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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O sofrimento

O sofrimento

Carlos Torres Pastorino


A mente, quase sempre astuta, herança da viagem antropológica da evolução, elabora mecanismos complicados para evitar ou vencer quando instalado o sofrimento. Essa atitude, sem qualquer dúvida, gera ansiedade, que é, em si mesma, um tipo de sofrimento. Este se manifesta mais intensamente na solidão e no desespero, na perda dos valores éticos e na ausência do autoamor porque transfere a responsabilidade da ocorrência para outros: indivíduos, acontecimentos, sociedades, governos, Deus...

A falta de coragem para o enfrentamento da ocorrência automática do desgaste orgânico ocasiona o surgimento de processos escamoteadores por meio dos quais poderia avançar pelo tempo sem as manifestações inevitáveis do sofrimento.

A sua presença vai além das sensações orgânicas e dos destrambelhos da maquinaria celular, porquanto é mais vigoroso quando de natureza moral, resultado das imposições do egoísmo, do orgulho, do prazer.

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Porque necessita de distrações para diminuir as tensões da luta em que se empenha, o ser humano transfere as suas aspirações para a posse mesmo por meio do amor. Ter alguém que o ame, mas não necessariamente a quem ame, constitui um reflexo do egoísmo que elabora as correntezas do poder, impondo-se a outrem e dominando-lhe as resistências, a fim de possuir-lhe os sentimentos que, não obstante, encontram-se inalcançáveis, porque se podem libertar após as experiências do convívio, sem que o corpo se afaste das algemas a que se deixou prender. Isso porque há dependências emocional, financeira, sexual, social... O estoicismo que leva à liberdade nem sempre se manifesta nos indivíduos débeis de valores ético-morais. Preferem o sofrimento dourado, a solidão a dois, ou a mais, do que a liberdade a sós. A grande maioria teme a solidão porque lhe parece que é constrangedora e responsável pelo sofrimento, quando a balbúrdia, a multidão, as fugas espetaculares para os gozos individuais ou coletivos tornam-se agentes da situação de dor e de aflição.

Quando se aprende a meditar, a amar, nunca o sofrimento interfere nesse comportamento porque não há ansiedade nem medo. Tudo transcorre em uma esfera indimensional, na qual o tempo e o espaço não são necessários, desde que o pensamento se encarrega de experienciar o bem-estar, preenchendo os vazios internos com solidão ativa e nunca atulhada de preocupações passivas.

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Culturalmente, o ser humano vem sendo educado para vencer a dor e evitar a sua presença, utilizando-se de recursos que se multiplicam desde os processos preventivos como os curadores, no caso das enfermidades e dos transtornos da emoção ou dos patológicos mais graves... Essa conduta, em si mesma, já constitui uma forma de sofrimento porque proporciona medo e incerteza a respeito da vida e das suas manifestações na área orgânica.

Quando se tornar possível compreender e viver o conhecimento de que somente existe sofrimento porque o Espírito é o seu desencadeador, em razão dos atos que atentam contra os Estatutos Divinos, naturalmente o sentido existencial alterará a sua conduta, proporcionando uma tranquila aceitação desses efeitos malsãos, convertendo-os em bênçãos de equilíbrio para depois. A importância desse entendimento é significativa porque, ao permitir-lhe a presença — do sofrimento —, passa a conduzir-se de forma edificante, não desejando expulsá-lo por meio de drogas ou de cirurgias, ou de métodos alternativos que não remontem às causas, diminuindo apenas os resultados.

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É certo que esse procedimento exige uma decisão consciente e uma compreensão dilatada em torno da Realidade Superior.

Como psicologicamente a pessoa procura minimizar a dor, quando não a pode evitar, não é justo se lhe cerceiem os passos na busca do que lhe parece mais aprazível e benéfico. No entanto, é válido esclarecer que o atenuar dessa perturbadora sensação, que muitas vezes enlouquece os fracos e pusilânimes, não resolve realmente a questão, porquanto se transferem esses fenômenos para outras oportunidades em que surgirão mais graves e mais dolorosos. Isso ocorre, não raro, quando a velhice domina as carnes antes moças e as forças anteriormente resistentes e desafiadoras. O alquebrar das energias, o desfalecimento da máquina ensejam que esses resíduos que não foram diluídos reapareçam em forma de amarguras, de revoltas, de queixas, de ressentimentos...

