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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Feitiços

Feitiços

Joanna de Ângelis



Augusto Comte ensinava que o homem religioso, analogamente aos seus antepassados dos períodos primevos, prende-se múltiplos feitiços, pela necessidade de uma fé materializada, sendo a religião uma crendice que o escraviza e amesquinha. E na atualidade não faltam aqueles que afirmam, estribados em grosseiro materialismo, que a "religião é ópio para a massa." Examinando a questão, somos de acordo que a ignorância engendrou, desde épocas mui recuadas, pequenos feitiços para reter em suas malhas quantos não dispunham de lucidez espiritual para elucidar os problemas da fé em suas variadas manifestações...

Nessa época primeira da luta, entre o instinto que cede lugar ã inteligência que se afirma, as manifestações dos mortos ensejavam falsas concepções sobre a vida de além-túmulo; e os viandantes da imortalidade imanados às formas grosseiras da matéria compraziam-se em exigir banquetes de sangue e gozo, lecionando exorcismos e práticas compatíveis no próprio estado evolutivo em que se demoravam. Desde então, as práticas de Goécia (1) se desenvolveram, avançando através das gerações para, na Idade Média, serem reprimidas a ferro e fogo, em hediondas quanto brutais mancomunações. Concomitantemente a Teurgia (2), ensejando intercâmbio com os Espíritos lúcidos, oferecia lampejos de discernimento sobre a vida extrafísica, procurando conduzir o espírito encarnado com elevados princípios morais. E como o além-túmulo sempre exerceu grande fascínio sobre as mentes humanas, os primeiros pesquisadores, incipientes e precipitados, legaram à posteridade heranças complexas de consequências, muitas vezes, comprometedoras... Ainda agora, ligados aos processos da ignorância tradicional muitos espíritos se deixam dominar por fórmulas e patuás ineficientes, cultivando superstições e carregando amuletos inócuos, metalizados com a finalidade de conseguir libertação que os defenda de todos os males... Fixações da mente em desalinho, atormentada por espíritos enfermos, além-da-forma física.

... Mentalizações que geram ações lamentáveis, frutos do comércio nefando de encarnados e desencarnados, em vampirismo de longa duração... Inúteis, no entanto, uns e outros como feitiços a espíritos tranquilos e caracteres retos. Perturbações que, por natural processo de justiça transcendente, perturbam aos que se comprazem em perturbar... 

***

Képler, deslumbrado com as constelações do firmamento, em noite serena exclamou: “Louvai ao Altíssimo celestes harmonias... e tu Minh‘alma...” Lineu, o naturalista egrégio, tocado pelas leis de Botânica bradou: “O universo canta a glória de Deus”. E Davi, no Salmo 19, já cantava há mais de dois milênios: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos”. Epicteto, o filósofo estoico, escravo de Epafródito, liberto de Nero, concitava: “Pesquisai e achareis, pois tendes a Natureza a vos auxiliar na descoberta da Verdade. Se, entretanto, não vos sentirdes capazes de avançar pelos caminhos que levam a descobri-la, atendei aos que já investigaram”. 

Ante os excelsos Arcanos o homem descobre o amor e vibra de amor. Se, no entanto, não consegues compreender a grandeza do amor, indaga aos que se enobreceram amando, e amando libertaram de toda limitação, conseguindo paz. 


***

Com o Espiritismo rasgaram-se os véus do ocultismo e uma luz mais clara se projetou sobre mentes e corações para ajudar o espírito humano em sua ascese imortalista. Tabus, amuletos, feitiços, superstições, ignorâncias em torno dos magnos problemas da vida foram superados e a doutrina da razão esclarecida, oferecendo vasto patrimônio intelectual, elucida as inquietantes indagações de após-a-morte, representando os conceitos morais do Evangelho de maneira compatível com o “bom-senso” de modo a atender as exigências do pensamento moderno... Exaltando a Doutrina do Cristo e difundindo-a, o Espiritismo conduz o homem sem peias dogmáticas nem negociações com encarnados ou desencarnados, a fim de que reorganize o domicílio mental e, livre de qualquer limitação, estabeleça o primado do Espírito, na materialização dos elevados princípios do amor. Supera receios e aclara dúvidas, liberta-te de qualquer feitiço de crença avoenga e embrionária, arrebenta os amuletos mentais da superstição e faze luz no íntimo, alçando o pensamento e o coração ao Amor de Nosso Pai, trabalhando sem repouso, mesmo que, aflito, não sintas a alegria do serviço, recordando Jesus que, logo após a Crucificação, retornou à estrada de Emaús, para elucidar a Cléofas e o companheiro, testificando a glória imortal acima de todas as misérias humanas...

