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quinta-feira, 11 de abril de 2024

Problemas religiosos

Problemas religiosos

J. Herculano Pires



Ouve-se frequentemente a pergunta: “O Espiritismo é religião?” E muitas vezes os espíritas não sabem responde-la. A confusão a respeito provém das campanhas religiosas contra o Espiritismo. As Igrejas Cristãs, descendentes diretas da Igreja Judaica, definem-se como religiosas nos termos tradicionais do formalismo de suas organizações e do culto exterior calcado nos vários cultos dessa natureza que lhes serviram de modelo, em primeiro lugar o judeu e depois os mitológicos, com substanciais influenciais de Ordens Ocultas como a Maçonaria. As vestes sacerdotais, os paramentos do culto, os instrumentos sagrados — nada disso é de origem cristã, pois o Cristo não se interessou pelos cultos formais e só ensinou o cultivo interior do espírito. Algumas expressões do Evangelho, alguns gestos e atitudes do Cristo deram motivo à adaptação de ritos e sacramentos judeus ou pagãos pelos cristãos. Como o Espiritismo, fiel ao espírito da renovação cristã, não aceitou o culto exterior, a  organização clerical profissional, nem rituais, as Igrejas Cristãs fundaram-se nisso para declarar que o Espiritismo não era religião. Ligadas aos Estado, elas tiveram facilidade de influir nos organismos estatais para fazerem prevalecer a sua tese. Até hoje, no Brasil e em muitos países certos organismos estatais, principalmente quando influenciados pela Igreja, negam ao Espiritismo o seu caráter de religião. Mas os espíritas precisam saber que o Espiritismo é religião e o Centro Espírita, geralmente religioso, deve insistir no esclarecimento desse problema em suas reuniões.

Não se trata de querer-se obter regalias governamentais para os Centros, mas de se colocar a verdade do fato. E esse fato é aquele que Kardec esclareceu com segurança desde o início do movimento espírita: o Espiritismo é a Ciência do Espírito e de suas relações com os homens; dessa Ciência resulta uma Filosofia e dessa Filosofia as consequências religiosas do Espiritismo, que constituem a religião Espírita.

Kardec, como Jesus, não era clérigo de nenhuma religião. Foi pedagogo, cientista e filósofo, diretor de estudos da Universidade de França. Ao enfrentar o problema das manifestações espíritas, que no seu tempo agitavam a América e a Europa, encarou-as como cientista. Observou e pesquisou os fenômenos espíritas, como os cientistas observavam e pesquisavam os fenômenos físicos, descobrindo-lhes as causas, identificando a sua origem, a natureza e descobrindo as leis que os regem. Desse trabalho minucioso e aprofundado, no conforto de hipótese diversas, nasceu no mundo a Ciência Espírita. Grandes nomes das Ciências no século passado e neste século continuaram na linha de pesquisa de Kardec e confirmaram a validade das suas descobertas. Surgiram depois as ciências correlatas, entre as quais se destacaram a Metapsíquica de Richet, a Psicobiofísica de Notzing e por fim, a Parapsicologia atual, todas elas filhas do Espiritismo. A Parapsicologia foi a derradeira e decisiva confirmação do acerto de Kardec e com ela, sob a designação de fenômenos paranormais, os fenômenos espíritas integraram-se nos quadros científicos.

A Ciência Espírita revelou a face oculta da realidade que conhecemos e em que vivemos. Levantou as cortinas que ocultam os bastidores do palco em que representamos os nossos papéis e duplicou os conhecimento humanos, até então restritos ao plano exterior das manifestações da vida.

Cada avanço significativo das Ciências no conhecimento do mundo transforma a nossa concepção da vida e do mundo, gerando uma nova Filosofia e uma nova moral. E a Moral, por sua vez, determinando novas regras de comportamento do homem no mundo, ante os mistérios da vida e da morte, gera uma nova posição religiosa. A Religião Espírita é a consequência natural da descoberta científica da sobrevivência e continuidade do homem após a morte. Cientificamente não se pode provar a imortalidade, pois não dispomos de recursos nem de tempo para constatar objetivamente que o homem é imortal em sua essência, mas testemunho dos Espíritos Superiores e as consequências lógicas da sobrevivência do homem após a morte nos levam fatalmente à ilação da imortalidade, que o Espiritismo aceitou em seu campo religioso, bem como em sua Filosofia.

A Religião Espírita se funda nas provas cientificas da sobrevivência e da comunicabilidade dos Espíritos com os homens através dos fenômenos paranormais (hoje comprovados cientificamente pela Parapsicologia), na existência de Deus como causa inteligente e primária de todas as coisa e de todos os que seres e nas relações possíveis entre o Homem e Deus através do sentimento religioso inato no homem, na forma de uma lei de adoração e reverência aos poderes superiores que regem o Cosmos em sua plenitude.

Paralelamente ao desenvolvimento das pesquisa espíritas, as pesquisa sociológicas, antropológicas e filosóficas sobre a Religião levaram a cultura atual a rejeitar o antigo conceito de Religião como organismo social doado de sistemas tradicionais. A existência de religiões desprovidas desses requisitos normais, a começar da simplicidade das religiões primitivas, e o aprofundamento dos estudos a respeito mostraram que o fenômeno religioso independe dessas condições artificiais. Com a tese de Henry Bergson sobre as origens da Moral e da Religião o problema se esclareceu, dando razão ao anúncio de Jesus e às profecias bíblicas sobre a interpretação em espírito e verdade que não se entrosava nos modelos. Bergson estabeleceu a distinção entre as religiões estáticas do formalismo social e a religião dinâmica e independente que se sobrepõe a todo formalismo. A Religião Espírita apareceu então, no quadro das pesquisas, como o modelo ideal das religiões do futuro. Firmada apenas no sentimento religioso, na lei de adoração da tese espírita, a nova Religião apresentava-se liberta dos aparatos do culto exterior, das pesadas e custosas organizações clericais hierárquicas e da suntuosidade arrogante dos templos. A Religião se libertava dos interesses humanos, das ambições de poder e supremacia dos clérigos e voltava-se para Deus.