Cabe à mente entender que o Universo é perfeito em sua estrutura e tudo quanto nele existe tende a essa perfeição. As experiências evolutivas trabalham para que essa aquisição se opere sem traumas, sem frustrações, sem mutilações internas. Toda vez, porém, que há um ato de rebeldia, que se manifesta uma tendência violenta ou se expressa uma conduta repressiva, abrem-se campos de fixação para as consequências porque fogem ao estabelecido pela Ordem Cósmica.

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O livre-arbítrio, que favorece o comportamento a desempenhar, as opções de como agir e ser feliz, também opera o determinismo, que é o resultado dessa decisão. Atirada a flecha, o arqueiro não mais a pode deter, por maior velocidade que se imprima por alcançá-la.

Pela constituição cerebral, que avança dos automatismos fisiológicos para os psicológicos e destes para os espirituais, os fenômenos humanos são de natureza primária, melhorando pelo discernimento, pela aquisição da consciência mediante a razão e, sobretudo, pela penetração no campo do Absoluto, seja por intuição, por inspiração, por sintonia, pelo mergulho nas vibrações cósmicas...

A partir dessa etapa, ressumam os sofrimentos conscientes que permaneciam em depósito nas profundezas do inconsciente, necessitando ser conhecidos e vivenciados com amor e compaixão para que ocorra a libertação das suas amarras e dependências.

Todo prazer se transforma em frustração ou desencanto em razão da sua transitoriedade e pelo impositivo de querer tornar eterno o efêmero, que se dilui na razão direta em que mais se busca segurá-lo, qual ocorre com a água retida na mão fechada escorrendo entre os dedos.

A fuga do sofrimento leva a encontros mais surpreendentes em matéria de dor porque ninguém se pode dissociar de si mesmo, a fim de avançar em partes distintas longe da unidade.

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O ser é uno mesmo quando no corpo ou fora dele. No corpo, ocorre a perfeita integração dos elementos que o constituem e, à medida que se liberta dos envoltórios materiais, prossegue na sua unidade com os vestígios da vivência impregnados nos tecidos muito sutis do perispírito que o transmitem à essência espiritual.

Desse modo, as alegrias — sensações de gozo —, os sofrimentos sensações de dor — estão nas impregnações do corpo modelador da matéria, veículo das sensações e emoções para o Espírito.

O Espírito em si mesmo, esse agente fecundo da vida e seu experimentador, estabelece, de forma consciente ou não, o que aspira e como consegui-lo, utilizando-se do conhecimento de si mesmo, único processo realmente válido para os resultados felizes.

A negação do mundo, sugerida por Jesus, não é a ignorância em torno das sensações mundanas e suas cadeias escravizadoras, senão a superação dos seus impositivos que respondem pelas ocorrências de sofrimento ou de felicidade após a eleição ou rejeição dos seus modelos e propostas.

Eis por que o amor e a consciência do dever constituem meios de identificação com a realidade. O primeiro, porque sempre cresce e aformoseia o ser, tornando-o rico de paz em caminho da plenitude; e o segundo, porque direciona a conduta para a seleção do que deve fazer e o melhor processo pelo  executar, gerando condicionamentos de harmonia, sem remorsos nem culpas.

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Na Parábola do Semeador ministrada por Jesus, encontramos a proposta do dever e do amor, da consciência e da ação, quando Ele enunciou com naturalidade: “O semeador saiu a semear...”.

Não houve preocupação com o solo, senão com as sementes, porque, por mais que se perdessem, sempre haveria regaço terreno para que se multiplicassem em abundância, compensando o número daquelas que foram atiradas a esmo e não se reproduziram, como também as outras, as que germinaram e se desenvolveram, transformando-se em fartura e abundância, em razão da fertilidade que sempre existe em algum lugar. Semeando-se a esmo, sem cessar, sem pressa e sem angústia de colher, muitos grãos caem em solos abençoados que generosamente as devolvem em número maior do que as acolheram.

Todo investimento de amor tem o mesmo resultado. Quando é semeado sem especificidade, sempre encontra campo próprio para germinar, não respondendo de imediato o que não é importante, mas fazendo-o positivamente com profusão.

Jesus, embora incompreendido no seu tempo, venceu a História, ultrapassou todas as épocas, encontrando-se instalado no mundo e em milhões de mentes e corações que o aceitam, o amam e tentam segui-lo.

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O sofrimento que experimentou não o afligiu nem o turbou, antes foi amado e ultrapassado, tornando-se mais do que um símbolo, a fiel demonstração de que no mundo somente teremos aflições.

