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quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Intolerância e Preconceito

Intolerância e Preconceito

Deolindo Amorim

Em matéria de prevenções contra qualquer "novidade", há exemplos abundantes, quer na seara religiosa quer na seara científica. Já vimos, embora de relance, algumas ocorrências características dessa mentalidade. Nem toda pessoa que cuida de ciência ou faz carreira em atividade cientifica é cientista de verdade, pois o cientista, na acepção integral, precisa ter vocação, aptidões e qualidades especiais. Há muita confusão a este respeito. Do mesmo modo, nem todo aquele que faz um curso de Direito é jurista de verdade; mas quase todo mundo confunde o jurista com qualquer bacharel, pelo simples fato de ser portador de um diploma. Há pessoas que fazem curso de especialização, pertencem a sociedades científicas, etc., mas não têm, na realidade, uma formação compatível com a índole da Ciência. É o caso daqueles que ensinam ciências nas escolas, fizeram todos os cursos, lidam com materiais de laboratório, mas nem sempre reagem como homem de mentalidade científica, porque repelem a priori toda ideia nova, qualquer processo que seja diferente dos padrões aceitos. Há ocasiões em que raciocinam mais em termos de fé, porque prejulgam e às vezes chegam ao extremo de condenar aquilo que ainda não conhecem, ainda não examinaram. Tal procedimento não é de um homem de cultura moderna, é de um vigário de aldeia no século XVI.

Os fatos demonstram, cada dia, que não basta fazer um currículo universitário, não basta apresentar títulos e láureas para ficar verdadeiramente credenciado como cientista. Não. A mentalidade do cientista define-se pelas suas concepções, pelo arejamento de sua cultura, pela independência de suas opiniões, pela sua disposição natural de procurar as manifestações da verdade, venham de onde vierem: o cientista afirma-se, finalmente, pelos horizontes de seu espírito, nunca pelas medalhas que ostenta no peito ou pelos méritos exteriores. É uma qualidade intrínseca, não é extrínseca. Há pessoas que não têm curso sistematizado, nunca passaram por uma Escola Superior, mas possuem naturalmente, uma embocadura científica, uma predisposição muito acentuada para os raciocínios exatos ; na prática, no modo de reagir e proceder, revelam muito mais espírito científico do que certas "eminências galardoadas". Não é a erudição por si só, como não é o planejamento de um curso acadêmico que faz o cientista; a cultura regular fornece apenas os instrumentos, dá orientação básica, mas ninguém sai cientista de uma Universidade, por mais adiantada que seja ela. É preciso ter formação, e a formação é inerente à estrutura psicológica do indivíduo. Há muita gente, por exemplo, que nunca fez curso de Direito, nunca entrou em Faculdade, mas tem muito mais senso jurídico do que determinados bacharéis.

O espírito cientifico, se é legítimo ou autêntico, nunca repele uma ideia, uma descoberta, sem exame. Justamente por isso, o patrimônio da Ciência sempre se enriqueceu e há de se enriquecer cada vez mais, aproveitando achegas de toda a ordem, até mesmo quando trazidas por elementos leigos. Nosso índio, lá nas selvas, não ofereceu tanto material terapêutico ao europeu? Não foi aqui, nos aldeamentos indígenas, com a sua "medicina de beberagens", que os primeiros pesquisadores europeus descobriram as propriedades curativas de certas plantas? Evidentemente o homem de ciência não iria ficar nas "beberagens", fazendo o empirismo dos índios, mas aproveitou o material, observou bem os processos por eles empregados e, depois, foi aperfeiçoar as técnicas na Europa. Mas levou daqui as primeiras noções, o índio foi o instrumento dessa contribuição cientifica, embora sem saber do papel que estava desempenhando.

A visão da ciência tem de ser sempre e cada vez mais ampla. É bom lembrar que um fabricante de cerveja - Joule - e que nem por isso deixou de ser um físico inglês, fazendo as suas observações nas horas vagas, realizou importantes experiências sobre conservação de energia. Quem o diz é Albert Einstein, em trabalho de colaboração com L. Infield, no livro Evolução da Física (Zahar Editores). Lá está escrito: "É uma estranha coincidência que todo trabalho fundamental relacionado com a natureza do calor tenha sido realizado por físicos não profissionais", que consideravam a física como "passatempo". A história das ciências, quer nos domínios da Física e da Química, quer nos da Biologia ou de outros ramos, pode enumerar muitos exemplos de pessoas que, não tendo carreira científica, não sendo profissionais, fizeram estudos valiosos: Não seria razoável rejeita uma colaboração, que pode até provocar uma descoberta, pelo fato de se tratar de elemento não integrado nas corporações acadêmicas.

