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domingo, 1 de agosto de 2021

O diabo

O diabo

Irmão X.



- Imaginem - dizia-nos um amigo, em agradável tertúlia, no Plano Espiritual - se alguns desencarnados, em desespero, aparecessem, de improviso, entre as criaturas humanas, reclamando supostos direitos deixados na Terra. Gritando os tormentos que lhes dilaceram a alma, vomitando impropérios e blasfêmias, não seriam considerados um bando de demônios? Irreconhecíveis, urrando de dor selvagem, humilhados e vencidos, tentando, debalde, retomar as expressões físicas que ficaram nos cadáveres, seriam tomados por monstros infernais, repentinamente soltos na via pública.

- É verdade! - considerou um companheiro, melancolicamente - ninguém no mundo teria dificuldades em identificá-los como os velhos demônios da antiguidade. Os infelizes desse jaez, personificam perfeitamente, ante a observação popular, os Lucíferes, os Belcelins e os Astarots de recuados tempos. Os fantoches da dor sempre surgem ao entendimento infantil como gênios do mal.

Fez pequeno intervalo, sorriu e acentuou:

- Bastaria, porém, leve exame para que atingissem o conhecimento real; os diabos seriam, de fato, seres horrendos, mas não repugnantes, nem espantosos.

Ouvindo-lhe as referências, lembrava a personagem satânica do livro de La Sage, a perturbar as casas madrilenhas, levantando-lhes os telhados; e, demonstrando que me percebia os pensamentos mais íntimos, outro amigo acrescentou:

- As lendas de Asmodeu e Mefistófeles, no fundo, não terão origem diferente. Certo, a visão mediúnica favoreceu, entre os homens, a notícia dos tipos deploráveis que hoje conhecemos e dos quais Dante, em outro tempo, recebeu leves informes que enfeixou em seu poema célebre, de acordo com as suas tendências, conceitos e predileções de homem.

Nesse instante, um companheiro, ancião de muitas jornadas terrestres, fixou em nós um olhar percuciente e calmo e, valendo-se, talvez, da pausa mais longa, observou sensatamente:

- Todos sabemos que a criação inteira é obra infinita de Deus e não podemos ignorar que todos os seres do Universo, desde as notas mais baixas aos cânticos mais altos da Natureza, no campo ilimitado da vida, são portadores da Centelha Imortal da Divindade. 

Em todos os departamentos sem número dos mundos inumeráveis palpita o amor, existe a ordem, permanece o sinal da prodigiosa herança da vida. Por isso mesmo, irmãos, toda expressão diabólica é perversão da bênção divina. Onde esteja a perturbação da harmonia universal, aí se encontra o adversário do Senhor.

Vocês aludem, com muita oportunidade, aos mortos que se congregam em desespero, formando monstruosas paisagens, em que duendes, sem rumo, procuram em vão insinuar-se na existência dos homens da Terra. Se o olho humano pudesse identificá-los, possivelmente cessaria a continuação da vida na carne. Coletividades inteiras abandonariam o templo do corpo físico, tomadas de infinito e indomável pavor.

Escutávamos a palavra sábia em silêncio. E porque o intervalo se fizesse mais longo, o bondoso ancião, à maneira dos antigos filósofos gregos, rodeados de ouvintes atentos, continuou, com expressão significativa:

- Assistia pessoalmente a uma aula de sabedoria, numa das cidades espirituais dos círculos de Marte, quando surpreendi uma lição interessante. Velho orientador de entidades inexperientes e juvenis comentava a existência dos inimigos da Obra Divina e explicava-se:

- O diabo existe como personificação do desequilíbrio.

- Como poderíamos caracterizá-lo? - interrogou um dos presentes.

