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quinta-feira, 16 de junho de 2022

A Maldição dos Faraós

Maldição dos Faraós

Hermínio C. Miranda



Dois homens conversavam junto à piscina do Hotel Ornar Khayyam, no Cairo, à beira do Nilo. Um deles era o tipo de que se costuma dizer estar "vendendo saúde": forte, musculoso, de sobrancelhas e lábios espessos. Chamava-se Gamal Mehrez e era Diretor-Geral do Departamento de Antiguidades do famoso Museu local. O outro era o escritor alemão Philipp Vandenberg, que conta o episódio no capítulo de abertura do seu livro "Der Fluch der Pharaonen", publicado em 1973 pela Scherz Verlag. (Valho-me da tradução de Thomas Weyr, para o Inglês, edições da Lippincott, 1975, e da Pocket Books, 1977, ambas de New York.) Falavam sobre a "maldição dos faraós", aquela estranha e misteriosa fatalidade que parece perseguir implacavelmente todos aqueles que se atrevem a perturbar a paz dos túmulos e das múmias dos antigos egípcios.

O Dr. Gamal Mehrez não era totalmente descrente da força da maldição, pois admitia a existência de "estranhas coincidências na vida". Vandenberg, no entanto, não se deu por satisfeito e, ao cabo de algum tempo, desejou "conferir" a opinião de Mehrez:

- Então, o senhor não tem certeza se há ou não a maldição?

O arqueólogo hesitou por um momento. Parecia estar à procura de uma resposta objetiva e compatível com os seus conhecimentos e sua posição.

- Juntando todas essas mortes misteriosas, você poderia ser levado a crer que sim. Especialmente porque maldições formais surgem com frequência na história do Antigo Egito. Não obstante - sorriu constrangido -, simplesmente não creio nisso. Veja o meu caso. Durante minha vida inteira tenho estado envolvido com os túmulos e as múmias dos faraós. Sou uma prova viva de que tudo isso não passa de coincidência.

- Quatro semanas depois dessa conversa - escreve Vandenberg -, Gamal Mehrez morreu aos 52 anos de idade. Os médicos disseram que foi de um colapso circulatório.

Ou será porque ele ousou desafiar a maldição? Seria mera coincidência, se o Dr. Mehrez fosse a primeira vitima, mas a questão é que o ex-Diretor do Departamento de Antiguidades era mais um dos muitos que partiram após o desafio.

Vandenberg informa, nas palavras finais de seu magnifico livro, que não pretendeu com seu trabalho provar "triunfalmente, que a maldição dos faraós exista"; desejou apenas apresentar o resultado de suas pesquisas em torno dos fatos e suas possíveis explicações. Com a meticulosidade e competência próprias de tantos autores alemães, Vandenberg viajou, entrevistou, meditou e examinou uma vastíssima literatura. A bibliografia consultada vai a quase duzentos títulos, entre livros e artigos especializados, em alemão, inglês e francês, como se pode ver nas páginas finais de sua obra.

E o autor? Será que ele crê na validade da maldição? Seria difícil responder sim ou não, porque ele não defende uma tese - propõe-se a investigar um fenômeno que, a seu ver, não teve ainda explicação conclusiva. Reconhece, ainda, que as raízes desse fenômeno - como de tantos outros, diríamos nós - aprofundam-se no coração da antiguidade egípcia. Acha mesmo Vandenberg que a civilização do Velho Egito, saltando por cima dos séculos, ainda hoje "Intriga, confunde e humilha a arrogante ciência contemporânea com os segredos de suas pirâmides e o povo que as construiu".

*

Pouparemos tempo e espaço, passando ao largo das peripécias vividas por Lord Carnarvon e Howard Carter na aventurosa busca do túmulo de Tutankamon, a fim de nos concentrarmos na essência do problema aqui tratado.

É costume dos especialistas minimizar a importância histórica desse faraó que, na opinião geral, somente se tornou importante porque seu túmulo permaneceu inviolado por três mil e tantos anos, à espera de Carnarvon e Carter. Dali foi resgatada das entranhas do deserto a mais fabulosa riqueza arqueológica de todos os tempos. (Infelizmente, a famosa máscara de ouro estava sendo exibida alhures, pelo mundo a fora, quando estive no Museu do Cairo, em fins de abril de 1977, mas o que ali permaneceu na sala imensa é um inconcebível acervo de maravilhas.)

Tutankamon sucedeu a Akenaton, o "Faraó Herético", que era seu sogro e - dizem os entendidos - também seu pai. Viveu, portanto, um período turbulento da História de seu país, não em termos de conquistas ou grandes feitos políticos e militares, mas caracterizou-se - com a sua fraqueza, talvez - como o faraó da Contra-Reforma. Sob seu governo o Egito voltou ao domínio dos poderosos sacerdotes de Amon e, aparentemente, tudo recaiu na ordem antiga, enquanto o "ódio teológico" - quase sempre mais político que religioso - procurava açodadamente apagar os vestígios daquela estranha ideia do Deus Único.

O herdeiro de Akenaton casou-se quase menino, subiu ao trono ainda adolescente e morreu na sua primeira juventude, de morte violenta. Vandenberg conta as minúcias desta última conclusão no capítulo intitulado "Autópsia de um Faraó". A "causa mortis", estabelecida cerca de 40 anos depois de descoberta da múmia, foi um coágulo sanguíneo localizado sob as meninges. Tutankamon trazia um ferimento do lado esquerdo do crânio, resultante de uma violenta pancada ou de uma queda não menos infeliz.

Foi o túmulo desse jovem que, após pesquisar em vão durante seis anos, Carter resgatou à areia do deserto em algumas poucas semanas, especialmente as quatro do mês de novembro de 1922.

Houve uma euforia mundial entre entendidos e curiosos. Pela primeira vez se chegava a um tesouro funerário intacto, que sobrevivera à argúcia e à audácia dos temíveis ladrões de sepulturas durante mais de trinta séculos! Aqueles que conheciam melhor o local da escavação, porém, não estavam tão eufóricos. Ao contrário - conta Vandenberg -, tornaram-se bem nervosos com o passar dos dias. Um pequeno tablete de barro, encontrado na antecâmara do túmulo propriamente dito, fora a causa da tensão, principalmente entre os arqueólogos. Haviam catalogado o tablete diligentemente, como tudo o mais, nos registros da pesquisa. Dias depois, Alan Gardiner traduziu os hieróglifos que continham a seguinte e inequívoca mensagem de advertência:

- A morte destruirá com as suas asas aquele que perturbar a paz do faraó.

Nem Carter, nem Gardiner, nem os demais especialistas tiveram receio da maldição ou tomaram-na a sério naquele momento, mas temiam que os trabalhadores egípcios soubessem dela e se recusassem a continuar o penoso trabalho, com o que a escavação estaria condenada à paralisação total. Por isso eliminaram o registro do tablete que, por sua vez, desapareceu, a não ser da lembrança daqueles que o viram.

Uma segunda maldição, porém, foi encontrada gravada nas costas de uma das estátuas. Dizia assim:

- Sou eu quem faz recuar os ladrões do túmulo com as chamas do deserto. Sou o protetor do túmulo de Tutankamon.

Essa figura mágica foi encontrada no recinto principal da tumba. Não era mais necessário esconder a praga dos trabalhadores, que já haviam feito o trabalho principal de remoção das toneladas de escombros.

*

Vandenberg faz uma pausa em sua narrativa, nesse ponto, para repassar algumas pragas que a História documentou, como a da antiquíssima pirâmide de Medum, também confiada a um tablete de barro:

- Os espíritos dos mortos torcerão o pescoço do ladrão de sepultura como se fora o de um ganso.

Parece que os Espíritos cumpriram a sua palavra, pois lá encontraram, além da múmia, o cadáver de um homem. Fora esmagado por uma pedra que despencara com precisão fatal sobre ele. A explicação seria, talvez, a de que um mecanismo qualquer, muito bem planejado e executado, houvesse disparado a pedra quando o ladrão se aproximara da múmia, para despojá-la de suas riquezas. É possível. O certo, porém, é que os sacerdotes da época possuíam um conhecimento que, como disse Lady Nona ao Dr. Wood, "a ciência moderna ainda não recuperou". Toda essa tecnologia científica e espiritual era movimentada para criar em torno dos túmulos dos faraós um rígido sistema de proteção.