O horror a inovações, como se vê, tanto se manifesta na vida religiosa, como em qualquer campo de atividade cultural. Sempre houve espíritos avessos à renovação de ideias ou de hábitos. O pior, ainda mais, é que certas reações chegam a tomar feição de guerra de prevenções e ódio, por causa de uma teoria ou de uma técnica, desde que saia dos moldes habituais. O caso da Homeopatia, por exemplo. Hahnemann sofreu hostilidade franca dentro do meio médico. Aqui mesmo, no Brasil, quando se iniciou a difusão da nova doutrina, ainda no tempo do Império, a campanha movida pela corrente alopata foi muito forte. E a Homeopatia, a esse tempo, já. era muito conhecida no Velho Mundo. Até o clero, na Bahia, também levantou desconfianças. Quando os homeopatas tentaram introduzir o ensino da doutrina hahnemaniana na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro encontraram oposição frontal. Não houve muita tolerância na cúpula médica. Muita gente combateu a Homeopatia sem fazer estudos sérios, sem qualquer experiência.

O mesmo critério de julgar a priori ainda se observa, até hoje, no que respeita ao Espiritismo e, principalmente, aos médiuns. É verdade que há muita exploração e muita ignorância no campo mediúnico, mas o estudo criterioso pode muito bem separar o "joio do trigo". O Espiritismo é combatido em dois flancos: a igreja e a classe médica, em parte. Não podemos generalizar, tanto mais quanto já é grande o número de médicos nas fileiras espíritas. Mas o combate sistemático ao Espiritismo peca pela base, porque os que o atacam não fazem estudos, não procuram conhecer as verdadeiras teses espíritas. O problema da Igreja é com a Doutrina, por causa dos seus pontos de fé; mas o problema médico, que não cogita do aspecto doutrinário, está justamente no exercício da mediunidade. É o ponto nevrálgico. Todos nós sabemos que há muita coisa errada na prática mediúnica, muito abuso, em grande parte decorrente do espírito de exploração, por um lado, e da falta de estudo, por outro lado. Também sabemos que o receituário constitui um problema dos mais delicados, inclusive para o próprio meio espírita, justamente por causa de certos fatos desagradáveis. Mas é indispensável considerar, antes de tudo, que o aspecto negativo é apenas uma contingência da ignorância e das fraquezas humanas a que os médiuns também estão sujeitos, ao passo que o aspecto positivo, que sempre existiu e existe, ainda não foi suficientemente estudado no meio médico de nossa terra e de outros países, onde ainda se pede a prisão de médiuns, como se fossem elementos marginais ou perigosos.

O lado mediúnico pode ser considerado fora da área espírita, em determinados casos, porque nem todo médium é espírita. A faculdade mediúnica - é ensino rudimentar da Doutrina - não depende das ideias, das qualidades morais, nem da crença do médium. O uso da mediunidade, entretanto, é um problema essencialmente moral. E é com este ponto, principalmente, que a Doutrina Espírita tem que ver, em todos os casos. Isto, porém, é o que todos nós sabemos, porque estamos no movimento espírita, já nos familiarizamos com as obras doutrinárias e, mal ou bem, nos apresentamos como espíritas. Ainda que este ou aquele caso de médium não seja, a rigor, um caso de Espiritismo, desde que o médium não tenha compromissos com a Doutrina e queira fazer da mediunidade o uso que bem entender, o certo é que, no fim de tudo, aparece o Espiritismo, porque a maioria, em seus raciocínios simplistas, entende que todo médium é espírita e, por esse prisma, faz os seus julgamentos. O Espiritismo é sempre envolvido...

