sexta-feira, 23 de março de 2018

Sós com os outros

Sós com os outros

Joanna de Ângelis



Não te creias a sós, embrulhando os sonhos que acalentavas nos pesados tecidos da revolta.

Há tantos solitários que não se resolvem a arrebentar as amarras do egoísmo para serem úteis a alguém! . . .

Sê tu quem consiga esse fanal.

O lago plácido e sonhador, que reflete o céu de astros pulverizado qual espelho precioso, desfaz-se ante o batráquio que nele se arremessa, apagando a ilusão da beleza.

Desejarias felicidade contemplativa cercado de carinhos, inútil, refletindo sonhos impossíveis.

No entanto, enquanto te crês solitário e triste, frustrado nos anseios que acalentavas, perdes os olhos nas tintas carregadas do pessimismo e não vês aqueles olhos que te fitam inquietos, desejando acercar-se de ti, sem oportunidade de fazê-lo.

A semente, que se sente desventurada numa arca de mogno e bronze valiosos, desdobra-se em bênçãos para muitos quando acolhida pelo solo que lhe oferece destino.

A água morta entre sombras alimenta a vida se vai depurada.

O monturo desprezível enriquece-se de perfume quando agasalha os bulbos do lírio.

O coração ao teu lado, na vida diária, é a sublime meta da tua oportunidade no corpo.

Mata a solidão, asfixiando-a nos tecidos leves da cordialidade para com os outros.

Não creias que haja um abismo entre ti e os outros.

Se o vês ou o sentes, lança a ponte da afabilidade e atapeta-a da doçura. Escorregarão muitos seres imersos no personalismo atormentado das vacuidades da Terra, que se aconchegarão ao país da tua alma, sedentos, necessitados e amigos teus, dando carinho também.

Compreenderás que o receber é efeito do dar, tanto quanto a colher é o resultado do plantar.

A lagarta que teme a metamorfose jamais plainará como borboleta leve, no azul do ar.

A flor que receia o desgaste nunca atingirá a semente que a perpetua.

O amor que se enclausura não amadurecerá em dádivas renovadoras.

***

Aparecendo à pecadora de Magdala, após a Ressurreição, o Mestre premiou o esforço de quem tanto deu à causa da Mensagem Viva da Fé, a ponto de, vencendo-se a si mesma, oferecer-se entre tormentos íntimos de paixões sem nome que sublimou, para renascer dos escombros qual Circe de luz. . . E Maria o mereceu, pois que, esquecida do próprio eu, cindiu a casca da autopiedade e da falsa solidão a que muitos a si se impõem, para atirar-se à glória do serviço ao próximo sem fronteira nem limite por amor a Ele. 

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Dimensões da Verdade

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quinta-feira, 22 de março de 2018

Banho e passe

Banho e passe

Miramez




O contato da água no corpo provoca um estímulo magnético, que percorre todo o organismo, deixando-o calmo, e preparando-o para o sono reparador ou as lutas de cada dia. O banho diário, quando encontra na mente apoio, torna-se um passe.

Além das virtudes curativas da água. enxertar-se-ão fluidos magnéticos, de acordo com a irradiação da alma.

A disciplina dos pensamentos é uma fonte de bem-estar, na hora da higiene do instrumento carnal. No instante do banho é preciso que entendais a necessidade da alegria, que o vosso pensamento sustente o amor, até ao próprio líquido que vos serve de asseio. Visualizai, além da água que cai em profusão, a contra parte, como fluidos espirituais banhando todo o vosso ser. O impulso dessa energia destampa no vosso íntimo a lembrança da fé, da esperança, da solidariedade, do contentamento e do trabalho.

Por este motivo, banho e passe, conjugados, são uma magia divina ao alcance das vossas mãos. O chuveiro seria como um médium da água e, esta, o fluido que vivifica o corpo.

Poder-se-á vincular o banho ao passe, e ele poderá ser uma transfusão de energias eletromagnéticas, dependendo do modo pelo qual pensais.

Uma mente ordenada na alta disciplina e pela concentração, em segundos, selecionará, em seu derredor, grande quantidade de magnetismo espiritual, e os adicionará, pela vontade, na água que lhe serve de veículo de limpeza física, passando a ser útil na higiene psíquica.

Sabeis por que, ao tomar banho, sentimo-nos comovidos, a ponto de nos tornarmos cantores? É a alegria advinda da esperança, de que a água é portadora pelos fluidos espirituais, que lhes são ajustados por bênção do amor. O lar é o vosso aprisco acolhedor, e nele existem espíritos de grande elevação, cuja dedicação e carinho com a família nos mostrará como Deus é bom. Essa assistência atinge igualmente as coisas materiais, desde a arborização, até o preparo das águas que nos servem.