- É o protótipo da ingratidão para Deus - respondeu o venerável instrutor. O diabo é do Eterno o filho que menospreza a celeste herança. Recebe os tesouros divinos e converte-os em misérias letais. Das bênçãos que lhe felicita o caminho, faz maldições que estende aos semelhantes. Cego às belezas universais que o cercam, vive afirmando sua permanência no inferno, criação dele mesmo, em seu plano interior. É alma repleta de atributos sublimes que permanece, entretanto, na Obra do Pai, como gênio destruidor. É sábio de raciocínio, mas pérfido de sentimento. Seu cérebro elabora rapidamente as mais complicadas operações para a ofensiva do mal, todavia, seu coração é paralítico para o bem. Sua cabeça é fogo para a mentira, contudo, o seu peito é de gelo para a verdade. Escarra nas mãos que o acariciam, está sempre disposto a condenar, perverter e confundir os demais filhos de Deus, lançando a perturbação em geral, para que seus interesses isolados prevaleçam. Pela ciência e perversidade de que oferece testemunho, é um misto de anjo e monstro, no qual se confundem a santidade e a bestialidade, a luz e a treva, o céu e o abismo. 

Criatura desventurada pelo desvio a que se entregou voluntariamente é, de fato, mais infeliz que infame, merecendo, antes de qualquer consideração, nosso entendimento e piedade.

Nesse instante, em face da pausa do orientador, exclamou uma jovem do círculo, satisfeita pela possibilidade de cooperar no esclarecimento da tese em estudo:

- Conheço-o! Eu conheço o diabo!

- Você? - pergunta o instrutor, admirado. 

- Será possível?

-E ela, radiante, respondeu:

-Sim, já estive na Terra: Chama-se Homem!

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Lázaro Redivivo

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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Na luta contra a morte

Na luta contra a morte

Irmão X.




Anos a fio gastou Pasteur na preparação da vacina contra a raiva. O grande sábio observava camponeses e citadinos vitimados pela hidrofobia e, aliando à perseverança ao trabalho, venceu o flagelo, convertendo-se em benfeitor da Humanidade. Édison lutou contra a velha iluminação a gás, a fim de expulsar efetivamente as sombras noturnas. Suou, esforçou-se, sofreu decepções e desenganos; muita vez conheceu a iminência do soçobro de seus ideais. Contudo, terminou a batalha, conquistando a lâmpada incandescente, que transformou as cidades terrestres em paraísos de luz.

A história das grandes missões de benemerência no mundo está repleta de sofrimentos e desilusões. Não raro, torturam-se os missionários, quando não se pode consumi-los pelo fogo. Onde, porém, a conquista evolutiva se torna mais difícil e dolorosa é justamente no setor da renovação íntima, espiritual. A vaidade humana fez da religião um terreno proibido, onde toda expressão progressista se efetua ao preço de dobradas angústias. A Ciência e a Filosofia, sem dúvida, possuem os seus mártires. No entanto, em suas escolas há sempre lugar para os trabalhos de aperfeiçoamento e renovação. Seus benfeitores, na maioria das vezes, são objeto de críticas acerbas que não passam, quase sempre, de ironias verbais ou do ostracismo na classe a que pertencem, mas, no campo religioso, os movimentos de perseguição caracterizam-se por condenável insânia.

Não fosse o aprimoramento judiciário do mundo, não tivéssemos a sociologia inspirando tribunais e juízes, na vanguarda do direito, e talvez prosseguisse a matança religiosa, decorrente dos processos inquisitoriais. Basta que o estudante da verdade aviste pequenino detalhe do mapa da vida eterna para que milhares de sacerdotes e autoridades supostas infalíveis se convertam nos instrumentos de maldição.

É preciso muita coragem moral para não sucumbir aos golpes da guerra sistemática, movida na sombra.

