sexta-feira, 3 de março de 2023

Convite de alento

Convite de alento

Aura Celeste



Alma querida, aqui estou para falar-te.

Abre-me uma brecha mental nos teus problemas, facilitando-me a comunicação contigo.

Estás extenuada e a amargura se assenhoreou das tuas paisagens íntimas.

Deixas que medrem o desencanto e a decepção, instalando-se a indiferença onde antes reinavam a alegria e a fraternidade.

Acusas as aziagas circunstâncias atuais e a falta de companheiros que te apoiem na luta renhida que pretendes abandonar, vitimada pela mágoa.

Distancias-te da ação relevante porque não recebeste as respostas gratificantes pelo trabalho desenvolvido.

Recuas, alegando falta de espaço para as tuas aspirações, no meio onde atuavas, tombando no rancor sem fundamento.

Vem comigo, esforçando-te por sair do pessimismo.

Façamos um rápido giro e compreenderás que segas frutos azedos porque abandonas o pomar das bênçãos.

Observa aquela mulher andrajosa, que passa. É mãe e viúva. Luta com tenacidade numa profissão humilde para educar o filho, embora a saúde alquebrada...

Aqueloutra que sofre espezinhamento anela pelo futuro e silencia as ásperas agressões que sofre...

Mais além, há alguém abandonado, em desvalimento, que está orando...

Aquele dali, é um enfermo que me habituei a visitar e com quem dialogo, inspirando-lhe coragem...

Este senhor perdeu os bens que amealhou por toda a vida, num negócio infeliz, e, não obstante, recomeça...

Mais longe, há rapazes sonhadores, moçoilas ambiciosas, adultos lutadores e anciãos em prece perseverando nos ideais, apesar dos fatores aparentemente negativos.

Triunfarão todos eles, senão agora, mais tarde.

Quem foge da luta, perde-a, antes de começá-la.

Quem posterga o trabalho complica a vida.

Sai, portanto, da furna da queixa à qual te recolhes, esbate as trevas da negação pessoal e recomeça, retemperando o ânimo, enquanto luz a oportunidade. Vem comigo, docilmente, e vitaliza-te.

Sempre estou vigilante e a minha é a missão de jamais abandonar, mudando o que pode e deve ser alterado, a fim de que o triunfo coroe o lutador que me dá as mãos e aceita-me.

Eu sou tua irmã Esperança.

Aura Celeste por Divaldo Franco do livro:
Antologia Espiritual

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- Cisão para estudo de acordo com o Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610 /98 LDA - Lei nº 9.610 de 19 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 2 de março de 2023

Os complementos da palavra

Os complementos da palavra

Alberto Seabra


"Mímicos em ação!"

Não raro imaginamos que somente se incrimina alguém na conversação, quando pormenorizamos referências descaridosas e gritantes. Mas a realidade é bem outra.

O cáustico da maledicência, o fogo da calúnia, o miasma do pessimismo e o visco do desânimo, nem sempre exigem verbo sonoro para se darem a conhecer, envenenando a vida.

Quantos crimes são consumados "lavando-se as mãos", usando-se o desprezo mudo, arruinando-se o bem através de ademanes sutis, quando a língua dormita no leito da boca?

Dependendo das circunstâncias e dos lances da frase, os acessórios da palavra dizem, vezes e vezes, muito mais e com maiores efeitos do que toda uma acusação bem urdida.

Analisa os complementos da linguagem falada que te envolvem e te acompanham:

  • O silêncio intencional, após a alusão alheia ao valor de outrem.
  • A mímica irônica de breves segundos a expressar descortesia.
  • O sorriso de cepticismo com respeito aos préstimos dessa ou daquela instituição.
  • O rápido muxoxo nos apontamentos em torno de um livro.
  • O menear de cabeça, aparentemente inofensivo, a valer por sorrateira condenação.
  • O gesto de enfado ou de crítica, relativo à tarefa em pauta.
  • A expressão facial interrogativa, mostrando pretendida inocência na consideração de um problema.
  • O olhar reticencioso de descrença, quanto à veracidade de um fato.
  • O movimento espontâneo de negação, traindo intentes secundários na prestação de informes, supostamente sinceros.
  • O simples ar de dúvida depreciativa, no comentário acerca do companheiro.

Enquanto aí estamos, imersos nos fluidos da matéria densa, relacionamos tais atitudes por bagatelas. Entretanto, quando transpomos os portais da morte para renascer no clima da vida verdadeira, reconsiderando os passos vividos, é que atilamos com a extensão de sua importância, em nossos destinos.

Observando os sentimentos que porejam do corpo espiritual, através da aura, reconhecemos que, a rigor, ninguém consegue ocultar intenções, sejam as mais profundas.

