Mostrando postagens com marcador Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Os Imponderáveis da Cura Espírita

Os Imponderáveis da Cura Espírita

J. Herculano Pires



Pasteur descobriu o mundo das bactérias infecciosas que ameaçam a saúde e a vida do homem no planeta e ninguém lhe dava crédito, porque esse mundo era imponderável e invisível. Kardec descobriu o mundo dos espíritos, que ameaçam por toda parte o equilíbrio mental e emocional dos homens, mas a condição imponderável e invisível desse mundo levou-o ao ridículo perante as corporações científicas. Freud descobriu o mundo igualmente imponderável e invisível das instâncias da personalidade, que influem no comportamento humano, e até hoje os cientistas positivos, que só acreditam no que podem ver e pegar, não se cansam de combatê-lo e ridicularizá-lo. O conceito do positivo exclui da realidade científica as causas imponderáveis que se ocultam numa realidade subjacente do real. A rés (ou coisa) tem de se manifestar como tal na perspectiva científica, sob pena de não merecer atenção das Ciências. Mas a vida e a morte, os sonhos e as aspirações do homem são o fundamento de toda a realidade que nasce do imponderável e do invisível para constituir a realidade. O próprio método científico teve de apoiar-se na técnica fantasmal, ou seja, das aparições, pois o pesquisador científico remonta dos efeitos à causa para definir o real. O fenômeno, com sua raiz etimológica grega, é simplesmente o fantasma. A mecânica do positivo chama-se revelação. Sem a determinação positiva do número kantiano o fenômeno não existe. Bastaria esse fato linguístico para se provar que o positivo é engravidado pelo imponderável. Sem este não temos aquele. Dessa maneira, a busca científica do real se processa inelutavelmente na subjacência do imponderável e invisível.

Hoje, com isso sobejamente provado, não há mais razão para se querer negar a positividade do imponderável. Por isso, Kant falhou ao determinar os limites dialéticos do conhecimento humano e Cassirer demonstrou, em sua Tragédia da Cultura, que a Religião e a Ciência se fundamentam igualmente no imponderável da Fé. Sem a fé na Ordem Universal, que não pode ser cientificamente provada, a Ciência seria impossível. O religioso parte da fé em Deus para conhecer a realidade universal. O cientista parte da fé na Ordem Universal para descobrir o real.

Mas o que é a fé, senão a crença transformada em verdade pela invisível e imponderável intuição do homem? Kardec afirmou: “Só podemos ter fé naquilo que conhecemos.” E ao mesmo tempo em que ele fazia essa afirmação audaciosa, provava a realidade do imponderável e inacessível através das manifestações espíritas. A mediunidade se apresentava a ele, através da pesquisa científica, como a percepção extrassensorial, que antecipa a realidade imponderável e invisível que amadurece na subjacência do real. E Mannheim, em nossos dias, confirmaria essa possibilidade no estudo da utopia, que se mostra, no plano sensível da realidade social, como antevisão de realidades futuras. O vidente e o profeta que anunciam realidades ainda ocultas na subjacência do real concretizaram necessariamente o vir a ser das realidades ainda em gestação no futuro. E essa visão alucinatória está hoje cientificamente provada como realidade nas pesquisas parapsicológicas.

Não houve milagres nem magia nessa transposição da utopia em realidade positiva, mensurada e pesada na imponderabilidade dos métodos estatísticos que abrangem as quantidades outrora imponderáveis da realidade oculta das aparências do irreal. A Ciência Espírita se apresenta, assim, como a base irremovível de toda a revolução científica do nosso tempo. A pedra rejeitada da parábola evangélica foi necessariamente colocada no ângulo de sustentação de todo o edifício. Porque toda a solidez da matéria depende da fluídica do espírito e a matéria acaba se revolvendo em pura dinâmica espiritual. As experiências fragmentárias da Cultura só podem ser unificadas na síntese da consciência. Por isso Russel Wallace chegou à conclusão de que toda forma de psicologia nada mais é do que um espiritismo rudimentar. Os psicólogos tratam a psique, a alma, como caçadores de borboletas. Muitos deles se tornam colecionadores apaixonados de borboletas mortas pregadas em cartolinas coloridas. Enganam-se com o jogo de cores dos efeitos psíquicos, elaboram teorias engenhosas sobre as várias formas do borboletear do espírito, mas não se atrevem a mergulhar no labirinto do psiquismo, única maneira de se defrontarem com o minotauro e conhecê-lo de perto.

Russel Wallace, que corrigiu o darwinismo com fortes injeções de espírito, não teve dúvidas em colocar no seu devido lugar epistemológico as tentativas periféricas do estranho e confuso mundo psicológico. Para ele, na sua visão científica dos problemas da alma, todo psicólogo não passava de um aprendiz de feiticeiro. Os gregos temiam a Esfinge da Estrada de Tebas, porque ela devorava os que não decifravam os seus enigmas. Mas o mundo grego morreu e foi empalhado pelos teólogos. Hoje ninguém precisa passar pela Estrada de Tebas, podendo fazer o trajeto com voos de borboleta. Mas Pitágoras deixou o seu testamento aos pósteros, advertindo-os de que na matemática do Universo o número 2 é a opinião, borboleta insegura que não serve à Ciência.

No Espiritismo as opiniões não passam de palpites, mesmo quando se disfarçam em hipóteses ou teorias. Por isso a Ciência Espírita, que os inscientes confundem com magia delirante, na realidade é uma estrutura lógica de conceitos fundados na experiência e provados através de pesquisas rigorosas. Todas as Ciências evoluíram nos dois últimos séculos, na direção exata dos postulados espíritas. Só a leviandade humana, que Kardec denunciou nos meios acadêmicos, pode levar um sábio de fardão imponente a dar palpites sobre a Ciência Espírita, com ares de infalibilidade. A situação conflitiva dos cientistas que desejam ajustar os dogmas de seus catecismos à realidade científica atual denuncia a incapacidade desses cientistas para a livre busca da verdade. Os imponderáveis da Ciência tornam-se ponderáveis na proporção do progresso científico, mas os imponderáveis da Mística se escondem atrás das barreiras dogmáticas e pesam negativamente na balança do progresso. A incompatibilidade entre a dogmática e a pesquisa só pode ser resolvida pelo abandono dos dogmas. O credo qui absurdum dos escolásticos não pode sobreviver na era científica. Mas as religiões podem tornar-se racionais e até mesmo científicas, desde que se disponham a se libertarem de sua paixão interesseira pelos reinos da Terra, preferindo o Reino de Deus. O Espiritismo encontrou a solução desse problema em sua estrutura de ciência livre ligada à religião livre e à moral pura do Cristo, sem concessões aos magnatas da simonia.

Kardec deu como regra única da pureza espírita o desinteresse total pelos bens materiais, a fraternidade humana incondicional, o desinteresse total pelo proselitismo, o respeito absoluto às ideias e crenças dos outros, sem a aceitação fingida e comprometedora desses erros, mas sem hostilidades à ingenuidade dos que não podem ir além dos conhecimentos primários. Deu à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas uma estrutura puramente científica e afirmou que a única forma de fé que pode subsistir em todos os tempos é a que se baseia na razão. As Igrejas de estrutura sectária, que vivem à custa da submissão dos fiéis aos seus princípios arcaicos, estão condenadas irrevogavelmente a desaparecer. Mas isso não é uma profecia, é apenas uma dedução lógica tirada do processo histórico, das exigências da Cultura.

Os clérigos e os clericalistas gostam de confundir a sua posição perante a Ciência com a livre condição dos espíritas. Alegam que se eles não podem estudar livremente os fenômenos paranormais, também os espíritas não o podem, pois já têm os seus pontos de vista fixados pela doutrina. É essa uma alegação ignorante ou de má-fé, pois sabem que os espíritas jamais aceitaram imposições dogmáticas, gozam da mais ampla liberdade de opção e não devem nenhuma obediência a nenhuma espécie de supostas autoridades religiosas. Só devem obediência à sua própria consciência, que só se curva ante as verdades comprovadas.