Para não nos referirmos, fastidiosamente, aos mártires inúmeros da fé, que tombaram nas perseguições de todas as épocas, recordemo-nos tão só de Giordano Bruno. O eminente filósofo italiano, que convivera com o pensamento de Pitágoras e Plotino, desde a meninice, assombrando os clérigos do convento de dominicanos, a que se recolhera na preparação do seu ministério de renovação religiosa, desprezou as resoluções dos concílios, cristalizadas em dogmas aviltantes, para ensinar o caminho da nova era. Através de salões e universidades, tribunas e praças públicas, afirma Bruno que o Universo é ilimitado, que a Terra não é o centro da vida, mas humilde dependência no concerto glorioso dos mundos que rolam, inumeráveis, no plano universal. Esclarece que o Sol não é um corpo errante, entre as nuvens, com a simples função de aclarar a superfície planetária e sim a gigantesca sede de globos diversos, que lhe recebem o poderoso influxo renovador. Explica que a vida é infinita e se encarna, através de infinitas formas, em todos os lugares. Exalta a grandeza da existência posta ao serviço do bem e da verdade, glorificando, em tudo, a universalidade divina. Mas os sacerdotes da convenção estabelecida não toleram o herói e, no dia 17 de fevereiro de 1600, seu corpo foi reduzido a cinzas, em Roma, numa fogueira acesa pelo sectarismo intransigente. Assegura um de seus historiadores que as chamas que lhe destruíram o corpo foram os primeiros sinais da aurora dos tempos modernos.

Não nos referimos, porém, a isso, como quem pretende encetar novos movimentos de discussão. Para dificultar o acesso das almas à Fonte da Revelação Divina, bastam as polêmicas insidiosas dos homens, despreocupados da responsabilidade que assumem pelo que dizem.

Apenas reafirmamos, do plano espiritual, a nossa plataforma de serviço, na luta contra a morte.

Nos mais remotos recantos do globo surgem raios divinos da luz imortal, dentro da espessa noite da ignorância, destruindo as antigas muralhas de incompreensão que sitiam a inteligência das criaturas. O sacerdócio organizado, porém, não nos tolera as manifestações tendentes a efetuar a renovação religiosa do mundo. E porque não nos pode subtrair agora à liberdade que respiramos noutras dimensões, institui a represália fria e silenciosa contra os  nossos companheiros mais corajosos que ainda envergam a túnica de carne nas atividades terrenas. O Santo Ofício desapareceu, mas ficaram a ironia e o ridículo, a animosidade gratuita e a guerra sem declaração.

Apesar de tudo isso, porém, continuaremos em nossa obra de liberação da mente humana.

Nossos adversários do sectarismo religioso recordam o nome do Cristo, amparando-se nele para sustentar as posições políticas e sociais que retêm, a pretexto de manter o prestígio da religião. Suscitam escândalos, reclamam repressões, mobilizam contra nós os órgãos do poder temporal. Como, porém, instituir oposição ao realismo da vida eterna, se a verdade é o terreno legal do Universo? Em nome de Jesus, recorrem à injúria e à condenação, mas se esquecem de que o Mestre, além das lições da Manjedoura, do Templo, do Tabor, do Getsemani e do Gólgota, deixou-nos também o ensinamento do Túmulo Vazio.

Que eles, os sacerdotes cristalizados nas afirmativas dogmáticas, prossigam em seu ministério de condutores; colherão sempre o bem toda vez que atenderem ao serviço da iluminação coletiva, em obediência aos deveres que lhes competem. Quanto a nós, os desencarnados, continuaremos a campanha do Túmulo Vazio. Que eles procurem, de fato, honrar a vida, porque nós, desprezando todos os obstáculos, venceremos na gigantesca luta contra a morte!

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Lázaro Redivivo

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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Serviço de investigação

Serviço de investigação

Irmão X.



O investigador policial, a propósito de problemas intrincados, é sempre uma pessoa que deve educar os olhos para identificar o mal. Nos crimes obscuros, nos furtos misteriosos, põe-se a campo, em busca dos verdadeiros culpados. Às vezes, socorre-se da injustiça, até que o delinquente apareça à luz meridiana, confessando a própria falta. Seus esforços quase sempre são louváveis; entretanto, como a justiça do mundo, em muitas ocasiões, é simbolizada por uma deusa cega, a ternura fraternal não é característica de suas funções. É lógico reconhecer que a sociedade humana não lhe dispensa o concurso. O “homem-lobo” ainda predomina entre as criaturas, depredando e assaltando, arruinando e destruindo. Compreendemos, desse modo, quanto é imprescindível a fiscalização no instituto da ordem social. O investigador, porém, a título de exercer fielmente a missão que se lhe conferiu, timbra em afastar-se da piedade. É preciso arrancar confissões, corrigir o mal, retificar o desvio e apagar, de vez, a possibilidade de novos crimes. São atribuições ingratas, mas naturais e humanas, em face dos desequilíbrios provocados pela perversidade deliberada. Em sã consciência, o profissional da segurança pública não pode ser criticado, desde que não procure estancar o sangue, derramando mais sangue, nem reprimir a violência impulsiva com a violência organizada. O médico também faz amputações difíceis e dolorosas e aplica o ferro candente a feridas de mau caráter. E as chagas sociais exigem ânimo forte dos cirurgiões da polícia técnica. Não se pode curar os golpes fundos da maldade voluntária com perfume de rosas sem espinhos. Muita vez, é indispensável cortar e ferir, isolar e cauterizar.