Seja como for, e deixando de lado os princípios doutrinários e a situação particular do médium, se é espírita, budista, católico ou lá o que seja, a mediunidade em si deve ser estudada seriamente, mas com critério científico. Isto ainda não se fez nas altas instituições médicas. Combate-se, condena-se, reclama-se a prisão, mas não se faz um exame in loco, não se procura selecionar os casos para separar "a verdade da impostura". Veja-se o caso Arigó, que é, hoje, um assunto de repercussão internacional. Não interessa discutir crença nem deduzir consequências filosóficas ou religiosas, nem igualmente saber o que o médium pensa em matéria de fé: o que interessa, ou devia interessar à Medicina, é o jates, são as operações que ele faz, por processos rudimentares, à luz do dia, para quem quiser ver com os próprios olhos, inteiramente fora das técnicas e das precauções normais da cirurgia. Mas faz, não é verdade? Como? Por que? Como pode ser?... Partindo destas indagações preliminares, mas necessárias, as corporações médicas, com o verdadeiro espírito cientifico, já deveriam ter designado comissões de especialistas para um exame direto. Que se fez, porém ? Nada disto. O que se viu foi a prisão do médium, com processo criminal, e a pedido exatamente de uma Associação Médica!... Qual a Sociedade cientifica que teve o cuidado de, antes de qualquer pronunciamento, mandar chamar o médium Arigó para um estudo geral, com observação de todos os aspectos do caso ?... Enquanto vários homens de ciência, de outros países, estão interessados em estudar demoradamente o caso Arigó, aqui, no Brasil, o médium foi encarcerado, respondeu a um processo e, por fim. saiu absolvido e aclamado por multidão compacta. Tudo isto seria evitado, se houvesse um critério científico. Não houve infelizmente. E do que se acusou Arigó ? Qual o seu crime?... Estaria Arigó enquadrado na figura penal do charlatão ? Ora, charlatão é impostor, o indivíduo que impinge falsas drogas ou se "apresenta" com uma qualidade que não possui. Arigó nunca vendeu e não vende drogas de falsas propriedades curativas. Não é um impostor, portanto; nunca se disse médico e sempre diz que não é ele quem opera; declara abertamente que é o Dr. Fritz (espírito) quem faz as operações, pois ele, pessoalmente, nada pode fazer de si mesmo. Seria charlatão, incurso em contravenções penais, se algum dia se dissesse médico ou atribuísse aos seus méritos pessoais o resultado das operações de que os jornais dão notícia. (O autor deste artigo esteve em Congonhas e viu Arigó "virar" os olhos de dois pacientes com uma faca comum e, logo depois, os operados saiam da sala, normalmente). Se Arigó não é médico e não se apresenta como tal; se não recebe dinheiro dos que o procuram, porque vive do seu emprego e tem, por isso mesmo, um horário determinado para os trabalhos mediúnicos, fora do serviço ; se ele próprio confessa francamente que as operações são feitas pelo espírito que o assiste, onde está o charlatão, que não explora ninguém, não se considera milagroso, não faz comércio com a faculdade mediúnica?...

Se ele faz intervenções com êxito sem ser médico, sem conhecer técnica operatória e sem utilizar anestesia nem os instrumentos da cirurgia, e se já está provado que não houve até hoje um caso fatal, se nenhum paciente ficou inutilizado por causa disto, é o caso, então, de algum recurso diferente, seja extra-humano, seja de natureza ainda desconhecida dentro dos conceitos gerais da Medicina. Por que as corporações médicas ainda não foram testar os conhecimentos desse espírito, uma vez que o médium é leigo no assunto, pois funciona apenas como instrumento? Poderiam fazê-lo, por simples experiência, estabelecendo uma conversa, em linguagem técnica, quando Arigó estivesse mediunizado. Se realmente o espírito do Dr. Fritz fosse um cirurgião, aguentaria uma interpelação em termos médicos, poderia dar respostas certas sobre uns tantos problemas pertinentes à profissão; se, porém, o espírito nada dissesse ou respondesse tolices, revelando completo desconhecimento da Medicina; ou seria - um embusteiro, muito ignorante, ou não seria espírito. Seria o próprio médium, que estaria mistificando ou "inventando" o nome de um espírito. Admitindo-se que fosse mistificação, e que não houvesse espírito algum nem tivesse existido o Dr. Fritz, como explicar as operações sem anestesia, sem os cuidados mais comezinhos da cirurgia, sem o instrumental apropriado? Seria habilidade excepcional de Arigó? Ainda que fosse ele muito hábil para fazer tudo isso em poucos minutos, não poderia evitar hemorragias e outras consequências, como não poderia prever um acidente operatório. Ainda não houve desses casos. Então há qualquer elemento imponderável, qualquer interferência transcendental ainda não identificada, desde que não seja admitida a existência do espírito.