O problema da Revelação, que caracteriza as Religiões Reveladas, orgulhosas de sua origem divina especial, foi colocado por Kardec no campo das manifestações espíritas, ou seja, da fenomenologia paranormal, e sujeita ao controle dos homens. A Religião Espírita é também revelada, mas através de uma conjugação humano-divina. Os Espíritos Superiores fizeram revelações a Kardec, mas ele não as considerou válidas, reais, enquanto não pôde comprovar sua veracidade através das pesquisas. Kardec formulou a tese da dupla revelação: a que é dada por entidades espirituais ou por homens dotados de poderes paranormais e a que é feita pelos cientistas que investigam a Natureza, descobrem os seus segredos e os revelam no plano científico. É dessa dupla revelação rejeitada pelos místicos e os supersticiosos, que se constitui a Religião Espírita, que não se acomoda na fé cega mas exige a fé raciocinada, sancionada pelos fatos e pela razão esclarecida. Era o fim das fábulas e das superstições, o encontro da razão humana com a Verdade Divina. A importância desse acontecimento histórico foi negligenciada pelos comodistas da tradição supersticiosa e o Espiritismo foi acusado de reviver no mundo, em plena Era Científica, as mais baixas superstições do passado longínquo. Kardec esmagava a superstição com o poder, perquiridor da razão, e os místicos de braços dados com positivistas e materialistas o condenavam como supersticioso. Mas, apesar de todas essa injustiça e de todas as campanhas difamatórias desencadeadas no mundo contra o Espiritismo, o tempo se incumbiu de dar ao seu dono. Hoje, as pessoas realmente cultas e sinceras, estudiosas e livres de preconceitos, sabem que o Espiritismo dos simples é apenas um reflexo do Espiritismo dos sábios, que os próprios sábios materialistas são obrigados a reconhecer como válido. Só criaturas sistemáticas, retardatárias, preconceituosas ou sectárias, incapazes de abrir a mente fechada nas ideias feitas para a compreensão da realidade, continuam a negar a verdade espírita e ao mesmo tempo a sofrer sob o guante invisível dos espíritos obsessores. Porque a seita religiosa fechada é irmã da seita científica amarrada aos seus preconceitos. Um cientista apegado a preconceito é a própria negação da Ciência.

Mas, estabelecida a Religião Espírita em sua plena liberdade de pensamento, surge no meio dos seus adeptos voluntários o problema dos resíduos do passado. Criaturas que se tornaram espíritas através de experiências paranomais inesperadas, não conseguem vencer as barreiras dos temores introjetados em seu inconsciente e começam a misturar suas velhas superstições aos conhecimentos novos que recebem. Não se conformam com a liberdade ampla do Espiritismo. Sentem a falta da canga ao pescoço calejado e procuram transformar os dirigentes de Centros em sacerdotes de um novo tipo e caem de joelhos diante de pobres médiuns falíveis, na esperança de graças impossíveis. Forma-se a farândola dos crentes ansiosos por benefícios especiais. E surgem questões de família e tradição, exigindo batizados, rituais, casamentos suntuosos, missas e promessas aos santos. O espiritismo dispensa todas as encenações rituais e todas as quinquilharias da devoção formal. Para todas as encenações e todos os sacramentos o Espiritismo só tem um substitutivo: a prece espontânea e sincera , gratuita , que parte diretamente do coração da criatura para a Mente Suprema de Deus. No Centro Espírita esse problema deve ser objeto de estudos constantes, de esclarecimento seguro, para que a propagação irrefreável da Doutrina não se faça manchada pelos resíduos de um passado de heresias e fogueiras assassinas em nome de Deus. Embora não ferido susceptibilidades, os dirigentes do Centro devem manter em pauta os esclarecimentos necessários, mostrando que, no plano do espírito só os elementos espirituais têm valor. Não se pode curar obsessões com sal grosso, folhas de arruda, incenso ou explosão de pólvora, nem com medalhas, crucifixos ou água benta. A obsessão é um processo inteligente desencadeado por espíritos – o que vale dizer por inteligências extrafísicas que não são atingidas por essas coisas. Pois eles vivem no plano espiritual, não no material e conhecem o problema da comunicação mediúnica e do envolvimento fluídico. Só podemos afastar uma entidade obsessiva pela persuasão e a prece, procurando esclarecê-la ao invés de dar-lhe ordens que só que fazem irritá-la. Os Centro Espíritas que aceitam os métodos antiquados dos antigos esconjuros e exorcísmos revelam, a mais grosseira ignorância da Doutrina Espírita que é essencialmente racional. A Razão não pertence à matéria, mas ao espírito. Os fracassos das práticas de exorcismo se comprovam no mundo inteiro através de todas as fases históricas. Enquanto os exorcistas ou exorcisadores gastam energias e perdem tempo, com prejuízo de sua própria saúde e do desgaste físico dos obsedados, chegando, não raro, a resultados tristemente negativos, a doutrinação espírita revela por toda parte a vantagem da ação persuasiva e inteligente sobre os agressores inteligente. O valor da prece, mental ou falada, revela-se sempre eficaz, pois a vibração espiritual de uma prece sincera atinge o obsessor de maneira envolvente, chamando-o à razão.

No tocante aos problemas da prece, convém lembrar, como ensina Kardec, que as mais eficazes são as preces espontâneas, não formais e decoradas, mas pronunciadas com sentimento e desejo real, consciente, de beneficiar tanto à vítima quanto ao algoz. Entre as preces formais, a do Pai Nosso se destaca por uma condição especial. Integrado na tradição cristã há dois milênios, essa prece está fixada na mente das gerações e goza o prestígio de ter sido ensinada pelo Cristo. Seu prestígio e sua capacidade de despertar emoções religiosas nos espíritos comprova-se diariamente no mundo. É por isso que ela é empregada sistematicamente na abertura das sessões espíritas. É um tabu, dizem os cépticos, e muitos espíritas. com pretensões racionais agudas pretendem eliminá-la dos Centros. É um erro grave, pois em toda parte se constatou e se constata, no meio espirita, a sua eficácia. Não é difícil entendermos isso. O Pai Nosso não contém nenhum elemento mágico, mas desde a infância as criaturas nascidas no meio cristão aprenderam a dize-la e a respeitá-la. Ela foi introjetada na consciência das gerações através dos séculos e dos milênios. Constitui-se numa forma oral e mental carregada de energias espirituais.