Fluidos e vibrações, a dimanarem do ser, falam mais alto que discursos e votos articulados pela língua.

Disciplinemos os complementos de nossa palavra, aplicando-os, quanto possível, em favor do bem de todos.

Vigilância e severidade para nós mesmos, bondade e tolerância para com os outros.

A percuciência da Lei Divina é superior à mais subida perspicácia da mente humana.

Exagerando os erros e os defeitos de alguém, agravamos consequentemente as nossas próprias faltas e imperfeições, pois seremos julgados conforme houvermos julgado o próximo.

Clareemos as manifestações com a luz da indulgência, guardando dentro e fora de nossas almas a lição sempre viva:

"Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia."
Alberto Seabra por Waldo Vieira do livro:
Seareiros de Volta

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Vitória do Espiritismo

Vitória do Espiritismo

Léon Denis


A seu tempo, a revelação dos Espíritos aos homens, a respeito da imortalidade da alma, do destino e da divina justiça, da finalidade da vida na Terra e de como ser feliz, preparando o futuro transcendental, se fez mediante símbolos e rituais, nos quais as cerimônias e complexidades da forma preservavam dos exotéricos a intromissão e a vulgaridade, para ser interpretada pelos iniciados que lhe estudavam o conteúdo superior, apresentado-a conforme a mentalidade de então e a capacidade de se poder vivê-la.

Foi o período do Ocultismo, da Cabala, do Hermetismo, do Esoterismo que vitalizaram a alma das civilizações da antiguidade oriental, da chinesa, da indo-europeia, da greco-romana e, guardadas as proporções, dos povos primitivos e silvícolas de todo o Orbe.

Com o surgimento da Filosofia, a partir de Sócrates ou mesmo dos pré-socráticos, o debate franco do pensamento zombou, em muitos casos, das doutrinas ancestrais, procurando libertar-se de quaisquer coerções e limites, em tentativas de fazer o homem melhor identificar-se com a vida, sem a necessidade de gurus ou pítons, de mestres, de hierofantes, de feiticeiros, tornando-se os filósofos, novos guias, semelhantes àqueles que pretendiam combater.

O Espiritualismo, no entanto, resistiu-lhes ao sarcasmo proposital e preservou os métodos antigos, nas suas práticas rigorosas vedadas aos curiosos e não filiados.

O intercâmbio entre os habitantes das duas esferas vibratórias da vida — a dos mortos e a dos vivos — prosseguiu sem solução de continuidade, enriquecendo de esperança e sabedoria aqueles que se lhe dedicavam.

Dos Espíritos que exigiam vítimas e sacrifícios humanos, por serem tão primitivos como o próprio homem — almas dos homens despojadas da matéria, que eles são —, a comunhão se fez mais profunda com as Entidades sábias que se encarregavam de inspirar e promover o progresso, levando a criatura a galgar os degraus da evolução, despojando-se das paixões mais vis mediante o aprimoramento das tendências e o cultivo das aptidões superiores.

Foi um largo peso a ser vencido, no qual estiveram investidos os melhores valores dos ideais e da abnegação, para o que, missionários do amor e da sabedoria mergulharam na densa névoa carnal sob o amparo de companheiros iluminados que permaneceram no Além, de modo a facultar entre ambos uma perfeita identificação de pensamento e experiência. Tornaram-se, deste modo, os aceleradores do progresso moral e intelectual, envergando a indumentária de sacerdotes e sábios, investigadores e filósofos, apóstolos e mártires...

Sua passagem pela Terra deixava uma esteira luminosa que esbatia as trevas, indicando rumos e tomando-se instrutores seguros e pacíficos, construtores do bem e da verdade.

Opunham-se à Violência e ao totalitarismo, ao poder arbitrário e à agressividade, preferindo a morte ao crime, o cárcere à anuência com os prepotentes...

Inspirados pelos seus pares não desfaleciam ante as ásperas batalhas que defrontavam, mantendo a paz e fomentando-a em toda parte.

Quando as condições se fizeram propícias veio Jesus estabelecer as bases da Era do amor, modificando as estruturas éticas do comportamento humano, embora, submetendo-Se, Ele próprio, às injunções da lei antiga pautada nas diretrizes da força e da truculência.

Consolidou o mecanismo do intercâmbio espiritual, desvestido de todo e qualquer formalismo, anunciando um Deus de amor e justiça que se manifestava em tudo e todos, movimentando-se com absoluta facilidade entre o mundo físico e o espiritual.

A Sua é uma saga de extraordinária espiritualidade, que O coloca na legítima condição “de Senhor dos Espíritos”, tal a superioridade que O reveste e a forma como todos se Lhe submetem.