Porque, então, as corporações médicas não estudam diretamente o problema Arigó, ainda que pondo de lado a questão do espírito? Infelizmente não foi este o critério adotado. Em lugar de observações rigorosas, com espírito científico, porque se trata de alguma coisa inabitual, o que se deu, lamentavelmente, foi a prisão do médium, como se ainda estivéssemos nos tempos das "bruxas" da Idade Média. Tudo isto demonstra, enfim, que não é somente do lado religioso que há bitolamento, mas também do lado cientifico, com o mesmo espírito de intolerância dos processos inquisitoriais. Quem não se lembra da campanha contra o movimento espírita, em 1939, no Rio de Janeiro, por causa da "Hora Espírita Radiofônica?" Qual o objetivo da campanha? Impedir que se difundissem os princípios espíritas pelo rádio. De onde partiu essa infeliz iniciativa? De uma Sociedade Médica... A fonte é outra, mas o sentido é o mesmo: puro sectarismo, que tanto existe nas corporações religiosas, quanto nas agremiações científicas, embora seja paradoxal.

É bom lembrar, finalmente, que a campanha médica contra o Espiritismo não produziu efeito. Como decorrência do ambiente, que logo se formou, alguns jornais abriram suas colunas em defesa da Causa espírita. De tudo isto, resultaram algumas ocorrências benéficas, começando pela doação de um terreno para a construção do Hospital Espírita Pedro de Alcântara, no bairro do Rio Comprido. Pouco depois, como reação à campanha, promoveu-se o I Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, no Rio, tendo-se realizado a sessão inaugural na ABI, no dia 15 de novembro de 1939, data comemorativa do 50° aniversário da República Brasileira. Também, como reação, o saudoso confrade médico Dr. Levindo Melo arregimentou diversos colegas seus, espíritas, e muitos outros confrades, para a fundação da Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro. Ainda houve outras ocorrências provocadas pela atitude de elementos hostis, na classe médica.

Queremos concluir, dizendo apenas que a intolerância, seja no meio religioso, seja no meio médico, como também no meio espírita é sempre prejudicial à cultura e ao progresso do espírito. Ninguém possui a verdade integral, quer em ciência, quer em filosofia, quer em religião. Justamente por isso, devemos procurar a luz do conhecimento, observando, estudando e raciocinando sem preconceitos.

Deolindo Amorim
RIE - Revista Internacional de Espiritismo dez. 1968

Nota: Arigó desencarnou em 11 de janeiro de 1971 em acidente automobilístico.

Veja Arigó em cenas reais da época feitas por Jorge Rizzini (Alerta para cenas fortes):


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sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Arigó - A história que não foi contada no cinema!

Arigó 

 A história que não foi contada no cinema!

Ulisses Baptista



 Apresentação em 23/12/22 - IBNL.

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sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Arigó - O cirurgião da faca enferrujada

Arigó

O cirurgião da faca enferrujada

Documentário de Jorge Rizzini




 

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Situação Perigosa dos Médiuns de Cura

Situação Perigosa 

dos Médiuns de Cura

J. Herculano Pires



A rejeição pura e simples do meio científico ao fato inegável das curas mediúnicas cria para os médiuns de cura uma situação perigosa, que geralmente os afeta perturbando-lhes o necessário equilíbrio psíquico, deformando-lhes o comportamento social e prejudicando-lhes a própria faculdade curadora. Em nosso livro Arigó, Vida, Mediunidade e Martírio, sobre o médium Arigó, de Congonhas do Campo, em Minas Gerais, tivemos a oportunidade de examinar esse assunto de perto, em todas as suas minúcias, antecipando e depois acompanhando as pesquisas realizadas no local pela equipe de cientistas norte-americanos de várias Universidades, incluindo elementos importantes da NASA, como Andrew Puharich e John Laurence, o primeiro médico e engenheiro eletrônico, e o segundo, biofísico e manager da seção de satélites artificiais da NASA, que nos informaram sobre o caso similar de Agpaoa nas Filipinas.