Os céticos continuarão, por certo, a buscar explicações alternativas que não levem em conta os fenômenos específicos da natureza humana, como por exemplo, radiações, fungos, germes, bacilos ou meras armadilhas, como parece ser o caso da pedra que desabou sobre um ladrão destemido, mas as pirâmides e os túmulos contêm certa imantação inexplicável e sua multidão invisível de habitantes espirituais. Que o diga o valente explorador inglês Paul Brunton (o leitor interessado poderá ler "O Egito Secreto", há muito traduzido para o português.) que, como lembra Vandenberg, conseguiu autorização para passar uma noite sozinho no interior da pirâmide de Quéops, em Guizé. Foi uma noite de terrores tamanhos que ele saiu de lá, pela manhã, totalmente "desligado" da realidade.

Com a permissão do leitor paciente, a quem peço relevar minha atrevida ignorância, não creio que a pirâmide de Quéops seja um túmulo, embora possa ter sido utilizada para isso eventualmente. Trata-se de um dos mais importantes documentos matemáticos e científicos do mundo. Ali se realizavam importantes cerimônias (as finais) de iniciação, como a regressão de memória, que colocava o aspirante em contato com a realidade das suas vidas pregressas.

Muitos são, ainda hoje, os que entram em crise ao penetrar o recinto da chamada "câmara do rei", onde apenas existe um enorme sarcófago do belo granito vermelho do Egito. Tive oportunidade de presenciar o mal-estar de um robusto árabe lá na câmara, bem como a aflição de algumas pessoas, que desciam de lá algo espavoridas e agitadas, como se tivessem contemplado a face gelada da morte, que tantos temem. Vandenberg testemunhou a crise de uma senhora espanhola em desespero. Perguntou-lhe o escritor se ela podia dar alguma explicação para o seu pânico.

- Foi como se alguma coisa subitamente me desse uma pancada, disse ela.

Vandenberg deixa também no ar a razão pela qual a KGB teria enviado uma urgente mensagem telegráfica a Nikita Khruchtchev recomendando enfaticamente que ele não entrasse na pirâmide, como tencionava, quando ali esteve pertinho, no magnifico Hotel Mena House, em maio de 1964. Algum risco iminente de vida? Receio de uma crise nervosa no líder soviético? Não se sabe. É certo, porém - e a informação está igualmente em Vandenberg -, que coisas estranhíssimas ocorrem ali.

- O que acontece dentro das pirâmides - declarou o Dr. Amr Gohed, que em 1969 dirigiu o trabalho do computador na análise dos dados colhidos pelo Dr. Luis Alvarez - contradita todas as leis conhecidas da ciência e da eletrônica.

A "The New York Times" informou, ainda, aquele cientista: Ou existe um enorme erro na geometria das pirâmides, que influencia nossas medidas, ou estamos ante um mistério que fica além de qualquer explicação racional - chame-o como queira, ocultismo, maldição dos faraós, feitiçaria, ou magia. Seja como for, existe uma força atuante dentro das pirâmides que contesta as leis cientificas.

É conhecido o caso de dois famosos arqueólogos, interessados em pirâmides, que morreram súbita e inexplicavelmente. Um deles, o eminente egiptólogo Sir Flinders Petrie, autor de alguns livros memoráveis sobre sua especialização, morreu em Jerusalém, a 28 de julho de 1942, quando regressava do Cairo, rumo à Inglaterra. Pouco antes dele, partira seu colega americano, Professor George A. Reisner. Coube a este competente pesquisador descobrir o túmulo de Hetephere, a mãe de Quéops. O Prof. Reisner teve um colapso dentro da pirâmide de Quéops e foi retirado de lá, paralisado, através da estreita galeria. Levado para o acampamento, morreu sem haver recuperado os sentidos.

*

A grande maldição, no entanto, parece mesmo ser a do túmulo de Tutankamon, como veremos. Meditando sobre isso, estive a pensar que talvez essa tenha tomado maior vulto e obtido maior publicidade porque está relacionada com o único túmulo de importância histórica descoberto ainda intacto. Sabe-se lá o que aconteceu com os inúmeros ladrões que violaram centenas, talvez milhares de túmulos durante o lento escorrer dos séculos?

Após várias semanas de intensa e quase insuportável expectativa, chegou finalmente o momento supremo em que o túmulo do faraó seria aberto. Vinte pessoas da equipe de Lord Carnarvon estavam presentes, naquela tarde às 14h, 17 de fevereiro de 1923. (Segundo outros autores, o dia teria sido 27-11-1922). Ninguém poderia, àquela altura, na excitação da descoberta mais sensacional da história arqueológica, imaginar que das 20 pessoas, 13 estariam mortas dentro de tão pouco tempo, a começar pelo próprio Lord Carnarvon.

Era uma complexa operação, a de identificar, catalogar, fotografar e remover todo o preciosíssimo acervo. Lord Carnarvon decidiu acompanhar os trabalhos, não mais da Inglaterra, mas do Cairo. Alugou ali uma suite no Hotel Continental, enquanto Carter permanecia em Luxor, junto às escavações.

Em principio de abril, sem dar muita importância ao fato, Carter foi informado de que Lord Carnarvon estava doente. Pouco depois chegava um telegrama mais enfático: "Carnarvon estava gravemente doente, com elevada febre." Carter foi para o Cairo. A febre começara subitamente, sem nenhuma explicação aceitável e resistiu durante doze dias a tratamento médico intensivo. Quando o filho de Lord Carnarvon chegou da Índia, onde se encontrava, já achou o pai inconsciente, em companhia de Lady Almina, sua mãe. A dez minutos para as duas da madrugada, o jovem foi despertado pela enfermeira, a anunciar-lhe que seu pai estava morto. No momento em que ele entrou no aposento, no qual sua mãe se encontrava ao lado do cadáver, as luzes se apagaram. Foram acesas algumas velas, e ele pôs-se a orar, segurando a mão do pai, que contava apenas 57 anos e morrera exausto, segundo confessara à sua irmã, Lady Burghclere. Pouco depois, tão inexplicavelmente como se haviam apagado, acenderam-se as luzes de toda a cidade do Cairo. A concessionária não soube dizer a razão do estranho comportamento dos circuitos.

Naquele mesmo momento, com as correções devidas ao fuso horário, a cadela de estimação de Lord Carnarvon, na Inglaterra, começou de repente a uivar, sentou-se nas patas traseiras e caiu morta.

Dai em diante começou a mortandade. Primeiro foi Arthur Mace, arqueólogo americano que, a pedido de Carter, ajudou na abertura do túmulo, quebrando o último pedaço de parede. Logo após a morte de Carnarvon, começou a sentir uma canseira inexplicável. Entrou em coma e morreu no mesmo hotel em que falecera o líder do projeto.

George Jay Gould, velho amigo de Carnarvon, foi a Luxor testemunhar a sensacional descoberta de seu amigo. Carter mostrou-lhe o túmulo, Na manhã seguinte, Gould apareceu com febre alta. A noite, estava morto. Diagnóstico? Houve dúvidas, mas os médicos informaram, depois, que foi peste bubônica (?).

Joel Wool, industrial inglês, morreu de febre, ainda no navio em que regressava à Inglaterra, após visitar o túmulo violado do faraó. Archibald Douglas Reid, o radiologista que cortou as faixas da múmia para tirar chapas de raios X, começou a sofrer da mesma arrasadora canseira. Morreu pouco depois, na Inglaterra, em 1924.

Para encurtar a história: em 1929 vinte e duas pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, com o Faraó Tutankamon haviam morrido prematuramente. Treze dessas pessoas estavam presentes entre as vinte que assistiram à abertura do túmulo, naquela fatídica tarde de fevereiro de 1924.