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Dimensões da Verdade

Notas do autor espiritual:
(1) Goécia, ou Goétia, é um dos 5 livros principais do Lemegeton, ou seja, as Chaves de Salomão "O Mago". Goécia do bárbaro: "Arte gritada", devido aos antigos evocadores, que tinham de gritar os nomes sagrados durante os rituais.

(2) Teurgia – (substantivo feminino) Ciência do maravilhoso; arte de fazer milagres. Espécie de magia fundada em relação com os espíritos celestes. 

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domingo, 20 de outubro de 2024

Não ditos e não feitos

Não ditos e não feitos

Joanna de Ângelis



Estudiosos afeiçoados aos “ditos do Senhor” mergulharam, em todos os tempos, o pensamento nas fontes evangélicas, em busca de consolo e diretrizes, encontrando na clara mensagem da Boa Nova o clima de paz e amor necessários a uma vida feliz.

Narrativas comoventes relatam os encontros do Rabi Amoroso com os corações constrangidos pela dor e com os espíritos atribulados, a todos ensejando, pelo verbo luminoso e sublime, os roteiros libertadores.

Páginas de beleza inefável têm sido elaboradas sobre os efeitos e as palavras do Enviado de Deus, favorecendo o pensamento humano com antevisões do porvir e sugerindo retrospectos das inolvidáveis emoções que viveram os que participaram das jornadas d’Ele. . .

Infelizes e enfermos de variada classificação, obsidiados e dementes de muitas alienações foram reconduzidos à serenidade e à paz através da mensagem de esperança que Ele nos dá, desde então, como pábulo que nos mantém alimentados, conduzindo-nos para a frente e o amanhã.

***

Muito mais poderia ter dito e feito o Senhor.

Não o disse, porém, nem o fez.

E o que não disse, o que não fez, são tão grandiosos que atentam a excelente procedência d’Ele.

Recusado por uma aldeia do interior de ser ali agasalhado, nada disse, e instado pelos discípulos para que ateasse o fogo do céu sobre o lugarejo ímpio, não o fez. Retirou-se em silencio, plácido e triste, seguindo adiante...

Impossibilitado de falar ao povo de Gadara, após a recuperação psíquica do gadareno, não disse uma sentença contraditória, não teve um gesto de revolta. Imperturbável, retornou ao mar e à Galileia...

Acusado por comensais dos interesses imediatos, de açular as massas infelizes que O seguiam esperançadas, não disse um revide, não expôs uma defesa, não reagiu com irritação, não fez uso dos seus poderes...

Conclamado por aqueles que O desejavam triunfador na Terra não apresentou explicações, não debateu o assunto, retirou-se a sós...

Diante de Pilatos quase nada disse, nada fazendo e, no entanto, poderia tudo dizer e tudo fazer.

Na cruz, resignou-se a não dizer senão o indispensável para o tributo de amor, submetendo-se, incomparável, à Vontade do Pai.

E mesmo depois de ressurgido não disse nem fez o que muitos esperavam.

Afirmou a imortalidade atestando-a, realentou os companheiros com o seu amor de compreensão e, ao ascender aos Cimos, despachou-os para as tarefas do “dizer” e do “fazer” como Ele mesmo disse e fez.

* * *

Medita sobre os não ditos e não feitos do Senhor.

Se a dificuldade e a incompreensão de quem amas, quando a serviço d’Ele, te amesquinham, não te amofines.

Se a luta recrudesce e o combate acirra, não desesperes.

Se a enfermidade avança e te vence, não desanimes.

Se todos os males de fora e de dentro de ti mesmo ameaçam conduzir-te à desencarnação, não recalcitres.