Nesses dois casos, justamente famosos, os dois médiuns sofreram sob a pressão constante de elementos exploradores e com as campanhas difamatórias do clero católico, as perseguições de várias instituições médicas, não obstante numerosos médicos brasileiros e estrangeiros tenham comprovado a realidade das curas.

Com médiuns de cura das zonas rurais, como no caso da médium Bernarda Torrúbio, em Garça, na Alta Paulista, os fatos não tiveram grande divulgação, o que os preservou e geralmente os preserva das perturbações, campanhas e perseguições. Congonhas é uma cidade modesta, mas sua proximidade de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, expunha demasiadamente Arigó a pressões insuportáveis. Quando Arigó morreu, num trágico desastre de automóveis na estrada entre Congonhas e Conselheiro Lafaiete, o bispo D. Vicente Scherer, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, descarregou sobre o seu cadáver uma série de acusações caluniosas, sem um pingo de piedade cristã. Nem a morte livrou o médium e sua família das consequências de suas atividades curadoras.

A primeira cura feita por um médium, não raro de maneira inesperada, lança-o na senda das fascinações perigosas. Ele se sente escolhido por Deus, colocado acima do comum da humanidade, detentor de dons divinos. O fermento velho das religiões salvacionistas cresce no seu inconsciente, levedando-lhe a vaidade natural do homem. Pouco a pouco os necessitados aglomeram-se ao seu redor. O atendimento se torna difícil, em virtude do aumento sempre crescente dos necessitados. Amigos da onça o adulam, propagam os seus feitos, exaltam os seus dons. E, para facilitar a consulta de amigos e parentes, começam a levar-lhe presentes. O médium, que já se considera agraciado por Deus, não estranha que todos queiram agraciá-lo também. Se ele receita, os propagandistas de laboratórios levam-lhe as suas amostras, tratam-no como se ele fosse um médico na sua clínica e acabam oferecendo-lhe comissões, o que ele geralmente rejeita. Mas amigos e parentes o incitam a não ser tolo, a aproveitar enquanto é tempo, pois a mediunidade pode enfraquecer-se ou esgotar-se amanhã. Ele deve cuidar do seu futuro, pois os seus protetores espirituais não podem querer o seu desastre e ele mesmo não tem o direito de rejeitar as oportunidades de progresso. No torvelinho de súplicas, elogios, favores e atenções que o envolvem, o médium acaba aceitando as sugestões inferiores e escorrega na beira do abismo. As injustiças dos adversários o irritam, as perseguições o aturdem. Ele acaba por se entregar às fascinações e perverter as suas faculdades. Foge das pessoas que o auxiliaram nos primeiros tempos, considera-as suspeitas. Os políticos o assediam, tratando-o com deferências especiais que lhe estimulam a vaidade. Seus dons se enfraquecem pelo próprio desgaste físico a que tem de se entregar para atender a todos. Para suprir as deficiências que nota em suas próprias funções mediúnicas, inventa ou aceita expedientes escusos. Consuma-se, assim, o desvirtuamento do médium, que daí por diante fica entregue a feras que o irão devorar.