Esse é um setor de benemerência da criminologia. Referimo-nos a minúcias psicológicas do investigador, para demonstrar a elevação de sua tarefa na zona que lhe é própria, valendo-nos, ainda, do ensinamento para algumas observações, no serviço da espiritualidade superior.

Quantas vezes os companheiros de luta improvisam investigações, a pretexto de caridade? Reúnem-se, forçadamente, em torno de médiuns, como detetives arguciosos, procurando a pretensa maldade. Não lhes criticamos a observação construtiva, mas lastimamos as péssimas condições de espírito com que recorrem à experimentação.

Não seria mais útil o adiamento da tentativa? e não será mais prudente, no capítulo das gentilezas, que os amigos da doutrina e os médiuns de boa intenção se abstenham de colaborar nesses intentos prematuros?

É um erro procurar os desencarnados esclarecidos à luz da Revelação Divina, mantendo no coração propósitos apenas compreensíveis nos investigadores policiais, que se valem deles, obrigatoriamente, no trato com os criminosos contumazes.

Todos os que organizam sessões mediúnicas, com o objetivo de satisfazer aos catadores de delinquentes, não se acautelam contra os perigos a que se conduzem, porque no plano invisível existem também entidades perversas, que não perdem ensejo de participar de condenáveis aventuras; e o trabalho dos Espíritos Superiores, nessas ocasiões, resume-se, quase, a preservar os pesquisadores tirânicos da influência de perigosos malfeitores desencarnados, que respondem às preocupações de ordem inferior que os assaltam.

A reunião mediúnica é também uma visita das almas encarnadas ao plano espiritual. Elevam-se os companheiros terrestres, através do pensamento, para que nos encontremos em “algum lugar”. Se o cooperador humano conta com excelentes relações na esfera invisível, delas recebendo contribuições efetivas de socorro e iluminação, como submeter os seus benfeitores distantes à investigação de pessoas, respeitáveis embora pelo trabalho que realizam na Terra, mas absolutamente despreparadas quanto às responsabilidades do espírito? Entregaria o homem de bem, ao primeiro desconhecido que lhe visitasse a casa, as intimidades do santuário doméstico, a pretexto de exemplificar a caridade evangélica? Como esquecer comezinhos deveres de segurança do bem, se o próprio Cristo recomendou aos seguidores que não lançassem pérolas a esmo?

É possível que muitos amigos nossos, ainda encarnados, obedecendo a impulsos de excessiva afetividade, atirem a qualquer aventureiro adornado de títulos exteriores as joias da confiança e do otimismo que lhes foram doadas pelas inteligências que habitam o Plano Divino. Mas nós outros, de olhos abertos e vigilantes, diante do campo infinito da Vida, não podemos fazer o mesmo.

A caridade é a virtude sublime que salva, aprimora, enaltece e aperfeiçoa, mas a imprudência, dissimulada por palavras lisonjeiras, não lhe pode arrebatar a auréola fulgurante.