Tornou-se, no plano religioso, o que é o soneto na poesia ocidental, uma forma oral e metal carregada de poder emocional. Os espíritos pertubadores, que têm consciência de sua posição negativa e criminosa — pois todos a têm — são tocados no íntimo, em sua sensibilidade profunda e em sua afetividade quando ouvem essa prece, principalmente se pronunciada por pessoas que sentem a sua mensagem e conhecem as razões da sua eficácia. Ela soa como um apelido da infância, de juventude emotiva, da vida passada que desencadeia antigas saudades no homens e nos espíritos. A figura de Jesus, a força ôntica da palavra Pai, que vibra como um apelo a Deus e uma evocação do seu poder supremo e os mesmo tempo misericordioso, vibra como a primeira nota vigorosa e amorosa de uma imprecação ao Céu, as regiões superiores que desejam atingir, por mais infeliz que seja a sua situação atual. Despertam-se na consciência e na emotividade do espírito as ternas lembranças dos entes queridos, do amor que experimentou na vida familiar terrena, dos momentos de felicidade e alegria que gozou entre criaturas queridas. São esse os toques profundos que o Pai Nosso produz nos corações fluídicos ou encarnados, como uma canção de outros tempos, antiga que, na ternura de suas notas e de sua harmonia, nos faz voltar às oportunidades pedidas.

Criaturas pretensamente racionais analisam e criticam o Pai Nosso, apontando possíveis erros e absurdos no seu texto mais usado e longo, que é o do Evangelho de João. Entidades maldosas costumam soprar a essas criaturas ideias negativas, tentando desviá-las da prática dessa prece. Bastaria esse fato para nos confirmar o valor do Pai Nosso. Os Evangelhos registram formas diferentes da prece de Jesus. A que permaneceu na tradição foi a mais completa, vítima das críticas referidas. Tentemos analisá-la rapidamente em todos os seus termos, desfazendo essas críticas levianas:

PAI — Com essa palavra inicial Jesus deu um golpe vibrante na antiga concepção politeísta de Deus e na ideia bíblica, bem judaica, da posição exclusivista de Deus e na sua condição mitológica de guerreiro, o velho Deus dos Exércitos.

NOSSO — Nesta profunda palavra temos a universalização de Deus como Pai de toda a Humanidade. Ela destrói a velha e absurda ideia dos deuses de cada povo, em luta uns com os outros nas guerras dos povos.

QUE ESTAIS NO CÉU — Afirmação da presença de Deus no infinito, acima de todos os divisionismos humanos, pois o Céu não é um lugar determinado, mas a totalidade cósmica. Deus no Céu cobre na sua misericórdia toda a Terra e todos os mundos, todas as constelações do Infinito.

SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME — Que seja reconhecido o nome de Deus como santo por todos os seres, anjos, espíritos e homens, que santificarão o nome de Deus em si mesmos, na sua consciência.

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU — Especificação clara do reconhecimento universal do nome de Deus.

VENHA A NÓS O VOSSO REINO — Que o Reino de Deus, ideal superior de Justiça e de Paz perfeita, venha para nós todos.

SEJA FEITA A VOSSA VONTADE, ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU — Que os homens, os espíritos e os anjos cumpram no Céu e na Terra, por toda parte, a vontade suprema de Deus, revelando-se aqui o princípio da comunhão constante e perfeita entre o mundo espiritual e o mundo terreno.

O PÀO NOSSO DE CADA DIA DAI-NOS HOJE — O pão simboliza o alimento geral de todos os seres — o espiritual e o material — que os povos daquele tempo repartiam nas mesas simbólicas das cerimônias religiosas. Jesus mesmo repartiu o pão com os discípulos na Ceia da Páscoa, e foi no partir do pão que os discípulos o reconheceram, depois da ressurreição, na estrada de Emaús. Esse alimento essencial é pedido a Deus, que é o Pai, para que não nos falte.

PERDOAI AS NOSSAS OFENSAS COMO AS PERDOAMOS AOS NOSSOS INIMIGOS — Os inimigos são os que nos perseguem e caluniam. Alimentados pelo pão espiritual podemos perdoá-los, e só assim nos fazemos dignos do perdão de Deus, que diariamente ofendemos em nossa ignorância. É o princípio da fraternidade em Deus e por Deus.

NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO — Somos frágeis em nossa ignorância e alimentamos desejos e ambições. A tentação está em nós mesmo, mas Deus pode alimentar-nos diariamente o espírito com os verdadeiros anseios da nossa destinação, para não cairmos no torvelinho dos nossos instintos inferiores.

MAS LIVRAI-NOS DO MAL PARA SEMPRE — Súplica a Deus para nos despertar a consciência nas horas difíceis de cada dia.

POIS VOSSO É O REINO, O PODER E A GLÓRIA PARA TODO O SEMPRE — O Reino que buscamos é o de Deus, não o dos homens. O poder é de Deus e não dos espíritos inferiores, a glória só a Deus pertence e só Ele nos pode glorificar. Saudação que só aparece no Evangelho de João, como justificação final de toda a prece.

O Pai Nosso é uma prece sintética, modelo dado por Jesus aos seus discípulos, para que nela encontrem, diariamente, a síntese final dos seus ensinos. A dinâmica dessa síntese desperta a memória dos homens e das entidades espirituais para fé em Deus, a esperança em nossa evolução espiritual e a confiança no poder absoluto e na misericórdia d’Aquele que nos arranca do limo da Terra para as ascensões da evolução universal.