Lady Almina, esposa de Lord Carnarvon, morreu também em 1929. Disseram que foi por causa da picada de um inseto (?). Richard Bethell, secretário de Carnarvon, partiu dois anos depois. Foi encontrado morto pela manhã, em sua cama, vitimado por um colapso circulatório. Ao saber de sua morte, seu velho pai, Lord Westbury, com 87 anos de idade, atirou-se do sétimo andar de sua residência em Londres. A caminho do cemitério, a carruagem que levava seu cadáver atropelou um menino.

Ainda agora, em plena década de 70, morre gente que põe em dúvida a tenebrosa maldição, como o Dr. Gamal Mehrez, um dos diretores do Museu do Cairo.

- A morte destruirá com as suas asas - prevenia o tablete de barro - aquele que perturbar a paz do faraó.

Seria mera coincidência?

Vandenberg examina essa possibilidade. Vejamo-la também.

*

O capítulo segundo do seu livro é dedicado a essa possível explicação que, no entanto, resulta inadmissível. Discorre ele, sempre apoiado em abundante bibliografia, a cerca dos aspectos matemáticos da questão, do biorritmo, da sincronização mental, da bioenergia e das estranhas particularidades energéticas que revelam as pirâmides.

Um caso de aparente sincronização mental parece merecer um relato, ainda que sucinto.

Deu-se em 1º de março de 1950, num lugar chamado Beatrice, no Estado americano de Nebraska, sendo narrado por Warren Weaver.

Estava marcado para a noite desse dia (19h20m) o ensaio geral de um grupo coral na igreja daquela pequena cidade do interior. Seria fácil prever que um ou outro membro do grupo deixasse de comparecer, ou chegasse alguns minutos atrasados; afinal, eram quinze pessoas com diferentes afazeres. Pois às 19h25m nenhum desses quinze havia comparecido à igreja, pelas mais simples e aceitáveis razões. O pastor - que também dirigia o coro - atrasou-se porque estava esperando que sua mulher acabasse de passar o vestido da filha mais velha, que cantava no coro. Duas das senhoras - independentemente uma da outra - não conseguiram dar partida nos respectivos carros. Uma das meninas ainda não terminara o seu dever escolar. Duas outras, embevecidas com uma novela de rádio, perderam a hora. Outra, dormira tão profundamente que a mãe teve de chamá-la duas vezes.

Como se vê, tudo simples, trivial, perfeitamente aceitável. Acontece, porém, que às 19h25m, cinco minutos depois da hora em que o ensaio deveria ter começado, uma explosão destruiu completamente a igreja da cidade de Beatrice.

Weaver calculou a possibilidade matemática de terem sido meras coincidências as razões pelas quais dez pessoas ficaram detidas, ainda que por motivos triviais. A possibilidade era de 1 :1.000.000, isto é, um para um milhão! A média de atrasos, porém, num ensaio do grupo coral, seria de uma vez em quatro. Como todos os quinze se atrasaram ao mesmo tempo, a probabilidade de estar cada um atrasado seria um número fantástico (1:4 à 10 potência), ou seja, uma para 4 seguido de dez zeros. Por conseguinte, algo mais complexo do que o mero acaso atuou em Beatrice, naquela noite de março. O que teria sido?

Agora, voltando ao nosso tema: que coisa é essa, não sendo coincidência ou acaso, que mataria tanta gente que "perturbou a paz" do Faraó Tutankamon? Seria uma infecção misteriosa?

*

O Dr. Ezzeddin Taha, médico e biólogo, professor da Universidade do Cairo, achou que sim. Em 3 de novembro de 1962 ele reuniu a imprensa para declarar que, ao cabo de longas pesquisas, chegara à conclusão de que havia perigosos agentes infecciosos nos papiros, nas múmias e nas tumbas em geral, entre eles, um certo Aspergillus niger, um fungo tão difícil de extinguir-se que bem poderia sobreviver três ou quatro mil anos no interior de um túmulo ou alojado nos tecidos das múmias e dos papiros.

Declarou, para encerrar, que sua descoberta acabava para sempre com essas fantasias de maldição faraônica. As pessoas morriam mesmo é de doenças infecciosas e não vitimadas por poderes ditos sobrenaturais que não passavam de histórias da carochinha. Para acabar com a maldição dos faraós, terminou ele, bastava um pouco de antibiótico.

E agora? Parece que o homem tinha mesmo razão. Muita gente pôs-se a pensar com ele. Pouco depois, o Dr. Taha viajava entre Cairo e Suez por uma estrada asfaltada, sob a luz brilhante do sol do deserto, onde é raríssimo encontrar outro carro. Quando isso acontece - diz Vandenberg - os respectivos motoristas se cumprimentam. Pois bem. A 70 quilômetros do Cairo, o carro que conduzia o Dr. Taha e dois assistentes seus teve um acidente inexplicável: desviou-se de sua mão e foi chocar-se com outro, que vinha em sentido contrário. O médico e seus companheiros foram encontrados mortos e os ocupantes do outro veiculo, embora muito feridos, escaparam com vida. Verificou-se, depois, que o Dr. Taha morrera, ao volante, de um colapso cardíaco.

Não era, pois, um problema de antibiótico, porque ele usara dessa droga regularmente durante as suas pesquisas com os fungos que, a seu ver, eram causadores da famosa maldição dos faraós...

É... Ao que tudo indica, não são também os fungos que causam a morte daqueles que "perturbam" os faraós, embora possam ser considerados entre os que movimentam as asas da morte.

*

Há outras asas... Todos nós conhecemos, por exemplo, o mais famoso naufrágio do mundo: o do "Titanic", em 14 de abril de 1912. Esse barco, orgulho da indústria naval britânica, era considerado "unsinkable", isto é, inaufragável, se é que existe a palavra em português. Dizem que o Capitão Edward J. Smith chegou a declarar que nem mesmo Deus seria capaz de afundar o navio. O "Titanic" levava a bordo 2.200 passageiros, 40 toneladas de batatas, 12.000 garrafas de água mineral, 7.000 sacos de café, 35.000 ovos, enfim, um mundo de coisas, mas também uma múmia egípcia que Lord Canterville transportava da Inglaterra para New York.

A múmia era de uma profetisa (médium) famosa do tempo de Amenotep IV, precisamente o "Faraó Herético", ou seja, Akenaton. Fora encontrada numa espécie de capelinha construída especialmente para ela, sob o nome de "Templo dos Olhos", em Tell el-Amarna, que, como se sabe, é o local onde existiu a capital política e religiosa do Egito ao tempo da nova religião de Aton, o Deus Único.

Trazia a múmia os amuletos habituais, e um deles, com a figura de Osíris, tinha uma inscrição que dizia o seguinte:

"Acorda do sono que dormes e uma rápida mirada dos teus olhos triunfará sobre qualquer coisa que se faça contra ti."

Ao que tudo indica, pois, a múmia da jovem médium dispunha de certa proteção espiritual. Que seria? Um campo magnético? Alguma imantação especial? Ou teria sido mera coincidência - e muito trágica - o afundamento do navio "inaufragável"?

*

A especulação, como vemos, é livre e amplas são as perspectivas em que se desdobra a imaginação neste campo, pois ignoramos muitíssimo mais do que conhecemos a cerca da verdadeira sabedoria secreta dos poderosos sábios egípcios. A doutrina que pregavam ao povo era apenas o aspecto externo de um conhecimento muito profundo e extenso acerca dos segredos e mistérios da vida. Já naqueles tempos remotos eram conhecidas as linhas mestras dos mecanismos do espírito, como a sobrevivência, a reencarnação, a comunicabilidade entre encarnados e desencarnados, a regressão de memória, o passe, o magnetismo, o desdobramento espiritual. Não é difícil admitir, a partir dessas noções, que as pessoas que dispunham de tais conhecimentos pudessem tecer em torno das múmias de seus faraós e sacerdotes perigosas redes magnéticas e espirituais destinadas a proteger os despojos de seus mestres e amigos.