Não se pode comparar a submissão do crente à insubmissão do que não busca uma forma de crença, mas o saber, provado e comprovado cientificamente. Os fatos espíritas não foram provados apenas pelos espíritas, mas também e principalmente pelos adversários da doutrina. A realidade espírita não foi forjada por teóricos compromissados com qualquer tipo de instituição religiosa ou não, mas por pesquisadores livres e altamente responsáveis. Richet, CrookesZöllner, Lombroso, Aksakof, Notzing e tantos outros nomes da Ciência e da Cultura Geral não fizeram pesquisas para comprovar a verdade espírita, mas para obterem provas contra a doutrina. Nenhuma outra doutrina, no mundo passou incólume por tantas investigações promovidas por grandes cientistas que a contestavam em nome da Ciência. E todos eles foram obrigados, por amor à verdade e por exigências da consciência, a proclamar a realidade dos fatos que comprovavam a doutrina e a se curvarem perante ela.

Por outro lado, nenhum espírita consciente tentou jamais transformar a doutrina em meio de vida, profissionalizando a sua prática. Por tudo isso, os espíritas não podem ser considerados em paridade com os profitentes e profissionais das religiões. Pelo contrário, todo espírita tem o direito e o dever de participar das pesquisas atuais e futuras dos fenômenos paranormais, sem que sejam apontados como parciais, pois na verdade são pioneiros dessas pesquisas e pisam no terreno que lhes pertence. Quando um espírita competente trata de Parapsicologia não a deforma, pois isso seria deformar a sua própria doutrina. As Ciências do paranormal nasceram das entranhas do Espiritismo e em vão lutaram para contradizê-lo, mas acataram todos os seus princípios científicos. Richet, numa carta histórica a Bozzano, declarou que encontrara a verdade nas monografias do grande italiano. Mais tarde escreveu a Cairbar Schutel, de Matão, no Brasil, declarando em latim “Mort janua vitae” (A morte é a porta da vida). Lombroso, inimigo acérrimo do Espiritismo e da Metapsíquica, aceitou o desafio de Chiaia para uma sessão com Eusápia Paladino e obteve a materialização da própria mãe, a quem pôde abraçar, contando o fato em artigo para a revista de Milão, Luce e Ombra e indicando-o depois em seu estudo sobre Espiritismo e Hipnotismo. Frederico Figner obteve a materialização de sua filha Raquel, morta ainda menina, e a teve no colo. A menina passou ao colo da mãe, abraçando-a e beijando-a. A médium foi Ana Prado, em Belém do Pará. Figner e a esposa, judeus ortodoxos, tornaram-se espíritas. A Ciência Espírita foi além, no século passado, de todas as conquistas atuais da Parapsicologia. O único interesse de um espírita, ilustrado na ciência, seria o prazer de confirmar para as gerações atuais – num excesso de provas – os fatos largamente obtidos no passado. Reduzido interesse, aliás, pois os fatos espíritas continuam a repetir-se por todo o mundo, nos grandes centros universitários do nosso tempo. O próprio Vaticano reconheceu hoje, como o declarou recentemente Monsenhor Pisoni à revista italiana Gente, a realidade desses fatos. Perdem o seu tempo e mentem às suas ovelhas os pastores que tentam tapar o sol com peneiras. Não se pode dizer que o imponderável da fé tenha a mesma importância, na cura espírita, que tem, nos demais tipos de cura paranormal, porque os elementos racionais da teoria e da prática espírita influem na própria disposição do doente para a eclosão da fé. Esta permanece controlada pela razão. O doente espírita não procura o milagre, a ação divina sobrenatural. Ele sabe que o médium é elemento de ação, não um agente. Simples instrumento de transmissão das energias fluídicas do plano espiritual, o médium não tem o poder de curar. Mas os resíduos mágicos e religiosos da tradição atuam ainda no processo de cura, predispondo o paciente a uma ação mais eficaz da intervenção fluídica. Apesar disso, a cura espírita já representa um passo decisivo para a técnica terapêutica ou operatória racionalizada. As entidades espirituais, que Geley chamou de controles, realmente controlam o processo de cura, que é geralmente progressivo, mesmo quando possa parecer instantâneo. Por outro lado, nenhum médium consciente da relatividade de sua ação pode assegurar antecipadamente a eficácia de sua intervenção. Porque em toda cura, normal ou paranormal, estão presentes os pressupostos cármicos, ou seja, as cargas negativas do passado moral do doente. Como dizem as entidades espirituais esclarecidas, não raro é a doença que cura a gente. A função educativa e reequilibradora da dor, como explicou Léon Denis, nem sempre pode ser dispensada ou atenuada. O conceito de lei, no processo evolutivo, dá um novo aspecto à cura espírita, quem com ferro fere – disse Jesus – com ferro será ferido. Essa menção de uma lei moral irrevogável pode enfraquecer a esperança do doente, mas ao mesmo tempo o livra da preocupação aterradora as penas eternas. Essa lei moral se funda no princípio de ação e reação, que condiz, no plano consciencial, com o subliminar do paciente, com a sua esperança de redenção e transcendência. O paciente espírita aprende a enfrentar a sua responsabilidade moral, e quanto melhor o fizer mais rapidamente obtém o seu resgate.

A natureza racional de todo esse processo abre a mente das criaturas para uma concepção mais clara e precisa da realidade da vida humana na Terra, fazendo-as superar com mais facilidade as heranças mágicas e religiosas que as prendem numa visão trágica e desoladora do mundo e da vida. O gesto simples do passe espírita, como a simples imposição das mãos, praticada e ensinada por Jesus, não se reduz apenas à transmissão de energias. Além dessa transmissão, em que as mãos funcionam como antenas captadoras e transmissoras, o passe espírita abre a mente do paciente para a percepção de um mundo de perfeito equilíbrio, tecido numa teia irredutível de leis teleológicas, ou seja, de leis que têm finalidades precisas na evolução do mundo e do homem. O passe espírita equivale a um acordar da mente para a era nova, em que o homem descobrirá as suas potencialidades divinas e a sua destinação cósmica. Por isso, os que pretendem aplicar técnicas antigas ou modernas a esse gesto de amor e esperança só conseguem complicar e envaidecer os que se entregam à missão humilde e ao mesmo tempo sublime de acordar os homens para uma visão superior da realidade.

Todas as formas rituais do passado mágico e religioso não passam de adendos pretensiosos dos homens à técnica natural e simples do Evangelho. Os imponderáveis da cura espírita, quando transformados em atos físicos, de gesticulação e dança, perdem a sua eficácia. As cerimônias suntuosas dos egípcios, sumerianos e mesopotâmicos, nas mumificações e enterros espetaculares, de nada valeram para os mortos, que voltam ainda hoje nas sessões espíritas, necessitados de uma gota de humildade para se livrarem de suas ilusões vaidosas. De que adiantam as recomendações de cadáveres nas religiões atuais, as missas e te-déuns solenes, oficiados por hierofantes até hoje apegados à cinza dos sarcófagos? O Espiritismo é o despertar dos homens para a verdade de que eles sempre fugiram, no jogo dos seus mitos e das suas encenações teatrais. Atingimos agora o momento crucial da Era Cósmica que se avizinha. Não procuremos novas formas de prosseguir com os nossos jogos e malabarismos de esconde-esconde. Abandonemos as trapaças de Simão, o Mago, lembrando-nos da ressurreição que o Cristo ensinou e demonstrou a Paulo no esplendor de sua visão na Estrada de Damasco. A Terra se abre para o Infinito e suas pétalas de luz nos indicam o rumo das constelações. É com humildade e não com inovações pretensiosas que podemos pisar no limiar da Nova Era.

J. Herculano Pires
Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas

Curta nossa página no Facebook:
https://www.facebook.com/regeneracaodobem/

Declaração de Origem

- As mensagens, textos, fotos e vídeos estão todos disponíveis na internet.
- As postagens dão indicação de origem e autoria. 
- As imagens contidas no site são apenas ilustrativas e não fazem parte das mensagens e dos livros. 
- As frases de personalidades incluídas em alguns textos não fazem parte das publicações, são apenas ilustrativas e incluídas por fazer parte do contexto da mensagem.
- As palavras mais difíceis ou nomes em cor azul em meio ao texto, quando acessados, abrem janela com o seu significado ou breve biografia da pessoa.
- Toda atividade do blog é gratuita e sem fins lucrativos. 
- Se você gostou da mensagem e tem possibilidade, adquira o livro ou presenteie alguém, muitas obras beneficentes são mantidas com estes livros.
- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Motivos de Dificuldades nas Curas

Motivos de Dificuldades nas Curas

J. Herculano Pires



Há curas que se verificam com surpreendente facilidade e rapidez, dando às vítimas de graves perturbações e às suas famílias a impressão de um socorro divino especial. Nosso povo, de formação geralmente católica, está sempre disposto a se deslumbrar com milagres. Não há privilégios numa estrutura orgânica perfeita, como a do Universo, regida por leis infalíveis e teleológicasou seja, leis que dirigem tudo no sentido de fins previstos. A cura fácil e rápida decorre de méritos pessoais do doente, de compensações merecidas por esforços despendidos por ele no seu desenvolvimento espiritual e em favor da evolução humana em geral. O objetivo da vida é o desenvolvimento das potencialidades que trazemos em nós como sementes de angelitude e divindade semeadas na imperfeição humana. Os que compreendem isso, se procuram conscientemente trabalhar para que essas sementes germinem mais depressa, adquirem créditos que lhes são pagos no momento exato das necessidades. Quando Jesus dizia a um doente: “Perdoados foram os teus pecados”, não era porque ele fizesse um milagre naquele instante, mas porque o doente vencera a sua prova graças aos seus méritos.