Isso ocorre também com os sacerdotes terapeutas de todas as seitas e religiões milagreiras. Não se trata de um problema de ordem divina, sobrenatural, mas de um problema puramente humano. O médium não é um santo. É simplesmente um paranormal, uma criatura em que as funções terapêuticas da natureza humana, conhecidas e aceitas no meio científico, se exteriorizam, exercendo influências nas pessoas em que essas funções defensivas do organismo se acham em estado latente. Reduzida a apenas esses aspectos psicofisiológicos, a cura espírita não seria condenada, mas quando os espíritas afirmam, baseados em pesquisas e experiências científicas, mesmo que realizadas por cientistas eminentes, que a extroversão das forças curadoras é provocada por ação de entidades espirituais, o pavor dos fantasmas faz os homens mais graves perderem a cabeça. O médium se transforma em bruxo ou lobisomem e as superstições da selva invadem os laboratórios. É o terror-pânico da sobrevivência humana que se manifesta, exigindo a ação das autoridades policiais contra os médiuns, já que não pode ser contra os espíritos. Num episódio curioso, o Dr. Silva Mello, confessando-se materialista congênito, classificou os médiuns como alienados mentais. Mas, inadvertidamente, contou que ele mesmo tinha medo de dormir no escuro. O Dr. Sérgio Valle, espírita, devolveu o diagnóstico ao autor, provando por esse e outros motivos que ele também era médium e temia a aproximação de espíritos. Alienação por alienação, ficaram elas por elas. O saudoso e famoso Dr. Henrique Roxo, glória da psiquiatria nacional, considerou os médiuns como delirantes, sujeitos ao delírio espírita episódico. Seu discípulo mais dedicado e fiel, Dr. Lauro Gallwes, tornou-se espírita e contou num dos seus livros que o Dr. Roxo chegou ao fim de sua vida aceitando a realidade espírita. O mesmo já acontecera com Lombroso, RichetWilliam Crookes, Paul Gibier, Gustave Geley e tantos outros, pelo mundo inteiro, provando a fragilidade das construções científicas aparentemente inabaláveis. Hoje, Remy Chauvin denuncia a existência de uma doença típica do meio científico, a alergia ao futuro. Os cientistas alérgicos ao futuro sofrem também de autofobia, como observou Denis Bradley, pois temendo o espírito temem a si mesmos. Uma tragicômica situação que o avanço das ciências vai desmanchando na esteira do tempo.

Os cientistas que se apegam ferrenhamente aos métodos sensoriais da ciência acadêmica revelam falta de percepção extrassensorial, o que vale dizer falta de agudeza mental. A função da inteligência não é arrastar-se como inseto na casca da laranja, mas perfurá-la e descobrir o que existe no seu interior. Esses cientistas sistemáticos assemelham-se aos clérigos dogmáticos que não buscam a verdade, mas apenas a confirmação de princípios estabelecidos. Por isso a Ciência se volta muitas vezes contra si mesma, empregando anátemas e excomunhões contra os que rejeitam o credo fideísta. Há uma simbiose cultural dos opostos que gera a dialética do absurdo no campo cultural. A Ciência se fixou, para se desenvolver com segurança, no conceito do concreto. A fé científica repousa na realidade material. A Religião firmou a sua fé no conceito do abstrato. Da luta entre ambas resultou a assimilação recíproca de atitudes intransigentes. Essa barreira artificial contra a busca isenta e pura da verdade gerou um clero científico que se compraz na condenação dos que se atrevem a mostrar-se criativos e não apenas repetitivos. A História das Ciências tem episódios medievais, como nos casos de Pasteur e Kardec, os dois atrevidos descobridores de mundos invisíveis e imponderáveis. O medievalismo, com seu ideal totalitário de homogeneização do pensamento, pesa ainda em nossa consciência e prejudica o avanço científico de alguns setores culturais onde sobrevivem os antigos carrascos da fogueira e do garrote vil. É inacreditável a certeza com que certos cientistas negam a existência do espírito baseados apenas em pressupostos doutorais. Quando o bispo de Barcelona queimou as obras de Kardec em praça pública (por não poder queimar o próprio), este declarou que a cauda da Inquisição ainda se arrastava pela Espanha. Historicamente essa cauda de sáurio enraivecido continuou a arrastar-se pelo mundo e esfacelou a Europa nos horrores do nazi-fascismo.

O médium Arigó, preso na cadeia de Conselheiro Lafaiete, chamava os demais presos de colegas. Ao ser libertado, levou outros libertos para as suas terras em Congonhas e os manteve ali como colegas de trabalho na roça. Dizia sempre aos que o condenavam por isso: “São meus colegas, gente boa que só ficou ruim por causa da miséria.”

Essa atitude do médium roceiro e semialfabetizado devia servir de exemplo aos cientistas ilustres que hoje condenam os seus colegas corajosos que rasgam as perspectivas do futuro. É recente o episódio dos psicólogos norte-americanos que condenaram as pesquisas parapsicológicas, confessando não terem lido um só livro sobre o assunto. Rhine declarou apenas isto: “Esses cientistas descobriram um meio anticientífico de tratar de Ciência.”