Fora do contexto do Espiritismo, pouca gente entende - e aqui incluo, com todo respeito, o eruditissímo Philipp Vandenberg - a concepção egípcia do ser humano. O homem, diziam eles, é um ser tríplice: em primeiro lugar, o corpo físico, em seguida, o "ba", equivalente à alma, em terceiro, o "ka", correspondente ao perispírito na terminologia kardequiana. Inúmeras figuras humanas são representadas em duplicata nos desenhos e gravações em pedra, pelos artistas do Antigo Egito. A segunda figura é o "ka", Este é que era responsável pela vida póstuma. O corpo era embalsamado para servir ao "ka", Crê-se mesmo que as figuras em tamanho natural eram colocadas nos túmulos para que os mortos ilustres dispusessem sempre, diante dos olhos do "ka", da aparência que tiveram em "vida". Seria para lembrar ao Espírito a forma que o seu perispírito deveria tomar quando tivesse de manifestar-se como faraó?

Quanto ao "ba", era o "elemento divino contido no corpo", ou melhor dito, a essência espiritual.

É uma pena que não tenhamos à nossa disposição os verdadeiros textos egípcios, tão inacessíveis pela linguagem, país os que nos chegam às mãos, como os que Vandenberg, por exemplo, reproduz de outras fontes ("Das Gespräch eines Mannes mit seinem Ba", de Winfried Barta e que até o escriba destas linhas, sem conhecer alemão, sabe que quer dizer: "Conversações de um homem com o seu Ba".), trazem já as deformações de tradução e os preconceitos de cada um, a ponto de se tornarem ininteligíveis ou contraditórios.

Acham, por exemplo, os egiptólogos, que os alimentos e as bebidas deixados no túmulo destinavam-se ao consumo do "ka" (perispírito). Até onde isso é admissível? Não parece que homens que sabiam tantos segredos da vida ignorassem que o Espírito desencarnado dispensa os alimentos terrenos, a não ser que permitissem oferendas apenas como concessão à ignorância popular, respeitando antiquíssima tradição histórico-religiosa.

*

Mas voltemos, para concluir, à maldição dos faraós. Qual a causa de tamanha mortandade, especialmente em relação a Tutankamon? Não desejo arriscar mais uma teoria, se o próprio Vandenberg, que tanto estudou o assunto, não arriscou a sua. Howard Carter, por exemplo, que viveu praticamente dentro de túmulos egípcios, morreu de morte natural aos 66 anos de idade. No entanto, foi ele quem farejou - desculpem a palavra - durante anos as areias quentes do deserto à procura de túmulos perdidos de antiquíssimos faraós. Foi ele quem primeiro meteu a cabeça pela brecha aberta no túmulo de Tutankamon, em novembro de 1922.

- Está vendo alguma coisa? - perguntou, num sussurro emocionado, Lord Carnarvon.

- Sim - respondeu Carter. Coisas maravilhosas.

Por que será que Carter foi poupado? Sua sobrevivência à maldição reforça as nossas dúvidas quanto aos bacilos e fungos imortais que estariam desativados nos túmulos dos reis egípcios. Quanto às supostas radiações, nunca se descobriu nada nesse sentido. Ao que hoje se suspeita, as pirâmides, no entanto, funcionariam como concentradores de energia cósmica, pois experiências recentes do engenheiro Karl Drbal, de Praga, demonstraram que as pirâmides, construídas dentro de certas proporções, produzem a mumificação natural de tecidos vivos, como os do peixe ou de um ovo, que ficou reduzido de 52 a 12 gramas, em 43 dias. Não houve apodrecimento de tais peças. Em prosseguimento às suas experiências, o Dr. Drbal conseguiu recuperar o fio das suas lâminas de barbear, colocando-as, na posição leste-oeste, dentro das suas pequenas pirâmides de cartolina. Ao que se informa, as moléculas que compõem o fio se reorientam, restabelecendo o corte. Não me perguntem como, nem por quê.

Ao que parece, não apenas energias físicas, mas também psíquicas ou mentais eram movimentadas, condensadas, redistribuídas e utilizadas pelos antigos egípcios, através de recursos que ainda não redescobrimos. Talvez somente cheguemos a recuperar esses conhecimentos quando os Poderes Espirituais que nos governam estiverem seguros de que não voltaremos a usá-los para promover as nossas paixões, em vez de empregá-los como instrumento de serviço junto àquele que sofre e ignora; quando o homem que morre não precisar deixar ao lado - do seu cadáver tesouros incalculáveis, mas, se os deixar, não houver ninguém, impulsionado pela cobiça, disposto a rouba-los: quando alguém, querendo penetrar-lhe o recinto mortuário, puder encontrar, em o fazendo, num tablete de barro uma mensagem de amor fraterno, a ser retribuída com uma prece em favor do "ba" daquele companheiro de lutas evolutivas. Como tudo isso parece estar longe, podemos concluir, creio eu, que ainda ignoraremos por longo tempo os segredos dos iniciados egípcios. E se chegarmos a conhecê-los antes da maturidade espiritual, com a qual alguns sonham há milênios, então, novamente, vai parar o relógio da Civilização, para que os ponteiros voltem à hora zero.

*

A Doutrina Espírita recuperou para nós a essência daqueles conhecimentos perdidos que tornaram possível a realidade que ainda hoje nos intriga e humilha a nossa orgulhosa Ciência, como assegura Vandenberg. Os iniciados egípcios que manipulavam tais conhecimentos não deixaram de existir. Nem os que os utilizaram com sabedoria e amor, para servir, nem os que os empregaram desavisadamente, para dominar.

Observe-se, no entanto, que nos foram devolvidos apenas os conhecimentos básicos, mesmo assim, acoplados com firmeza e precisão à moral cristã, como roteiro e advertência a todos os que desejam penetrar no Templo Sagrado da Sabedoria. Divorciados dessa moral, estaremos à mercê das paixões e à véspera das angústias e desesperos que os nossos desatinos suscitam em nós, movidos pela rígida Lei da Ação e Reação.

Depende, pois, exclusivamente de cada um de nós utilizar o conhecimento restituído, para promover o amadurecimento espiritual e a paz que buscamos ou para, uma vez mais, nos despenharmos nos abismos do desespero, quando mais intensa é a ilusão de que estamos alcançando os picos luminosos da perfeição espiritual. A nossa escolha é livre, especialmente quando decidimos optar pela porta estreita de que nos falou o Cristo. Veja-se bem: Ele não falou em glória, em projeção, em poder. O mundo abre alas diante do poderoso que passa, mas o sábio prefere a estreiteza da porta da renúncia e da humildade, pois já sabe que é por ali que se vai ao Reino de Deus de que nos falou o Mestre. (*)

Hermínio C. Miranda
Revista Reformador Nov. 1978

Posteriormente incluído no livro:
Estudos e crônicas
(*) – Nota de ‘Reformador’ – Consulte-se, à propósito dos temas aqui versados, a obra de Emmanuel, por F. C. Xavier, “A Caminho da Luz’, 9ª Edição, FEB, 1978. Vejam-se, especialmente, dentre os itens do IV capítulo, “Os egípcios e as ciências psíquicas” e “As Pirâmides”.
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quarta-feira, 9 de maio de 2018

O livro branco da vida

O livro branco da vida

Hermínio C. Miranda


Hermínio C. Miranda

Muita gente aceita sem grande relutância a ideia da Reencarnação.

Ela é racional e lógica, e, como se diz hoje, ela se insere no contexto das doutrinas evolucionistas que dominam as principais tendências do pensamento.

De fato, a reencarnação dos Espíritos ao longo dos séculos e dos milênios, explica fenômenos que de outra forma estariam truncados e incompreensíveis, como a eclosão de fabulosas inteligências em certos seres e a terrível carga de idiotismo em outros, as simpatias e afinidades entre uns, que mal se conhecem, e antipatias gratuitas e inexplicáveis entre outros que deveriam estimar-se em razão de estreitos laços de parentesco ou de prolongada convivência.

Há também sofrimentos e dores a atingirem criaturas boníssimas, há prêmios à maldade, há mágoas para quem, a nosso ver, não as merece, e alegrias para aqueles que não as conquistaram. A reencarnação explica essas aparentes incongruências e perplexidades.

Somos seres em trânsito para o futuro e trazemos nos registros do espírito a memória oculta de antigas falhas, o resíduo ainda invencível de persistentes deficiências que nos condicionam o presente e nos ameaçam o futuro.