As doenças revelam desajustes da nossa posição existencial. Esses desajustes decorrem da liberdade de que dispomos em face das exigências evolutivas. A dor, a angústia, as inibições são como campainhas de alarme prevenindo-nos de abusos ou descuidos. Sem a liberdade de errar não poderíamos desenvolver as nossas potencialidades espirituais. A ideia do castigo divino, do juízo de Deus condenando os que erram é uma maneira humana, antropomórfica, de interpretarmos os acidentes de nossa viagem na astronave planetária que nos faz rodar em torno do Sol. Podemos socorrer-nos dessa imagem para modificar a nossa antiquada maneira de ver e interpretar a nossa precária passagem pela Terra. Somos passageiros de uma nave cósmica, envoltos no escafandro de carne e osso, submetidos a experiências semelhantes às dos astronautas que, não podendo ainda atingir as estrelas, fazem treinamento na órbita planetária. Acidentes da viagem, falhas técnicas, dificuldades, fracassos perigosos, dor e morte dependem da nossa maneira de agir durante a viagem e da perícia ou imperícia nossa, do grau de responsabilidade, de perspicácia, de bom senso, de calma, de amor e respeito ao semelhante que conseguimos desenvolver. Deus, consciência Cósmica, não interfere em nosso aprendizado, mas também não está alheio ao que se passa conosco. Da mesma maneira que um telepata na Lua pode captar as mensagens mentais que lhe sejam enviadas da Terra ou de outras naves espaciais, a mente suprema de Deus capta, naturalmente, ligada a tudo o que se passa no Universo, nos seus mínimos detalhes. Se necessário, as entidades a seu serviço serão enviadas a socorrer-nos. Por toda parte os seres espirituais agem continuamente no universo. Como dizia o filósofo e vidente Tales de Mileto, na Grécia Antiga: “O mundo está cheio de deuses, que trabalham na terra, nas águas e no ar.” É fácil compreendermos isso se nos lembrarmos da infinidade de seres invisíveis e visíveis que enchem o Universo agindo em todos os sentidos, sob uma orientação secreta, como robôs vivos, para manterem as condições adequadas em cada organismo dos reinos naturais e em nós mesmos. Se isso se passa no plano material denso, com muito mais facilidade podemos imaginar essa vigilância infinita no plano espiritual. A Providência Divina é o modelo supremo, arquetípico, de todas as formas de providência que os homens organizam na Terra. As grosseiras imagens de Deus e de sua ação no Universo, que as religiões nos deram no passado, são agora substituídas por visões mais lógicas, racionais e justas, graças aos progressos do homem, no conhecimento progressivo e incessante da realidade em que vivemos. São retrógrados todos aqueles que ainda se apegam, em nossos dias, às ideias ingênuas de um passado de milhares de anos. Mal iniciamos os primeiros passos na Era Cósmica e já podemos compreender melhor a beleza e a ordem da Obra de Deus e a importância suprema de seus objetivos que são, na verdade, o destino de cada um de nós.

As dificuldades nas curas pela terapia espírita decorrem, portanto, de nossas atitudes e ações no passado e no presente. Se prejudicamos a evolução de criaturas e comunidades em nossos avatares anteriores, é natural que agora tenhamos de suportar a sua companhia e sofrer a sua inferioridade em nosso ambiente individual. Nenhum mago ou sacerdote nos livrará disso, nenhum exorcismo nos libertará, mas a nossa compreensão espiritual do problema e o nosso desejo natural de reparar os erros do passado nos fará livres através dos entendimentos possíveis que os fenômenos mediúnicos nos propiciam. Como ensinou Jesus, devemos aproveitar a oportunidade de estarmos no mesmo caminho com o adversário, para nos entendermos com ele. Se soubermos fazer isso com amor, chegaremos ao fim da caminhada comum como companheiros e amigos, prontos para novas conquistas em nossa evolução. A terapia espírita nos dá o socorro possível na medida exata da nossa capacidade de recebê-lo. Não é, porém, por meio de atos vulgares e interesseiros de caridade e nem de medidas artificiais de reforma interior que chegaremos a esse resultado. Lembremo-nos do moço rico que procurou Jesus, perguntando-lhe o que faltava para ele merecer o Reino dos Céus. Jesus tocou-lhe no ponto decisivo da questão – o desapego dos bens terrenos –, mandando-o vender tudo o que possuía e distribuir o resultado aos pobres. O moço entristeceu-se e retirou-se da presença do Mestre. Não era a fortuna em si que o prejudicava, mas o seu apego a ela, a sua incapacidade de compreender ainda o verdadeiro sentido da vida. Por isso também a definição de Paulo sobre a caridade, num arrebatamento espiritual do apóstolo, ainda não foi compreendida por nós. O apego às condições passageiras da vida terrena, aos seus bens transitórios, perecíveis, nos impede de abrir o coração e a mente para a suprema e imperecível grandeza da realidade espiritual. Dar esmolas, socorrer as necessidades do próximo são apenas meios de aprendizagem que nos levam à libertação. Temos de ir além, de abrir a nossa mente e o nosso coração para ver, sentir, brotando em nós mesmos, sem nenhum interesse inferior, a fonte oculta que não está no poço de Jacó, mas na realidade ôntica, espiritual, profunda da pobre mulher samaritana. Temos em nós toda a riqueza do Universo, com todas as suas constelações e todas as hipóstases da teoria de Plotino, mas continuamos apegados às vaidades e intrigas da Terra. A terapia espírita, que é a mesma do Cristo, nos oferece a água viva da sua nova concepção do ser e do mundo. Enquanto essa água não jorra em nós, não seremos curados.

Passar de um tipo de mentalidade a outro, no processo histórico, exige enorme e persistente esforço de uma civilização. Num momento agudo de transição como enfrentamos em nosso tempo, esse processo exige modificações violentas que provocam medo e inquietação. O homem atual perdeu a segurança do passado. Suas próprias certezas científicas foram substituídas por probabilidades. Ele se recusa inconscientemente a trocar os seus mitos religiosos por ideias racionais, mas ao mesmo tempo sente-se obrigado a trocá-los, por força do desenvolvimento cultural e tecnológico. O antropomorfismo, que o cevou por milênios nas ideias cômodas de um Deus semelhante a ele e o fez familiar de Deus, é para ele muito caro. Deixar esse Deus familiar pela ideia de uma Consciência Cósmica o confunde. Como Kardec acentuou, esse processo se torna fácil graças à sucessão das gerações. Já podemos notar o enfraquecimento dos mitos atuais no decorrer dos anos. Toynbee mostrou que as civilizações se apoiam no alicerce das grandes religiões, confirmando a influência da lei de adoração no processo histórico. Não se referiu a essa lei kardeciana, mas reconheceu a sua necessidade básica para a evolução mental e espiritual das comunidades humanas. Esse é hoje um tema pacífico. As grandes ideologias revolucionárias, por mais brutais que fossem, acabaram sempre por se estruturar nas formas de religiões, não podendo vingar sem essas metamorfoses significativas. O Positivismo de Comte desembocou, para espanto dos seus adeptos mais fiéis, na Religião da Humanidade; os ideólogos da Revolução Francesa entronizaram a Deusa Razão na Catedral de Notre Dame, o Marxismo converteu-se numa organização fanática de salvacionistas, com a adoração de Marx entre a foice e o martelo, a reverência aos ídolos sagrados da Revolução Bolchevista e a obediência servil às bulas papalinas do Kremlin ressuscitado das cinzas, mas tudo isso foi precedido de longas e dolorosas metamorfoses conceptuais. A pretensão científica do materialismo Dialético foi asfixiada pela falência da matéria no desenvolvimento da Física Moderna. Todas essas tentativas de religiões artificiais esboroaram-se, abrindo passagem à lógica realista e irrefutável da concepção espírita, inteiramente livre de símbolos e mitos que favorecem o desenvolvimento de novos formalismos e de novos mitos. Monsenhor Pisoni, expert de Espiritismo no Vaticano, declarou recentemente à revista italiana Gente que teve a oportunidade de receber mensagens autênticas de dois amigos falecidos, e acrescentou que o Vaticano não condena as pesquisas espíritas. Já chegou à cúpula do mundo católico o abalo inevitável das velhas estruturas. Cabe-nos agora vigiar ativamente, aprofundando os estudos doutrinários do Espiritismo, para que a metamorfose conceptual em curso não arraste os espíritas para a voragem das deturpações sincréticas. Só um esforço conjunto dos intelectuais espíritas poderá impedir a ameaça desse novo naufrágio da razão no misticismo formalista e mitológico dos criadores de mitos. A terapia espírita, natural e simples, seria então sufocada por um retorno de séculos à adoração espúria das fantasias.