Não te defendas, se injuriado.

Não te justifiques, se perseguido.

Não te exponhas, se angustiado.

Nada digas, nada faças, mesmo que tenhas o que dizer e disponhas de recursos para fazer.

Teus ditos e teus feitos já falaram por ti. Se não se fizeram ouvir, porfia confiante, de fé robusta.

Mais vale ser vítima da impiedade quando se está com a consciência tranquila, do que perseguidor entre ovações, carregando uma consciência em brasa.

E se a vida solicitar ao teu espírito o pesado tributo da tua doação total pela causa de amor que abraças, na Seara de Luz do Evangelho e do Espiritismo, não te negues, não recuses, nada digas, nada faças, entregando a vida e aspiração às mãos d’Ele, pois que mesmo morrendo na liça incompreendido e ralado, ascenderás tranquilo aos páramos do amor para voltares a fim de ajudar, mais tarde, os que te perseguiram e injuriaram vitoriosamente, ficando, porém, nas linhas sombrias e tristes da retaguarda, esperando pelo teu socorro.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Dimensões da Verdade

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sábado, 12 de junho de 2021

Cansaço

Cansaço 

Joanna de Ângelis



Estás fatigado. O cansaço, qual fluido deletério, vence tuas resistências, assenhoreando-se do aparelho físico-mental que acionas com dificuldade.

Tantas têm sido as aflições, as lutas que, desencorajado, te entregas à indiferença quanto ao futuro sob tormentos que te dominaram a capacidade de lutar.

Tens a impressão de que o entusiasmo calou a voz da sua emoção no teu sentimento encarcerado na dor, e sentes o coração como se fosse um diamante bruto a esfacelar-se dentro do peito, golpeado por vigorosas tenazes que o despedaçam...

Tudo se te afigura sombrio e a luz, que se emboscava na gota d’água aprisionada diante dos teus olhos, agora a vês transformada em lama, no pó, qual a tua antemanhã de sonhos convertida em noite tempestuosa de pavor.

Lutaste, é certo.

Reuniste as energias, qual comandante afervorado a batalhas violentas, colocando-as em defensivas até a exaustão. Mas tantas foram as agressões e tão continuado o cerco que desejarias bater em retirada, deixando livre o campo para que se multiplicassem os maus.

No íntimo conservas um travo de fel que o sofrimento deixou e como miasma em crescimento sentes o espírito envenenado, com a amargura em todas as horas.

Uns companheiros fitam teu sorriso e creem que o caráter não é um dos teus dotes mais representativos.

Outros contemplam tua tristeza e comentam que é débil a tua fé.

Alguns falam contigo e identificam expressões que deprimem teus sentimentos.

Amigos discretamente afirmam que foste vencido por “forças negativas” do Mundo Espiritual.

Confrades rigorosos negam-te o concurso da amizade deles.

Irmãos acendem a chama da idiossincrasia e separam aqueles que o teu esforço infatigável reuniu.

Colaboradores fendem as bases do serviço que desdobras, abnegado, desejando amesquinhar-te.

Assim crês, assim vês, assim é... Porque estás cansado.


Quem observa dificuldades somente encontra obstáculos.

Aquele que se prepara para um dia de calor tem pretexto para a canícula inexistente.

Olhos acostumados aos detalhes negativos descobrem insignificâncias que enfeiam qualquer paisagem feliz.

As estrelas que fulgem além da névoa são ignoradas por quantos se contentam com sombras.

As mãos que preferem espinhos perdem a sensibilidade para as débeis violetas.

No entanto, além do que registras, há beleza, harmonia, vida.

O veneno que o ofídio injeta e com o qual mata, o homem consegue transformar em medicamento salvador.

A ofensa de que se utilizam os infelizes para ultrajar, ajuda na ascensão os que sabem transformar vinditas em bênçãos.

A pedra que fere também adorna.

O lodo pestilento devidamente atendido converte-se em perfume delicado na intimidade da flor.

 

Transforma cansaço e tristeza em seiva de vida eterna.

Renasceste, na Terra, para elaborar a felicidade própria e intransferível.

Rogaste a dádiva do resgate com as moedas do testemunho e do silêncio.