Demonstrando a improcedência dos atavios e artifícios para a comunicação espiritual, transfigurou-Se no Tabor, ante Moisés e Elias, os grandes profetas que O homenagearam após a morte, redivivos, ante o deslumbramento dos discípulos que participaram da cena inesquecível.

Estabeleceu o primado da verdade em qualquer conjuntura e exaltou o valor intrínseco do ser acima da aparência e das condições exteriores.

Ensinou e viveu os postulados do amor, de forma simples e clara, retirando os favoritismos e concitando as criaturas, em igualdade de condições, a assumirem as tarefas que lhes cabe desenvolver e cumprir.

Preferiu o holocausto da própria vida, mas voltou para confirmar a imortalidade triunfante, consolidando, nos que ficaram, a certeza da sobrevivência e a sua excelente realidade, além das dores e sombras...

Trabalhando mentes e corações, a Sua doutrina dominou vidas, que, sucumbindo sob infamantes perseguições que duraram 249 anos, arrebatando e desorientando quase um milhão de seguidores, experimentou o seu primeiro e grave conflito no dia 13 de junho de 313 quando o Edito de Milão reconheceu o direito e a licitude de ser cristão, que Nero retirara desde o ano de 64, ora amenizado, ora severamente punido, conforme a “Lex romana”, a critério e paixão de cada Imperador ou diante da situação geográfica em relação a Roma, num total de 129 anos de perseguições impiedosas.

Lentamente os catecúmenos passaram a exercer o seu culto à luz solar, transferindo-se, sem dar-se conta, da condição de perseguidos a perseguidores.

- Os grandes “pais da Igreja primitiva” logo lamentaram a ocorrência, ao constatarem a queda da fé e a consequente mundanização da doutrina com a ritualística e os cerimoniais herdados do politeísmo romano, que se foram incorporando à conduta religiosa, antes natural, sem retoques nem adornos...

Paulo afirmara que “a liberdade na morte é liberdade maldita”, invectivando contra a atitude de adesão ao “status” por covardia de ser livre na vida espiritual através do testemunho.

Introduziram-se reformas e hábitos que iriam distanciando a mensagem, do seu Autor, e a pureza original começou a desaparecer...

...Em 320 introduziu-se o uso das velas no culto; em 375 iniciou-se a devoção aos santos; em 394 a missa foi instituída; em 528 surgiu a extrema-unção e, logo depois, em 555 a reencarnação era considerada heresia, no Concílio de Constantinopla...

...Em 660 Bonifácio III se declarou Bispo Universal — Papa; em 763 surgiu o impositivo da adoração às imagens e relíquias; em 993 começou-se a canonização dos santos; em 1076 fez-se imposta a “infalibilidade da Igreja” que culminou com a infalibilidade do papa em 1870...

...Em 1184 se criou a “Santa Inquisição” e logo depois, em 1190 a “venda das indulgências”...

No dia 31.10.1517 surgiu a Reforma, com Martinho Lutero que, aos 18 anos, se tomou aluno da Universidade de Erfurt, em cuja biblioteca encontrou uma bíblia latina, graças à qual pôde ver melhor o grande desvio das bases primitivas por que passara a fé.

Posteriormente, os discípulos e seguidores de Lutero se separaram, criando correntes e Igrejas, apresentando interpretações e textos variados, cujo número é surpreendente.

As revelações espirituais foram perseguidas e tentou-se, com a morte nas fogueiras, nos esquartejamentos e na impiedade, silenciar as vozes do mais além.

A ciência esteve amordaçada e os inovadores pagaram, no cárcere ou na morte, a audácia de pensar, por discordar do clero...

Morreram Joana d'Arc, João Huss, Nicolau Copérnico, por adesão à verdade, em ângulos diferentes, mas que o dogma condenava.

Dolorosamente, o homem recomeçou a marcha do progresso.

Os horizontes da Terra se alargaram graças aos descobrimentos marítimos; os missionários do saber volveram ao corpo; ampliou-se o conhecimento, e a revolução francesa estabeleceu os “direitos do homem”, libertando-o da opressão política e religiosa.

Com a chegada de Allan Kardec e com o Espiritismo, renasceu o Cristianismo primitivo, restabeleceram-se as comunicações espirituais e a revelação estuou no mundo das letras, das artes, da filosofia, da ciência e da fé.

As paisagens do além-túmulo foçam desveladas, o conceito de justiça divina readquiriu seu lugar através das reencamações, e o homem deixou de ser vítima do destino para tomar-se-lhe o autor, seu próprio arquiteto.