É razoável que os estudantes do Espiritismo evangélico não desprezem a análise construtiva. É impossível viver às cegas num terreno tão claro, onde a liberdade para discernir, como deusa da razão vitoriosa, não permite a soberania das trevas interiores. Mas que ninguém converta ambiente de legítima fraternidade em gabinetes policiais, onde os Espíritos Elevados devem comparecer como delinquentes submissos. Procure-se a companhia desses Benfeitores, tendo o espírito de alegria, serenidade e amor, com que se buscam as afeições generosas e dignas da Terra. Os que não puderem proceder assim, adiem o cometimento, ainda que estejam diante da insistência apressada dos melhores amigos, porque o pensamento do homem, onde quer que se encontre, emite raios de atração, buscando receptores adequados, e quem se reúne, procurando malfeitores e criminosos, há de encontrá-los, tanto aí como aqui.

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Lázaro Redivivo

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

O caso do rico

O caso do rico

Irmão X.


Conta-se que o Rico da Parábola, após desiludir-se quanto aos propósitos de voltar à Terra, a fim de anunciar a verdade aos parentes, atormentado de sede desceu às regiões mais baixas do purgatório, forradas de fogo devorador.

De algum modo, resignara-se com os tormentos que lhe assediavam o coração, porque fizera por merecê-los, bem o reconhecia. Despojara viúvas paupérrimas, perseguira órfãos desprotegidos e provocara a falência de homens honestos; faltara a princípios comezinhos de caridade, praticara a usura e subornara consciências frágeis. Sempre decidido a valer-se do fascínio do ouro, aproveitara muita gente invigilante e inclinada ao mal, a serviço da ambição que lhe era própria. Receando o futuro, amealhara consideráveis haveres para os filhos; rodeara-os de vantagens e facilidades econômicas, à custa do angustiado suor dos humildes, por ele convertidos em escravos sofredores. Em suma, fora cruel e fazia jus à punição. Entretanto, não se conformava com a impossibilidade de avistar-se com a família.

Porque não voltar à Terra para renovar a concepção da mulher e dos filhos? A companheira sempre fora fiel às suas recomendações. Se pudesse falar-lhe, corrigiria tudo a tempo.

Todavia, Pai Abraão não lhe proporcionara qualquer esperança.

Refletia, amargurado, consigo mesmo, quando surgiu alguém no seio das sombras. 

A princípio, não reconhecera o recém-chegado, mas, depois de um abraço, o visitante exclamou:

– Não se lembra?

Retribuiu emocionadamente. Recordava-se, agora. Aquele era Benjamim, filho de Habacuc, que o precedera no túmulo. Espantava-o a surpresa do reencontro. Benjamim, tanto quanto ele próprio, fora usurário, de coração frio e duro. O manto roto denunciava-lhe a penosa situação e a cinza que lhe cobria as mãos, o rosto e os cabelos davam a ideia de que o mísero emergia do bojo de uma cratera.

Terminadas as saudações da hora, o Rico humilhado expôs-lhe o caso pessoal.

Conformava-se com o purgatório tenebroso, no reconhecimento de suas culpas, contudo desesperava-se pela impossibilidade de voltar a casa, para relacionar a verdade dos fato.

O outro, porém, após ouvi-lo pacientemente, assegurou:

– Não vale a pena inquietar-se. Voltei e nada consegui.

– Voltou? – inquiriu o novo condenado, deixando transparecer, na voz, um raio de esperança.

– Sim.

– E chegou a visitar sua casa, sua mulher, seus filhos, seus servos, suas propriedades, suas terras, seus jumentos, seus camelos, seus bois?

– Sim.

– Visitou o templo?

– Visitei.

– Tornou a cruzar nossos campos?

– Tornei.

O Rico chegou a olvidar as aflições do momento e, contemplando o interlocutor, admirado, prosseguiu:

– E os familiares? reconheceram-no?

O interpelado entrou em silêncio. Algumas lágrimas umedeceram-lhe os olhos sombrios.

Instado pelo amigo, informou, com desapontamento:

– Visitei a família, detive-me nas propriedades que julguei me pertencessem, rendi homenagem aos tesouros de nossa raça, mas ninguém me reconheceu. Decorridos alguns dias sobre a morte do meu corpo, desarmonizaram-se meus filhos por questões da herança que lhes deixei. Rúben amputou o braço de Eliazar numa cena de sangue, Esaú amaldiçoou os irmãos e entregou-se ao vinho pela ausência do trabalho e Simeão enlouqueceu no vício.