Estamos num desses vórtices perigosos da história, em que os acidentes dessa espécie são comuns, por falta de conhecimento real das doutrinas renovadoras. Precisamos aprofundar os estudos doutrinários, através do esforço de pensadores espíritas suficientemente integrados na cultura atual e empenhados no desenvolvimento da nova cultura da era cósmica.

Temos de dinamizar os nossos esforços na elaboração consciente e esclarecida da Cultura Espírita, única realmente dotada de capacidade para absorver os elementos válidos da cultura leiga. As culturas, como ensina Ernst Cassirer, nascem e se desenvolvem por esse processo de assimilação seletiva (não sincrética) da herança cultural anterior. Se os espíritas não compreenderem essa necessidade histórica e não se prepararem para enfrentá-las, serão os responsáveis pelo retrocesso ao misticismo obscurantista que já nos ameaça.

Kardec insistiu na necessidade de nos firmarmos na razão para não recairmos nos delírios da imaginação excitada pelo impulso de sublimação que levou os clérigos de todos os tempos a se julgarem privilegiados de Deus e agraciados pela sabedoria infusa do teologismo. A imaginação, como observara Descartes, leva-nos a romper os limites do possível. Nada mais apropriado para transformar e acelerar de repente os passos cautelosos na disparada quixotesca. Por isso, o campo do paranormal oferece mais dificuldades para a pesquisa científica do que o dos fenômenos físicos. Myers advertiu que a mente subliminar destina-se à vida espiritual e não à material, que corresponde às exigências imediatistas do mundo sensorial. Kardec esquivou-se ao uso dos processos da vidência e do desprendimento mediúnico para a investigação do plano espiritual, preferindo obter informações dos espíritos, sempre que controláveis, para atingir a verdade sobre o outro mundo. Alegava que os que vivem naquele mundo estão mais aptos a nos fornecer dados sobre ele. O espírito encarnado está condicionado ao nosso plano, mas o desencarnado condiciona-se ao outro. Cabe à razão humana, através de pesquisas adequadas – hoje comuns nas ciências do extrafísico – verificar as possibilidades lógicas das informações e proceder às verificações necessárias à comprovação dos dados oferecidos pelos informantes.

Kardec considerou importante, como um dos meios de controle dessas informações do Além, o critério do consenso universal. Excluía assim os perigos da opinião individual. Qualquer revelação de um espírito teria de passar pelo teste inicial do consenso. Se outras comunicações semelhantes se verificassem por outros médiuns em outros locais, na mesma ocasião, esse consenso dava – desde que os médiuns não se conhecessem e residissem distantes uns dos outros – uma suposição de veracidade. Mas só as comprovações experimentais poderiam legitimá-las. Suas pesquisas eram árduas e minuciosas, mas os resultados foram tão positivos que nenhum dos princípios por ele estabelecidos foi abalado pela evolução científica dos nossos dias. Pelo contrário, permanecem como antecipações de solução para problemas com que lutam ainda os pesquisadores atuais. Por exemplo: sua afirmação de que o corpo espiritual é semimaterial, aplica-se hoje ao corpo bioplásmico, que é formado de plasma físico, mistura de partículas atômicas, em que se inserem elementos extrafísicos. O próprio ectoplasma, que Ímoda, Richet e Fontenai, em pesquisas conjuntas, com a mediunidade de Linda Gazzera, na Itália, verificaram ser tridimensional, revela-se hoje, nas pesquisas russas da Universidade de Kirov, como energias do perispírito. Confirma-se assim a validade das pesquisas de Crawford em Belfast, tantas vezes ridicularizadas sem nenhuma contraprova experimental. As alavancas de Crawford, reveladas por ele como pseudópodos de massa leitosa ou jatos de energia radiante, que movimentavam objetos à distância, sem contato, foram definidas em Kirov como emissões de energias plásmicas emitidas pelo médium para produzir efeitos materiais à distância. As pesquisas de Schrenk Notzing, em Berlim, provaram que a massa ectoplasmática retorna ao corpo do médium, sendo reabsorvida como o são também as energias. As três dimensões do ectoplasma são: a visível, em forma leitosa, que produz formas de membros humanos e até mesmo materializações completas de espíritos de mortos; a visível, em forma de fluido esbranquiçado; e a invisível, que se pode perceber pelo tato como uma espécie de teias de aranha finíssimas e levemente pegajosas. Zöllner, na Universidade de Leipzig, provou o poder explosivo do ectoplasma, mesmo invisível. Nos casos de cura, o ectoplasma tem funções ainda não suficientemente definidas, mas já evidenciadas em numerosas oportunidades. Fisiologistas famosos, como Geley e Richet, entenderam que pode atuar na recuperação de tecidos gastos ou acidentados.

As dificuldades de cura decorrem geralmente de implicações cármicas dos pacientes, de deficiências mediúnicas e de falta de conhecimento do problema pelos dirigentes de sessões. O apego emocional dos pacientes aos seus obsessores, por afinidades temperamentais, é um dos mais graves entraves do processo terapêutico. Os médicos espíritas podem controlar a cura e estimular os pacientes, bem como os médiuns doadores de energias ectoplásmicas. Por isso é sempre aconselhável a presença e participação de médicos conhecedores do problema em todos os tratamentos pela terapia espírita. Alegar que a participação médica torna suspeitos os resultados é simplesmente provar desconhecimento do assunto.

J. Herculano Pires
Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas 

Curta nossa página no Facebook:
https://www.facebook.com/regeneracaodobem/

Declaração de Origem

- As mensagens, textos, fotos e vídeos estão todos disponíveis na internet.
- As postagens dão indicação de origem e autoria. 
- As imagens contidas no site são apenas ilustrativas e não fazem parte das mensagens e dos livros. 
- As frases de personalidades incluídas em alguns textos não fazem parte das publicações, são apenas ilustrativas e incluídas por fazer parte do contexto da mensagem.
- As palavras mais difíceis ou nomes em cor azul em meio ao texto, quando acessados, abrem janela com o seu significado ou breve biografia da pessoa.
- Toda atividade do blog é gratuita e sem fins lucrativos. 
- Se você gostou da mensagem e tem possibilidade, adquira o livro ou presenteie alguém, muitas obras beneficentes são mantidas com estes livros.
- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Tratamento de Vícios e Perversões

Tratamento de Vícios e Perversões

J. Herculano Pires



A embriaguez, os tóxicos e a jogatina são os flagelos atuais do nosso mundo em fase aguda de transição. Cansados de recorrer sem proveito a internações hospitalares, as vítimas e suas famílias acabam recorrendo ao Espiritismo e às diversas formas mágicas do sincretismo religioso afro-brasileiro. É comum fazer-se confusão entre essas formas de religiões primitivas da África e o Espiritismo, em virtude de haver manifestações mediúnicas nos dois campos. Os sociólogos, que deviam ser minuciosos ao tratar desses problemas, carregam a maior parte da culpa dessa confusão.

Estão naturalmente obrigados, pela própria metodologia científica, a distinguir com rigor um fenômeno social do outro, mas preferem a simplificação dos processos de pesquisa, que gera confusões lamentavelmente anticientíficas.