Muitos ainda não estão preparados para enfrentar corajosamente as suas responsabilidades e fogem pelas evasivas que os exoneram da obrigação de pensar e construir no presente as bases da paz futura. Uma dessas fugas inconsequentes pode ser resumida na seguinte frase que nós Espíritas sempre ouvimos:

- Tudo isso é muito bonito e a reencarnação tem a sua lógica, mas como é que eu não me recordo das minhas possíveis existências anteriores?

Entendem esses que seria muito mais racional que conservássemos ao renascer a memória das vidas passadas. Seria assim fácil programar a existência atual de modo a evitar a recaída em antigas faltas, a identificar com segurança velhos amigos tão caros ao nosso espírito e também adversários renitentes que nos perseguem através dos séculos com os seus ódios e sua vingança.

Seria bom, por exemplo, sabermos que fomos no passado grandes médicos ou artistas eminentes e repetir com facilidade a experiência na qual fomos vitoriosos e brilhar novamente entre os homens, enobrecer a Humanidade de conquistas científicas ou artísticas.

O raciocínio que nos leva a esses caminhos é simplista, quase simplório. O que enriquece a estrutura do espírito não é a repetição monótona de experiências nas quais já nos destacamos, mas a variedade e a universalidade do conhecimento que se vai acumulando lentamente em nossos arquivos mentais.

Dessa forma, em cada nova existência as coisas se passam como se recebêssemos um livro em branco, no qual podemos escrever livremente a nossa história, vivendo-a no dia a dia das suas lutas e o do seu aprendizado. Escrever livremente, talvez seja força de expressão.

Embora esquecidos do passado e livres para imprimir à nossa vida o rumo que desejarmos, trazemos no fundo da memória espiritual - esquecidos, mas não ausentes - todos os condicionamentos que ali se depositaram em consequência das passadas experiências.

O prêmio da vitória está em suplantar condicionamentos negativos, substituindo as paixões que nos infelicitaram, pelos impulsos de solidariedade, na conquista de novas posições espirituais.

Para o livre exercício do arbítrio é bom que o nosso livro esteja em branco. Só assim, teremos o mérito das conquistas alcançadas, como também o ônus das concessões ao egoísmo e às paixões subalternas. Somos, assim, herdeiros de nós mesmos e construtores da nossa paz ou da nossa infelicidade.

Amanhã, quando sofrermos aflição e angústias incompreensíveis, não culpemos o destino cego e cruel, nem um Deus vingativo que nos persegue - estejamos bem certos de que somente a nós mesmos devemos as nossas dores.

O esquecimento do passado é, pois, uma bênção a mais que as leis de Deus nos concedem e não uma dificuldade em nosso caminho evolutivo. É bem melhor partir para a aventura maravilhosa de uma nova existência, esquecidos de antigas angústias, para que as novas aflições não se somem às que nos atormentaram no passado.

É bom amar no filho difícil ou no companheiro incompreensível o antigo desafeto que estamos lentamente conquistando, em lugar de reconhecê-los na condição de inimigos da nossa paz, a quem é preciso neutralizar a todo custo.

Nesses reajustes que se processam mais cedo ou mais tarde, agora ou daqui a séculos, é bom que aprendamos a identificar, na dor que nos assalta, a moeda com que resgatamos antigas faltas.

É bom sabermos que nas futuras encarnações também não nos lembraremos das atuais aflições, nem teremos saudades das alegrias do presente. Receberemos outra vez o nosso livro em branco. Talvez então já estejamos prontos para escrever nele um longo poema de amor.

Hermínio de Miranda
Revista Reformador (FEB) – Jul. 1971 
Posteriormente publicado no livro: Estudos e crônicas

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Nas fotos a publicação original da Revista Reformador de Jul. 1971 e do livro Estudos e crônicas de Hermínio C. Miranda



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O Médium do Anticristo 2

O Médium do Anticristo 2

Hermínio C. Miranda


Hermínio C. Miranda e a Lança de Longinus, que consiste de dois segmentos seguros por uma bainha de prata, inserido na lança vê-se um cravo dito da cruz do Cristo.
Da obra: "The spear of destiny". 


Alfred Rosemberg, o futuro teórico do nazismo, era então o profeta do Anticristo e se incumbia de questionar os Espíritos manifestantes. Ravenscroft afirma que teria sido Rosenberg quem pediu a presença da própria Besta do apocalipse, que na sua opinião (de Ravenscroft), sem dúvida dominava o corpo e a alma de Adolf Hitler, através das óbvias faculdades mediúnicas deste.

Essa manifestação do Anticristo em Hitler foi assegurada por mais de uma pessoa, além do lúcido e tranquilo Dr. Walter Johannes Stein. Um desses foi outro estranho caráter, por nome Houston Stewart Chamberlain, um inglês que se apaixonou pela Alemanha e pela causa nazista. Ravenscroft classifica-o como genro de Wagner e profeta do mundo pangermânico. Também escrevia suas teses anti-racistas em transe, segundo atestou nada menos que o eminente General Von Moltke, de quem ainda diremos algo importante daqui a pouco. Chamberlain era considerado um digno sucessor do gênio de Friederich Nietzsche e, segundo o próprio Hitler, em "Mein Kampf"(Minha luta), "um dos mais admiráveis talentos na história do pensamento alemão, uma verdadeira mina de informações e de ideias". Foi quem expandiu as ideias de Wagner, desvirtuando-as perigosamente, ao pregar a superioridade da raça ariana. Segundo testemunho de Von Moltke, Chamberlain evocou inúmeros vultos desencarnados da história mundial e confabulou com eles. Que era uma inteligência invulgar, não resta dúvida. Os poderes das trevas escolheram bem seus emissários. Enganam-se, também, redondamente, aqueles que consideram Hitler um doido inconsequente que tentou, na sua loucura, botar fogo no mundo. 

A julgar por todas essas revelações que ora nos chegam ao conhecimento, ele sabia muito bem o seu papel em todo esse drama. Recebeu uma fatia de poder a troco de certa missão muito específica. No domínio do mundo, se o tivesse conseguido, ele continuaria a desfrutar de posição "invejável", como prêmio a um trabalho "bem feito". Ainda bem que falhou, pois a amostra foi terrível.

Como se explicaria, sem esse apoio maciço de espíritos encarnados e desencarnados, que um jovem pintor sem êxito, pobre, abandonado à sua sorte, rejeitado pela sociedade, tenha conseguido montar o mais tenebrosos instrumento de opressão que o mundo já conheceu? Como se explicaria que seu partido tenha emergido de um pequeno grupo político, falido e obscuro, senão que os Espíritos seus amigos o indicaram como sendo o primeiro degrau de escada que o levaria ao poder?

Hitler ainda se aprofundaria muito mais nos mistérios da sua missão tenebrosa. Precisava receber instruções mais específicas, e , como sabemos, tudo se arranja para que assim seja. A hora chegaria, no momento exato, com a pessoa já programada para ajudá-la. Um desses homens chamou-se Dietrich Eckhart.

Sua história á algo fantástico, mas vale a pena passar ligeiramente sobre ela, a fim de entendermos seu papel junto a Hitler, que, antes de encontrar-se com Eckhart, fizera apenas preparativos para o vestibular da magia e do ocultismo.

Dietrich Eckhart era um oficial do exército, de aparência afável e jovial e, ao mesmo tempo, no dizer de Ravenscroft, "dedicado satanista, o supremo adepto das artes e dos rituais da magia negra e a figura central de um poderoso e amplo círculo de ocultistas – O Grupo Thule".

Foi um dos setes fundadores do partido nazista, e, ao morrer, intoxicado por gás de mostarda, em Munich, em dezembro de 1923, disse, exultante:
"- Sigam Hitler! Ele dançará, mas a música é minha. Iniciei-o na "Doutrina Secreta", abri seus centros de visão e dei-lhe os recursos para se comunicar com os Poderes. Não chorem por mim: terei influenciado a História mais do que qualquer outro alemão."
Suas palavras não são mero delírio de paranoico. Há muito, nas suas desvairadas práticas mediúnicas, havia recebido "uma espécie de anunciação satânica de que estava destinado a preparar o instrumento do Anticristo, o homem inspirado por Lúcifer para conquistar o mundo e liderar a raça ariana à glória".