Esquece-te, desse modo, de ti mesmo e persevera.

Perdoa, enquanto podes.

O perdão é luz que arremessas na direção da vida e que voltará à fonte donde procede.

O conceito que os outros fazem a teu respeito vale o que valorizas.

As dificuldades que te impõem obstaculam quanto supões.

O sarcasmo e a perseguição representam o que consideras.

A dor é o que se deseja que valha.

Levanta o espírito e combate.

Não deixes que os braços das sombras apaguem com mãos de trevas os painéis da tela das tuas aspirações.

Aprofunda a mente na pesquisa da verdade e detém-te a examinar a história dos homens fortes. Não nasceram fortes: fortificaram-se na luta.

O vento enrija a fibra da sequoia e a tormenta lhe dá vigor.

A chuva que chafurda o regato aumenta-lhe o volume d’água.

Deixa-te conduzir pelos testemunhos naturais da experiência carnal e experimenta perseverar, insistir, continuar...

* * *

A grandeza de Jesus afirmada no atroz sacrifício da Cruz teve o seu início na escolha de singelo berço para continuar nas aparentes mil nonadas da carpintaria humilde, dos contatos com as gentes simples e pouco esclarecidas, com os enfermos exigentes, os amigos ingratos, os legisladores e religiosos desonestos, para culminar na covardia de alguns discípulos obsidiados com intermitências que O atraiçoaram, esquecendo o Seu amor para fugirem.

No entanto, uma vez única deixou-se Ele vencer pelo cansaço e, por isso, não reclamou, não desistiu, não censurou, não se deteve a examinar o lado infeliz de ninguém, dedicando-se incansavelmente à construção do bem excelso em favor de todos, a todos amando e perdoando, apesar de tudo.

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sábado, 7 de dezembro de 2019

Serenidade

Serenidade

Joanna de Ângelis



A faina incessante da vida moderna, a sede de conforto supérfluo, a ânsia pelo prazer exorbitante, as demandas injustificáveis são apresentados invariavelmente como fatores básicos para explicarem os desequilíbrios da emoção que atormentam o homem. 

Não há tempo senão para viver. 

Viver bem, fruindo as concessões aligeiradas que o corpo enseja — a meta para a grande maioria. 

E semelhante a aventureiro ávido de prazer larga-se a criatura no cipoal das lutas, empenhando os valores de que dispõe, continuando, no entanto, inquieta, aflita. 

Educa-se ou se vai educando para o triunfo fácil. 

Disciplina-se ou deixa-se disciplinar antegozando o sabor da vitória em sociedade. 

Instrui-se ou deixa-se instruir para vencer... 

Educar-se, no entanto, para conhecer, peregrinando pelos meandros da dor humana, a fim de solucionar os milenários enigmas do espírito encarnado; disciplinar-se com o objetivo de renovar as disposições íntimas, no sentido da evolução espiritual; instruir-se para vencer a sombra da ignorância tendo em vista o impositivo da vitória sobre si mesmo, são diretrizes desconsideradas por muitos que, todavia, possibilitam a felicidade em termos reais e duradouros. 

De tal conquista frui o homem a satisfação da serenidade.
Marco Aurélio, referindo-se à tranquilidade, em suas Meditações, denominava como "tranquilo — um espírito bem ordenado". 

A serenidade é o estado de ordem que tranquiliza interiormente. 

Ordem que nasce da educação disciplinada pelo exercício do dever e esclarecida pela instrução que amplia as possibilidades do conhecimento. 

Acredita-se erradamente que para a serenidade são indispensáveis o conforto, a independência econômica, a estabilidade conjugal, a saúde e outros ingredientes externos considerados essenciais e raros de reunir-se num mesmo afortunado indivíduo. 

Alguns cristãos, na atualidade, justificam a falta de silêncio para cultivarem a serenidade. Outros dizem-se atormentados por problemas e informam que tudo são convites ruidosos ao desalinho da mente, à enfermidade nervosa, ao desajustamento... 

Com "olhos de ver" e "ouvidos de ouvir" naturalmente se podem descobrir fontes ricas de belezas capazes de banhar a alma de paz e harmonia. 