A palavra Espiritismo, cunhada por Kardec como um neologismo da língua francesa, na época, é uma denominação genésica da Doutrina Espírita. Nasceu das suas entranhas e só a ela se pode aplicá-la. Kardec rejeitou a denominação de Kardecismo, que seus próprios colaboradores lhe sugeriram, explicando que a doutrina não era uma elaboração pessoal dele, mas o resultado das pesquisas e dos estudos das manifestações espíritas. Entrando em contato com o mundo espiritual, em todas as suas camadas, Kardec recebeu dos Espíritos elevados os lineamentos da doutrina, mas não os aceitou de mão beijada. Submeteu essas comunicações do outro mundo a rigoroso processo de verificação experimental. Só aceitou como válido o que era provado pelas numerosas pesquisas incessantemente repetidas e confrontadas entre si. Para tanto, criou uma metodologia específica, pois entendia que os métodos devem ajustar-se à natureza específica do objeto submetido à pesquisa. Sem essa adequação seria impossível obterem-se resultados significativos. Escapava assim, aos fracassos iniciais da Psicologia Científica, que lutara em vão para enquadrar os fenômenos psicológicos na metodologia da Física e de outras disciplinas. As experiências de Wundt, Weber e Fechner, por exemplo, restritas a mensurações de intensidade, não iam além de explorações epidérmicas, pouco sugerindo sobre a natureza e o mecanismo dos fenômenos. Os fenômenos espíritas, que revelavam inteligência, não eram simples efeitos de processos biológicos e fisiológicos. Eram fenômenos muito mais complexos, que podiam provir da mente ou das entranhas humanas, mas também podiam ser produzidos por forças ainda não suficientemente conhecidas, como o magnetismo natural, a eletricidade, energias e elementos procedentes de regiões ainda não devassadas da própria consciência humana. O inconsciente era ainda uma incógnita. Kardec o abordou quando Freud estava ainda na primeira infância. Kardec deu à Revista Espírita, órgão que fundou para divulgar seus trabalhos e pesquisas de opiniões, o subtítulo de Jornal de Estudos Psicológicos, provando já estar convencido de que enfrentava os problemas do psiquismo humano. Estava fundada a Ciência Espírita, que os cientistas da época rejeitaram, considerando que Kardec fugia da metodologia científica originada das proposições filosóficas de Bacon e Descartes. A psicologia introspectiva, ainda apegada à matriz filosófica, atacou-o com a antecedência de meio século aos ataques dirigidos aos pioneiros da Psicologia Experimental. Essa é uma das glórias de Kardec, geralmente desconhecida. Mais tarde, Russel Wallace iria declarar que toda a psicologia não passa de um espiritismo rudimentar, glorificando Kardec. Charles Richet, prêmio Nobel de Fisiologia e fundador da Metapsíquica, discordante de Kardec, declarou no seu próprio Tratado de Metapsíquica que Kardec era quem mais havia contribuído para o aparecimento das novas ciências e lembrou que Kardec jamais fizera uma afirmação que não estivesse provada em suas pesquisas. Depois desses sucessos no meio científico, numerosos e famosos cientistas se entregaram às pesquisas espíritas, alguns, como William Crookes, com o fim exclusivo de provar que os fenômenos espíritas não passavam de fraude. Após três anos de pesquisas, Crookes publicou os seus trabalhos, pondo-os ao lado do antigo adversário. Após a morte de Kardec, em 1869, Léon Denis o substituiu na direção do movimento espírita mundial, e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que Kardec chamava de sociedade científica, ficou praticamente viúva. Mas as pesquisas prosseguiram no Instituto Metapsíquico, sob a direção de Gustave Geley e Eugéne Osty, com grande proveito. Ao mesmo tempo, pesquisas continuavam a ser feitas em várias Universidades europeias, como a de Zöllner em Leipzig, as de Crookes em Londres, as de Ochorowicz na Polônia e assim por diante. A Ciência Espírita continuava a se desenvolver. O Barão Von Schrenk-Notzing fundou em Berlim o primeiro laboratório de pesquisas espíritas do mundo, procedeu a valiosa série de pesquisas sobre o ectoplasma, com o auxílio de Madame Bisson. Após a primeira Guerra Mundial a Ciência Espírita continuava combatida, mas ativa. Mas a guerra desencadeara no mundo as ambições e interesses materiais, deixando exígua margem para o interesse espiritual. Só agora ressurge na França, com André Dumas, uma instituição de estudos e pesquisas espíritas. A Revista Renaitre 2.000, dirigida por Dumas, substitui a Revue Spirite de Kardec.

Este breve escorço do aparecimento e desenvolvimento da Ciência Espírita prova a sua vitalidade, apesar das campanhas incessantes e sistemáticas movidas contra ela. Em todos os grandes centros universitários do mundo as pesquisas espíritas prosseguem com resultados positivos. Nenhum princípio da doutrina foi sequer abalado pelas novas descobertas verificadas em quaisquer dos ramos da investigação. Pelo contrário, os postulados básicos do Espiritismo se comprovaram, confirmando a posição avançada da Ciência Espírita e da Filosofia Espírita perante a cultura atual.

Isso representa, para a Terapia Espírita, uma base de segurança inegável para o desenvolvimento dos seus processos de cura. O que hoje se chama, na Europa, de cura paranormal, não é mais do que a cura espírita revestida ou fantasiada de novidades superficiais.

No difícil e geralmente falho tratamento das viciações, o principal é a integridade moral dos terapeutas. Os viciados não são apenas portadores de vícios, mas também de cargas de influências psíquicas negativas provenientes de entidades espirituais inferiores que a eles se apegam para vampirizar-lhes as energias e as excitações do vício. As pesquisas parapsicológicas provam a existência desses processos de vampirismo espiritual, que na verdade são apenas a contrafação no após morte dos processos de vampirismo entre os vivos. Nas relações humanas, quer sejam entre encarnados ou desencarnados, sempre existem os que se tornam parasitárias de outras pessoas. Não há nisso nenhum mistério, nem se trata de ações diabólicas. Em toda a Natureza a vampirização é uma constante que vai do reino mineral ao humano.

A cura depende, em primeiro lugar, da vontade da vítima em se livrar do perseguidor. As intenções deste nem sempre são maldosas. Ele procura o amigo ou conhecido encarnado que era seu companheiro de vício e o estimula na prática para obter assim os elementos de que necessita na sua condição de desencarnado.

Obtém a satisfação por indução. Ligando-se mental e psiquicamente ao ex-companheiro, pode haurir suas emanações alcoólicas ou das drogas psicotrópicas de que se servia antes da morte. De outras vezes o espírito vampiresco se serve de alguém que, não sendo viciado, revela tendências para o vício e o leva facilmente para a viciação.

A terapia espírita consiste, nesses casos, num processo oral de persuasão, conhecido como doutrinação. Conseguindo-se levar o espírito vampiro e sua vítima a se convencerem da necessidade e da conveniência de abandonarem o vício, ambos se curam. A doutrinação se distingue profundamente do exorcismo por ser um processo racional e persuasivo e não pautado pela violência. A terapia espírita parte da compreensão de que ambos, o vampiro e a vítima, são criaturas humanas necessitadas de socorro e orientação.

Essa posição favorece o tratamento, que ao invés de provocar reações de indignação do espírito tratado como diabólico, provoca-lhe a razão e o sentimento de sua dignidade humana e lhe mostra as possibilidades de uma situação feliz na vida espiritual.

Submetido às reuniões de preces, passes e doutrinação, os dois espíritos, o desencarnado e o encarnado, são tratados com a assistência das entidades espirituais encarregadas desse trabalho amoroso.

Kardec acentuou a necessidade de boas condições morais das pessoas que se dedicam a esse trabalho, pois só a moralidade do doutrinador exerce influência sobre os espíritos. Toda pretensão de afastar o espírito vampiresco pela violência só servirá para irritá-lo e complicar o caso. A boa intenção do doutrinador para com o vampiro e a vítima, sua atitude amorosa para com ambos, é fator importante para o êxito do trabalho. A formação de correntes de mãos dadas em torno do paciente, o uso de defumadores e outros artifícios semelhantes, e qualquer outra forma de encenação material são simplesmente inúteis e prejudiciais. O imprudente que gritar com o espírito, dando-lhe ordens negativas, arrisca-se a prejudicar o trabalho e chamar sobre si a indignação do espírito ofendido. O clima dos trabalhos deve ser de paz, compreensão, amor e confiança nas possibilidades de recuperação das criaturas humanas. Nenhum espírito tem a destinação do mal. Todos se destinam ao bem e acabarão modificando-se por seus próprios impulsos de transcendência.

