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domingo, 9 de novembro de 2025

Vigília maternal

Vigília maternal

Anália Franco


Sorves, em lágrimas silenciosas, o cálice da amargura, ante o filho desobediente, e notas no coração que o amor e a dor palpitam juntos em paroxismos e profundezas.

Desencantada com as leves nódoas de indignidade que lhe entreviste no caráter, reparas, chorando, que ele não é mais a aparição celeste dos primeiros dias e, ao ponderar-lhe a falência iniciante, temes a liberdade que o tempo lhe concederá na construção do destino.

Pretextando querê-lo, não te rendas à feição de praça vencida...

Conquanto carregues o espinho da angústia engastado na alma, é preciso velar no posto de sentinela.

Não deformes o sentimento que te pulsa no peito.

Fortalece a própria vontade, governando-lhe os impulsos.

Ceder sempre, no fundo, é menosprezar.

Sê previdente, aparando-lhe os caprichos.

Acende a luz da prece e medita nas dores excruciantes que alcançaram também a doce mãe de Jesus e ergue a voz no corretivo às irreflexões e aos anseios imoderados que o visitam, se queres fazer dele um homem.

Dosa o sal da energia e o mel da brandura, nos condimentos da educação.

Nem liberdade desordenada, nem apego excessivo.

Se teu filho é tua cruz, lembra-te de que, na Terra, não há nascimento de santos. Almas em luta consigo mesmas, é compreensível vivamos todos nós, não raro, em luta uns com os outros, nos passos ziguezagueantes da experiência.

Sê operosa e humilde, sem ser escrava.

Não cultives desgostos.

Sê fiel à esperança.

Não fites ingratidões, nem coleciones queixumes.

A missão divina da maternidade apoia-se na força onipotente do amor.

Envolve teu filho na palavra de benção, que vence o orgulho, e na luz do exemplo que dissipa as sombras da rebeldia.

Faze que se lhe desenvolvam os sentimentos bons do coração, que o musgo dos séculos recobriu e ocultou.

Não te faças borboleta do sono, quando a vida te pede vigílias de guardiã.

No rio da existência humana, os espíritas são as gotas d'água que se transformam em lâminas de arremesso contra as pedras dos obstáculos, talhando caminhos novos.

O Espiritismo gera consciências livres. Prova a teu filho semelhante verdade pelas próprias ações de renúncia e discernimento, conjugando o bálsamo do carinho com a rédea da autoridade.

Não queiras transformá-lo, à força, em escolhido, dentre aqueles chamados pelo Senhor.

Filhos do Eterno, todos somos cidadãos da Eternidade e somente elevamos a nós mesmos a golpes de esforço e trabalho, na hierarquia das reencarnações.

Assim, pois, embora muitas vezes torturada na abnegação incompreendida, mostra a teu filho que a Lei Divina é insubornável e que todo espírito é responsável por si próprio.

Em referência ao Evangelho Segundo o Espiritismo Cap. IV – Item 18

Anália Franco do livro: O Espírito da Verdade 
de Chico Xavier e Waldo Vieira (Espíritos Diversos)

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domingo, 1 de janeiro de 2023

Fazer do Dever um Prazer

Fazer do Dever um Prazer

Anália Franco

Tesouro inconspurcável que o homem pode trazer por dentro reside na confiança integral depositada por ele na Força Maior que rege a vida.

Quem transporta consigo semelhante riqueza iluminou a vontade, erguendo-se invencível nas vagas ondulantes em que se entrechocam as ilusões terrestres.

Sejam quais sejam os empeços externos, enxameiem-se ciladas por onde caminhe, esculpe a fisionomia da vitória no pedestal da serenidade. Nos vagalhões da luta, tem o raciocínio ereto, à feição do penedo capaz de sustentar o farol que aponta o abismo, e mantém o sentimento qual chama de esperança a fazer-se canção na sombra noturna para saudar o renascimento da alva.

Não conhece tempo pior, nem futuro incerto. Em qualquer eventualidade, convence-se de que executa os desígnios da Providência, para que melhore a si mesmo, melhorando as existências em derredor.

Nada tem a perder, quanto ao mundo, porque, acima de tudo, prestigia os talentos que transcendem os valores do mundo.

Dificuldade ser-lhe-á incentivo na ação meritória; incompreensão alheia atestar-lhe-á o devotamento; sacrifício lhe acenará sempre, qual radioso clarão a desvendar-lhe roteiros para a esfera superior. Arrosta perigos e sofre riscos, baseando-se na importância do esforço a que se expõe na transitoriedade de tudo o que é humano fora de si, para exalçar a perenidade de tudo o que é espiritual, em si.

Olha o íntimo de ti e mede a extensão de "terreno interior" que consegues alcançar na luz da fé renovadora que pensa, analisa e conclui por si própria. Conserva a atitude de quem está pronto a servir. Préstimo espontâneo revela desejo de acertar.

Cada dia, cada experiência e cada circunstância te facultam multiplicadas oportunidades para burilar a fé, de maneira a te certificares, ainda mais entranhadamente, de que ninguém pode aposentar a própria consciência.

É assim que todo espírita viverá feliz, fazendo do dever um prazer.

Anália Franco por Waldo Vieira do livro:
Seareiros de volta

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sábado, 1 de fevereiro de 2020

Pagina de Anália

Pagina de Anália

Hilário Silva



A doente se queixava em desespero, a senhora que lhe velava o leito perguntou:

- Permite que eu leia para seu reconforto algum pequeno trecho de Allan Kardec?

- Deus me livre! - gritou a enferma, cuspindo-lhe aos pés.

Ainda assim, as mãos abnegadas da companheira continuaram ajeitando-lhe os lençóis...

- Quero água! - exigiu a doente.

A amiga trouxe-lhe água pura e fresca.

De copo às mãos, a enferma, num ímpeto, atirou-lhe todo o líquido à face, vociferando:

- Água imunda!... como se atreve a tanto?

Quero outra!

Paciente e humilde, a senhora enxugou o rosto molhado e, em seguida, trouxe mais água.

- Quero chá.

E o chá surgiu logo.

- Chá malfeito! Chá frio! O conteúdo da taça foi projetado ao peito da outra, ensopando-lhe a blusa.

- Traga chá quente! Foi a ordem obedecida.

- Você aceita agora o remédio? - indagou a assistente.

- Que venha depressa.

Ao tomar, contudo, a poção, a dama inconformada agarra a colher e vibra um golpe no braço da amiga.

Surge pequeno ferimento, mostrando sangue.

E a enferma cai em crise de lágrimas.

Chora, chora e depois diz:

- Anália, se a religião espírita que você abraçou é o que lhe ensina a me suportar com tanta calma, leia o que quiser.

A interpelada sentou-se.

Tomou "O Evangelho segundo o Espiritismo" e leu a formosa página intitulada A Paciência, no capítulo IX, que começa afirmando:

"A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos..."

Acalmou-se a doente, que acabou aceitando o socorro do passe e o benefício da água fluída.

Conversaram ambas.

A enferma, asserenada, ouviu da companheira os planos que arquitetava para o futuro, em benefício dos meninos abandonados à rua.

No dia seguinte, ao despedir-se, a obsidiada em reequilíbrio beijava-lhe as mãos e dava-lhe os primeiros dois contos de réis para começar a grande obra.

Essa enfermeira admirável de carinho e devotamento era Anália Franco, a heroína da Seara espírita paulista, que se fez sublime benfeitora das criancinhas desamparadas.

Hilário Silva do livro: 
A Vida Escreve por Chico Xavier / Waldo Vieira

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