Os homens se vangloriam de arrancar os segredos da natureza, de a fazerem falar através de seus métodos de pesquisa. Mas a verdade é outra. A Natureza não nos esconde nada. Hegel viu isso com clareza ao tratar do reino vegetal, definindo a árvore como um ato permanente de doação. Os demais reinos também se abrem para o homem, revelam-lhe as suas entranhas, convidando-os a aprender no livro aberto do mundo, de que falou Descartes ao sair do Colégio Jesuíta de La Fleche. O próprio Céu está hoje aberto ao homem, revelando-lhe os seus mistérios e oferecendo-lhe as rotas estelares. Bacon compreendeu com aguda intuição e reconheceu que toda a Ciência Humana não é mais do que um ato de obediência. O homem só não aprende, como aconteceu com os escolásticos, quando rejeita a liberalidade da natureza e se engolfa orgulhosamente em si mesmo, forjando sistemazinhos absurdos, estreitos leitos de Procusto, como observou Cassirer, nos quais espreme ou espicha, corta ou arrebenta os fatos empíricos que não se sujeitam aos seus caprichos. Essa é a Tragédia da Cultura, não produzida pelo acúmulo de conhecimentos, como quer o filósofo, mas por desobedecer a natureza e torcê-la de acordo com suas ideias e suposições geralmente ridículas.

No seu próprio caso o homem se mostra rebelde. A natureza Humana não é menos pródiga do que a Natureza Geral. Desde que o mundo é mundo a natureza humana se abre ao homem revelando-lhe a sua essência espiritual, tão perene e imortal como a de todas as coisas e seres. Mas o homenzinho rebelde prefere considerar-se uma exceção orgulhosa. Se tudo é indestrutível, ele prefere considerar-se mortal, pó que volta ao pó, luminescência esquiva e passageira no esplendor do Universo. A morte destrói as gerações, mas os homens voltam através de aparições, manifestações sensíveis, materializações, ressurreições tangíveis, como a de Jesus, mas os homens preferem a morte à ressurreição, fazem-se agêneres (seres não gerados), que eles incluem em seus fabulários ingênuos.

De onde vem essa relutância do homem ante os fenômenos naturais, mil vezes provados, comprovados e repetidos nas observações naturais e nas pesquisas de laboratórios? Da vaidade. Único ser pensante e racional em nosso mundinho sublunar, miserável subúrbio do cosmos, o homem se envaidece da sua capacidade de pesar e medir as coisas, como se isso bastasse para lhe dar a supremacia absoluta no Universo.

Os médiuns de cura sabem muito bem que nada podem fazer se não tiverem a assistência dos espíritos terapeutas que os envolvem em seu magnetismo perispirítico, descarregando energias espirituais e físicas nos organismos doentes e perturbados para restabelecer-lhes o equilíbrio abalado. Não obstante, julgam-se senhores do poder curador. Esse desequilíbrio mental, provocado pelo orgulho – engorgitamento mórbido do eu inferior –, anula os efeitos curativos no choque fatal das vibrações doentias em conflito. As ambições do poder, ganância e superioridade confundem-lhe a mente, levando-o ao fracasso e às tentativas inúteis de socorro e ajuda. Ele se transforma em explorador das esperanças e da fé dos doentes, emparelhando-se com estes no desequilíbrio inevitável. Essa queda do médium, que os espíritos benevolentes não podem impedir, para não anular a experiência necessária, reflete-se negativamente no plano moral e social, invertendo os efeitos intencionais da sua prática terapêutica, em prejuízo moral e social do despertamento espiritual. Essa é a queda do médium, mais grave que a queda de Adão e a queda social de Rousseau. O fracasso do médium representa, por sua vez, a queda dos que depositavam nele as suas esperanças. É dever dos estudiosos aprofundar essas questões doutrinárias, colocando o problema em termos racionais, sem a precipitação nas ameaças de um misticismo alienante e ingênuo. O Espiritismo exige a verdade nua e crua. Os que temem expor a verdade não podem servir à Ciência Espírita. A verdade é o objeto imediato da Ciência. Sem ela, a Ciência é impossível. Não podemos ter nenhuma certeza no campo do saber se não dispusermos de provas daquilo que afirmamos. Mas há vários tipos de verdade, o que permitiu aos sofistas gregos jogar com palavras a respeito do problema, até que Sócrates descobriu a maiêutica e aplicou esse método aos faladores perguntando-lhes sempre: “O que é isso?” Obrigados a definir os seus conceitos, os sofistas tiveram de calar ou fugir da sua presença. Como Jesus tratasse da Verdade, Pilatos lhe perguntou o que era a verdade e Jesus não lhe respondeu. Diante disso, muita gente entendeu que a verdade é inexplicável. Ora, uma verdade inexplicável jamais seria verídica. Jesus não respondeu porque Pilatos, envolvido na mentira do complô romano-judaico contra a sua pessoa, não estava em condições de compreender a verdade. O poeta Cleiômenes Campos, num pequeno poema sobre esse episódio, escreveu:
Jesus não respondeu.
Foi como se dissesse: “A verdade sou eu.”
Jesus pregava aos homens a verdade da vida humana e seus objetivos, que decorria da Verdade Suprema de Deus. Como explicar isso a um romano que ia entregá-lo à crucificação para defender a mentira?