Levados pelas excitações novidadeiras do momento de transição que atravessamos, certas instituições mal dirigidas pretendem modernizar as práticas doutrinárias, suprimindo as sessões mediúnicas e substituindo-as por reuniões de estudos doutrinários.

Alegam que a doutrinação e esclarecimento dos espíritos inferiores é função dos espíritos superiores, no plano espiritual. Essa é uma boa maneira de fugir às responsabilidades doutrinárias e cortar as ligações do homem com os espíritos, relegando-os ao silêncio misterioso dos túmulos, onde, na verdade, não se encontram.

Foi essa a maneira que os cristãos fascinados pelo poder romano, na fase de romanização do Cristianismo, encontraram para se livrarem das manifestações agressivas dos espíritos rancorosos, contrários aos ensinos evangélicos, sem perceberem que se desligavam assim do mundo espiritual.

A supressão dos cultos pneumáticos – sessões mediúnicas da era apostólica –, permitiu a romanização da Igreja, frustrando-lhe os objetivos espirituais. O mundo espiritual é unitário e orgânico, exatamente como o mundo material. Cortar a ligação humana com a região inferior desse mundo é atentar contra o princípio doutrinário da solidariedade dos mundos e constitui uma ingratidão para com os espíritos que deram a própria doutrina. Mais do que isso, é uma insensatez, pois não dispomos de meios para fazer essa cirurgia cósmica. A Igreja pagou caro a sua insensatez, tendo de recorrer mais tarde à revelação grega, à Filosofia de Platão (Santo Agostinho) e de Aristóteles (São Tomás de Aquino) para erigir com decalques e empréstimos a sua própria Filosofia.

Por outro lado, a interpenetração dos mundos (espiritual e material) faz parte do sistema, ou seja, da organização universal, que não temos o direito de violar em favor do nosso comodismo, do nosso egoísmo e da nossa cegueira espiritual.

Essa pretensão criminosa lembra a teoria do Espiritismo sem espíritos, de Morselli, famoso diretor da Clínica de Doenças Mentais de Gênova, que, obrigado a aceitar a realidade dos fatos, escapou do aperto por essa via estratégica. Querem os espíritas atuais seguir a esperteza do genovês ilustre, sem os seus ilustrados argumentos?

A alegação de que os espíritos inferiores que nos perturbam são doutrinados no Além, o que dispensa o nosso trabalho nas sessões mediúnicas, é de estarrecer. Então essas criaturas que passaram anos assistindo e dirigindo sessões mediúnicas, doutrinando espíritos, não se doutrinaram a si mesmas? Não viram os espíritos necessitados a que se dirigiam, não ouviram as suas ameaças e os seus lamentos, passaram pelas atividades doutrinárias como cegos e surdos? 

Não aprenderam nos compêndios da doutrina que os espíritos apegados à matéria necessitam de esclarecimento  como o sedento necessita da água, como o escafandrista necessita do oxigênio da superfície para respirar no fundo do mar? Não aprenderam, com as pesquisas de Geley, que nas sessões mediúnicas se processa em fluxo contínuo a emissão de ectoplasma que permite aos espíritos sofredores sentirem-se amparados na matéria, como se ainda estivessem encarnados, para poderem compreender as explicações doutrinárias? Não aprenderam que os espíritos superiores descem às sessões mediúnicas para poderem comunicar-se com entidades sofredoras inadaptadas ainda aos planos elevados? Querem negar a realidade dolorosa das obsessões e entregar totalmente os obsidiados ao internamento das clínicas de Morselli? Não sabem que a relação homem-espírito é uma condição permanente dos mundos inferiores como o nosso, em que a maioria dos espíritos desencarnados permanece apegada à Terra e por isso necessita do socorro das sessões mediúnicas?

Annie Besant, a admirável autora de A Sabedoria Antiga, discípula e sucessora de Blavatsky na presidência da Sociedade Teosófica Mundial – apesar da repulsa dos teósofos às práticas mediúnicas –, abriu uma exceção no aludido livro, ensinando que, no caso de perturbações de espíritos numa casa, se alguém tiver coragem de falar com a entidade e provar-lhe que já morreu, conseguirá afastá-la. A grande teosofista reconhece a necessidade e a eficácia da doutrinação espírita, e os próprios espíritas querem agora, tardiamente, assumir a atitude teosófica que o próprio Sr. Sinet, teósofo do mais alto prestígio, condenou em seu livro Incidentes da Vida da Sra. Blavatsky. Sinet corrige esta (sua mestra) no tocante à teoria dos cascões astrais e sustenta a legitimidade das manifestações mediúnicas. Tudo isso é ignorância em excesso para representantes de Federações e outras instituições espíritas que visitam grupos e centros, como fiscais de feira, mandando suspenderem as sessões mediúnicas.

Nas perversões sexuais e sensoriais em geral, bem como nos casos de toxicomania, a doutrinação dos espíritos vampirescos é indispensável ao êxito da terapia. Porque nesses casos estão sempre envolvidos pelo menos o vampiro espiritual e o vampirizado encarnado. Se não se obtiver o desligamento dessas vítimas recíprocas, não se conseguirá a cura. Os que defendem a tese de Morselli no meio espírita, essa tese já há muito superada entre os próprios adversários gratuitos ou interesseiros da doutrina, passaram com armas e bagagens para o adversário. Não querem apenas a amputação da doutrina, pois na verdade querem a morte e o sepultamento inglório do Espiritismo, como os teólogos católicos e protestantes da Teologia Radical da Morte de Deus querem enterrar o suposto cadáver de Deus na cova aberta pelo louco de Nietsche, que acabou morrendo louco. Sirva o exemplo do filósofo infeliz para os filosofantes imberbes e desprevenidos do nosso meio espírita. Não há nada mais desastroso para uma doutrina do que abrigar entre seus adeptos criaturas que se deixam levar por cantos de sereias.

Precisamos, com urgência, recorrer à tática de Ulisses, mandando tapar com chumaços de algodão os ouvidos desses ingênuos navegantes de mares perigosos.

J. Herculano Pires
Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas 

Curta nossa página no Facebook:
https://www.facebook.com/regeneracaodobem/

Declaração de Origem

- As mensagens, textos, fotos e vídeos estão todos disponíveis na internet.
- As postagens dão indicação de origem e autoria. 
- As imagens contidas no site são apenas ilustrativas e não fazem parte das mensagens e dos livros. 
- As frases de personalidades incluídas em alguns textos não fazem parte das publicações, são apenas ilustrativas e incluídas por fazer parte do contexto da mensagem.
- As palavras mais difíceis ou nomes em cor azul em meio ao texto, quando acessados, abrem janela com o seu significado ou breve biografia da pessoa.
- Toda atividade do blog é gratuita e sem fins lucrativos. 
- Se você gostou da mensagem e tem possibilidade, adquira o livro ou presenteie alguém, muitas obras beneficentes são mantidas com estes livros.

- Para seguirmos corretamente o espiritismo, devemos submeter todas as mensagens mediúnicas ao crivo duplo de Kardec, sendo eles,  a razão e a universalidade.

- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Situação Perigosa dos Médiuns de Cura

Situação Perigosa 

dos Médiuns de Cura

J. Herculano Pires



A rejeição pura e simples do meio científico ao fato inegável das curas mediúnicas cria para os médiuns de cura uma situação perigosa, que geralmente os afeta perturbando-lhes o necessário equilíbrio psíquico, deformando-lhes o comportamento social e prejudicando-lhes a própria faculdade curadora. Em nosso livro Arigó, Vida, Mediunidade e Martírio, sobre o médium Arigó, de Congonhas do Campo, em Minas Gerais, tivemos a oportunidade de examinar esse assunto de perto, em todas as suas minúcias, antecipando e depois acompanhando as pesquisas realizadas no local pela equipe de cientistas norte-americanos de várias Universidades, incluindo elementos importantes da NASA, como Andrew Puharich e John Laurence, o primeiro médico e engenheiro eletrônico, e o segundo, biofísico e manager da seção de satélites artificiais da NASA, que nos informaram sobre o caso similar de Agpaoa nas Filipinas.

Nesses dois casos, justamente famosos, os dois médiuns sofreram sob a pressão constante de elementos exploradores e com as campanhas difamatórias do clero católico, as perseguições de várias instituições médicas, não obstante numerosos médicos brasileiros e estrangeiros tenham comprovado a realidade das curas.