Quantas doenças surgem e desaparecem sem que a própria família se cientifique disso? É a misericórdia do Senhor pelos emissários de Jesus, operando na dimensão oculta para os homens, e encarregados de assistir ao lar. Eles colocam fluidos apropriados nas águas para o banho, e nas que tomais. E quando eles encontram disposições mentais favoráveis alegram-se pela grande eficiência do trabalho.

Na hora do repasto é sagrado e conveniente que tenhais boas conversações. No momento do banho, é preciso que ajudeis com pensamentos nobres, tanto quanto a prece, para que tenhais mãos mais eficientes operando em vosso favor. Se quereis quantidade maior de oxigênio nitrogenado, basta pensardes firmemente que estareis recebendo esses elementos, e a natureza dar-vos-á com abundância. É o "pedi e obtereis" do Cristo. E com o tempo estareis mestre nessa operação.

A alegria tem também bases físicas. Um corpo sadio nos proporcionará facilidades para expressar o amor. Quando tomardes o vosso café pela manhã, tomai-o convicto de que estais absorvendo, juntamente com os ingredientes materiais, a porção de fluidos curativos, de modo a desembaraçar todo o miasma pesado que impede o fluxo da força vital em vosso corpo. E saireis da mesa dispostos para o trabalho, como também para a vida. Despedi-vos dos vossos familiares com um sorriso agradável, e deixai deslumbrar em vosso olhar o otimismo, de maneira a fascinar todos, que eles, ocultamente, vos beneficiarão, sem que percebais.

Lembrai-vos de que um copo de água que tomais, onde quer que seja, é, sobremaneira, um banho e passe, por dentro. Não vos esqueçais de sorvê-lo com alegria e amor, lembrando com gratidão de quem vos deu, porque, se ele vem rico de coisas espirituais, aumentará com o que tendes. Se não, os fluidos que vos cercam, canalizados pela vossa mente, limparão o acrescido na água, inútil à vossa saúde, como vigilância da vossa parte. É muito bom saber, como é muito bom amar. São dois caminhos paralelos, que a felicidade percorre com alegria.

Miramez por João Nunes Maia do livro:
Horizontes da Mente

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quarta-feira, 21 de março de 2018

O homem e o boi

O homem e o boi

Irmão X.



Um anjo de longínquo sistema, interessado em conhecer os variados aspectos e graus da razão na inteligência Universal, pousou num campo terrestre e, surpreso ante a paisagem, aí encontrou um homem e um boi. Admirou as flores silvestres, fixou os horizontes coloridos de sol e rejubilou-se com a passagem do vento brando, rendendo graças ao Supremo Senhor. 

Como não dispunha, todavia, de mais larga parcela de tempo, passou à observação direta dos seres que povoavam o solo, aferindo o progresso do entendimento no orbe que visitava.

Examinou as pupilas do homem e descobriu a inquietação da maldade.

Sondou os olhos do boi e encontrou calma e paz.

Usando o critério que lhe era particular, conclui de si para consigo que o boi era superior ao homem. Consolidou a impressão quando, para experimentar, pediu mentalmente aos dois trabalhassem em silêncio. O animal respondeu com perfeição, movimentando-se, humilde, mas o companheiro bípede gritou, espetacularmente, proferindo nomes feios que fariam corar uma pedra.

Um tanto alarmado, o anjo recomendou paciência.

O educado bisneto da selva continuou trabalhando, imperturbável e tolerante.

Todavia, o irrequieto descendente de Adão estalou um chicote, ferindo as ancas do colaborador de quatro patas.

Acabrunhado agora, diante da cena triste, o sublime embaixador pediu atitudes de sacrifício.

O servo bovino obedeceu, sem qualquer relutância, revelando indiscutível interesse em ser útil, distraído das próprias chagas.

O administrador humano, contudo, redobrou a crueldade, recorrendo ao ferrão para dilacerar-lhe, ainda mais, a carne sanguinolenta...

Sensibilizadíssimo, o fiscal celeste anotou o que supôs conveniente aos fins que o traziam e afastou-se, preocupado.

Não atravessara grande distância e encontrou uma vaca em laço forte, com outro homem a ordenhá-la.

Sob impressão indefinível, emitiu apelos à renúncia.

A mãe bovina atendeu com resignação heroica, prosseguindo firme na posição de quem sabia sacrificar-se, mas o ordenhador, antes que o emissário de cima os analisasse, de perto, porque certa mosca lhe fustigava o nariz, esbofeteou o úbere da vaca, desabafando-se. O funcionário dos altos céus, compadecido, acariciou a vítima que se movimentou alguns centímetros, agradavelmente sensibilizada. O tratador, porém, berrou desvairado, caluniando-a...

Queres escoucear-me, não é? Gritou, diabólico.

Ergueu-se lesto, deu alguns passos, sacou de bengala rústica e esbordoou-lhe os chifres.

Emocionado, o anjo vivificou as energias da vaca, aplicando o seu magnetismo divino, rogou para ela as bênçãos do Altíssimo, empregou forças de coação no agressor, conferindo-lhe salutar dor de cabeça, efetuou os registros que desejava e retirou-se.