Há pessoas que discordam da prece do Pai Nosso nas sessões espíritas, alegando que se trata de uma oração católica. Jesus nasceu no Judaísmo, recebeu a benção da virilidade no Templo, aos 13 anos, como todos os meninos judeus da sua idade, cresceu e viveu como judeu até o momento em que iniciou a sua pregação própria, da qual nasceria o Cristianismo, porque os seus discípulos e apóstolos o chamavam de Cristo. Ele ensinou a prece do Pai Nosso quando andava pregando na Palestina, muito antes que a sua doutrina chegasse a Roma e fosse transformada num vasto sincretismo religioso do qual surgiria a Igreja Romana. O Pai Nosso virou Padre Nosso em Roma e só neste século voltou à designação primitiva, dada pelos cristãos palestinos que não falavam latim. Não há razão nenhuma para se considerar essa prece como católica. Ela é uma prece cristã pura, dotada de todas as características do pensamento superior de Jesus, que sempre pairou acima dos divisionismos sectários. Se os Evangelhos apresentam o Pai Nosso em formas diferentes, isso acontece pelo simples fato de que cada evangelista redigiu os seus relatos em lugares e épocas diferentes, usando as lembranças e as anotações que possuíam. João, cujo Evangelho foi o último a ser elaborado, conseguiu reunir maiores elementos para dar a prece completa, segundo era pronunciada pelos cristãos primitivos. Como assinalou Renan, e foi confirmado nos séculos seguintes pelos pesquisadores universitários das origens do Cristianismo, as informações de que os evangelistas dispunham, procediam dos próprios círculos da intimidade do Mestre, guardando a autenticidade das suas expressões.

A insistência da Igreja Católica em manter a expressões latina Padre (Pater) no nome da prece, lançou nos países de língua latina, como Portugal e o nosso, a falsa sugestão de uma ligação real entre a Igreja (cujos sacerdotes são chamados padres), o que foi duramente contestado pelas Igrejas da Reforma Protestante.

O emprego do Pai Nosso nas reuniões espíritas é perfeitamente válido, tanto em face das característica inegáveis de Renascimento Cristão da Doutrina Espírita, tanto em seu desenvolvimento filosófico, quanto em suas atividades práticas. A alegação de que o Espiritismo mistura Cristianismo com religiões primitivas é simplesmente uma impostura, diante dos estudos aprofundados sobre a formação do sincretismo católico-africano de que o Espiritismo não participou.

J. Herculano Pires
do livro: O Centro Espírita

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Declaração de Origem

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Metamorfose Religiosa

Metamorfose Religiosa

J. Herculano Pires


As Religiões são organismos vivos, integrados pelas células individuais dos adeptos, crescem no tempo, passando por todas as transformações do crescimento. Kerschenteiner, em sua Fisiologia do Mito, afirma que a lei do mito é a metamorfose. Mas porque do mito, se essa lei é a de toda a evolução das coisas e dos seres, em todo o Universo? Os mitos são elementos fundamentais da Religião. Nascendo dos mitos agrários, que são representações de convergências telúricas, as Religiões se desenvolvem nas coordenadas históricas do tempo e do espaço e se protejam nas perspectivas do futuro. O passado místico, nas mitologias mágicas e anímicas das selvas e das geleiras, constitui o produto sincrético das relações do espanto. A alma humana se deslumbra com a magia da Natureza, sentindo-se integrada nela e por ela absorvida. Esse momento mágico explode em mitos, envolvendo o mundo de deuses, na plenitude divina captada pela vidência de Tales de MiletoO mundo é pleno de deuses. Dos processos dialéticos do Caos surgem os ritos, os cultos e os templos. Mas é no templo, forma estática da síntese dialética, que temos a síntese final da oposição Homem-Terra. O Templo abriga a Religião, para defendê-la e sustentá-la em seu desenvolvimento. É a concha marinha em que a ostra se forma para produzir a pérola, essa deformação da matéria que rompe a estática da forma com o impacto das leis do crescimento. Do templo humilde, primitivo — a cabana mágica do Pajé ou do Xamã — facilmente rompidas as formas primárias, surgem as formas múltiplas e sólidas dos Templos da Suméria, do Egito antigo e suntuoso, da Mesopotâmia lírica com seus braços de rios.

Do Templo de Salomão, orgulhoso como as montanhas do Cáucaso, num momento de concentração final de ciclos históricos, completando-se a espiral evolutiva do tempo no espaço —amalgamados na realidade substancial de Espírito e Matéria, surgiram as descendências espúrias das Sinagogas, convergindo na direção dos primeiros templos cristãos. Nas repetições filogenéticas da temporalidade, o primeiro templo Cristão fundado por Paulo em Antioquia projeta-se ao encontro dos mitos imperiais da Roma dos Césares e ali, em sangue e lágrimas, realiza-se o amálgama da sedimentação do embasamento do ciclo gigantesco das Catedrais. E mais uma vez, na impulsão da filogênese sempre atuante, vamos ter, na sucessões de dois milênios, o aparecimento das gerações microscópicas mas prolíferas dos Centros Espíritas. Os ritmos do desenvolvimento convergem sempre para as origens, na necessidade de recomeçar, buscando o fio perdido do prolongado processo genético nos escombros da corrupção aristotélica. Geração e corrupção são o reverso da moeda de César que os fariseus apresentaram ao Cristo, revezando-se nas exigências conjugadas e opostas do Reino de Deus e do Reino da Terra. Ante a grandiosidade dos templos e sua complexidade, nas fases de crescimento violento, a sinagoga e o Centro Espírita são descendências espúrias de linhagens de templo suntuosos, Não obstante, a sinagoga vai ainda vai converter-se no templo cristão de paredes nuas, desprovido de altares e imagens, de símbolos e insígnias, para pegar o esquivo fio de Ariadne da orientação messiânica.

Vemos que em todo esse processo a lei ordenadora é uma só, a da metamorfose. Há uma intenção secreta no processo histórico, que os homens não percebem mas captam no inconsciente, nessa religião subterrânea da alma que a percepção extrassensorial nos revela atualmente de maneira inegável.