Com médiuns de cura das zonas rurais, como no caso da médium Bernarda Torrúbio, em Garça, na Alta Paulista, os fatos não tiveram grande divulgação, o que os preservou e geralmente os preserva das perturbações, campanhas e perseguições. Congonhas é uma cidade modesta, mas sua proximidade de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, expunha demasiadamente Arigó a pressões insuportáveis. Quando Arigó morreu, num trágico desastre de automóveis na estrada entre Congonhas e Conselheiro Lafaiete, o bispo D. Vicente Scherer, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, descarregou sobre o seu cadáver uma série de acusações caluniosas, sem um pingo de piedade cristã. Nem a morte livrou o médium e sua família das consequências de suas atividades curadoras.

A primeira cura feita por um médium, não raro de maneira inesperada, lança-o na senda das fascinações perigosas. Ele se sente escolhido por Deus, colocado acima do comum da humanidade, detentor de dons divinos. O fermento velho das religiões salvacionistas cresce no seu inconsciente, levedando-lhe a vaidade natural do homem. Pouco a pouco os necessitados aglomeram-se ao seu redor. O atendimento se torna difícil, em virtude do aumento sempre crescente dos necessitados. Amigos da onça o adulam, propagam os seus feitos, exaltam os seus dons. E, para facilitar a consulta de amigos e parentes, começam a levar-lhe presentes. O médium, que já se considera agraciado por Deus, não estranha que todos queiram agraciá-lo também. Se ele receita, os propagandistas de laboratórios levam-lhe as suas amostras, tratam-no como se ele fosse um médico na sua clínica e acabam oferecendo-lhe comissões, o que ele geralmente rejeita. Mas amigos e parentes o incitam a não ser tolo, a aproveitar enquanto é tempo, pois a mediunidade pode enfraquecer-se ou esgotar-se amanhã. Ele deve cuidar do seu futuro, pois os seus protetores espirituais não podem querer o seu desastre e ele mesmo não tem o direito de rejeitar as oportunidades de progresso. No torvelinho de súplicas, elogios, favores e atenções que o envolvem, o médium acaba aceitando as sugestões inferiores e escorrega na beira do abismo. As injustiças dos adversários o irritam, as perseguições o aturdem. Ele acaba por se entregar às fascinações e perverter as suas faculdades. Foge das pessoas que o auxiliaram nos primeiros tempos, considera-as suspeitas. Os políticos o assediam, tratando-o com deferências especiais que lhe estimulam a vaidade. Seus dons se enfraquecem pelo próprio desgaste físico a que tem de se entregar para atender a todos. Para suprir as deficiências que nota em suas próprias funções mediúnicas, inventa ou aceita expedientes escusos. Consuma-se, assim, o desvirtuamento do médium, que daí por diante fica entregue a feras que o irão devorar.

Isso ocorre também com os sacerdotes terapeutas de todas as seitas e religiões milagreiras. Não se trata de um problema de ordem divina, sobrenatural, mas de um problema puramente humano. O médium não é um santo. É simplesmente um paranormal, uma criatura em que as funções terapêuticas da natureza humana, conhecidas e aceitas no meio científico, se exteriorizam, exercendo influências nas pessoas em que essas funções defensivas do organismo se acham em estado latente. Reduzida a apenas esses aspectos psicofisiológicos, a cura espírita não seria condenada, mas quando os espíritas afirmam, baseados em pesquisas e experiências científicas, mesmo que realizadas por cientistas eminentes, que a extroversão das forças curadoras é provocada por ação de entidades espirituais, o pavor dos fantasmas faz os homens mais graves perderem a cabeça. O médium se transforma em bruxo ou lobisomem e as superstições da selva invadem os laboratórios. É o terror-pânico da sobrevivência humana que se manifesta, exigindo a ação das autoridades policiais contra os médiuns, já que não pode ser contra os espíritos. Num episódio curioso, o Dr. Silva Mello, confessando-se materialista congênito, classificou os médiuns como alienados mentais. Mas, inadvertidamente, contou que ele mesmo tinha medo de dormir no escuro. O Dr. Sérgio Valle, espírita, devolveu o diagnóstico ao autor, provando por esse e outros motivos que ele também era médium e temia a aproximação de espíritos. Alienação por alienação, ficaram elas por elas. O saudoso e famoso Dr. Henrique Roxo, glória da psiquiatria nacional, considerou os médiuns como delirantes, sujeitos ao delírio espírita episódico. Seu discípulo mais dedicado e fiel, Dr. Lauro Gallwes, tornou-se espírita e contou num dos seus livros que o Dr. Roxo chegou ao fim de sua vida aceitando a realidade espírita. O mesmo já acontecera com Lombroso, RichetWilliam Crookes, Paul Gibier, Gustave Geley e tantos outros, pelo mundo inteiro, provando a fragilidade das construções científicas aparentemente inabaláveis. Hoje, Remy Chauvin denuncia a existência de uma doença típica do meio científico, a alergia ao futuro. Os cientistas alérgicos ao futuro sofrem também de autofobia, como observou Denis Bradley, pois temendo o espírito temem a si mesmos. Uma tragicômica situação que o avanço das ciências vai desmanchando na esteira do tempo.

Os cientistas que se apegam ferrenhamente aos métodos sensoriais da ciência acadêmica revelam falta de percepção extrassensorial, o que vale dizer falta de agudeza mental. A função da inteligência não é arrastar-se como inseto na casca da laranja, mas perfurá-la e descobrir o que existe no seu interior. Esses cientistas sistemáticos assemelham-se aos clérigos dogmáticos que não buscam a verdade, mas apenas a confirmação de princípios estabelecidos. Por isso a Ciência se volta muitas vezes contra si mesma, empregando anátemas e excomunhões contra os que rejeitam o credo fideísta. Há uma simbiose cultural dos opostos que gera a dialética do absurdo no campo cultural. A Ciência se fixou, para se desenvolver com segurança, no conceito do concreto. A fé científica repousa na realidade material. A Religião firmou a sua fé no conceito do abstrato. Da luta entre ambas resultou a assimilação recíproca de atitudes intransigentes. Essa barreira artificial contra a busca isenta e pura da verdade gerou um clero científico que se compraz na condenação dos que se atrevem a mostrar-se criativos e não apenas repetitivos. A História das Ciências tem episódios medievais, como nos casos de Pasteur e Kardec, os dois atrevidos descobridores de mundos invisíveis e imponderáveis. O medievalismo, com seu ideal totalitário de homogeneização do pensamento, pesa ainda em nossa consciência e prejudica o avanço científico de alguns setores culturais onde sobrevivem os antigos carrascos da fogueira e do garrote vil. É inacreditável a certeza com que certos cientistas negam a existência do espírito baseados apenas em pressupostos doutorais. Quando o bispo de Barcelona queimou as obras de Kardec em praça pública (por não poder queimar o próprio), este declarou que a cauda da Inquisição ainda se arrastava pela Espanha. Historicamente essa cauda de sáurio enraivecido continuou a arrastar-se pelo mundo e esfacelou a Europa nos horrores do nazi-fascismo.

O médium Arigó, preso na cadeia de Conselheiro Lafaiete, chamava os demais presos de colegas. Ao ser libertado, levou outros libertos para as suas terras em Congonhas e os manteve ali como colegas de trabalho na roça. Dizia sempre aos que o condenavam por isso: “São meus colegas, gente boa que só ficou ruim por causa da miséria.”

Essa atitude do médium roceiro e semialfabetizado devia servir de exemplo aos cientistas ilustres que hoje condenam os seus colegas corajosos que rasgam as perspectivas do futuro. É recente o episódio dos psicólogos norte-americanos que condenaram as pesquisas parapsicológicas, confessando não terem lido um só livro sobre o assunto. Rhine declarou apenas isto: “Esses cientistas descobriram um meio anticientífico de tratar de Ciência.”

Os homens se vangloriam de arrancar os segredos da natureza, de a fazerem falar através de seus métodos de pesquisa. Mas a verdade é outra. A Natureza não nos esconde nada. Hegel viu isso com clareza ao tratar do reino vegetal, definindo a árvore como um ato permanente de doação. Os demais reinos também se abrem para o homem, revelam-lhe as suas entranhas, convidando-os a aprender no livro aberto do mundo, de que falou Descartes ao sair do Colégio Jesuíta de La Fleche. O próprio Céu está hoje aberto ao homem, revelando-lhe os seus mistérios e oferecendo-lhe as rotas estelares. Bacon compreendeu com aguda intuição e reconheceu que toda a Ciência Humana não é mais do que um ato de obediência. O homem só não aprende, como aconteceu com os escolásticos, quando rejeita a liberalidade da natureza e se engolfa orgulhosamente em si mesmo, forjando sistemazinhos absurdos, estreitos leitos de Procusto, como observou Cassirer, nos quais espreme ou espicha, corta ou arrebenta os fatos empíricos que não se sujeitam aos seus caprichos. Essa é a Tragédia da Cultura, não produzida pelo acúmulo de conhecimentos, como quer o filósofo, mas por desobedecer a natureza e torcê-la de acordo com suas ideias e suposições geralmente ridículas.