Isso porque as aflições constituem fenômenos normais da maquinaria em que se transita, projetando para a realidade as construções mentais e emocionais edificadas.

A alternativa, portanto, para o sofrimento é a consciência da aceitação, compreendendo que a sua é a função de despertamento para a vitória sobre as vicissitudes e os limites, o impulso para sair das condições deploráveis das falsas necessidades primárias que já deveriam estar ultrapassadas.

Graças a esse entendimento, a mente alça-se a patamares mais elevados, e o ser experiência melhores condições de vida terrena, compartilhando os sentimentos do Amor Eterno que o penetram e fortalecem, de maneira que ultrapassa a temporalidade do limite da reencarnação.

Estar no corpo ou fora dele tem pouco significado, exceto quando, durante a trajetória material, pode operar-se o crescimento íntimo, enquanto que, além dos despojos, cabem-lhe atividades diferenciadas, que são resultados do que houve por bem ensementar enquanto na caminhada orgânica.

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Dessa forma, o Reino dos Céus encontra-se na Terra, começa entre os caídos e tropeços do caminho, espraia-se pelos horizontes sem fim da imortalidade em um processo de unidade que dificilmente se poderá dizer se, no mundo ou fora dele, dentro, portanto, de uma realidade infinita e inconfundível.

Assim considerando-se a função do sofrimento, toda e qualquer apresentação de dor pode ser convertida em canto de amor.

As terapias que visam à libertação dos sofrimentos possuem grandiosa validade que, no entanto, não podem nem devem impedir que sejam erradicadas nas suas raízes aquelas causas que os geraram.

Carlos Torres Pastorino por Divaldo Franco do livro:
Impermanência e imortalidade

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domingo, 24 de abril de 2016

O sofrimento

O sofrimento

Joanna de Ângelis



O homem empenha-se, afanosamente, para vencer o sofrimento, que se lhe apresenta com adversário soez.

Em todas as épocas, ele vem travando uma violenta batalha para eximir-se à dor, em contínuas tentativas infrutíferas, nas quais exaure as forças, o ânimo e o equilíbrio, tombando depois em mais graves aflições.

Passar incólume ao sofrimento é a grande meta que todos perseguem. Pelo menos, diminuir-lhes a intensidade ou acalmá-lo, de modo a poder fruir os prazeres da existência em incessantes variações.

Imediatista, interessa-lhe o hoje, sem visão do porvir. Com efeito, o sofrimento tem sido considerado vingança ou castigo divino, portanto, credor de execração e ódio.

Nas variadas mitologias, as figuras de deuses invejosos quão despeitados, infligindo punições às criaturas e comprazendo-se ante as dores que presenciam, são a resposta ancestral para o sofrimento na Terra.

Diversas escolas filosóficas e doutrinas religiosas, de alguma forma concordes com essas absurdas conceituações, estabeleceram métodos depuradores para a libertação do sofrimento, que vão desde as mais bárbaras flagelações  - silícios, holocaustos, promessas e oferendas - ao ascetismo mais exacerbado, procurando negar o mundo e odiá-lo, a fim de, com essas atitudes, acalmarem e agradarem aos deuses ou a Deus.

Paralelamente, o estoicismo (indiferença e desprezo pelos males físicos e morais), herdeiro de alguns comportamentos orientais, tentou imunizar o homem, estimulando-o a uma conduta de graves sacrifícios que, sem embargo, é desencadeadora de sofrimento.

Para libertar-se desse adversário, a criatura impõe-se outras formas de dor, que aceita racionalmente, por livre opção, não se dando conta, do equívoco em que labora.

A dor, porém, não é uma punição. Antes, revela-se um excelente mecanismo da vida a serviço da própria vida.

Fenômeno de desgaste pelas alterações naturais da estrutura dos órgãos (à medida que a energia se altera advém à deterioração do invólucro material que ela vitaliza) essa disjunção faz-se acompanhada pelas sensações desagradáveis da angústia, desequilíbrio e dor, conforme seja a área afetada no indivíduo.

Desse modo, é inevitável a ocorrência do sofrimento na Terra e nas áreas vibratórias que circundam o planeta, nas quais se movimentam os seus habitantes. Ele faz parte da etapa evolutiva do orbe e de todos quantos aqui estagiam, rumando para planos mais elevados.

Na variada gênese do sofrimento, todo esforço para mitigá-lo, sem a remoção das causas, não logrará senão paliativos, adiamentos. Mesmo quando alguma injunção premie o enfermo com uma súbita liberação, se a terapia não alcançou as razões que o desencadeiam, ele transitará de uma para outra problemática sem conseguir a saúde real.