Painéis invulgares se desenham num raio de sol, numa estrela que fulge, num sorriso de criança, num farfalhar de folhas levemente balouçadas por brisas ciciantes, no tamborilar da chuva no telhado, numa ave ligeira bailando no ar, na harmonia e no colorido de uma flor, em mil nonadas..., convidando à serenidade, a "um espírito bem ordenado". 

"Não vos afadigueis pela posse do ouro", disse o Mestre. 

A posse exaure aquele que possui. 

"O meu reino não é deste mundo", explicou o Senhor. 

Em face de tais lições é que Jesus, embora sem encontrar entre os companheiros quem se identificasse com a sua mensagem de amor, amou e serviu a todos indistintamente e quando, mais tarde, sofreu o desprezo dos que mais se beneficiaram da sua presença, expulso da compreensão dos que d'Ele dependiam no vozerio da perseguição em invulgar soledade, manteve-se sereno, acenando com bênçãos para os infelizes e amando os próprios algozes na mais eminente demonstração de que serenidade com paz íntima é conquista do espírito, independente das excentricidades do mundo das formas. 

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
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sexta-feira, 5 de abril de 2019

Com integridade e consciência

Com integridade e consciência

Joanna de Ângelis



Solicitaste uma fé que preenchesse de tranquilidade o vazio da alma, e o Espiritismo ofereceu à tua mente indagadora respostas justas para os afligentes problemas, ensejando-te uma fé em bases racionais. 

Desejaste um campo de trabalho onde pudesses aplicar as possibilidades do amor em legítimas atitudes de abnegação desinteressada, e a Doutrina Espírita colocou ao teu dispor a gleba da humanidade sofredora. 

Pediste saúde para o corpo e equilíbrio para a mente visitada por distúrbios frequentes, e a Mensagem Espiritista cedeu ao teu espírito os tesouros do estudo e as terapias do passe e da água fluída, através dos quais conseguiste ordenar a casa mental e recompor o metabolismo orgânico. 

Requereste a bênção de companheiros leais ao teu lado, entre os quais o devotamento e o esforço digno te ensejassem a reforma íntima, nos teus planos de espiritualização pessoal, e a Palavra Espírita apresentou-te amigos, na feição de irmãos, que também buscavam libertação.

Pensaste em adquirir conhecimentos que te capacitassem com os instrumentos hábeis para o triunfo espiritual, e a Codificação Kardequiana, de fácil manuseio, franqueou-te os valiosos depósitos da sabedoria universal, num curso ao alcance de todas as mentes. 

Prometeste construir um império de fraternidade real se conseguisses meios de executar o programa que traçaste, - e a Revelação dos Espíritos, em descerrando os painéis da Imortalidade, falou-te do tempo de que disporias pelas rotas do Infinito, se começasses a laborar desde então... 

No entanto, ainda te encontras no pórtico da tarefa espírita a realizar, solicitando e meditando, mantendo atitudes de inquietação e dúvida. 

* * * 

Faze um balanço sensato das tuas atividades com integridade e consciência. Dizes, agora, que a fé de que dispões não é bastante poderosa para harmonizar-te interiormente... 

Afirmas que o campo de trabalho está muito inçado de incertezas e suspeitas... 

Explicas que a saúde é uma concessão transitória que não se fixa... 

Informas que os companheiros da seara espírita não diferem muito dos outros homens. . . 

Apregoas que as preocupações não te favorecem com a dádiva preciosa da serenidade para o estudo... 

Esclareces que a atualidade não comporta construções de amor, por campearem livremente a criminalidade e o egoísmo exagerado... 

E na contabilidade dos teus feitos o débito atinge expressões alarmantes. 

Creditaste somente lamentações, queixas, azedumes, revoltas, decepções, exigências...

Esperavas, não um roteiro de santificação com o esforço pessoal exaustivo para o justo resgate dos compromissos negativos do passado. 

Pretendias uma lição de progresso sem esforço, uma concessão gratuita da Divindade, que te situasse acima da craveira comum dos que lutam e sofrem, choram e servem redimindo-se a si mesmos. 