Os filósofos do Nada, esses nadificadores de si mesmos, e os que se interessavam pela realidade sensorial, vivem apenas uma meia-vida, conhecem apenas a superfície opaca da Terra e não podem opinar sobre a realidade total encarada e pesquisada pelo Espiritismo. Temos o direito de negar a esses filósofos, como Kardec negou aos cientistas do seu tempo, sua suposta capacidade de criticar a Ciência Espírita. Como eles poderiam perceber a lei da metamorfose no seu desenvolvimento espantoso, da cabana mágica do pajé até o Centro Espírita, se não dispõem dos dados necessários sobre a realidade espiritual que negam? Os exemplos históricos dessa impossibilidade são numerosos. Augusto Comte negou a Psicologia, mutilando a sua visão admirável da realidade científica, Spencer descreveu a mecânica sensorial da origem das Religiões, sem perceber as causas desse processo, e foi corrigido mais tarde pelo seu discípulo italiano, Ernesto Bozzano, que provou através da pesquisa cientifica o engano do mestre genial. Bertrand Rusell insistiu até o último instante na sustenção de sua posição materialista, negando-se a aceitar a própria comprovação das conquistas da Física Atômica e Nuclear da irrealidade da matéria. Os marxistas, escudados na visão materialista de Marx e na Dialética da Natureza de Engels, recusam-se a aceitar a evidência do espírito nas suas próprias descobertas de laboratório como o fez Vassiliev no caso das pesquisas parapsicológicas e como o fez a própria Academia de Ciência da URSS no caso da descoberta do corpo bioplásmico. Não se trata de má vontade, mas de condicionamento mental, como o explicou Remy Chauvin. Um velho teimoso como René Sudre, que levou de Bozzano a maior surra da História das Ciências, volta a negar a presença do espírito nos fenômenos paranormais, publicando as suas interpretações da Parapsicologia atual como o mesmo ranço e a rigidez de múmia mental do passado. Padres e frades, já despidos de batina e hábito, insistem ridiculamente em suas badernas culturais, com uma incapacidade dolorosa de compreensão científica, fazendo-se passar por cientistas e filósofos perante as multidões ingênuas. São figurantes de uma fase histórica em que o clero e as Igrejas se despem das roupagens antigas, passando sem o perceber pela metamorfose das lagartas que viram borboletas, voejando sem rumo em busca do néctar do deuses. Esses padres e frades, protegidos pela hierarquia eclesiástica, descem das funções sacerdotais para as de camelôs de uma falsa cultura desgastada no tempo. A Lei da metamorfose age imperceptível sobre a espécie, modificando-a de maneira implacável.

No tocante aos templos, as modificações se deram com tal rapidez que provocam a revolta dos fiéis e de alguns clérigos tradicionalistas, como o Cardeal Lefèvre e seus companheiros da resistência francesas. Modificam-se os templos em sua estrutura interna e com esta os rituais e toda a sistemática litúrgica. Mas essas mudanças, destinadas a simplificar e atualizar a Religião, avançam, precisamente na direção do modelo espírita. As Igrejas e seus templos despem-se das suntuosidades materiais e formais em busca da substância espiritual. A resistência a essas transformações é inútil, conseguindo apenas abrandar, em alguns sentidos, a velocidade do processo.

Tudo isso nos mostra claramente que a metamorfose religiosa, no Catolicismo e nas demais igrejas cristãs, faz a curva de volta, na espiral evolutiva, aos primeiros séculos do Cristianismo. Nada se perdeu ao longo do tempo. Podemos lembrar, para exemplificar, o símbolo indiano da serpente que morde a própria cauda. Segundo esse símbolo, usado oficialmente pela Teosofia, o processo evolutivo parte da ignorância (o rabo da serpente) cresce na absorção de elemento naturais, engordando (o corpo) e atinge a consciência da formação da cabeça. Quando a serpente morde a ponta da cauda, fechando o círculo da vida sobre si mesma, temos o seu retorno à simplicidade primitiva. A cauda nada era, o corpo era apenas um embrião, a cabeça desenvolveu as potencialidades da inteligência, mas a mordida na cauda fechou o ciclo evolutivo numa prova de humildade. A cabeça, centro do saber, do conhecimento, rojou-se no chão, junto da cauda e com ela se confundiu. Kardec recebeu o ensino dos Espíritos Superiores: ”Os espíritos nascem simples e ignorantes”. E a partir desse estágio primário, mostrou que todas as possibilidades evolutivas se abriam para os espíritos nas vidas sucessivas. A verdade é uma só, mas pode ser percebida e interpretada segundo a posição de cada observador.

Tudo quando se passou no Cristianismo, através dos milênios, teve a sua razão de ser, decorreu necessariamente das condições da humanidade em cada fase da sua evolução histórica. A serpente engordou e engorgitou-se a ponto de parecer capaz de engolir o mundo. Mas quando a inteligência começou a desenvolver-se ela enrolou-se e procurou morder humildemente a cauda. Fundem-se, nesse momento decisivo, o elemento vital, os materiais absorvidos no crescimento, as experiências adquiridas e as intuições do futuro, para que o animal instintivo perceba a luz da razão em seu cérebro rastejante e descubra em sua mente os reflexos do poder criador de Deus. Tudo serviu para formação e a abertura do Ser na escalada divina.