A verdade é uma questão de relação do pensamento com a realidade. Se essa relação é pura, direta, sem deformações interesseiras, ela é a verdade. Por exemplo: se vemos uma pedra e a reconhecemos como pedra, dizendo “vejo uma pedra”, essas palavras são a verdade da nossa percepção e podemos prová-la facilmente. Mas se vemos uma nuvem e dizemos que se trata da deusa Juno, enganamo-nos, mentimos e não temos nenhuma possibilidade de provar o que afirmamos. Todas as civilizações, desde as mais primitivas às mais adiantadas, foram entretecidas de mentiras e verdades, de ilusões e realidades. Segundo Toynbee, cada civilização se apoia numa grande religião, herdando os seus vícios e virtudes. A corrida para o materialismo, nos últimos séculos do nosso desenvolvimento científico, foi impulsionada pela necessidade de separar o joio do trigo, as mentiras e ilusões da realidade e da verdade. As religiões se apoiaram no pressuposto da fé, fundada nas revelações espirituais de profetas e messias. Criaram assim, sobre o mundo real, um mundo fictício de pseudoverdades, toda uma imensa rede de símbolos pré-lógicos, por isso mesmo contraditórios entre si. Nem mesmo o desenvolvimento da lógica escolástica, na Idade Média, conseguiu sanar essa situação cultural alienante. Os pressupostos da fé pela fé, amparados no princípio teológico do credo quia absurdum (creio, mesmo que absurdo) fortaleceram a rede fantasiosa de crenças, mitos e ritos sagrados. O conceito do sagrado impediu, com as condenações violentas, a busca da verdade e qualquer possibilidade de esclarecimento total desse mundo de fascinações.

Surgindo na era científica, em meados do século XIX, o Espiritismo se opôs, ao mesmo tempo, ao religiosismo alienante e ao materialismo exclusivista. Kardec abriu a brecha espírita nesses maciços milenares, estabelecendo o critério da razão na busca da verdade. Sustentou o princípio dialético da constituição do mundo por dois elementos fundamentais: espírito e matéria. Dessa colocação, válida e confirmada em nossos dias, nasceu a Ciência Espírita, armada com os métodos da pesquisa científica dos fenômenos e com os processos da cogitação filosófica livre de pressupostos e preconceitos. A Ciência acadêmica rejeitou a dualidade espírito-matéria, sustentando o monismo materialista, mas o avanço das pesquisas em nosso século acabaram por dar razão à Ciência Espírita. A concepção monista permanece válida, mas em termos de estrutura orgânica da realidade. Espírito e matéria preenchem o cosmos, sendo o espírito o elemento estruturador da matéria. A verdade brota naturalmente das pesquisas científicas da realidade objetiva. O sonho dos fisiólogos gregos realiza-se hoje, plenamente, no desenvolvimento das pesquisas fenomênicas da Ciência Espírita. A Parapsicologia atual é simplesmente o elo de ligação da Ciência Acadêmica com a Ciência Espírita. Sem esse elo, os dois campos científicos permaneceriam separados, impedindo a visão global da realidade, necessária à compreensão verdadeira do mundo, do homem e da vida.

J. Herculano Pires
Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas 

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