Quando Adolf Hitler lhe foi apresentado, ele reconheceu imediatamente o seu homem, e disse para seus perplexos ouvintes:
"- Aqui está aquele de quem eu fui apenas o profeta e o precursor."
Coisas espantosas se passaram no círculo mais íntimo e secreto do Grupo Thule, numa série de sessões mediúnicas (Ravenscroft chama-as, indevidamente, de sessões espíritas...), das quais participavam dois sinistros generais russos e outras figuras tenebrosas.

A médium, descoberta por certo Dr. Nemirocitch-Dantchenko, era uma pobre ignorante camponesa, dotada de variadas faculdades. Expelia pelo órgão genital enormes quantidades de ectoplasma, do qual se formavam cabeças de entidades materializadas que, juntamente com outras, incorporadas na médium, transmitiam instruções ao círculo de "eleitos".

Certa manhã de setembro de 1912, Walter Stein e seu jovem amigo Adolf Hitler subiram juntos as escadarias do museu Hofburg. Em poucos minutos encontravam-se diante da Lança de Longinus, posta, como sempre, no seu estojo de desbotado veludo vermelho. Estavam ambos profundamente emocionados, por motivos diversos, é claro, mas, seja como for, o disparador daquelas emoções era a misteriosa lança. Dentro em pouco, Hitler parecia ter passado a um estado de transe, "um homem – segundo Ravenscroft – "sobre o qual algum espantoso encantamento mágico havia sido atirado". Tinha as faces vermelhas e seus olhos brilhavam estranhamente. Seu corpo oscilava, enquanto ele parecia tomado de inexplicável euforia.

Escreve Ravenscroft, que ouviu a narrativa do próprio Stein:
"- Toda a sua fisionomia e postura pareciam transformadas, como se algum poderoso Espírito habitasse agora a sua alma, criando dentro dele e à sua volta uma espécie de transfiguração maligna de sua própria natureza e poder."
Walter Stein pensou com seus botões: Estaria ele presenciando uma incorporação do Anticristo?

É difícil responder, mas é certo que terrífica presença espiritual ali estava mais do que evidente. Inúmeras outras vezes, em todo o decorrer de sua agitada existência, testemunhas insuspeitas e desprevenidas haveriam de notar fenômenos semelhantes de incorporação, especialmente quando Hitler pronunciava discursos importantes ou tomava decisões mais relevantes.

Ao narrar o fenômeno a Ravenscroft, 35 anos depois, o Dr. Stein diria que:
"- ...Naquele instante em que pela primeira vez nos postamos juntos, de pé, ante a Lança de Longinus, pareceu-me que Hitler estava em transe tão profundo que passava por uma privação quase completa de seus sentidos e um total eclipse de sua consciência."
Hitler sabia muito bem da sua condição de instrumento de poderes invisíveis. Numa entrevista à imprensa, documentou claramente esse pensamento, ao dizer: "Movimento-me como um sonâmbulo, tal como me ordena a Providência."

Havia nele súbitas e tempestuosas mudanças de atitude. De uma placidez fria e meditativa, explodia, de repente, em cólera, pronunciando, alucinadamente, uma torrente de palavras, com emoção e impacto, especialmente quando a conversa enveredava pelos temas políticos e raciais. Stein presenciou cenas assim no velho café em que costumava encontrar-se com seu amigo, em Viena, ali por volta de 1912/1913. Passada a explosão, Hitler recolhia-se novamente ao seu canto, como se nada tivesse ocorrido.

Naqueles estados de exaltação, transformava-se o seu modo de falar e sua palavra alcançava as culminâncias da eloquência e da convicção. Era como se um poder magnético a elas se acrescentasse, de tal forma que ele facilmente dominava seus ouvintes. Seus próprios companheiros notariam isso mais tarde, em várias oportunidades.

Escreveu Gregor Strasser, um ex-nazista:
" - Ao se ouvir Hitler, tem-se a visão de alguém capaz de liderar a humanidade à glória. Uma luz aparece numa janela escura. Um homem com um bigode cômico transforma-se em arcanjo. De repente, o arcanjo se desprende e lá está Hitler sentado, banhado em suor, com os olhos vidrados."
Tudo fora muito cuidadosamente planejado e executado, inclusive com os sinais identificadores, para que ninguém tivesse dúvidas. Nas trágicas sessões mediúnicas do Grupo Thule, fora anunciado que o Anticristo se manifestaria depois que seu instrumento passasse por uma ligeira crise de cegueira. Isto se daria ali por volta de 1921, e seu médium teria, então, 33 anos.

Aos 33 anos de idade, em 1921, depois de recuperado de uma cegueira temporária, Hitler assumiu a incontestável liderança do Partido Nacional Socialista, que o levaria ao poder supremo na Alemanha, e, quase, no mundo.

De tanto investigar os mistérios e segredos da história universal, em conexão com os poderes invisíveis, Hitler se convenceu de realidades que escapam à maioria dos seres humanos. A história é realmente o reflexo de uma disputa entre a sombra e a luz, representadas, respectivamente, pelos Espíritos que desejam o poder a qualquer preço e por aqueles que querem implantar na Terra o reino de Deus, que anunciou o Cristo.

Hitler sabia, por exemplo, que os Espíritos trabalham em grupos, segundo o seus interesses e por isso se reencarnam também em grupos, enquanto seus companheiros permanecem no mundo espiritual – na sombra ou na luz, conforme seus propósitos – apoiando-se mutuamente. Não é à toa que Göering e Goebbels, como vimos, reconheciam-se como velhos companheiros de Hitler. Este, por sua vez, estava convencido de que um grupo enorme de Espíritos, que se encarnara no século IX, voltara a encarna-se no século XX. O notável episódio ocorrido com o eminente General Von Moltke parece confirmar essa ideia.

Vamos recordá-lo, segundo o relato de Ravenscroft.

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Foi ainda na Primeira Guerra Mundial. No imenso e trágico tabuleiro de xadrez em que se transformara a Europa, havia um plano militar secreto, sob o nome de Plano Schlieffen, que previa a invasão da França através da Bélgica, antes que a Russia estivesse em condições de entrar em ação.

Helmuth Von Moltke era Chefe do Estado-Maior do Exército Alemão, sob o Kaiser. Coube-lhe a responsabilidade de introduzir alguns aperfeiçoamentos no plano e aguardar o momento de pô-lo em ação, se e quando necessário. O momento chegou em junho de 1914. Jogava-se a sorte da Europa. Von Moltke passou a noite em claro, na sede do Alto Comando, tomando as providências de última hora para que o plano entrasse em ação imediatamente. Estudava mapas, expedia ordens, conferenciava com seus oficiais. O destino de sua pátria estava em suas mãos e ele sabia disso. No auge da atividade, o eminente General perdeu os sentidos sobre a mesa de trabalho. Parecia ter tido um enfarte. Chamaram um médico, enquanto seus camaradas, muito apreensivos depositavam o seu corpo no sofá.

Nenhuma doença foi diagnosticada. Na verdade, Von Moltke estava em transe. Sua metódica e brilhante inteligência não previra a interferência da mão do destino, como diz Ravenscroft. Ou seria a mão de Deus?

Julgou-se, a princípio, que o poderoso General estivesse morrendo. Mal se percebia sua respiração e o coração apenas batia o necessário para manter a vida; olhos abertos vagavam, apagados, de um lado para outro. O eminente General Helmuth Von Moltke estava experimentando uma crise espontânea de regressão de memória, durante a qual em vívidas imagens que se desdobravam diante de seus olhos espirituais, ele se viu como um dos Papas do século IX, Nicolau I, o Grande, que a Igreja canonizou. Há estranhas "coincidências" aqui. Segundo os historiadores, Nicolau ascendeu ao trono papal mais por influência do Imperador Luís II do que pela vontade do clero. Lembra-se o leitor de que Luiz II foi o mesmo que protegeu o incrível Landulf, príncipe de Cápua? E que Landuf, um milênio depois, seria Adolf Hitler?

