Ferro 
• Herculânum 
• Naêma, a Bruxa (lenda do século XV) 
• A Lenda do Castelo do Conde de Montinhoso.

Entre as que ainda aguardam divulgação, citam-se os seguintes títulos em francês, neste trabalho traduzidos: 

• O Festim de Baltasar 
• Saul, Primeiro Rei dos Judeus 
• O Sacerdote de Baal 
• Um Grego Vingativo 
• Fraquezas de um Grande Herói 
• O Barão Ralph de Derblay 
• Diana de Saurmont 
• Dolores 
• O Judas Moderno 
• Narrativas Ocultas.

Só a leitura desses títulos nos aguça a curiosidade pelo mundo de revelações históricas que devem conter essas obras e as trajetórias de tantos Espíritos notáveis, no bem e no mal. Em "Dolores", por exemplo, o autor espiritual narra acontecimentos ocorridos na Espanha e em Cuba, no século 18, quando teria vivido sua mais recente encarnação. Há mais, porém: Rochester teria prometido aos amigos encarnados que compunham o círculo onde se manifestava, escrever "As Memórias de um Espírito" que, no dizer do prefaciador de "A Vingança do Judeu", seria "o seu trabalho capital". Teria escrito essa obra? Se não o fez, sempre haverá tempo de fazê-lo, porque a vida se desdobra pelo infinito, as memórias permanecem indeléveis no substrato do Espírito, e o ser caminha para a realização do amor que marca o nosso retorno a Deus. 

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Hermínio C. de Miranda
Revista Reformador de fevereiro de 1976.
Posteriormente publicado  no livro: 
Fronteiras do Além pela FEB, com inclusão do trecho final que aparece acima entre separadores.

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