No seu próprio caso o homem se mostra rebelde. A natureza Humana não é menos pródiga do que a Natureza Geral. Desde que o mundo é mundo a natureza humana se abre ao homem revelando-lhe a sua essência espiritual, tão perene e imortal como a de todas as coisas e seres. Mas o homenzinho rebelde prefere considerar-se uma exceção orgulhosa. Se tudo é indestrutível, ele prefere considerar-se mortal, pó que volta ao pó, luminescência esquiva e passageira no esplendor do Universo. A morte destrói as gerações, mas os homens voltam através de aparições, manifestações sensíveis, materializações, ressurreições tangíveis, como a de Jesus, mas os homens preferem a morte à ressurreição, fazem-se agêneres (seres não gerados), que eles incluem em seus fabulários ingênuos.

De onde vem essa relutância do homem ante os fenômenos naturais, mil vezes provados, comprovados e repetidos nas observações naturais e nas pesquisas de laboratórios? Da vaidade. Único ser pensante e racional em nosso mundinho sublunar, miserável subúrbio do cosmos, o homem se envaidece da sua capacidade de pesar e medir as coisas, como se isso bastasse para lhe dar a supremacia absoluta no Universo.

Os médiuns de cura sabem muito bem que nada podem fazer se não tiverem a assistência dos espíritos terapeutas que os envolvem em seu magnetismo perispirítico, descarregando energias espirituais e físicas nos organismos doentes e perturbados para restabelecer-lhes o equilíbrio abalado. Não obstante, julgam-se senhores do poder curador. Esse desequilíbrio mental, provocado pelo orgulho – engorgitamento mórbido do eu inferior –, anula os efeitos curativos no choque fatal das vibrações doentias em conflito. As ambições do poder, ganância e superioridade confundem-lhe a mente, levando-o ao fracasso e às tentativas inúteis de socorro e ajuda. Ele se transforma em explorador das esperanças e da fé dos doentes, emparelhando-se com estes no desequilíbrio inevitável. Essa queda do médium, que os espíritos benevolentes não podem impedir, para não anular a experiência necessária, reflete-se negativamente no plano moral e social, invertendo os efeitos intencionais da sua prática terapêutica, em prejuízo moral e social do despertamento espiritual. Essa é a queda do médium, mais grave que a queda de Adão e a queda social de Rousseau. O fracasso do médium representa, por sua vez, a queda dos que depositavam nele as suas esperanças. É dever dos estudiosos aprofundar essas questões doutrinárias, colocando o problema em termos racionais, sem a precipitação nas ameaças de um misticismo alienante e ingênuo. O Espiritismo exige a verdade nua e crua. Os que temem expor a verdade não podem servir à Ciência Espírita. A verdade é o objeto imediato da Ciência. Sem ela, a Ciência é impossível. Não podemos ter nenhuma certeza no campo do saber se não dispusermos de provas daquilo que afirmamos. Mas há vários tipos de verdade, o que permitiu aos sofistas gregos jogar com palavras a respeito do problema, até que Sócrates descobriu a maiêutica e aplicou esse método aos faladores perguntando-lhes sempre: “O que é isso?” Obrigados a definir os seus conceitos, os sofistas tiveram de calar ou fugir da sua presença. Como Jesus tratasse da Verdade, Pilatos lhe perguntou o que era a verdade e Jesus não lhe respondeu. Diante disso, muita gente entendeu que a verdade é inexplicável. Ora, uma verdade inexplicável jamais seria verídica. Jesus não respondeu porque Pilatos, envolvido na mentira do complô romano-judaico contra a sua pessoa, não estava em condições de compreender a verdade. O poeta Cleiômenes Campos, num pequeno poema sobre esse episódio, escreveu:
Jesus não respondeu.
Foi como se dissesse: “A verdade sou eu.”
Jesus pregava aos homens a verdade da vida humana e seus objetivos, que decorria da Verdade Suprema de Deus. Como explicar isso a um romano que ia entregá-lo à crucificação para defender a mentira?

A verdade é uma questão de relação do pensamento com a realidade. Se essa relação é pura, direta, sem deformações interesseiras, ela é a verdade. Por exemplo: se vemos uma pedra e a reconhecemos como pedra, dizendo “vejo uma pedra”, essas palavras são a verdade da nossa percepção e podemos prová-la facilmente. Mas se vemos uma nuvem e dizemos que se trata da deusa Juno, enganamo-nos, mentimos e não temos nenhuma possibilidade de provar o que afirmamos. Todas as civilizações, desde as mais primitivas às mais adiantadas, foram entretecidas de mentiras e verdades, de ilusões e realidades. Segundo Toynbee, cada civilização se apoia numa grande religião, herdando os seus vícios e virtudes. A corrida para o materialismo, nos últimos séculos do nosso desenvolvimento científico, foi impulsionada pela necessidade de separar o joio do trigo, as mentiras e ilusões da realidade e da verdade. As religiões se apoiaram no pressuposto da fé, fundada nas revelações espirituais de profetas e messias. Criaram assim, sobre o mundo real, um mundo fictício de pseudoverdades, toda uma imensa rede de símbolos pré-lógicos, por isso mesmo contraditórios entre si. Nem mesmo o desenvolvimento da lógica escolástica, na Idade Média, conseguiu sanar essa situação cultural alienante. Os pressupostos da fé pela fé, amparados no princípio teológico do credo quia absurdum (creio, mesmo que absurdo) fortaleceram a rede fantasiosa de crenças, mitos e ritos sagrados. O conceito do sagrado impediu, com as condenações violentas, a busca da verdade e qualquer possibilidade de esclarecimento total desse mundo de fascinações.

Surgindo na era científica, em meados do século XIX, o Espiritismo se opôs, ao mesmo tempo, ao religiosismo alienante e ao materialismo exclusivista. Kardec abriu a brecha espírita nesses maciços milenares, estabelecendo o critério da razão na busca da verdade. Sustentou o princípio dialético da constituição do mundo por dois elementos fundamentais: espírito e matéria. Dessa colocação, válida e confirmada em nossos dias, nasceu a Ciência Espírita, armada com os métodos da pesquisa científica dos fenômenos e com os processos da cogitação filosófica livre de pressupostos e preconceitos. A Ciência acadêmica rejeitou a dualidade espírito-matéria, sustentando o monismo materialista, mas o avanço das pesquisas em nosso século acabaram por dar razão à Ciência Espírita. A concepção monista permanece válida, mas em termos de estrutura orgânica da realidade. Espírito e matéria preenchem o cosmos, sendo o espírito o elemento estruturador da matéria. A verdade brota naturalmente das pesquisas científicas da realidade objetiva. O sonho dos fisiólogos gregos realiza-se hoje, plenamente, no desenvolvimento das pesquisas fenomênicas da Ciência Espírita. A Parapsicologia atual é simplesmente o elo de ligação da Ciência Acadêmica com a Ciência Espírita. Sem esse elo, os dois campos científicos permaneceriam separados, impedindo a visão global da realidade, necessária à compreensão verdadeira do mundo, do homem e da vida.

J. Herculano Pires
Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas 

Curta nossa página no Facebook:
https://www.facebook.com/regeneracaodobem/

Declaração de Origem

- As mensagens, textos, fotos e vídeos estão todos disponíveis na internet.
- As postagens dão indicação de origem e autoria. 
- As imagens contidas no site são apenas ilustrativas e não fazem parte das mensagens e dos livros. 
- As frases de personalidades incluídas em alguns textos não fazem parte das publicações, são apenas ilustrativas e incluídas por fazer parte do contexto da mensagem.
- As palavras mais difíceis ou nomes em cor azul em meio ao texto, quando acessados, abrem janela com o seu significado ou breve biografia da pessoa.
- Toda atividade do blog é gratuita e sem fins lucrativos. 
- Se você gostou da mensagem e tem possibilidade, adquira o livro ou presenteie alguém, muitas obras beneficentes são mantidas com estes livros.
- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.