Nicolau foi um papa enérgico e brilhante. Governou somente nove anos incompletos, de 858 a 867, mas teve de tomar decisões momentosas e que exerceram profunda influência na História. Foi no seu tempo que se definiu mais nitidamente a tendência separatista entre as igrejas do ocidente e a do oriente. Foi ele quem elevou a novas culminâncias a doutrina da plenitude do poder papal. Segundo seu pensamento, o imperador era apenas um delegado, incumbido do poder civil.

Enquanto essas vivências desfilavam diante de seus olhos, Von Moltke, ainda estendido no sofá, vivia a curiosa experiência de estar situado entre duas vidas; separadas por mil anos. Em torno dele, entre as ansiosas figuras de seus generais, ele identificava alguns de seus antigos cardeais e bispos. Uma das personalidades que ele também identificou naquele desdobramento foi a de seu tio, o ilustre Marechal de Campo, também chamado Helmuth Von Moltke, o maior estrategista de sua época e que lutou na guerra de 1870. Fora também uma das poderosas figuras medievais, o Papa Leão IV, o chamado pontífice-soldado, que organizou a defesa de Roma e comandou seus próprios exércitos.

Outra figura identificada foi o General Von Schlieffen, autor do famoso plano Schlieffen, que também experimentara as culminâncias do poder papal, sob o nome de Bento II.

Ao despertar de sua singular experiência com o tempo, o General Von Moltke estava abalado até às raízes de seu ser. Caberia a ele, um ex-Papa, deslanchar todo aquele plano de destruição e matança? Se não o fizesse, o que aconteceria à sua então pátria?

Diz Ravenscroft que, após se reformas, Von Moltke escreveu minucioso relato daquela experiência notável. Também ele se deixou envolver pelo misterioso fascínio da Lança de Longinus, que certa vez visitou em companhia de outro General, seu amigo; e, segundo o escritor inglês, conseguiu apreender o verdadeiro sentido e importância daquela peça, "como um poderoso símbolo apocalíptico".

Acreditava ele que se deveram à sua própria atitude negativa, como Nicolau I, em relação ao intercâmbio com o mundo espiritual, os trágicos desenganos que se sucederam na História subsequente, a começar pela separação da cristandade em duas e o progressivo abandono da realidade espiritual em favor das doutrinas materialistas, que "virtualmente aprisionaram a criatura no mundo fenomênico da medida, do número, do peso, tornando a própria existência da alma humana objeto de dúvida e debate" (Ravenscroft).

Por isso tudo, ao se erguer do sofá, Von Moltke era outra criatura. Como explicar tudo aquilo aos seus companheiros? Que decisões tomar agora, na perspectiva do tempo e dos lamentáveis enganos que havia cometido no passado, em prejuízo do curso da História? Parece, no entanto, que não dispunha de alternativa. Como Longinus, tinha de praticar um ato de aparente violência, para contornar uma crueldade maior. Tudo continuou como fora planejado, mas o Chefe do Estado-Maior não continuou como fora. Aliás, ao ser elevado àquela posição pela sua inesgotável e indiscutível capacidade profissional, houve dúvidas, em virtude do seu temperamento meditativo e tranquilo. Seria realmente um bom General no momento de crise que exigisse decisões drásticas? Era o que se perguntavam seus adversários, mesmo reconhecendo sua enorme autoridade técnica. Ao se retirar do comando, diz Ravenscroft que ele era um homem arrasado, porque mais do que nunca estava consciente da tragédia de viver num mundo em que a violência e a matança pareciam ser os únicos instrumentos capazes de "despertar a humanidade para as realidades espirituais".

Após a sua desencarnação, em 1916, com 68 anos de idade, Von Moltke passou a transmitir uma série de comunicações através da mediunidade de sua esposa Eliza Von Moltke. Ah! que documento notável deve ser esse! Foi numa dessas mensagens que o Espírito do antigo Chefe do Estado-Maior informou que o Führer do Terceiro Reich seria Adolf Hitler, àquela época um obscuro e agitado político, aparentemente sem futuro. Foi também ele que, em Espírito, confirmou a antiga encarnação de Hitler como Landulf de Cápua, o terrível mágico medieval que vinha agora repetir, nos círculos mais fechados do Partido, os rituais de magia negra, cujo conhecimento trazia nos escaninhos da memória integral.

Faltavam ainda algumas peças importantes para consolidar as conquistas do jovem Hitler, mas todas elas apareceriam no seu devido tempo e executariam as tarefas para as quais haviam sido rigorosamente programadas nos tenebrosos domínios do mundo espiritual inferior. O General Eric Ludendorff seria uma delas. Von Moltke identificou-o com outro papa medieval, que governou sob o nome de João VIII, que Ravenscroft classifica como "o pontífice de mais negra memória que se conhece em toda a história da Igreja Romana, que, como amigo de Landulf de Cápua, ajudou-o nas suas conspirações no século IX". Novamente, sob as vestes de Eric Ludendorff, o antigo Papa daria a mão para alçar Landulf (agora Adolf) ao poder.

Outro elemento importante, nessa longa e profunda reiniciação de Hitler, foi Karl Haushofer, que, no dizer de Ravenscroft:
 "-...não apenas sentiu o hálito da Besta Apocalíptica no controle do ex-cabo demente, mas também buscou, conscientemente e com maligna intenção, ensinar a Hitler como desatrelar seus poderes contra a humanidade, na tentativa de conquistar o mundo". 
(A propósito dessa figura da "linguagem simbólica do invisível", recomendamos a leitura do capítulo XIV de A caminho da luz de Emmanuel, por Francisco Cândido Xavier, especialmente nos subtitulos: "O apocalipse de João" e "Identificação da Besta Apocalíptica". - N.R. em Reformador)

É um tipo estranho e mefistofélico esse Haushofer, mas, se fôssemos aqui estudar todo o elenco de extravagantes personalidades que cercaram Hitler, seria preciso escrever outro livro.

Diz, porém, Ravenscroft que foi Haushofer quem despertou em Hitler a consciência para o fato de que operavam nele as motivações da "Principalidade Luciferina", a fim de que "ele pudesse torna-se veículo consciente da intenção maligna no século vinte". (destaque do autor)

Vejamos mais um episódio.

Em 1920, era tão patente, através da Alemanha, essa expectativa messiânica, que foi lançado na Universidade de Munich um concurso de ensaios sobre o tema seguinte: "Como deve ser o homem que liderará a Alemanha de volta às culminâncias de sua glória?" O vultoso prêmio em dinheiro foi oferecido por um milionário alemão residente no Brasil (não identificado por Ravenscroft) e quem o ganhou foi um jovem chamado Rudolf Hess que, em tempos futuros, seria o segundo homem da hierarquia nazista! Sua concepção desse messias político guarda notáveis similitudes com a figura do Anticristo descrita nos famosos (e falsos) "Protocolos do Sião", segundo Ravenscroft.

Consta que Hitler considerava Rudolf Steiner, o místico, vidente e pensador austríaco como seu arqui-inimigo. Segundo informa Ravenscroft, Steiner, em desdobramento espiritual, penetrava, conscientemente, os mais secretos e desvairados encontros, onde se praticavam rituais atrozes para conjurar os poderes que sustentavam a negra falange empenhada no domínio do mundo.

Que andaram muito perto dessa meta, não resta dúvida. Conheciam muito bem a técnica do assalto ao poder sobre o homem, através do próprio homem. Hugh Trevor-Roper, no seu livro "The Last Days of Adolf Hitler", transcreve uma frase do Führer, que diz o seguinte: "Não vim ao mundo para tornar melhor o homem, mas para utilizar-me de suas fraquezas".