Disse Jesus que a pedra rejeitada seria tomada para fundamento do edifício. O Centro Espírita rejeitado, caluniado, humilhado, aparece nesse processo bimilenar da evolução religiosa do Ocidente como a pedra angular da Civilização do Espírito na Era Cósmica. No Centro Espírita os ensinos de Jesus se concretizam, não em ídolos e formalidades artificiais, mas no conhecimento e no saber positivo. O homem descobre que o seu conceito do Sagrado estava errado, pois o sagrado não está nas coisas exteriores, mas na natureza íntima do ser humano e na divindade dos seres superiores. Percebe que o que vale é o Espírito e não o corpo, pois só o Espírito realmente existe. Aprende que nenhuma benção exterior e formal pode salvá-lo mas somente a sua dedicação ao bem e à verdade, a sua abertura espiritual para as bênçãos permanentes de Deus que jorram no mundo, abrangendo todas as criaturas e toda a Criação. O Centro Espírita o instrui, por ensinos e fatos, que a morte não é a condenação do Éden, mas a porta da vida, segundo a feliz expressão de Richet. O mistério da vida eterna, concedida apenas aos eleitos, transforma-se na herança universal de Paulo, pois somos todos “herdeiros de Deus e coherdeiros de Cristo”. A função moral do Centro não é compulsória, mas autógena. Não se desenvolve através de um código opressivo, mas do despertar da consciência para a responsabilidade de todos e de cada um. O fundamento dessa moral é o princípio do amor ao próximo e a sua manifestação no plano social é a caridade. O amor é a essência da vida social, substância básica da estrutura social, e a caridade é a dinâmica das relações, nos termos da definição de Paulo. O Centro Espírita assimila na prática, na sua dinâmica do dia a dia, a seiva pura do Evangelho para alimentar a vida, o pensamento e os sentimentos do homem. Longe ficaram, no processo histórico, as lendas da ira divina e das condenações terroristas. Na pequena comunidade do Centro forma-se e se desenvolve a Sociedade do futuro, fundada na compreensão dos deveres consciências. O mundo humano e o mundo espiritual se funde no processo das relações mediúnicas, na troca de experiência entre os espíritos e os homens que mutuamente se ajudam na escalada da transcendência. Graças ao racionalismo espírita — desenvolvimento natural do racionalismo cristão — estabelece-se a solidariedade de consciências da tese de René Hubert, atualizando na realidade humana a utopia divina do Reino de Deus. Caem as barreiras de raças de condições sociais, pessoas e culturas, seitas e partidos, mortos e vivos, pois todos aprendem que a fraternidade universal das criaturas decorre da paternidade universal de Deus. Os objetivos do Evangelho são atingidos com a derrubada total dos divisionismo formais estabelecidos pela ignorância humana.

Claro que esse milagre humano, produzido no Centro pela descoberta da finalidade da existência terrena, não é completa nem perfeita, mas já revelam os traços essenciais do perfil do futuro. Ficam para trás, na distância os séculos e os milênios de atrocidades e ameaças satânicas, diabólicas, reduzidos a cinzas de eras superadas. Na simplicidade do Centro Espírita, desprovido de aparatos, de imagens, de rituais, de paramentos, de sacramentos, de atos religiosos pagos, avesso à simonia e ao profissionalismo religioso e dedicado ao serviço da caridade ampla, sem preferências — as forças da evolução acumulam o seu poder para a eclosão da civilização do Espírito, que varrerá do planeta todas as formas e formalismo do religioso inferior, que se ceva nas  mistificações do poder espiritual. As preces pagas, as cerimônias suntuosas, os títulos fantasiosos e heréticos dos representantes religiosos, as organizações religiosas investidas de poderes estatais — resíduos das fases teocráticas do passado — desaparecendo por falta de adequação aos tempos novos. A experiência do Centro Espírita que suprime todas as formas de engodo das populações e simulação de poderes divinos através de ordenações, sagrações e investiduras divinas serão abolidas. A Religião, desembaraçada dos compromissos políticos, comerciais, financeiros e assim por diante, será restaurada em sua pureza exemplificada por Jesus e seus discípulos na era apostólica.

Essa é a diretriz histórica determinada pelas características e as atividades do Centro Espíritas. Mas todas essas modificações se processarão ao longo do tempo, na medida do progresso cultural do mundo e do consequente esclarecimento dos povos sobre os problemas fundamentais da vida, do destino, da dor e da morte. O conhecimento dessas incógnitas, que sempre atormentaram os homens, secará naturalmente a fonte das mistificações interesseiras no campo religioso. Demonstrada a ineficácia de todas as encenações sacramentais, esclarecidas as superstições que dominam a mente humana insegura e medrosa, a Humanidade atingirá a sua virilidade e não haverá mais campo para as explorações sistemáticas da natureza religiosa do homem. No plano espiritual, as vastas populações desencarnadas de espíritos inferiores, apegados a interesses materiais, serão naturalmente removidas para mundo inferiores. Na Economia Divina nada se perde. Essas populações espirituais, atrasadas em face da evolução terrena, levarão para os mundos inferiores conhecimentos que auxiliarão esses mundo na sua elevação progressiva. São essas as migrações espirituais entre os mundo solidários de cada Galáxia, segundo o ensino de Kardec.

O Mito do Terceiro Milênio, que muitos espíritas aguardam com a ingenuidade dos judeus que ainda esperam o Messias e dos cristãos que aguardam a volta de Jesus entre as nuvens, com revoadas de anjos ao redor, enquanto catástrofes punitivas devastarão o planeta, não passa de interpretação errônea e supersticiosa de um arquétipo coletivo: o anseio dos homens por um mundo feliz, despertado nas criaturas pela realidade longínqua das realizações ainda em lenta progressão na Terra e já atingidas no Cosmos por mundos mais antigos que o nosso. O Terceiro Milênio é simplesmente a continuação das fases milenárias do calendário cristão designadas no tempo como Primeiro e Segundo Milênio. É, portanto, uma fase de mil anos, e que o Ano 2.000, aguardado como hora mística de redenção universal, é apenas o ano inicial de um milênio de grandes e profundas transformações da Terra, na sequência natural do seu processo evolutivo. Na sistemática objetiva, simples e racional do Centro Espíritas, não há lugar para violações milagrosas e portanto sobrenaturais. Vivemos na Natureza e tudo quanto conhecemos é natural. O conceito do sobrenatural nasceu da impotência humana para devassar o Cosmos. Mas desde o século passado o homem vem conseguindo mergulhar nos mistérios do mundo e descobrir as leis naturais de fenômenos considerados sobrenaturais. Kardec foi o grande pioneiro dessa investigação e por isso mesmo foi o primeiro a pôr em dúvida esse conceito. O sobrenatural revelou-se como sendo simplesmente o desconhecido. Na proporção em que avançamos no conhecimento da realidade tudo se naturaliza. Só Deus parece dispor da sobrenaturalidade, mas as próprias Religiões sustentam que Deus não é só transcendência, é também, e necessariamente, imanência. Para sustentar os princípio da onipresença e onisciência de Deus, os teólogos, esses cultivadores de uma hipotética Ciência de Deus tiveram de admitir a sua imanência na Natureza. o que também o naturaliza. Sobra, assim, apenas uma parte de Deus como sobrenatural, mas se Deus é uno (apesar das suas três pessoas) é claro que não pode ser dividido em natural e sobrenatural. E se Deus é o Criador que tudo criou de si mesmo e está presente em tudo, presidindo a toda realidade das coisas e dos seres, não de fora, mas de dentro dessa realidade, não há como sustentar-se a sua sobrenaturalidade específica e única.