Minha esposa, não obstante a idade, apaixonou-se por um rico mercador de tapetes que se assenhoreou do nosso dinheiro e das preciosidades domésticas que me eram mais caras, conduzindo-a para Eades. Minhas terras de Gaza foram vendidas a qualquer preço a libertos romanos, meus camelos foram entregues, a troco de reduzidas moedas, a velhacos negociantes do deserto, meus bois foram mortos, meus jumentos dispersos. Alguns de meus servos fugiram espancados, enquanto outros foram vendidos para Chipre. Minhas propriedades rurais mergulharam no mato, caindo no abandono e entregues a criadores de cavalos e porcos.

Mostrou o Rico uma careta de angústia e perguntou:

– Mas a mulher e os filhos não o reconheceram?

– Visitei-os à noite, para conversarmos a sós, no entanto expulsaram-me em desespero, insistindo para que eu descesse para sempre aos infernos. Em vão procurei fazer insinuar-me entre eles. Não acreditaram na minha presença e fizeram-se surdos às minhas palavras.

Desencantado, o Rico perguntou:

– Não fez reclamações aqui? não rogou o socorro de Pai Abraão?

Voltou-se o companheiro, explicando gravemente:

– Pedi o amparo dos mensageiros de Jeová, entretanto, em nome d’Êle, nosso Eterno Senhor, esclareceram-me que a obra era minha, que nunca fui verdadeiramente esposo de minha mulher e pai de meus filhos nem amigo dos cooperadores e dos animais que me serviam diariamente. Jamais auxiliara os meus na aquisição dos valores positivos do espírito imortal e nem criara nas propriedades de que fui mordomo infiel o ambiente de amor e harmonia, calma e confiança que Jeová, em vão, esperou de mim. Apegara-me simplesmente à usura, ao egoísmo, à admiração e culto de mim mesmo, dilatando a vaidade de minha dominação indébita.

E concluiu, com tristeza :

– Por isso, mereci a ironia da sorte e a incompreensão dos meus.

O Rico ouviu, meditou, consultou as próprias reminiscências e, erguendo os braços para o alto, exclamou:

– Glória a Pai Abraão que não permitiu meu regresso à Terra e me deu a sede angustiosa e o fogo consumidor para que sarem as feridas de minh'alma!

E, resignado, deitou-se na cinza quente do purgatório, esperando o futuro.

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sábado, 24 de março de 2018

Espírito farisaico

Espírito farisaico

Irmão X.



No tempo do Cristo, já era antiga a hipocrisia farisaica.

À fôrça de se declararem homens de fé e ambicionando a hegemonia nos círculos religiosos e sociais, os fariseus exibiam insuportável orgulho e repugnante vaidade.

Sentiam-se únicos, diante da Divindade.

Pervertidos pelo intelectualismo de superfície, colocavam acima de tudo o rigorismo aparente. Eram os inspiradores de todas as medidas da convenção política em Jerusalém.

Sabiam manejar, com maestria, a arma de dois gumes, mostrando a lâmina da calúnia, no trato com os adversários do mesmo sangue, e a da bajulação, diante do romano dominador.

Imiscuíam-se nos negócios públicos e impunham movimentos de opinião. Elevavam seus ídolos ao trono da autoridade e do poder, incensando-os com o elogio fácil do desvario verbalístico e precipitavam, astuciosos, no abismo da antipatia publica, todos aqueles que não soletrassem a sua cartilha de fingimento. Exigiam os primeiros lugares nas sinagogas e reclamavam destaque nas assembleias mais simples. Seus mantos luxuosos requisitavam a reverência do povo e, quando penetravam o Templo, o fausto de sua presença eclipsava o próprio santuário.

Dirigiam-se a Jeová, o Altíssimo, com palavras desrespeitosas e ingratas. Como se os ouvidos do próximo fossem incapazes de registrar-lhes toda a loquacidade sonora e vazia, pronunciavam longas e fastidiosas orações, ante o altar da fé, relacionando as supostas virtudes de que se julgavam portadores; faziam o inventário verbal de suas boas ações presumíveis e, longe de pedirem o favor da Divina Misericórdia, exigiam-lhe as bênçãos que lhe eram devidas, segundo o palavrório de seus lábios incansáveis. Ostentando atributos mentirosos, estavam sempre dispostos às polêmicas mordazes, perante as quais a caridade e o esclarecimento passavam de longe, repelindo aquelas bocas de falsos advogados da fé.