Prestes a desferir voo, firmamento a fora, encontrou um gênio sublime da hierarquia terrena.

Cumprimentaram-se, fraternos, e o fiscal divino comentou a beleza da paisagem.

Não ocultou, porém, a surpresa de que se possuía.

Relacionou os objetivos que o obrigaram a parar alguns minutos na Terra e rematou para o irmão na pureza e na virtude:

- Estou satisfeito com a elevação sentimental das criaturas superiores do Planeta. Cultivam a generosidade, renunciam no momento oportuno, trabalham sem lamentações e, sobretudo, auxiliam, com invulgar serenidade, os inferiores.

O anjo da ordem terrestre silenciou, espantado por ouvir tão rasgado elogio aos homens. O outro, no entanto, prosseguiu:

- Tive ocasião de presenciar comovedores testemunhos. Pesa-me confessá-lo, porém, não posso concordar com a posição dos seres mais nobres da terra, que se movimentam ainda sobre quatro pés, quando certo animal feroz, que os acompanha, agressivo, já detém a leveza do bípede. Naturalmente, sabe o Altíssimo o motivo pelo qual individualidades tão distintas aqui se encontra, unidas para a evolução em comum... Tenho, contudo, o propósito de apresentar um relatório minucioso às autoridades divinas, a fim de modificarmos o quadro reinante.

Assinalando-lhe os conceitos, o companheiro solicitou explicações mais claras. O anjo estrangeiro convidou-o a verificações diretas.

O protetor da Terra, desapontado, esclareceu, por sua vez, ser diversa a situação: o bípede é na crosta Planetária o Rei da inteligência, guardando consigo a láurea da compreensão, sendo o boi simples candidato ao raciocínio, absolutamente entregue ao livre-arbítrio do controlador do solo. Acentuou que, não obstante operoso e humilde, o cooperador bovino gastava a existência servindo para o bem, e acabava dando os costados no matadouro, para que os homens lhe comessem as vísceras...

O forasteiro dos céus mais altos, sem dissimular o assombro, considerou:

- Então, o problema é muito pior...

Pensou, pensou e aduziu:

- Jamais encontrei um planeta onde a razão estivesse tão degradada.

Despediu-se do colega, preparou o afastamento definitivo sem mais delonga e concluiu:

- Apresentarei relatório diferente.

Mas ainda não se sabe se o anjo foi pedir medidas ao Trono Eterno para que os bois levantem as patas dianteiras, de modo a copiarem o passo de um herói humano, ou foi rogar providências aos Poderes Celestiais a fim de que os homens desçam as mãos e andem de quatro, à maneira dos bois...

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Luz Acima

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terça-feira, 20 de março de 2018

Proteção Espiritual

Proteção Espiritual

Hilário Silva



Marques, o ex-presidente do templo espírita, falava ao companheiro:

— Teremos uma assembleia geral depois de amanhã e estou colecionando os documentos. Veremos quem pode mais. Desmoralizarei os mandriões.

E Osório, o amigo fiel, ponderava:

— Mais calma. O senhor foi presidente por muitos anos. Sempre respeitado.

Sempre querido. Recordemos nossas reuniões. Nosso Dias da Cruz, que o senhor conheceu tão bem, quando neste mundo, prometeu ajudá-lo até ao fim...

— Sei que estou protegido — dizia Marques, beliscando, nervoso, a barba branca —, mas vou colocar a coisa em pratos limpos. A diretoria foi tomada de assalto. É muita gente querendo transformar a casa em gamela gorda.

— Marques, a ironia é veneno.

— Tenho fotocópias, retratos, informações e muito papel importante para mostrar o passado desses oportunistas. Todo o material será exibido na assembleia. Alguns desses companheiros transviados são passíveis de xadrez.

— Medite, Marques, medite! — pedia Osório. — O que passou, passou... Agitar o fundo de um poço é fazer lama. Ore. Peça o amparo do Alto.

E, a convite do amigo, os dois se puseram em prece, rogando proteção espiritual.

Em seguida, tornaram à casa de Marques, onde Osório observaria como adoçar o calhamaço.

Ao procurar o libelo escrito, o dono da casa ouviu a arrumadeira, que entrara na véspera, a estranha explicação:

— Senhor Marques, todos os papéis que o senhor deixou espalhados nas cadeiras, com retratos e jornais velhos, eu entreguei ao lixeiro, quando o caminhão da Prefeitura por aqui passou.

— Meu Deus! — gritou o velhinho, entrelaçando as mãos na cabeça, ante Osório sorridente — era serviço de oito meses!

E a jovem inexperiente replicou, sem saber que fazia a definição moral:

— Mas era muita sujeira!...

Hilário Silva do livro:
Almas em Desfile de Chico Xavier / Waldo Vieira

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