E por isso te supões deserdado dos celestes favores, esquecido pelo carinho dos Espíritos Excelsos.

Sonhas com o céu enquanto desconsideras a Terra, acreditando-a abjeta. 

Pretendes evolução e te recusas à elevação. 

Procuras repouso sem o pagamento da moeda do trabalho. 

O rio das horas, porém, corre, levando em suas vibrações-tempo as oportunidades perdidas. 

* * * 

Narra uma velha história que, num eremitério humílimo; residia santo homem asceta que vivia com frugal e pobre alimentação de maçã e tragos d’água de córrego vizinho. Exaltava-se e queixava-se, porém, em suas preces, dizendo: “Sofro por Ti e indago: haverá alguém mais pobre do que eu”? Um pouco mais abaixo, no mesmo sítio, junto ao curso d’água vivia outro monge, que se alimentava exclusivamente das cascas de maças que boiavam no riacho modesto... 

Antes de lamuriar-te olha para baixo, contempla os que estão na retaguarda. Não exijas nada nem reclames nada. 

Espanca trevas e retira a fuligem que empana as tuas lentes espirituais.

Medita serenamente no impositivo da hora, estuda com atenção e acendrado interesse o Espiritismo que te honra a existência, e sai a campo, aproveitando o tempo, alimentando-te da esperança e bebendo a água lustral da fé viva, relegando ao amanhã as inanias que ainda agora te atormentam. E o que não conseguires realizar, contigo, Jesus, o Incomparável Amigo, fará oportunamente.

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sexta-feira, 23 de março de 2018

Sós com os outros

Sós com os outros

Joanna de Ângelis



Não te creias a sós, embrulhando os sonhos que acalentavas nos pesados tecidos da revolta.

Há tantos solitários que não se resolvem a arrebentar as amarras do egoísmo para serem úteis a alguém! . . .

Sê tu quem consiga esse fanal.

O lago plácido e sonhador, que reflete o céu de astros pulverizado qual espelho precioso, desfaz-se ante o batráquio que nele se arremessa, apagando a ilusão da beleza.

Desejarias felicidade contemplativa cercado de carinhos, inútil, refletindo sonhos impossíveis.

No entanto, enquanto te crês solitário e triste, frustrado nos anseios que acalentavas, perdes os olhos nas tintas carregadas do pessimismo e não vês aqueles olhos que te fitam inquietos, desejando acercar-se de ti, sem oportunidade de fazê-lo.

A semente, que se sente desventurada numa arca de mogno e bronze valiosos, desdobra-se em bênçãos para muitos quando acolhida pelo solo que lhe oferece destino.

A água morta entre sombras alimenta a vida se vai depurada.

O monturo desprezível enriquece-se de perfume quando agasalha os bulbos do lírio.

O coração ao teu lado, na vida diária, é a sublime meta da tua oportunidade no corpo.

Mata a solidão, asfixiando-a nos tecidos leves da cordialidade para com os outros.

Não creias que haja um abismo entre ti e os outros.

Se o vês ou o sentes, lança a ponte da afabilidade e atapeta-a da doçura. Escorregarão muitos seres imersos no personalismo atormentado das vacuidades da Terra, que se aconchegarão ao país da tua alma, sedentos, necessitados e amigos teus, dando carinho também.

Compreenderás que o receber é efeito do dar, tanto quanto a colher é o resultado do plantar.

A lagarta que teme a metamorfose jamais plainará como borboleta leve, no azul do ar.

A flor que receia o desgaste nunca atingirá a semente que a perpetua.

O amor que se enclausura não amadurecerá em dádivas renovadoras.

***

Aparecendo à pecadora de Magdala, após a Ressurreição, o Mestre premiou o esforço de quem tanto deu à causa da Mensagem Viva da Fé, a ponto de, vencendo-se a si mesma, oferecer-se entre tormentos íntimos de paixões sem nome que sublimou, para renascer dos escombros qual Circe de luz. . . E Maria o mereceu, pois que, esquecida do próprio eu, cindiu a casca da autopiedade e da falsa solidão a que muitos a si se impõem, para atirar-se à glória do serviço ao próximo sem fronteira nem limite por amor a Ele. 

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