Ninguém devia tomar-lhes a dianteira nos mais humildes assuntos. Ante a aproximação dos 
adventícios, erguiam-se irritados, espalhando protestos e irradiando cóleras sagradas.

Inculcavam-se supremas autoridades intelectuais do mundo religioso, e administradores e juízes eram obrigados, antes de agir em qualquer setor, à audiência prévia dos supostos mandatários da inspiração divina.

O tempo golpeou-lhes as tradições. O aluvião do progresso modificou a paisagem e as transformações políticas constantes renovaram a vida intelectual do povo escolhido.

Tempestades de dor e morte desabaram sobre Jerusalém, convertendo-a num campo de destroços. Depois de Jesus, vieram as hordas de Tito, trazendo ruína e destruição. Lutas internas minaram-lhe os institutos religiosos. Em 637 foi ocupada pelos árabes e retomada pelos cruzados em 1099, sentindo os efeitos terríveis das invasões. O Templo, edificado na época de Salomão, por artistas fenícios, com admirável suntuosidade arquitetônica, cheio de ouro e marfim, relíquias e madeiras preciosas, foi destruído por conquistadores fanáticos, sedentos de guerra e dominação.

Despojada de suas riquezas, Jerusalém passou a lamentar-se nos muros de sua desolação, clamando a saudade dos seus filhos, dispersos no Oriente e no Ocidente, como peregrinos sem pátria, destinados a chorar sempre a distância do berço natal, mas o espírito farisaico fixou-se no mundo inteiro. Persistindo na antiga dominação intelectual, disputa prioridade em todos os serviços de orientação religiosa, veste os trajes de todas as regiões e apresenta passaportes de todos os países.

Inda agora, que o Espiritismo cristão espalha as bênçãos do Consolador Prometido, restaurando a fé nos corações atormentados e sofredores, os novos fariseus congregam-se em arrojados tribunais da Religião e da Ciência, emitindo sentenças condenatórias. Estão completamente redivivos, noutra roupagem carnal e envergando outros títulos exteriores  para confundir e perturbar.

A revelação é exclusividade deles. Não admitem a intromissão em seus trabalhos teológicos, inacessíveis. São prediletos da Divindade, senhores absolutos da crença, ministros únicos da graça celeste. E contra a onda renovadora da vida humana, que procede do Alto, através daqueles que regressam do túmulo, comentando as realidades eternas até então obscuras, vociferam maldições, lançam insultos, espalham dúvidas brilhantes e escuros sarcasmo.

Todavia, os servidores sinceros da Nova Revelação conhecem-nos, de longo tempo. E, por isso, caminham, valorosos e desassombrados, indiferentes aos calhaus da incompreensão deliberada e surdos ao velho realejo da ironia eles sabem que os avoengos de seus perseguidores de agora, cercaram o Cristo, pedindo-lhe benefícios e sinais que lhes dessem ensejo a calúnias cruéis, e que, não contentes na posição de detratores sistemáticos, se constituíram em autores do processo injusto contra o Mensageiro Divino. E sabem tudo isso, porque o mundo está informado, há mais de dezenove séculos, de que foi o espírito farisaico, vaidoso e polifronte (*), quem conduziu o Sublime Benfeitor ao madeiro infamante e que, não lhe respeitando nem mesmo a hora angustiada e terrível da morte, cuspiu-lhe no rosto sangrento, acrescentando: “Se tu és o Rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo e desce da cruz.”

Irmão X. por Chico Xavier do livro:
Lázaro Redivivo
(*) Polifronte: - Palavra de origem italiana, adjetivo literário de estrutura ou edifício que tem mais de uma frente ou fachada. Usada aqui no sentido figurado, caracterizando a maneira de ser dos fariseus da época. - RDB
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