O excesso de cepticismo decorrente da reação contra o abuso dogmatista enregelou a alma das criaturas, que aderiram à indiferença total pelo Espiritualismo, entregando-se à vivência do prazer dos sentidos.

O materialismo, porém, as decepcionou e, em face dos tormentos íntimos que padecem, procuram agora recuperar a fé, repetindo as experiências ocultistas, orientalistas, que ora as atrai, arrancando-as da difícil situação e preparando-as, de certo modo, para um retomo a Deus e a sobrevivência, em “espírito e verdade”.

O Espiritismo, no atual conceito da sociedade, dispõe de todos os elementos para repetir o Cristianismo, ao mesmo tempo avançar com a Ciência e a Tecnologia, numa extraordinária aliança da fé com a razão, com o conhecimento e a experiência de laboratório.

Simples, sem ser fácil, acessível, mas não pueril, o seu corpo doutrinário é constituído de sólida argumentação decorrente do ensino dos Espíritos e da lógica de aço do Codificador, podendo resistir ao avanço das conquistas científicas, seguindo-lhes ao lado e iluminando-lhes as sombras ante os naturais enigmas que estas defrontem.

Perfeitamente atual, o Espiritismo consola, instrui e liberta o homem, projetando-o, renovado, no rumo de uma vida sem angústia nem sofrimentos, consciente e ditoso por fim.

Tours, França, 05.11.1983.

Léon Denis por Divaldo Franco do livro:
Seara do Bem

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quarta-feira, 1 de março de 2023

Considerando o arrependimento

Considerando o arrependimento

Joanna de Ângelis



Por mais anestesiados se encontrem os centros do discernimento intelectual, dia chega em que ele se instala.

Passe o tempo sob a aflicão do tóxico que perturba a faculdade da razão, momento surge em que se reajustam os núcleos da atividade do pensamento e ele brota.

Apesar da intensidade clamorosa dos fatores perturbantes que destroem os sentimentos superiores da vida, ao impacto dos projéteis da ira alucinada, do ódio avassalador, do ciúme desequilibrante ou do amor próprio enlouquecido, levando a criatura a atitudes infelizes, chega a oportunidade em que aparecem os pródromos da sua presença...

*

O arrependimento sempre se manifesta na consciência em débito para com a vida.

A princípio, ei-lo como lembrança da falta cometida de que já se não supunha existir qualquer sinal; posteriormente, a recordação do momento infeliz que se estabelece; mais tarde, a ideia rediviva dominante e por fim a obsessão do remorso, avassaladora.

Insidioso e maleável, o arrependimento é câncer que se apropria do homem que se deixou colher em falta, pela vindita ou pelo desforço.

*

Há pessoas que dizem: “Arrependo-me de me não ter vingado.”

Algumas exclamam: “Arrependo-me de não ter expulso o inimigo à minha porta.”

Outros proferem: “Arrependo-me do bem que fiz.”

Algumas contraditam: “Amarguro-me, sim, porque fui eu quem o ajudou e arrependo-me da hora inditosa em que nutri a víbora que hoje me picou...

Em verdade devemos arrepender-nos das más ações que cometemos, louvando sem cessar os momentos briosos do auxílio que dispensamos e agradecendo a Deus a oportunidade em que poderíamos ter ferido mas não o fizemos, o ensejo de vingança, sem havermos descido a rampa da desgraça, a ocasião de negarmos o bem, tendo distendido a escudela da generosidade.

O arrependimento que enseja reabilitação do gravame é convite da consciência ao refazimento da obra mal sucedida. Se, todavia, a vítima transitou e a perdeste de vista, o acúleo do arrependimento se converte em cravo que se fixa no cerne do espírito, qual presença da dor que infligiste, até que se te depurem os fatores negativos que causaste.

Não te permitas, portanto, trair, enganar, acusar, ferir, mesmo que tenhas razão. Se a tens, obviamente não se faz necessário descartar-te de quem te prejudica, porquanto estás melhor do que ele. Se não a tens, não te compete a tarefa do desforço, desde que o teu padecimento é o corretivo para as tuas imperfeições.

Em qualquer circunstância, poupa-te desde hoje ao impositivo escravizante que te surpreenderá amanhã.

Arrependimento sadio das faltas cometidas é compromisso assumido com as tarefas a executar.

Arrependimento perturbador que ultraja a consciência torna-se problema que se afigura de difícil solução.

Caso não te disponhas a tudo recomeçar sob o beneplácito da Misericórdia Divina que nos colocou no mundo para amar e amar, servir e servir porque é da Lei que “somente pelo amor os homens serão salvos”, padecerás do arrependimento perturbador, que nada edifica.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Leis Morais da Vida

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