segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Questão de grandeza

Questão de grandeza

Áureo


Conta velha lenda que havia, em certo reino um moço extremamente ambicioso, que só valorizava as grandes coisas, o supremo poder, a magna riqueza e a soberana glória. Esse moço decidiu, então, que havia de ser não um dos maiores, mas o primeiro de todos, o rei único e todo-poderoso daquele grande reino.

Lançou-se, pois, à realização do seu ideal, com todas as suas forças. Usou de todos os meios, de todas as possibilidades e de todos os recursos, na firme determinação de atingir o alvo a que aspirava. 

Após dezenas de anos, em que ousou todas as ousadias, lutou todas as lutas e travou os mais temerários combates, conseguiu atingir o comando militar mais importante do país. Unindo os seus áulicos, fanatizados e também cobiçosos como ele, não tardou a destronar o monarca e proclamar-se rei. 

Chegou, afinal, o almejado dia do seu magno triunfo, e ele se dirigiu, com luzido acompanhamento, para a festa da coroação, onde seria consagrado e legitimado no poder. 

Ao galgar, porém, o último degrau de acesso ao grande templo, pisou, inadvertidamente, num pequeno caroço de laranja, desequilibrou-se e rolou pela escadaria, fraturando o crânio e encontrando assim morte instantânea. 

Acontecerá também desse modo com qualquer de nós que, esquecido das lições imperecíveis do Divino Mestre, não entender que as coisas que são grandes para o mundo nem sempre o são aos olhos de Deus, sem olvidar, também, que as coisas que para o Senhor dos Céu são as mais importantes quase sempre são tidas por desvaliosas para o mundo.

Necessário jamais nos esqueçamos de que o Messias Divino nasceu numa manjedoura e morreu numa cruz. E entre a manjedoura e a cruz, moveu-se de cidade a cidade, de povoação a povoação, usando os próprios pés, pelas estradas poeirentas da Palestina, como qualquer dos ínfimos caminheiros de sua época. Sem ter onde reclinar a própria cabeça, jamais se cansou de ensinar aos seus discípulos o valor do óbolo da viúva, da prece do publicano e da dracma perdida, exaltando as flores do campo e as aves do céu. 

Vigiando e orando sempre, no trabalho que nos cumpre realizar, cuidemos com amor das nossas obrigações mais pequeninas e dos sentimentos mais ocultos, pois a palavra do Senhor desde muito nos assevera que o maior no Reino dos Céus será sempre aquele que se fizer servo de todos.

Áureo por Hernani T. Sant'anna do livro:
Correio entre dois mundos

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domingo, 7 de outubro de 2018

O merecimento

O merecimento

Hilário silva



I

Saturnino Pereira era francamente dos melhores homens. Amoroso mordomo familiar. Companheiro dos humildes. A caridade em pessoa. Onde houvesse a dor a consolar, aí estava de plantão. Não só isso. No trabalho, era o amigo fiel do horário e do otimismo. Nas maiores dificuldades, era um sorriso generoso, parecendo raio de sol dissipando as sombras.

Por isso mesmo, quando foi visto de mão a sangrar, junto à máquina de que era condutor, todas as atenções se voltaram para ele, entre o pasmo e a amargura.

Saturnino ferido! Logo Saturnino, o amigo de todos...

Suas colegas de fábrica rasgaram peças de roupa, a fim de estancar o sangue a correr em bica.

O chefe da tecelagem, solícito, conduziu-o ao automóvel, internando-o de pronto em magnífico hospital.

Operação feliz. O cirurgião informou, sorrindo:

- Felizmente, nosso amigo perderá simplesmente o polegar. Todo o braço direito está ferido, traumatizado, mas será reconstituído em tempo breve.

Longe desse quadro, porém, o caso merecia apontamentos diversos:

- Porque um desastre desses com um homem tão bom? – murmurava uma companheira.

- Tenho visto tantas mãos criminosas saírem ilesas, até mesmo de aviões projetados ao solo, e justamente Saturnino, que nos ajuda a todos, vem de ser a vítima! – comentava um amigo.

- Devemos ajudar Saturnino.

- Cotizemo-nos todos para ajuda-lo.

Mas também não faltou quem dissesse:

- Que adianta a religião, tão bem observada? Saturnino é espírita convicto e leva a sério o seu ideal. Vive para os outros. Na caridade é um herói anônimo.

Por que o infausto acontecimento? – expressava-se um colega materialista.

E à tarde, quando o acidentado apareceu muito pálido, com o braço direito em tipoia, carinho e respeito rodearam-no por todos os lados.

Saturnino agradeceu a generosidade de que fora objeto. Sorriu, resignado. Proferiu palavras de agradecimento a Deus. Contudo, estava triste.

II

À noite, em companhia da esposa, compareceu à reunião habitual do templo espírita que frequentava.

Sessão íntima.

Apenas dez pessoas habituadas ao trato com os sofredores. Consagrado ao serviço da prece, o operário, em sua cadeira humilde, esperava o encerramento, quando Macário, o orientador espiritual das tarefas, após traçar diretrizes, dirigiu-se a ele, bondoso:

- Saturnino, meu filho, não se creia desamparado, nem se entregue a tristeza inútil. O Pai não deseja o sofrimento dos filhos. Todas as dores decretadas pela Justiça Divina são aliviadas pela Divina Misericórdia, toda vez que nos apresentamos em condições para o desagravo. Você hoje demonstra indiscutível abatimento. Entretanto, não tem motivo.