O Espiritismo define Deus como inteligência Suprema, criadora, mantenedora e estruturadora do Universo. Logicamente, define o Espírito como elemento estruturador da matéria. Para estruturar a matéria dispersa no espaço, pulverizada em átomos, partículas atômicas e plasmas cósmicos, o Espírito se apossa desses elementos e os ajusta aos seus desígnios, gerando as formas das coisas e dos seres. Dessa maneira, o fiat da Criação não foi apenas a emissão de um pensamento ou de uma palavra, mas todo um processo complexo e lento de aglutinações sucessivas, através da potência inteligente que pelo fato mesmo de ser inteligente, sabia o que fazia. Essa proposição espírita, fundada na razão, não emocionou os teólogos, que simplesmente a condenaram, no simplismo de seu autoritarismo, por sua vez baseado na suposição simplória de que Deus dava a ciência infusa da verdade absoluta. Que mixórdia, Santo Deus!

O Conhecimento atual, que repudiou o ilogismo teológico, feito de arrebiques e malabarismos, não pode abdicar das vias racionais, nem mesmo sob o prestígio de Kant, na divisão também arbitrária que o filósofo estabeleceu entre o dialético e o absoluto. A metamorfose religiosa incumbiu-se de mostrar que as complicações do misticismo alógico reduziram-se no tempo à lógica da simplicidade nas práticas experimentais do Centro Espírita.

J. Herculano Pires
do livro: O Centro Espírita

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terça-feira, 23 de novembro de 2021

O Centro Espírita

O Centro Espírita

J. Herculano Pires



Se os espíritas soubessem o que é o Centro Espírita, quais são realmente a sua função e a sua significação, o Espiritismo seria hoje o mais importante movimento cultural e espiritual da Terra. Temos no Brasil – e isso é um consenso universal – o maior, mais ativo e produtivo movimento espírita do planeta. A expansão do Espiritismo em nossa terra é incessante e prossegue em ritmo acelerado. Mas o que fazemos, em todo este vasto continente espírita, é um imenso esforço de igrejificar o Espiritismo, de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas, formando por toda parte núcleos místicos e portanto fanáticos, desligados da realidade imediata. 

Dizia o Dr. Souza Ribeiro, de Campinas, nos últimos tempos de sua vida de lutas espíritas: 
"Não compareço a reuniões de espiritas rezadores!"
E tinha razão, porque nessas reuniões ele só encontrava turba dos pedintes, suplicando ao Céu ajuda.

Ninguém estava ali para aprender a Doutrina, para romper a malha de teia de aranha do igrejismo piedoso e choramingas. A domesticação católica e protestante criara em nossa gente uma mentalidade de rebanho. O Centro Espírita tornou-se uma espécie de sacristia leiga em que padres e madres ignorantes indicavam aos pedintes o caminho do Céu. A caridade esmoler, fácil e barata, substituiu as gordas e faustosas doações à Igreja. Deus barateara a entrada do Céu, e até mesmo os intelectuais que se aproximam do Espiritismo e que tem o senso crítico, se transformam em penitentes. Associações espíritas, promissoramente organizadas, logo se transformam em grupos de rezadores pedinchões. O carimbo da igreja marcou fundo a nossa mentalidade em penúria. Mais do que subnutrição do povo, com seu cortejo trágico de endemias devastadoras, o igrejismo salvacionista depauperou a inteligência popular, com seu cortejo de carreirismo político–religioso, idolatria mediúnica, misticismo larvar, o que é pior, aparecimento de uma classe dirigente de supostos missionários e mestres farisaicos, estufados de vaidade e arrogância. São os guardiães dos apriscos do templo, instruídos para rejeitar os animais sacrificiais impuros, exigindo dos beatos a compra de oferendas puras nos apriscos sacerdotais. Essa tendência mística popular, carregada de superstições seculares, favorece a proliferação de pregadores santificados, padres vieiras sem estalo, tribunos de voz empostada e gesticulação ensaiada. Toda essa carga morta esmaga o nosso movimento doutrinário e abre as suas portas para a infestação do sincretismo religioso afro-brasileiro, em que os deuses ingênuos da selva africana e das nossas selvas superam e absorvem os antigos e cansados deus cristãos. Não no clima para o desenvolvimento da Cultura Espírita. As grandes instituições Espíritas Brasileiras e as Federações Estaduais investem-se por vontade própria de autoridade que não possuem nem podem possuir, marcadas que estão por desvios doutrinários graves, como no caso do Rostanguismo da FEB e das pretensões retrógradas de grupelhos ignorantes de adulterados. Teve razões de sobra André Dumas, do Espiritismo Francês, em denunciar recentemente, em entrevista à revista Manchete, a situação católica e na verdade de antiespírita do Movimento Espírita brasileiro. A domesticação clerical dos espíritas ameaças desfibrar todo o nosso povo, que por sua formação igrejeira tende a um tipo de alienação esquizofrênica que o Espiritismo sempre combateu, desde a proclamação de fé racional sempre no Kardec, contra a fé cega e incoerente, submissa e farisaica das pregações igrejeiras. Jesus ensinou a orar e vigiar, recomendou o amor e a bondade, pregou a humanidade, mas jamais aconselhou a viver de orações e lamúrias, santidade fingida, disfarçada em vãs aparências de humildade, que são sempre desmentidas pelas ambições e a arrogância incontroláveis do homem terreno. Para restabelecermos a verdade espírita entre nós e reconduzirmos o nosso movimento a uma posição doutrinária digna e coerente, é preciso compreender que a Doutrina Espírita é um chamado viril à dignidade humana, à consciência do homem para deveres e compromissos no plano social e no plano espiritual, ambos conjugados em face das exigências da lei superior da Evolução Humana. Só nos aproximaremos da Angelitude, o plano superior da Espiritualidade, depois de nos havermos tornado Homens.