Estava determinado a cumprir sua missão a qualquer preço.
- "Jamais capitularemos" – disse, certa vez, repetindo o mesmo pensamento de sempre. – "Não. Nunca. Poderemos ser destruídos, mas, se o formos, arrastaremos o mundo conosco – um mundo em chamas".
Muito bem. É tempo de concluir. Por exemplo, o que aconteceu com a Lança de Longinus? Continua no Museu de Hofburg, em Viena, para onde foi reconduzida após novas aventuras. Primeiro, Hitler tomou posse dela, ao invadir a Áustria, em 1938 e lançou-a para a Alemanha, cercada de tremendas medidas de segurança. Lá ficou ela em exposição, guardada dia e noite, pelos mais fiéis nazistas. Quando a situação da guerra começou a degenerar para o lado alemão, construiu-se secretíssima e inviolável fortaleza subterrânea para guardá-la. Apenas meia dúzia de elevadas autoridades do governo sabiam do plano. Uma porta falsa de garagem disfarçava a entrada desse vasto e sofisticado cofre-forte, em Nüremberg, que o Führer ordenou fosse defendido até à última gota de sangue.

Quando se tornou evidente que o Terceiro Reich se desmoronava de fato, ante o avanço implacável das tropas aliadas, Himmler achou que a Lança de Longinus precisava de um abrigo alternativo. Uma série de providências foi propaganda, com uma remoção fictícia, para um ponto não identificado da Alemanha; e outra, verdadeira, sob o véu do mais fechado segredo, para um novo esconderijo, onde o talismã do poder ficaria a salvo dos inimigos do nazismo.

Por uma dessas misteriosas razões, no entanto, um dos cinco ou seis oficiais nazistas que sabiam do segredo, ao fazer a lista das peças que deveriam ser removidas, mencionou a Lança de Mauritius, aliás, o nome oficial da peça. Acontece que, entre as peças históricas do Reich, havia uma relíquia de nome parecido, ou seja, "A Espada de Mauritius", e esta foi a peça transportada, e não a Lança de Longinus. Na Confusão que se seguiu, ninguém mais deu pelo engano, e o oficial que o cometeu, um certo Willi Liebel, suicidou-se pouco antes do colapso total do Reich. A essa altura, Nüremberg não era mais que um monte de ruínas e, por outro estranho jogo de "coincidências", um soldado americano. Perambulando pelas ruínas, descobriu um túnel que ia dar em duas portas enormes de aço com um mecanismo de segredo tão imponente como o das casas-fortes dos grandes bancos mundiais. Alguma coisa importante deveria encontrar-se atrás daquelas portas. E assim, às 14h10m do dia 30 de abril de 1947, a legítima Lança de Longinus passou às mãos do exército americano.

Naquele mesmo dia, como se em cumprimento de misterioso desígnio, Hitler suicidou-se nos subterrâneos da Chancelaria, em Berlim.

Como ficou dito atrás, a Lança de Longinus encontra-se novamente no Museu Hofburg, em Viena. Estará à espera de alguém que venha novamente disputar a sua posse para dominar o mundo?

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Vejamos, para encerrar, algumas considerações de ordem doutrinária.

Haverá mesmo algum poder mágico ligado aos chamados talismãs?

Questionados por Allan Kardec ( O livro dos espíritos, perguntas 551 a 557), os Espíritos trataram sumariamente da questão, ensinando, porém, que "Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes só são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais".

Continuando, porém, a linha do seu pensamento, Kardec insistiu, com a pergunta 554, formulada da seguinte maneira:
"- Não pode aquele que, com ou sem razão, confia no que chama a virtude de um talismã, atrair um Espírito, por efeito mesmo dessa confiança, visto que, então, o que atua é o pensamento, não passando o talismã de um sinal que apenas lhe auxilia a concentração?
É verdade - respondem os Espíritos; – mas da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos depende a natureza do espírito que é atraído(...)."
Os destaques são meus e a resposta à pergunta 554 prossegue, abordando outros aspectos que não vêm ao caso tratar aqui. Nota-se, porém, que os espíritos confirmaram que os chamados talismãs servem de condensadores de energia e vontade, e podem, portanto, servir de suporte ao pensamento daquele que deseja atrair companheiros desencarnados para ajudá-lo na realização de seus interesses pessoais. Disseram mais: que os Espíritos atraídos estarão em sintonia moral com aqueles que os buscam, ou seja, se as intenções e os sentimentos forem bons, poderão acudir Espíritos bondosos; se, ao contrário, as intenções forem malignas, virão os Espíritos inferiores.

Por toda parte, no livro de Trevor Ravenscroft, há referências repetidas de que duas ordens de Espíritos estão ligadas à mística da Lança de Longinus: os da luz e os das trevas, segundo as intenções de quem os evoca.

Além disso, é preciso lembrar que os objetos materiais guardam, por milênio a fora, certas propriedades magnéticas, que preservam a sua história. Essas propriedades estão hoje cientificamente estudadas e classificadas como fenômenos de psicometria, tão bem observados, entre outros, por Ernesto Bozzano. Médiuns psicômetras, em contato com objetos, conseguem rever, às vezes com notável nitidez, cenas que se desenrolaram em torno da peça de ferro deve estar altamente magnetizada pelos acontecimentos de que foi testemunha, desde que foi forjada alhures nos tempos bíblicos, passando pelo momento do Calvário, diante do Manso Rabi agonizante, até que Hitler a perdeu em abril de 1945.

Seja como for, a peça reúne em torno de si uma longa e trágica história, tão fascinante que tem incendiado, através dos séculos, a imaginação de muitos homens poderosos e desatado muitas paixões nefandas. E, como explicaria os Espíritos a Kardec, não é a Lança por si mesma que move os acontecimentos, é o pensamento dos homens que se concentram nela e querem a todo preço fazer valer o poder que se lhe atribui. Nisso, ela é realmente um talismã.

Ainda uma palavra antes de encerrar.

É certo que Hitler foi médium dedicado e desassombrado de tremendos poderes das trevas. Esses irmãos desarvorados, que se demoram, por milênios sem conta, em caliginosas regiões do mundo espiritual, por certo não desistiram da aspiração de conquistar o mundo e expulsar a luz para sempre, se possível. Tudo farão para obter esse galardão com o qual sempre sonharam, muito embora a nós outros não nos assista o direito de duvidar de que lado ficará a vitória final.

Nesse ínterim, porém valer-se-ão de todos os meios, de todos os processos, para alcançarem seus fins. É claro, também, que não se empenham apenas no setor político-militar, por exemplo como Hitler, mas, também procuram conquistar organizações sociais e religiosas que representem núcleos de poder. É evidente a obra maligna e hábil que se realizou com a Igreja, infiltrando-a em várias oportunidades e em vários pontos geográficos, mas sempre nos altos escalões hierárquicos, de onde melhor podem influenciar os acontecimentos e a própria teologia.

O movimento espírita precisa estar atento a essas investidas, pois é muito apurada a técnica da infiltração. O lobo adere ao rebanho sob a pele do manso cordeiro; ele não pode dizer que vem destruir, nem pode apresentar-se como inimigo; tem de aparecer com um sorriso sedutor, de amizade e modéstia, uma atitude de desinteresse e dedicação, um desejo de servir fraternalmente, sem condições e, inicialmente, sem disputar posições. Muitas vezes, esses emissários das sombras nem sabem, conscientemente, que estão servindo de instrumentos aos amigos da retaguarda. A sugestão pós-hipnótica foi muito bem aplicada por Espíritos altamente treinados na técnica da manipulação da mente alheia. É a utilização da fraqueza humana de que falava Hitler.

A estratégia é brilhantíssima e extremamente sutil, como, por exemplo, a da "atualização" e da "revisão" das obras básicas da Codificação, a da criação de movimentos paralelos, o envolvimento de figuras mais destacadas no movimento em ardilosos processos de aparência inocente ou inócua. Estejamos atentos, porque os tempos são chegados e virão, fatalmente, vigorosas investidas, antes que chegue a hora final, numa tentativa última, desesperada, para a qual valerá tudo. Muita atenção. Quem suspeitaria de Adolf Hitler, quando ele compareceu, pela primeira vez, a uma reunião de meia dúzia de modestos dirigentes do Partido dos Trabalhadores?

Hermínio C. Miranda 
Revista Reformador de Abril de 1976. 
Posteriormente publicado no livro:
Estudos e crônicas da FEB.

Veja a primeira parte: O Médium de Anticristo


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