Quando você se preparava ao mergulho no berço terrestre, programou a excursão presente.

Excursão de trabalho, de reajuste. Acontece, porém, que formulou uma sentença contra você mesmo...

Fez uma pausa e prosseguiu:

- Há oitenta anos, era você poderoso sitiante no litoral brasileiro e, certo dia, porque pobre empregado enfermo não lhe pudesse obedecer às determinações, você, com as próprias mãos, obrigou-o a triturar o braço direito no engenho rústico. Por muito tempo, no Plano Espiritual, você andou perturbado, contemplando mentalmente o caldo de cana enrubescido pelo sangue da vítima, cujos gritos lhe ecoavam no coração. Por muito tempo, por muito tempo...

E continuou:

- E você implorou existência humilde em que viesse a perder no trabalho o braço mais útil.

Mas, você, Saturnino, desde a primeira mocidade, ao conhecer a Doutrina Espírita, tem os pés no caminho do bem aos outros. Você tem trabalhado, esmerando-se no dever... Não estamos aqui para elogiar, porque você continua lutando, lutando... e o plantio disso ou daquilo só pode ser avaliado em definitivo por ocasião da colheita. Sei, porém, que hoje, por débito legítimo, alijaria você todo o braço, mas perdeu só um dedo... Regozije-se, meu amigo! Você está pagando, em amor, seu empenho à justiça...

De cabeça baixa, Saturnino derramava grossas lágrimas.

Lágrimas de conforto, de apaziguamento e alegria...

Na manhã seguinte, mostrando no rosto amorável sorriso, compareceu, pontual, ao serviço.

E porque o fiscal do relógio lhe estranhasse o procedimento, quando o médico o licenciara por trinta dias, respondeu simplesmente:

- O senhor está enganado. Não estou doente. Fui apenas acidentado e posso servir para alguma coisa.

E caminhando, fábrica a dentro, falou alto, como se todos devessem ouvi-lo:

- Graças a Deus!

Hilário Silva do livro: 
A Vida Escreve por Chico Xavier / Waldo Vieira

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sábado, 6 de outubro de 2018

Reconciliação

Reconciliação

Emmanuel



Falamos, muitas vezes, em perdão aos que nos ofendem, no entanto, como agir ante aqueles aos quais, consciente ou inconscientemente ofendemos?

Quando o arrependimento ou o remorso nos visitem, comecemos a pensar nas qualidades nobres ou no serviço edificante das vítimas de qualquer atitude intempestiva de nossa parte. Recordemos os favores ou gentilezas que, em algum tempo, nos hajam proporcionado. 

Abstenhamo-nos de qualquer referência negativa e, surgindo a oportunidade, louvemos algum aspecto dos entes que se lhes fazem queridos, buscando cativar-lhes a simpatia.

Articulando as presentes considerações, não queremos mencionar a adulação indesejável. Envolvamos a pessoa ou as pessoas com as quais desejamos o benefício da conciliação em nosso maior respeito!

As nossas palavras de apaziguamento devem nascer de nosso íntimo, reconhecendo que a inimizade e o antagonismo, mesmo aparentemente justos, não devem tisnar ou perturbar a nossa vida espiritual.

Compreendamos que o erro ou a agressividade de que nos julgamos vítimas, poderão, na origem, ter partido de nós e revisemos a própria consciência, sem autocompaixão, para que realmente nos sintamos livres do mal.

Existem companheiros e companheiras que terão sofrido golpes tão grandes que se acreditam incapazes de qualquer iniciativa para a pacificação com as criaturas que se fizeram instrumentos da amargura que lhes marcam os dias. 

Entretanto, lembremo-nos de que o brilhante atirado à lama, não deixará de ser brilhante, porque esteja nessa penosa e transitória condição e, pensando nisso, entenderemos que Deus tem recursos para retirar essa preciosidade do lixo humano, fazendo-a brilhar de novo ao domínio da luz.


Recebida no Culto do Evangelho no lar de Chico Xavier.

Emmanuel por Chico Xavier do livro:
Verdade e amor

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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Imunização espiritual

Imunização espiritual

Emmanuel



Se te decides, efetivamente, a imunizar o coração contra as influências do mal, é necessário te convenças:
  • que todo minuto é chamamento de Deus à nossa melhoria e renovação;
  • que toda pessoa se reveste de importância particular em nosso caminho;
  • que o melhor processo de receber auxílio é auxiliar em favor de alguém;
  • que a paciência é o principal ingrediente na solução de qualquer problema;
  • que sem amor não há base firme nas construções espirituais;
  • que o tempo gasto em queixa é furtado ao trabalho;
  • que desprezar a simpatia dos outros, em nossa tarefa, é o mesmo que pretender semear um campo sem cogitar de lavrá-lo;
  • que não existem pessoas perversas e sim criaturas doentes a nos requisitarem amparo e compaixão;
  • que o ressentimento é sempre foco de enfermidade e desequilíbrio;
  • que ninguém sabe sem aprender e ninguém aprende sem estudar;
  • que, em suma, não basta pedir aos Céus, através da oração, para que baixem à Terra, mas também cooperar, através do serviço ao próximo, para que a Terra se eleve igualmente para os Céus.
Emmanuel por Chico Xavier do livro:
Paz & Renovação

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