Isso porque, em todo processo degenerativo ou de aflição, o Espírito, em si mesmo, é sempre o responsável, consciente ou não. E, naturalmente, só quando ele se resolve pela harmonia interior, opera-se lhe a conquista da paz.

Em tal situação, mesmo ocorrendo os processos transformadores da ação biológica, o sofrimento disso decorrente não afeta a emoção nem se transforma em causa de danos. À semelhança de outros automatismos fisiológicos, a consciência não lhe registra a manifestação.

O sofrimento, portanto, pode e deve ser considerado uma doença da alma, que ainda se atém às sensações e opta pelas direções e ações que produzem desequilíbrio. Nessa fase, dos interesses imediatos, todo um emaranhado de paixões primitivas propele o ser na direção do gozo, sem a ética necessária ou o sentimento de superior eleição, e o atira nos cipoais dos conflitos que geram a desarmonia das defesas orgânicas, as quais cedem à invasão de micróbios e vírus que lhes destroem a imunidade, instalando-se, insaciáveis, devoradores.

Da mesma forma, os equipamentos mentais hipersensíveis desajustam-se, abrindo campo à instalação das alienações, das obsessões cruéis.

Por extensão, pode-se dizer que o sofrimento não é imposto por Deus, constituindo-se eleição da cada criatura, mesmo porque, a sua intensidade e duração estão na razão direta da estrutura evolutiva, das resistências morais características do seu estágio espiritual.

É a sensibilidade emocional que filtra a dor e a exterioriza. Com ela reduzida, as agressões de toda ordem recebem resposta de violência e agressividade.

Nas faixas mais primitivas da evolução, os fenômenos dor, desgaste, envelhecimento e morte, porque quase destituídos os seres de raciocínio e emotividade, que ainda se lhes encontram em germe, seguem uma linha direcional automatista, na qual as exceções atestam o trânsito da essência psíquica para estágios mais elevados.

Decorre disso que o sofrimento é maior nas áreas moral e emocional, que somente se encontram nos portadores de mais alto grau de evolução, de sensibilidade, de amor, capazes de ultrapassar tais condições, sobrepondo-se lhes mediante o controle de que se fazem possuidores, diluindo na esperança, na ternura e na certeza da vitória as injunções aflitivas.

Fugir, escamotear, anestesiar o sofrimento são métodos ineficazes, mecanismos de alienação que postergam a realidade, somando-se sempre coma a sobrecarga das complicações decorrentes do tempo perdido. Pelo contrário, uma atitude corajosa de examiná-lo e enfrentá-lo representa valioso recurso de lucidez com efeito terapêutico propiciador de paz.

As reações de ira, violência e rebeldia ao sofrimento mais o ampliam, pelo desencadear de novas desarmonias em áreas antes não afetadas.

A resignação dinâmica, isto é, a aceitação do problema com uma atitude corajosa de o enfrentar e remover-lhe a causa, representa avançado passo para a sua solução.

É de insuspeitável significação positiva o equilíbrio mental e moral diante do sofrimento, o que se consegue por meio do treinamento pela meditação, pela oração, que defluem do conhecimento que ilumina a consciência, orientando-a corretamente.

Conhecer-se, na condição de Espírito imortal em processo evolutivo mediante as experiências reencarnatórias, representa para o homem alta aquisição de valores para compreender, considerar e vencer o sofrimento, que faz parte do modus operandi de todos os seres.

Muitas pessoas advogam que o sofrimento é a única certeza da vida, sem compreenderem que ele está na razão direta da conduta remota ou próxima mantida para cada qual. Pode-se dizer, portanto, que a sua presença resulta do distanciamento do amor, que lhe é o grande e eficaz antídoto.

Interdependentes, o sofrimento e o amor são mecanismos da evolução. Quando um se afasta, o outro se apresenta. Às vezes, coroando a luta, na reta final, ei-los que surgem simultaneamente, sem os danos que normalmente desencadeiam.

A história dos mártires atesta-nos a legitimidade do conceito. 

Acima de todos eles, porém, destaca-se o exemplo de Jesus, lecionando, pelo amor, a vitória sobre o sofrimento durante toda a Sua vida, principalmente nos momentos culminantes do Getsêmani ao Gólgota, e daí à ressurreição.

Joanna de Ângelis por Divaldo Franco do livro:
Plenitude

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