Os espíritas atuais, na sua maioria, tanto no Brasil como no mundo, não compreenderam ainda que estão num ponto intermediário da filogênese da divindade. Superando os reinos inferiores da Natureza, segundo o esquema poético de Léon Denis, na sequência divinamente fatal de Kardec: mineral, vegetal, animal e homem, temos o ponto neutro de gravidade entre duas esferas celestes, e esse ponto é o que chamamos ESPÍRITA. As visões fragmentárias da Realidade se fundem dialeticamente na concepção monista preparada pelo monoteísmo. Liberto, no ponto neutro, da poderosa reação da Terra, o espírita está em condições de se elevar ao plano angélico.

Mas estar em condições é uma coisa, e dar esse passo para a divindade é outra coisa. Isso depende do grau de sua compreensão doutrinária e da sua vontade real e profunda, que afeta toda a sua estrutura individual. Por isso mesmo, surge então o perigo da estagnação no misticismo, plano ilusório da falsa divindade, que produz as almas viajoras de Plotino, que nada mais são do que os espíritos errantes de Kardec. Essas almas se projetam no plano da Angelitude, mas não conseguem permanecer nele, cedendo de novo a atração terrena da encarnação.

Muitas vezes repetem a tentativa, permanecendo errantes entre as hipóstases do Céu e da Terra. Plotino viu essa realidade na intuição filosófica e na vidência platônica.

Mas Kardec a verificou em sua pesquisas espíritas, escudadas na observação racional dos fatos. Apoiados na Razão, essa bússola do Real, ele nos livrava dos psicotrópicos do misticismo, oferecendo-nos a verdade exata da Doutrina Espírita. Nela temos a orientação precisa e segura dos planos ou hipóstases superiores, sem o perigo dos ciclos muitas vezes repetidos do chamado Círculo Vicioso das Reencarnações, que os ignorantes pretendem opor à realidade incontestável da reencarnação. Pois se existe esse círculo vicioso, é isso bastante para provar o processo reencarnatório. O vício não está no processo, mas na precipitação dos homens e dos espíritos não devidamente amadurecidos, que tentam forçar a Porta do Céu.

Se no Brasil sofremos os prejuízos dos religiosismo ingênuo de nossa formação cultural, na França e nos demais países europeus - segundo as próprias declarações de André Dumas – o prejuízo provém de um cientificismo pretensioso, que despreza a tradição francesa da pesquisa científica espírita, procurando substituí-la pelas pesquisas e interpretações parapsicológicas. Esse menosprezo pedante pelo trabalho modelar de Kardec levou o próprio Dumas a desrespeitar a tradição secular da Revue Spirite, transformando-a num simulacro da revista científica do Ano 2.000. As pesquisas da parapsicologia seguiram o esquema de Kardec e foram cobrindo no tempo, sucessivamente, todas as conquistas do sábio francês. 

Pegada por pegada, Rhine e seus companheiros cobriram o rastro científico de Kardec. O mesmo já acontecera com Richet na metapsíquica, com Crookes e Zollner e todos os demais. Toda a pesquisa psíquica honesta é válida, nesse campo, até mesmo a dos materialistas russos atuais ficaram presas ao esquema de Kardec, o que prova a validade irrevogável desta. Começando pela observação dos fenômenos físicos, todas as Ciências Psíquicas, nascidas do Espiritismo fizeram a trajetória fatal traçada pelo gênio de Kardec e chegaram as suas mesmas conclusões. As discordâncias interpretativas foram sempre marcadas indelevelmente pelos preconceitos e as precipitações da advertência de Descartes no Discurso do Método e pela sujeição aos interesses das Igrejas, como Kardec já assinalara em seu tempo. A questão da terminologia é puramente supérflua, e como dissera Kardec, serve apenas para provar a leviandade do espírito humano, mesmo dos sábios, sempre mais apegado à forma que ao fundo do problema .

No Espiritismo o quadro fenomênico foi dividido por Kardec em duas seções: Fenômenos Físicos e Fenômenos Inteligentes. Na Metapsíquica, Richet apresentou o esquema de Metapsíquica objetiva e Metapsíquica subjetiva. Na Parapsicologia os fenômenos espíritas passaram a chamar-se Fenômeno Psi, com divisão de Psicapa (objetivo) e Psigama (subjetivos). Quanto aos métodos de pesquisa, Crookes e Richet ativeram-se à metodologia científica da época, e Rhine limitou-se a passar dos métodos qualitativos para os quantitativos, inventando aparelhagens apropriadas aos processos tecnológicos atuais, apelando à estatística como forma de controle e comprovação dos resultados, o que simplesmente corresponde às exigências atuais nas Ciências.

Kardec teve a vantagem de haver acentuado enfaticamente a necessidade de adequação do método ao objeto específico da pesquisa. O próprio método hipnótico de regressão da memória, para as pesquisas da reencarnação aplicado por Albert De Rochas do século passado, foi aproveitado pelo Prof. Vladimir Raikov. Na Romênia, o preconceito quanto ao Espiritismo gerou uma nova denominação para Parapsicologia: Psicotrônica. Com esse nome rebarbativo, os materialista romenos pretendem exorcizar os perigos de renascimento espírita em seu país.

Todos esses fatos nos mostram que a Doutrina Espírita não chegou ainda a ser conhecida pelos seus próprios adeptos em todo o mundo. Integrado no processo doutrinário de trabalho e desenvolvimento, o Centro Espírita carecia até agora de um estudo sobre as suas origens, o seu sentido e a sua significação no panorama cultural do nosso tempo. É o que procuramos fazer neste volume, com as nossas deficiências, mas na esperança de que outros estudiosos procurem completar o nosso esforço. Lembrando o Apóstolo Paulo, podemos dizer que os espíritas estão no momento exato em que precisam desmamar das cabras celestes para se alimentarem de alimentos sólidos. Os que desejam atualizar a Doutrina, devem antes cuidar de se atualizarem nela.

J. Herculano Pires
Introdução do livro: O Centro Espírita

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Declaração de Origem

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